No More Secrets
5 Abram-se as cortinas
Notas iniciais
Dipper já havia perdido a noção do tempo que passara de frente ao armário do seu quarto, enquanto se encarava no espelho. Ele observava o seu cabelo que passava a ideia de estar úmido devido ao mormaço dos bosques. Já era noite e ele ainda permanecia com a expressão atônita de mais cedo. Seus olhos focalizavam-se nas mechas de sua franja que foram retiradas da testa pelos dedos gélidos de Bill.
O que ele havia sentido naquela hora ainda o intrigava. Ele analisava o contorno da sua marca de nascença que formava a “constelação Dipper”. Sua psique evocava simultaneamente a cena de Cipher lhe tocando. O formigamento. Os arrepios. O desconfortável sentimento no qual, por algum motivo, Dipper não queria parar de sentir.
Pines tentou achar alguma explicação para aquilo. O que Bill estava pretendendo fazer? Pretendendo fazer naquele lugar? Com ele? Se teve uma coisa que Dipper aprendeu durante toda a sua jornada de mistérios é que não existem coincidências. Principalmente quando se trata de Bill Cipher. O garoto passou seus dedos sobre a lateral do braço, em seguida, quase como que intencionalmente, seus dedos se deslizaram do pescoço ao topo da cabeça. A sua mão repousou sobre a marca. Dipper nem percebia que tentava repetir a façanha de Bill. Ele sentiu a energia na pele como se os dedos de Chiper ainda o tocassem a testa.
Ele se viu consumido por uma centelha de desejo. Foi tranquilizador quando ele removeu a mão da testa para leva-la aos seus lábios. Repassando todo o desejo frio entre os contornos e curvas da sua boca, ele quase acreditava poder sentir Bill naquele lugar.
“O que diabos está acontecendo comigo?”
Ele deixou-se cair sobre a cama logo por trás dele, soltando um suspiro característico de cansaço, embora no interior dele houvesse bem mais turbulências do que aquilo. Ele olhava para o teto do sótão, a transparência do vidro da claraboia evidenciava a noite. Dipper sentia a necessidade de ter algum amigo. Uma pessoa para momentos como aquele. Para que ele pudesse abrir o seu universo de dúvidas e confusões. Alguém como Mabel. Ele meio que sentia certo arrependimento por tê-la deixado. Ela sempre era a “amiga” que ele estava necessitando naquele momento. Mas, era suicídio. Dipper não poderia nem sequer pensar em contar uma situação como aquela para a sua irmã. Como contaria para a irmã estar apaixonado pelo próprio tio avô, e sobre ter tido uma semi-relação com ele? Ele com certeza necessitava de alguém do lado de fora, alguém que não o julgasse. Mas ele não conseguia achar o tal.
“Não confie em ninguém” era o pensamento que insistia em permanecer na sua mente desde o verão de 2012, e o qual ele seguia religiosamente. “Tanto tempo sendo convencido a não confiar em nenhuma pessoa e agora o que eu mais preciso é justamente o oposto. Que mundo paradoxal...”
Quem seria esse alguém? Todos haviam partido. Dipper só tinha a ele mesmo.
Foi quando o seu celular tocou. Dipper se ergueu num salto com o coração batendo mais forte do que nunca. “Mabel.” Ele esticou o braço para pegar o aparelho que vibrava sobre as tábuas velhas do sótão.
O sorriso que acreditava esboçar no rosto em seguida se desmanchou. Era um número no qual ele não sabia de quem era. Tinha a certeza de já ter visto ele antes, no entanto, parecia pouco se importar para não ter salvo o número com nome.
— Olá? – ele atendeu.
— Dipper? É você?
Pines ficou atônito assim que voz se acomodou o ouvido. Era ligeiramente modificada, mas ainda sim extremamente reconhecida. As memórias de seu verão lhe atingiram em cheio. Depois de tanto tempo, era mirabolante ouvir uma voz como a dela mais uma vez.
— Pacifica...?
— Sim – ele riu brevemente – Faz bastante tempo, não é?
Dipper se pôs de joelhos sobre o lençol empolgava pela quase presença dela.
— Sim. Como você está? Por onde esteve? Fez alguma faculdade?
