No More Secrets
10 Último pedido

Dipper abria os olhos lentamente na medida em que sua memorias suprimidas eram reprogramadas. O que Mabel estava a lhe contar lhe passava como um filme em sua cabeça. Charlie era Cipher. Tão óbvio. Na mesma tarde que Charlie desapareceu de vez, Dipper se lembra de te ter chorado bastante. Seus pais acabaram por lhe convencer de que aquilo que ele havia “visto” era apenas uma fase e seu amigo não era muito além do que imaginário. Porque Cipher faria algo assim? Porque estaria sempre o observando como se Dipper fosse algo que não pudesse ser perdido? Desde pequeno Cipher estava colado nele como uma sombra maldita.
— Porque está querendo que eu te lembre disso tudo justo agora? – Mabel perguntou com a tonalidade duvidosa.
Dipper permaneceu calado por um pequeno tempo, procurando entre a maré de memórias as palavras certas para que ele pudesse levar à tona:
— Nada. Eu só vim tendo esses sonhos estranhos sobre isso, nada mais.
— Hum – Mabel desdenhou, jogando o cabelo para trás e levantando-se da cadeira em seguida. Estavam de volta à cabana do mistério, Mabel não havia dito sequer um comentário sobre o lugar até então.
— Mabel... – Dipper arriscou tentando deixar suas questões de lado um pouco.
— Que foi? – perguntou se apoiando na janela que levava a varanda, respirando o ar vespertino.
— Como é voltar aqui? – perguntou por fim – Você... Bem, não disse nada. Foi aqui que tudo de mais importante entre nós aconteceu.
— E também foi aqui onde tudo de mais importante entre nós ficou. – ela respondeu baixo como se não desse importância para suas próprias palavras.
— O que?
— Não é importante. – disse apressadamente enquanto tirava do bolso um maço de cigarros com um isqueiro. Fechando os olhos tentando se concentrar na brisa que se chocava contra o seu rosto, acalmando-se. Ela fez um pequeno abrigo com as mãos sobre o cigarro que colocara entre os lábios para que conseguisse ascender o fogo.
— Desde quando você fuma?
— Desde quando você se interessa?
Dipper suspirou.
— Não tenho nada contra quem fuma Mabel. É só que... – ele prendeu a respiração vendo que era necessário que ele, mesmo correndo o risco, levasse aquela discussão para um lado mais sério – Eu nunca consigo saber nada novo sobre você há dez anos.
Mabel parou por um tempo como se fosse responder, mas ao invés disso apenas inspirou o fumo para dentro dos pulmões.
— É tão engraçado ver uma protetora ambiental fumar.
— É tão engraçado ver, mesmo depois disso tudo, você tentando se preocupar comigo.
Dipper levantou-se da cadeira num pulo repentino.
— Mabel, o que está acontecendo? – a irmã nem se moveu. – Você não liga, não visita, nunca se deu o trabalho de dar notícias!
— Ah ok. Agora eu que sou a errada. – disparou em meio a fumaça.
— Por que você está agindo desse jeito?
Ela riu.
— Por favor, faça tudo apenas não se finja de bobo.
— Mabel, para de ser tão infantil. Isso foi há dez anos!
— Sim, e foi os piores anos de toda a minha vida! – ela quase gritou – Era sempre nós dois Dipper, sempre foi. Até você decidir me deixar sozinha por causa de suas próprias ambições...
— Minhas próprias ambições?! Mabel dá um tempo! Você fala como se eu nunca estivesse do seu lado, ou que a distância entre nós fosse mudar alguma coisa do que eu sinto por você.
— Pelo jeito foi. – deu outra tragada.
