Next to Me
66 Next to me - 66
Notas iniciais
Graham e Josh tinham ido numa terça-feira e devido a partida deles, passei o resto da semana e final da mesma, sem ânimo para qualquer coisa. Recusei todos os convites que meus amigos me fizeram para aproveitar as noites agitadas no centro de Portland e preferia ficar assistindo um filme, treinando meu francês recém-aprendido, estudando para a prova do dia seguinte, lendo meu livro do Nick, no qual eu estava na metade desde quando eu ainda estava com Regina, ou então ficar no quintal, brincando com a Ava até a hora de dormir.
No fim de semana, fiz uma enorme faxina na casa toda, não apenas em meu quarto, estava precisando muito, com a ajuda de Ruby e Ariel, e só no domingo resolvi sair um pouco com elas e o Killian. Como eles disseram ‘’eu precisava sair da toca’’
Minha rotina foi a mesma durante a semana seguinte também, porém, não mais porque eu estava sem ânimo para sair com o pessoal e tudo mais, mas sim, porque eu ainda estava em semana de prova, então preferi continuar em casa, estudando, fazendo companhia a Ava, assistindo todos os filmes possíveis da minha lista, tentando terminar de ler meus livros e no fim, voltando a estudar. Todavia, assim que as provas acabassem eu voltaria a ativa. Eu já estava com saudades de sair quase todos os dias com o pessoal, chamá-los para virem até aqui em casa e me fazer companhia e ir para festas nos finais de semanas e comer e beber de graça.
Na quarta-feira eu recebi a notícia de que o Estúdio finalmente ficou pronto e eu não perdi tempo em ligar para Graham para lhe contar a maravilhosa notícia. Animado, Humbert logo me pediu para que, assim que eu fosse lá, mandasse fotos para ele também ver como ficou e disse que, assim que possível, viria pessoalmente para ver. No final de semana eu iria até lá para dar uma olhada em como tudo ficou.
Desde que Graham foi embora, nós entramos muito em contato e não houve um dia em que não nos falamos. Todos os dias, eu perguntava como ele, Josh e sua mãe estavam e ficávamos mais alguns minutos conversando.
Graças a Deus a mãe dele estava dando sinais de melhoras, ele me dizia que estava bem, mas apenas estressado demais com a ex, e Josh apenas sentia minha falta, mas sempre ficava alegre quando fazíamos vídeo chamada e ele via a mim e Ava pela tela do celular.
Josh havia aprendido, finalmente, a falar “papa” e também “vaa”, que de acordo com o pai, era Ava. Quando ele me deu a notícia, desejei mais que tudo ver esse momento e poder comemorar junto com Graham o que ele tanto esperava.
•§•
Na quinta-feira a primeira aula era de Ed. Física. Enquanto eu fazia o exercício pedido pelo professor Victor, eu olhava atentamente para o portão de entrada, esperando ver Regina passar por ele. Primeiro porque eu queria simplesmente vê-la, eu sempre fazia isso, desde que nos tornamos amigas anos atrás, e segundo, porque eu queria falar com ela. Iria chamá-la para ir comigo no domingo ou sábado, lá no Studio, ver como tudo ficou. Eu disse que ela seria a primeira a ver e queria cumprir com minha palavra.
Eu corria por toda a quadra, estava bem cansada, quase colocando todos os órgãos para fora pela boca, e um pouco suada, quando vi Tinker chegar sozinha. Rapidamente desviei o meu caminho e corri até ela.
― Ei, a Regina não vem hoje? — Pergunto com dificuldade por causa do cansaço da correria. Victor nos dava aula como se estivesse nos treinando para uma maratona.
― Boa tarde para você também, querida aluna. — Fala sarcástica e eu reviro os olhos.
― E linda também. — Acrescento, dando uma piscadela. — Você esqueceu isso.
― Modéstia também, não é mesmo? — Balancei a cabeça negativamente, fingindo inocência. — Bem, respondendo à sua pergunta, a Regina só chegará mais tarde. Ela foi ao médico.
