Neutralizado
2 Monstro
e enfia a escova dentro das minhas calças
2015, 24 de março, 45 anos
Agora eu acredito mais do que nunca que meu efeito sob o poder persuasivo de Tomás não é tão forte devido apenas à minha condição. Fiquei surpreso ao saber que ele tinha influenciado mais duas pessoas a seguirem seu plano diabólico e mais surpreso ainda na hora que fiquei sabendo do que se tratava e quem era o seu alvo.
A noite é quente mas estamos todos vestindo tanto preto quanto possível para nos “camuflarmos na escuridão da madrugada”. Ordens expressas de Tomás. O carro é bem espaçoso e cabe nós 4 perfeitamente. Apenas não entendi porque estou no banco de trás junto de Hannah e Tomás está no carona, mas fico calado. O silêncio parece perpétuo enquanto viajamos pelas ruas daquela vizinhança de classe média alta, então decido puxar assunto, treinar minhas habilidades sociais.
— Há quanto tempo vocês dois namoram?
— Dois anos e seis meses. — Tomás diz.
— Dois anos e quatro meses. — Marcos é como um eco.
— Eles nunca concordam com a data. — Hannah se queixa sem tirar os olhos dos postes de luz que passam pela janela do carro.
— Mas... — Eu pareço confuso. E realmente estou, e muito.
— Um momento. — Hannah olha para mim e aponta para o meio dos meus olhos. — Você pensava que eu e Tomás éramos namorados?!
— Sim. — Admito a contragosto.
Todos eles riem.
— Somos gays Damie. — Não é a primeira vez que Tomás me chama assim.
— Somos muito gays. — Marcos reforça.
— Sim. — Hannah olha para mim com um olhar de flerte — E eu sou sapatão.
— Hannah, você gosta tanto de homem quanto eu. — Tomás a acusa.
— Verdade. — Hannah diz com casualidade e encosta na janela de novo, voltando a olhar as luzes. Faço o mesmo e espero até chegarmos no nosso destino.
— Ele parece mesmo ter muita grana. — Marcos assovia.
O namorado de Tomás parece muito com ele, magro, alto e com uma barba escura bem feita. Entretanto, Marcos não tem os dentes de coelho de Tomás.
Estamos todos no gramado daquele casarão e decidimos que é mais seguro nos escondermos atrás de uns arbustos redondos que ficam perto da rua. Ficamos ali, lado a lado, cada um reunindo sua taxa de coragem.
— Ok, vamos lá. — Tomás levanta e Marcos o segue. Eu tento levantar para segui-los mas Hannah me puxa de volta.
— Tá maluco? A gente tem que ficar de vigia, esqueceu? — Ela diz, levantando o walkie-talkie à altura do rosto.
— Ah sim, verdade. — Espero um pouco e não consigo manter o silêncio. Em determinados casos ele simplesmente me incomoda. — Marcos é chaveiro?
— Não sei. — Hannah responde sem olhar para mim.
— Se ele se propôs a arrombar a fechadura, deve ser.
— É, deve.
— Eles estão demorando muito.
— Cala a boca. — Hannah parece brava quando coloca o indicador transversal aos lábios.
— Damien, venha com a gente, conseguimos abrir a porta. Hannah, continue vigiando. Câmbio.
Hannah aperta um botão no aparelho e diz:
— Por que a parte mais chata fica pra mim? E eu não vou falar câmbio, me poupe.
Hannah acena com a cabeça e eu saio dali correndo, tentando fazer menos barulho possível, a grama me ajuda um pouco. Na porta, Marcos está levantando e fazendo alongamentos.
— Não levou tanto tempo assim. — Tomás entra na casa, cauteloso.
Penso em dizer que aquilo é invasão de domicílio mas não quero ser repreendido de novo.
— E então, o que temos que achar mesmo? — Marcos sussurra antes de nos separarmos.
— A cafeteira. — Tomás responde.
Tento lembrar ao máximo de como aquela cafeteira se parece. Nosso chefe anda com ela para todo o lado, diz sempre que o café de casa é mais gostoso, então não é algo difícil de esquecer. Não acendemos as luzes e evitamos fazer barulho. Achamos a cozinha com facilidade e lá está ela em cima do balcão, tão prateada e chamativa que parece ter um brilho próprio.
— Maravilhosa. — Tomás parece ter achado o oásis.
Tomás a abre. Vazia. Ele pega um pequeno pacote com um pó branco.
— Isso não é.... — Aponto para a substância que ele acaba de colocar na cafeteira.
— Laxante. — Os seus olhos brilham.
— Ah sim. — Digo como se laxante fosse melhor do que alguma droga ilícita.
— Hum, acho que devemos sair um pouco do plano. — A diversão é explícita na sua voz.
Faço uma feição de dúvida junto com Marcos e ele continua:
— Damie, me dá algum neutralizador. — Ele estende a mão pra mim. Procuro no meu bolso e acho o pequeno recipiente rapidamente. Tiro um e o entrego. Tomás amassa o comprimido com uma colher qualquer, tira o pó que restou de dentro dele e joga dentro da cafeteira.
— Qual é o sentido nisso? — Marcos pergunta.
— Ué — Tomás olha pra gente e dá de ombros. — Não sei.
— Tive uma ideia. — Marcos sai da cozinha e nós o seguimos a passos silenciosos. Chegamos no banheiro e Tomás escancara a boca dizendo como quem quer gritar.
— Você é incrível! — Ele dá um pequeno selinho em Marcos e pega a escova de dentes da sua mão. A enfia dentro das suas calças e parece esfrega-la bem nas suas partes íntimas. Logo depois ele a entrega pra Marcos, que faz o mesmo.
— Não. — Eu levanto as mãos quando Marcos estende a escova pra mim.
— Damie! Por favor! — Tomás nunca sai da sua postura para fazer charminhos, mas não cedo.
— Não vou esfregar a escova de dentes do meu chefe nas minhas bolas.
— Ok então.
Quando viro de costas para sair do banheiro, Tomás me segura pelo ombro e enfia a escova dentro das minhas calças entre as minhas nádegas.
— Você é um gênio, amigo! — Ele a arranca de lá e sorri pra mim.
Eu não sei o que dizer, apenas espero Tomás guardar a escova na gaveta do armário e sair. Dessa vez, na minha frente.
— Rapazes! Ele acendeu a luz do quarto. SAIAM DAÍ! — A voz de Hannah sai do walkie-talkie de Tomás.
Começamos a correr já sem a mesma preocupação com o barulho de antes. Marcos tropeça e cai sentado no sofá da sala. Seguro sua mão e o puxo dali. Saímos pelo gramado ainda correndo enquanto Tomás sinaliza para Hannah. Ela começa a correr na nossa frente. Piso em algum buraco no quintal do nosso chefe e caio na grama rolando, ficando para trás. Na minha frente, Tomás olha para mim e não segura o riso. Ele volta para me ajudar mas já estou levantando aos tropeços, em disparada. É como uma maratona olímpica.
— Conseguiram?! — Hannah pergunta, ofegante.
— Damien enfiou a escova de dentes dele na bunda! — Tomás grita para Hannah enquanto corremos pela rua. O carro está estacionado na esquina. Continuamos correndo mesmo sem ninguém estar nos perseguindo. Apenas por diversão.
Não sei em que parte você está se divertindo, Damie.
A voz faz uma imitação fajuta de Tomás e isso me incomoda um pouco.
Entramos no carro, dessa vez eu sento no banco do carona. Estamos ofegantes, eles dão gritos de vitória pouco se importando com as casas adormecidas à nossa volta naquela hora da madrugada.
— Como assim na sua bunda?! — Hannah apoia a mão no meu ombro, vejo aquela sua mexa de cabelo colar na sua testa com o suor.
— Passamos nas nossas bolas também. — Marcos diz com um tom de orgulho evidente e ri.
— Vocês compartilharam uma escova de dentes nas partes íntimas, sabem disso né?
Isso realmente faz tudo parecer mais nojento.
— Não é pior do que passar a escova que meu chefe passa naquela boca no meu saco. — Tomás diz por fim.
A viagem toda é repleta de risadas e piadas sobre a escova de dentes que passamos na minha bunda. Quanto mais tempo passo com eles, mais vejo como é se ‘divertir’. A parte ruim disso tudo é que aquela voz só parece se tornar mais presente e irritante dentro da minha cabeça.
Você poderia chamá-los de amigos Damien. Não vai acontecer aquilo de novo. Você só precisa...
Eu não quero. Já me decepcionei com pessoas o suficiente para uma vida. Não vou me arriscar de novo.
— Ei, o que houve cara? — Tomás dá um leve soco no me braço.
