No More Secrets

8 Um amigo para o sempre.


Notas iniciais
Postando esse capítulo exatamente no dia em que faz um mês desde quando o último foi postado. CALMA QUE EU CHEGUEI GALERA! Esse capítulo foi relativamente simples, tentei colocar o máximo de emoção possível no reencontro de Dipper com a Mabel. Músicas que me inspiraram enquanto escrevi: Hot Button - Anya Marina Yael Naim - Far Far Desejo uma boa leitura a todos ♥

Ele permanece parado por um tempo encarando a mensageira eletrônica.

Mabel estava voltando. E por algum motivo estranho, Dipper não se sentia nem um pouco animado sobre aquilo.

O chão oscilava por debaixo dos seus pés como uma maré que tomava conta dele lentamente, o envolvendo em ondas de lembranças dos últimos dias. Havia acontecido tanto e tão depressa. Era difícil ainda manter a noção da hora e de como aconteceu cada um dos curiosos eventos em Gravity Falls. Sempre quando Dipper parecia chegar a uma conclusão, acabava sendo afogado por mais uma das “ondas” que pareciam ser resultado de uma tempestade.

“Às vezes eu fico imaginando de que forma as coisas acontecem. Primeiro vem um dia. Tudo acontece naquele dia. E depois vem o outro. Até chegar a noite, que é a melhor parte. Mas logo depois vem o dia outra vez...” refletiu uma citação do filme de Cláudio Assis que ele havia visto.

Ele inspirou o ar. Recompondo-se e indo em direção da frigideira com os ovos já quase prontos, a prioridade no momento era de que eles saíssem bons.

— Bom dia Lobinho. – Ford murmurou entrando no aposento.

As palavras fizeram as orelhas de Dipper formigarem. Ford uma vez havia descoberto uma fotografia de Dipper usando a roupa de “menino-lobo” criada por Stan em 2012, desde então ele tinha usado o apelido uma vez ou outra, provocado o sobrinho com o nome.

Pines esboçou um sorriso com dificuldade e virou a cabeça lentamente para que seus olhos fossem de encontro aos do homem parado próximo à soleira. Ford mantinha o seu sorriso torto, o mesmo sorriso que chacoalhava as borboletas e faziam elas debaterem suas assas deleitosamente no estômago de Dipper. O feixe de luz matinal que transpassava as cortinas, demarcando os olhos pequenos de cansados do tio avô por debaixo dos seu grande par de óculos com uma pequena rachadura em uma das lentes, evidenciando satisfação e a boa noite de sono que teve. Eram aqueles pequenos momentos que faziam tudo, por mais que temporário, valer a pena.

— Bom dia Tivô Ford. – ele respondeu timidamente.

Stanford ligou a cafeteira, já colocando por debaixo dela a sua antiga caneca que residia escrito “Para o melhor tio-avô do mundo.” Na qual a palavra “tio” havia sido escrita humildemente com um marcador vermelho por Mabel e Dipper. Não se tem muitos presentes para tios-avôs por aí. Dipper quase riu ao se lembrar daqueles tempos. Logo a máquina apitou e o cheiro sedutor da cafeína invadiu o aposento. Dip poderia usar aquilo para esquecer dos problemas um pouco.

Ele ouviu os passos de Ford por trás dele ficando cada vez mais próximos, até que por fim a respiração dos dois se tornou uma só assim que o tio apoiou o queixo por cima do seu ombro.

— Obrigado. – ele sussurrou de leve próximo ao lóbulo do sobrinho, enquanto roçava os pelos curtos que tinha no rosto próximo ao seu pescoço. Causando em Dipper uma extrema instabilidade que fez a sua nuca se arrepiar. – Eu sei o quanto foi difícil para nós dois e eu vou me encarregar de compensar tudo. É uma promessa.

— Eu que devo te agradecer.

— Por favor Dip, não seja tão modesto. Afinal, você ainda é meu ‘aprendiz’. Eu fui um mestre completamente descompensado com a a minha missão. Me desculpe.

— Eu entendo. – Dipper forçou a frase embora ele não entendesse muita coisa, ele não ia prolongar mais aquele assunto, pelo menos, não naquela hora. No momento ele queria aproveitar Ford ao máximo possível antes de partir para as questões que afligiam ambos e que precisavam ser conversadas.

— Ainda está muito cedo. Porque não deita mais um pouquinho? Seu pé precisa de repouso. – Ford pediu com uma impressionante dominância cautelosa. Era como se ele fosse feroz, mas ao mesmo tempo se preocupasse suficiente com a sua pequena presa para lhe ser gentil e não lhe causar dor. Não mais. Era irresistível. Dipper via que Ford o estava tentando mais uma vez a ir à cama com ele usando aquele jeito sensualmente protetor de ser.

