Never Let Me Go

2 Welcome to Oak


Eu observava cautelosamente o nome Julia Foster impresso na imensa placa de bronze, de pelo menos dois metros de altura, contendo os nomes de outros vencedores também. Abaixo de meu nome estavam os nomes de minhas quatro fiéis melhores amigas; Ally Greyson, pequena ruiva com sardas, a “bebê”, se assim posso chamá-la. Kate Brown, morena, baixa e que sempre tem um sorriso no rosto e um laço na cabeça. Caroline Johnson, morena também com profundos olhos escuros e minha grande amiga de infância. Jane Bunch, a única loira entre nós, com olhos verdes, alta e magra e se ela te lançar um olhar perverso, quer dizer que gosta de você. E eu Julia Foster, não sei muito bem como me caracterizar então, morena de cabelos ondulados, olhos azuis... Acho que só.

Entenda, a América do Norte foi extinta e dela surgiu uma nação chamada Panem. Formada por doze distritos, era comandada pela chamada Capital. E após uma revolução o país parou de ser comandado por ela e voltou a ser uma república, ou seja, presidentes, governadores, prefeitos, eleitos pela população, como antes fora. Após a revolução, um aglomerado de pessoas que não concordaram com a mesma, se refugiaram no norte de um estado hoje chamado Alasca, e com o passar dos anos, esse aglomerado foi crescendo, destruindo aldeias próximas, e por ser ainda muito pequena e insignificante ao “novo mundo”, ela ainda não foi descoberta. Somos sobreviventes ao deserto de gelo.

No final da cidade existe uma fronteira, na qual nem os limites da mesma ultrapassam, que ninguém entra ou sai e pelo que eu saiba ninguém de fora nunca cruzou-a, geralmente isso se deve às condições extremas do local. Oak é uma cidade rodeada em seu próprio mundo, autônoma, cresce e se desenvolve sozinha, sem ajuda nenhuma do país, vivendo com os métodos de Panem.

E quando eu digo métodos de Panem, quer dizer todos eles. Ou seja, a cidade ainda é comandada pela mão de ferro da capital -que hoje é um grade prédio de mármore no centro da cidade- e ainda existem os Jogos Vorazes, só que eles estão um pouco... diferentes. Conforme a cidade crescia, destruía aldeias e pessoas nasciam, houve um número de população muito grande, ultrapassando os limites da cidade, a escola se superlotava e não haviam alimentos ou casas suficientes. O conselho decidiu que somente vinte e três tributos por ano era muito pouco, então ocorreu a brilhante ideia no presidente Marley. Por que não formar grupos de cinco pessoas, dois por série e lança-las no campo de batalha? Com isso, a cidade se esvaziou mais rapidamente, e o presidente Marley conseguiu manter a cidade de pé, e crescendo.

Agora os Jogos funcionavam de outra forma. Eram formados dois grupos de cinco pessoas por série, da quinta série até a oitava, com pessoas de onze à dezesseis anos. Os dez nomes eram sorteados, e os grupos formados aleatoriamente, num total de oito grupos de cinco por séries– dois grupos de cinco pessoas da quinta série, dois grupos de cinco da sexta, dois grupos de cinco da sétima e dois grupos da oitava-. Um grupo seria o vencedor, contando que sobrasse pelo menos um representante do mesmo. Os alunos do ensino médio, que geralmente não eram muitos, não participavam dos Jogos, o que eu achava injustiça, mas nada que eu fizesse mudaria este fato.

Os Jogos eram feitos no Inverno, quando a neve começasse a se acumular. O grupo vencia, ele voltava às aulas normais e no sorteio do ano seguinte não eram poupados, seus nomes eram postos novamente nas bolas de vidro. O grupo ainda poderia ganhar se houvesse pelo menos uma pessoa representando-o. Geralmente a fama de vencedor não durava muito, pois todos os anos o grupo que vencia, de alguma forma misteriosa era sorteado novamente no ano seguinte e voltava à arena. Se faltasse alguém no grupo era substituído por outra pessoa. Nenhuma vez um grupo ganhou duas vezes. Todos os anos pelo menos trinta e cinco famílias passavam os feriados desoladas, e trancadas em casa com o seu próprio luto.

Minha família já foi uma destas.