— Nada.
Olho para trás e vejo Hannah dormindo encostada no braço de Marcos. Eles sorriem enquanto dormem, parecem felizes.
— Sabe de uma coisa Damie?
— Sim?
— Eu gosto muito de você. Nós podemos ser tipo, grandes amigos, sabe? Que nem eu e Hannah.
Não perca essa oportunidade Damien.
Eu não posso ser amigo de alguém. Não sinto o suficiente pra isso.
— Eu...
Pelo menos concorde! O que falamos sobre consideração?
— Eu acho que poderíamos ser grandes amigos. — Digo, em dúvida sobre o quanto de hesitação acabei por transmitir pela voz.
Tomás sorri para mim e aperta meu braço de um jeito terno. Gostaria de corresponder o gesto com o mesmo sentimento. Acho que deveria me sentir mal por isso, mas eu não posso sentir. Decido tirar um cochilo e poucos segundos parecem passar até eu acordar com Tomás dizendo:
— Olha o que encontramos aqui!
Um incômodo colossal cresce dentro de mim e por um momento, consigo ver aqueles dois rapazes através do farol. Pisco os olhos rapidamente e quando olho de novo, apenas uma loja de conveniências.
— Estou morrendo de fome, não vou aguentar até chegar em casa. — Diz Tomás enquanto estaciona o carro.
— Eu vou com você. — Marcos se espreguiça lentamente enquanto tira Hannah do seu colo e a coloca no banco. Ela continua adormecida.
Os dois vão até a loja enquanto eu espero no carro com Hannah. Marcos e Tomás caminham de mãos dadas e acabo vendo aqueles dois jovens mais uma vez. Esfrego os olhos novamente para tirar a imagem da minha cabeça.
Misericórdia, Damien! Por favor, não bata com esse pedaço de ferro no meu crânio. Ele pode quebrar e pode ser que eu nunca mais volte a enxergar!
— Pare. — Eu digo num tom neutro mas a voz não sai de dentro da minha cabeça.
O meu namorado nunca mais quis me ver depois que eu fiquei em coma pela pancada que você me deu.
A minha voz interna ri com deboche de mim.
— Por favor, pare. — Não sei porque, mas eu sinto algo. Sinto alguma coisa querendo nascer dentro de mim.
Não está na hora de mais pílulas, pequeno Damie?
É isso. As pílulas. Já passou da hora de tomar outra dose. Procuro minha jaqueta e vejo que Hannah está a usando para se cobrir.
— Com licença Hannah. — Sussurro torcendo para não acordá-la. Consigo tirar a jaqueta dali e começo a procurar o frasco com as pílulas.
— Ei! — Hannah se queixa de eu ter roubado seu cobertor com um som arrastado.
— Desculpa, minhas pílulas. Elas estavam aqui.
— Não estão mais na sua jaqueta? — Ela pergunta, ainda sonolenta.
— Nã-não. — Eu gaguejo. Hannah nota a seriedade do problema e começa a procura-las pelo carro.
— Calma Damien, elas devem estar por aqui.
Não estão aqui.
— Eu devo ter perdido quando corremos de lá. — Digo olhando os seus olhos com uma feição de desespero que eu já tinha esquecido que era capaz de fazer. — Quando eu caí no gramado, deve ter ficado por lá.
Tudo parece estar correndo rápido demais a minha volta quando eu ouço um grito vindo da loja. Eu e Hannah ainda estamos nos encarando quando ela diz:
— Tomás.
Ela sai correndo do carro e eu a sigo. Sinto algo muito estranho crescendo dentro de mim. Um desespero que eu não experimento há anos.
— Parem! — Ouço a voz de Marcos plenamente descontrolada.
Quando entramos naquela mal iluminada loja de conveniências, presencio uma cena absurdamente terrível. Dentro do pequeno mercado há prateleiras vazias e vários pacotes de macarrão instantâneo no chão. No meio das embalagens, Tomás permanece em posição fetal como que para se defender dos golpes. Em volta dele, dois homens desferem socos e pontapés. Um terceiro homem segura Marcos pelos braços, o deixando imóvel.
Eu preciso defende-lo. Uma sensação sórdida toma conta de mim e eu sinto vontade de chorar ao vê-lo naquela situação. Mas chorar não resolve nada. Seguro a primeira coisa que eu vejo e corro na direção de Tomás. Os dois homens olham pra mim e o mais alto pergunta:
— Outra bichinha?
Bichinha.
Por um breve período de tempo, tudo para a minha volta e eu consigo sentir o toque do meu pai no meu ombro direito.
Me deixe orgulhoso, Damien.
Eu grito e abaixo quando o outro homem tenta me socar. Levanto o cabo da vassoura entre as pernas do mais alto com toda a força que consegui reunir e ele uiva de dor.
— Ei! — Hannah grita, chamando a atenção daquele que está segurando Marcos. Ela pula nas suas costas e consigo ver sangue escorrendo do seu rosto onde as unhas azuis de Hannah arranham.
Se você chorar mais uma vez, te obrigo a vir aqui e fazer esse viado parar de respirar.
Eu corro para Tomás e me agacho ao seu lado. Sai sangue da sua boca.
Sabe a diferença entre você e um humano?
Vejo a bota no meu campo de visão rápido demais e eu sinto um estalo no meu nariz com o impacto. Caio deitado de costas no chão. Tudo fica embaçado.
— Saiam da minha loja! — A voz de um desconhecido logo depois de um barulho da recarga de uma espingarda. Deve ser o dono da loja. Tento me recuperar o mais rápido possível e me levanto aos tropeços. Os homens correm antes de nós. Hannah faz eu me apoiar no seu ombro como se ela não fosse metade do meu tamanho. Marcos ajuda Tomás a se levantar, ainda em lágrimas. Vamos embora até o carro.
Sem corredores, invasores de domicílio ou piadistas.
Agora contamos com um neutralizado em plena explosão de emoções, dois homens humilhados e uma pequena mulher em prantos, com sua mecha escura e assimétrica pendendo sob sua testa, errada e deslocada demais para estar ali.
Continuo olhando as ondas me perguntando por que diabos me apaixonei pela pessoa errada.
1990, 9 de junho, 20 anos
— Ei Damien! Olha isso.
Dom pega a garrafa de cerveja e bate com o seu gargalo no fundo de outra garrafa. A de cima espuma até transbordar.
— Nossa, que incrível. — Debocho dele, pego uma das cervejas e dou uma golada longa.
— Idiota. — Dom ri e senta no meu lado. Afundo mais ainda os meus dedos do pé na areia. — Festas na praia são legais, não acha?
— Sim. — Olho as ondas se quebrando na areia. O sol está se pondo agora, deixando tudo meio alaranjado.
— Você deveria se enturmar mais. Fica aqui o tempo todo, longe de todo mundo. Parece um autista encarando a água. Olha quantas gatas tem aí! — Ele aponta com a garrafa de cerveja para umas estudantes de biquíni.
— Sei lá... Estamos numa festa de medicina, não conheço ninguém desse curso, só você.
— E é por isso mesmo que você deveria socializar mais. Conhecer gente! Damien Roseburn, não sei como somos amigos. — Dom levanta e dá tapinhas na calça para tirar o excesso de areia. —Já volto.
Seu nome é, na verdade, Donatello Benvenuto. Não sei bem pronunciá-lo mas não importa, ele não liga pra que o chamem de Dom. Aliás, ele sempre fica chateado quando professores o chamam de Donatello.
— É italiano! — Ele sempre diz.
A verdade é que sua família é realmente italiana. Mas isso não torna o nome menos engraçado. Dom é meu melhor amigo da faculdade, dividimos o quarto desde o primeiro período e eu nunca fui tão próximo de alguém como sou dele. É como se Joseph tivesse deixado alguém para fazer o seu trabalho de ser minha companhia enquanto estivesse longe.
Eu sinto saudades da minha família. Dimitri, meu pai, continua trabalhando na fazenda, Elisabeth ainda mora lá e está no ensino fundamental agora. Joseph já está quase terminando sua faculdade de Direito. Sinto muitas saudades deles. Não sei o que seria de mim sem Donatello Benvenuto por perto.
Permaneço encarando o sol no fim do horizonte com a mesma falta de vontade de festejar com os outros que antes quando um milagre acontece.
— Oi. — Mônica surge no meu lado com seu biquíni vermelho por baixo de uma canga amarela. É uma visão divina, devo dizer. Os panos que a envolvem são soprados pelo vento de uma maneira tão graciosa quanto os seus cabelos loiros. — Damien?
Desde quando ela sabe o meu nome?
— Ah, oi! Desculpa, não te vi aí.
