Neutralizado
1 Raíz
Essa foi a melhor maneira de terminar isso
2015, 6 de dezembro, 46 anos
Todo mundo diz que a vida passa na nossa frente quase como um filme antes de morrermos. Dizem que tal evento só acontece quando estamos numa situação de perigo e vimos a morte chegar impulsiva e devastadora no nosso campo de visão, mas o meu caso pode ser diferente, pelo menos eu acredito que seja. Porque afinal de contas eu estou aqui, deitado de barriga para cima no chão gelado do meu banheiro com um frasco meio cheio de neutralizadores na mão. Não há perigo iminente ou algo do tipo, eu simplesmente espero a morte.
Na embalagem diz “cuidado, altas doses não são recomendáveis. Se o efeito não for o desejável com as dosagens recomendadas, pare com o uso”. Que engraçado, talvez todos esses anos enquanto eu tomava a dosagem certa eu estivera morrendo aos poucos, e agora eu simplesmente, com a medida certa, o fiz da melhor maneira. Acabei com isso rápido.
Ou não tão rápido assim. Poucos minutos atrás eu estava chorando e as beiradas dos meus olhos ainda ardem um pouco. Estava triste e furioso. Possivelmente, neste exato momento, eu estaria realmente puto por estas pílulas estarem demorando tanto tempo para me matarem e talvez até com medo de morrer. Mas esse é o lado bom de pílulas neutralizadoras, você não sente medo de morrer, aliás, você não sente nada! Então, se você quer se matar, as recomendo fortemente! O estranho é que eu precisei sentir – e muito – para querer morrer. Quando enchi minha mão de comprimidos e os engoli com o auxílio de um suco de laranja cheio de açúcar, eu estava sentindo. Vou tentar descrever pra você o que eu senti já que nesse exato momento, estou tão repleto de sentimentos como uma porta.
Dor.
Uma quantidade absurda e imensurável de dor, quase palpável e que eu sentia enquanto lágrimas escorriam dos meus olhos e meu estômago se revirava numa dança selvagem. Uma dor que refletia toda a culpa, tristeza, luto e ódio que tomavam conta de mim. Se eu estivesse neutralizado, isso não teria acontecido. Eu estaria indiferente com os prós e contras da morte, assim como os da vida. E eu juro que agora, sinto tão pouco que não há maneira alguma de me sentir arrependido. Admito, no entanto, que ainda ouço aquela voz lá no meu interior gritando aquelas coisas. Mesmo neutralizado ao extremo e a beira da morte por uma overdose de pílulas neutralizadoras, ainda a ouço. E ela me implora por uma coisa.
Apenas uma única coisa seu bastardo de merda! Você precisa fazer isso! Por acaso quer morrer sozinho?!
A resposta é: Sim, eu quero. Mas a pequena voz continua a gritar dentro de mim:
Qual é o seu problema? Acha que há alguém falando com você agora? Você sou eu, eu sou você, Damien Roseburn. Se eu quero que você faça isso, você também quer!
Bem, nisso ele tinha razão. Ou eu tinha razão. Algum desses dois. Não vai custar nada, vai?
Levantei-me do chão com um esforço incomum e deixei o frasco em cima da pia. Noto que acabei de me salvar de um tremendo clichê de suicídio no chão do banheiro com a arma do crime em mãos. Vou até a sala de estar, pego meu celular e disco seu número, ainda o lembro de cabeça. O telefone chama um pouco e ela atende.
— Oi. — Digo daquela maneira seca e indiferente de falar. Não tento escondê-la.
— Damien? Oi… — Uma pausa desconcertante.
— Você acha que vale a pena? Eu digo, viver. — Falo ainda em tons monótonos.
— O que? Damien, do que você está falando? O que aconteceu? — Na sua voz, um toque de nervosismo.
— Eu fiquei sabendo de umas coisas…— Comecei a brincar com uma almofada do sofá da sala — Não encarei muito bem e fiquei muito, muito mal. Você não respondeu minha pergunta.
— Damien fala comigo, o que tá acontecendo? É claro que vale a pena viver. Pare de pensar bobagens! — Ela quase grita.
— Eu queria que você me dissesse que valeu a pena. Acho que na minha situação é comum pensar se a vida valeu a pena ou não. Pesar as situações boas e ruins e ter um veredito final. Mas eu tomei pílulas neutralizadoras e bem… Não me vejo em ocasião para ter esses momentos… E você me conheceu tão bem...—
— Damien Roseburn, seu babaca! Onde você está?! Quantas pílulas você tomou?! — Ela parece que começou a correr e agora está gritando e me xingando a plenos pulmões.
— Sim, eu talvez seja um babaca. Estou em casa, deitado no meu sofá. Devo ter tomado umas vinte.
Fui xingado mais vezes. Ela começa a chorar dizendo que está a caminho.
— Hannah, você está longe demais. Não se preocupe, eu não estou sentindo nada agora. Essa foi a melhor maneira de terminar isso. — Esperei ser interrompido, mas o único som que eu pude ouvir foi o de seus soluços e seu choro desesperado. — E eu queria te dizer uma coisa.
Nunca iria imaginar quantas vezes iria conversar com lágrimas novamente
1978, 20 de Agosto, 8 anos
Aos oito anos de idade, uma criança pode ser encantada e entretida por diversas maneiras.
— Robô! Por favor, Robô pai!
Fui correndo em direção ao meu pai pedindo pelo grande ‘robô’. Dimitri Roseburn, um homem grande com um bigode escuro que faz parte da sua identidade, parou de ler seu jornal das notícias de domingo, colocou-o na mesa e levantou-se da poltrona de couro.
O robô é algo extremamente divertido e é uma das minhas brincadeiras prediletas. Papai, por sua vez, é um mestre nisso. Acontece da seguinte forma: Apoio meu pé direito em cima do seu pé direito – o que devido a nossa diferença de tamanho, chega a ser confortável –, faço o mesmo com o seu pé esquerdo. Tudo isso enquanto meu pai segura meus braços para que eu não me desequilibre e caia pra frente. A ideia é que eu sou um humano e meu pai é um robô, uma espécie de megazord entende? Primeiro ele dá alguns passos lentos e eu sou levado junto, mas é como se eu o controlasse. No final ele me levanta pelos braços e então é como se o humano saísse do robô e ficasse pendurado por ele. É a melhor parte, bato as pernas como se estivesse realmente voando.
Um apito vem da cozinha ao mesmo tempo que a porta da sala se abre. Papai me coloca no chão novamente e vai checar o fogão, vejo ele tirando um bolo do forno e o cheiro de queimado se alastra quase que instantaneamente pela casa. Joseph, meu irmão mais velho, passa pela porta com uma caixa de sapatos alocada gentilmente em baixo de seu braço direito. Vou correndo em sua direção.
— Não Damien, isso é pra mamãe. – Joseph levanta a caixa para fora do meu alcance.
Sinto tanta raiva por isso que quero chutar sua canela, mas apenas puxo a barra da sua camisa e insisto:
— É o presente dela? Deixa eu ver, vai!
Joseph bagunça meus cabelos e dá um daqueles sorrisos que adultos dão para crianças calarem a boca. Isso não é nada justo! Joseph é apenas 3 anos mais velho que eu, duas vezes mais alto e se acha um adulto como mamãe ou papai. Cruzo os braços e fico de cara emburrada enquanto papai tenta salvar o bolo queimado na cozinha e Joseph sobe as escadas, indiferente.
Vou até a varanda e sento nos degraus que ficam de frente para a grande plantação do meu pai. Vivemos numa grande fazenda numa região um pouco distante da cidade. O vento quente bate no meu rosto enquanto penso no presente que Joseph irá dar pra mamãe e sinto uma pontada de inveja. Com certeza será melhor do que aquela carta dizendo “eu te amo” que escrevi pra ela pintado com giz de cera laranja e vermelho. Então decido dar o meu presente, talvez ser o primeiro a impressione. Volto para dentro de casa e subo as escadas até o meu quarto. Encontro com Joseph sentado na cama de cima da beliche. Não é bem um quarto só meu, vamos assim dizer. Pego a carta que fiz de presente e saio enquanto meu irmão cutuca a suspeita caixa de sapatos. O quarto de Maria está aberto. Ouço suas risadas e quando entro, me deparo com meu pai sentado ao seu lado, na beirada da cama, apoiando o rosto nas mãos.
— Não está tão ruim assim. — Papai não parece estar gostando muito da brincadeira.
— Eu disse que não era uma boa ideia! Se ao menos me deixassem fazer o bolo — Mamãe para de falar e tem uma crise de riso.
Chego mais perto e observo o tamanho de sua barriga de grávida. É literalmente enorme. Me pergunto então, com o maior dos temores, se aquilo estaria comendo minha mãe viva.
— Vejamos quem está aqui! – Mamãe me recebe, animada.
Maria é uma mulher linda. A mais linda, na minha opinião. Seus cabelos longos e ondulados que batem na sua cintura são minha parte preferida nela. Depois de grávida, papai vinha constantemente a proibindo de fazer metade das coisas que ela normalmente fazia, mamãe começou a usar vestidos mais simples e quase não sair do quarto. Mas, as vezes, esse esquema de superproteção dava um pouco errado.
Errado como um bolo de aniversário queimado.
Papai me levanta como um incrível robô, sai da cama e me coloca sentado no seu lugar.
— Vou a cidade comprar alguma torta. – Diz, infeliz, beija minha mãe e vai embora.