Dipper sentiu o sentimento corrosivo lhe subir a cabeça tão naturalmente como o seu próprio sangue. Mabel não podia estar falando sério. Todos esses anos deixando ele naquele estado por causa de uma birra? Pines sentia tanto ódio que poderia ser capaz de acreditar ver todo a sua ira evaporar pelo ar junto a fumaça do cigarro dela. Com passos pesados e determinados ele avançou na direção da irmã, puxando-a bruscamente para o seu lado para que ela pudesse lhe olhar nos olhos.
— Uma birra! Você fez isso tudo por causa de uma briga estúpida!
— Você nunca ficou do meu lado Dipper! Nunca ficou! Você não fazia ideia do quanto eu precisava de você.
Dipper rangia tanto os dentes que se impressionou pelo fato de eles ainda permanecerem intactos na boca.
— Mabel eu pulei de um penhasco e lutei contra Gideon por você!
— Não é como se eu tivesse pedido.
— Mabel, eu quase sacrifiquei a minha vida por você no weirdmaggedon! Eu me coloquei de total entrego àquela bolha maldita que o Bill tinha criado apenas para salvar você! Eu me coloquei a participar de um tribunal patético criado por você apenas para mostrar o quanto você era importante para mim! E tudo isso e outras coisas apenas por você ter sido infantil demais. Você não percebeu o quanto essa sua atitude causou problemas? Se não fosse pela briga que você começou naquele dia, o Bill não seria libertado, Weirdmaggedon nunca teria acontecido... Stanley nunca teria se sacrificado...
Ela havia ficado atônita. Sua frustação era completamente demarcada pelo cigarro que ela amassava com uma avidez descomunal, em seguida jogou a bituca longe.
— Parece que nada disso foi suficiente não é? – Dipper insistiu – Parece que nada disso que eu fiz foi o suficiente para você! Porque sabe de uma coisa Mabel? Eu nunca, sequer, jamais ouvi um agradecimento da sua parte! E quando o mínimo que eu poderia receber de volta em gratidão seria a sua aceitação da minha escolha de ficar aqui com Ford, você fez o de sempre, repudiou como se o meu mundo devesse girar em torno das suas vontades. O que você pensa que eu sou?! Um dos seus fantoches de meia?! Que você pode manipular de acordo com as suas vontades?! Me responda Mabel. Quem você pensa que eu sou?!
Mabel suspirou e moveu os lábios com toda tranquilidade possível:
— Eu não sei – a resposta atingiu o coração de Dipper tão certeiramente como um dardo que tinha como alvo os seus sentimentos desordenados. – Eu sinceramente não sei. Você não é o mesmo garoto que me deu “adeus” naquele verão. Não é o garoto determinado e conciliador que eu sempre estava animada em ver e ter por perto. Sabe o que eu vejo em você agora Dipper? Eu vejo uma criança. Mas não a mesma que eu estava acostumada a ver. Eu vejo uma criança perdida. Como umas daquelas que se perdem dos pais na multidão. Em desespero e confusão. – ela respirou tirando o resto da fumaça, a fragrância da nicotina era tão forte que Dipper imaginou que o cheiro talvez viesse dele próprio no qual estava queimando por dentro do seu corpo e alma – Se fosse para ver um homem, o único que eu vejo é um preso ao passado. Alguém que está desesperadamente pedindo por ajuda de uma teia escura das suas escolhas na qual não consegue sair. Você está doente assim como...
— Assim como você. – Dipper frisou, jogando as palavras que interrompiam Mabel e sua avidez. – Assim como você está presa, recusando-se a aceitar o futuro e remoendo mágoas do passado. Mas diferente disso tudo, eu guardei as minhas perdições apenas para mim mesmo. Por mais que o passado ainda bata a minha porta, eu tive a maturidade suficiente para guarda-lo para mim. Para longe de tudo e todos. E não culpando cada um por aí das minhas inseguranças. – lançou o olhar turvo e firme até os olhos castanhos da irmã que estava parada atônita. Seus lábios estavam contraídos e sua garganta inconstante, parecia querer dizer alguma coisa.
— Eu ia dizer “você está doente assim como muitas coisas”.
