Next to Me
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Quando cheguei à sala, todos já haviam terminado a prova e Regina já estava em sua mesa com todas elas em mãos. Provavelmente já iria começar a corrigir. Ao fazer barulho quando fechei a porta, sua atenção correu rapidamente dos papeis na mesa para mim e o seu olhar era apreensivo. Sei que queria saber o motivo da mulher abençoada ter me chamado em sua sala. Ela sempre soube do meu problema com a diretora e sabia que sempre que a mulher me chamava, era algum problema para mim. Mas eu não iria até lá como se nada tivesse acontecido entre nós e dizer o que aconteceu na sala da diretora, assim como sei que ela também não viria até mim para saber o que aconteceu lá. Então ficou nisso mesmo, Regina com vontade de saber o que tinha acontecido e eu com vontade de ir até a sua mesa para contar.
Quando me sentei em meu velho lugar, perto dos meus amigos, já que todos tinham terminado a prova e agora o lugar estava livre, não tive nem tempo de esquentá-lo e entrar na conversa dos meninos, pois o demônio apareceu na porta chamando Regina para uma breve conversa lá fora, e por saber exatamente do que se tratava, levantei novamente e fui para fora da sala também. Porém, quando cheguei do lado de fora a conversa já tinha acabado e as duas iriam entrar novamente.
— Era com você mesmo que eu queria falar. ― O demônio fala assim que Regina entra e só nós duas ficamos do lado de fora.
— Claro que era comigo. Sempre é. ― “Você parece ter uma obsessão comigo” minha língua coçou para dizer, mas me contive a apenas um sorriso irônico.
— Já que não posso fazer nada com você lá dentro, posso fazer aqui fora. — Sorriu com ar vitorioso. Coitada! — Quero que pegue suas coisas e vá descansar uns dias em casa. ― Pediu em um tom extremamente autoritário e eu tive vontade de rir em sua cara. ― Só me volte aqui na semana que vem.
— Acho que aproveitarei esses dias para conhecer o ED e o CE. ― Rebati em um falso tom pensativo. ― O que você acha?
— Você não faria isso. — Rebateu entredentes, aproximando-se mais de mim e me encurralando na parede como se fosse me botar algum medo.
A batalha entre nós estava ganha a partir de agora e não seria eu a perdedora. Essa mulher era ingênua de acreditar que eu permitiria que ela me punisse injustamente e ficaria quieta com tudo que eu sei sobre ela.
Não era a primeira vez que ela tentava me punir injustamente, mas era a primeira vez que eu a chantageava e com certeza essa seria a sua última tentativa, a menos que eu realmente estivesse errada mesmo. Mas duvido que depois de agora ela tentará qualquer coisa contra mim, mesmo eu estando errada.
— Não? — Indaguei com ironia. Seus olhos estavam faiscando de raiva. — Sugiro que volte para o seu local de trabalho e me deixe em paz. — Pedi gentilmente, retirando sua mão da parede e me afastando.
— Cuidado Emma, estou de olho em você. — Ameaçou e dessa vez eu não me aguentei, tive que rir.
Se ela acha que pode me botar medo, está muito enganada. Não há muito o que fazer contra mim. Já eu, tenho inúmeras reclamações sobre sua gestão. Se não andar na linha, eu não me importo de fazer uma visita ao ED ou EC. E nós sabemos, se isso acontecer não sou eu que terei problemas para conseguir um novo trabalho, ao menos em escolas.
— Eu também, querida. — Dei uma piscadela e entrei na sala sem nem esperar por uma resposta sua. Regina me olhou com ar preocupado e dessa vez eu decidi que deveria ir até a sua mesa para lhe tranquilizar. Afinal, ela merecia saber que o que a diretoria lhe avisou lá fora não iria acontecer, assim como também merecia ficar despreocupada.