― Ela está doente? — Pergunto preocupada. Regina nunca ficava doente. Apesar que, só porque alguém vai ao médico, não quer dizer necessariamente que está doente, certo?
― E desde quando só se vai ao médico quando está doente? — Retruca como se tivesse lido os meus pensamentos. — Ela foi apenas para saber como está sua saúde.
― Mas ela não está sentindo nada, certo? — Insisti, temendo que Tinker estivesse me escondendo algo. — Regina não é de ficar doente. — Digo pensativa. — Lembro-me que quando eu entrei aqui e até o momento em que Robin saiu, ele só faltou duas vezes. — Enfatizei a quantidade, levantando a mão e mostrando dois dedos. ― Porque a Regina estava doente. Preciso lembrar que isso foi dentro de dois anos? — Questiono perplexa.
― Ele realmente só faltava quando Regina estava doente... ― Tinker murmura pensativa e eu balanço a cabeça afirmativamente.
― Pois é! E isso foi desde que eu entrei aqui, na sétima série. — Ressalto. ― Ele só foi meu professor na série seguinte. Imagina quando eu não estudava aqui? — Ela sorri. — É sério! Lembro-me que quando ele faltou a primeira vez, eu ouvi o pessoal falando que ele não faltava nunca e só faltava quando a esposa, que na época eu nem conhecia, estava doente.
― Vocês se ferravam na mão dele, por ele nunca faltar. — Comenta entre risos. — Mas é sério, ela não está com nada. — Garante-me e eu semicerro os olhos, querendo intimidá-la para me dizer a verdade. ― Não que eu saiba. — Esclarece, dando de ombros. — Sério, ela só me disse que iria ao médico para saber se estava tudo bem, não me falou nada se estava sentindo algo.
― Tudo bem. Eu vou voltar para a aula antes que o Victor tire a minha presença. — Minha professora assente. ― Avise, por favor, que preciso falar algo. — Tinker me lança um olhar malicioso, balancei a cabeça negativamente, reprovando sua mente safada e ela fingiu inocência, em seguida, mandou um beijo no ar e se virou para ir embora, e eu voltei correndo para junto de Killian, Ariel e Ruby, que faziam abdominais.
•§•
― Por favor, abram o livro na página 35. — Regina nos pede. Seu livro já estava aberto em cima da mesa. — Pré-Modernismo é o nome do assunto de hoje. — Levanta a cabeça e nos olha. — Eu vou escrever alguns dados importantes antes da explicação. — Olha para mim por alguns segundos e depois corre o olhar pela sala. — Por favor, tratem de escrever o que eu colocar no quadro, pois servirá muito para quando estudarem para a próxima e última prova. — Olha mais uma vez para mim e se levanta, vira-se para o quadro e começa a escrever. Sua bunda remexendo-se enquanto escreve, chama a minha atenção e em vez de eu começar a escrever, como foi pedido, dedico toda a minha atenção àquela área que tanto gosto em seu corpo. De repente, Killian derruba propositalmente o meu caderno no chão e só então eu volto para a realidade.
― Finalmente você deixou de ser um extraterrestre e voltou a ser um ser humano. — Diz todo dramático e eu dou um murro de leve em seu ombro. Abaixando-me para pegar o caderno no chão. — Você vai para o passeio, não é? — Balanço a cabeça afirmativamente, confirmando. Já era a terceira vez que Killian perguntava nessa semana. Acho que ansiedade estava fazendo ele esquecer que eu fui a primeira de nós a pagar e insisti que para que todos eles pagassem logo também. — Só falta a Nellie pagar também para o nosso grupo todo ir. — Volto minha atenção para o quadro, pronta para começar a escrever e o encontro completamente coberto de letras. Regina adorava escrever. — Sabe quem vai ficar cuidando da nossa turma? — Balancei a cabeça negativamente sem tirar a atenção do que fazia. — A Gostosa Mills. — Parei o que fazia no mesmo instante e dei minha atenção para ele, primeiro por ele ter chamado Regina de gostosa, e segundo, por saber que era ela quem ficaria conosco. Como Killian tinha conseguido aquela informação?
