No Amor E No Futebol Vale Tudo!
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Depois de treinarmos uma hora em como andar com mais de uma bandeja e sem eu ter que ficar conversando pra fazer isso, eu já estava me sentindo melhor. Estava começando a andar como uma pessoa normal simplesmente pensando em alguma cosa que não seja a bandeja na minha mão.
---Teremos que parar agora. ---falou depois sorriu. ---Você está absolutamente perfeita.
---Não precisa exagerar, isso não se compara ao que vocês fazem aqui. ---sorri.
---Eu não estava me referindo á isso. ---falou com sorriso enorme, eu corei dos pés a cabeça e olhei pra outro lado, uma vez ou outra o Matheus falava algo que me deixava verdadeiramente constrangida, depois ele simplesmente mudava de assunto, o que me deixava aliviada.
---Estão preparados? ---perguntou uma voz que dava a impressão de estar sorrindo. Olhei e vi Marcus sorrindo abertamente.
---Preparados pra quê? ---perguntei assustada.
---Para o almoço. ---respondeu Matheus de má vontade. Parecia bem ruim.
---Ah. A pior parte. ---disse me lembrando.
---Tá aprendendo a servir, loirinha? ---falou Marcus rindo. Matheus suspendeu a sobrancelha surpreso pelo apelido que Marcus me deu.
---É, o Matheus está me ensinando. ---disse sorrindo.
---Está dando sucesso?
---Bem...
---Marcus, você não devia estar no caixa se certificando de que nenhum ladrão vá nos roubar? ---falou Matheus significantemente pra Marcus que não percebeu.
---Deixei Clara no comando... ---disse, depois de perceber o que a mensagem oculta quis dizer, se tocou. ---Ah, já vou, manda ver, loirinha.
E foi embora. Não entendi nada. Olhei para Matheus e o vi resmungando pra si mesmo.
---Loirinha... ---sussurrou pra si. Depois olhando pra mim continuou: ---Vocês já se conhecem de algum lugar?
---Não. ---respondi de imediato.
---Melhor ainda. ---resmungou. Fiquei curiosa pra ver como era a hora do almoço, e não precisei esperar muito, assim que voltamos para o salão principal o lugar já estava começando a encher. Respirei fundo e olhei ao redor sem saber pra onde ir. ---Não se preocupe, faça o que eu mandar.
Acenei incapaz de dizer qualquer coisa. Ele foi até uma mesa, que continha dois velhos e perguntou se já tinham escolhido um pedido, tentei memorizar cada pergunta pra quando eu fosse fazer.
---Eu quero... Duas porções de arroz e duas porções de feijão. ---falou um deles olhando o cardápio. Matheus anotava. ---Também quero uma porção de salada que vem com aquele molho suíço...
---Sim.
----E por fim, eu quero duas latas de refrigerante, uma coca e outra Fanta. ---disse. Matheus olhou pra mim, mas eu já tinha anotado. Ele sorriu e me tirou dali pra outra mesa.
---Eu quero toda essa parte. ---falou uma mulher gorda apontando pra uma parte grande de porções, Matheus continuou controlado e anotou o que precisou. ---E uma garrafa de Pepsi.
---Desculpe, não tem Pepsi. ---disse ele. ---Mas temos Fanta, Coca, Kuait, Sprit, Antártica, Soda, Sukita.
---Me trás qualquer um. ---disse a mulher sem paciência. Olhei pra ela abismada.
---Temos mais dez mesas pra atender, a senhora poderia fazer o favor de decidir qual refrigerante gostaria de beber? ---disse calmamente. Matheus me olhou surpreso e admirado, já a mulher apenas me olhou estressada, mas enfim se decidiu.
---Coca. ---disse grossa.
---Obrigado, traremos em um minuto. ---falei e fomos pra outra mesa.
---Você foi incrível. Nem barraqueira, nem displicente. ---disse Matheus sorrindo entre uma mesa e outra.
---Só não achei certo á mulher nos atrasar daquele jeito. ---falei tímida.
---Perfeita. ---disse. O ignorei e continuamos. Assim que terminamos de anotar os pedidos, fomos a uma bancada onde do outro lado ficava a cozinha.
