Newcomer.
1 Capítulo 1 - Newcomer.
Notas iniciais
O vento que passava por entre as janelas da sala de aula tinha cheiro de grama recém-cortada. Hanna fechou os olhos com força apreciando o momento. As quatro meninas estavam sentadas em carteiras próximas, assistindo a monótona aula de inglês no último horário antes do almoço.
Aria estava envolta numa conversa por bilhete muito animada com a loira sobre o estilo de roupa de cada estudante de Rosewood Day. Já Spencer lia vigorosamente o mais novo livro de mistério que encontrara há dois dias na estante do escritório da família Hastings. Desde então, não desgrudava dele nem para realizar as refeições. Emily, por sua vez, estava lendo um artigo de uma revista para adolescentes "Quando saber que ele/ela não é a melhor opção".
Ouviu-se algumas batidas na porta, que fez com que os alunos, antes entediados, se alertassem, e o professor Beans, o substituto, se ausentou alguns minutos depois de abri-la. Mas antes que os burburinhos começassem a se espalhar pela sala, o docente de meia idade estava de volta com uma pessoa atrás.
— Hã-hã! — Coçou a garganta, fazendo com que as garotas parassem o que estavam fazendo para prestar atenção. – Classe, esta é a nova aluna de Rosewood Day. Elizabeth Carter.
A menina então deu um passo à frente, guiada pelo professor. Era linda. Tinha olhos azuis, cabelos longos e castanho escuro presos em um rabo de cavalo alto. Vestia uma blusa de meia manga branca, com um short jeans rasgado propositalmente e tênis popular baixo qualquer.
— Espero que tratem-na com respeito e lhe deem as boas-vindas. — Disse o professor, apertando a mão da novata, emitindo um "seja bem vinda" e apontando para uma cadeira vazia ao lado de Emily.
Emily corou quando a garota teve seus olhos cruzados com o seu ao sentar no local indicado, sorrindo para a morena. Um sorriso que Emily correspondeu meio sem graça.
A jovem nadadora logo sentiu um leve cutucar em suas costas e soube que era Hanna lhe passando um bilhete.
"Me belisque se eu estiver delirando, mas ela não te lembra aquela atriz de Transformers?"
Emily pôde aproveitar que a mesma anotava freneticamente tudo o que o professor havia escrito no quadro negro para recuperar o atraso e desfrutou em encarar a garota por um bom tempo. Ela realmente era semelhante.
"Megan Fox?"
A filha única da família Fields escreveu no lado oposto do papel, entregando-o a loira, que apenas acenou com a cabeça.
Emily pôde perceber de relance, que de vez em quando a novata parava para verificar o livro de inglês e com os cenhos franzidos colocava a ponta oposta do lápis na boca.
Ainda observando sua vizinha de cadeira, sentiu seu pescoço queimar quando Elizabeth, de repente, desviou os olhos para si e, para fingir estar apenas distraída, Emily logo tratou de mover sua atenção para o que estava sendo escrito no quadro.
A morena sentiu outro toque em seu braço, mas dessa vez, era a garota nova que estendia um papelzinho.
"Carrie, a Estranha. Prazer"
Em apressou-se logo em responder, envergonhada por encará-la descaradamente. O que ela poderia pensar?
"Não!! Desculpe, é que nunca vi alguém se transferir para cá quase no meio do ano... Numa sexta feira..."
"Longa história."
"A curiosidade vence a espera"
"A curiosidade matou a gata, srta..."
"Só saberá meu nome quando souber sua longa história"
"Ok então, garota misteriosa"
O sinal tocou, fazendo com que Emily desse um pulo e a menina nova, que parecia estar concentrada em seu livro de inglês, riu com o canto da boca, sem tirar os olhos da página.
...
As meninas estavam sentadas na mesa engordurada do refeitório de Rosewood Day, falando da mais quente novidade da escola.
— Toda mundo estava olhando pra ela! — Proferiu Aria, um pouco animada demais. O que não era de se espantar, visto que nenhuma novidade ocorria no colégio há um bom tempo.
— Claro, Aria! Ela é "a garota nova". Falando nisso, de onde será que ela é? — Disse Hanna, se aproximando mais das amigas, como se estivessem conversando um grande segredo.
