Next to Me

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Notas iniciais
Boa leitura!

Assim que percebi que amanheceu, cansei de rolar na cama e me levantei. Meu corpo estava dolorido e cansado e minha cabeça doía um pouco. Infelizmente, não consegui dormir por mais que três horas. A imagem da minha mãe vinha em minha mente o tempo todo e eu não conseguia impedir a minha imaginação de criar uma cena de um enterro. Era algo aterrorizante. Quando passei em frente ao espelho perto do guarda-roupa, vi o quanto meus olhos estavam mortos e vermelhos. Prevejo grandes olheiras nos próximos dias caso essa noite se repita. O que eu acho que vai acontecer bastante enquanto eu não tiver notícias da minha mãe.

Sem força de vontade, abri a porta do guarda-roupa, peguei o tope mais confortável da gaveta e a calça do meu pijama e vesti. Arrumei a cama que estava pouco bagunçada e desci até a cozinha para fazer um café reforçado para mim e leite para Ava. O café preto e amargo como a minha atual situação, seria a única coisa que desceria bem por minha garganta e se manteria em meu estômago. As notícias ruins roubaram a minha fome e se eu fosse forçar algo, conhecendo bem o meu estômago, sei que ele rejeitaria e colocaria para fora.

Em alguns momentos da madrugada, abri a Bíblia para ler alguns versículos de autoajuda e pedir a Deus com todas as forças que eu tinha naquele momento, para Ele cuidar da minha mãe e dar forças ao meu pai, e para não levá-la de nós agora. Sei que não mereço, mas espero, de coração, que Ele tenha me escutado. Eu não sou muito religiosa, mas quando meus pais moravam aqui, em alguns domingos eu ia com a minha mãe para a Igreja. Aprendi muitas coisas boas por lá e sempre saía feliz e leve, além de gostar de ouvir o Padre pregando e contando as histórias da Bíblia.

Termino o meu café, arrumo a cozinha e vou para a sala. Jogo-me no sofá, logo sendo acompanhada por Ava, ligo a TV e tento me distrair com os programas sobre a vida selvagem que tem em alguns canais, mas não conseguem prender a minha atenção. O rosto da minha mãe e a voz do meu pai me dando a notícia de sua saúde preenchem minha mente a todo instante e a única coisa que tenho vontade de fazer é chorar.

Por mais que meu pai tenha dito que o tumor é benigno e eu tenha lido na internet que praticamente dependia apenas da localização para que a cirurgia seja considerada perigosa ou não, mas que geralmente um tumor benigno tinha bem mais chances de ter uma cirurgia bem sucedida, eu não estava conseguindo me agarrar a isso e ficar tranquila, não estava conseguindo controlar o medo, o desespero de perder a minha mãe. Como se já não bastasse a dor da saudade de estar longe dela há três anos, ainda me vem essa de doença.

Desligo a TV e me sento no sofá. Ava se remexe e se aconchega em mim para voltar a dormir. Sinto inveja dela. Sinto inveja por sua inocência, sinto inveja por seu sono, sinto inveja por seu apetite não ter sido afetado, sinto inveja por não ter preocupações e sofrimentos.

Olhando para a sala silenciosa, fria e um pouco escura, minha atenção é tomada pelo porta-retratos em cima do aparador com a foto da família, agora incompleta por estar faltando a minha peluda. Vou até o aparador e pego o objeto nas mãos, passo o polegar por cima da foto de Ingrid Swan e fecho os olhos logo que os sinto marejar. Então minha mente me leva para três anos atrás, para o dia em que eu escutei a conversa dos meus pais sobre ir para o Canadá porque tinha surgido uma oportunidade de crescer fora do país. Embora tenha chorado muito por saber que ficaria longe deles, eu fui a primeira a apoia-los para agarrar essa oportunidade de fazer a empresa crescer internacionalmente. Era um sonho de todos nós e eu jamais seria o empecilho em um dos sonhos dos meus pais e o meu próprio. A única coisa que eu não tinha aceitado fácil, era que eu não iria com eles, porém, bons como são com as palavras, conseguiram me convencer de que seria o melhor para mim, ficar em Portland pelo menos até a escola acabar e eu acabei aceitando e entendendo. Eles viajariam no meio do ano e não queriam atrapalhar os meus estudos.

Sentindo a cabeça voltar a latejar e reclamar, coloquei o porta-retratos no lugar e enxuguei as lágrimas, fechei os olhos e respirei fundo algumas vezes, tentando espantar a vontade de chorar, voltei para o sofá e me deitei com Ava. Era sábado de manhã e eu precisava fazer alguma coisa.