---Garçonete! Moça! ---chamou alguém em uma mesa qualquer. Olhei pra trás e encontrei uma mulher com duas crianças penduradas no colo. Ela não esperou eu ir até ela, veio até onde eu estava com Matheus e me olhou como se eu fosse alienígena.
---Fiquei te chamando um tempão. ---reclamou. Não sabia o que dizer. Queria dizer umas verdades pra aquela senhora, mas sabia que não era certo, então olhei pra Matheus que se esforçava pra não rir.
---Bem, senhora, somos apenas dois. ---disse se contendo. ---Mas, por favor, nos relate o problema.
---O problema é que acabaram as mesas, não tem lugar pra se sentar! ---exclamou como se o mundo fosse acabar por causa disso. ---Espero que tenham uma solução pra isso.
Clara e Patrick nos observavam esperando nossa reação. Clara parecia querer estrangular a mulher. “A senhora terá que esperar os outros clientes terminarem de comer, por que não podemos simplesmente expulsa-los no meio da refeição.” Pensei. Seria uma ótima resposta, mas antes que eu falasse, Matheus disse:
---A senhora vê alguma mesa a qual a senhora possa usar? ---disse rispidamente.
---Não, e é exatamente isso que...
---Então... Eu sugiro que ou a senhora espere alguma mesa esvaziar ou vá comer em outro lugar, por que infelizmente não posso fazer nada a esse respeito. ---disse, ela olhou pra ele estressada, mas falou:
---Tem algum lugar em que eu possa esperar?
---Sim, senhora. Ali nos fundos tem um sofá e uma televisão. ---falou ele apontando sorrindo para os fundos. Eu sorri vendo a mulher sair com o rabo entre ás pernas.
---Como você fez isso? ---perguntei admirada.
---Com clientes assim, temos que ser cruéis de um modo educado. Com o tempo você aprende. ---disse sorrindo.
---Eu estava pensando em dar uma dura naquela mulher. ---disse Clara.
---Tenho pena dos filhos dela. ---completou Patrick enojado.
---Então, vamos logo por que mais gente está chegando. ---falei.
---E ainda temos que pegar o pagamento das pessoas que terminaram de comer. ---falou Matheus. Muito trabalho. Bem que eles disseram que era a pior parte.
---Onde estão os pedidos? ---perguntou Clara estendendo a mão.
---Aqui está o meu. ---falou Matheus entregando á ela. ---Do jeito que você gosta.
---Como assim? ---perguntei confusa.
---ah sim, deixa eu ver o seu. Será mais rápido se tive organizado. ---disse pegando meu papel e lendo.
Dois velhinhos: Duas latas de refrigerante: Coca e Fanta.
Mulher gorda: Uma garrafa de Coca.
Homem divorciado: Uma lata de Skin.
Garoto adolescente: Cerveja
Família de dez pessoas: Cinco garrafas: Duas de Coca, duas de Fanta, e uma de Sprite.
Idoso Bondoso: Uma lata de Skol.
Mulher TPM: Duas garrafas de Fanta.
Homem espinhento: Uma cerveja.
Garoto solitário: Um suco de Laranja.
Mulher gravida: Duas cocas.
Homem de paletó: Uma Kuat.
Assim que ele terminou de ler me olhou admirado. Um pouco surpreso também.
---Bem, eu coloquei meu ponto de vista deles pra eu não me esquecer de quem é cada coisa. Dá pra entender? ---falei achando que talvez não entendam minha letra.
---Quem não entender é debimental! Está super organizado. ---falou Matheus sorrindo dando a Clara que analisou, depois de um minuto ela me olhou e sorriu:
---Acho que na verdade foi um alivio terem demitido a Neusa. Você é demais!
---Até eu to curioso, deixa eu ver. ---disse Patrick, eu já estava ficando vermelha. ---Caramba! “Mulher TPM”? “Homem espinhento”? Amei!
---Pelo menos, não vou me esquecer. ---disse corada. Depois olhei pro Matheus. ---Como você organiza ás coisas?
Ele sorriu como se o que ele fosse falar fosse me constranger.
---Bem... Eu anoto o nome da mesa... ---falou vendo minha reação. Pronto! Agora eu sou uma idiota completa.