― Como você sabe disso? — Quis saber, demasiadamente curiosa. — Nós geralmente só sabemos quem ficará com quem no dia do passeio. Mais necessariamente na hora em que estamos saindo daqui.
Antes que Jones pudesse responder, Regina chama a atenção de todos, avisando para pararmos com a transcrição porque iria começar a explicar o assunto.
― Eu tenho as minhas fontes. — Meu amigo sussurra, remexendo-se na cadeira e virando-se completamente para frente para prestar atenção em Regina.
― Ariel, por favor, comece a leitura da página. — Nossa professora pede gentilmente.
Ariel assente e volta sua atenção para o livro.
― O pré-modernismo foi um período literário brasileiro, que marca a transição entre o simbolismo e o movimento mordenista (...)
As leituras nas aulas de Regina eram sempre coletivas. Um aluno começava, lia dois ou três parágrafos e a professora pedia para o aluno seguinte continuar, até que todos lessem e o assunto terminasse, por isso, enquanto um lia, nesse caso era Ariel, todos os outros acompanhavam, porém não foi isso que eu fiz assim que minha amiga começou a ler e nem mesmo Regina, a principal pessoa que deveria prestar atenção. Ela olhou para os lados, depois para o livro, em seguida para Ariel e então para mim, porém, depois sua atenção não voltou para onde deveria, ela permaneceu em mim, que me senti obrigada a cortar o contato e acompanhar a leitura por ficar envergonhada e não conseguir devolver o olhar.
― Em Portugal, o pré-modernismo configura o momento denominado saudosismo. O termo pré-modernismo parece ter sido criado por Tristão de Athayde, para designar os "escritores contemporâneos do neoparnasianismo, entre 1910 e 1920", no dizer de Joaquim Francisco Coelho. (...)
Ainda sentindo-me muito observada, não conseguindo me deter, levantei a cabeça novamente e tornei a lhe encarar. Porém, não querendo sustentar o olhar por muito tempo, dividi o olhar entre o pessoal ao meu redor, Ariel, o livro novamente, o quadro e ela.
— Os principais pré-modernistas no Brasil foram: Euclides da Cunha, com Os Sertões, aborda como grande facilidade de forma jornalística a Guerra de Canudos; Graça Aranha, com Canaã, retrata a imigração alemã para o Brasil. Lima Barreto, que faz uma crítica da sociedade urbana da época, com Triste Fim de Policarpo Quaresma e Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e O Homem que Sabia Javanês. Monteiro Lobato, com Urupês e Cidades Mortas, retrata o homem simples do campo numa região de decadência econômica. [...]
Nossos olhares estavam se encontrando diversas vezes, mesmo eu disfarçando com outras coisas. Se continuasse assim eu iria abaixar a cabeça novamente, de tanta vergonha. Tenho certeza que devo estar rosinha nesse exato momento. Regina era sempre assim, me encarava nas aulas e não desviava nenhum momento. Também não disfarçava. Se não fosse por mim para desviar e olhar para outra coisa, ficaríamos presas uma no olhar da outra até quando Deus quisesse. Não que eu não goste de Regina me olhando ou não goste de olhá-la também, mas é que devido à nossa relação ainda não estar 100% como antes, eu fico envergonhada.
Voltei a olhar para o livro para saber se Ariel já estava para acabar e fiquei aliviada por ver que já estava perto. Ela estava lendo um poema agora.
― Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira, mas tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum. “Monteiro Lobato.” ― E então minha amiga finaliza a leitura que fez sozinha porque Regina não prestou atenção corretamente e delegou a outros alunos para continuar.