— Feliz aniversário mamãe! – Eu digo e lhe entrego o bilhete.
Maria leva alguns segundos para ler, abre um sorriso e me abraça dizendo:
— É o melhor presente que eu já recebi na minha vida! É lindo Damien.
Ter a exata noção de que o presente era tosco e estava longe de ser o melhor que ela já havia ganhado me deixa um pouco confuso sobre o motivo pelo qual escolhi entregá-lo. Fiquei pior ainda quando Joseph entrou no quarto com um pequeno filhote de cachorro.
— Ai meu Deus! — Mamãe gritou de uma maneira que eu levei um tremendo susto.
— Feliz aniversário! — Joseph diz e coloca o pequeno cãozinho na cama. Incomodado, eu levanto e fico o encarando. É um cachorro simpático de pelos cinzas, tão fofo que quis apertá-lo. Eu até apertaria se não estivesse morrendo de inveja do presente de Joseph.
Papai coloca a cabeça pra dentro do quarto e grita:
— Vamos Joseph! A torta!
Joseph abraça minha mãe e vai junto com papai. Ficamos só nós dois enquanto minha mãe brinca com o filhote. Ela nota minha cara emburrada e pergunta:
— Me diz, o que você mais gosta no mundo inteiro?
— Você! — Digo, de ímpeto.
— Não, não, algo material. Que não seja nem eu, nem papai, nem o irmão Joseph e nem seu pequeno irmãozinho aqui. — Ela toca a barriga.
Fico impressionado com a maneira pela qual ela colocou aquilo no meio de potenciais coisas que eu mais gosto no mundo inteiro. Cai fora!
Cedo um pouco e respondo:
— Hum... A chuva.
— Pois bem! Chuva então. — Ela diz com aquele seu sorriso jovial erguendo o cãozinho cinza no alto.
Reviro os olhos e viro as costas. Mamãe abaixa o cachorro e pergunta, confusa:
— Damien, o que diabos tá acontecendo?
— Nada.
— Damien, eu te conheço.
— Nada mãe.
— Damien Roseburn, se você continuar chateado, aí a mamãe vai ficar chateada. E eu fico muito triste quando chateada. Quer que eu fique triste?
Ela sempre me convence facilmente.
— Joseph sempre te dá os melhores presentes. O presente desse ano foi tão bom que ele te deu algo que respira!
Mamãe dá uma pequena risada que me constrange.
— Ah pare com isso filho, eu amei o seu presente.
Ainda cabisbaixo, sentei perto da minha mãe enquanto o cachorro tentava se aninhar no meu colo.
— Bem... Desculpe por isso, eu só queria te deixar feliz no seu aniversário.
Chuva deitou no meu colo, parecia estar mastigando algo. Olhei descrente para o cachorro. Ele definitivamente estava mastigando algo.
— Meu bilhete... — Apontei para o filhote.
Mamãe colocou o cachorro no chão e tirou metade do papel da sua boca. Agora dizia “amo” nele.
Quis chorar. Quis muito chorar. Meus olhos encheram d’água e minha mãe disse:
— Sabe o que eu mais queria ganhar hoje e que respira?
Tentei perguntar mas se eu o fizesse, irromperia em lágrimas. Maria estendeu sua cabeça para trás de um jeito dramático.
— Flores. — Disse, enfim.
— Mãe... — Tentei engolir o choro para explica-la. — Flores não respiram.
Ela riu e rebateu:
— Respiram sim Damien, não sabia?
Como assim flores respiram? Elas não têm nem mesmo pulmões para isso. Mas se minha mãe está dizendo, deve ser verdade.
— O quanto você está afim de ganhar flores? — Perguntei esperançoso, lembrando da quantidade de flores que havia lá fora para buscar. Talvez mamãe estivesse sendo tão presa por papai que ela não tinha tempo para busca-las sozinha. — Tipo, muito?
— Muito! Muito mesmo!
Virei as costas para o sorriso da mamãe e corri até fora de casa. La fora, corri mais ainda. Corri até meus pulmões começarem a arder. Eu lembrava de um lago, e nesse lago haviam umas flores em volta que eram simplesmente perfeitas. Passo todo o caminho pensando na mamãe recebendo as flores com aquele seu sorriso e brilho nos olhos. Ela vai até esquecer de Chuva, tenho certeza! Enquanto caminho por uma vegetação que vai até meus joelhos, o céu começa a escurecer e ser tomado por nuvens cinzas e carregadas. Daqui consigo ver a rua de barro que meu pai usa pra chegar na cidade. Vejo seu carro passando na direção de casa.
Não preciso me apressar, já estou no lago. Começo a procurar e logo as encontro perto de uma grande rocha repleta de musgo. Um grupo com seis orquídeas, pego metade delas, com o intuito de voltar lá outro dia e pegar as restantes, mamãe ia se surpreender quando o fizesse!
Na volta, começa a chuviscar um pouco e eu coloco as flores por baixo da camisa para guarda-las bem. Quando estou no meio do caminho, vejo a caminhonete do meu pai indo – dessa vez, com uma velocidade anormal – para a cidade. Será que o bolo veio ruim?
Chegando em casa, a chuva começa apertar e sou obrigado a correr. Tiro os tênis enlameados na porta. Não há ninguém na sala. Na cozinha, apenas uma grande torta de chocolate. Não vejo nada de errado nela para voltarem a cidade e comprarem outra.
— Joseph?
Pelo silêncio, parece que ele foi com o pai até a cidade de novo. Subo as escadas para entregar meu presente. O quarto de mamãe está vazio.
—Mamãe? — Pergunto retoricamente, tomando noção da solidão. Subitamente fico com medo. Um medo acompanhando de um tremendo mal pressentimento. Sento na cama da minha mãe e sinto um molhado gosmento no traseiro. Saio enojado e sento perto da porta. Não leva muito até Chuva aparecer. Depois de um tempo, acabo brincando com o filhote, tomando até certa simpatia por ele.
Não sei bem quando eu caí no sono, mas a primeira coisa que vi quando acordei foi um traço verde na minha mão. Pisquei mais duas vezes e vi que aquilo era parte do que eu tinha trazido. Onde está o resto!?
Chuva sentava na minha frente, ofegante. Um de seus dentes estava roxo.
— Seu idiota!
Quando levantei correndo, pronto para esganar o cachorro, a porta no meu lado abriu e se chocou no meu ombro com força.
— Ah, Damien!
Era Joseph. Ele veio me abraçar.
— Tá tudo bem. — Eu disse, esfregando o ombro, pensando que era um abraço de desculpas.
— Mamãe... Ela... — Joseph tentava falar algo enquanto chorava.
Eu nunca tinha visto meu irmão chorar.
— Joseph?
— É uma menina! — Um sorriso apareceu entre suas lágrimas.
— Que bom... Mas... Cadê a mamãe?
Já era bem tarde, seu aniversário deve ter passado e nem comemos a torta ainda. Olhei para minhas mãos e em um dos pequenos galhos ainda haviam algumas pétalas. Ainda poderia entrega-las!
— Mamãe morreu Damien.
É estranho quando não conseguimos achar palavras certas e a única coisa fácil, viável e certa a se fazer é chorar. Eu abracei meu irmão e em meio ao silêncio, choramos juntos. Uma espécie de troca de lágrimas. Um novo conceito de diálogo.
Nunca iria imaginar quantas vezes iria conversar com lágrimas novamente.
Ocupamos nosso tempo interpretando papéis com emoções fictícias
2015, 12 de março, 45 anos
São oito da manhã e já faz algum tempo que encaro o teto do meu quarto com aquela mesma expressão vazia de sempre. Metade do meu corpo nu está descoberto e eu sinto frio onde o vento toca. O frio é uma das poucas coisas que sinto, devo dizer. Naquela época em que eu gostava muito de certas coisas e odiava outras, eu costumava a gostar do frio. Na verdade, eu iria estar adorando essa manhã de hoje. Na minha esquerda, o quarto se encerra em grandes janelas, onde posso ver nitidamente toda aquela imensidão de nuvens carregadas e arranha céus que parecem estar literalmente rasgando as nuvens daquele cinza escuro. Ao meu lado, uma luz vermelha pisca, mostrando uma nova mensagem na secretária eletrônica, aperto um botão na máquina e sigo até o banheiro para tomar banho.
— Ei Damien, é Elisabeth. Então, faz um bom tempo que a gente não se vê... Você não manda notícias... Estamos morrendo de saudades, então decidi marcar um jantar para o próximo mês, já que Joseph também vai estar passando na cidade para nos visitar! Me responda quando der, ok? Fernando está te mandando um grande abraço. Te amo maninho, se cuida.
Acabo de ouvir a mensagem enquanto um jato de água quente bate nas minhas costas. Encosto a testa no azulejo do meu banheiro. Tudo indica que depois de receber uma mensagem dessas da minha própria irmã eu estaria me afundando em culpa e possivelmente, saudade. Mas indícios não funcionam bem comigo e, na verdade, não funcionam bem com toda a grande gama de neutralizados do mundo.