Dedico-me a acariciar seus pelos lisos e marrons até que pegue no sono novamente, e assim que o faz, deito a cabeça em seu corpinho, sem colocar o peso totalmente, e fecho os olhos. Ao sentir seu cheiro de cachorro, como Regina costuma dizer quando ela está precisando de um banho, decido dar um banho nela e depois sair para passear. Quem sabe respirar um arzinho não me fará bem?

Na hora do banho, consigo me distrair um pouco e me divertir com Ava, que faz uma tremenda bagunça e acaba me molhando toda, e acabo tendo que lhe acompanhar no banho também.

Ao terminar nosso banho, enxugo a mim e a minha pequena, e saímos do banheiro. Sigo até o seu quarto, que na verdade é o meu, e pego em suas coisas a coleira que Regina comprou outro dia, o lenço de cor preta e vermelha que eu comprei, e o perfume com cheirinho de bebê que nós tanto gostamos. Com Ava Swan pronta e animada demais para o seu passeio matinal, eu vou para o meu lado no meu quarto e me arrumo também.

Como a veterinária falou que por minha pequena ainda ser muito nova, não poderia estar andando muito na rua, por ainda não ter tomado todas as vacinas, saio com ela em meus braços e só a coloco no chão quando meu braço cansa, porém não permito que seja por muito tempo. Não quero ter mais um problema para me preocupar.

Meia hora depois, quando o sol começa a esquentar, a contragosto de Ava nós voltamos para casa. Sem nada para fazer, sigo para o meu quarto, pego um livro do Nicholas que estou acompanhando e ainda não terminei, e me deito na cama para tentar ler.

Graças a Deus, consegui me distrair com o livro durante toda à tarde, e avancei bastante na leitura. Com a mente cansada de ter passado tanto tempo lendo, devolvo o livro ao seu lugar e vou para a sala para assistir alguma coisa na netflix, mas antes de me jogar no sofá, lembro que tenho prova na segunda-feira e preciso estudar e aborto a missão, voltando para o quarto em seguida, para buscar os livros.

Afundo-me madrugada adentro com a cara enfiada nos livros de história e literatura, até que, finalmente, sinto a fome despertar no estômago e abandono tudo rapidamente para ir até a cozinha e preparar um arroz branco com salada. Mas, no meio das garfadas, a vontade vai embora e eu só consigo comer a metade. Satisfeita com o que consegui colocar para dentro sem querer colocar para fora, guardo o que sobrou para comer depois e arrumo a cozinha. Também alimento a minha pequena, que me fazia companhia acordada, e depois seguimos para o quarto para descansar. Ou, no meu caso, tentar.

•§•

O meu final de semana se resumiu em tentar comer algo, passear com Ava, estudar e tentar dormir. Essas eram as únicas coisas que eu conseguia fazer, que me distraia um pouco dos problemas.

Meu pai não deu mais notícias e isso me deixou ainda mais preocupada. Porém tentei me agarrar na ideia de que se ele não ligou é porque nada aconteceu, e se nada aconteceu, ela está do mesmo jeito, o que significa que é bom. Agora que já sei de tudo, sei que se algo tivesse acontecido, ele já teria me ligado para contar.

De manhã, sentindo-me um pouco mais disposta que nos outros dois dias, fui para mais uma aula de Francês e na saída, vi Marian no mesmo lugar que a vi algumas vezes com Robin, agarrada com outro homem. Ou ela acabou com o meu ex-professor ou está traindo-o. Se caso seja a primeira opção, eu só espero que ele não vá atrás de Regina novamente, embora sei que ela não voltaria a se relacionar com ele.

Ao chegar em casa, um pouco mais tarde que o normal porque, propositalmente, retardei a minha chegada, preparo um pouco de macarrão com queijo e como forçadamente o prato todo, estudo mais um pouco enquanto descanso do almoço, tomo um banho e saio de casa para ir à escola.

Estou sem farda. Das quatro que tenho, duas estão na casa da minha professora e as outras estão sujas ainda. Eu esqueci completamente de levar no fim de semana. Mesmo que seja quase impossível por ser prova, espero que a diretora não esteja por lá hoje, senão, não entrarei na escola para fazer a prova, e aí terei mais um problema para lidar. Fazer a segunda chamada é um problema.

Assim que coloco o primeiro pé para dentro do portão, tia Sil aparece em minha frente, barrando a minha entrada.

― Tia Sil... ― Imploro, nervosa com a possiblidade de não conseguir fazer a prova hoje.

— Você sabe que eu gosto demais de você, e por mim, entraria numa boa, mas é o meu trabalho não permitir. — Rebate em um tom cansado e eu assinto, sabendo que não tenho chance. Afinal, não estou certa.