— Você estava olhando diretamente para mim. — Ela ri. Sua risada me dá calafrios.
— Ei! — Dom aparece atrás de mim. — Olha só quem tá conversando com alguém! Como vai Mônica?
— Bem, obrigada. — Mônica senta no meu lado, tira um cigarro e um isqueiro da lateral do seu biquíni e começa a fumar. — Estou cansada daquela gritaria, se importa de eu ficar um pouco com vocês?
—De jeito nenhum! — Dom senta ao seu lado.
— Tudo bem. — Tento parecer casual.
Eu sempre fui apaixonado por Mônica Loretta. Tecnicamente, desde que eu comecei minha faculdade. Mas ter algum tipo de relacionamento com Mônica é uma daquelas coisas que não levamos à tona em qualquer conversa de barzinho. É o tipo de coisa que não se conta para ninguém por que é algo que simplesmente nunca vai acontecer.
Donatello e Mônica ficam conversando enquanto eu continuo em total silêncio. Leva um bom tempo até que Mônica se despeça da gente. Eu aceno com a cabeça, Dom diz “Até mais, Loretta” e logo depois me soca com força no braço.
— Você é louco!? — Ele pergunta.
— Ai! — Esfrego onde levei a pancada — O que foi?
— A garota é a maior gata e você aí, que nem um retardado olhando pra água. Por favor Damien, vá escrever um poema com o próprio sangue e depois chorar ouvindo alguma música dramática! — Dom levanta e eu nem mesmo entendo o motivo dele ser tão grosso comigo.
— É que eu... — Eu começo a dizer mas Dom me interrompe.
— Olha, foi mal cara. — Ele volta e senta no meu lado. — É que eu fico bem nervoso quando ela tá por perto.
— O que?
— Acho que estou apaixonado Damien. — Tom diz com um sorriso bobo. Algo se perde dentro de mim, provavelmente, eu mesmo. Tento esquecer meus sentimentos para poder procurar a melhor maneira de agir nesse momento.
— Nossa, desde quando? — Tento parecer surpreso (o que não é muito difícil) e interessado.
— Ah, faz alguns meses sabe? Acho que chegou a hora de eu me abrir com ela, o que acha?
Eu acho que você deveria ir se foder!
— Eu acho que você deveria falar com ela.
— Jura?
Eu quero morrer.
— Sim! Vá falar com ela! O máximo que você pode receber é um ‘não’, certo?
Tomara que você receba o máximo dela, e isso seja mais que um não.
— Você é demais senhor Roseburn! — Donatello se aproxima e beija minha testa. Logo depois, sai correndo.
Eu me sinto quebrado. Dom é meu melhor amigo e eu nem cogitei o fato de abdicar da garota dos meus sonhos para não arranjar problemas com ele. Me pergunto realmente se isso vale a pena. Mas sei que ele estará sempre lá por mim. Dom é como Joseph na minha vida. Eu preciso dele, não quero dificultar nada.
Continuo olhando as ondas e me perguntando por que diabos eu me apaixonei pela pessoa errada.
A pessoa que eu mais amei em toda a minha vida.
2015, 25 de março, 45 anos
Faz um bom tempo que eu não consigo estalar meus dedos porque já estalei todos. Muitas vezes. Esfrego uma mão na outra com força até meus tendões ficarem vermelhos só para tremer menos. Estou dando o meu melhor para não chorar. Para não explodir. E estou por um fio.
Em algum quarto desse hospital há um homem que foi espancado e humilhado logo depois de ter dito que poderia ser um grande amigo de alguém e recebido uma mentira fajuta em troca. Eu me sinto mal por Tomás. Eu só queria ajuda-lo de alguma forma, tirá-lo dessa situação terrível.
Queria dizer a ele que eu sinto muito.
Quando chegamos no hospital, fui atendido rapidamente por um doutor cujo nome não lembro. Cuidaram de mim de uma maneira que não era nem de longe, a minha prioridade. Mas pelo menos meu nariz já não sangra mais. Depois disso, me sentei no banco desse corredor escuro e silencioso demais até mesmo para um hospital as duas da manhã. Se o silêncio já me incomoda quando neutralizado, imagina como estou agora, prestes a entrar em um colapso nervoso?
Enquanto dou leves toques no meu nariz tentando mensurar a dor física que sinto, Hannah aparece no fim do corredor e vem na minha direção. Me sinto aliviado simplesmente pelo barulho dos seus passos me tirar daquele transe.
— Tomás vai ficar bem mas vai ter que passar a noite aqui. — Ela evita olhar nos meus olhos. — Marcos vai fazer companhia a ele.
— Fico feliz em saber disso. — Percebo que realmente estou feliz. Isso é estar feliz? — Na verdade, acho que é só um alívio... Eu não sei.
Hannah revira os olhos e solta a respiração, nervosa.
— O que você tá fazendo aqui?
Guardo as mãos no bolso da calça jeans numa tentativa ineficaz de parar de tremer.
— Como assim?
— O que você quer, Damien?
— Eu queria ter notícias do Tomás.
— E você se importa? — No rosto de Hannah que ainda tem algumas linhas pretas de maquiagem borrada, lágrimas começam a desenhá-las novamente. — Você consegue sentir algo por nós?!
— Eu... Eu sinto muito. — E pela primeira vez em quatro anos, eu realmente sinto. Um nó se forma na minha garganta.
— Não! Você não sente! — Hannah aponta para mim e é como se ela mirasse uma arma para o meu rosto. — Você é um neutralizado de merda que só atrapalha tudo! Você não pode sentir o que Tomás acabou de sentir! Você escolheu fugir de tudo! Tomás é uma pessoa que escolheu enfrentar seus problemas! Enfrentar o ódio que infectou esse mundo. — Hannah recolhe o braço direito e aponta para a manga da sua camisa manchada de vermelho — Esse é o sangue de quem realmente passa por dificuldades. O sangue de quem sofre da injustiça.
— Hannah, me desculpe. Eu não queria-
— Não é justo Damien. Não entende? — Ela começa a chorar desesperadamente. Estou num choque muito grande para fazer qualquer coisa. — Não é justo que você possa fugir de tudo enquanto nós temos que arcar com todo o sofrimento, sabe? Não é justo! — Ela volta a apontar para mim. — Covarde! Você é um covarde!
O nó na garganta é como uma válvula. Se eu tentar dizer algo, vou começar a chorar e não saberei como parar. Não consigo encarar o seu dedo acusador por muito tempo, viro de costas e começo a correr. O silêncio é substituído pelo som dos meus passos e pela minha respiração ofegante. Passo direto pelo elevador com alguns enfermeiros e vou para as escadas. Eu corro como nos meus coopers diários. Corro como quando quis achar as flores para minha mãe. Eu corro de tudo e de todos quando nada me resta para fugir das minhas emoções. Tento dizer a mim mesmo que essa corrida me resgatará de tudo o que eu sinto agora, mas é impossível.
Está impregnado em mim. Eu consigo sentir mil coisas diferentes navegando pelas minhas veias como se eu nunca mais fosse conseguir escapar disso de novo. Como se eu estivesse perdido pra sempre. Passo pelo lobby principal e várias pessoas me olham confusas, mas eu não paro de correr até chegar no estacionamento. Sinto meu corpo molhado de suor ser encharcado pela chuva. Tento olhar para cima mas a chuva é forte demais. Fecho os olhos e fico parado, torcendo para que isso tudo passe.
Você não pode fugir disso Damien. Nunca poderá. Ou você vive sentindo. Ou morre.
— Eu não quero. Não quero sentir, por favor me ajude. — O nó dentro da minha garganta torna tudo mais difícil de ser pronunciado. Meus olhos enchem d’água, uma sensação que eu não tenho há muito tempo. — Eu quero viver sem sentir.
Impossível.
— Por favor — Imploro, me ajoelhando numa poça daquele estacionamento vazio. O silêncio que se sucede é aterrorizante demais. Eu nunca pensei que ia sentir falta dessa voz dentro de mim. — Por favor, por favor, por favor.
Desabo em lágrimas e não consigo abrir os olhos. Eu demoro a entender o porquê disso tudo, mas começo a organizar meus pensamentos e vejo que meu peso parece dobrar quando coloco algumas coisas em mente. Primeiro eu lembro de Tomás, no chão daquela loja sendo espancado cruelmente por aqueles homens. Meu coração se aperta e eu quero gritar. Continuo com os olhos fechados, imaginando, como se eu sofresse por diversão. Como se fosse minha intenção. Hannah e seu dedo acusador me deixam pior ainda. Os soluços começam a me invadir sem permissão. E por último, lembro dele. A pessoa que eu mais amei em toda a minha vida.