O coração de Dipper se contorceu descomunalmente entre palpitações de pânico. O jeito que Mabel havia frisado aquela última frase, será que “Ela sabe de alguma coisa?”. Mabel arqueava uma de suas sobrancelhas e o sorriso que tinha acabado de exibir era perversamente desafiador.
“Deixe de paranoia Dipper” disse a si “Mabel não sabe de nada sobre Bill ou Ford. Não há como ela saber”.
Pines suspirou. Aquilo não ia levar a nada.
— Olhe Mabel – recomeçou com o tom mais calmo e leve – Eu sei como deve ter sido isso tudo para você. Sei mesmo. Mas você tem que entender que...
— Não! – Mabel quase gritou – Você não sabe Dipper! Você com certeza não sabe de nada sobre como é estar sozinho, nem desesperado, a procura de alguém que você precisa e não está lá por você...
Dipper sentiu a necessidade de contar para ela. De contar para ela sobre tudo mais do que nunca já teve a vontade. Porque, por mais incrível que parecesse, os dois haviam passado pelas mesmas coisas enquanto estiveram separados. Isso estava mais do que claro. Eles só tinham maneiras diferentes de reagirem a isso.
— Imagine você, eu apenas com mamãe e papai naquela casa. Você sempre foi o filho preferido deles. Sempre foi mais inteligente e determinado e sabe disso. “Porque você não é mais como o seu irmão?”, “Se o Dipper estivesse aqui seria assim” – balbuciou imitando a voz dos pais – Você com certeza absoluta não sabe como foi isso. Você teve Ford todo esse tempo, vocês são super parecidos com essa ‘nerdisse’ toda. Deve ter sido perfeito, não é? – Mabel sentia os olhos arderem, mas insistiu em continuar sem pisca-los para evitar que as lágrimas não começassem a subir – Você nunca vai saber. Nunca vai saber como é se sentir sozinho num ambiente com as pessoas nas quais deveriam estar te amando e não te repudiando.
Oh Dipper sabia sim. Sabia mesmo!
— Eu sei sim Mabel. Não ligo se você acredita em mim ou não, mas eu sei muito bem. Mais do que ninguém, eu tenho o direito de falar isso com você. – havia a mais pura compaixão em sua voz que falhou assim que sua mente evocou as cenas dos últimos dez anos. – Não ouse falar que minha vida foi perfeita. Jamais.
Num gesto rápido, que fez Mabel se sobressaltar, Dipper arrancou-lhe da mão o maço e o isqueiro. Mabel hesitou apenas observando de olhos incompreendidos a atitude do irmão. Inicialmente ela pensar que ele levaria o objeto para longe ou o arremessaria na lixeira. Foi quando ela pode ouvir o som farfalhado do plástico da embalagem sendo remexido e viu Dipper tirando um dos cigarros de dentro. Apenas observou enquanto ele o ascendia entre os lábios com seu isqueiro, no qual jogou bruscamente sobre a mesa em seguida, e passando o maço de volta para ela.
Dando as costas, Dipper sentiu os nervos que antes estavam pesados igual chumbo se afrouxando tal como o cós de uma roupa apertada e se tornando tão leves quanto a flocos de algodão que se esvoaçavam pela cozinha na medida em que ele exalava a fumaça para fora e a nicotina invadia seus pulmões. Não era necessariamente isso que ele procurava, mas acabara sendo um ótimo placebo temporário para as suas angústias.
Saiu da sala com passos pesados e ao mesmo tempo cansados, mantendo o fumo entre os dois dedos, deixando a irmã parada na mesma posição.
Atravessou os corredores e abriu a porta do porão, fechando-a num estrondo por trás dele logo em seguida. Ele podia ouvir Ford claramente trabalhando lá em baixo enquanto descia as escadas. A bagunça que ele fazia com os seus materiais e o som áspero do atrito de seu grafite que rabiscava as folhas amareladas com suas anotações. Tudo aquilo aquietava o coração dele. Tudo tão simples e grandioso que aquele homem tinha.