— Os ovos... Eu não posso deixar eles ou vão passar do ponto. – Dipper tentou explicar, se segurando para não arfar de desejo. Ele não tinha certeza se era por causa do estonteante cheiro do café ou pelas malícias de Ford. Talvez fosse pela junção magnífica dos dois fatores.

— Isso pode esperar... – Ford mal pode terminar direito, suas palavras foram abafadas pelos beijos delicados que entregava ao pescoço de Dipper.

O garoto suspirou. Corou ao ver que o suspiro tinha saído mais como um gemido numa tentativa inútil de ser maquiado. Ford. A manhã. As trocas de carinho. Era tudo que Dipper mais havia pedido. Entretanto, tinha uma pequena chaminha que dizia não a tudo aquilo, encravado bem no fundo de seu coração como um pequeno post-it. E se chamava “Bill Cipher”.

Dipper tentou ignorar e focar no abraço em que Stanford lhe consumia por trás.

“Uma relação com Ford nunca seria possível.”

“Nós podemos mudar isso Dipper. Nós dois somos especiais”

A sua marca de nascença começou a queimar, começou como um leve formigamento e em seguida tornou-se uma perturbação. Dipper se contorceu de leve, ainda tentando ignorar. Foi quando aquilo irradiou por seu corpo como se o garoto recebesse uma punição por fazer algo de errado.

Eu sempre estive te observando. Era o que o demônio havia dito. E era o que ele fazia.

O coração de Dipper deu um salto.

“Ah meu Deus...”

—Ford! – ele falou com a tonalidade preocupada para que o tio parasse. Stanford não respondeu e continuou puxando o sobrinho para mais perto de si. O desconforto aumentou. A alma de Dipper parecia estar sendo compensada por um ciclone de arrames farpados. – Ford! – ele berrou em desespero e se livrou do abraço grosseiramente, a frigideira estremeceu com o gesto e por um triz o óleo não acabou atingindo os dois.

Stanford recuou com os braços na mesma posição. Atônito pela reação de Dipper. E Dipper, diria o mesmo. Não entendeu o que se sucedeu com si mesmo. Estava perplexo, havia mandado Ford se afastar com tanta grosseira e o Tio o encarava assustado e sem entender absolutamente nada. Dipper se lembrou da noite em que Ford o empurrou e lhe mandou seguir com a própria vida.

Havia sido a mesma cena com papéis invertidos.

— Oh ceús... – Dipper lamentou-se baixinho – O que foi que eu fiz?

— Está tudo bem Dippy? – indagou Ford carinhosamente.

— Desculpa – a sensação irradiante sumiu instantaneamente. Dipper pensou em contar sobre Cipher, no entanto, “estou possivelmente apaixonado pelo maior inimigo que já tive e acho que vou optar por ele já que por você é praticamente impossível e perturbador de ter uma relação amorosa” seria quebrar mais ainda os cacos que estavam espatifados no chão. – Mabel está voltando.

Ford parou por um instante.

— Isso é... Ótimo. – ele disse falhando como se ainda não tivesse arrumado as palavras perfeitamente na sua mente ao proclamar o que sentia diante aquilo.

— Ela chega hoje.

— Nós precisaríamos tirar o dia hoje para podermos justamente discutir sobre o que esta acontecendo... “Aqui”. – Ford reforçou a ideia que Dipper já tinha em mente, o garoto percebeu a dificuldade que ele tinha para se referir ao “relacionamento”.

— Eu sei. Mas ela acabou de avisar que já está chegando.

Ford encarou Dipper com compaixão, assim como ele havia feito na noite anterior, tentando ler os sentimentos conturbados do companheiro. Suspirou.

— Ok.

***

A apreensão aumentava cada vez mais que Dipper pensava sobre a chegada de Mabel. Ele estava parado em frente ao ponto de ônibus. Ele tinha chegado algumas horas antes do horário em que sua irmã havia especificado num e-mail. O que Mabel teria de tão importante para dizer a ele que tivesse que vir pessoalmente a Gravity Falls? A cidade em que eles se separaram e se falaram pela última vez em dez anos. Onde tudo começou. E onde tudo, Dipper sentia, que iria terminar. Fazia um bom tempo que ele não havia visto o rosto da irmã, algumas vezes ou outras através de redes sociais, no entanto, nada com que Dipper pudesse ter um update com muita frequência de sua aparência.