― Então... ― Minha professora desvia o olhar de mim, finalmente e olha para a turma. ― Alguém sabia que... — Seu olhar recai sobre mim novamente e mais uma vez não me deixam. — Que... — Interrompe a fala e me olha intensamente. Deixando a vergonha de lado, devolvo o olhar na mesma moeda.
― Alguém sabia que o que, Mills? ― Escuto Killian perguntar e nosso contato quebra. Ela pisca os olhos algumas vezes enquanto balança a cabeça como se tivesse saindo de um transe e sorri.
― Perdão pelo devaneio. — Pede totalmente sem graça, ficando um pouco vermelha.
― Relaxa, gata! Está desculpada. ― Dá uma piscadela e solta um beijo no ar. No mesmo instante vejo Ariel lhe encarar com uma expressão irritada e me seguro para não rir. Provavelmente deve estar na dele ainda.
― Continuando... ― Regina dá um pigarreio. ― Alguém sabia que este assunto é brasileiro? — Todos negam. — Vocês são bem interessados na matéria, hein. — Finge um tom decepcionado e nós rimos.
•§•
Assim que a aula acabou, fui ao encontro de Rê que conversa com Tinker do lado de fora da sala. A próxima aula seria dela.
Quando a loira me viu se aproximar, deu um sorrisinho e se desencostou da parede.
― Não demore muito. — Avisa-me em tom sério e entra na sala, fechando a porta e nos deixando sozinhas.
― Tudo bem? — Pergunto meio sem jeito. — Tinker me disse hoje mais cedo que você tinha ido ao médico...
― Ah! — Ela sorri. Aquele sorriso... — Eu fui apenas fazer exames de rotinas. Mas estou bem. — Garante, deixando-me tranquila. — E você, está bem? — Balanço a cabeça afirmativamente. — A mãe do seu... Amigo...
― Do Graham? — Questiono, interrompendo-a e ela assente sem graça. — Está bem também. Voltou a fazer a fisioterapia e não teve mais nenhum derrame.
Ficamos em um silêncio constrangedor e eu desvio o olhar para o chão. Então me lembro de sua mãe e, embora eu já sabia exatamente como ela está, decido tocar no assunto para a conversa voltar a fluir e o silêncio acabar. Eu poderia simplesmente falar o que pretendia, fazer o convite para me acompanhar até o Estúdio, mas eu não queria ser tão direta e acabar logo com a conversa.
— Sua mãe está bem?
― Graças a Deus ela começou a fazer os tratamentos e está indo tudo bem. ― Conta, pegando-me de surpresa. Até ontem não existia essa informação. Agora está explicado porque Regina parece até mais leve e tranquila.
― Isso foi hoje?
― Sim! Minha irmã me ligou enquanto eu voltava para casa. Eu já ia mesmo te dizer isso.
― Que bom que ela finalmente decidiu ouvir as filhas. ― Digo verdadeiramente animada. ― Vai dar tudo certo e logo ela estará boa também. — Abraço-a de lado e ela me abraça de volta. — Sabe que se precisar de mim, eu estarei à disposição, não é?
― Sim, eu sei, e agradeço por isso. — Sorri afavelmente. — Então, a Tinker disse que você queria falar comigo. — Relembra. — Era isso ou...?
― Ah sim, eu queria saber se você pode ir comigo no sábado, ou domingo, você escolhe o melhor dia, para ver o Estúdio. Ele ficou pronto ontem e eu ainda não fui lá, e bem, eu disse que você seria a primeira, a saber e a ir, então...
― Claro que eu posso ir com você, Emma. Vou adorar ir. — Afastamo-nos do abraço e ela começa a mexer na bolsa. Segundos depois puxa o celular de dentro e eu vejo que está recebendo uma ligação. Não consigo ver de quem se trata, mas imagino que deva ser sua irmã ou seu pai. — Espere-me de noite na sua casa, que eu irei te buscar para irmos.
― Ok! ― Respondo animada. ― Às 08h00minpm pode ser? — Rê assente. — Agora eu vou voltar para a aula antes que Tinker venha me buscar ou me tire alguns pontos. — Aviso, apontando para a sala. ― Bem, até mais tarde!