— Dipper? – ele chamou assim que percebeu a entrada abrupta do sobrinho no aposento – Está tudo bem? Ouvi gritos...
— Não. – disse rispidamente – Não está.
— Desde quanto você fuma?- perguntou assim que viu Dipper tirando o fumo dos lábios.
— Às vezes acontece. – finalizou jogando a bituca para longe, deixando uma trilha estreita de fumaça branca entre os dois.
— Você sabe que não precisa disso, não é?
O garoto apenas suspirou em resposta, Ford percebeu que era melhor manter o foco no assunto.
— O que houve? Tem haver com Mabel?
— Sim. – disse entre os dentes na medida em que se aproximava da mesa de trabalho de Stanford e se sentava sobre ela num espaço mais vazio – Tem tudo haver com ela.
Ford movimentou-se na cadeira com rodinhas e ficou rente a Dipper, num sinal de que estava disposto a escutá-lo.
— Às vezes eu penso que errei com ela. Errei de ter escolhido ficar aqui. – disse abraçando-se com os próprios braços devido ao frio – Mas ao mesmo tempo eu penso o quanto ela foi e está sendo egoísta. Sempre achando que tudo devia girar ao redor dela... Senhor, eu fiz tanta coisa... Tanta coisa por ela e deixei tantas outras para trás por causa dela... Ela não se cansa? Não se cansa de ser provada sempre que eu me importo com ela? Num um ‘obrigado’ sequer. O máximo que ela poderia ter feito era agir com maturidade na minha decisão de ficar aqui... Com você.
Ford sorriu sem mostrar os dentes e encarrou Dipper com toda compaixão que podia:
— É isso que é ter irmãos Dipper. Você gostando ou não sempre será assim.
Dipper deixou-se abaixar a cabeça, rendido e desolado.
— Olhe... – Stanford recomeçou, levantando-se da cadeira para estabilizar-se na altura do sobrinho – Eu também já passei por tudo isso com o Stanley. Ele também nunca foi de acordo com as minhas decisões. Não foi de acordo quando eu quis ir para a faculdade, não foi de acordo quando quis ir para Gravity Falls, você já sabe a história. Mas saiba de uma coisa Dip, ás vezes nos temos que abrir mão de algumas coisas que nem sempre são apenas para o nosso bem. Isso faz parte de viver. Abrir mão por essas pessoas, pois vocês sempre estarão com você biologicamente e espiritualmente dizendo – sorriu – Não carregue raiva da sua irmã. Eu tenho certeza sobre o que estou fazer. Promete que vai fazer o possível para se reunir com ela?
Dipper sentiu os seis dedos de Ford lhe erguendo o queixo, os dois olhos castanhos se cruzam, o olhar confuso e turbulento com o olhar compreensivo e compassivo.
— Prometo. – disse convicto sem conseguir tirar os olhos dos do seu tio-avô. Ford lhe acariciou a bochecha que já estava começando a tomar a tonalidade vermelha e em seguida se afastou um pouco voltando ao trabalho. Dipper deu uma breve olhada no que ele fazia, era a reconstrução do diário. Ele analisou o rosto sério e concentrado do tio e por fim perguntou:
— Você sente falta do tivô Stanley?
Ford parou de escrever.
— Sim Dipper. Eu sinto. Sinto muita.
— Você, ás vezes... – respirou fundo – Não tem vontade de poder ter ficado com ele?
Stanford lançou um olhar para Pines repleto de turbulências. O tio avô voltou até o sobrinho mais uma vez, encarando-o com aqueles olhos castanhos e tão cheios da compaixão que enchia o coração de Dipper e o fazia sentir como uma criança novamente.