Pacifica riu. Dipper notou as suas perguntas imediatas evidenciando a sua carência em companhia.
— Eu adoraria te responder todo esse interrogatório. Mas agora não posso, ainda estou para chegar à Gravity Falls e queria saber se você estaria por aí ainda.
— Sim, sim. Eu estou!
— Ótimo! – pela entonação, Dipper quase podia ver ela sorrindo do outro lado da linha – Eu gostaria de me encontrar com alguém. Ver o que mudou e o que continuou por aqui depois de tanto tempo. Preciso de um guia que não fosse um guarda costas do meu pai. O que você me diz?
Dipper quase caiu sobre o colchão mais uma vez. Seus lábios tremiam num misto de emoções surpresas e agitadas.
“Isso é um encontro?”
— Quando você chega?
— Infelizmente, tarde. Amanhã e só poderei ficar por um dia. Então acho que teríamos que combinar de nos encontramos em algum lugar em que podemos ficar durante a madrugada. É claro, se isso não for um problema para você.
“Isso é um encontro?”
— Não, não. De maneira alguma. Eu faço questão.
— Obrigada. Estou ansiosa para te ver. Onde você sugere?
— Bem o restaurante da Susan fica aberto a noite inteira...
— Está de excelente tamanho Dipper! As três, pode ser?
“Isso é um encontro?”
— Sim. Com certeza! Eu estarei lá!
— Obrigada mais uma vez, estou animada para nosso reencontro...
“Isso é um encontro?”
— Eu que lhe agradeço Pacifica...
— Que doce, o avião já está para chegar, preciso ir. Até.
— A-até...
O som da linha muda nunca parecia ter soado tão satisfatório para Dipper como antes. O celular escapuliu das suas mãos para a indiferença dele.
— Isso será um encontro?
Sendo ou não, Dipper Pines mal conseguia conter a explosão mista de nostalgia e alívio. Pacifica Northwest. A garotinha que antes era mimada pela família de linhagem rica e tinha sérios conflitos com sua necessidade de atenção e superioridade, a garotinha que Dipper nunca imaginou deixar de ser desse jeito, ou melhor, que ele nunca imaginava ter alguma relação com ela antes.
Ele soltou o ar apagando por um instante a sua singela chama de conforto enquanto se jogava de volta no colchão. Teria ele finalmente encontrado alguém?
O garoto passara os últimos minutos observando a curvatura triangular que o teto do sótão mantinha, centenas de reflexões passavam pela sua cabeça tão depressa que Dipper acreditou que não era mais capaz de dormir.
“Pacifica... Mabel... Bill... Ford...”
O cenho que mantinha franzido foi se dilatando com o passar dos minutos. As pálpebras cansadas lhe cobriram os olhos, fazendo Dipper mergulhar no seu tão desejado sono que não obtinha há tempos.
***
O som do ranger das tábuas velhas das escadas fizeram seus ouvidos tremelicarem. O sol matutino se fazia vivo repassando pelas frestas das paredes da velha cabana. Dipper não esperava ter acordado tão cedo, mas não reclamava. Fazia muito tempo desde quando ele realmente havia tido um sono descente.
Ele chegava ao andar de baixo espreguiçando-se, quase em uma forma de agradecimento ao seu corpo. Ele se sentia mais satisfeito. Satisfeito com tudo. No fundo ele tinha a esperança de algo bom estava para acontecer. Ele se lembrava da ligação de Pacífica na noite antecedente. A forma que sua voz soasse macia e receptiva.
Ele lembrava-se do sono que tivera. Não era nada detalhado ou fora do comum. Na verdade era um sonho que ele tinha sempre que conseguia dormir. Era estranho ver aquilo se repetir como um deja vú vicioso. Tinha sempre alguém com ele no quarto. Uma silhueta negra e opaca. Embora Dipper nunca conseguisse sonhar o suficiente para ver quem era, ele sabia ser algo bom. Lhe transmitia segurança muitas vezes. Fazia as escuridões pesadas do anoitecer parecerem tranquilas como as crepusculares.
Dipper balançou a cabeça em negação. Aquilo era apenas um sonho vindo das suas frustrações psicológicas pela falta que sentia de Ford e de todos outros... Sua mente certamente havia criado a ilusão de uma figura protetora das profundezas do seu inconsciente.