Despedimo-nos rapidamente e cada uma segue para um lado.
•§•
― Você já está pronta? — Regina me pergunta assim que eu atendo sua ligação.
― Estou só esperando você. — Respondo tentando segurar a ansiedade, não só porque iria vê-la, mas também, por poder finalmente ver o resultado do nosso, meu e de Graham, trabalho. Eu já estava do lado de fora, apenas esperando que ela chegasse.
― OK. Já chego aí. — Avisa e nós encerramos a ligação.
Enquanto Rê não chegava, sentei no chão e comecei a mexer no celular para passar o tempo. A ideia era ficar jogando, eu queria aproveitar para passar uns níveis difíceis em um joguinho de pinball, porém senti vontade ir para a galeria do celular e desviei o caminho para ir ver as fotos que eu tinha.
A primeira foto era de Josh. Ele sorria lindamente para a câmera, mostrando seus poucos dentinhos. Tão lindo. Tão fofo. Graham tinha enviado hoje, por isso era a primeira foto. A segunda foto era uma com o pai. Estavam sentados no chão, rodeados por brinquedos. A terceira foto era um pouco mais antiga e estava ali porque eu tinha editado ela em um aplicativo de fotos. Era o Josh e o Graham em cima da minha cama que estava uma bagunça só, de lençóis. Lembro que nesse dia tínhamos dormido os quatro na minha enorme e maravilhosa cama.
Cada foto que eu ia passando, eu sentia uma pontada de tristeza. Sentia falta dos dois. Principalmente da risada gostosa de Josh quando Ava lambia seus pequenos pesinhos.
Algumas passadas de dedos e as fotos passaram a ser apenas de Ava em todas as poses imagináveis e inimagináveis, em todos os lugares da casa. Dei várias gargalhadas. Em seguida, várias fotos minha com os meus amigos ou deles em posições constrangedoras, ótimas para zoar e chantagear, algumas poucas minhas e e então as minhas com Regina. Senti outra pontada no peito, dessa vez muito mais forte que a anterior. Cada foto que aparecia na tela o meu coração se apertava mais.
Fiquei tão distraída com as lembranças que as fotos me proporcionaram que eu só percebi que estava chorando quando a minha visão embaçou consideravelmente e molhou a tela do aparelho. Rapidamente guardei o celular no bolso e tratei de enxugar as lágrimas, em breve Regina chegaria e ela não podia me ver desse jeito.
Levanto-me com a intenção de entrar em casa novamente para ir beber água, mas antes que pudesse abrir a porta, escuto a buzina do carro da minha professora, informando-me que chegou.
― Demorei muito? — Pergunta parecendo preocupada, assim que entrei no carro e fechei a porta.
― Muito. — Brinquei e nós sorrimos.
― Então... Qual o endereço do Estúdio?
― Na quinta avenida depois do parque. — Rê assente e coloca o veículo para andar.
― Foi uma boa escolha de local. É um lugar bastante movimentando. — Elogia e eu abro um sorriso em resposta. Graham merecia todo o crédito por ter escolhido um ótimo lugar e em tão pouco tempo por um preço bom. — Você se importa se eu ligar o som? — Nego rapidamente e ela logo estica-se um pouco para ligar o aparelho.
A voz de Eric Carmen cantando Hungry Eyes preenche o carro e minha professora levanta a voz para cantar junto, surpreendendo-me.
De repente, Rê começa a olhar para mim a cada frase cantada e a primeira coisa que passa pela minha cabeça é se ela está querendo me passar algum recado.
I've been meaning to tell you (Estive pensando em te contar)
I've got this feelin that won't subside (Tenho esse sentimento que não vai desaparecer)
I look at you and I fantasize (Olho para você e eu fantasio)
Your mine tonight (Você é minha esta noite)
Now I've got you in my sights (Agora eu tenho você em meu olhar)
Sim, com toda certeza Regina estava me mandando um recado discretamente. Ou não, já que não parou de me olhar, exceto para prestar atenção no trânsito.
