No More Secrets
4 Uma velha presença.
Notas iniciais
Dipper teve que sair ás presas de dentro do laboratório. Chegando a sala de estar e fechando a porta por trás de si. Ele havia revivido boa parte das memórias de seu segredo. Ou melhor, do segredo dos dois.
Havia uma certa parte daquilo que Dipper não conseguia absorver totalmente. Ele havia corrido, pois já estava à ponto de se desmanchar em lágrimas num choro estridente. Stanford nem sequer havia ligado da sua fuga repentina. Ele colocou as mãos sobre os lábios secos.
“Esqueça.” Implorou para o seu corpo e alma enquanto lutava contra as lágrimas “Esqueça Dipper... Por favor, esqueça!”
Um guincho lhe escapou. Havia sido alto o suficiente. Ford poderia ter muito bem escutado. Um salto cardíaco de adrenalina lhe consumiu. Ele disparou em direção a porta da frente, batendo-a contra a varanda da cabana, nem se importando em trancá-la em seguida. Fugindo para a floresta de pinheiros.
Os galhos lhe consumiam. Dipper queria que as árvores também fossem sobrenaturais como o resto da cidade e lhe engolissem para longe daquele sentimento. Ele nem se importaria que isso acontecesse. Ele queria desaparecer, desaparecer para longe dali. Desaparecer como todo o resto desapareceu há dez anos.
O gosto salgado lhe atingia a língua. As suas lágrimas saltavam sem que ele tivesse tempo para perceber aquilo acontecer. Ele não sabia para onde estava indo. Podia acabar ficando perdido, o que não era um problema. De repente, seus pés derraparam, fazendo a sola dos seus sapatos se transformarem num amoedo de lama e musgo.
Ele parou. Observou o caminho logo a sua frente.
Dipper ia na direção das colinas.
Ele nem havia notado que seu subconsciente havia lhe planejado aquele trajeto tão significativo.
Era como se todos os seus sentidos lhe apontassem que ele nunca teria escapatória.
Seus joelhos atingiram o solo. Ele ignorou a dor e a sujeira. Ele precisava botar tudo para fora. Soluços. Sua garganta fazia barulhos altos suficientes para acordarem trolls ou gnomos. Mas nenhum barulho era mais intenso do que o que acontecia dentro dele o tempo todo.
“Continue a história Dipper... Você consegue.”
Ele respirou fundo e sua mente voltou mais uma vez nos anos anteriores.
***
Um pouco depois de... “aquilo” ter acontecido entre ele e Stanford, Dipper sentiu-se completo. O sentimento de que havia completado o que tinha vido fazer em Gravity Falls em primeiro lugar.
Dipper quase podia acreditar nele mesmo novamente. Ele quase poderia esquecer aquele drama todo. Esquecer a sua antiga vida e o sentimento devastador que costuma lhe alfinetar o peito.
Ele quase podia esquecer de que não era mais feliz.
Ele quase podia esquecer que talvez não fosse correspondido.
Ele quase podia esquecer de que Ford era o seu tio.
No entanto, na manhã seguinte, Stanford mal havia falado algo com ele. Dipper ignorou. Afinal, era totalmente compreensível que o tio avô se sentisse recluso de conviver com o sobrinho após tudo aquilo ter acontecido. Ele também se sentia um pouco envergonhado diante aquilo tudo. Obviamente, era constrangedor e confuso para ambos. Ele não tinha outra escolha além de esperar pelo tempo ajeitar a relação.
E Dipper esperou.
Esperou...
E Ford não voltava.
Ele muitas vezes tentava iniciar o diálogo com o tio. Muitas vezes tentando falar sobre o que havia acontecido. Em todas às vezes Stanford fugia do assunto, desviando a conversa para Gravity Falls e seus mistérios. Ele obviamente estava evitando Dipper e ele sabia isso, pois ambos reconheciam que não havia mais nada para se relacionarem além do que já havia acontecido entre os dois.
O garoto começou a se questionar sobre o que havia ocorrido. Começou a se questionar sobre tudo que havia dito e passado. Se havia feito algo de errado... A sua mente insistia em recapitular toda a cena de seu último aniversário sem aviso prévio de Dipper. O que o irritava profundamente. Era estranho, pois como uma memória tão satisfatória quanto aquela era possível o incomodar nos lugares mais profundos?