― Eu não vou para casa, fica tranquila. ― Foi tudo o que eu disse quando cheguei em sua mesa. Em seguida, voltei para o meu lugar junto com o pessoal. Assim que me sentei na cadeira, não tive tempo de saber qual o assunto da vez para poder participar também, pois eles pararam tudo que faziam e me encararam curiosos. Estava claro que queriam saber o que a diretoria queria comigo e o que aconteceu lá fora.
— O que aquela mulher queria contigo? — Killian quem pergunta, o mais curioso e fofoqueiro de nós. Porém, em seu tom havia preocupação também.
— Fica tranquilo, amor. ― Disse simplesmente e dei uma piscadela acompanhada de um sorrisinho. Se eu contasse com detalhes o que tinha acontecido lá fora, eu teria que falar sobre a minha mãe, mas eu não estava preparada para falar sobre o assunto com eles, ainda mais sem ter notícias da cirurgia que ainda acontecerá. Além de que, era certo que eu iria cair no choro e a última coisa que eu queria era que isso acontecesse na escola, na frente de todos. ― Ela já está em seu devido lugar. — Ele assentiu e seu rosto se suavizou um pouco.
— Eu adoraria chegar na cara dela e dizer: ‘’Eu sei o que você fez no verão passado.’’ — Ruby comenta bem-humorada e nós caímos na gargalhada.
— Quem sabe um dia você possa dizer isso... ― Comento ainda entre risos e Ruby bate palminhas, animada com a possibilidade.
— Por que vocês não me contam essas coisas? Faz tanto tempo que eu peço. — Ariel reclama, fazendo-se presente na conversa.
— Não queremos envolver a ''santa'' nisso, amor. — Killian rebate, fazendo aspas com as duas mãos bem em cima dela e a ruiva fecha a cara, com certeza irritada com a forma que ele lhe chamou.
— Eu não sou santa, ainda mais com aspas. — Rebate extremamente irritada, batendo na cadeira. Mas não tínhamos mesmo dessa sua raiva, já estávamos bem acostumados com ela, aliás. — Eu já mostrei isso para vocês. — Eu, Ruby e Killian nos entreolhamos e rimos. Tirar uma com a cara de Ariel era sempre bom.
— Nós sabemos disso, não se preocupe. — Tentei acalmá-la tocando em seu ombro e dando algumas tapinhas, mas sem que ela visse, pisquei para os meninos e sinalizei para que não rissem. — Mas é sério, não queremos te envolver nessas coisas. — Falei mais séria e ela deu um suspiro pesado, porém assentiu.
O celular de Ruby, que estava em cima da mesa, vibra com uma mensagem e interrompe a nossa conversa. Após ler o conteúdo, ela nos informa que haverá uma festa no fim de semana, na casa de Jack e nós estávamos convidados. Jack era o rapaz que eu conheci na última festa que fui e quase fiquei, mas fugi do quarto antes de acontecer qualquer coisa entre eu e ele e quando me encontrei com Ruby depois, tive que ficar ouvindo-a exaltar o quanto ele era gostoso. Os três confirmam as presenças sem nem pensar duas vezes e apenas eu dou para trás. Não estava em clima de festejar, beber, ouvir músicas em alto som e socializar com desconhecidos.
Ruby responde à mensagem com as nossas respostas e segundos depois o seu celular começa a tocar. Provavelmente é o Jack. Ela se abaixa o quanto pode para atender a ligação e nós rapidamente nos aproximamos e criamos uma barreirinha disfarçada, dando continuidade à conversa, para que ninguém percebesse. Ninguém, na verdade seria a Regina, que estava bem entretida com as nossas provas.
Quando a ligação é encerrada, nós voltamos ao normal.
— O Jack vem aqui. — Ruby anuncia, levantando-se para guardar o aparelho celular no bolso da calça.
— Aqui, onde? — Pergunto curiosa e também confusa.
— Aqui na escola. Assim que largarmos, ele estará lá na frente nos esperando.
— Ele vem fazer o que aqui? — Ariel questiona toda interessada, mostrando um sorriso malicioso. Até imagino o motivo do seu interesse.