— Eu estive trinta anos afastado dele. Eu nunca imaginei que iria sentir tanta falta e... – ele fez uma pausa, como se estivesse com dificuldade de continuar. Dipper podia ver a dor nos olhos dele tão claramente, as pupilas se dilatavam como se fossem as cortinas de uma janela se abrindo dando uma visão para as suas conturbações. – Eu nunca me desculpei com o Stan. Eu fui muito orgulhoso com ele e...
Dipper o envolveu num abraço antes que fosse tarde para ver sua muralha protetora se romper em lágrimas. Mesmo com o rosto afagado contra o seu suéter vermelho, Dip conseguia ver claramente o sorriso de Ford se abrindo na medida em que ele correspondeu o seu abraço. Quente e zelante.
— Ei. – Stanford o chamou, fazendo Dipper levantar a cabeça para encara-lo, com as suas emoções esvaziando para fora e embolando-se entre as respirações dos dois que estavam começando a se tornar uma só – Eu achei um motivo bem maior para escolher ficar aqui. – disse convicto lançando mais um sorriso para ele. Aquilo encheu Dipper com tanta alegria que ele sentiu as sensações se aflorando num borrão avermelhado sobre as suas bochechas.
O menino encolheu-se. Droga. Ele queria tanto Ford. Porque tinha que ser assim? O que aquele homem guardava que o fazia tão instável? Talvez fosse a sua grande doçura em momentos como aquele, protegendo-o de uma ameaça que Dipper não conseguia ver qual era.
— Você está frio Dip. Está tudo bem?- falou gentilmente, massageando a palma do sobrinho com o dedão. Era mágico como aquele simples gesto parecia esvaziar sua alma os seus mais complexos problemas. Porque sentir isso justamente por um parente? Dipper suspirou com uma pitada de decepção. – Fique comigo Dipper, nessa casa. – sussurrou na orelha dele, aquecendo-a.
— Você já me pediu isso ‘tivô’ – riu timidamente – Há dez anos, aos meus doze, e eu fiquei com você. Sempre estive. Esqueceu?
— Não Dipper. Acho que você ainda não entendeu – desviou o olhar – Deus, você era tão novo quando te fiz aquela pergunta. É claro que você não iria entender. Como fui bobo...
— Espere...! – saltou Dipper – O que está dizendo?
— Eu acreditei que em algum momento você iria descobrir o que eu realmente quis mostrar com aquelas palavras – suspirou se preparando – Eu te pedi aquela vez e agora vou te pedir mais uma vez. Espero que você agora entenda...
Ele se afasta, colocando as suas mãos sobre os ombros de Pines, fazendo-o sentir como no acontecimento da colina mais uma vez. Como se estivessem voltado no tempo, como se estivessem recomeçando.
— Fica comigo Dipper? Comigo em Gravity Falls, para ser meu aprendiz... – tomou folego numa voz séria – Para sempre? Até o fim do mundo?
Dipper perdeu a respiração. Sentiu cada mínimo pedaço do seu corpo reagindo aos seus sentimentos que lhe iam de cima à baixo como um maldito ioiô sentimental. Sentiu a aborbulhamento do seu interior lhe subindo à face como se seus sentimentos ganhassem vida, prontos para se rebelarem e saírem extravasando-se por todos os seus poros. Seu pequeno e frágil coração não aguentou o grande volume de envolvimentos na sua represa dos sentimentos então transbordou, deixando as lágrimas tão carregadas de júbilo lhe saírem pelo canto dos olhos.
— Ford... – esforçou-se para responder na voz chorosa – Você... aquilo... aquilo, durante todos esses anos, havia sido um pedido de...
Ele havia entendido.
Ford sorriu aliviado.
— Eu não percebi que não tinha ficado claro para você na primeira vez. Então, o que me diz aprendiz? Aceita?