---Isso quer dizer... ---falei depois cobri meu rosto de vergonha. ---Não acredito que eu anotei o físico da pessoa em vez de...
---Você não sabia! Alguém devia ter te contado... ---falou Clara olhando significantemente pra Matheus que deu de ombros.
---Eu pensava que ela sabia e só queria fazer aquilo por diversão. ---disse simplesmente.
---Idiota. ---murmurou Clara, eles pareciam tão íntimos um do outro que eu tive que perguntar.
---Vocês são namorados? ---perguntei normalmente. Clara começou a rir histericamente e Matheus olhou pra mim indignado.
---Quê? ---disse.
---Obvio que não! Deus me livre! ---riu Clara. ---Esse ser insignificante é meu meio-irmão.
---Irmão. ---corrigiu ele. ---Que mania de dizer “meio”, Como se fosse possível ser “meio” irmão de uma pessoa. ---disse Matheus ainda indignado. Fiquei constrangida por ter feito aquela pergunta.
---Claro que é possível, você é filho apenas do meu pai, não da minha mãe. ---disse Clara num tom educativo.
---Tá, tá o papo ta bom, mas eu tenho muita comida pra fazer, vocês se virem nos trinta e venham pegar daqui há uns trinta minutos a comida. ---falou Patrick batendo a janelinha na nossa cara. Eu olhei pra Matheus e ele olhou pra mim, começamos a rir sem mais nem menos.
---Não acredito que pensou que eu era namorado da Clara. ---disse realmente parecendo indignado, mas rindo.
---Também não sei por que perguntei aquilo. ---falei rindo.
---Ficou com ciúmes? ---disse brincando, eu o bati de leve e ele se fingiu de ofendido. Era muito fácil gostar daqueles três.
---Não, eu simplesmente vi que vocês eram muito íntimos... ---falei, ele apenas riu descrente.
Depois de trinta minutos em que ouvimos gente chamando desesperado como se fosse morrer se não entregássemos a comida á eles, eu fiquei pegando ás bebidas. E eu pensei que iria ter um ataque quando eu vi que não tinha Fanta! Matheus estava entregando ás comidas, enquanto eu olhava o papel descrente. Muita gente quer Fanta! E eu não vou levar pra eles por que não tem! Eu estava ficando desesperada.
Não podia puxar o Matheus e perguntar á ele, por que ele estava ocupado, então fui até o caixa.
---Marcus? Preciso da sua ajuda. ---ele me olhou preocupado, provavelmente pela minha cara que parecia que alguém tinha morrido.
---O que houve? É algum cliente procurando barraco? ---Perguntou de imediato.
---Não, mas é capaz de procurarem se eu não entregar uma coisa á eles. ---disse desesperada. Ele me olhou agora se contendo pra não rir.
---E o que é? ---disse cerrando os lábios, se contendo.
---Acabou o refrigerante Fanta! E muita gente da lista pediu ele. Não sei o que fazer, eu... ---falei mostrando a lista á ele, mas fui interrompida pela sua gargalhada. Fiquei olhando pra ele indignada e desesperada, mas ele fingiu enxugar umas lagrimas dos olhos e me olhou com um sorriso enorme.
---Você é uma garota estranha. ---disse, mas não como um insulto. ---Mas, muito interessante, com certeza. Não se preocupe com isso, coloque outro no lugar.
---Mas, como vou saber do que eles gostam? E se eles brigarem comigo por trazer o refrigerante errado? ---perguntei desesperadamente.
---Pergunte á eles primeiro. ---falou sorrindo. ---Ou prefere que eu vá com você?
Não podia pedir á ele isso por mais que eu quisesse. Eu teria, então, que resolver meus problemas. E iria.
---Não é necessário. ---falei séria, tentando me recompor. ---Vou falar com eles. Eles terão que entender, certo? ---acrescentei nervosa.
---Com certeza. Qualquer coisa dá um grito que eu vou lá. ---ele estava brincando, é claro, mas me senti melhor sabendo que alguém iria me socorrer se algo desse errado. Esperava que não.