Faço meu cooper rotineiro até a praia e percorro toda sua orla. Paro um pouco antes do fim dela, numa árvore centenária repleta de raízes exuberantes. Logo após ela a calçada se eleva e dali é possível ver as ondas mais fortes batendo nas pedras lá em baixo. Não é medo, simplesmente paro antes dali e volto. Sempre é assim, é um hábito. E por favor, não se ocupe fazendo perguntas do tipo “por que neutralizados fazem atividades físicas? Pra que se preocuparem com a beleza ou saúde?”, você muito provavelmente me verá fingindo ser o que não sou para o “bem estar”. Seja meu ou da sociedade. Neutralizados fingem o tempo todo. Preciso ter um físico saudável para ter melhores chances de socialização e até, maiores chances de uma vida longa. As vezes finjo um sorriso até. Fazemos isso sempre. Enquanto os que sentem ocultam suas emoções, ocupamos nosso tempo interpretando papéis com emoções fictícias.
Chego no meu prédio, cumprimento o porteiro com um aceno e um sorriso falso – olha lá – e ele responde balançando a cabeça com um sorriso simpático.
— Como vai Sr. Francisco?
— Bem, querido. Vou bem. — O senhor Francisco — um idoso sempre amigável e gentil com todos que passam — tem um bigode branco e bem cuidado, nunca deixo de reparar nele.
Entrando no elevador, ouço um grito feminino.
— Espera!
Coloco a mão entre as portas para o elevador não fechar. Ela entra e diz:
— Obrigado, mas você não deveria colocar a mão aí, é perigoso demais.
A pequena mulher entra ofegante e vermelha de exaustão.
— Não há de que. — Ignoro a proposta sobre perigos, afinal, não sinto medo. Retrato o melhor dos meus sorrisos. Ela me olha de um jeito estranho e lembro que o melhor dos meus sorrisos é péssimo.
— Qual andar? — Ela pergunta apertando no botão 7. Percebo que seu cabelo escuro e curto é extremamente bagunçado e tem uma mecha tão rebelde que é possível reparar de longe. Me pergunto porque alguns dos que sentem não se preocupam com a aparência.
— Décimo segundo, por favor.
Quando chegamos no sétimo, o elevador não para e continua subindo.
— Que merda... — A moça se afasta das portas e junto comigo, nota que também passamos do décimo segundo. — Isso tá errado cara.
O elevador para com um solavanco violento.
— Puta merda! — Ela grita. Está quase entrando num estado de pânico.
— Calma. — Digo num tom calmo enquanto pego o meu celular para ver as horas.
— Calma?! Estamos dentro da porra de uma caixa de ferro a o que? Quinze andares do chão?!
Ela começa a dar voltas no elevador enquanto eu continuo parado no meio em perfeito descaso.
— Sim, mas ele não deve cair, eu acho.
A moça é pequena, mas quando vira-se e olha pra mim com aqueles olhos escuros, posso jurar que quase vejo sangue escorrendo deles. Até sentiria medo dela se não fosse pelo fato de...
— Você é um neutralizado?! — Ela grita. Sua mecha escura de cabelo cai sobre sua testa, errada e sem sintonia.
— Sim
Já é hora de mais uma dose, procuro dentro da minha calça, acho a pequena caixa e tiro um comprimido dela. Levo à boca e engulo à seco.
— Isso não é justo, eu sou claustrofóbica. Eu não posso ficar aqui. — Ela começa a andar mais rápido, se agarrando aos seus cabelos desarrumados.
— Quer uma? — Ofereço a caixinha de neutralizadores.
Enquanto a encaro ceticamente, repleto de boas intenções, ela me encara de volta, parecendo reunir toda a fúria do mundo para lançar em mim com seus olhos feitos de armas. Recolho a mão e guardo os neutralizadores no bolso sem saber o que dizer.
—Vai se fuder! — Ela cruza os braços e se vira. — Neutralizadores são drogas de covardes.
Não sei se foi algo armado ou simplesmente as palavras dela foram um feitiço para fazer o elevador abrir as portas. Ela sai de lá sem olhar para trás, provavelmente pouco se importando de estar no décimo quinto andar. Permaneço no elevador até as portas se fecharem de novo, refletindo sobre as acusações.
Você não é um covarde. Ela não passou pelo que você passou.
Aquela voz na minha cabeça de novo.
Relaxado não é bem o estado certo, mas eu não me sinto mal ou algo do tipo. Apenas tenho aquele incômodo habitual. Nada fora do comum. Chego no meu apartamento, tomo outro banho quente e me arrumo para o trabalho.
E eu me pergunto se um dia o amor me destruiria assim também
1985, 9 de Fevereiro, 15 anos
A alteração dos batimentos cardíacos, o rosto meio corado e a gota legítima de suor que define aquele sentimento típico: Raiva.
— Me desculpa, mas — eu digo, trabalhando numa gentileza forçada — você não estava na minha frente.
Apontei para a fila que se estendia até a entrada do refeitório. O grande gordo loiro tinha aquela cara de mongol que por si só, já me irritava. Seu uniforme da escola estava do avesso e eu não fazia a mínima ideia do porquê disso.
— Me desculpa, mas — Rebateu ele, fazendo uma imitação nada verídica da minha voz — eu vou ficar nessa fila e meus amigo também chegarão e eles fica também. Obrigado.
E virou as costas, me deixando com aquela cara estupefata diante de tanta falta de concordância e excesso de babaquisse em uma frase só.
Meu sangue ferveu um pouco mais. Meu rosto, mais enrubescido. Meu punho, um tanto descontrolado. Cutuquei-o no ombro mais uma vez e ao tempo dele virar, dei um murro na sua cara com toda minha força.
Na minha volta um “ooooohh” uníssono dos outros estudantes se deu lugar num completo estardalhaço. O gordo loiro me encarou cético com a mão no nariz, a essa hora com uma quantidade considerável de sangue. Devo dizer que o gostinho de vê-lo naquele estado me satisfez um pouco, mas nada se comparou ao medo que se sucedeu. Não simplesmente pelo fato de ele se jogar em cima de mim e me jogar no chão (vamos considerar o seu peso colossal em comparação ao meu e não tomar essa luta como justa), mas também pelos seus amiguinhos, que eu sabia muito bem quais eram, retardados colossais assim como o líder, que agora eu vejo chegarem enquanto me protejo dos socos sem técnica, mas ainda assim pesados que ele dá nas tentativas de acertar meu rosto.
Não sei quantas pessoas estão me dando pontapés e em meio à um espancamento e uma gritaria absurda a minha volta, não é muito fácil manter a compostura e muito menos tomar decisões sensatas. Continuo tentando defender meu rosto, encolhido no chão quando ouço alguém gritar:
— Parem com essa merda!
Consigo ver o gordo loiro sendo agarrado por trás e puxado dali. O herói? Joseph Roseburn, meu irmão mais velho. Logo depois, outros rapazes que de acordo com minha memória, são amigos de Joseph também puxam os outros garotos. Eles cedem por que afinal de contas meu irmão e seus amigos são veteranos e maiores (mas não retardados). Eles saem satisfeitos enquanto Joseph se agacha no meu lado.
— Você tá bem?
— Não acredito que você me fez esse tipo de pergunta. — Sento no chão e passo as mãos nas costelas, tudo em ordem. Sinto uma dor absurda no pulso direito e faço uma careta. Joseph ri e rebate.
— Depois de uma dessas você sair com o pulso machucado...
— Meu corpo todo dói.
— Faz parte. — Ele pode falar esse tipo de coisa mas brigar nunca foi, nem de longe, um dos seus melhores hobbies. Ele estende a mão e me ajuda a levantar.
— Acho que quebrei o nariz dele.
Joseph franze o cenho com uma cara de reprovação. Eu não deveria ter dito isso.
— Papai não pode saber disso.
Papai soube disso.
—Eu não criei filho pra isso!
Meu pai bate com a palma da mão na mesa de jantar com tanta força que eu pude jurar ter ouvido a madeira ranger. Elisabeth levou um susto mas disfarçou-o cruzando os braços e olhando para o lado. Ao encarar seu pequeno rosto eu podia ler claramente um “O que diabos faço aqui?”. Acontece que a escola ficou sabendo do acontecido e ligou para nossos pais com conselhos inúteis e informações desnecessárias, na minha opinião.
— Eram muitos, pai... Eu não pude fazer muita coisa. — Não me atrevo a olhar nos seus olhos.
— Eles também eram maiores. — Disse Joseph ajeitando os óculos com o dedo indicador.
— Me digam uma coisa. — Papai fecha os olhos como se buscasse algum tipo de concentração em meio a um ataque de fúria. — O que maricas fazem?
Sabíamos a resposta porque papai sempre se dedicou a nos ensiná-la. Elisabeth era poupada do fardo de a responder, provavelmente por ser uma menina. Eu respondo, não muito satisfeito:
— Maricas levam porrada.
— Joseph, eu não te ouvi. — Ele inclina-se na direção de Joseph.
Ele não o ouviu dizer nada porque Joseph nunca fala esse tipo de coisa geralmente relacionada a ser ou não um marica. O silêncio que sucede a pergunta deixa tudo tão intenso que começo a estalar os dedos com um fervor disfarçado por baixo da mesa.
—Joseph Roseburn! O QUE MARICAS FAZEM? — Papai berra.
Chuto a canela de Joseph por baixo da mesa e é como se ele acordasse. Continua olhando para baixo e diz num tom quase inaudível:
— Maricas levam porrada.
Nosso pai levanta, sai da mesa numa fúria silenciosa e nos deixa perplexos e imóveis nos nossos lugares. Quando ele some de vista, solto o ar dos pulmões e me acomodo melhor na cadeira. Sei que os outros dois sentiram o mesmo alívio.