Dipper não podia responder. Como ele não pode perceber? As vezes que ele dormiu na mesma cama com Ford, a forma que eles eram tão íntimos antes da primeira vez de Dipper, a forma que o garoto contava tudo para ele, as manhãs com os cafés e as trocas de carinho. Como Dipper pode ser tão bobo a ponto de não ver que eles estiveram a todo tempo praticamente casados?
E Dipper o traiu.
O traiu sem pensar duas vezes.
Ele não conseguia parar de chorar. Chorava como nunca antes e nem tinha certeza se era por qual das circunstâncias. Prendeu o fôlego para não fazer mais sons. Ford passou os dedos abaixo das suas orelheiras, secando suas lágrimas.
— Por favor Lobinho, entendo os seus motivos, mas não consigo mais te ver chorar. Já te fiz fazer isso muitas vezes. Não quero mais. Prometo que essa será a última vez. – ele afasta a sua franja e lhe dá um beijo delicado sobre a testa, recuando imediatamente quando sente o quanto a marca de nascença dele estava gélida – Muito frio, está tudo bem mesmo?
Dipper assente. Stanford sorri e se aproxima para lhe beijar os lábios. Dipper não hesita. Apenas deixa que o gesto do tio não só lasse os seus lábios, mas a sua alma por completo. Dá espaço para que as línguas se unam freneticamente quase dando um nó entre si. Os movimentos antes delicados começam suavemente a degradar para um nível mais... Ousado. As mãos de Ford unem Dipper pela cintura, o garoto passa os braços por cima dos ombros dele, dando total espaço e liberdade.
Dipper queria desfrutar daquilo.
Queria mesmo.
Queria tanto.
Mas não conseguia.
Ford havia sendo tão prestativo e cuidadoso com ele. E ele o havia traído sem mais nem menos. Aquilo precisava de um basta. Dipper não se sentia como se merecesse aquilo tudo. Recuou os lábios forçadamente desprendendo-se assim que sentiu os primeiros dedos de Ford invadindo o cós da sua calça.
— Eu beijei Bill Cipher.
Stanford parou. Tudo parou abruptamente. Parecia que tudo havia por um segundo sido pego desprevenido pelo congelamento de uma bolha temporal. Dipper sentiu o suspiro do parceiro em sua nuca. Um suspiro carregado de decepção. Ford soltou-se de Dipper lentamente, colocando-se de voltar no lugar onde estava sentado antes. Não parecia estressado. Dipper, esperando pela reação, pode ver o seu olhar. O olhar dele está repleto de preocupação.
— Só se beijaram?
Dipper não se pronunciou.
— Me diz! – o berro de Ford fez Dipper encolher-se em espanto – Foi só o beijo ou as coisas foram além disso Dipper?! – porque ele estaria tão preocupado com aquilo.
— Sim. – respondeu rapidamente, com o olhar hesitante e repleto de constrangimento.
Ford deu mais um suspiro, estranhamente, esse tinha um quê de alívio.
— Se mantenha longe dele.
— O quê? Só isso?!
Ford o encarou.
— O que mais você quer Dipper?
— A verdade. –aquilo atingiu os dois em cheio. – Quero saber o que está acontecendo, e sei que você é inteligente o suficiente para me explicar.
Ford não tirava os olhos dele, então se levantou e disse:
— Ok. Sem mais segredos. – se aproximou de Pines, determinado e se preparando para começar a narrar – Digamos que uma relação entre você e Bill Cipher pode ser mais condenadora do que a minha com você.
— Como isso é possível?
— Esse é o ponto Dipper. Bill vem de uma raça bem peculiar. Uma raça de seres que tiveram seus poderes prejudicados por muito tempo. Há muitos séculos, muitas das criaturas como Bill foram condenadas a passar a eternidade presas em dimensões com formas que pudessem ser suficientes para conter toda a imensidão do poder que tinham. Todo esse poder poderia ser suficiente para colocar toda a raça e mundo humano em ruínas como você já bem sabe, afinal. As criaturas poderiam sair de suas dimensões por vontade própria, entretanto – tomou fôlego – Quando saíam, seus poderes ficavam. Eles tomavam uma forma humana inofensiva aos demais.