— Não sei. Mas tenho quase certeza de que alguém que conhecemos sabe de alguma coisa. — Spencer sorriu maliciosamente para Emily.
— Hã?! Eu? — Emily forçou um sorriso. — Ela chegou no final da aula, logo eu não conversei com ela a aula toda, então não tenho como saber mais do que vocês. — Em olhou para as meninas, fechando o cenho. — Não comentem isso perto da Paige. Ela pode se chatear.
— É... — Suspirou Hanna. — Desculpa, Em... Mas ninguém aqui acha que a Paige merece ser sua namorada.
Antes que uma discussão começasse, as meninas viram a novata se sentar em uma mesa vazia, evitando olhar para os lados, com foco somente na comida.
— Chama ela pra cá. — Disse Spencer, cutucando a amiga.
— Por que eu?!
— Porque foi você que conversou mais com ela! — Disse, incisiva.
Emily soltou um muxoxo, mas se levantou mesmo assim.
— ... Oi?! — Como não obteve nenhuma resposta nos primeiros 10 segundos, resolveu tocá-la. – Terráquea?!
A menina assustou-se e, por um milagre, não derrubou o café quente em seu colo. Assim que virou-se, se deparou com uma Emily igualmente assutada e incrivelmente vermelha.
— Olá! — Retirou os fones do ouvido.
— Desculpe! Eu não quis te assustar. — Disse sem graça.
— Essa é a segunda vez que você me pede desculpas em menos de 20 minutos.
— Descul... — Emily riu e a garota também.
— Terceira.
— Bom, eu e minhas amigas estávamos pensando... Quer vir sentar conosco? Nós sabemos como é chato ter a atenção da escola toda voltada para si.
— Claro, garota misteriosa. — Emily sorriu com o comentário. A menina pegou sua bandeja que continha nada mais do que aquele copo de café que quase provocou um acidente e se levantou.
No meio do caminho, passando por entre mesas e mesas repletas de adolescentes entusiasmados e sussurrantes, alguém puxou Emily pelo braço direito.
A garota se virou assustada, mas logo se deparou com Paige.
— Hey, Baby.
— Ei, Paige! — Emily retribuiu o sorriso que lhe foi dirigido. — Você me assustou!
— Estou com saudades de você. — A ruiva passou a mão livre pelo próprio rabo de cavalo. — Desculpe!
— Eu também. — Sussurrou a morena, embaraçada ao perceber que Elizabeth estava sobrando. Resolveu logo apresentá-las para cortar o clima.
— Ah! — Tossiu. — Paige, essa é Elizabeth Carter. Ela entrou hoje aqui em Rosewood Day. Elizabeth, — Virou-se para a menina. — essa é Paige, minha... — Emily demorou uns poucos segundos para dizer — Namorada.
— Prazer em conhecê-la. — Elizabeth deu um sorriso e estendeu a mão para cumprimentar Paige. Emily ficou aliviada ao perceber que a menina não estranhou o fato de que ela era gay ao manter os olhos fixados em sua face para perceber o menor sinal de estranheza que, para seu alívio, não ocorreu.
— Uhum. — Disse Paige, secamente, sem ao menos desviar os olhos de Emily. Elizabeth por sua vez, guardou a mão dentro do bolso de seu short. — Todos estão falando de você.
— Quer sentar com a gente? — A morena passou o polegar entre as mãos da outra nadadora.
— Agora não posso. Drake quer mostrar o mais novo traje de natação que seu pai trouxe da Itália. Nos falamos depois, Em. — Paige sorriu, depositou um beijo em seu rosto e, apressada, partiu para a mesa onde estavam seus amigos.
— Acho que ela não gostou muito de me ver com você. — Disse a novata, passando por entre as mesas dos alunos que não tinham outro assunto se não sua chegada surpresa ali e observando Paige se afastar aos poucos. — Olha... — Parou de repente. Não quero causar problemas no meu primeiro dia. Acho que é melhor eu voltar para onde estava.
— De jeito nenhum! — Emily pegou na mão de Elizabeth, quando esta estava dando as costas, o que fez com que corasse e se arrependesse de seu ato.
— Não quero te causar problemas, garota misteriosa.
— Se eu te disser meu nome, você senta conosco?
— É uma troca justa. — Elizabeth deixou-se levar pela brincadeira.