— Steve. — Invoco seu nome num sussurro e por alguns segundos, tudo o que eu consigo ouvir são suas risadas inocentes.
Quando elas vão embora e o silêncio banhado pela chuva retorna, grito com todas as minhas forças. Eu grito tão urgente e desesperadamente como se essa fosse a única saída que eu tenho. Minhas cordas vocais parecem estar rasgando e agora é como se eu me resumisse a isso. A um grito de desespero como última aposta de se esvaziar de tudo. Mas estou tão cheio agora que não há grito que me salve.
— Desculpa. Me desculpa. — Hannah me abraça de uma maneira estranha e inesperada que tampa minha respiração, mas eu não ligo. Sinto que não há tempo de ficar surpreso e simplesmente a abraço de volta, ainda ajoelhado e em prantos.
Seguro a manga da sua camisa com força e tento dizer em meio ao choro desesperado:
— Por favor, não vá embora.
Vamos nos fingir de neutralizados por um momento ok?
— Eu estou aqui, não se preocupe. Eu estou aqui.
Continuamos abraçados em volta daquela poça por um bom tempo, até que eu consiga parar de chorar. Quando abro os olhos, vejo pessoas debaixo da marquise na entrada do hospital nos olhando e fazendo comentários. Tenho vergonha de estar aqui, nesse estado degradante. Hannah me ajuda a levantar e eu não ouso soltar dela. Saímos dali em silêncio quando dois seguranças passam por nós, rindo.
— Não ligue para eles. — Ela diz.
Hannah chama um taxi e eu sento no banco de trás, esperando que ela fique no carona. Sou surpreendido quando ela se senta ao meu lado, segura minha mão e diz:
— Você vai ficar na minha casa hoje, tudo bem?
Eu não quero incomodá-la e até agora pouco, eu só queria fugir de todos e ficar sozinho. Não tiro os olhos da janela, pego a sua mão e a guardo entre as minhas. Acho que preciso do seu toque mais do que eu possa imaginar.
— Tudo bem.
Emoções, elas criam situações inusitadas.
1994, 10 de janeiro, 23 anos
Fecho os olhos e me concentro. Nada.
— Ele tá muito novo pra você ouvir alguma coisa Damien. — Mônica diz, impaciente.
Coloco a cabeça de volta na sua barriga e a acaricio. Está ligeiramente maior, disso eu tenho certeza. Tudo mais poderia estar dando errado, mas eu sei que ele vai fazer isso tudo valer a pena. O meu filho. Sei que ele vai preencher esse vazio que tenho dentro de mim permanentemente.
— Mas isso é uma grande merda! — Mônica se afasta revirando os olhos.
— Não fale assim. — Tento manter a calma.
—Não chamei ele de merda, Damien. Eu quis dizer que essa situação toda. Tá tudo uma merda.
Mônica parece estar no seu limite. Ao tempo que eu e Dom conseguimos nos formar na faculdade, ela foi obrigada a trancar sua matrícula.
Donatello Benvenuto.
Tudo começou no que parecia ser ‘a melhor época da minha vida’. Mônica começou com a seguinte sentença:
— Eu te amo Damien.
Donatello não aceitou tudo muito bem e numa bela noite de verão, brigamos como eu nunca havia brigado com ninguém. Basicamente, levei uma surra.
— Você é um babaca! — Esse foi o carro chefe de Donatello.
— Por que só você tinha direito de ficar com ela? — Minha mesma resposta de sempre.
Dom sumiu das nossas vidas depois disso. Eu e Mônica estávamos vivendo nosso sonho americano, eu consegui um trabalho bem rápido com a ajuda do meu irmão mais velho, Joseph. Logo depois disso eu já estava alugando uma casa para nós dois no centro da cidade.
E então Mônica engravidou.
— É cedo demais. — Ela disse.
E quando abortar era a única coisa que passava na sua cabeça, eu implorava:
— Por favor, não faça isso, por mim.
Hoje eu trabalho para sustenta-los. Todo dia chego em casa torcendo para encontrar Mônica e sua grande barriga no sofá da sala, com aquele mesmo medo de sempre de ela ter corrido para abortar enquanto eu trabalhava. Mas Mônica só ia ficando mais triste e mais distante. E eu, mais sozinho. Tentei buscar contato com Donatello mas ele não faz nada além de me evitar. Tudo o que me resta é esperar pacientemente por ele. Ou por ela. Ainda não sabemos sexo da criança.
Mônica me olha com desdém, pega um cigarro e acende.
— Não. — Tiro o cigarro da sua mão antes dela dar uma tragada. Ela simplesmente me encara, atônita. — Enquanto meu filho não nascer, vamos cuidar de você.
— Olha só! — Ela grita e eu desvio do seu olhar. — Eu não vou criar criança nenhuma, tá entendendo?!
Me sinto triste, arrependido e frustrado quando decido olhar para os seus olhos e ver que ela realmente está falando sério. Os seus cabelos não brilham tanto como antes. Eu não a amo mais, e tenho certeza que ela também já não me ama. Na verdade, não tenho certeza se ela me amou um dia. As pessoas vivem mudando e indo embora. Isso é terrivelmente triste.
Pego o cigarro e jogo no tapete da sala. Grito, com o rosto fervendo.
— Até você parir essa criança, não precisa nem olhar na minha cara. Depois disso pode até sumir da minha vida. Mas eu vou ser pai, não importa o que aconteça.
Emoções, elas criam situações inusitadas.
Você fez alguma coisa no cabelo?
2015, 25 de março, 45 anos
O sol se despede do dia e lentamente mergulha no horizonte azul. Da praia, essa é uma visão linda como sempre. Estou correndo pela orla e uma mulher loira passa por mim, desvio dela e não esbarramos por muito pouco. Ela não parece ter notado e continua correndo, faço o mesmo. Passo pela árvore centenária e pulo suas grandes raízes para continuar meu percurso. Um dos fones de ouvido caem da minha orelha e batem na minha cintura.
Desde quando eu estou ouvindo música?
Não sai música alguma deles. Enrolo o fone e guardo no bolso. Eu os vejo no fim da rua, perto da grade de segurança que previne a queda dos ciclistas nas pedras lá de baixo, onde as ondas batem violentamente. Mônica está feliz e rindo do que alguém diz. Consigo reconhecer Dom à medida que ele vira na minha direção. Eles estão comendo sorvete de casquinha. Eu nunca cheguei a vê-los desse jeito, juntos. Parecem realmente felizes. Eles têm um ao outro e isso parece ser o suficiente. Eu paro de correr e fico os observando até que Dom sobe numa bicicleta e Mônica fica na frente, sendo abraçada por ele. Ele começa a pedalar e eles somem da minha vista. Felizes e juntos.
Quando viro de costas para voltar pra casa, ouço uma buzina de caminhão e o barulho é ensurdecedor. Uma multidão começa a correr para a direção que Dom e Mônica tomaram, fico apreensivo e corro no mesmo fluxo que os outros.
A frente do caminhão está um pouco amassada, mas não tanto quanto a bicicleta vermelha. Eu não sei o que é tinta e o que é sangue, mas logo após ela, Mônica e Dom seguram as mãos. Eles sangram muito. Quero tirar os olhos daquela visão horrenda mas não consigo, estou assustado demais para fazer qualquer coisa. Por um momento, posso jurar que Mônica olhou pra mim, mas não sei se foi apenas uma ilusão. Eles se olham como se não houvesse mais nada em volta. Se olham como um casal apaixonado. Mônica e Dom suspiram, deitados naquele asfalto frio, mergulhados numa poça do próprio sangue. E por algum motivo, eu sei que esse é o último suspiro deles. Me sinto extremamente mal. Quando começo a chorar, ouço aquela mesma voz de sempre dizer pausadamente:
Todo... Mundo... Vai... Embora...
Acordo extremamente suado e não faço a mínima ideia de onde estou. Esse sofá com certeza não é o da minha casa. Vejo as horas no meu relógio e sento no sofá com um impulso. Estou atrasado para o trabalho.
— Bom dia. — Hannah me observa. Ela toma um gole de seja lá o que for que tem naquela caneca azul com um grande coração laranja no meio.
— Bom dia. — Respondo um tanto confuso. A encaro de volta enquanto lembro de tudo o que aconteceu ontem à noite. — Estou atrasado pro trabalho. — Me levanto, mas não sei o que fazer em seguida. Estou na casa de Hannah.
Ela dá outra golada na bebida e vai até a cozinha.
— Eu pensei que vocês não trabalhavam aos domingos.
Tinha esquecido desse detalhe.
— Realmente. — Volto a sentar no sofá, ele é extremamente confortável.