— Como é agora?
— Sim.
— O que isso tem de tão perigoso? Ou melhor – corrigiu – haver comigo?
— Bem, quando esses demônios como o Bill descobriram sobre esse detalhe de que seus poderes seriam contidos assim que assumissem a forma humana, eles bolaram um plano.
— Um plano?
— Sim. Eles vêm desde as eras mais antigas das raças, influenciando no nascimento dos seres humanos.
— Como assim?
— Paciência – Ford advertiu calmamente, contendo a sede do sobrinho pelas respostas – Eles decidiram que iriam influenciar nas relações amorosas dos seres humanos, para que eles tivessem bebês... Especiais. – deu ênfase ao adjetivo que parecia tanto procurar em meio as suas palavras – Esses bebês, posteriormente crianças, eram de certa forma, partes cósmicas dos próprios demônios que influenciaram o nascimento das mesmas.
— O que isso quer dizer?
— Isso quer dizer que essas crianças são diferentes das demais, elas são mais fortes sentimentalmente do que as outras, mais inteligentes e de QI mais elevado do que as outras. São chamadas de Índigo e esses seres humanos têm os mesmos poderes que das criaturas contidas dentro de si. As crianças não podem usar esses poderes nesse mundo, mas elas... – respirou fundo – Elas podem fazer com que as criaturas recuperem todos enquanto estiverem na forma humana.
— Espera! Tá dizendo que o Bill pode voltar com todos os seus poderes caso ele tenha acesso a uma dessas pessoas? As pessoas que ele e os seres da sua raça influenciaram a nascer?!
— Exatamente. Mas não é tão simples assim, tinha um ‘porém’ nesse plano. Os demônios já humanizados na terra têm que conquistar os sentimentos dos Índigos para poderem reestabelecer uma conexão de volta com seus poderes. Sabe o que isso significa?
Dipper balançou a cabeça em negação.
— Significa que eles teriam que fazer com que esses humanos especiais se apaixonassem por eles a ponto de finalmente atingirem uma relação carnal.
— Sexo. – simplificou Dipper.
— Isso. Assim que um humano Índigo fosse para cama com um dos demônios humanizados, o demônio teria seus poderes de volta e a liberdade para usá-los do jeito que bem entendesse aqui na terra. Poderes suficientes para criar o apocalipse. É por isso que eu venho durante todos esses anos estudando, eu venho tentando localizar essas crianças. Tentando localizá-las para proteger de que qualquer outro demônio como Bill tome posse do nosso universo.
— Mas... – Dipper ainda residia na sua cobertura de dúvidas em meio à chuva de explicações – Como você consegue identificar essas pessoas que são ligadas às criaturas?
Ford suspirou, levantando-se.
— As Índigos não são pessoas normais Dipper. Elas geralmente têm uma diferenciação física que pode ser extravagante aos olhos das demais pessoas. – ele se aproximava do garoto com passos pesados e com o tom de voz cada vez mais focado o que fez o garoto se concentrar no que ele disse em seguida – Essas diferenciações podem ser coisas como uma pequena deformação, uma cor de olho diferente da outra, canhotismo e tem até alguns que vêm com coisas raras de se ver como marcas diferenciadas no corpo. Marcas de nascença em formatos peculiares, como constelações... Como a sua marca de nascença.
As pernas do garoto vacilaram, ele sentia a quatro paredes em torno dele se expandindo infinitamente até não ficar mais nada no porão a não ser por ele e o turbilhão de resoluções pesadas como chumbo lhe atingirem a mente e o coração. Era como se ele não visse mais nada. O lugar sumiu do seu campo de visão como se nada mais existisse. Tudo isso para que Dipper pudesse absorver a revelação de Ford. A sensação firme do solo abaixo dos seus pés foi o que lhe conseguiu trazer de volta à realidade.