— Veio falar com alguém. — Lucas responde olhando diretamente para mim.
O que? Ele quer falar comigo? O que raios ele quer?
— O que ele quer comigo? ― Externalizo minha dúvida. Nós não temos assunto. Nem mesmo nos conhecemos direito.
— Porque você não quer ir para a festa dele e quer tentar fazer você mudar de ideia. — Explica e eu reviro os olhos. Adoro, só que não, pessoas insistentes.
Ficamos conversando até o sinal tocar, indicando o fim da aula de Regina e Gold entrar na sala. Com o olhar, ele pede que façamos silêncio e assim que é atendido, começa a dá a revisão do seu assunto.
Curiosamente eu consegui entender tudo o que ele explicou e não sei dizer se foi a magia da semana de prova, ele que descomplicou tudo e resolveu ensinar de forma mais clara, ou porque eu dediquei toda a minha atenção e me mantive em silêncio.
Talvez tenha sido a junção das três coisas.
Ele saiu da nossa sala trinta minutos depois, antes mesmo do horário acabar.
Com a sua saída, acabamos por ficar sem professor e toda a sala entrou em conversa e o barulho ficou insuportável.
Pouco interessada no novo assunto do meu grupo, encolhi-me em meu lugar e resolvi mexer no celular. Péssima ideia.
Lembrei-me da ligação do meu pai e consequentemente da minha mãe e não consegui driblar a ansiedade e o medo que se abateu sobre mim. Em menos de duas horas minha mãe entraria numa sala de cirurgia e seria o que Deus quiser. Eu queria surtar. Queria sair gritando e correndo por aí, até ter uma boa notícia. Eu também queria poder desabafar com os meus amigos, principalmente com Ruby, a melhor dos três para ouvir meu desabafo e me dizer as coisas certas, mas eu não queria ter que relembrar tudo desde quando eu soube da notícia e terminar chorando desesperadamente em seus braços. Eu tinha conseguido me acalmar, finalmente, e queria me manter assim.
Na hora do intervalo, evitei ir à mesa dos professores como era de costume, e de tanta ansiedade, acabei não conseguindo lanchar e nem tendo paciência para ficar sentada na mesa ao lado dos meus amigos. Inventei uma desculpa de que estava preocupada com as próximas provas e isso afetou o meu frágil apetite e fui andar pelo pátio para me acalmar.
Do lado de fora, já longe das vistas dos meus amigos e de várias outras pessoas, comecei a tomar um arzinho frio e puro, mas uma tonteira sem fim me atacou e eu tive que ir para a enfermaria para saber o que estava acontecendo e para melhorar também. De acordo com a senhorita Matilde, eu estava com a pressão baixa. Levei uma repreensão das boas, ouvi sugestões de alimentos para comer e melhorar e fui dispensada pouco antes do horário do intervalo acabar.
Após o intervalo, tivemos duas aulas cansativas e chatas de David e uma relaxante de Mary. Antes de o sinal tocar, a coordenadora foi em nossa sala para nos lembrar das provas do dia seguinte e depois nos liberou, de acordo com ela, mais cedo. O tal mais cedo tinha sido 10 minutos antes.
Saí da sala ao lado dos meus amigos e quando passei pelo portão que dá acesso ao lado de fora da escola, vi Jack na companhia de dois garotos, todos sentados em um banco. Provavelmente estavam esperando a gente. Ruby e Ariel saíram correndo em direção aos meninos, Killian desviou o caminho e foi falar com Nellie e Jack veio me encontrar no meio do caminho.
— Ei, linda. — Beijou minha bochecha e me deu um abraço, todo cheio de uma intimidade que não tínhamos.
— Ei. — Respondi pouco animada, mas forcei um sorriso amistosa. — Quanto tempo... — Começamos a caminhar pelo jardim da escola, afastando-nos de Killian e Nellie, e Ruby e Ariel com os outros dois garotos.
— Faz bastante tempo que nos vimos, mesmo...