― Amo o filme que toca esta música. — Comenta, referindo-se a Dirty Dancing. — Sem falar do Patrick. — Acrescenta, referindo-se ao ator principal, que eu tinha que concordar que era muito bonito, abrindo um sorrisinho. Regina o achava lindo e toda vez que falava dele tinha que soltar uns suspiros, do tipo apaixonadinha, bem estilo crush de época de adolescente.
Alguns minutos depois e nós chegamos no nosso destino. As ruas ao redor e a própria, estavam bastante agitadas. Estava tendo uma festa no parque.
Assim que Regina conseguiu uma vaga para estacionar e nós descemos, procurei as chaves no bolso, caminhamos até o meu futuro negócio.
Ao abrir a porta, dei lentos passos para dentro, alimentando minha ansiedade de saber como tudo estava. Se não tinha ninguém para fazer por mim, eu mesma fazia.
Ao acender as luzes, meus olhos se arregalaram e se encheram de lágrimas. O lugar estava esplêndido. Eu estava tão admirada com tudo, que minha boca estava literalmente aberta. Muito aberta. Só faltava babar. Tudo estava tão lindo, tão maravilhoso que me faltou palavras para descrever o que eu sentia no momento. Graham e eu principalmente, soubemos escolher bem cada detalhe. Eu estava orgulhosa de nós, do nosso trabalho. A decoração, as cores dos móveis e das paredes, a cerâmica com seus detalhes e cores, as janelas, as portas, os estofados e as cores de cada um, a divisão da área e o contraste que tudo deixava estava realmente uma maravilha. Tudo estava perfeito!
Contudo, não posso esquecer de parabenizar o pessoal que trabalhou para arrumar aquilo tudo. Eles estavam de parabéns também. Fizeram um ótimo trabalho.
― Está incrível, Em! — Rê comenta, tão admirada quanto eu. — Está tudo muito lindo. Parabéns para vocês dois!
― Obrigada! — Comecei a andar pelo lugar, querendo ver todos os detalhes e senti um baque no coração ao ver um porta-retratos com uma foto de nós quatro, eu, Graham, Josh e Ava, no quintal de casa. As lágrimas que já estavam formadas, apenas esperando seu momento de brilhar, desceram com tudo. Peguei o objeto e olhei de perto.
Regina, percebendo meu estado, vem ao meu encontro e me abraça forte. Coloco o objeto no lugar e a abraço de volta, desmanchando-me em lágrimas.
― Chore o quanto sentir vontade. — Minha professora sussurra, alisando minhas costas. — Faz bem para a alma. — Beija minha cabeça e volta a me acalentar, apertando-me ainda mais em seus braços tão aconchegantes, que tanto me fizeram falta.
― Ele ficaria tão feliz de ver o resultado das nossas escolhas. — Sussurrei com dificuldade. Graham deveria estar aqui tanto quanto eu.
Ficamos mais alguns minutos em silêncio, apenas abraçadas, até que eu consigo me acalmar e nós nos afastamos.
Apesar de estar triste por Graham não estar presente, eu estava feliz por Regina estar fazendo parte de um momento tão importante para mim.
Como prometido, eu tiro foto de cada detalhe do Estúdio e logo envio para Humbert. Faço um tour para Regina, mostrando cada detalhe e explicando algumas coisas, e decidimos ir embora.
― Vou adorar ser sua modelo. ― Rebate animada e eu sorrio, achando fofo o seu entusiasmo.
― Está a fim de ir para o parque?
― Você leu meus pensamentos. ― Retruca bem-humorada.
Entre conversas, seguimos para o parque e andamos um pouco por lá, depois fomos à uma lanchonete para matar quem estava nos matando, e para encerrar a nossa noite, ficamos um pouco na festa que estava rolando, que estava bastante cheia e boa.
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