— Papai pode ser tão ridículo as vezes! — Elisabeth bufa e revira os olhos.
— Com certeza. — Respondo, tentando controlar minhas mãos que ainda insistem em estalar os dedos que já foram estalados. Reparo no silêncio longo demais de Joseph e aperto seu ombro. Uma vez vi na TV que apertar os ombros das pessoas as tranquilizam. — Foi mal Jo, isso é tudo culpa minha.
— Não é culpa sua ter um pai tão ignorante. — Joseph sempre sabia definir as coisas. E talvez era isso o que nosso pai realmente era.
— Ele não costumava a ser assim — Cruzo os braços e aperto meus bíceps para manter as mãos ocupadas. — O que aconteceu à mamãe azedou ele.
Joseph me encara de um jeito como que se concordasse comigo. Elisabeth desvia o olhar, triste. Me aproximo dela e busco seus olhos desconsolados.
— Papai pode ter azedado, mas juro pra você que mamãe era tão doce que nada no mundo inteiro poderia azedá-la. De onde acha que você tirou todo esse mel? — Aperto seu nariz branco e dou um leve puxão, coisa que sempre faço com ela. Elisabeth cora um pouco e afasta minha mão do seu rosto com uma risada suave.
Subo as escadas e vou em direção ao meu quarto, mas algo me para. A porta meio aberta do quarto dos meus pais me permite uma visão estranha. Um tecido branco e cheio de rendas se espalha pelo chão. Chego mais perto do jeito mais furtivo que consigo, espio lá dentro e levo alguns segundos para entender o que está acontecendo.
Meu pai está abraçado à um vestido de noiva. Levo alguns segundos para reparar que ele também está chorando. O meu coração se aperta e eu me pergunto se um dia o amor me destruiria assim também.
É sábado. Oito e vinte da manhã. Para um dia em que eu não preciso estudar ou fazer algo obrigatório como ir à igreja com meu pai ou levar Elisabeth em algum parque que ela gosta eu deveria estar com umas quatro horas a mais de sono, no mínimo. Mas ouço alguém gritando:
—Chuvaaaaaaaaa!
Reconheço sua voz estridente. Elisabeth.
Quando chego na porta da fazenda ainda vestindo uma camisa branca e shorts de dormir, vejo Elisabeth perto das plantações com as mãos nos lados da boca gritando por Chuva, nosso cachorro. Joseph aparece à minha direita, pela sua cara ele também não planejava acordar tão cedo.
— O que houve?
— Acho que Chuva sumiu. — Ele responde.
— Merda.
— Vamos lá crianças. — Papai surge atrás de nós dois com as chaves do carro na mão. E agora diz especialmente para Elisabeth. — Vamos achar seu cãozinho querida.
É assim Damien. Todo mundo vai embora.
2015, 12 de Março, 45 anos
A mesa do meu escritório é arrumada e minimalista. No centro, mantenho o meu atual projeto, seja lá qual for. Á direita, um copo metálico com duas canetas pretas, uma caneta azul e uma caneta vermelha, à esquerda, um grampeador preto. No meu andar, devem haver mais outros trinta funcionários. Meu chefe passa de mesa em mesa avaliando o trabalho de cada um.
Ele para na minha frente com uma grande pilha de papéis e a coloca entre meu grampeador e minhas canetas.
— Preciso que você tome conta desses aqui pra mim, Roseburn. —Ele diz com um descaso pelo qual já estou acostumado. Sua careca está brilhando mais que o normal hoje.
No bolso da sua camisa social listrada, seu nome está bordado: Jorge Mendez. Acredito que seja algo Mexicano. Jorge é um cara que faz o seu trabalho, mas nem sempre agrada os que estão à sua volta. Boatos dizem que, no décimo quarto andar, um funcionário arremessou seu notebook pela janela após uma discussão com ele.
Sua sorte está no fato de 80% da empresa ser feita de neutralizados.
— Tudo bem chefe. — Olho para a pilha gigantesca e aceno com a cabeça.
Planilhas repletas de números, dados, estatísticas e funções prontas para serem avaliadas, corrigidas ou simplesmente preenchidas. Tudo é preto e branco. Tudo é exato. Um trabalho perfeito para pessoas como eu.
What did you expect... From post break up sex?
Ouço essa voz masculina cantando e me impressiono. Não simplesmente por achar a música familiar, mas por estar num trabalho repleto de pessoas completamente vazias de sentimentos e alguém estar cantando. A questão é que nós, neutralizados, não somos os melhores apreciadores de arte. Músicas, pinturas, filmes, tudo isso é muito sentimental para nós. O desinteresse é total.
Me inclino para trás para espiar o escritório do meu lado através da divisória. Ele continua cantarolando e trabalhando, de vez em quando, mexendo os ombros numa pequena dança disfarçada. Não lembro de nenhum neutralizado trabalhando nesse andar, ele deve ser novo aqui.
Quando tomo conta de que é impossível me concentrar com ele cantando ao meu lado, encosto no eu braço e digo:
— The Vaccines?
Ele continua cantando. Encosto com mais força:
— The Vaccines?
Ele olha pra mim meio perdido e tira os fones de ouvido.
— Nossa, desculpa cara, não tinha te ouvido.
— Tudo bem. É The Vaccines?
— Pera aí, você conhece The Vaccines?
— Sim. — Forço um daqueles sorrisos com a boca fechada, não dá muito certo.
— Nossa! — Ele me bate no braço com força — Ninguém conhece The Vaccines!
— Eu ouvia há uns anos.
Depois de um silêncio que se não fosse pela minha condição, seria constrangedor, ele acena com a cabeça para minha pilha de folhas e diz:
— Isso é injusto, olha o Henrique, ele está à uma hora sem fazer literalmente nada!
Olho para a pilha e depois para a mesa vazia de Henrique.
— Eu não me importo, na verdade.
Ele me encara, tentando decifrar minha falta de indignação e depois desvia o olhar, se espreguiçando.
— Ouvi dizer que ele fez um cara lançar seu computador pela janela depois de uma discussão. —Digo, puxando assunto. Neutralizados não socializam muito, estou praticando nisso.
— Sim, eu ouvi falar disso. Conheci o cara. — Ele olha pra mim e arregala os olhos — Já imaginou se o notebook tivesse acertado alguém?
Ele ri enquanto eu permaneço inerte. Consigo vê-lo enrubescer um pouco.
— Me desculpe, eu costumo a ter um senso de humor meio ridículo mesmo. — Ele oferece um aperto de mão meio sem jeito. — Meu nome é Tomás, a propósito.
— Damien.
Aperto sua mão.
— Prazer Damien. — Tomás sorri. Noto que ele cuida bem de sua barba, que parece ter sido aparada há poucos minutos. Seus dois dentes da frente são ligeiramente maiores que os outros, como um coelho.
— Mal chegou no setor e já fez novos amiguinhos? — Jorge aparece com outra pilha de folhas, a coloca na mesa de Tomás, deixando-o sem reação, e se vira para mim — Não sabia que neutralizados socializavam, senhor Roseburn.
O encaro ceticamente me perguntando se ele acha que poderia estar me afetando com seu comentário desnecessário. Jorge começa a caminhar de volta para seu escritório no fim do corredor quando Tomás, ainda com uma feição estupefata, diz:
— Você só pode estar de sacanagem comigo.
Jorge para por um segundo e se vira.
— Perdão?
— Olha a mesa do Henrique! — Tomás aponta com a palma da mão esticada para a mesa do outro empregado. Henrique tira os olhos do trabalho e volta sua atenção para Tomás que agora está gritando. — Você sabia que estamos no mesmo patamar? Que deveríamos trabalhar igualmente?
Jorge ri e caminha na nossa direção. Agora todos estão olhando para cá.
— Se você está insatisfeito com seu trabalho, pode pedir demissão a hora que quiser. Mas enquanto estiver aqui, você não pode fazer nada mais e nada menos do que seguir minhas ordens.
Silêncio. Há uma veia na testa de Tomás que parece prestes a explodir, seu rosto está vermelho e ele parece querer pular no pescoço do nosso chefe.
—Capiche?
Tomás oferece um sorriso torto.
—Capiche.
— Mas que merda! E vocês ficaram juntos no elevador por quanto tempo?
Tomás está na calçada conversando com alguém no telefone. Estou cansado de socialização e tento apertar o passo para passar por ele sem ser notado. Não funciona.
— Tenho que desligar, tchau Hannah. — Ele desliga o telefone e corre na minha direção. — Ei, desculpa por aquilo.
— Não se preocupe. Tá tudo bem. Acho que você deveria se preocupar mais com a própria pele agora. — Ofereço um sorriso. Tomás responde com uma careta e logo me arrependo. Qualquer hora dessas vou parar de tentar sorrir.
— Que seja, não sou muito de levar desaforo pra casa. — Tomás questiona qual direção eu devo seguir apontando vagamente com o dedo indicador. Aponto para o lado esquerdo da rua e começo a caminhar, ele me acompanha. — O que ele disse, sobre você....
— Ser um neutralizado?
— Sim.
— É verdade. — Encaro-o por um instante e depois volto a olhar os paralelepípedos da calçada.
— Ah, ok. — Tomás faz uma pausa e diz — Eu pensei que... Bem... Você conhece The Vaccines.
— Eu ouvia The Vaccines até 2011. Antes de... — Hesito, não preciso encher Tomás com problemas pessoais — de eu começar a tomar as pílulas.