O tempo passou. As coisas pioraram. Ford mal falava com ele. Nunca mais havia o abraçado. Até mesmo o olhar dele recusava-se a se cruzar com o do sobrinho. O aniversário de catorze anos dele foi o último em que Dipper realmente teve algum tipo de presente. Ele nunca mais foi recebido por um “feliz aniversário” ou um “bom dia” ou “boa noite” sequer. Dipper se desesperava cada vez mais na medida em que os dias passavam.
Ele precisava de Ford.
Tinha necessidade a cada dia mais de sentir o seu toque.
Dos seus sorrisos tortos.
Do jeito que apenas Ford o chamava.
Dos gestos de orgulho e afinidade que apenas ambos compartilhavam.
Sentir o cheiro do suéter vermelho dele... Dipper nem se lembrava de quando foi a última vez em que esteve perto dele o suficiente para senti-lo.
Até que chegou o inverno.
Gravity Falls foi coberta pela neve agressiva. Stanford nem Dipper poderiam sair mais da cabana. Seria ali. Isolados, algum deles teria que começar a falar um sobre o outro cedo ou tarde. Foi assim que Dipper teve a brilhante ideia para um plano em um dos seus ataques de desespero. Ele precisava a qualquer custo, fazer com que Ford e ele ficassem no mesmo quarto. Assim ele reiniciou o gerador da casa, criando uma queda de energia “acidentalmente”. Os dois precisavam da energia para sobreviver naquela condição climática. Ford iria subir no sótão para consertar o gerador. No quarto de Dipper.
O garoto obviamente correu para se trancar lá. Parecia perfeito. A porta se abriu. Dipper permanecia encolhido entre as cobertas, na borda da sua cama. Ford entrou. Os olhares se cruzaram. Ele havia encarado ele. Ford finalmente havia olhado para os olhos dele depois de tempos. Mesmo que por um segundo, antes que ele desviasse com a feição fechada, já havia sido o suficiente para o coração de Dipper se esparramar em centelhas esperançosas.
Ele tentava a todos os custos esconder a vergonha. Dipper sabia o que Ford iria fazer quando fosse ao gerador e isso já o fazia se corroer em nervosismo. Stanford passou por ele em direção ao duto de ar que ficava logo acima da janela. O jaleco se desprendeu dos seus ombros e caiu sobre o piso. Em seguida, Ford ergueu os braços retirando a parte de baixo da sua roupa. Lançando a blusa para trás, o tecido deslizou levemente pelas tábuas do piso, indo em direção de Dipper. Ele corou ao ver que o tão sedutor suéter vermelho estava bem ali, próximo aos seus pés. Dipper ficou imaginando como seria usá-lo e se o cheiro ainda era o mesmo.
Até que ergueu os olhos. Ele podia ver Stanford usando apenas as calças enquanto se espichava para olhar por dentro do duto repleto de poeira. Dipper observou toda a extensão das suas costas. Era incrível como, naquela idade, Stanford conseguira manter o corpo tão bem definido daquela forma. Pelo jeito que ter ficado trinta anos lutando contra monstros tinha bem as suas vantagens.
Dipper não conseguia se segurar, o seu coração estava tão intenso que ele acreditava que fosse possível que seu tio ouvisse os seus batimentos daquela distância. Ele deixou o cobertor cair por trás dele. Sentiu a ponta dos dedos formigarem assim que encontraram o chão. Ele não tinha certeza se era pelo frio ou pelos seus sentimentos que pareciam ter individualmente vida própria em momentos como aquele. O garoto caminhou na direção da janela.
Estendendo o braço, a palma da sua mão foi de encontro aos músculos desnudos do tio avô. Stanford parou no mesmo momento. Os dois pararam. Nenhum disse uma palavra. Nem sequer se viraram. Dipper respirou fundo e colocou a sua outra mão sobre as costas nuas de Ford, fechando ele de trás para frente, num abraço que significava, ”por favor,” sem precisar do uso de palavras.
Ford se virou logo de seguida. Dipper suspirou.
“Agora... finalmente...”
Dipper caiu no chão. Ford havia feito o movimento que Dipper menos esperava receber naquele momento. Ele foi empurrado.
— O que pensa que está fazendo? – ele perguntou num tom controlado, ainda mantendo a expressão fechada.
Dipper entrou em choque. Seus sentidos se confundiam num emaranhado de diferenças. O olfato, o tato, a visão, tudo parecia meticulosamente orquestrar a figura da pior lembrança que ele já teve até hoje.