— Era por isso que você me pediu para ficar com você “pra sempre”? Era por causa disso que você queria ficar comigo esse tempo todo?! – Dipper sentia algo subir nas suas entranhas que ele consideraria ser a mais pura das fúrias – Me diz! Porque você não contou isso antes?! – seus olhos já se voltavam com as lágrimas, Ford estendeu a mão para logo secá-las mas Dipper evitou o toque.
— Dip... – ele tentou recomeçar calmamente – Eu nunca pude entender tudo isso que eu acabei de lhe contar com facilidade. Eu tive anos e anos para poder compreender como isso acontecia e ocorria.
— E eu fui a cobaia! O seu tubo se ensaio! O seu rascunho de estudos!
— Não Dipper!
— Sim! Foi sempre isso. – as lágrimas desciam com as gotas recheadas de rancor – Agora eu entendo porque você se afastou de mim. Você não me ama Ford. Nunca me amou. Apenas me manipulou. Quando viu que não tinha experimentos suficientes em mim, decidiu que iria reconciliar. Você teve a audácia de programar um pedido de casamento! A sua maldita isca em que eu fui fisgado!
— Por Deus Dipper! – Ford aumentou a voz – Eu sou seu tio! Acha que eu iria aceitar uma relação com você normalmente após ter te levado pra cama de um dia para o outro?!
Nesse instante, eu pequeno ranger atrapalhou a gritaria. Um ranger característico. Os degraus de madeira. Dipper distanciou o olhar apenas para encontrar Mabel parada no pé da escada. Observando tudo tão intacta como se as palavras daquela discursão houvessem sido pás repletas de concreto que a cimentaram no chão. Atônita e incrédula. Seu olhar descrente com a própria realidade.
“Era tudo que precisava acontecer.” O pensamento de Dipper era tão pesado de ódio melancólico que era quase possível ser eclodido em voz alta “Era tudo que precisava acontecer nessa porra de dia!”
Soltou um grunhido que quase saiu como um grito. Empurrou Ford . Os segundos do momento em que ele teve que passar pela irmã gêmea de olhar distante foram os mais longos de sua vida. Ele não conseguia olhar para ela nem para mais ninguém. Correu pelos degraus. Fugindo do aposento e da cabana. Para encontrar o único ser que não escondia o fato de ser perverso.
O seu único e velho amigo Charlie.
*
— Bill! – gritou fazendo sua ira ecoar por toda floresta de pinheiros – Cadê você?! Eu já sei de tudo! Vamos! Saía do esconderijo Charlie!
O farfalhar de folhas soou por trás dele.
Lá estava Cipher com o sorrisinho que Dipper odiava amar.
— Então parece que o carneirinho achou o que procurava?
— Não achei. Mas você pode me ajudar a conseguir.
O loiro de aproximou dele com o olho pervertido já se enchendo com a cor roxeada.
— O que tem em mente Pinheirinho?
— Você.
Bill murmurou algum som de “ora, ora” modificado para soar mais sedutor.
— Você vai saber o que vai acontecer se fizermos isso, não é?
— Sei. É o que eu quero. O nosso mundo, esqueceu?
— Não. Não esqueci. Jamais esqueceria isso. Fico feliz que tenha feito a escolha certa Pinheirinho. – e com isso se curvou na direção do garoto, soltando a bengala sobre a terra, e lhe deu um beijo ávido e “animador”.
— Eu também. – retribuiu o beijo. – Olhão da providência – brincou fazendo menção ao que tinha dito uma vez quando crianças. Bill também riu. Uma risada rouca, animalesca e incrivelmente penetrante. Mas logo cortou a fluência com uma voz firme e séria enquanto imergia Dipper no seu olho.
— A única providência que eu terei agora será a de não ser gentil com você. Quem mandou me fazer esperar por um trilhão de anos?
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