Dipper adulava em pensamentos até que seus pés tocaram o térreo.
Ele acreditava que poderia esboçar um sorriso assim que começasse abrir as cortinas da cozinha.
Foi quando ele dobrou a esquina entre o corredor e a cozinha.
As cortinas já estavam abertas.
Não fazia sentido. Mesmo tido dormido cedo, Dipper sabia que havia mantido as cortinas fechadas. Para falar a verdade, ele raramente às abria. As cortinas sempre estavam fechadas. A casa nos últimos anos não tinha outras cores ao não ser pelo cinza que penumbra proporcionava.
“Alguém abriu as cortinas.”
Assim que seu corpo se contorceu para olhar o resto da sala. Seus pés travaram no lugar onde estavam. Os seus dedos cravaram na superfície do portal entre o corredor e o outro cômodo. Ele sentiu suas pernas bambearem e ele não conseguia se mover mais.
Estava ali, sentando do outro lado da cozinha, Ford. Saboreando o seu café da manhã.
Dipper estava pasmo, sem conseguir dizer e nem fazer nada, preso na mesma posição como se uma bolha temporal houvesse o pegado de surpresa.
Ford ergueu o olhar na direção do sobrinho.
— Bom dia.
Dipper inspirou o ar em sobressalto. “Bom dia”. Aquilo não poderia ser verdade. Havia passado tanto tempo que ele não ouvia aquilo que acreditava até ter esquecido o significado da expressão. Ford havia aberto as cortinas e feito o café da manhã. Havia uma cadeira vaga próxima à dele, com um prato posto no lugar.
— O café está sobre o fogão, já estou acabando, mas se você quiser comer aqui não tem problema. – Stanford empurrou a cadeira mostrando o espaço.
Dipper balançou a cabeça em negação.
“É algum tipo de brincadeira”
O garoto fez um esforço e deu um primeiro passo. Parecia ter se esquecido de como andar por um momento. Depois de pegar a frigideira, Dipper foi até a mesa. Tudo havia se tornado silencioso. Ele ouvia o som dos talheres contra o prato e o som da mastigação de Ford. Suspirou. Dipper passou o resto do bacon e dos ovos mexidos para o seu prato.
Se sentou, ainda ouvindo o som do mastigar do tio avô. Dipper não conseguia fazer seus sentidos obedecerem a ele. Ele não conseguia encarar o prato. Estava sentado olhando para algum ponto fixo na cozinha no qual nem ele sabia qual era.
Nostalgia.
Ele estava de volta. Sentado numa mesa junto a Ford. Comendo café da manhã entre a vivência dourada do local provocado pelos raios de sol que saíam das janelas de cortinas abertas. Qual havia sido a última vez em que aquilo tinha acontecido? Mais ou menos há dez anos.
— Está tudo bem? – Stanford perguntou ao observar a expressão atônica dele, fazendo Dipper voltar a realidade.
—...S-sim... – ele falhou a voz, fazia tantos anos que ele não falava tão diretamente com Ford que também parecia que Dipper havia também se esquecido de como era ter uma conversa.
Pines pegou o garfo e começou a espetar os pedaços de bacon soltos pelo seu prato. Seu tio avô se ergueu e foi em direção à bancada, deixando o prato vazio sobre ela. Dipper sentia a vibração dos passos dele sobre o piso através dos pés da cadeira que se conectavam aos movimentos do chão. Ford tinha voltado e estava parado por trás dele. Dipper sentia a sua presença. Ele parecia se certificar de algo ou tentar dizer alguma coisa. Até que por fim, voltando para o corredor, ele disse.
— Aproveite o café, Dip.
Os dedos se Dipper deixaram o garfo escapulir de suas mãos, chocando-se contra a porcelana do prato, evidenciando o seu choque repentino.
“Ford me chamou de ‘Dip’...” ele pensou tentando fazer seu consciente se certificar “Ford me chamou de ‘Dip’...” insistiu.
Era o apelido que o seu ‘tivô” havia lhe dado.
Ford havia parado de lhe chamar assim desde quando “aconteceu”.