— É... ― Chegamos em um banco mais afastado da movimentação da saída dos alunos e nos sentamos. — Então, o que exatamente te traz aqui? — Indaguei fingindo que não sabia, só assim teríamos um pouco mais de assunto. Retirei minha bolsa das costas e joguei no chão, ao lado da minha perna. Ele observou atentamente a movimentação e depois subiu seu olhar até o meu rosto.
— Ruby me disse que você não queria ir para a minha festa, então eu vim aqui para te pedir, por favor, que vá. ― Juntou as mãos na altura do peito e fez um biquinho. Eu não acredito no que estava vendo.
— Não acredito que você veio aqui só por minha causa. ― Eu sei que a única intenção dele era de transar comigo, mas eu não podia deixar de me achar por saber que o cara veio até a minha escola só para me pedir, quase implorar, para ir à festa dele, sendo que tem várias meninas por aí para ele dá em cima e transar sem nem precisar insistir. Eu estava me achando ainda mais porque não pretendia ceder ao seu pedido e tudo que ele estava fazendo seria em vão. É muita ruindade da minha parte, eu sei, mas eu não conseguia evitar. Estava sendo mais forte do que eu.
Quando eu me tornei essa pessoa nojenta, que se acha a última bolacha do pacote? Espero que seja passageiro.
— Pois pode acreditar. — Abriu um sorriso até bonito, tenho que concordar, e jogou os cabelos para o lado. Ele estava tentando me seduzir. Não sei que tipo de garota ele acha que eu sou, mas não é com um sorriso bonito e uma jogada de cabelo que alguém consegue algo comigo. — Eu quero muito a sua presença. — Acrescentou, aproximando-se e enfiando a mão em minha nuca. O meu ponto fraco. Puta que pariu!
Jack se aproxima lentamente de mim e, sabendo o que vai acontecer, eu viro o rosto para o lado e ele beija a minha bochecha delicadamente. Nesse momento, eu vejo a última pessoa que deveria estar passando por ali naquele momento, vindo em nossa direção.
Regina interrompe seus passos bruscamente e dá meia volta, logo sumindo de minhas vistas. Rapidamente eu me afasto de Jack.
― Eu preciso ir ao banheiro. ― Dou a desculpa e saio correndo para ir atrás dela, porém, em vez de ir pelo mesmo lugar, dou a volta no prédio e entro por trás para encontrá-la vindo em minha direção. Porém, eu não sabia que a escada estava cheia de sabão e acabei caindo no chão como um fruto amadurecido cai do pé.
Fiquei por muito tempo caída no chão, chorando de dor e sem poder sequer me mover para pegar o meu celular e ligar para alguém vir me ajudar até tia Sil, minha salvação, aparecer para fechar o portão e me encontrar estirada no chão. Ela se ajoelhou ao meu lado, desesperada para me ajudar, mas eu dei um grito para que não me tocasse e ligasse para a emergência. Porém, tia Sil se levantou e saiu correndo. Provavelmente foi chamar alguém.
Quando voltou, alguns minutos depois, foi acompanhada justamente de Regina, que tinha um olhar assustado por me ver estirada no chão.
― Por favor, liga para a emergência. ― Peço desesperada, com medo que fossem tentar mexer em mim. Sei o quanto é perigoso e pode piorar a situação. ― Não quero correr o risco de ficar sem andar. ― Acrescentei dramática e Regina revirou os olhos. Quando a vi puxar o celular da bolsa, soltei um suspiro aliviado.
Cinco minutos depois, dois homens e uma maca, acompanhados de alguns alunos, inclusive meus amigos, que ficam bastante preocupados quando me veem ali, Jack e os dois garotos, chegam para me socorrer e levar ao hospital.
Antes de ser colocada dentro da ambulância, eu e Regina trocamos um olhar intenso. Vi que estava preocupada e abri um sorriso para lhe tranquilizar.
E a nossa conversa, se é que teria uma, teria que ficar para depois.
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