No Amor E No Futebol Vale Tudo!
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Depois do que pareceu um minuto em que eu fingia olhar o cardápio pra não ter que olhar pra ele, ele enfim falou parecendo achar graça.
---E então já escolheu? ---disse, olhei pra ele e o vi sorrindo.
---Estou em duvida. ---menti, por que nem lia o que olhava.
---Escolha o que quiser, não vou comer. ---disse normalmente.
---Por quê? Pensava que tinha gostado da comida! ---provoquei tentando tirar proveito do meu sucesso.
---Tenho certeza que teria gostado se você e aquele menino do “Grito” não tivessem envenenado minha comida. ---falou só que vi que estava brincando. ---Falando nisso, não gosto nem um pouco dele.
---Você não tem que gostar. ---respondi secamente.
---Que ótimo por que eu realmente odeio o jeito como ele olha pra você. Como se você fosse propriedade dele. ---falou e pela primeira vez vi que ele não estava brincando ou sendo sarcástico. Ele estava com ciúme! E estava olhando para todos os lugares menos pra mim.
---Não sou. Digo, eu não sou propriedade dele. ---falei sem pensar. Ele olhou pra mim rápido. ---Nem de ninguém. ---completei desviando meu olhar do dele e desejando que os ratos aparecessem logo.
---Que bom, por que assim vai ser mais fácil pra mim. ---falou sorrindo. Me repreendi por que tinha acabado de dizer que não tinha namorado e que o caminho estava livre pra ele.
---Já volto. ---falei rápido saindo da mesa. Fui até Matheus, ele me olhou estressado. ---O que aconteceu?
---Não sabia se soltava ou não vendo que estava se divertindo tanto. ---falou ele irritado. O olhei o achando um idiota. Ele não via que eu olhava para os lados em cada cinco segundos?
---Bem, eu não estava. Você pode fazer alguma coisa? ---falei estressada.
---Precisa distrair ele, vou ter que me aproximar muito se quiser que eu bote dentro das calças dele. ---falou ele dando de ombros.
---Sério? ---falei. ---Tudo bem. Mas faça isso logo.
Voltei na mesa meio em pânico. Pensei em desistir dessa ideia louca de soltar ratos nas calças dos outros, mas me contive. Eu tinha que fazer isso. Para o bem da minha reputação.
---O que houve?
---Conte-me sobre sua vida. ---falei parecendo uma maluca. Ele me olhou assustado depois confuso.
---O que aconteceu? Você não parece bem.
---Eu não pareço? Impossível. Eu estou mais que bem, estou ótima, não se preocupe. ---falei e me mexi na mesa o que puxou o pano e derramou o refrigerante na blusa dele. Na blusa linda dele! ---ai meu Deus, como eu sou desastrada, me desculpe. ---falei honestamente, me levantando e tentando limpar a sujeira da sua camisa. Ele me analisou e disse:
---Não precisa. É só uma camisa. ---parei de limpar na mesma hora e vi Matheus se afastar da mesa levantando o polegar. Ele fez. Ai meu Deus. Vou morrer. ---Não precisa me olhar com essa cara de pânico, eu não vou te crucificar por molhar minha camisa!
---Desculpe, eu... ---não consegui terminar, queria meter minha mão nas suas calças e tirar o rato dali de dentro. Coloquei a mão na boca pra não gritar quando ele se mexeu desconfortável na cadeira. Me afastei e o olhei assustada.
---O que está fazendo? Por que está se afastando? ---ele olhou pra mim confuso, depois pareceu perceber algo. ---Vocês colocaram algo na minha bebida? ---disse depois deu um pulo na cadeira como se tivesse levado um choque. Levantou e bateu um pé no chão algumas vezes pra tirar o que tivesse subindo pelas suas pernas. ---Tem alguma coisa subindo... O que vocês colocaram nas minhas calças? AI!
Deu um grito. Eu acho que o rato mordeu ele.
---Desculpe, eu...
---O QUE VOCÊS COLOCARAM AQUI DENTRO?! ---berrou se sacudindo e prestes a tirar ás calças no meio do restaurante que só pra constar o olhavam assustados.
---Vá no banheiro. Agora! ---ordenei antes que ele tirasse ás roupas na frente de todo mundo. Ele saiu correndo e entrou no banheiro feminino, espantando varias mulheres que estavam lá.
---Tem um cara tirando a roupa no banheiro feminino! ---exclamou uma mulher saindo correndo.
---O que está acontecendo aqui? ---perguntou Cleandro vindo assustado na minha direção. Matheus se quebrava de tanto rir. Eu estava com medo. ---Aquele rapaz que saiu correndo era...
---sim. ---falei envergonhada. Ele continuou me olhando. ---Um rato subiu nas calças dele.
---Um rato? Fez o quê?
---Eu sinto...
---Não temos culpa se aqui anda cheio de ratos! ---se intrometeu Matheus. ---Os clientes correm perigo.
