No Amor E No Futebol Vale Tudo!
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Meu primeiro dia em um turno novo. E meus pais vão junto.
Eu tinha falado á eles que decidi mudar de turno, meu pai achou estranho essa ideia, minha mãe abominou ainda mais sabendo com que tipo de gente eu teria que lidar. Mas com muito esforço eu consegui faze-los aceitar como uma preparação para o futuro. Meu irmão adorou a ideia de ver gente bêbada dançando na frente dos outros, o que me deu apoio.
Mas em troca desse convencimento, eu prometi leva-los para o meu primeiro dia num turno novo, o que indica que já era e vão me obrigar a trocar de novo. Nem eu sei muito bem como vai ser, provavelmente vou me surpreender tanto quanto eles.
Eram seis hora e Cleandro me esperava na frente do restaurante. Quando ele viu meu pai e minha mãe e ainda um de menor, tomou um susto e me olhou indignado como se fosse minha culpa minha família querer me ver trabalhar.
---É bem, vocês devem ser a família da Sofia. ---falou ele.
---Sim.
---Sofia? ---se dirigiu a mim meio constrangido. ---Seu turno é das seis ás dez da noite. Acho que eu já te falei isso.
---Não falou.
---ótimo então agora você sabe. ---disse respirando fundo. ---Só pra que vocês saibam, eu não obriguei a Sofia a trocar de turno, ela escolheu por vontade própria e...
---Eles já sabem, Cleandro. ---falei pra que ele parasse de tagarelar. Eu já estava ficando nervosa.
---Bom... Então acho que podemos entrar. ---falou parecendo sofrer por dentro. Entramos no restaurante e me surpreendi com a diferença de aparência entre um turno e outro. Quero dizer, o lugar parecia um bar de verdade agora. Eu vi um pequeno palco no fundo onde tocava um cantor de arrocha. As mesas pareciam conter apenas cerveja e copos. Ainda tinham poucas pessoas por causa do horário, mas já conseguia imaginar quando isso ficasse pior. Olhei para os meus pais e vi o choque no rosto deles. Meu irmão achava graça.
---Você vai servir só cerveja praticamente. É mais fácil de lembrar também. ---falou Cleandro tentando descontrair. ---Sua família já pode escolher uma mesa.
Minha família não parecia muito ansiosa em ficar naquele lugar, já eu estava ansiosa em começar a trabalhar nele. Eu já conseguia sentir que não iria ficar entediada. Cada dia seria um novo dia nesse lugar, com certeza.
---Podem ir, não se preocupem. ---tranquilizei-os.
---Qualquer coisa que pedirem fica por conta da casa. ---tentou Cleandro sendo realmente compreensivo. Minha mãe não se deixou levar, mas meu pai abriu um sorriso e puxou todo mundo pra mesa. ---Venha, vou te apresentar para os seus novos colegas.
Remamos para a outra parte do restaurante que parecia mais um bar agora.
---Loirinha! ---chamou alguém atrás de mim, olhei pra onde a voz vinha e sorri. Marcus sorriu de volta surpreso. ---O que está fazendo aqui? Veio conhecer outro turno?
Depois do choque inicial de encontra-lo falando comigo de novo, falei:
---Não. Sou desse turno agora. Resolvi mudar. ---falei tentando não incluir nossa conversa, estava muito feliz por ele não estar chateado comigo.
---Interessante. Mas e os outros? ---falou confuso. ---Como eles reagiram a essa mudança?
---Mal. Mas eles vão ficar bem. Vamos nos ver ainda. ---falei sorrindo.
---É por isso que você veio com aquele papo de tedio? Você acha que aqui não vai ser entediante?
Fiquei calada, não sabia o que dizer na verdade. Eu realmente achava que seria menos entediante?
---Se achou isso, está absolutamente certa. Aqui é cada dia um novo dia. ---falou dando de ombros. Essa resposta aliviou minha noite.
---Que bom.
---Desculpe á interrupção, mas ela tem que trabalhar. Depois vocês conversam. ---falou Cleandro me puxando pra um canto. Nós encontramos quatro homens adultos e fortes levando umas garrafas de cerveja para o frigobar. Quem eram eles? ---Pessoal. ---chamou Cleandro para os grandalhões que olharam pra ele, e depois pra mim, confusos. ---Essa aqui é a nova integrante do grupo. Sofia vai trabalhar com vocês nesse turno a parti de hoje.
Uns dois apenas confirmaram, sem se importar, e os outros dois pareciam ter levado um choque. Me olharam surpresos e confusos.