— Bem, eu até estava impressionado de achar alguém que não fosse neutralizado lá.
— Desculpe te decepcionar.
— Não! —Tomás gesticula com as mãos, nervoso — Não é isso. Você é legal, eu só... Pensei que...
A sociedade encara os neutralizados como pessoas que não se ofendem e então tendem a ser grossos e não se importarem muito conosco. É irônico por que não nos importamos muito com eles também. Tomás me acha ‘legal’ e por algum motivo, se preocupou em estar me deixando incomodado ou não. Por algumas pessoas, acho que vale a pena se importar um pouco. Então tento ‘quebrar o gelo’.
— Tá tudo bem cara, de verdade. Aliás, por que você trabalha num lugar como esse?
— Eu sempre fui bom com números. Porém, na época, eu não imaginava que metade do ramo de exatas ia ser tomado por pessoas viciadas em pílulas neutralizadoras.
— Ah, não chega a ser metade. Há outras empresas que não são como a nossa. Você podia tentar achar uma dessas.
— Ah... — Tomás guarda as mãos nos bolsos. — Preguiça.
Ele olha pra mim e ri. Eu tento sorrir.
— Você vai ter que parar de sorrir desse jeito comigo.
Tento mais uma vez sorrir esperando que ele continue rindo, mas Tomás fica sério.
— Não, é sério Damien. É bizarro.
Chego em casa cansado. Tiro os sapatos e os guardo num canto ao lado do armário. O casaco fica no cabideiro e minha bolsa, no mesmo canto de sempre ao lado do sofá da sala. Eu costumo a ser organizado. Tomo um banho quente e deito na cama ainda de toalha.
Me importar, mesmo que um pouco, com Tomás não foi nada mais do que um pequeno gesto de empatia. Como disse, neutralizados não se importam, mas acabo lembrando daquelas pessoas que sempre estiveram me buscando e que eu não dei a devida atenção. Não é como se eu estivesse sendo tomado por culpa agora, é simplesmente um favor. A minha consideração pelas pessoas que uma vez amei (não acredito que eu possa amar agora) continua intacta. Pego meu celular e disco seu número. Não demora muito para ela atender.
— Oi.
— Oi! — Elisabeth parece animada — Como você tá maninho?
— Hum... Bem. E você?
— Ótima. E o que você tem feito da vida? Estou muito feliz que tenha ligado.
— Eu tenho trabalhado, corrido... Nada demais. E você? — Rebater as mesmas perguntas é sempre uma saída fácil.
— O de sempre também. Agora eu tenho mais uma turma do jardim e meus alunos novos são uma graça. Recebeu minha mensagem? Você vem?
— É só estipular o dia, estarei aí. Não há nenhuma criança hiperativa ou algo do tipo?
— Sim, tem um menino, o Pedro. Ele é meio animadinho demais. Que ótimo que você vem! Joseph vai adorar saber disso.
— Boa sorte com o Pedro.
Elisabeth ri enquanto forço uma risada. O lado bom de ligações é que ninguém pode ver meus sorrisos mal feitos e minhas risadas soam menos falsas.
— Tenho que desligar agora, manda um abraço pro Fernando.
— Ah, sim, claro! Te ligarei assim que marcar a dia maninho, tenho que esperar Joseph confirmar a data de volta dele. Beijo!
—Beijo, tchau.
Desligo a chamada e continuo encarando a tela do meu celular. Às vezes, sinto um incômodo dentro do meu peito. É geralmente nessas horas que ouço aquela mesma voz de sempre.
Saudades dos seus irmãos, Damien?
E por que diabos eu sentiria saudades?
Porque você ainda os ama, é claro.
Eu desisti do amor há muito tempo.
Pego uma cápsula com pílulas no meu criado mudo, derrubo uma na mão direita e engulo a neutralização a seco.
Ser um viciado em neutralizadores não te poupa de sonhos.
Estou fazendo meu cooper diário. Nada fora do comum. É bem cedo e o sol acabou de nascer, algumas pessoas também correm na calçada da praia. Uma mulher loira passa por mim vestindo calças legging e cantando apenas com os lábios sem expelir som algum, uma música que toca em seus fones de ouvido. Isso me faz notar que também estou usando fones de ouvido. Mas nenhuma música sai deles. Os ignoro e continuo correndo, mesmo em silêncio.
Quando estou chegando no final da praia, a vejo pedalando numa bicicleta vermelha, com seus cabelos escuros e compridos ao vento. Maria. Minha mãe. Não perco tempo com perguntas ou reflexões desnecessárias. Para mim, isso é real o suficiente. Começo a correr mais rápido mas minha mãe pedala numa bicicleta e está bem mais a frente. Passamos pela árvore centenária e eu pulo suas raízes que se entrelaçam quebrando a calçada. Normalmente eu pararia ali, mas eu preciso continuar. Preciso alcança-la. Eu preciso te dar um abraço de despedida. Só isso.
Estamos na parte mais alta e à minha direita, lá em baixo, as ondas batem nas pedras violentamente. Continuo correndo e foco minha atenção na bicicleta vermelha e na mulher de cabelos escuros. Maria passa por uma curva fechada. Perco-a de vista por um momento e ouço uma buzina de caminhão. É ensurdecedor. Um mal presságio toma meu todo o meu corpo e então eu tento correr mais do que nunca para virar a esquina e encontrá-la. De alguma maneira, eu sei o que aconteceu. Por algum motivo, eu sinto a sua dor.
Eu sinto.
E sem explicação alguma, quanto mais eu corro, mais devagar eu fico. As gaivotas voam em câmera lenta sobre a praia. O som das ondas fica grave e parece estar o dobro de vezes mais alto. Parece uma eternidade, mas finalmente chego lá. O caminhão está parado logo atrás da sua bicicleta vermelha, agora destruída. Depois da bicicleta, Maria está deitada no chão, com seu vestido sujo de sangue. Me ajoelho ao seu lado e seguro sua cabeça, chorando.
— Mamãe. Por favor. Mãe. Mamãe...
Maria sorri olhando para mim. Eu continuo a chamando em meio ao choro desesperado.
É assim Damien. Todo mundo vai embora.
— Cala a boca! — Tampo meus ouvidos mas aquela voz vem de dentro.
Todo mundo vai embora.
Grito mais uma vez.
— CALA A BOCA!
E acordo. Envolto de lençóis molhados pelo meu suor. Respiro fundo, meu coração bate rápido demais. Inspiro e expiro algumas vezes para me acalmar enquanto continuo com os olhos abertos até minha visão se acostumar com a escuridão. Levanto da cama aos tropeços e corro até minha bolsa, no lado do sofá. Tiro minha carteira de lá e procuro sua foto. Meus dedos estão confusos. Consigo acha-la.
Encaro a foto de Steve brincando com o seu pequeno carrinho vermelho no chão da sala. Sua feição tomada de inocência e felicidade. Mantenho o olhar fixo na foto por alguns momentos até ter certeza.
Suspiro. Guardo a foto na carteira. Ainda estou neutralizado.
Eu preciso deles
1985, 11 de fevereiro, 15 anos
Metade de mim morre de preocupação com Elisabeth e procura maneiras suaves de explicá-la como isso aconteceu ou simplesmente planeja uma boa mentira apenas para não machuca-la. A outra metade se preocupa comigo mesmo.
Quando olho para seu corpo inchado, um nó se forma na minha garganta e meus olhos começam a arder, então tento ao máximo desviar o olhar, mas não consigo. Quando meu pai me chamou para ir buscar o carro, eu decidir ficar aqui, mas agora me arrependo dessa decisão.
Achamos chuva. Ou melhor, achamos o seu corpo, cadente de pelos e quase irreconhecível, se não fosse pelo distante tom de cinza e por sua coleira com seu nome. Ele provavelmente foi atropelado. Estamos numa rua de barro a poucos quarteirões de casa, eu estava voltando da escola quando achei o seu corpo. Chamei meu pai na hora, mas a ideia de que precisaríamos de um carro para tirá-lo dali só veio depois. Então agora eu estou aqui, andando em círculos em volta do último vestígio que minha mãe deixou na terra (agora morto) dando o meu melhor para não chorar. Se meu pai chegar aqui e eu estiver chorando, não vai ser nada bom.
Alguns minutos depois, avisto a caminhonete azul e suspiro de alívio. Papai sai do carro com uma enorme sacola plástica preta e meu peito se aperta. Joseph sai da outra porta e caminha na minha direção. Ele olha para o que restou de Chuva e diz:
— Merda.
Me surpreendo com o seu abraço e começo a chorar. Sabe aquele tipo de choro tão desesperado que dá vasão a soluções incontroláveis? Esse mesmo. Enquanto estou abraçado com meu irmão me sinto seguro como nunca, livre para chorar. Livre para repousar meu luto. Mas não por muito o tempo.
— Pare de chorar Damien. — A voz do meu pai é tão intensa e grave que eu fico envergonhado.
— Ignora ele. — Joseph sussurra no meu ouvido.
Saio do seu abraço e enxugo as lágrimas tentando me recompor. Joseph me puxa dali quando cogito espiar nosso pai colocando o corpo do cachorro dentro da sacola. Morro de curiosidade, mas sei que é melhor para mim não ver esse tipo de cena.
Quando estamos chegando, vejo Elisabeth sentada na porta da fazenda de braços cruzados.