Inquieto e intrigado, ele andava de um lado para o outro. Roía as unhas enquanto mal percebia o movimento ao seu redor. Os mais diversos tipos de automóveis já haviam passado por ele, a cada ônibus que chegava o seu coração dava uma palpitação diferente em correspondência à sua ansiedade.

Os pinheiros balançavam-se, como se saudassem os mais novos chegados ao município do Oregon. A cidade mais curiosa de todo o estado se não do país. Poucos acreditariam que os maiores mistérios que costumavam a circular por lá haviam sido desvendados por ele e sua irmã na pré-adolescência. Ele estava distraído em meio a sua corrente de pensamento, foi quando, aconteceu.

— Oi.

Dipper sentiu as mãos tremelicarem. Ele ouvia a voz de sua irmã por de trás, ouvia a voz que não ouvia pelos telefonemas, ouvia a voz que não reconhecia há dez anos. No momento em que se virou, foi como tudo houvesse desaparecido. Por um instante não havia mais nada além de Dipper, Mabel e o solo que impedia o garoto de desabar. Sem sons externos. A tempestade interna de Dipper pareceu quebrar as cercas, e por um momento, exaltar para fora de si. Tão forte e descomunal que Dipper jurou ouvir o som do nó se fazendo em sua garganta, acompanhado pelo eco de suas entranhas revirando-se entre elas como serpentes de emoções agitadas. Todos os nervos de seu organismo festejavam uma estranha sensação da absurda mescla de alegria com a enorme preocupação receosa.

A primeira coisa que lhe prendeu o foco foram as feições dela. Fechadas, no entanto não emburradas. Sérias. Parecia não demonstrar surpresa ou qualquer outro tipo de emoção que as pessoas que se amam normalmente compartilham após um reencontro de anos. Como se aquela cena fosse algo que ocorresse com certa frequência. Ela esboçou um traço pelo rosto, era mais um sorriso receptivo do que de felicidade. Mantinha os braços em torno dela mesma. Usava uma regata preta e um jeans. Uma roupa de poucas cores e nada parecido com o que Dipper esperava ver da irmã de alguns anos antes. O seu cabelo parecia maior do que o normal, menos liso e menos cuidado, preso de qualquer maneira num coque frouxo com um lápis. Dipper se concentrou em dar os seus passos, cautelosamente, na direção da irmã. Ainda não acreditando na cena. Surpreendeu-se ao ver que seu queixo se alinhava quase na altura da testa dela.

— Parece que eu sou o gêmeo alfa agora.

Foi tudo que ele pode dizer.

— Pelo jeito sim. – Mabel confirmou com um ligeiro sorriso sem mostrar os dentes.

Dipper permaneceu parado por instante, observando a irmã que ele costumava conhecer, recuperando com os olhos todo o tempo que havia se dissipado entre os dois, não sabia ao certo o que estava esperando de toda aquela cena. Um abraço talvez. Só que não aconteceu.

— Quer que eu leve sua mala? – ele perguntou.

— Não é necessário. Já chamei um táxi.

— Mas os táxis não vão até a área florestal onde fica a Cabana.

— Eu sei. – disse ela com um suspiro, abaixando a alça da bolsa – Não é para lá que estamos indo. Preciso de um lugar isolado para conversarmos.

*

— Como está a situação de Gravity Falls Dipper? – ela perguntou ajeitando-se no banco mais isolado da praça municipal. A tarde está quente como muitas outras de Domingo. Dipper se aproximava tentando formular a estranha pergunta.

— O que você quer saber exatamente com isso?

A sua irmã lhe olhou de soslaio. É claro que aquilo não era um “como você está?”.

— A “situação”. – repetiu ela dando ênfase – As inúmeras coisas e criaturas que andavam por aqui até alguns anos.

Dipper suspirou. É claro que sua irmã não havia vindo para ver ele e saber como ele estava.

— A mesma. Creio eu. Absolutamente nada de paranormal ocorreu por aqui durante todos esses anos.

— Tem certeza?

Dipper parou por um momento. Aquela pergunta sempre abalava suas pequenas estruturas. Lembrou-se da noite na qual havia beijado Bill e que havia flutuado com ele. Olhou para os lado e colocou as mãos no bolso.

— Tenho.

— É bom que continue prestando atenção nisso. Algo sério me ocorreu esses dias.

— O que foi?

— Durante uma das madrugadas da semana passada, eu fui surpreendida por um estrondo no meu quarto. Quando acordei me assustei ao ver que era Blendin.