---Eu sei que vocês armaram isso e torçam pra ele não os denunciarem, por que juro que vão ser severamente punidos.
Eu e Matheus falamos ao mesmo tempo.
---Nós sabemos. Sinto muito.
---Como assim? Nós não fizemos nada!
---Espero que não tenham pegado ratos de esgoto pra fazerem essa brincadeira. Podemos ser todos processados. ---falou revoltado. Me senti muito mal.
---É tudo culpa minha. Queria afastá-lo daqui.
---Pensem um pouco mais nos outros antes de fazerem loucuras como essa novamente. Estão entendidos? ---falou sério. Fiquei com medo... E muito, mais muito culpada. Ele saiu com passos pesados e eu me virei para Matheus que não parecia nada abatido com a ameaça do chefe dele.
Ele olhou pra mim e deu de ombros.
---Fala sério, valeu a pena. Você viu como ele gritou? Meu Deus, aquilo foi hilário.
---Você não presta. ---conclui. Estava me sentindo muito culpada por ter colocado em risco a reputação do restaurante e colocado um rato nas pernas do cara mais legal que eu conheço. Dei um passo pra frente pra sair de perto de Matheus antes que o culpasse por um erro meu.
---Ah Sofia, não fique zangada comigo! ---falou me impedindo de andar, agarrando meu braço. ---Não me trate assim! Você me pediu pra fazer isso, lembra?
---Eu sei! ---explodi. ---Mas você não sente nem um pouco de arrependimento pelo que fez? ---exigi saber, ele deu de ombro o que eu esperava que fizesse. ---É claro que não. Você tem emprego fixo aqui. A única que poderia se prejudicar era eu. E realmente mereço isso depois do que eu fiz!
---Sofia. ---falou tentando me manter no lugar. ---Não iria deixar isso acontecer. E foi apenas uma brincadeira...
---Era isso que eu pensava também. Mas eu não faço a mínima ideia do que Christian vai fazer quando sair daquele banheiro. ---falei em pânico. ---Não sei se vai nos processar ou... ---já ia falar “ou parar de correr atrás de mim”, mas me contive por que era isso o que eu queria. Que ele parasse de correr atrás de mim. ---A gente ainda pode fechar o restaurante. E tudo será minha culpa.
---Minha também.
---Não. Como você disse, você só fez o que eu pedi. ---falei e sai me sentindo mais mal do que qualquer dia em que eu já tenha ficado.
Christian foi embora sem falar com ninguém. Vi ele saindo do restaurante meio cabisbaixo e isso me deprimiu. E se a mordida que o rato deu for contagiosa? E se ele pegar leptospirose? Não queria nem pensar.
Olhei pra Cleandro querendo saber o que aconteceu, mas ele não quis falar comigo, então fui ver se Clara ou Patrick sabiam de alguma coisa.
---Só sabemos que o cara não vai processar o restaurante. ---falou Patrick, mas eu via que ele estava decepcionado comigo e com o Matheus. ---Mas, disse que nunca mais irá comer aqui.
Arquejei. Não queria que essa fosse minha reação. Aconteceu exatamente o que eu queria. Não sabia por que estava tão triste.
---Tem certeza?
---Você esperava que fosse de outra forma? ---falou Clara rispidamente. Ela vinha com Matheus do seu lado e ele parecia envergonhado. ---Você e esse imprestável ---apontou pra Matheus. ---Fizeram uma coisa horrível. Espantaram um freguês que pagava muito bem, mesmo quando não ia realmente comer. ---ela terminou olhando fixamente pra mim. ---Nem quero saber o que os outros fregueses pensaram desse incidente...
---Nós avisamos á eles. ---respondeu Matheus baixo, ele parecia outra pessoa depois da conversa com Clara e fiquei curiosa.
---Ah! Vocês avisaram aos fregueses que iam soltar um rato neles?! ---ralhou ela abismada. ---Isso é cumulo da perdição!
---Sinto muito. ---falei sinceramente olhando pra ela e Patrick, que me olhava atentamente. ---Fui egoísta pensando só em mim. A verdade é que... ---pensei em dizer tudo o que sentia a respeito do Christian, mas ás palavras não saíram da minha boca, então só fiquei lá de boca aberta.
---Que...? ---insistiu Clara.
---Eu não gosto dele. ---menti tão claramente que todos arquearam á sobrancelha. ---Fiquei em pânico quando ele me pediu que almoçasse com ele. Cleandro me obrigou a ir. Mas não estou culpando ninguém. Só estou dizendo que eu queria ele fora da minha... Vida. ---falei meio sem ar por tentar esconder algo visível. Não queria. E isso era errado. Muito.