— Tirem a irmã de vocês dali, Beth não precisa me ver tirando um saco preto do tamanho de um cachorro da caminhonete.
Assentimos com a cabeça e vamos na direção da nossa irmã mais nova.
— Eu conto. — Solto, começando a reunir forças.
Joseph olha pra mim através dos seus óculos de grau e aperta meu ombro. Ainda não sei se apertar ombros realmente ajuda as pessoas ou se é apenas Joseph fazendo o que ele sempre faz, ser meu porto seguro.
— Vamos inventar uma história. — Ele fala bem baixo por que já estamos chegando perto de Elisabeth. Aceno com a cabeça em resposta.
— Vocês acharam chuva? — Ela pergunta, esperançosa.
Ninguém contaria a uma criança de 7 anos que seu cachorro de estimação, que cresceu junto com ela, morreu. Tento bolar uma história da maneira mais rápida que eu posso. Um paraíso cheio de fazendas? Chuva foi embora por que ele quer criar uma família só para ele com uma esposa e vários pequenos filhotinhos cinzentos?
Abro a boca para falar mas de repente tudo o que vejo é a sua forma deformada no chão da rua de barro, triste e sem vida.
— Ele morreu. — Eu não consigo terminar a frase antes de começar a ter uma crise de choro. Joseph olha para mim estupefato e Elisabeth simplesmente arregala os olhos. Viro para Joseph e tento dizer em meio aos soluços. — Desculpa eu.... Eu...
— Damien? —Joseph diz.
— Chuva morreu? — Elisabeth pergunta para Joseph.
— Sim, Beth.
— Entendo. — Elisabeth cruza os braços e encara o chão.
Eu continuo chorando como uma criança quando Elisabeth me abraça.
— Calma maninho, vai ficar tudo bem.
Enxugo os olhos com as costas das mãos e dou uma pequena risada com a ironia da situação, abraço minha irmã mais nova e me sinto mal por não estar conseguindo a proteger. Como uma menina de 7 anos pode ser mais forte do que eu? Joseph apoia a mão no meu ombro e subitamente tenho a certeza absoluta de que eu nunca poderei ficar longe desses dois.
Eu preciso deles.
— Vamos rapazes, tenho uma surpresa pra vocês. — Papai passa pela sala balançando as chaves do carro. Joseph tira sua atenção da revista que está lendo e me encara por um instante. Tenho um mal pressentimento.
— Eu não posso ficar sozinha. — Diz Elisabeth ainda apoiada em mim sem tirar os olhos da TV.
— Vamos deixar você com a tia Lúcia.
— Ok. — Elisabeth se espreguiça e boceja.
— Vamos logo garotos, temos que sair.
Joseph fecha a revista e vai na frente, eu o sigo. Ambos não dizemos uma palavra sequer. A verdade é que nosso pai não nos dá muitos presentes, e qualquer coisa boa vindo dele é mais do que suspeito. Será que ele ficou chateado comigo por ter chorado hoje? Talvez, mas Joseph não fraquejou uma vez, por que ele estaria sendo punido também?
Está anoitecendo e vamos em direção à cidade, deixamos Elisabeth no caminho com tia Lúcia e tudo o que eu mais desejo é ficar lá também.
— Vamos lá, quem quer tomar sorvete?
— Eu quero! — Elisabeth estende os braços e nossa tia, grande e robusta, a levanta numa pegada só.
Eu também queria sorvete.
— Para onde estamos indo? — Joseph pergunta do banco de trás.
— Para o paraíso Jo, — Papai ri. — o paraíso.
Olho para trás e encontro os olhos de Joseph, receoso. Quando chegamos na cidade, após muitos campos verdes e escuros naquela noite de campo, chegamos num amontoado de construções urbanas. Aqui parece nunca anoitecer, tudo é tão claro quanto de dia, mas agora, a iluminação tem mil cores diferentes. No lugar que paramos, em especial, a iluminação é vermelha. Logo em cima da porta de entrada tem um grande letreiro aceso dizendo:
PARAÍSO CARNAL, 173
— Isso é um... — Começo a dizer.
— Você não pode estar falando sério. — Joseph me corta.
— Estou mais do que sério. Sério como um pai mostrando aos seus filhos como serem homens de verdade.
— Acontece que já somos homens. Você não precisa fazer nada quanto a isso. — Não lembro da última vez que Joseph levantou o tom de voz com papai. Começo a estalar os dedos, nervoso.
— Chega! — Papai bate com as mãos no volante e Joseph se cala. — Venham.
Ele sai do carro e nós o seguimos, não há muito o que fazer. Entramos no prostíbulo e mulheres seminuas passam por todos os lados nos encarando. Uma delas mandou um selinho para mim e eu desviei o olhar, aflito.
Eu sou virgem e não sei quanto a Joseph, mas prefiro continuar assim a transar com prostitutas. Depois do nosso silêncio mútuo, nosso pai decide escolher as garotas para nós. Estava tão desconcertado me preocupando apenas em estalar os dedos que não sei bem como cheguei aqui, mas sei que ela é linda.
— Meu nome é Samantha, e o seu? — A prostituta tira o top, deixando os peitos nus.
Eu não quero fazer isso. Não quero.
— Da-Damien. — Gaguejo e me amaldiçoo por isso.
Meus dedos já foram estalados vezes o suficiente nos últimos minutos, então apenas passo uma mão na outra e continuo encarando o chão. Eu sento na cama, ainda de roupa. Samantha se ajoelha na minha frente. Ela claramente percebe meu nervosismo.
— Damien, tá tudo bem?
— Sim.
— Você tem certeza de que quer fazer isso?
Eu demoro a responder. Ela me olha com compaixão. Mas eu não posso decepcionar meu pai. Eu preciso deles. Eu preciso do meu pai, do meu irmão e da minha irmã. Não posso falhar com nenhum. Sem eles, eu seria... Eu não sei o que seria.
Eu preciso fazer isso, pelo meu pai.
A ignorância é o combustível do medo. Sabe no que isso dá, Damien?
2015, 19 de março, 45 anos
— Por favor Damien! Não me faça jogar esse ingresso fora.
— Me desculpa Tomás, mas... Não adianta eu ir pra um evento de música, não tem lógica.
— Você não precisa sentir nada, ora essa! É só nos fazer companhia, ficar lá, curtir a vibe.
Eu realmente canso e cedo muito fácil. Pude conviver com isso desde sempre, mas não estou acostumado a pessoas insistirem tanto por minha companhia, a não ser quando se trata dos meus irmãos.
— Tá, eu posso tentar ir.
Tomás se anima e combinamos um ponto de encontro às 19:00. Tento memorizar as ruas e o horário, me despeço e desligo o telefone, deitando na cama cansado demais para fazer qualquer outra coisa. Imagine em números a vontade que um neutralizado tem de sair de casa à noite para assistir um show de uma banda que nunca ouviu falar. Se você respondeu 0, está certo.
Eu costumo sempre a ser no mínimo, pontual. Então são 18:40 da noite e estou a caminho, vestindo uma calça jeans simples e uma blusa azul marinho sem estampa. Eu ando sem pressa pelas ruas meio movimentadas da cidade grande, estamos no horário de verão e por isso está escurecendo só agora. Quando eu chego na esquina onde eu deveria encontrar com Tomás, avisto na ponta do quarteirão uma massa enorme de pessoas vindo na minha direção a passos curtos. Semicerro os olhos para enxergar melhor sob as luzes dos postes que ainda estão acendendo e consigo detectar grandes placas erguidas e pessoas que parecem estar bem nervosas, principalmente pelos seus gritos que já posso ouvir daqui. Olho para o relógio no meu pulso e vejo que infelizmente ainda são 18:50. A multidão chega mais perto e consigo ler suas placas.
“DIGA NÃO ÀS PILULAS!”
“VICIADOS E COVARDES.”
“NA BÍBLIA DIZ...”
Não é como se eu tivesse medo ou algo do tipo, então simplesmente recuo um pouco e me encosto na parede para não ficar no meio deles. Eles vão chegando mais perto e as pessoas de fora do movimento começam a se afastar, receosas, mas eu continuo ali, quieto, esperando. No meio do protesto há um grande carro com uma caixa de som, a voz de uma mulher sai de lá, e ela também parece nervosa.
— E esse é o número de mortes que vem duplicando a cada ano devido as pílulas. Eles não sentem medo e morrem por isso. O medo é algo necessário para a vida!
Realmente, é cientificamente provado que o medo é algo essencial e há doenças em que a pessoa não sente medo e por isso, tem um risco de mortalidade muito grande. Mas acho que não é esse o nosso caso. Eu sei que devo “temer” colocar a mão numa panela quente, não sou um retardado mental.
Isso não é medo seu idiota, é outra coisa. Se você não tiver medo da morte, ela corre duas vezes mais rápido na sua direção.
Ignoro a pequena voz na minha cabeça. Me espremo contra a parede enquanto as pessoas passam esbarrando em mim. Elas estão suadas mas a grande parte veste ternos. Vejo alguns segurando bíblias numa mão e placas com uma grande Cruz na outra.
— Eles matam o amor. E se matam o amor, matam Deus também! Nosso todo o poderoso nunca será morto! Os que tentarem isso merecem ser salvos dessa escuridão e convertidos ao amor divino!
As pessoas gritam como uma tropa de soldados religiosos. Alguns deles olham de um jeito estranho pra mim. Tento mostrar naturalidade mas 1) estou num lugar nada natural para um não protestante, 2) eu não sei mais agir normalmente.