Afastando o prato e a cadeira da mesa, Dipper se levantou. Quase em disparada, ele avançou na direção da porta dos fundos. Precisava de ar fresco. Ele não podia deixar aquilo acontecer. Desceu a varanda depressa. Sua cabeça dava voltas, seu coração estava a ponto de se desfazer. Ele suspirou, soltou a sua serpentina de ar que carregava todas as frustações e confusões para longe. Olhou para a grama.
Margaridas.
“Estranho, é verão e mesmo assim nasceram algumas flores, todas margaridas...”
Ergueu o olhar. Recapitulando tudo.
O que tinha sido aquela cena com Ford? Porque aquilo tão de repente.
“Será que... Não!” Dipper quase gritou o pensamento para que o mesmo ficasse bem claro para a sua mente “Dipper entenda, Ford não te ama. É uma relação proibida. Nunca será possível acontecer. Você precisa esquecer.”
O que ele está tentando fazer agora foi apenas para reconciliar a relação de distanciamento que dois mantiveram durante todo tempo. Ford com certeza não havia se sentido bem com o que tinha feito a Dipper aos catorze anos, então se distanciou, era natural. Talvez, agora, finalmente, ele estivesse criando coragem para pedir perdão para o sobrinho e se redimir do seu ato que julgava ter sido sujo. Era aquilo, sem dúvidas.
“Se Ford te amasse, ele não teria te tratado assim Dipper. É apenas um novo passo para a reconstrução da amizade... Você está para fazer 23 anos e seu tio 60”
Esquecer. Dipper precisava esquecer aquele sentimento. Tirar ele do seu coração como um adesivo. Embora sua mente já estivesse certa daquilo há muito tempo, seu interior se recusava a aceitar. Pelo jeito o “adesivo” havia sido preso a ele com uma cola permanente.
“Preciso sair dessa casa. Andar mais pela Gravity ‘Fallen’, conhecer pessoas novas, preciso conversar com Pacifica, quem sabe...” ele parou a reflexão por um momento “... Quem sabe eu não acabo por encontrar o ‘removedor’ dessa ‘cola’”.
***
A noite caí mais uma vez.
Dipper deixa o seu boné com desenho de pinheiro sobre a cama enquanto arruma o penteado de frente para o espelho. Ele havia trocado a camiseta de sempre por uma camisa vermelha xadrez. Se observava e tentava imaginar o espelho como uma janela para o futuro, era tão difícil ver como as coisas haviam mudado. Ele via um garoto completamente diferente do qual estava acostumado a ver. Ele se perguntava o que havia acontecido para as coisas acabarem assim, mesmo sabendo muito bem o motivo.
Ele se perguntava se seria diferente caso houvesse escolhido ter ficado com Mabel.
Um suspiro.
Um suspiro que ele costumava usar como uma descarga de todas as suas confusões emocionais. Já era tarde. Ele estava para encontrar Pacifica. Ele usaria aquele encontro para simbolizar o início de uma nova vida embora ele nunca soubesse ao certo do que esperar. Principalmente, vindo de uma cidade instável como Gravity Falls.
“Você consegue, Dipper.”
Ele tirou o celular do bolso do jeans e olhou as horas. Dez para as três. Era melhor ele se apressar. Apertando o passo, ele desligou a luz, saindo do seu quarto. Fechando a porta por trás de si, sem se preocupar com os sons que poderiam acordar Ford. Afinal, Ford também aparentava não se preocupar com ele.
Enquanto descia as escadas, Dipper se sentiu mais uma vez como nas suas aventuras noturnas com Mabel naquele verão. Atingindo o piso com a carpete, Pines dirigiu-se até a porta da frente. Girou a maçaneta. Nada
“O quê?”
Ele viu a tranca girada e a desativou. Girou a maçaneta mais uma vez.
A porta permanecia trancada.
Dipper curvou a coluna para frente, examinando a fechadura. Alguém havia trancado a porta com as chaves.
“Estranho...”
Dipper deu meia volta e entrou na cozinha. Estava tão escuro que Dipper achou que no primeiro passo que desse cairia num vácuo espacial interminável. Ele piscou os olhos algumas vezes tentando fazer com que sua visão se acostumasse com o ambiente. Não via necessidade em ascender a luz já que só pegaria as chaves no armário e voltaria.