Sinto uma dor absurda na cabeça e faço uma careta. Hannah me oferece um copo com café numa mão e uma cartela de pílulas neutralizadoras na outra.
— Dor de cabeça? Comprei esses pra você, achei que precisaria.
— Obrigado. — Eu pego o café e as pílulas. As encaro por um tempo longo demais. — Não deve ser nada, não tenho noites agitadas assim sempre, deve ter sido isso.
Passo a mão no meu nariz e sinto uma dor absurda. Lembro então daquela bota vindo na minha direção como um foguete, fui acertado em cheio.
Não estou neutralizado e eu sinto que poderia aproveitar mais disso. Olho para Hannah e ela desvia o olhar, parece distante demais. Com certeza não é a mesma pessoa que segurou minha mão ontem e me ofereceu apoio. O que há com ela?
— Como está sendo? Sentir de novo? — Ela se curva para frente e me encara, ela tenta parecer compreensível e simpática mas lá no fundo consigo sentir um pouco de ácido pingando das suas palavras.
— Estranho. — Dou uma golada no café com as pílulas ainda em mãos, é amargo demais. Penso em Tomás e Marcos. — E triste.
— É, normalmente é assim. — Hannah volta para a cozinha.
Seu apartamento é muito bagunçado e colorido. O tapete da sala é laranja, as almofadas do sofá são rosas e vermelhas. Na estante há livros misturados com leões de pelúcia. Apesar do seu apartamento bizarramente decorado, o que mais me chama atenção é esse enorme calendário no lado da porta da sala. Vou até ele e tento ao máximo entender o seu padrão. Os dias da semana são pintados (ao que parece, com giz de ceira) de maneiras estranhas. Rapidamente noto que todas as terças do mês foram pintadas de cinza. Um padrão suspeito.
— Do que devemos pintar o dia de ontem? — Hannah surge no meu lado com uma caixinha cheia de giz. Sua voz é distante e casual.
— Como assim?
— Uma cor que resume o seu dia.
— Quais são as piores cores? Acho que ontem foi um péssimo dia.
— Não tenho cores ruins. Mas eu já sei qual escolher. — Ela pega o giz vermelho e pinta o sábado com tanta força que o vermelho fica quase carmesim. — Vermelho como o sangue de Tomás. — Ela brinca com as palavras como se falasse qual é o almoço de hoje.
Olho para Hannah e quase pergunto se tá tudo bem com ela, mas me reprimo rapidamente, é óbvio que não está nada bem. Percebo suas olheiras e imagino que tenha passado a noite toda acordada. Eu não posso pensar em Tomás sem sentir um arrepio indesejável e essa nova tristeza que voltou a me acompanhar depois de tantos anos. Não consigo imaginar como Hannah, a melhor amiga dele, deve ficar ao pensar no que aconteceu ontem.
— Eu queria ter sentido quando corremos da casa do meu chefe. — Digo ainda olhando para o vermelho recém pintado.
— Foi divertido. — Hannah aponta para minha mão. — Não vai tomar as pílulas?
Noto que estou apertando-as com toda a minha força.
— Estou reunindo coragem. — Não é tão difícil assim. Tudo bem que é só eu tomar as pílulas e PUM! Sem sentimentos. Mas eu me sinto bem aqui. Me sinto bem de uma maneira que e não me sinto em todos esses anos. Eu sinto vontade de fazer coisas e de dizer coisas mas eu sei que isso não ficará assim pra sempre. Uma hora eu irei me deparar com aquela cena de ontem na minha cabeça e eu posso não aguentar. Uma hora eu irei lembrar dele... — Você fez alguma coisa no cabelo?
— Não, porque? — Hannah segura suas mechas.
— Não sei, ele tá diferente. — Está mais bonito. Penso, mas não me atrevo a dizer. Não estar neutralizado nos enche de bom senso e embaraço desnecessário.
Ficamos em silêncio encarando o calendário colorido, mas sabemos que os pensamentos de ambos não estão ali. Não importa o quanto de pensamentos eu tenha na cabeça, eu odeio o silêncio.
— Tenho que ir. — Vou em direção a porta e Hannah vai na minha frente para abri-la.
— Se cuida. — Ela dá um sorriso torto.
Paro na frente da porta e viro na sua direção, aquela sensação de que eu preciso fazer algo enquanto ainda sinto toma conta de mim de novo. Eu fico parado a encarando. Hannah olha pra mim confusa e inclina a cabeça para o lado. Eu quero muito fazer alguma coisa. Mas eu não sei o quê.
— Obrigado. — É tudo o que sai de mim.
— Não há de que, Damien. – Hannah sorri e fecha a porta.
Eu bato na sua porta de novo, Hannah abre quase que instantaneamente. Ela me olha, surpresa.
— Tem papel e caneta? — Eu pergunto.
Hannah vai até sua estante enquanto eu continuo na sua porta, esperando. Ela volta com uma caneta rosa com um pompom brilhante no topo e uma folha de caderno.
— Obrigado.
Corro em direção as escadas antes mesmo de Hannah fechar a porta e desço uns dois andares até sentar em um degrau, apoiar a folha no meu joelho e começar a escrever.
COISAS A FAZER NEUTRALIZADO:
—Biscoitos.
—Dizer ‘eu te amo’ para Elisabeth e Joseph.
—Dizer ‘eu te odeio’ para Dimitri.
—Dizer a Tomás que eu sinto muito.
—Agradecer a Hannah de novo.
—Dizer a Steve que eu sinto muito.
—Sentir de novo
Após escrever o último item, penso mais um pouco e faço uma mudança.
—Sentir de novo??????
Dobro a lista e a guardo no bolso de trás, junto com a caneta rosa de Hannah. Encaro as pílulas, ainda na palma da minha mão e decido fazer mais uma coisa antes de voltar para o preto e branco. Pego minha carteira e procuro pela foto de Steve.
Quando Steve sorriu pra mim no dia em que eu tirei aquela foto, tive a certeza absoluta que eu tinha acabado de tirar a melhor foto de todo o mundo e que não importaria de nada se os melhores fotógrafos profissionais do planeta me mostrassem suas fotos premiadas. Eu poderia mostra-los a foto do meu filho sorrindo e ganharia de todos.
O amor é bizarramente forte e eu me sinto feliz olhando pra sua foto. A felicidade dá apenas um pulo e vai embora, quando aquele mesmo combo de sempre me atinge em cheio.
Saudade.
Tristeza.
E o pior de todos:
Culpa.
Me surpreendo quando noto que ainda tenho lágrimas para chorar. Tento levar uma das pílulas a boca mas minha mão treme demais e duas caem direto na minha garganta. Não me importo. Que me neutralize o dobro!
Eu sei que as pessoas são fracas...
E ele está de volta.
Mas você sempre me surpreende, Damien Roseburn.
e sorrio, feliz.
1994, 12 de julho, 23 anos
Suas mãos são frágeis e minúsculas demais. Seu corpo é tão pequeno e delicado que eu sinto vontade de segurá-lo nos braços e guarda-lo comigo pra sempre, protege-lo de tudo e de todos e nunca mais soltar. Eu sorrio pra ele e acredito que se ele pudesse me ver, sorriria de volta. Estendo o dedo indicador para tocar seus dedinhos e me surpreendo quando ele me agarra com força. Dou uma risada e digo:
— Você é lindo, sabia?
— Senhor Roseburn. — Uma enfermeira sussurra ao meu lado, tocando no meu braço. — Seu irmão está aqui.
Eu corro na direção de Joseph assim que o vejo no fim do corredor. Joseph também cresceu, deixou uma barba enorme enfeitar seu rosto magro mas os seus olhos gentis atrás daqueles óculos de armação simples são os mesmos de sempre. Abraço meu irmão com todas as forças que tenho.
— Como ele tá? — Ele pergunta.
— Bem. De acordo com a enfermeira, o parto foi perfeitamente normal.
— Como assim de acordo com a enfermeira?
Eu não queria trazer isso à tona porque eu sei qual seria a reação de Joseph, mas não posso mentir para o meu próprio irmão.
— Mônica não me deixou assistir ao parto.
— O que?! — Joseph grita. Uma mulher com uma criança de colo nos olha, incomodada.
— Eu não queria que nada de errado acontecesse com meu filho e o escândalo que ela fez foi tanto que até o médico me pediu para sair. — Tento não olhar nos seus olhos, repleto de embaraço.
— Ela não podia ter feito isso com você.
Dou de ombros.
— E além do mais ela tinha uma companhia especial. — Joseph apenas me encara esperando uma resposta. — Donatello.
— Que filho da puta! — Joseph grita mais uma vez e morde o próprio punho fechado. A mulher com o bebê sai dali como um furacão. Joseph vira de costas e noto que ele veste um terno cinza escuro. Deve ter vindo direto do trabalho.