---Ela escolheu por vontade própria? ---perguntou um que parecia ter uns vinte e cinco anos. Forte e loiro.
---Sim. Eu sei que parece estranho...
---Total.
---... Mas Sofia escolheu fazer parte desse turno, por que estava muito entediada com o outro. ---Me senti envergonhada com todos aqueles caras enormes olhando pra mim. Me analisando, como se eu fosse um alienígena.
---Ela estava entediada? ---perguntou um rindo. ---Eu posso imaginar.
---O primeiro turno é moleza, você só tem que entregar os pedidos, aqui tem de tudo. Até trafico de drogas... ---só que ele parou de falar quando o loiro deu um murro de braço dele.
---Você não tem certeza que eram drogas.
---Você acha o que? Que eram pastilhas de menta?
---Cala a boca, idiota. ---falou o loiro meio envergonhado.
---Vocês podem parar de assustar a garota? ---falou um homem de cabelo pra cima cheio de gel, ele parecia ter uns trinta anos.
---Calem a boca todos vocês. ---disse Cleandro revirando os olhos. ---Sofia, esses quatro são o que você vai ter que aguentar. Esse é o Marcelo. Ele é menos mal. ---apontou para o loiro, ele acenou educadamente. ---Jorge. ---ele apontou para o de cabelo em pé. Ele sorriu amigavelmente. ---Carlos. ---Apontou para um de cabelo preto liso, ele é que estava falando das balas de menta. ---Victor. ---apontou para um que eu nem tinha notado direito até aquele momento, ele parecia um drogado em reabilitação. Usava roupas rasgadas e um corte de cabelo que parecia ter sido feito com faca cega.
---É um prazer. ---falei constrangida, o povo daqui era muito mais opressor do que os do meu turno, não por que queriam ser, acho que é por serem mais velhos e enormes.
---Você vê Sofia, que só tem homem? ---falou Cleandro, eu assenti. ---Você sabe por quê? Por que você só vai encontrar mal educado, bêbados e drogados aqui. Tem que saber se defender.
Oh Deus.
---Eu sei Karatê. ---afirmei em duvida. Todos riram, inclusive o drogado em reabilitação, Victor.
---Não vai ser suficiente. ---e ele só me fala isso agora? ---Mas não se preocupe, os meninos vão cuidar de você.
Todos assentiram, me encorajando. Eles só me assustavam mais.
---É tão perigoso assim? ---eu começava a não querer fazer parte dessa loucura. Afinal, eu não queria morrer.
---Nem tanto. Ás vezes temos a má sorte de encontrar um maluco e tal, mas nem sempre acontece. ---falou Marcelo.
--- E eles não machucam ninguém realmente, entendeu? Eles só são grosseiros e você tem que saber lidar com eles. ---falou Jorge.
---Você, por seu mulher pode correr mais risco, já que eles não acham que você vai machucar eles de alguma forma. ---Falou Carlos.
---Ás vezes você só consegue controlar esses desgraçados ameaçando. E eles não vão acreditar em você se o fizer. ---falou Victor malignamente. Tremi.
---É ai que eles entram. Eles vão ameaçar por você---falou Cleandro apontando para meus colegas parecendo adorar a apresentação de boas vindas. ---Victor e Jorge são garçons como você. Marcelo e Carlos são cozinheiros, mas ajudam nos pedidos também se precisarem.
---Ok ---falei reunindo toda a coragem que ainda me restava. ---Obrigado. ---completei olhando pra eles. Eles sorriram amigavelmente pra mim, menos Victor que revirou os olhos como se fosse obrigado a me salvar caso um maluco se meta comigo.
Não sabia o que fazer, nem pra onde ir então só fiquei parada esperando que algum milagre acontecesse.
---Pode anotar os pedidos, Sofia. É a mesma coisa de sempre. Entregue os pedidos á Marcelo e Carlos. Victor e Jorge vão te ajudar nos pedidos. Podem começar. ---falou Cleandro sorrindo. Eu saí apressada pegando uma bandeja qualquer e partindo pra guerra. Nenhum dos homens falaram comigo, o que eu agradeci já que eu me sentia muito constrangida e oprimida. Tá pode me chamar de maluca.
Fui á todas ás mesas e todos pediram cerveja. Muito mais pratico, mas nojento. Tinha só adultos, e só tinha uma criança, meu irmão. Ele foi o único que pediu refrigerante. Tive que buscar nas profundezas do inferno pra achar um refrigerante qualquer que por acaso estava soterrado entre os montes de cerveja, o que eu achei repugnante.