O lugar estava quente, diferente dos outros cantos da cabana. Dipper continuava com seus passos de cabra cega de braços esticados que ansiavam pelo o que iram vir a tocar em seu rumo. Até que por fim os dedos do garoto aterrissaram sobre uma superfície. Ele queria acreditar ser o armário. No entanto, o lugar era quente e passava uma sensação de maciez à pele de Dipper, embora ele sentisse uma estrutura firme. Aquilo se moveu. Dipper tomou um susto. Ele sentia o tecido fraco de uma camiseta.
— F-Ford...?!
— Onde o senhor pensa que está indo? – os olhos de Dipper se dilataram, ele podia claramente ver a feição presa do seu tio avô entre a penumbra. Mostrando sua posição forte e madura na qual os sentimentos de Dipper insistiam em se entregar.
— O que está fazendo no escuro?!
— Pergunto o mesmo a você mocinho.
Dipper se calou. O que estava acontecendo ali?
— Estou saindo.
— Para onde?
“Porque ele quer saber isso?”
— Só darei uma passada rápida na cidade.
— Há essa hora?
O garoto abaixou a mão. Aquilo não estava mesmo acontecendo. Stanford estava mesmo fazendo aquele papel? Dipper quase deu uma gargalhada.
— Não entendo o porquê de isso ser algo tão surpreendente para você. – responde.
— O que está indo fazer? — Dipper não responde – Com quem você vai se encontrar?
Dipper abaixa a cabeça. Ele percebe o punho contraído. Ele estava cansado. Cansado de Stanford lhe tratar daquele jeito. Primeiro aquilo de manhã, agora Ford também queria controla-lo como se fosse o pai de um adolescente rebelde? Era tão ridículo que quase fez Dipper vomitar.
— Me responda! – o berro de Ford fez Dipper tremer, ele nunca havia o visto falar tão alto daquele jeito. Erguendo o pescoço, Pines via o quanto a sua expressão estava denunciando seus sentimentos.
“Ele está... Com ciúmes?!”
— Eu não te devo nenhuma resposta, Ford!
Dipper tentou dar as costas mas preso pelos braços do tio.
— Você está na minha casa e come da minha comida! Eu preciso saber onde você vai!
— A casa na qual me convidaram a morar... – sussurrou.
— Como?
— Me dê as chaves e você não precisará mais falar comigo!
Stanford se colocou mais uma vez no caminho do sobrinho. Dipper estava coberto por uma áurea de ódio, tinha vontade de gritar, avançar sobre Ford. Mas conteve a pose. O tio já o tratava daquele jeito, não queria dar mais motivos com um ato tão imaturo.
— Eu não sou mais uma criança Ford! – ele gritou, as palavras lhe escaparam a boca numa velocidade incontrolável, quase lhe fazendo ficar exausto por ter guardado aquilo dentro dele com tamanha força por tanto tempo. A primeira lágrima desceu sobre o rosto de Dipper – Eu não sou mais uma criança... Você... Já pode me aceitar assim...
Ford ficou atônito por um segundo. Entre os soluços do garoto, ele podia ver o tamanho sentido que as palavras de Dipper carregavam.
— Nós vamos falar sobre isso... – ele tentou.
Dipper sentiu o formigamento na garganta lhe subindo os lábios, o som começava a emitir de sua garganta tão naturalmente que ele nem teve tempo de controlar. Dipper ria. Não apenas uma risada breve, mas sim uma gargalhada. Alta o suficiente para que ecoasse pela casa. Era previsível e libertador. Tentou se conter mas não obteve sucesso. Ford estava pasmo com a reação do garoto. Até que por fim Dipper abaixou a cabeça em seus últimos guinchos roucos.
— Agora você quer falar...? Tarde demais vovô.
Dipper passou por Ford. Ele nem tentou segurar ele mais uma vez. Pines puxou o molho de chaves do gancho, voltando ao corredor, deixando o tio pasmo e sem saída. Dirigiu-se até a porta e a destrancou. O ar gelado da madrugada lhe atingiu o rosto, lhe dando uma sensação desconhecida mas a suficiente para que ele se mantivesse forte. Ele desceu da varanda, quase pisando sobre as tão curiosas margaridas. Estava indo em direção da sua picape vermelha que havia ganhado dos pais no ano anterior. Ele ouviu o som dos passos de Ford andando sobre as tábuas por trás dele.