Ninguém falou mais nada depois disso. Clara pareceu relaxar um pouco como se não quisesse me pressionar, Matheus parecia irritado, e Patrick calmo como sempre;
Assim que cheguei em casa esperando deitar na minha cama e não pensar em nada, encontro minha família sentada no sofá na minha frente, esperando eu chegar. Eles sabiam. Meu coração pulou. Cleandro não quis nem olhar mais pra mim então ligou para os meus pais e disse que eu fui demitida. Entrei na sala devagar analisando a feição deles com apreensão. Não pareciam com raiva, mas sim chateados. Ou melhor, decepcionados.
---Filha, precisamos conversar. ---falou meu pai sério. Sentei, pronta pra minha sentença de morte. ---O que estava pensando? Quero dizer, foi muito irresponsável da sua parte.
---Sinto muito pai, vou arranjar outro emprego, eu sei que fiz algo errado e eu juro que não faria se eu tivesse pensado nas consequências, por favor, eu nunca iria querer magoar ninguém e... ---falei tão rápido que até eu tive dificuldade de entender.
---Arranjar outro emprego? Por quê? ---falou minha mãe rápido me interrompendo.
---Não fui demitida? ---perguntei com a esperança brotando em mim como uma flor.
---Não. ---falou meu pai ainda sério. Sorri aliviada e prometi a mim mesmo que Cleandro não iria se arrepender.
---Foi realmente muito errado...
---Eu sei mãe. É que... Não gosto...
---Se me disser que soltou um rato nas calças de um garoto só por que não gosta dele... ---falou meu pai.
---Principalmente depois que o garoto estava disposto a pagar seu almoço só pra ter sua companhia? ---falou minha mãe indignada.
---Só que... Eu... ---tentei dizer que não gostava dele, mas não consegui e em vez disso simplesmente olhei para o chão envergonhada por deixar um sentimento desse, me fazer soltar um rato no lugar que trabalho.
---Não vamos ficar chateados com ela não é gente? ---perguntou meu irmão, olhei pra ele e sorri.
---É claro que não. ---falou minha mãe sorrindo pra mim.
---Foi uma sorte Cleandro não ter mandado você embora. Fiquei realmente surpreso. ---falou meu pai ainda sério. ---Ele apenas disse que era pra eu dar um bom cascudo em você.
O olhei em choque. Meu pai explodiu em gargalhadas e me olhou dessa vez sorrindo.
---Brincadeira. Esse seu chefe é o dos melhores. Se importa com você e pediu pra ver o por que da sua loucura hoje. ---disse me analisando.
Olhei pra baixo de novo corando.
---Talvez devêssemos simplesmente deixar isso pra lá. Sofia não fará mais isso. Talvez ela só não vá com a cara desse sujeito. ---disse meu irmão querendo mudar o rumo da conversa o que me deixou desconfiada e aliviada ao mesmo tempo. Será que ele sabia alguma coisa?
---Ok! ---disse meu pai alto me assustando. ---Vamos assistir a um jogo.
---Não Arthur, hoje tem novela. É o meu horário na TV. ---falou minha mãe irritada. Meu pai bufou e disse:
---Essa novela maluca já ta me deixando louco! ---falou rindo da musica de “Salve Jorge”.
Eu subi aproveitando que tudo estava perdoado e deitei na cama completamente exausta, mas nem pude fechar o olho sem a porta se abrir rápido. Kevin entrou e fechou a porta me assustando.
---Foi ele, não foi? ---disse mafiosamente. Olhei pra ele aturdida, nem pude reclamar por entrar sem bater. ---Pode falar pra mim, não vou contar pro papai nem pra mamãe.
---Foi. ---falei rápido, não conseguia mentir para Kevin, ele conseguia tirar qualquer coisa de mim se quisesse. ---Ele está me perseguindo.
O que eu pensei em dizer não foi exatamente o que eu falei por que meu irmão arregalou os olhos.
---Temos que chamar a policia!
---Não desse jeito. ---falei cansada demais. ---Ele... Não está me fazendo mal. Só... Está me fazendo bem demais o que...
---É errado, eu sei. ---falou como se compreendesse. Acho que a amizade dele com um Vitoriano foi exatamente assim, e eu vi ele sofrendo quando meu pai expulsou o menino da escola. Mas ele foi forte por que sabia que era errado, e é isso que eu tenho que fazer. ---tem que ficar longe dele, Sofia.
---Eu sei. O problema só é eu conseguir. ---sussurrei meio perdida em pensamentos. ---Você sabe o que eu fiz hoje.
---É... Acho que você pegou pesado demais. ---falou rindo sem vontade.
---Desespero... Obrigado pelo que fez hoje. Lá na sala. Eu teria que inventar uma mentira e...
---Você é péssima. ---falou sorrindo afetivamente. Ele deve ter visto meu estado caótico por que completou: ---Vou deixar você dormir. Vai dar tudo certo.
---Espero. ---falei e vi ele fechando a porta. Me joguei na cama querendo que minha vida não fosse tão complicada e eu só tivesse que lutar pra ter meu teclado e passar de ano.
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