---Isso é errado! ---falei sem pensar pra Jorge. ---Como pode ter apenas cerveja? Não acham que isso é generalização demais não?
---Pode ser. Mas é que ninguém menor que 18 anos vem aqui depois das seis. Pode ter certeza que esse lugar não é normal. ---falou sorrindo. ---Você é a primeira garçonete de menor que já trabalhou aqui. Boa sorte.
---Devo me sentir lisonjeada? ---perguntei sorrindo.
---Não. ---e riu. ---Vamos logo. ---Fui com ele e nos separamos quando fui entregar o refrigerante pra minha família. Eles olharam pra minha cara de forma nada agradável. Eles pareciam indignados, e chocados com o local em que eu trabalhava.
---Demorei por que não conseguia achar refrigerante...
---Esse lugar é desprezível. ---exclamou minha mãe assustada.
---Não é tão ruim assim! ---defendi.
---Ruim?! Seu irmão foi ao banheiro e disse que tinha um homem e uma mulher fazendo coisas... Inadequadas pra idade dele! ---disse meu pai indignado.
---Eu tenho 12 anos! ---falou meu irmão irritado.
---É uma criança ainda. ---falou minha mãe. ---Encontrei dois homens fumando alguma coisa no porão também.
---O que você foi fazer no porão? ---perguntei.
---Eu fui examinar o local e não gostei do que encontrei. ---disse emburrada.
---Além da musica de péssima qualidade. ---falou meu pai apontando para o cantor de arrocha que parecia estar com diarreia. Tive vontade de rir da cara dos meus pais, mas me controlei. ---Eles podiam colocar uma musica clássica.
---Não sabia que Cleandro permitia maconha em seu restaurante!
---Pessoal! De noite esse lugar não é um restaurante. É um bar. E daqueles tradicionais, sabe? Acabei de saber que ninguém de menor vem aqui. Então... Não fiquem surpresos se virem gente fumando alface por aqui, ok! ---falei. ---Não por que Cleandro permite e sim por que os jovens que frequentam esse lugar são... Desclassificados. ---Completei vendo a cara dos meus pais.
---Então é provável que fique bem pior do que já está, não é? ---perguntou meu pai, mas relaxado.
---Bem provável. ---falei sendo sincera. ---Acho melhor vocês irem. Até por que isso aqui não é lugar para o Kevin ficar.
---Eu tenho 12 anos!
---Tem razão. ---falou meu pai ignorando meu irmão. ---Vamos embora, mas não pense que você vai ficar aqui. Pode ir se despedindo.
---Nem pensar! É o meu trabalho. E vou me dar bem. Pai, confie em mim. ---falei implorando. Ele me olhou revoltado porque sabia que iria ceder.
---Ok. Mas tome cuidado e se eu souber que aconteceu alguma coisa com você, vou processar todo mundo, está ouvindo? ---falou ele. E não duvidava.
---Pode deixar. ---falei com medo. Eu precisava provar que era boa nessas coisas. Provar que mesmo com esse lugar de malucos eu conseguia sobreviver. Minha família foi embora ás pressas e dando olhares reprovadores pra todos que entravam.
---Será que esse homem não vai parar de cantar? ---perguntou Victor estressado uma hora depois, eu olhei para o cantor de arrocha e comecei a rir, ele estava rebolando no palco cantando uma musica agoniante. ---Está rindo? Daqui a duas semanas vai preferir ficar surda!
Eu dei de ombros, por que na verdade achava essa situação muito engraçada pra ficar irritada.
Nove horas da noite o bar já estava lotado. E muitos jovens estavam agrupados em mesas e gritando.
---Não se preocupe, são os novatos. ---falou Jorge. Me lembrei do que Marcus falou pra mim e me contrai.
---VAMOS BEBER! ALGUÉM PODE TRAZER UMA 51 PRA MIM E PARA OS MEUS AMIGOS? SOMOS MAIOR DE IDADE! ---berrou um que parecia já estar bêbado.
---É isso aí, eu quero uma cachaça, imagine o quanto vai nos deixar doidos. ---falou um rindo sem parar. Tive vontade de rir, quando um deles subiu no palco e arrancou o microfone do cantor de arrocha, que ficou indignado.
---Para de cantar essa desgraça de arrocha, com essa voz de boca de fumo. ---falou um no microfone, o cantor pareceu ofendido e se retirou do palco xingando todo mundo e exigindo reembolso.
---Amém. ---falou Victor sorrindo. Jorge parecia atordoado vendo a cena grotesca, mas se controlou e foi até os garotos para fazê-los parar.
