Assim que toco com os pés na areia, trato de me livrar do pára-quedas, Ethan olha para mim com um sorriso que avisa para começarmos a encenar.

– Parabéns! Ótimo vôo! – Ele diz também se livrando do pára-quedas.

– Obrigada, foi emocionante! – Cena completa; observo discretamente as pessoas sorrindo diante da nossa cena, nem desconfiam de que foram trouxas a acreditarem nisso.

Nós embrulhamos os pára-quedas e saímos caminhando com eles, até encontrarmos uma lata de lixo grande o bastante para eles caberem.

– Acho que deveríamos ser atores depois daquela cena na praia. – Ethan vem para o meu lado e fala obviamente se divertindo muito.

– Também acho, mas já fiz cenas melhores. – Rimos.

– Para onde vamos?

– Vamos pegar um ônibus até San Luis Obispo depois partimos para São Francisco. Tenho que achar Theo e Phillip. Você tem dinheiro?

– Trouxe na mala ou pouco.

Andamos pelas ruas com uma bolsa cheia de armas e ninguém nem sequer desconfia.

Como o ser humano é ingênuo.

Chegamos ao terminal de ônibus e vamos pedir informações dos horários, pois podemos saltar fugir de uma ilha, pular de um helicóptero, de um avião e chegar de pára-quedas na Califórnia, mas não sabemos o horário nem o preço de uma passagem de ônibus para São Francisco.

De Santa Monica, pegamos um ônibus para San Luis Obispo e de lá pegamos outro para Monterey para pegarmos outro para São Francisco.

Depois de muitas viagens, chegamos a São Francisco as sete da manhã. O fuso horário estava me afetando.

– Para onde vamos agora? Não suporto mais andar de ônibus.

– Para a minha casa, também não suporto mais andar de ônibus. Mas até lá, teremos que pegar outro.

Entramos dentro de outro ônibus e chegamos á duas ruas antes da espécie de condomínio em que eu vivia.

– Quase chegando...

Andamos mais um pouco, o sol torrando minha cabeça.

Quando cheguei ao condomínio eu quase chorei de emoção.

– Chegamos. — Falei mais alegre impossível.

– Você mora aqui? – Fala Ethan, espantado.

– Sim, algum problema?

– Nenhum.

Cumprimento o porteiro do condomínio, que rapidamente me reconhece e dá um sorriso e diz que eu posso entrar; entro.

Vou até a casa de dois andares azul-céu, ou “azul cor de meus olhos” e abro a porteirinha branca.

Bato na porta com o coração a mil, a saudade me corroendo e as mãos tremendo.

Escuto o barulho das chaves girando na porta e meu coração quase para. A porta se abre.

Theo.

Theo o amor da minha vida.

Theo o meu psicopata favorito.

O Theo que eu amo.

– Bella. – Ele fica boquiaberto ao me ver ali parada na porta dele.

Pulo nos braços dele, chorando – isso já ta virando costume, acho bom parar. -.

– Onde você esteve? Senti tanto a sua falta... – Ele fala baixinho no meu ouvido. – Phillip achou que você estivesse morrido, mas eu sempre soube que você não ia se deixar ser morta por quem quer que seja. Eu te amo tanto... – Até este momento eu não havia falado nada, o choro havia me consumido. O choro que eu guardei tanto dentro de mim desde a noite da banheira.

– Eu também senti muito a sua falta, e eu te amo tanto que... Que... – Meus olhos ardem de tanto chorar.

– Não precisa falar nada... – Ele me abraça tão forte que eu mal posso respirar, mas eu não ligo. O que importa é que eu estou novamente com Theo. A dupla psicopata está de volta.

– Ahn, eu estou aqui ainda. – Fala Ethan pouco depois. Theo me solta e olha fixamente para ele com a raiva estampada em suas feições.

– O que você está fazendo aqui? – Ele pergunta, o clima do nada ficou tenso; tenho que falar alguma coisa antes que eles comecem a se matar.

– Theo espere. – Ele olha para mim. – Ethan me ajudou a fugir de Annelise.

– Ethan te ajudou? E quem diabo é Annelise?

– Sim eu a ajudei a fugir da Condessa Annelise Heliont, ela é a chefe de uma possível máfia. Foi ela que me mandou seqüestrar Bella e a levar para uma ilha chamada Martim Vaz, do arquipélago Trindade e Martim Vaz. Bella era a encomenda dela. Annelise queria alguém que matasse seus inimigos. Mas quando descobriram que Anny, sua irmã, havia sido morta lá na ilha, as pistas apontaram diretamente para Bella, que no outro dia havia tido uma leve troca de palavras com a falecida. E como a responsabilidade de Bella era minha, tivemos que fugir, porque Annelise queria matar Bella, se Bella morresse, eu também morria. E eu gosto muito de estar vivo. – Falou Ethan, largando as bolsas no chão.

– Então você agora se considera confiante? – Falou Theo.

– Não, nem um pouco.

Desisti de escutar aquela conversa sem pé nem cabeça e entrei em casa.

O cheiro de café logo chegou ao meu nariz.

Fui até a cozinha, que estava uma zona. Uma área de extremo risco. O risco era você se perder ali dentro.

– Mal eu saio e essa casa parece que entrou um furacão e revirou tudo. – Falo para mim mesma.

Saio da cozinha e subo a escada; vou direto para a ultima porta.

Tudo está como antes; antes de irmos para o Brasil e tudo virar uma tremenda confusão.

Meu livro com o marcador em cima da poltrona; a pilha de livros em cima da mesinha; as almofadas espalhadas no tapete.

Fico uns minutos absorvendo aquele cheiro de livros e café encostada na porta.

Lembro-me do dia em que Theo e eu estávamos, podemos dizer, brigando e uma caixinha é entregue em nossa casa. Lembro-me de sair correndo com a pequena chave na mão e subir a escada e ir direto para a ultima porta do corredor. Lembro-me de não acreditar no que eu estava vendo. Uma biblioteca repleta de livros. Lembro-me de ter me lembrado de Theo. Lembro-me do momento em que nos beijamos. Lembro-me da hora em que nos deitamos no chão, lado a lado e com sorrisos bobos no rosto.

Mal percebo que já estou sentada no chão chorando; mas não é de tristeza, mas sim de alegria. E da saudade que eu senti disso tudo.