— Ei! Isso ainda não acabou Dipper!
— Está acabado Ford... – “Assim como eu.” Ele pensou a frase com tanta intensidade que o seu corpo estremeceu, mas resolveu não acrescentá-la na conversa para que não perdesse o seu foco.
— Eu sou seu tio!
— Stanford eu tenho 22 anos! – Dipper interrompeu sua caminhada mais uma vez, ele já estava para abrir a porta e se trancar dentro do carro, foi quando Ford lhe prendeu pelos braços. Dipper soltou um guincho. Um som de cansaço, se entregando ao joguinho de Ford que o virava na direção dele.
Dipper fechou os olhos. Não conseguia o encara-lo.
Ford estava muito próximo, Dipper sentia os batimentos cardíacos dele sobre a sua camisa xadrez. Stanford o prendia com os braços, recostado sobre o vidro da janela da picape. Dipper sentiu os seus dedos se entrelaçarem com os dele. A respiração havia ficado mais pesada. Se não fizesse alguma coisa, quando desse por si Dipper estaria arfando, expondo os seus sentimentos reclusos em suplica pela correspondência de Ford.
“Não abra os olhos”
— Dip...
“Não abra...”
— Por favor, olhe para mim... – Ford mumurrou, Dipper conseguia sentir a pontada da súplica que poderia ter sido esse tempo todo maquiada pela pose forte que o tio tentava manter.
“Não Dipper... Seja racional.”
Se pelo menos Ford dissesse aquela frase... Aquele único e simples mantra que os dois compartilhavam... Talvez...
Não.
Não apenas pelas circunstâncias, mas o garoto refletiu o cenário que estava em sua mente. Ele tinha aquela pequena paranoia de estar sendo observado.
O gesto rápido de Dipper afastou a mão do homem. Ainda de olhos fechados, se esgueirou e abriu a porta, batendo-a com força assim que se acomodou no assento de motorista. Ligando o motor, Dipper agora via a expressão largada do tio avô. Ele não o seguiria. Ele precisava deixa-lo partir. Dipper respirou fundo e pisou na ignição, para em seguida dar a partida, sumindo entre a estrada dos pinheiros em direção à cidade. Sumindo dos seus problemas...
***
Lá estava. O carro ia freando gradualmente até que por fim parou. Dipper se via de frente para o restaurante da Susan. A construção arquitetada com os detalhes de um tronco de árvore. As luzes alaranjadas que davam um aspecto bem mais caloroso ao local, além do jazz e do blues que tocavam incansavelmente durante toda a madrugada. Dipper levantou o olhar na direção das janelas transparentes, á procura de Pacifica, ou no mínimo alguém que se parecesse com ela depois de tantos anos. Nenhum sinal aparente. Dipper se aliviou. Talvez não houvesse chegado tão em cima da hora.
Saiu do veículo estacionado e foi até as escadas de mármore. Ele empurrou o corrimão frio da porta de entrada. O som do pequeno sino ecoou sobre a sua cabeça anunciando a sua chegada. Dipper analisou o local enquanto era coberto por uma onda de perfeita nostalgia. Ele não mentiria, o local fora reformado e não era o mesmo nem de longe. Mas, ainda sim, era aonde havia se concentrado a maior parte das suas melhores memórias do verão de 2012.
Ele andou pelos ladrilhos bicolor, enfeitiçado pelo charme do local. Foi quando a voz macia lhe chamou.
— Dipper?
Pines abriu a boca em surpresa. Pacifica havia se levantando em uma das mesas não muito distante da dele.
— ...Pacifica?!
A garota soltou um som em sobressalto.
— É você mesmo! Eu não acredito...!
Dipper se aproximou, apertando o passo em direção a ela. Pacifica lhe recebeu de braços abertos, ela a consumiu no caloroso aperto receptivo. Dipper nunca achou que pensaria que se sentiria tão bem em estar em contato com um dos Northwest. Pacifica deu uma breve risada.
— Pode me soltar agora. – riu.