— Emily Fields. — A morena estendeu a mão.
— Prazer, Emily Fields. — Elizabeth apertou a mão oferecida.
— Pode me chamar de Em, se quiser. Muitos me chamam assim.
— Pode me chamar de B. — A garota sorriu.
– B?
— Sim. Elizabeth. Beth. B. — Respondeu Elizabeth, realizando um gesto com as mãos, fazendo Emily rir do apelido.
As duas seguiram ao encontro das outras meninas que observavam à distância. Realmente o que Aria havia falado, era verdade. Todas as atenções estavam voltadas para a novata, que procurava ignorar a inesperada fama.
...
— Meninas, Elizabeth. — Disse Emily para a garota ao seu lado. — Elizabeth, meninas. Aria, Hanna e Spencer. — E foi apontando para cada uma delas ao dizer seus respectivos nomes.
— Como vão? — Elizabeth rondou a mesa, dando dois beijos na bochecha de cada uma e no final, as viu com cara de espanto.
— Desculpem!! — Ela pôs as mãos no rosto, rindo com o ato que julgava vergonhoso. — Lá no Brasil nós fazemos isso para cumprimentar. Ainda não me acostumei com um simples acenar com a cabeça.
Hanna, rindo da situação, estendeu a mão para a cadeira vazia:
— Senta ai. Nós queremos ter exclusividade na sua entrevista!
— Então você é do Brasil! — Disse Aria, surpresa. — Estávamos discutindo sobre qual lugar você seria. Seu sotaque é diferente.
E começaram um papo animado sobre o país. Ouvindo Elizabeth contar que vinha do Rio de Janeiro há pouco tempo. Trocaram informações sobre o clima, os costumes e, é claro, palavrões.
...
— Sete horas? Minha casa? — Perguntou Spencer para as amigas quando a aula havia acabado e se encontraram nas portas dos armários. Todas confirmaram com a cabeça.
Elizabeth foi a uma das últimas pessoas a sair de uma sala ali perto. Sem ver as garotas, se encaminhou para seu armário e tentou, sem nenhum êxito, abri-lo.
Depois de uns dois minutos, desistiu, dando um soco na porta de aço. Fazendo com que soltasse um palavrão com a dor.
— ... Posso ajudar? — Disse Spencer, se aproximando.
— Ah! Spencer! Claro. — Elizabeth sorriu sem graça para a menina, abraçando a mão machucada.
— O segredo — Disse Spencer quando abriu o armário sem nenhuma dificuldade. — É empurrar e puxar rápido.
— Nossa, — Disse a menina de olhos claros, sorrindo. — te devo uma. — Emily, Aria e Hanna se aproximaram. Elizabeth arrumou sua mochila e em seguida, tirou um skate do armário.
— Elizabeth! — Exclamou Aria. – Você anda?
— Eu tento. — Sorriu Elizabeth, sem graça.
— Ah! Sempre quis aprender a andar nesse treco. — Disse Hanna com os olhos brilhantes. — Mas desisti quando, aos doze, quebrei a unha ao cair. — Todas riram e caminharam para a saída.
— Bem, foi um prazer conhecer vocês. — Disse Elizabeth se despedindo e quando ia abraçar Emily, ela parou. — Ah! Desculpem, sempre esqueço que vocês não são acostumadas a isso.
— Eu não me importo! — Disse Emily um pouco ansiosa demais. O que a fez corar.
— Ótimo, assim não fico com tantas saudades do Brasil. — Sorriu Elizabeth dando um abraço de despedida em Emily. O abraço era gostoso e quente. Seus corpos se encaixavam perfeitamente. Emily então, sentiu seu coração disparar e ficou com medo de que a garota percebesse. A aproximação não durou mais do que três segundos. Mas foi o suficiente para deixar a morena um pouco sem fôlego.
— Nós também não nos importamos. — Aria fingiu um semblante chateado.
— Vou acostumá-las mal, então. — Imitou um sorriso maléfico e deu um abraço em cada uma, que retribuíram sorrindo.
— Até mais. — A novata acenou e subiu no skate. As meninas ficaram olhando até a Elizabeth sumir de vista.
— Parece que ela nasceu com aquilo nos pés! — Se surpreendeu Emily.