— É, eu sei.
— Damien! — Elisabeth vem correndo na minha direção. É estranho quando vejo meus irmãos. Os intervalos entre nossos encontros ficaram tão grandes nos últimos anos que eles sempre parecem ter mudado uma vida quando nos reencontramos.
— Beth.
Eu abraço minha irmã tão forte quando como abracei Joseph há poucos minutos. Elisabeth está nos seus plenos 16 anos e eu não estou lá pra ser sua companhia como Joseph esteve por mim. Me sinto extremamente mal por isso. Meu pai vem andando tranquilamente e quando nos aproximamos, ele aperta minha mão com força. O seu bigode continua o mesmo.
— Podemos vê-lo? — Elisabeth pergunta sem rodeios.
Aceno com a cabeça e os levo até o grande vidro do berçário.
— Bebês são todos parecidos. — Diz Joseph.
— Não ele. — Digo, apontando para o meu filho. Eu não memorizei o berço, mas sei que o reconheceria de longe.
— Ele é tão fofo! — Diz Elisabeth.
— Ei cara, não é uma boa hora. — Ouço Joseph dizer e tiro a atenção do meu filho por um instante para entender do que se trata.
— Eu só quero ver a criança colega. Relaxa! — Donatello levanta os braços como se não quisesse arranjar brigas, mas sem perder a marra.
— Damien, quem é ele? — Elisabeth pergunta.
— É o cara vem fodendo a mãe do bebê. — Joseph responde sem tirar os olhos de Donatello.
— Ei! — Repreendo meu irmão mais velho.
— O que tem Damien? — Donatello se inclina para o lado para me encarar, na frente do meu irmão. — É a verdade.
Fecho o punho com força e vou na sua direção. Me preparo para dar uma surra nele mas em vez disso, sou jogado no vidro do berçário quando meu pai, grande e bruto, passa correndo e esbarra no meu ombro. Dimitri bate com a palma da mão (que é enorme) no peito de Donatello com tanta força que ele é arremessado no chão, dando um pequeno gemido.
— Caramba. — Diz Elisabeth.
— Foi incrível! — Joseph diz andando na nossa frente de costas, enquanto caminhamos pelas calçadas do hospital. — Se levássemos surras desse naipe quando éramos crianças, não sei se sobreviveríamos até hoje Damien. — Meu irmão ri e Dimitri continua sério, como sempre.
— Aquela bicha tem que entender a não mexer com a mulher dos outros.
— Ela não é minha mulher, pai. — Digo sem olhá-lo.
— Mas de qualquer maneira, ela acabou de parir um filho seu e ele era seu melhor amigo! — Elisabeth gesticula enquanto os outros concordam. Mas dentro da minha cabeça eu sei que eu posso ser tudo, menos o mocinho da história.
Joseph me olha, pensativo, e diz:
— Ainda acho que aquela Mônica é uma idiota.
— Total. – Elisabeth concorda.
— Qual é o nome da criança? — Às vezes Dimitri parece sumir de um diálogo e aparecer como se estivesse acabado de chegar ali.
— Steve. — Eu digo, de ímpeto.
— É um bom nome. — Joseph diz e apoia a mão no meu ombro. Como eu senti falta disso.
— Vocês não vão colocar ele num orfanato, vão? — Elisabeth para de andar, como se a questão realmente a incomodasse. Nós paramos logo a frente, enquanto todos parecem esperar uma resposta minha.
— De jeito nenhum. Mas eu não sei se ela vai me ajudar a cria-lo.
— Ela deve te ajudar. — Dimitri diz, autoritário.
— Para ser sincero, não me importo. — Dou de ombros.
— Você não pode criar um filho sozinho Damien, acabou de sair da faculdade. Mal pode se sustentar. — Meu pai parece estar me dando mais uma ordem do que um aviso.
— Eu te ajudo. — Joseph sorri pra mim.
— Eu posso ser babá, não vejo a hora de passar um tempo com o Steve! — Elisabeth sorri pra mim.
— É, eu também não vejo a hora. — Digo e sorrio, feliz.
Você criou um monstro.
2015, 26 de março, 45 anos
— Roseburn — Jorge diz daquela sua maneira autoritária parando na frente da minha mesa. Sinto o seu hálito de menta e fico satisfeito por saber que ele escovou bem os dentes hoje. — Viu seu amiguinho por aí?
— Não tenho notícias sobre ele, chefe. — Minto. Sei que Tomás está impossibilitado física e psicologicamente de vir trabalhar e no momento deve estar em casa, precisando de ajuda. Lembro da minha lista de coisas para fazer mesmo neutralizado e sinto um leve desconforto.
Jorge coloca a mão no estômago e faz uma careta. Vejo que ele também tomou café de manhã na sua cafeteira. É o dia de trabalho mais tranquilo que temos em meses. Jorge não me lotou com pilhas de planilhas e também não voltou a comentar sobre Tomás. Acho que os neutralizadores fizeram efeito. Quando Tomás souber disso, vai querer invadir a casa do nosso chefe todo dia.
Sem o excesso de trabalho e com a neutralização do poder superior, sou liberado mais cedo e meu chefe não se importa com isso. Passo em casa e me arrumo para meu cooper.
É muito estranho correr na praia depois daqueles sonhos bizarros que eu tive, mas o faço da mesma maneira. Corro até a grande árvore, paro ali e descanso um pouco observando as pessoas encostadas na grade conversando. Os ciclistas indo e vindo e as gaivotas por cima de todo mundo com o seu barulho típico, como se estivessem sempre nos observando. Me alongo um pouco e volto pra casa.
Depois de um longo banho quente, vou até a cozinha e pego o pedaço de papel colado na geladeira com um imã.
Primeiro item: Biscoitos.
Vou até o armário da cozinha e procuro incessantemente por aquele livro velho de receitas. Quando finalmente o acho, sem querer, deixo-o cair no chão, fazendo sua capa soltar do restante do livro.
— Merda.
Com uma fita adesiva, faço o melhor para colá-la de volta. Se souberem que eu rasguei o livro de receitas da mamãe, me matam. Eu o deixo aberto em cima da mesa da cozinha na página cujo título é:
BISCOITOS DO AMOR
Meus dotes culinários nunca foram o meu forte, mas dou o meu melhor.
Como você vai fazer os biscoitos do amor em plena neutralização? Mamãe colocava amor nos biscoitos, daí o nome, idiota.
Ignoro a voz interior, coloco os biscoitos no forno e vou para a segunda parte da lista: Dizer a Elisabeth e Joseph que eu os amo.
Ligo para Elisabeth primeiro.
— Oi!
— Beth, eu te amo. — Como tinha programado antes, tento forçar um sentimentalismo, mas não sei se dá certo.
— O que? Eu também te amo mano... O que houve?
— Nada, estou fazendo biscoitos, tenho que ir.
Desligo o telefone diante da perplexidade de Elisabeth. Agora, Joseph.
— E aí maninho!
— Jo, eu te amo.
— O que?
— Tenho que checar os biscoitos no forno, tchau.
— Biscoitos?
Encerro a ligação. Percebo que fiz uma lista de coisas para fazer quando neutralizado que deveriam ser feitas quando NÃO neutralizado. Talvez seja melhor escolher o silêncio do que dizer a alguém que a ama sem realmente a amar de verdade, afinal, não posso amar ninguém sob o efeito das pílulas. Mas eu prometi a mim mesmo fazer tudo naquela lista.
Imagino que não seja tão ruim assim quando se trata de ódio.
— Alô. — Dimitri tem sua voz grave e fria como sempre.
— Oi pai. Queria dizer que eu te odeio.
— Me odeia, é? — Ele diz num tom absurdamente casual.
Eu quero desligar o telefone, mas algo me mantêm na linha.
— Eu te odeio por ter me criado daquela maneira. — Continuo dizendo.
— Te criado daquela maneira? — Meu pai tem a voz calma mas posso sentir o ácido nas entrelinhas. — Eu te criei como um homem deve ser criado Damien, você deveria me agradecer por isso.
Lembro de Steve, o meu próprio filho. Lembro quando pus na prática o que meu pai me ensinou quando jovem. Me sinto com aquele incômodo estranho vindo lá de dentro mesmo não sentindo nada.
— Você criou um monstro. — Digo, por fim.
Desligo o aparelho celular para que nenhum deles me retornem as ligações. Não quero mais falar com minha família por hoje. Depois de algum tempo deitado na cama a encarar o teto, sinto um cheiro de queimado da cozinha e corro parar tirar os biscoitos do forno.