Meus pais eram de uma aldeia próxima à cidade que foi destruída. Eles e mais algumas pessoas sobreviveram ao ataque e foram forçadas à virem para Oak. Meu irmão Seth, e eu nascemos aqui em Oak, e logo quando meu irmão foi para quinta série seu nome foi sorteado e ele foi jogado em um grupo com outros dois meninos e duas meninas. Nenhum deles sobreviveu ao primeiro ano na caçada mortal.

Ainda guardo a fita dos Jogos de meu irmão, embora ninguém mais saiba. Eu a assisto regularmente, para escutar sua voz, ou vez seu sorriso mais uma vez, mas nunca passo das entrevistas, eu nunca tive coragem de assistir os Jogos, nunca tive coragem de assistir sua morte. Depois disso nessa mesma época eu ficava... Diferente. O Natal nunca foi o mesmo, nem nunca mais vai ser. Mas agora eu tinha outro motivo para ficar assim nessa época do ano.

Continuei caminhando pela cidade, fazendo caminho até a minha casa, e como sempre, os costumeiros olhos de moradores de Oak me observando, ou melhor, me julgando com os olhos frios. Tudo o que aparecia deles nas frestas das cortinas. Em alguma casa que eu passei, não lembro qual em especial,- todas as casas são iguais- eu avistei um menino sentado na soleira da janela, olhando para o nada, ou talvez para a paisagem, não sei dizer direito.

Parei minha caminhada e fiquei observando-o por um tempo, ele tinha cabelos dourados e olhos claros, não sabia se eram azuis ou verdes. Eu tinha a impressão de conhecê-lo, acho que já estudou comigo. Por causa das cortinas abertas claramente ele conseguiu me avistar pelo vidro, e deu um pequeno sorriso com os lábios fechados, e eu como sempre não demostrei nenhuma emoção e continuei em frente, sem saber se o menino tinha ficado ali me observando ir, observando a paisagem ou se ele havia simplesmente saído da janela.

Será que ele me conhecia? Geralmente as pessoas em Oak são tão amargas e solitárias, chegam até a ser estranhas, e muito raramente se recebe um sorriso de qualquer um. Acho que ele me conhecia dos Jogos, afinal ele fora obrigado a me assistir esgueirando-me da morte diversas vezes. Na verdade a cidade toda me conhecia, e se não fossem obrigados a sorrir e me aplaudir, tudo o que eu recebia eram olhares frios. Mas nada disso me incomodava, afinal, se sorrissem para mim eu saberia que o sorriso era falso e não sorriria de volta. Por que ele sorriu para mim então?

Minha mente foi consumida por essa pergunta até chegar em casa, quando finalmente consegui me livrar dela, e levar meus pensamentos para outro lugar. Entrei em casa, tirei meu casaco, meu gorro e meu cachecol e os pendurei em seus devidos lugares. Passei pelo corredor que continha uma foto de meu irmão, e olhei-a por um tempo. Eu sentia sua falta, e muito. Meus pais estavam quietos, ambos sentados em poltronas, lendo.

- Daqui a pouco farei o almoço – Disse minha mãe, enquanto ajeitava os óculos que lhe escorregavam pelo nariz.

Concordei com a cabeça e me voltei na direção das escadas, e logo estava em meu quarto. Resolvi assistir ao DVD dos Jogos de meu irmão. Fui em direção à pequena cômoda e abri uma pequena gaveta que se encontrava embaixo da mesma, mais para um compartimento, que eu mesma havia construído alguns anos atrás. Nela haviam somente quatro coisas. Duas fitas de dois Jogos diferentes, uma dos meus Jogos e uma dos Jogos de meu irmão. Havia uma pequena tiara preta com alguns brilhos, e um peão velho, que um dia pertencera à Seth, ninguém sabia desse esconderijo, muito menos das coisas que ele guardava.

Tirei uma das fitas juntamente com a tiara, que estava com algumas farpas grudadas. Delicadamente tirei-as e voltei –me para o aparelho de televisão. Inseri a fita no mesmo e esperei em silêncio o filme começar, agarrada com a tiara no peito.

Notas finais
Esse capítulo foi mais para a explicação da história, e de coisas que vocês precisam saber para entendê-la.
Espero que tenham gostado e obrigada por lerem.
xxJuhxx