— É... Meio 1990... — Avaliou Hanna. — Mas não deixa de ser legal. Me sinto no meio de um clipe do Simple Plan.
— Gente! — Ouviram Aria dizer, batendo a mão na própria testa. — Podíamos ter oferecido carona! Ela foi para o mesmo lado que nós vamos.
...
Assim que curvou a segunda esquina, Elizabeth pôde ouvir um assovio vindo da janela da parte de trás de um SUV branco.
As meninas conseguiram alcançar a garota, que praticava manobras por onde passava.
A novata olhou para o lado e reparou no carro guiado por Emily, que fazia um gesto para que ela entrasse no automóvel, então se aproximou da janela:
— Minha casa é logo ali. Não precisam se preocupar. — Apontava para o lugar.
— A minha e a de Spencer também. — Riu Emily, passando parte de seu cabelo para trás da orelha direita.
Elizabeth sorriu e entrou na porta que Hanna havia aberto na parte traseira, se ajeitando com Spencer nos bancos para que a garota entrasse. – Então, B. — Disse Emily, olhando a menina pelo retrovisor. — Qual é a sua rua? — Elizabeth contou aonde morava. Por coincidência, na mesma rua que Spencer e ela.
— Espera, só tinha uma casa à venda ali. — Sim. A casa de Alison... — Acho que você mora do meu lado! — Sorriu sem graça, assim como as outras.
— Sério? — Disse Elizabeth sorrindo também. — Vou saber para quem pedir açúcar.
As garotas resolveram que era melhor deixar Hanna e Aria primeiro, para depois fazerem o retorno para casa. Foram conversando os mais diversos assuntos até que Emily estacionara o carro em frente sua casa.
— É aquela ali. — Apontou Elizabeth para sua nova residência e um silêncio se fez presente, até que Spencer o quebrou assim que as três desceram do carro.
— Valeu, Em! — Spencer estava apressada. Iria perder a aula de hóquei se não corresse. — Foi um prazer conhecer você, Elizabeth! — Gritou já do outro lado do portão dos fundos de sua casa. À esquerda dela estava o quintal de Ali, onde os pais construíram um gazebo capaz de abrigar vinte pessoas para aqueles seus piqueniques metidos a besta. Mas agora o lugar pertencia a Elizabeth Carter e não Alison Dilaurents.
As duas observaram a amiga caminhar por sua propriedade, passando pelo ex-celeiro que estava logo a sua frente. Era pequeno e aconchegante e tinha uma janela grande, que dava para os grandes espaços livres do terreno, que possuía seu próprio moinho.
Em Rosewood, na Pensilvânia, um subúrbio pequeno que fica a mais ou menos trinta quilômetros da Filadélfia, é mais provável que se viva numa casa de fazenda com vinte e cinco quartos, com piscinas azulejadas em mosaico e hidromassagem, do que em uma casa pré-fabricada.
Rosewood cheirava a lilases, a feno, a neve fresca e a lenha queimada no inverno. A região estava cheia de pinheiros altos, quilômetros e mais quilômetros de fazendas familiares bem rústicas, e raposas e coelhos bem fofinhos. Havia um shopping, propriedades em estilo colonial e uma porção de áreas ao ar livre, perfeitas para comemorar aniversários, formaturas e para festas que gostamos de dar sem motivo algum. E os jovens de Rosewood eram lindos e chegavam a brilhar de tão saudáveis. Pareciam todos saídos de um comercial de roupas de baixo, de perfume ou de um catálogo esportivo da Abercrombie.
Aquela era a nata da Filadélfia.
Várias famílias ricas e tradicionais, com dinheiro antigo e escândalos mais antigos ainda.
— Muito obrigada pela carona, Em. — Disse Elizabeth, enquanto a morena ia ao seu encontro na calçada.
— De nada vizinha. — Emily sorriu. Elizabeth estendeu o braço direito para um meio abraço em Emily e as mesmas sensações percorreram o corpo da morena, que estremeceu ao toque.
— Até amanhã. — Elizabeth sussurrou, fazendo com que Emily se arrepiasse ainda mais.
— Até... — Sorriu um pouco atordoada.
Emily esperou a menina entrar para que então abrisse a porta de casa. Aquele sorriso bobo que estava em seu rosto demorou um bom tempo para sair.
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