Acho que fiz os primeiros biscoitos do amor queimados da família Roseburn. Que meus irmãos não saibam disso também. Arranjo três potes transparentes e divido os biscoitos ali. Tiro um dos biscoitos para provar e lembro que pílulas neutralizadoras não te privam do paladar. Está horrível.
Mas eu não estou com a mínima vontade de fazê-los de novo e eu prometi a mim mesmo de fazer tudo o que estava na lista. Guardo os potes numa mochila que não uso quase nunca e saio de casa, preparado para fazer o seguinte item da lista.
— Quem?
— Damien.
Estou começando a achar que liguei para a casa errada do interfone quando a pessoa no outro lado da linha diz:
— Ah sim. — Finalmente reconheço a voz de Marcos. Um barulho estranho e o portão do prédio se abre. — Abriu?
— Sim.
Entro no elevador e já tiro um dos potes de biscoitos da mochila. O mantenho na mão, preparado para entrega-lo a Tomás. Ando um pouco e paro na frente do seu apartamento. Levo o dedo até o botão da campainha mas Marcos abre a porta antes de eu apertar o botão.
— Oi Marcos. Não reconheci sua voz. — Tento demonstrar simpatia.
— O que você tá fazendo aqui? — Marcos coloca a palma da mão no meu peito e me afasta lentamente da porta. Fico confuso diante da sua grosseria e lembro de quando Hannah fez a mesma pergunta pra mim naquele hospital.
— Eu vim trazer biscoitos. — Ergo o pote com biscoitos queimados.
— Olha Damien. — Ele olha para trás como se para ter certeza de que não estava sendo ouvido — Você parece ser um cara legal, o Tomás gosta muito de você. Mas eu não acho que agora seja uma boa hora, entende?
— Não.
Ele me olha impaciente.
— Tomás está passando por um momento difícil agora e tudo o que ele precisa é de apoio. — Ele deixa as palavras suspensas por um momento e depois termina a sentença — De pessoas que sentem. Não quero que você faça nada que o prejudique, entende?
— Não.
— Eu entrego isso pra ele ok? — Marcos pega os biscoitos da minha mão.
— Marcos? — Ouço Tomás gritar lá de dentro. — Quem tá aí?
— Tomás! — Eu grito em resposta. Marcos me fulmina com os olhos mas eu não posso fazer nada, preciso cumprir os itens da lista. Prometi aquilo à mim mesmo.
— Damien? — Tomás responde, ao longe.
Pego os biscoitos da mão de Marcos.
— Tudo bem, eu entrego.
Entro no apartamento sem mesmo esperar Marcos e procuro pelo quarto. É um lugar bem arrumado e cheio de móveis modernos e provavelmente, caros. Mas não é muito grande, então encontro Tomás deitado na sua cama de casal bem rápido. Ele está terrível. Um terrível que é, de longe, bem pior do que o meu nariz quebrado. Seu olho direito está afundado num hematoma roxo e seu lábio inferior, cortado em diversas partes.
— Eu liguei para o hospital hoje cedo e me disseram que você já tinha ido pra casa.
Marcos aparece atrás de mim.
— Damie... — Tomás me chama daquela maneira que só ele chama e adquire um brilho estranho nos olhos.
Lembro de quando escrevi “dizer a Tomás que sinto muito”. Tento reunir tudo o que eu quis fazer enquanto sentia. Vou até a cama de Tomás e o abraço.
— Sinto muito. — Minto.
— Ai! Minha costela. — Tomás dá um gemido estranho ao tempo que Marcos também diz:
—Damien!
Mas quando eu tento sair, Tomás me segura.
— Obrigado, Damie. — Há algo de errado na sua voz. Percebo que Tomás começou a chorar quando sinto meu ombro molhar com um líquido quente.
O abraço dura tanto tempo que minha coluna começa a doer, mas sei que um abraço é o mínimo que eu poderia fazer por Tomás. Quando consigo recuar, entrego o pote de biscoitos e fico sentado no seu lado, na beirada da cama.
— Você que fez?! — Tomás parece surpreso.
— Sim.
Tomás pega um deles e tira um pedaço.
— Hum... — Ele faz uma cara de prazer seguida de uma careta — Eles estão...
— Queimados. — Digo.
— Não é isso. — Tomás fica encarando o biscoito por um tempo. — Não, é isso sim. Tá muito queimado.
Ele faz uma careta e ri de mim. Permaneço inerte e ele segura minha mão.
— Mas obrigado Damien, de verdade. Como está o nariz?
— Não vou morrer por isso. — Digo passando a mão lentamente no meu nariz que na verdade, ainda dói muito.
— Vou fumar lá fora. — Marcos diz e vai embora.
— Encontrei um pouco de resistência para entrar. — Digo quando fico a sós com Tomás.
Ele me olha como se tivesse entendido todo o resto da situação com meu comentário.
— Desculpa Damie, é que ele é muito... Super-protetor.
— Como eu posso oferecer perigo? — Não tento ser irônico, realmente estou curioso.
— Ah Damie, não sei bem. Mas eu gosto de ter você por perto. — Ele sorri e por um momento, quase o faço também. Mas lembro que fui expressamente proibido por ele de sorrir quando eu não quero sorrir.
— Jorge estava com um hálito refrescante hoje. — Digo e Tomás logo arregala os olhos.
— Eu não acredito que perdi isso.
— E não houve uma única discussão, foi o dia de trabalho mais pacífico até hoje.
— Precisamos fazer isso todos os dias.
— Pensei que você diria isso.
Aquele silêncio inoportuno invade o seu quarto escuro e Tomás diz.
— Damie.
— Sim?
— Você disse pra mim que sentia muito. Eu sei que isso é só uma expressão mas...
— Eu realmente sinto. — Digo, olhando para as cortinas fechadas. — Ou melhor, eu senti.
— Que?
Explico toda a situação de ter uma crise e depois ser acusado por Hannah. E depois ser ajudado por Hannah. E depois ser tratado friamente por Hannah.
— Sinto muito Damie, você não merece isso. — Ele volta a segurar a minha mão. No seu toque, não sinto nada além de contato humano. Nada além de pele na pele. Lembro de quando Hannah segurou minha mão enquanto eu estava prestes a entrar em colapso e de como aquela sensação tinha sido boa.
— Não precisa sentir por mim. Nem eu sinto. — Digo, por fim.
— Amigos estão ai para sentir Damie. Uns pelos outros.
Lembro de Donatello e me pergunto se o seu conceito de amizade era o mesmo que o dele.
— Antes de tomar as pílulas eu fiz uma lista de coisas que eu tinha vontade de fazer enquanto estava sentindo. — Pego o papel dobrado no bolso e mostro para Tomás.
Ele lê a pequena lista por um tempo longo demais e diz:
— Então você realmente sentiu por mim Damie. — Tomás diz e sua voz vacila. Aperto sua mão numa tentativa de fazê-lo se sentir melhor mas não sei se dá certo. Ele se limita retribuir com um aperto mais forte e lágrimas começam a cair pelo seu rosto.
— Tomás, você tá bem?
E o bom senso mandou lembranças, Damien Roseburn.
Aquela voz me acusa e me amaldiçoo por ter feito uma pergunta dessas.
— Não fizemos nada pra eles, sabe? — Tomás mantêm o olhar abaixado enquanto limpa suas lágrimas com as costas da mão direita. — Estávamos na fila do caixa, conversando como duas pessoas normais. Primeiro eles fizeram piadas com a gente. Marcos ficou nervoso e respondeu as afrontas com ironia. — Tomás passa a mão no estômago, onde levou vários pontapés — Eles avançaram na gente e eu não estava esperando. Quando imobilizaram Marcos, me jogaram no chão e começaram a me bater. É como se eu não fosse humano entende? Como as pessoas são capazes de fazer isso? — Ele gesticula com as mãos como se implorasse por uma resposta vinda de mim. Como se ele soubesse meu passado obscuro e tentasse me culpar por alguma coisa.
Não imagine coisas Damien.
Nunca tinha visto Tomás num estado tão crítico. Penso em lhe dar outro abraço quando apertar sua mão não parece ser o suficiente. Mas Marcos aparece.
— O que aconteceu? — Ele corre na nossa direção e abraça Tomás, que continua em prantos. — Vai embora. — Ele me ordena.
Não me oponho, levanto da cama e os encaro por um momento me perguntando como aquele rapaz que eu e Dimitri espancamos viveu pelo resto da sua vida. Me pergunto então se ele ao menos sobreviveu.
— Tchau Tomás. — Não espero uma resposta e vou embora.
Não sinto literalmente nada, porém, por via das dúvidas, tomo duas pílulas neutralizadoras e vou até o próximo item da lista.