— E-Eu... eu pensei que... – ele falou enquanto lutava contra os lágrimas.
— Não me importa o que você pensou, você pensou errado!
— Mas...
— "Mas" nada. Dipper, entendo o que aconteceu naquele dia. Mas, além da diferença da nossa idade, nós dois somos tio e sobrinho caso ainda não tenha notado. Até onde você acha que a situação iria se prolongar com esse pequeno detalhe? Um erro é um erro, Dipper. Apenas cresça, esqueça e siga em frente com a sua vida.
***
A lembrança foi interrompida pelos guinchos de Dipper. Ele se via de volta na floresta, com seus joelhos cobertos em terra e o cheiro do musgo que o cercava.
Ele deixa as lágrimas pesadas pelos erros do passado lhe correr a face livremente.
“Viu só? Não foi tão difícil assim... Você consegue superar isso Dipper...” pensou tentando fazer ele mesmo acreditar na própria mentira.
Ele inalou o ar tentando acalmar os nervos. “Já passou...”
Ele encarava as folhagens quando de repente, um ruído. Dipper vibrou. Olhou a sua frente e nada viu. Não era lá um som muito diferente, era de um passo nas folhas secas. Seu corpo estremeceu em pavor ao pensar que algum turista próximo talvez houvesse escutado toda aquela cena. Ele logo se pôs de pé olhando a todas as direções em que sua visão periférica o permitia olhar. Fechou os olhos brevemente para ver se conseguia captar mais um som que entregasse a posição de quem quer que estivesse se escondendo ali.
Who wants a lamby, lamby, lamby?
Dipper corou. A voz que cantarolava era de algum conhecido sem sombra de dúvidas. Quem mais iria usar a “música do carneirinho” perto dele?
— “Quem vai quer um carneirinho?” – ele refletiu em estranhamento diante da piada com falta de bom senso.
— “Eu quero.”
Um grito escapou de sobressalto da boca de Pines. Ele havia sido surpreendido pela voz da pessoa parada logo atrás dele. De reflexo, pode ver a cor áurea do sobretudo e do cabelo mal definido. Além da gravata borboleta perfeitamente atada na camisa por debaixo de casaco, também havia a bengala em que ele sempre se apoiava, passando a ideia de indiferença não importasse qual situação fosse. Além do tapa olho que evidenciava o seu único, enorme e assustadoramente olho esquerdo que tudo observava.
Bill Cipher.
Os pés ágeis de Dipper derraparam entre os de Bill quase como um sistema de defesa involuntário. Fazendo o demônio de um único olho ir de uma só vez ao chão. O demônio que agora tinha a forma de um mero mortal. Por incrível que parecesse, agora Bill tinha uma nova forma. Era uma longa história. Durante o weirdmaggedon, enquanto Ford e Dipper prendiam todos os monstros de volta no portal, Bill se recusava a voltar. Ele era poderoso demais, daquela vez com seus poderes interdimensionais, para que nem Dipper e nem Stanford conseguissem fazê-lo voltar para o lugar de onde ele havia vindo. Então eles acabaram por optar pelo último recurso, modificar a forma física de Bill. Agora, como um insignificante humano, Cipher não tinha mais os poderes que almejava e assim, acabou não sendo mais uma ameaça estando ou não em Gravity Falls.
— Mas o que...?! – Bill gritou surpreso pela atitude.
— O que você quer comigo?! O que estava fazendo aqui?!
Bill Cipher parou por um instante observando o semi-desespero de Pines. Dipper o amaldiçoou, ele certamente se divertia com aquilo.
— Isso é jeito de receber um velho amigo, Pinheirinho? – disse ele se erguendo enquanto dava o seu grande sorriso que ia de orelha a orelha, mostrando a sua coleção de dentes pontiagudos. Já era assustador ver Bill antes quando era apenas um triângulo com um olho, agora que ele tinha um sorriso, Dipper podia sentir que passaria mal a qualquer instante. Não só era amedrontador como de certa forma ele conseguia usar aquilo para ser ameaçador sem usar sequer uma palavra – Agora, me diga, sentiu saudades de mim? Oh oh, diz que sim, Pinheirinho...
Mesmo que Dipper mantivesse uma distância relativa dele, Bill conseguia alcança-lo usando seus dedos humanos absurdamente longos para brincar com o contorno do queixo de Dipper no qual a barba já estava voltando a crescer. Pines logo o afastou lhe dando um tapa na mão.