Recém-neutralizados viram pessoas exatamente normais, mas sem sentimentos. Então quando um cara que passou a vida viciado em sentimentos como todos os outros, pega pílulas e começa seu vício, ele não vai aparentar ser um neutralizado. Passará semanas e quem sabe, até meses para que ele esqueça completamente (inconsciente ou conscientemente) como ‘fingir’ sentimentos. Mas até nós, veteranos com mais de anos no currículo, podemos imitar algo aqui e ali.
Um homem que está de calça jeans e uma camisa cinza escrito “Essa não é a cura, é a doença” com uma grande pílula vermelha (que nada se assimila a reais pílulas neutralizadoras) abaixo, para na minha frente e olha bem dentro dos meus olhos. Poderia senti-lo invadindo a minha alma com aquele olhar, mas...
— O que você tá fazendo aqui? Ein?! — O homem vem na minha direção.
Algumas pessoas a sua volta param e nos encaram, curiosos. A gritaria cessa parcialmente.
— O que? — Digo da maneira mais monótona possível encarando-o de volta. Ele para bem perto com uma postura erguida como um animal selvagem querendo intimidar outro macho do bando.
— Você é uma abominação, sabia disso? — Ele grita mais ainda e a multidão começa a fazer silêncio para poder ouvir o sermão, continuo inerte e o seu hálito é terrível e está mais perto de mim do que eu gostaria.
Não acho respostas válidas e não tenho vontade de me defender. Eu simplesmente não me importo. Enquanto ele bufa quase beijando meu rosto de tão perto, ouço pessoas gritando sentenças avulso como se fossem arqueiros me alvejando sem nem mesmo mostrar as caras.
— Você deveria morrer!
— Deus te odeia!
— Mostre a ele porque ele deveria ter medo, Carl!
— Bem, é uma boa ideia. — Ele ri.
Essa é uma daquelas horas em que o bom senso grita tão alto dentro de mim que não há escapatória. Desvio para o lado rápido o suficiente para o soco dele acertar parte da minha orelha esquerda e dou alguns tropeços. Quando me recomponho, o encarando com seu olhar sádico, alguém puxa o meu braço e me carrega dali. O homem fica parado rindo de mim enquanto a multidão se une à um coro de risadas.
Quanta crueldade.
Ouço aquela pequena voz na minha cabeça dizer.
Corro junto de Tomás, ainda sendo segurado pelo braço até pararmos num beco não tão longe dali.
— Obrigado. — Digo.
— Relaxa. Eu que deveria me desculpar, não sabia que haveriam protestos hoje, foi mal Damien.
Ainda estamos encurvados recuperando o fôlego quando Tomás dá uma risada estranha e diz:
— A ignorância é o combustível do medo. Sabe no que isso dá Damien? — Ele se aproxima e passa a mão na minha orelha, quando recua, tem sangue nela.
— Não. — Levo a mão ao mesmo ponto e sinto um pequeno corte.
— Ódio.
Reflito sobre sua frase de efeito e lembro do motivo de eu ter começado as pílulas. Afasto-o da mente, como sempre.
— Vamos lá. — Tomás dá um tapinha amigável nas minhas costas. — Temos que encontrar Hannah ainda.
A fila para o show está enorme e eu não imaginava que essa banda fizesse tanto sucesso.
— Qual é o nome deles mesmo? — Pergunto, em voz baixa.
— The war drugs. — Tomás responde com a mesma discrição. — É muito parecido com The Vaccines, você vai adorar.
Ficamos na fila por um bom tempo até Tomás ser surpreendido — assim como eu — por uma garota pulando nas suas costas e se pendurando nos seus ombros.
— The war drugs! — Ela grita enquanto Tomás continua girando para tirá-la dali. Alguns dos fãs da fila nos encaram estranhamente e outros apenas riem e voltam com suas conversas.
A brincadeira — ou loucura — acaba quando ela sai das suas costas e os dois se abraçam ternamente.
— Sinto muito por Marcos, ele é um idiota por não vir. — A garota diz.
— Não é culpa dele. Muito trabalho.
Tomás sai do abraço e eu consigo entender que não se trata de uma garota. É uma mulher, de cabelos curtos e escuros. Eu não guardei muito bem o seu rosto, mas reconheço aquela mecha de cabelo solta e desordenada pendendo sob sua testa.
— Hannah, Damien. Damien, Han— Tomás tenta nos apresentar mas é interrompido por Hannah.
— Você! — Ela aponta pra mim com os olhos arregalados.
— Vocês se conhecem?
— Sim. — Respondo.
Relações sociais. Um problema, eu disse.
— O cara do elevador, Tom.
— Nossa! Sério? — Tomás tampa a boca e ri.
— Não tem graça. — Hannah desvia o olhar e cruza os braços. De alguma maneira, ela me lembra Elisabeth.
— E por que diabos você estava no prédio dele? — Tomás pergunta.
— Eu fui visitar a Luiza, do teatro, ela mora naquele prédio. — Hannah diz, impaciente.
Não há tempo para conversa. A fila começa a andar e a euforia é total. Noto que estraguei todo o clima feliz entre os dois, Hannah fica quieta na dela e Tomás não sabe o que dizer.
Mas que vergonha Damien.
Eu não fiz nada de errado.
Você erra toda vez que tenta socializar, idiota.
Tento ao máximo afogar essa voz — que parece muito com a minha — no meu oceano de pensamentos. As vezes dá certo.
O show começa e eu fico no bar o tempo todo, deixo Tomás e Hannah ficarem a sós, não quero estragar a noite de Tomás mais ainda. Ouço as músicas e realmente noto a semelhança com The Vaccines, mas não consigo sentir nada com elas, me animar, deprimir ou algo do tipo. Me pergunto como deve ser estranho se eu ouvisse The Vaccines agora e não sentisse nada.
Hannah aparece no meu lado e senta em um dos bancos do bar.
— Duas cervejas por favor. — Ela diz levantando o indicador com um sorriso simpático para o barman. — Acho que você já está bebendo, não saiu daqui até agora. — Ela olha para mim e aponta para o copo meio vazio na minha frente.
— Eu não bebo. — Levanto o copo e balanço o restante de suco de laranja com um erro fatal. Eu tento sorrir. Porque diabos eu ainda tento?
Ela faz uma careta e ri.
— Tudo bem, você não precisa beber, só pare de sorrir.
— Me desculpe. — Viro para frente.
— Olha, eu que deveria estar pedindo desculpas. — Hannah começa a bater com as unhas no balcão, ela as pintou de um azul parecidíssimo com o da minha camisa. — Eu não deveria ter dito aquelas coisas à você naquele dia, foi totalmente rude da minha parte.
Eu não estava pedindo desculpas sobre aquele dia mas aproveitei minha deixa.
— Neutralizados tem pouca noção de muitas coisas, não foi a minha intenção te ofender.
O barman aparece com as duas cervejas e as coloca na nossa frente.
— Leve a do Tomás.
— Mas eu vou ficar aqui mesmo...
— Não vai não.
Hannah levanta e me agarra pelo pulso. Eu hesito mas como disse anteriormente, sempre estou cansado demais para discutir com as pessoas. Então sigo a pequena mulher a contragosto.
Estou no meio da multidão e todas as pessoas estão meio quietas. A música parece ter acabado agora. Entrego a bebida para Tomás e ele sorri. Quando tento fazer o mesmo ele tampa minha boca com a mão direita e até Hannah ri junto.
Você precisa sentir com eles de novo.
Eu não quero.
Eles ainda estão rindo quando luzes vermelhas e azuis acendem no palco. Um solo de guitarra imunda o recinto com um volume absurdo. Todos gritam e pulam, inclusive Tomás e Hannah que se olham incrivelmente animados e felizes, provavelmente por conhecerem a música e estarem amando aquele momento. O vocalista começa a cantar e todos o acompanham sem errar a letra. A energia que circula a minha volta é tão grande que eu fico extremamente estranho e deslocado. Quando chegamos no refrão, Tomás e Hannah me seguram, um em cada braço, e pulam me levantando numa sincronia absurdamente ruim. Mas eu assisto aos seus olhares e ouço a suas vozes enquanto cantam entendendo que o objetivo não é sincronia, uma boa cantoria ou uma simples dança. O objetivo é aproveitar tudo aquilo. E de alguma forma, eles parecem felizes.
Seja feliz como eles são, Damien. Vamos sentir de novo.
Por um momento eu cogito ceder a essa pequena voz dentro de mim. Mas acontece que the war drugs se assemelha muito a essa banda que eu e Steve ouvíamos muito anos atrás... A cada vez que ouço o refrão, consigo vê-lo ali conosco, dançando e cantando, alegre.
Vamos sentir Damien! Vamos!
Formulo minha resposta enquanto assisto Steve dançando na minha frente. Uma visão só de dentro da minha cabeça.
Não.
Vamos nos fingir de neutralizados por um momento, ok?
1985, 11 de fevereiro, 15 anos
— Damien, tá tudo bem?
— Sim.
— Você tem certeza de que quer fazer isso?
— Com licença! — Joseph entra no quarto.
— Que merda?! — Samantha olha para ele, assustada.
— Joseph?! — Pergunto, quase gritando.
Uma mulher entra logo atrás do meu irmão.
— Kate? — Samantha se levanta e senta no meu lado, pouco importando-se sobre os peitos a mostra.