De repente, e devo dizer, para a minha sorte, a coordenadora sai da sua sala e me vê do lado de fora do portão, que está fechado. Com o cenho franzido ela vem até nós.

— Emma, cadê a sua farda? — Cruza os braços e arqueia a sobrancelha. ― Você sabe que não pode entrar sem farda. — Acrescenta em um tom levemente irritado. Não acredito que justo hoje ela não vai me ajudar.

— Duas estão sujas e duas ficaram na casa de uma pessoa que eu não posso ir agora para buscar. — Expliquei, ocultando quem era a pessoa, claro. Todo mundo sabe o quanto eu e Regina somos próximas, mas seria demais saberem que vivemos, ou vivíamos, na casa uma da outra. Essa informação ninguém precisa saber.

— Você sabe que hoje é prova e não pode perder, não é? — Questiona e eu afirmo com a cabeça rapidamente.

— Por favor, me deixa entrar. — Implorei, segurando na grade e me esforçando para fazer uma expressão bem triste. É, eu estava apelando mesmo.

Ela me olha por alguns segundos e balança a cabeça negativamente.

— O que eu não faço por você? — Ela abre o portão e me puxa para dentro. — Eu vou à secretária buscar uma farda para você. — Dou uns pulinhos e bato palmas em comemoração. — Essa é a última vez, viu? — Embora eu saiba bem que não seria a última vez, ela sempre diz isso, eu assinto.

Alguns minutos depois a minha salvadora volta com a minha quinta farda e eu a visto rapidamente, por cima da blusa que estou usando. Agradecida por mais um salvamento, beijo sua testa carinhosamente e vou apressada para a sala de aula. Se eu demorasse mais, corria o risco do professor que estivesse aplicando a prova, não me deixar entrar por causa do atraso. Depois eu teria que fazer a avaliação sozinha na coordenação.

No caminho até a sala esbarro em Chris e vou ao chão como uma fruta podre. Vendo-o rir de mim e tendo certeza que foi proposital, levanto-me completamente irritada e pronta para fazer uma besteira que vá me ferrar bastante, mas Deus ilumina a minha mente, lembrando-me da prova e eu desisto de qualquer coisa. Finjo que nada aconteceu e dou as costas, retomando o meu caminho.

Paro em frente à sala e olho pela porta, vendo todo mundo já concentrado na prova. Levo a mão a maçaneta, pronta para entrar, mas um movimento do lado esquerdo me chama a atenção. Curiosa, viro a minha cabeça na direção e vejo Regina, parada na porta da coordenação, olhando-me intensamente, sem disfarces. Meu coração dispara e o sangue gela nas veias. Desde a nossa última conversa, não nos vimos mais e nem nos falamos. Eu não a procurei e nem ela me procurou. Eu não sabia como ela estava e ela não sabia como eu estava.

Eu estava com saudades de Regina.

A vontade de correr até lá, de abraça-la apertado, de chorar em seu ombro, contar tudo que estava me acontecendo e receber os seus afagos, tomou conta de mim e me fez dar um passo na direção, mas logo interrompi-me. Infelizmente, devido ao que aconteceu, não seríamos mais as mesmas e eu não sei como seríamos de agora em diante. Lamentavelmente, a nossa amizade estava abalada.

Encaro-a por alguns segundos e, pondo um fim na tortura, abro a porta da sala e entro. Quem estava na sala era David. Antes mesmo que eu pudesse me sentar, ele me entrega as duas provas do dia e me mostra um lugar perto da mesa do professor para que eu sente. Devido à distância, acabo não conseguindo fazer os esquemas de cola com Ruby, Killian e Ariel, e por isso, acredito que pelo menos Killian e Ruby não ficarão de férias logo como eu e Ariel.

Quando termino a prova de história e entrego para David, ele sai da sala e Regina entra para ficar em seu lugar.

Durante toda a prova de literatura, enquanto os outros enchiam Regina de perguntas, fiquei em silêncio e de cabeça baixa, procurando me concentrar o máximo possível nas questões que estavam bem difíceis. Ainda bem que eu tinha estudado muito e não iria decepcionar.

Para a minha surpresa, diferente do que eu pensei a manhã toda, sobre as provas, que eu não conseguiria ter concentração para realizá-las, eu estava conseguindo fazer tudo muito tranquilamente e até estou otimista de que tirarei a melhor nota. Menos um problema para mim.

Quando me levantei para entregar a prova, meu celular começou a tocar. Olhei no visor e vi o nome do meu pai piscar. O nervosismo se fez presente e eu senti as minhas pernas fraquejarem, tamanho era o medo que eu estava sentindo do que ele estava para me dizer.