---O que eu faço? ---perguntei vendo a mulvuca que acontecia com a chegada dos jovens.
---Se esconde. ---falou Victor brincando. ---Simplesmente não se meta em confusão. Atenda ás pessoas normais.
---Como eu vou saber quem é normal?
---Só Deus sabe. Apenas fique longe desses manés, eu e o Jorge vamos dar um jeito neles... ---de repente seu rosto se contorceu de raiva. ---Filhos da mãe, trouxeram maconha.
---Quê? ---mas ele saiu apressado me deixando sozinha. Ninguém parecia querer mais cerveja naquela hora e eu já estava me retirando quando ouvi alguém gritando:
---EU QUERO QUE AQUELA GARÇONETE ME ATENDA! ---berrou um garoto, e eu me virei totalmente aturdida, todos olhavam pra minha cara. Jorge parecia que ia passar mal, mas Victor se continha pra não rir. ---NÃO QUERO MAIS NINGUÉM, QUERO ELA!
---É, mais você vai ter que se contentar com o nosso atendimento. ---falou Jorge trocando a cara de desespero para irritação. ---E faça o favor de sair de cima da mesa, ou se não terei que expulsá-lo.
---Não... ---falou o garoto que parecia ter uns 19 anos. ---Nem pensar, nada de expulsão, eu quero paz. E é por isso que eu quero que aquela garota me atenda. Pago mais, pode deixar.
Ótimo, eu estava em pânico.
---Sim, meu irmão, só que a vida não funciona assim, entendeu? ---se irritou Victor que agora parecia querer matar o cara. Eu tinha que ajuda-los. Afinal, esses garotos não iriam me machucar.
---Esse menino vai ficar gritando aí? ---falou um velho bebendo seu 51. Fui andando até a mesa com a voz de um garoto que resolveu mostrar seu dom de cantar bem nessa hora. Cadê Cleandro quando a gente precisava dele?
---Aqui estou eu. ---falei reunida toda a calma que ainda continha. ---Pare de gritar e aja como uma pessoa civilizada, por favor.
O garoto começou a rir da minha cara, o que eu achei constrangedor.
---Mas eu não sou uma pessoa civilizada...
---Vai aprender a ser aqui, se não quiser ser enxotado pra fora do bar. ---falei firme, Jorge e Vitor me olharam admirados. Mas eu estava preocupada de que de repente eles fossem cair pra cima de mim, talvez Jorge fosse me salvar, mas Victor...
---Tudo bem florzinha, mas me faça feliz e traga umas dez garrafas da grande de cerveja. –falou ele, todos os seus amigos aplaudiram a escolha de palavras do amigo. Eu olhei pra Jorge e Victor e ambos assentiram me confirmando que tinha dez garrafas grandes de cerveja.
---Vou trazer, enquanto isso, fiquem quietos. ---falei, todos balançaram a cabeça rápido, e eu sorri um pouquinho. Eu sabia lidar com eles, por que lido com esse tipo de garotos todos os dias na minha escola.
---Você é a cara. ---falou Jorge impressionado.
---A cara da coragem. Aqueles tipos de garotos vêm todo dia aqui e só funcionam na base da policia. Não sei como você conseguiu. ---falou Victor balançando cabeça, abismado. Sorri satisfeita. Afinal tinha conseguido fazer algo que nem eles conseguiam. Atendi aqueles idiotas e consegui, com a ajuda dos meninos, mandar aquele cantor horrível de arrocha voltar a cantar, por mais que eu realmente preferisse ele bem longe do palco. Dinheiro é dinheiro.
---Sofia, você pode levar isso aqui para o Marcelo? ---perguntou Marcus quando passei por ele. Ele me entregou uma sacola de cebola.
---Quem foi que mandou isso pra ele? ---quis saber.
---Foi um velhinho que pensou que a cerveja era de graça e disse que não tinha dinheiro, mas tinha cebola. ---falou Marcus se contendo pra não rir.
---Mas por que o Marcelo?
---Não é pra ele exatamente, é pra nós. Só que o Marcelo é que faz a comida, então. ---falou sorrindo. Eu ri, e já ia dar meia volta pra entregar as cebolas para o Marcelo quando ouço uma gritaria vinda da frente do bar. Marcus se assusta também e pega minha mão, me puxando pra trás e ficando na minha frente. ---Que merda é que está acontecendo aqui de novo?
---De novo? ---perguntei assustada.
---Ás vezes acontece uns barracos que é de arrepiar. Tudo de ruim está acontecendo hoje, por que você está aqui? ---falou irritado, mas sorriu.
Fale com o autor