— Oi Sam! – Kate é sorridente, magricela e tem uma enorme trança loira.
— Vamos lá. — Joseph para, ajeita os óculos com o dedo indicador e aponta para mim. — Kate, esse é o Damien.
— Oi Damien! — Kate sorri para mim.
— Oi.
— Você deve ser a Samantha, certo? — Joseph aponta para Samantha.
— Sim. — Samantha concorda.
— Samantha, eu sou o irmão do Damien. Vou te explicar a mesma coisa que eu expliquei a Kate. — Joseph anda de um lado para o outro gesticulando com as mãos enquanto Kate fica assentindo com a cabeça em concordância, ela parece ser meio louca — Nosso pai nos colocou aqui a força. Eu tenho uma namorada e sou heterossexual, não quero transar com a Kate e não é nada pessoal. Sobre o meu irmão, eu o conheço e sei que ele também não quer estar aqui. — Eu sorrio para Joseph em forma de agradecimento e ele sorri de volta. — E provavelmente ele não é gay.
— Joseph!
As duas mulheres riem, eu fico vermelho como um tomate.
— Bem. — Samantha levanta e veste seu top com casualidade — Eu não ia obrigar o pequeno Damien a fazer nada que ele não quisesse.
Eu desvio o olhar, ainda constrangido.
— E temos TV! — Kate diz eufórica.
Joseph senta no meu lado e passa o braço pelos meus ombros, apoio a cabeça no seu peito e agradeço mais uma vez.
— Isso só pode ser piada. — Samantha diz apontando para a TV.
Eu pego um punhado de pipoca que Kate nos preparou e levo algumas à boca.
— Talvez seja verdade. — Digo.
— Não tem como pararmos de sentir, certo? Também acho que é loucura. — Kate diz como se realmente fosse uma ideia bizarra.
— Totalmente viável. — Joseph não tira os olhos da TV.
O programa entrevista um homem que vem fazendo pesquisas sobre o que ele chama de “a cura da emoção”. Seu nome é Shelby Michael, ele mantém uma postura convicta mas seus olhos transmitem uma gentileza afetuosa. Shelby fala sobre uma vacina que poderia deixar as pessoas privadas de sentir qualquer tipo de emoção. Ele levou uma ‘cobaia humana’ e o seu nome é Wendy, uma adolescente com cabelos escuros e compridos.
A apresentadora, uma mulher de meia idade com o rosto repleto de maquiagem e uma roupa chamativa rosa faz perguntas ao dono da vacina e à cobaia na frente de um auditório bem cheio.
— Com que frequência você aplica as vacinas?
— Nós estamos fazendo as aplicações de manhã e por enquanto isso parece estar sendo o suficiente para a ‘neutralizar’, vamos assim dizer, pelo dia inteiro.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— E você, Wendy, como você está se sentindo sobre isso tudo?
A apresentadora ri e seus cachos loiros balançam sobre seus ombros. A plateia se entretém com a piada enquanto Shelby fica um tanto sem graça. Wendy permanece inerte.
— Como assim?
— Nada, foi só uma piada. — Ela balança sua mão cheia de anéis brilhantes — Nos diga, como foi seu primeiro dia depois da vacina?
— Bem, foi como se tudo tivesse mudado. Literalmente.
Enquanto Wendy fala, ela mexe no seu vestido olhando para o chão, mas não parece estar constrangida, apenas sem saber o que dizer. Nos seus braços, é possível ver os furos das seringas.
Shelby toma a palavra.
— Wendy teve um passado difícil. A sua mãe morreu de câncer fazem 4 meses. Ela se dedicou a me ajudar com essas experiências e acabou que eu a ajudei um pouco também. — Ele sorri para Wendy.
— Você quer dizer que a vacina a impede de se sentir triste pela morte da mãe?
— Sim. — Wendy não tira o olhar dos próprios sapatos.
— Bem, você ficou feliz com o resultado das pílulas? — A apresentadora mexe nos seus cachos.
— Que idiota. — Joseph diz. — Como ela vai estar feliz?
—Aposto que é uma bela de uma atriz, essa menina. — Diz Samantha.
— Por enquanto o efeito das vacinas é completo. Então se considerássemos emoções como boas e ruins, ambas estariam sujeitas a neutralização. — O cientista explica e a apresentadora se endireita na cadeira.
— Pera. — Joseph levanta e vai até a janela, abrindo a cortina alguns centímetros. — Papai chegou, Damien.
Me concentro um pouco e consigo ouvir o barulho da caminhonete. Ela se destaca entre os outros sons da cidade.
— Bem, rapazes. Foi bom pra vocês? — Pergunta Samantha.
— Maravilhoso. — Joseph responde a papai.
Ele nos olha um tanto desconfiado.
— E pra você Damien? Aquela tal de Sam deu conta do recado?
— Com certeza. — Digo, sem olhá-lo.
Entramos na caminhonete e eu estou com tanto sono que desabo assim que sento no carona. Acordo com meu pai falando algo com muita raiva.
— Veja só o que encontramos!
Não sei do que ele está falando, esfrego os olhos e quando meu pai finalmente estaciona, vejo pela luz dos faróis dois homens vestindo suas roupas desesperadamente. Tenho um mal pressentimento, olho para trás em completo desespero. Joseph está dormindo.
Estico a mão para acordá-lo mas papai ordena:
— Vem, deixa seu irmão aí.
— Mas-
— Damien Roseburn, vamos ensinar algumas coisas para essas bichinhas.
Saio do carro e sigo meu pai. Começo a estalar os dedos.
— Já estávamos de saída. — Um dos rapazes parece ter a minha idade, ele é loiro e bem magro.
— Que engraçado, eu também estou. — Meu pai ri de uma maneira que arrepia os pelos da minha nuca.
O outro rapaz continua em silêncio. Sua pele é bem escura e ele parece ser um pouco mais velho.
— Pai, vamos sair daq-
— Cala a boca Damien, você só precisa fazer uma coisa.
Meu pai aponta para o pedaço de ferro que está no chão ao meu lado. Eu olho para o objeto e um frio percorre toda a minha espinha. Os dois rapazes recuam até esbarrarem numa grande parede de tijolos. Estamos atrás de uma fábrica abandonada, nos limites da cidade.
— Por favor, não queremos problemas. — O loiro levanta as mãos.
Papai não responde e corre em direção aos rapazes. O negro olha pra mim como se pedisse por misericórdia e meu coração se aperta.
Eu não quero fazer isso.
Dimitri desfere um soco no rapaz loiro e ele cai no chão quase que mole. O outro sai aos tropeços e corre até tomar velocidade e sumir da nossa vista. Eu olho para o rapaz no chão e vejo que sua boca sangra muito. Seus olhos encontram com os meus e é como se eu sangrasse também.
Eu NÃO POSSO fazer isso.
— Damien. — Papai funga e continua parado na frente do garoto nocauteado que ainda olha para mim.
Eu fico paralisado encarando os seus olhos. Porque meu pai fez isso? Eles são tão perigosos assim? Esses... homens?
— DAMIEN! — Papai grita e me tira do transe.
Pego a barra de ferro no chão e me aproximo. Olho para o meu pai e seu bigode que agora pinga suor. Eu não quero bater nele. Deveria? Mamãe foi embora, eu não posso decepcionar meu pai. Não posso.
— Por favor... — O menino diz estendendo a mão e tocando no meu pé direito. Começo a tremer.
Meu pai chuta a sua mão e se ajoelha. Segura seu queixo parecendo pouco se importar com todo o sangue que saiu de sua boca e diz:
— Você sabe a diferença entre um humano e você? — Meu pai espera a resposta e depois do silêncio, ele grita — SABE?!
— Não. — O rapaz diz e acaba cuspindo mais sangue.
— Isso — Dimitri vira o rosto dele para mim. — É um humano. Interessado por mulheres, cristão, branco. — Ele vira o rosto do loiro de volta para o próprio bigode. — E você não é nada mais do que uma aberração. Entende o que eu digo?
— Sim. — Mais sangue.
— Damien. — Papai diz mais uma vez.
Eu ergo a barra de ferro. Não consigo desviar de seu olhar. Ele continua olhando nos meus olhos como se soubesse como eu sou vulnerável. Como eu sou fraco.
— Deixe o pai orgulhoso. — Meu pai apoia a mão no meu ombro.
Fecho os olhos e abaixo o ferro com força. Não sei onde acertei. Ouço um grito sendo expelido de um gargarejo de sangue. Sinto a barra de ferro como se fosse uma extensão do meu braço e há um osso quebrando. Eu deixo a barra cair no chão e ando para trás. Não quero abrir os olhos. O silêncio que se sucede é aterrorizador demais. A escuridão me cerca.
— Damien?! — Joseph grita meu nome. Ouço-o correndo na minha direção.
Eu sento na terra, não quero abrir os olhos. Sinto o abraço de Joseph me envolver.
— Se você chorar mais uma vez, te obrigo a vir aqui e fazer esse viado parar de respirar de vez. — Meu pai grita.
— Tá tudo bem. — Joseph tenta me soltar mas eu me agarro em seu abraço e não lhe concedo permissão para sair.
— Eu quero chorar. — Digo, bem baixo
— Não, fica calmo. — Ele sabe que papai está falando sério. Ele sabe o que papai me obrigaria —Vamos nos fingir de neutralizados por um momento ok? Somos neutralizados agora. Não sentimos nada.
Mas eu sinto tudo.
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