— Blendin? O cara do tempo? – Dipper assustou-se.

— Sim.

— O que ele queria com você?

— Ai que está o ponto. Ele disse que estava entre muitas confusões paralelas com o tempo. Blendin estava desesperadamente a sua procura.

Os olhos de Dipper se arregalaram em surpresa.

— Procurando por mim?

— Sim. Blendin tinha voltado de uma época que se assemelhava com o qual estamos agora. Dipper – ela respirou fundo, como se estivesse se preparando para dizer algo difícil – Ele disse que você iria causar o fim do mundo. Identicamente ao weirdmaggedon que ocorreu naquele verão. Que você seria o culpado por ele e que precisaríamos fazer alguma coisa rápido para impedir isso tudo.

Dipper sentiu o chão oscilar sob ele. Ficou pasmo por um momento, abriu a boca para tentar dizer algo, mas foi impedido pelo nó em sua garganta que ficava cada vez mais apertado.

— Faz algum sentido pra você? – Mabel continuou insistindo. Dipper parou por um instante para reorganizar os pensamentos.

— Não.

— Espero que continue assim.

“Porque Mabel está agindo desse modo? Estou certo de que o fim do mundo é algo muito sério, mas, porra. Nós não nos vemos há dez anos! Porque Mabel não faz perguntas normais de pessoas normais? Porque ela não me pergunta como eu estou ou algo assim? Sinto a falta dela e quero também como ela está.”

— Mabel...

— O que?

Ele queria contar. Contar sobre Bill. Talvez sobre Ford. Queria ser próximo a sua irmã como costumava ser antigamente. Mas como já havia pensando antes, era suicídio. A sua relação com a irmã já não era lá grande coisa. Isso só iria afastar os dois mais ainda. E Dipper não queria aquilo. Não mesmo. Era por isso que aquela relação não era possível. Era por isso que ele iria botar um ponto final em Ford.

— Você, por acaso, se lembra da nossa infância?

— Bem, digamos que uma infância na qual presenciamos um quase apocalipse não é muito difícil de esquecer.

— Não falo do verão em Gravity Falls. Antes disso. Quando éramos menores do que aquilo.

— Lembro sim. Por quê?

Dipper se lembrava do último sonho que havia tido, se fosse o que ele pensava, não seria uma mera coincidência.

— Você se lembra de um garotinho de cabelos loiros. Que parecia ser nosso amigo.

Mabel parou por um minuto, parecia recapitular a memória. Em seguida suas sombrancelhas levantaram-se em surpresa.

— Charlie. – ela deu um risinho de desdém.

— Quem?

— O seu amiguinho imaginário.

— Eu tinha um amigo imaginário?

— Sim, só você via ele. Eu apenas fingia que também via. Você dizia ser um garoto loiro e “pirata”.

—“Pirata”?

— Sim, papai e mamãe também não entendiam a expressão até que você fizesse o desenho dele. Ele usava um tapa-olho.

O nó no seu coração estava tão apertado que arrebentou, libertando todas as borboletas no seu estômago que agitavam as assas nas paredes de sua alma. Despertando todos seus sentidos.

Não era possível.

Dipper tinha praticamente Bill Cipher como seu amigo imaginário de infância. O amigo que supostamente havia criado para não ficar sozinho em meio às outras crianças. Como? Ele não sabia. Só sentia as memórias de uma infância frustrada voltarem a tona e lhe atingirem em cheio. As palavras de Bill, por algo motivo, permaneceram rondando a sua mente repetitivamente.

Eu venho observando você há muito tempo...

Notas finais
Ok. O papo vai ser reto: A história está se aproximando de um fim. Falta mais alguns capítulos. Considerem esse o "começo do fim". Tudo será revelado e concluído em breve (espero eu). Seja entre os ships e a backstory de cada personagem. Espero que esteja interessante até agora. Vou fazer de tudo possível para ter um lemon BillDip até lá. Eu sei que 85% das poucas pessoas que leem a fic shipam apenas BillDip então, CALMAAA, que tem mais ceninhas entre os dois, viu? Me perdoem. PS: pelo o que eu vi, muita gente veio me dizer que não se manifesta na fic pois tem vergonha. Seguinte, gente, eu não mordo (ao menos que você peça). PELO AMOR DE BILL não tenham vergonha de comentar. Eu sou um amor (mentira) e amo todos que leem a fic e gostam dela. ♥ não vou te julgar pelo o que você shipa ou opina, até pq eu também shipo né. Tamo junto XD Beijos e até a próxima. Qualquer pergunta, estarei disposto a responder.