— Não me chame de Pinheirinho! – disse ele entre os dentes dando as costas.
— Tudo bem, não precisa ficar com raiva Pinheirinho. – Bill o segurou pela gola da camiseta, evitando que ele fugisse – Não posso sequer ter um pequeno diálogo saudável de melhor inimigo para melhor inimigo?
Dipper suspirou, deixando o lado defensivo avulso um pouco, mas mesmo assim sendo cauteloso para não entrar nos joguinhos do peso morto.
— O quanto você viu? – ele disse baixo evitando fazer contato, se referindo ao choro que mantinha antes.
— Sobre o que está falando, Pinheirinho? Eu estava apenas passando por aqui quando ouvi um choro de um filhotinho de carneiro, então eu vim ajuda-lo. Parecia bem desesperado, sabe? Como se tivesse perdido o rebanho na floresta ou algo do tipo. Ele devia estar se sentindo bastante... solitário. Entende o que eu digo?
Pines conteve o desgosto apertando o pulso o máximo que podia.
— Babaca...! – ele murmurou com intensidade e tentou dar mais um passo a frente, sendo interrompido por Bill que o segurava com cada vez mais força – Ei! Me solta!... Agora!
Dipper se contorcia cada vez mais, tentando fugir de uma prisão invisível. Cipher não tinha mais poderes, mas a sua persistência continuava de uma forma sobrenatural. Quando, de repente, um puxão cortou os insultos que Dipper começava a proclamar. O “triângulo” havia o virado para que pudesse ficar de frente com ele, as mãos esguias de Bill o seguravam pelos os dois braços. Dipper tentou inutilmente se soltar mais algumas vezes, até que por fim abriu os olhos apenas para se encontrar com o de Bill. Ele o segurava extremamente perto. Dipper podia sentir o hálito quente dele sobre o seu nariz avermelhado pelas lágrimas. O garoto parou por um instante, algo havia lhe pego a atenção. O olho de Bill. O olho mudava de cor. Provavelmente devido à luz. O olho de Bill foi sempre negro e impassível como piche, mas dessa vez, com a sombra que um fazia sobre o outro, era possível ver uma tonalidade mais clara, quase que fluorescente, uma espécie de azul escuro em conjunto ao claro. Lilás.
Cipher sorriu mais uma vez, mostrando as presas tentadoras. Dipper sequer havia notado que já não mais de debatia. Bill Cipher era muito alto. Se não usasse roupas com cores tão vivas como o amarelo, ele poderia ser facilmente confundido com uma das árvores por ali.
— Você não pode sair assim. Você não ouviu o quanto aquele carneirinho chorava, Pinheirinho? Não podemos deixar ele desse jeito, não é? Não acha que devemos ajuda-lo juntos?
Os dedos pontudos do demônio tocaram a testa do garoto, retirando-lhe o cabelo da franja, revelando a tal marca de nascença que ele carregava. A mesma que havia originado o próprio nome vulgo de Dipper. Pines sentiu uma leve onda de eletricidade lhe percorrer da cabeça a espinha assim que Bill lhe tocou na marca. Ele tentava sair dali, mas, mesmo com Bill não o segurando mais, ele não conseguia. Era estranha aquela sensação. Era como se ele, por algum motivo, não quisesse sair.
“O que é isso?! Como...? Como é possível isso? Bill não tem mais poderes então, como ele está fazendo isso comigo?” Se mergulhava na sua confusão mental enquanto o corpo nos arrepios.
— Como está fazendo isso comigo? – ele disparou sem rodeios.
— Fazendo o que? – Bill indagou confuso, porém, sem desfazer sua pose aterrorizadora.
“Ele está mesmo não fazendo nada? Então... O que é tudo isso?”
Dipper deu um passo para trás, recluso.
— Apenas não volte mais aqui. – o garoto afirmou tentando exibir de alguma forma uma personalidade forte. Bill riu. “Droga”.
Dipper apenas passou por ele e começou a fazer o caminho de volta para a cabana. Aquilo havia sido demais para um só dia. No entanto, ele percebia que Bill continuava parado logo por trás dele, e ele começou a gritar para Dipper na medida em que ele se afastava.
— Não se esqueça, Pinheirinho. Mesmo eu não sendo o mesmo de antes, eu ainda sei de “muitas coisas”. E não se preocupe, eu manterei o olho no carneirinho por você.
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