— Ah... Me desculpe... – murmurou discretamente sem graça. – Espero não ter chegado tarde.
— Imagina, aliás, eu devo te agradecer por ter vindo. Vamos?
Pacifica o guiou até os fundos do estabelecimento. Uma das novidades na cafeteria era que Susan havia construído um píer que dava uma linda visão para o lago de Gravity Falls. Dipper se encantou ao ver a vista. Tudo parecia tão majestoso e orquestrado que por um momento ele pode ver de novo a cidade desejada que seus sentimentos haviam se esquecido.
— Esse lugar ficou deslumbrante! – Northwest exclamou em concordância aos pensamentos de Dipper – Quando se tratam de cidades pequenas, nunca é de se esperar que lojas antigas como essa mudem muito.
— Sim... – foi tudo o que ele conseguia dizer.
Pacifica sentou-se próxima a cerca da suspensão. Era uma mesa para dois bastante arrumada.
— Mas você está muito diferente, eu quase não te reconheci.
Dipper parou por um instante.
— Eu não creio que eu tenha mudado tanto –deu uma risada breve –as vezes acho que me congelei com o resto dessa cidade.
— Não diga isso. Você está ótimo! – sorriu.
— Obrigado, aliás, eu também mal pude te reconhecer.
De fato. Pacifica estava realmente diferente e nem ela poderia negar isso. Pacifica com certeza não era a mesma menina que Dipper conheceu em sua pré-adolescência. A garotinha de família rica, mimada e com um pseudo-intelecto que a fazia acreditar ser melhor com os outros. Agora, até com praticamente nenhuma maquiagem, Dipper conseguia ver uma mulher de verdade. Educada, com uma postura forte e determinada sobre os seus objetivos.
Era algo de se impressionar. Embora Dipper achasse que ela algum dia iria acabar mudando, ele sempre soube no potencial interior que ela tinha.
— Entendo – Pacifica assentiu – O mundo anda... Você está bem?
Dipper sentiu as suas entranhas se revirarem em desconforto diante da pergunta.
— O que quer dizer com isso?
Pacifica arregalou os olhos. Atônita e confusa.
— Bem... Quis saber se você está bem. É isso que as pessoas fazem... — Dipper adulou. – Dipper, está tudo bem mesmo?
— O que?
— A primeira vez foi pelo costume e a educação. Mas agora é serio você está bem?
— Estou. – engoliu a seco.
Pacifica analisou sua expressão e em seguida deu de ombros.
— Como andam as coisas por aqui?
— Sem muitas novidades. A cidade não vem sendo muito “animada” desde aquele verão, se é que me entende.
— Sei. – ela assente – Assim que eu soube que você havia decidido ficar por aqui e eu tive que te ligar. O que anda fazendo? Está trabalhando?
— Stan me deu a cabana do mistério.
— Sério?! Não brinca! – Pacifica se surpreendeu – E você está abrindo ela nesse verão?
— Não. – ele passa a mão por de trás da cabeça em sinal de derrota.
— Como não? – Pacifica ri nervosa – esse é o melhor momento para investir nela. Como está ganhando a vida.
— Bem, as pessoas se cansam das mesmas coisas todos os anos... Estou planejando algo novo. – mentiu. Dipper não tinha nenhuma disposição sequer para mais nada, ele vivia com ajuda da fortuna de Ford com suas pesquisas.
— Compreendo. Vamos pedir algo? – pergunta puxando o cardápio.
— Seria ótimo. Não vai me contar sobre você? Estou curioso.
*
Depois de alguns momentos, os pratos finalmente chegaram. Dipper olhou para o prato relembrando da cena com Ford mais cedo. Comeu, saboreando cada pedaço das panquecas ainda quentes, engolindo junto a elas seus sentimentos.
— Eu me formei em arquitetura recentemente. – ela explicou.
— Jura? Por essa eu não esperava.
Pacifica riu.
— Sim. Acho que ter morado por tanto tempo naquela mansão velha me inspirou. Estou de volta para justamente reproduzir um dos projetos dela.
— Isso é excelente. Ainda mais vindo de você.
— Obrigada Dipper. É muito bom ouvir isso. – ela corou. Dipper estranhou a cena. – Sabe, eu sei que é bastante estranho ouvir tudo isso de uma garota que costumava judiar de você e sua irmã...