---Ok. Tchau. ---falei e sai. Voltei até o frigobar gigante e dei mais uma olhada por via das duvidas, não tinha nada. Amaldiçoei Matheus por não ter me falado antes. Fui para a primeira mesa que pediu Fanta, olhei meu caderninho de anotações e vi que a primeira mesa era a dos dois velhinhos. Eles pediram uma lata de Coca e outra de Fanta. Fui até lá.
---Olá. ---falei sem jeito. Eles nem olharam pra mim. Estavam conversando entre si. ---Olá. ---falei mais alto. Os dois me encararam na mesma hora. ---Com licença, eu trouxe a Coca que os senhores pediram, mas...
---E a Fanta?
---Exato, a Fanta... Bem, não tem. ---disse nervosa esperando que eles não tivessem um ataque cardíaco. ---Eu devia ter xecado antes e peço desculpas pelo mal entendido e espero que não seja muito incomodo pedir outro lugar da Fanta. ---disse.
---Tudo bem, Traga uma Pepsi. ---disse o velhinho da esquerda.
---Não tem também. ---falei achando que a situação não podia ficar pior.
---Não tem nenhum refrigerante nesse lugar? ---perguntou indignado o da direita.
---Sim, quero dizer, tem Sprite, Antártica, Kuat, Soda, Coca, tem Sukita que é parecida com a Fanta, bem gostosa. ---falei tentando persuadi-los.
---Trás essa Sukita pra gente, mas se não gostarmos, vamos querer desconto. ---brincou o da esquerda. Aposto que eles vão dizer que não gostaram, só pra ter desconto.
---Vou trazer, então. ---disse saindo. Trouxe pra eles, depois fui até a grande Família dos fundos. Tinha umas dez crianças sentadas, fiquei em pânico. Me aproximei deles e falei:
---Olá. ---disse levando na bandeja com tudo menos as duas garrafas de Fanta. Despejei tudo na mesa e vi umas quatro crianças se virarem interrogativamente pra mim.
---Cadê a nossa Fanta? ---perguntou uma garota.
---Não tem Fanta, peço desculpas pelo mal intendido e... ---eu ia repetir todo o discurso da outra vez quando um menino começou a chorar. Eu olho pra ele assim como todo o restaurante. ---Não chore, tem outros sabores também...
---EU QUERO FANTA! ---berrou ele chorando. A mãe olhou pra mim como se e fosse culpada por seu filho está chorando e de certa forma eu era.
---Sinto muito.
---Pedimos Fanta, e você disse que tinha. ---acusou a mãe.
---Eu sei, mas infelizmente eu não tinha xecado antes e me enganei.
---Então não devia ter confirmado até ter xecado. ---despejou ela. Fiquei em pânico. O que eu faria agora?
---Não querem pedir outro sabor? Sinto muito, mas não posso fazer nada a respeito.
---O erro foi seu e você não pode fazer nada a respeito? ---perguntou a mãe. Eu já estava me estressando, essa mulher queria que eu fizesse o que?
---Infelizmente não. ---respondi irritada.
---O que está acontecendo? ---perguntou Matheus se aproximando.
---Pedimos Fanta e ela disse que tinha, mas agora diz que não. ---falou a mulher.
---Então a resposta é obvia, terão que fazer outro pedido. ---respondeu Matheus rispidamente.
---Mas a culpa é de vocês, queremos o que pedimos. ---falou a mulher. Eu queria pular em cima dela e dar uns bons tapas na sua cara, mas não queria me comparar a Karen, agora eu a entendo.
---Então faremos o seguinte, como o erro foi nosso e não queremos mais confusão nesse estabelecimento, um acordo será feito. Vocês terão um desconto de 20%. Ou seja, em vez de pagarem 60 reais, irão pagar 48.
Fiquei chocada e assustada. Ele podia fazer isso? A mulher pareceu aceitar.
---Eu deixei grátis dois refrigerantes de qualquer sabor. Mas devo avisar que só foi feita essa negociação para reparar um erro nosso. ---disse e me puxou para um canto. ---Desculpe te colocar nessa, eu sempre faço a revisão antes de servir. Hoje eu me esqueci.
---Não tem problema. Mas acho que pode ter problema pra você. Você pode dar descontos pra Clientes? ---Perguntei.
---Não. ---sussurrou. ---Mas ninguém precisa saber disso, certo?
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