— Regina, será que eu poderia atender a ligação, por favor? — Perguntei nervosa, mostrando o celular para que visse quem me ligava.

— Claro! — Sorriu ternamente. Apesar de não saber o que estava acontecendo, Regina sabia o quanto era importante aquela ligação. — Fique à vontade. — Apontou para fora da sala.

— Obrigada! Não demorarei. — Minha professora assentiu e eu me encaminhei para fora da sala.

Assim que saí no corredor, atendi a ligação, não me importando que a diretora estava por ali e com certeza viria até mim, pois, prioridades.

— Pai? E aí, algum problema? ― Já fui logo perguntando.

Ei, calma! Estou ligando para dar uma notícia boa. ― Pelo seu tom de voz, pude perceber que realmente era uma notícia boa. Encostei-me na parede e suspirei aliviada.

— Então diga logo! Não enrole, por favor. — Pedi em um tom sério, mas acabamos sorrindo.

O médico marcou a cirurgia da sua mãe para hoje ás cinco horas da tarde. — Disse todo contente.

— Graças a Deus, pai! Que maravilha! — Fechei os olhos e as lágrimas de felicidade desceram pelo meu rosto.

Obrigada por ter me escutado, Deus!

— Pai, tem risco de não dar certo? — Indaguei apreensiva. ― Eu li um pouco sobre o assunto na internet, mas preciso ouvir do senhor para poder ficar um pouco mais tranquila. ― Confessei.

Como o médico me disse, toda cirurgia, não importa em que lugar, tem algum risco. — Meu coração se apertou ao ouvir sua resposta, porém não era surpresa. Eu já tinha lido essa informação em minha pesquisa. — Mas não precisa se preocupar tanto, tá bom? Vai dar tudo certo. O médico me garantiu que essa cirurgia tem mais chances de dar certo do que errado. Sua mãe logo ficará boa e voltará para nós.

— Não prometo nada, mas tentarei ficar calma, como o senhor está me pedindo. — Fui sincera e ouvi sua risada. Sorri junto. De repente, a diretora aparece em minha frente com uma cara de poucos amigos. Coitada! Será que ela sabe que eu não tenho medo? — Pai, eu vou ter que desligar porque eu estou na escola, mas me mantém informada de tudo, por favor.

Fica tranquila, meu amor. Tchau!

Despedimo-nos e encerramos a ligação ao mesmo tempo.

— Para a minha sala agora. — A velha ordena e se retira.

Fui até a sala e avisei a Regina que a diretora estava me chamando e segui para a diretoria.

Com a minha cara mais cínica, entrei no recinto sem nem bater na porta e me sentei na poltrona que ficava perto da parede.

— Algum problema? — Perguntei normalmente, como se não soubesse o motivo de sua chamada e ela sorriu.

— Você sabe muito bem que não pode fazer o que estava fazendo. — Inclinou-se na mesa e me olhou intensamente. — Sem falar que eu não acredito que estava falando com o seu pai. — Levanta-se da cadeira e rodeia a grande mesa, chegando perto de mim. — Não admito que saia da sala de aula, ainda mais em horário de prova, para estar falando com sabe-se lá quem.

Minha vontade era de estapear bastante aquela face arrogante e cheia de plástica e de gritar inúmeros desaforos, mas eu não podia fazer isso. Além de correr o risco de ser suspensa e perder as outras provas, não gosto de ser mal educada com pessoas mais velhas. Eu aprecio o respeito.

— Olha, se a senhora acredita ou não que eu estava falando com o meu pai, o problema é seu. — Digo, pouco abalada. — Eu só quero lembrá-la que dentro da sala de aula, como nos foi ensinado, a maior autoridade ainda é o professor. Ele que manda e desmanda nos alunos, e não a diretora, no caso, você. — Sorrio cinicamente. — Se o professor que estava na minha sala de aula, permitiu que eu atendesse a ligação, que mesmo que não seja da sua conta, eu digo que sim, era o meu pai, e não que eu precise provar minha inocência, pois aqui é uma escola e não um júri onde estou sendo julgada por algo, mas ainda assim, posso provar que era com ele que eu falava, então eu não estava errada no que fazia. — Levantei-me da poltrona e cheguei bem perto dela. — E não adianta contra argumentar, você sabe que estou certa. — Dei um sorrisinho e me virei, indo até a saída. — Agora, se a senhora me der licença, preciso voltar para a sala. — Girei a maçaneta, abri a porta, virei-me para ela e sorri cinicamente, e saí rapidamente, antes que eu perdesse a paciência.

Notas finais
Vamos comemorar a notícia boa em meio às ruins! Até o próximo! ;0