— Ah, não ligue para isso. Todos nós fazemos bobeiras quando somos novos, faz parte de crescer. – Dipper se lembrou imediatamente do seu aniversário de catorze anos e completou – As vezes temos que esquecer o passado para deixar o novo “eu “ tomar conta.
Pines sentia a necessidade. A necessidade de contar para alguém tudo o que estava acontecendo. O coração que quase escapulia a garganta. A barreira que tentava manter erguida a todo momento.
— Entendo, Dipper. Mas não é isso.
— Não?
— Não. A verdade é que eu era mais assim, pois eu sempre tive uma quedinha por você na pré-adolescência – ela riu da própria confissão morta – Eu não sabia como lidar com isso então eu apenas te esnobava e todos os outros a sua volta. Ridículo, não é...?
Por alguma razão Dipper não se via nem um pouco impressionado sobre aquilo. Sua cabeça dava voltas. Ele começara a se distanciar um pouco. Tentava se lembrar de Ford. O que ele estava tentando com tudo aquilo. O que exatamente Dipper sentia por ele agora. E também pensava em Bill.
Pacifica continuava falando. Algo sobre os seus pais. Constantemente.
Dipper não conseguia acompanhar. Era demais. Era sufocante. Ele se sentia numa teia de aranha como uma presa cansada de esperar para ser devorada. Pacifica pedia algo, ele não entendia.
Dipper se colocou de pé.
Pacifica parou de falar. Ela o observava assustada. Ela sabia desde o início que algo acontecia com o amigo.
Dipper não se atrevia a dirigir o olhar a ela.
— Eu sou gay, Pacifica.
Silêncio.
Northwest abaixou a cabeça lentamente. Olhando para o prato. Dipper esperava qualquer coisa dela. O único som que podia ser ouvido naquele momento era o do vento e do tintilar dos pratos um sobre os outros na cozinha, provavelmente sendo lavados.
— Ah... Então é isso. – Pacifica finalmente falou, Dipper primeiramente acreditou que sua voz continha uma pontada de decepção. Mas logo viu que era marcada por algo estranho... Compreensão.
— Desculpe.
— O que?
Dipper abriu a carteira assim que a retirou do bolso. E deixou uma nota de cinquenta sobre a mesa.
— Eu pago a conta. Desculpe ter estragado a noite.
— Não Dipper, não é isso...
— Tudo bem. Eu sei. Eu já fiz muita coisa errada por hoje.
Ele simplesmente deu as costas e saiu.
Pacifica havia permanecido na mesma posição em que estava dentro da cafeteria. Ela havia levantado. Parecia perdida.
Dipper ignorou e voltou para o carro. Tudo que ele queria era que ele ainda estivesse tendo a sua boa noite de sono e que ele acordasse agora e descobrisse que tudo fosse um sonho.
***
O pneu fazia os mais diversos sons sobre a estrada de estrutura imprevisível. Dipper tentava manter o movimento da picape com a mente vazia. Sem pensamentos. Sem confusões. Ele havia ligado o rádio uma ou duas vezes na tentativa de se distrair. Nada parecia funcionar.
Já era possível ver o teto pontudo da cabana.
Ele desligou o carro um pouco distante do lugar onde costumava ficar. Dipper precisaria fazer uma caminhada. Sua cabeça recostada no volante. Ele poderia apagar ali mesmo, mas aquilo não faria bem para ele. Dipper entraria na casa, tomaria um banho e se prepararia para a manhã seguinte. Seria um novo começo e Dipper se esqueceria de tudo que havia acontecido naquele dia.
Foi quando ele saiu do carro.
Primeiro foi um vulto. O que o fez pensar que fosse uma ilusão criada pela penumbra.
Foi quando os dedos gélidos lhe tocaram a nuca. Os pêlos de Dipper se ergueram em vibrações energizadas, na constante sintonia com as batidas de seu coração.
Seu corpo é entregue e sustentado pelo homem do sobretudo amarelo.
Dipper apenas ergue a cabeça cansada para se deparar com o sorriso longo, misterioso e desafiador de Bill.
— Finalmente te encontrei carneirinho.
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