— O que é isso?
É a primeira coisa que Hannah diz quando abre a porta e eu ergo o pote de biscoitos.
— Usei a receita da minha mãe. Ela os chamava de biscoitos do amor. Eu queria te agradecer por ontem.
Hannah pega os biscoitos e sorri.
— Obrigada Damien. — Ela passa alguns segundos encarando o pote de biscoitos queimados e depois diz, olhando para mim. — Desculpa por agir como uma vadia com você ok?
— Tudo bem.
Ela ri desviando o olhar enquanto começo a reconsiderar a resposta que eu deveria ter dado.
— Eu preciso te dar outra coisa. — Tiro a mochila das costas e ajoelho para procurar melhor. Logo tiro sua caneta rosa e a entrego.
— Ah, valeu. — Hannah encosta na parede e olha pra mim, curiosa. — E pra que você precisava de papel e caneta?
— Eu fiz uma lista de coisas que eu queria fazer — Digo, colocando a mochila de volta nas costas — Mas que eu perderia a vontade quando neutralizado.
— Então você veio me dar biscoitos e me agradecer sem querer fazer isso?
— Bem. A questão é que eu quis fazer isso.
— E o que tem mais nessa sua lista?
Penso em mostra-la mas quando vasculho pelo papel nos bolsos, não acho nada.
— Merda. — Olho pra Hannah — Acho que esqueci em Tomás.
— Você foi visitar Tomás?
—Sim.
Hannah sorri do mesmo jeito que Tomás sorriu para mim. Tento retribuir o gesto e Hannah ri de mim.
— Se você prometer parar de sorrir desse jeito eu te convido para tomar uma xícara de café com esses biscoitos, que tal?
— Eu agradeço Hannah, mas tenho que entregar esses biscoitos para uma terceira pessoa. — E eu não estava nem um pouco afim de comer mais algum desses biscoitos.
— Hum. Estou começando a achar que não fomos tão exclusivos assim com essa doação de biscoitos do amor. — Hannah diz, fazendo uma cara estranha.
— Na verdade, ele é o terceiro e último.
Me despeço de Hannah e vou até o último item da lista. Dizer a Steve que eu sinto muito.
Não com o meu filho
1997, 5 de julho, 27 anos
— Robô! — Steve ergue as mãos para o alto e me olha, suplicante.
Seguro meu filho pelos braços e o apoio nos meus pés. Andamos como o robô pela loja de brinquedos enquanto faço onomatopeias explosivas.
— Meu deus! — Elisabeth chega junto de Joseph na seção de bonecos. — Podemos chegar perto? É seguro?
Joseph tenta andar um pouco mais e Elisabeth o para. Ele suspira.
— Eu não sei. — Digo para meus irmãos. — O que você acha, filho?
— Titia! — Steve vai correndo até Elisabeth e a abraça. Ela o levanta e o balança no ar.
— E o tio? — Joseph pergunta fazendo cosquinhas em Steve e ele ergue os braços na sua direção. Joseph pega Steve no colo sem jeito.
— Cuidado Joseph! — Elisabeth o repreende mas Joseph e Steve a ignoram.
— Steve não é muito bom em escolher presentes de aniversário. — Eu digo, passando a mão na nuca.
— Ele é indeciso ou vocês não pararam de brincar desde que chegaram aqui? — Diz Elisabeth.
— Não sei.
— Papai não deveria estar com vocês? — Joseph pergunta enquanto Steve abraça o seu pescoço.
— Ele disse que ia escolher o presente sozinho. — Dou de ombros.
— Esse está bom pra você? — Dimitri aparece com um boneco enorme e verde na mão. Deve ser algum tipo de herói, não ligo para essas coisas.
— Sim! — Steve diz, sorrindo.
Passamos a seguinte meia hora escolhendo meu presente e o presente dos meus irmãos para Steve. Joseph e Elisabeth acabam escolhendo um navio pirata com miniaturas de piratas dentro. Steve fica mais animado ainda do que com o boneco que meu pai escolheu. Eu continuo passando pelas mesmas seções enquanto minha família toda me segue, já sem paciência.
— Chega. — Dimitri diz, finalmente. Levanta Steve de surpresa mas a criança não se importa. O ergue e passa pela seção, deixando a sua mostra as prateleiras de cima, cheias de carros de brinquedo. — Vamos ver qual o presente que o seu pai vai te dar ok?
— Ok! — Steve acena com a cabeça.
Não apresento objeções e todos parecem mais felizes com a decisão do meu pai.
— Esse! — Steve não leva muito tempo para decidir (meu filho não é tão indeciso quanto eu, nota-se), ele aponta para a prateleira e eu vou até lá para pegar o brinquedo. Há alguns caminhões de cores diferentes.
— Qual cor filho? — Aponto para o azul. — Azul?
— Não. — Steve aponta mais para o lado.
— Vamos logo, meu braço tá doendo. — Dimitri reclama.
— O vermelho? —Encosto no caminhão vermelho.
— Não, o outro!
— Esse? — Pergunto, receoso, apontando para o terceiro e último caminhão. Um cor de rosa.
Percebo claramente quando Elisabeth e Joseph trocam olhares atrás de nós.
— Sim! —Steve dá aquele seu sorriso banguela enquanto eu pego o caminhão rosa.
— Mas filho... — Eu começo a dizer.
— Isso é cor de brinquedo de menina, Steve. — Dimitri diz, pega o caminhão da minha mão e coloca de volta da prateleira. — Vermelho ou azul?
— Rosa!
Dimitri pega o caminhão vermelho e coloca ele no meu peito, me fazendo segurar o brinquedo para não cair.
— É só uma cor! Se ele quer o rosa, deixe ele ter o rosa! — Diz Elisabeth, perplexa.
Dimitri a ignora completamente e coloca Steve no chão, que parece realmente triste com a decisão da cor do caminhão. Permaneço em silêncio enquanto Dimitri vai em direção ao caixa. Elisabeth olha para o caminhão vermelho e depois para mim revirando os olhos e seguindo Dimitri, junto com Joseph.
— Vamos Steve. — Seguro a mão do meu filho e seguimos eles.
— Nada disso! — Eu tiro a embalagem do navio pirata da mão de Steve — Os presentes só poderão ser abertos no seu aniversário. Entendido?
Steve acena com a cabeça, frustrado.
— Me passa o durex. — Elisabeth diz sem olhar para mim, embrulhando o caminhão vermelho num papel para embrulho verde.
— Ainda tá brava comigo? — Eu pergunto.
Elisabeth me ignora.
— Qual é o sentido de embrulharmos os presentes que Steve já viu? — Joseph pergunta enquanto entrega o durex para Elisabeth.
— Ele gosta de abrir as embalagens. — Aceno com a cabeça para Steve que está com um grande papel vermelho nas mãos.
Quando terminamos de embrulhar todos os brinquedos, Elisabeth levanta e diz para Steve:
— Tenho uma coisa para você. — Ela vai até sua bolsa e volta com uma caixa envolvida embrulhada com uma embalagem azul brilhante. Steve arregala os olhos quando abraça a caixa. — É um presente exclusivo da tia. Mas esse também só ser aberto no seu aniversário, tá bom?
Steve acena com a cabeça e sorri.
— Como se diz, filho? — Pergunto.
— Obrigado, tia Elisabeth!
— Não há de que, príncipe! – Ela se inclina na sua direção e beija sua bochecha rosada.
Quando olho para cozinha, ainda sentado com meus irmãos e meu filho no chão da sala, vejo Dimitri me encarando seriamente. Demoro a decifrá-lo, mas quando consigo, sinto meu peso dobrar.
O caminhão rosa.
Elisabeth e Joseph vão embora logo depois de Dimitri, já é bem tarde e eu dou banho em Steve e o visto com seu pijama azul. O levo até seu quarto e o faço companhia na cama até que ele durma de fato. Quando Steve finalmente cai no sono, vou correndo até as embalagens que eu guardei em cima do armário e pego a de embalagem azul. Abro-a do jeito mais cuidadoso e metódico possível. Se tudo fosse fruto da minha imaginação, não ia saber explicar porque a embalagem do presente havia sido violada.
O caminhão rosa não me surpreende muito, mas me deixa realmente chateado com Elisabeth. Por que ela quis passar por cima da minha vontade? Steve não pode ter um brinquedo rosa! Não quero que meu filho tenha coisas com cores femininas. Elisabeth quer que ele cresça e saia por aí beijando homens?!
Fico furioso e amasso a embalagem enquanto a pego com força demais. Vou correndo até a cozinha e jogo a embalagem amassada com brinquedo e tudo dentro do lixo.
Não vou deixar esse tipo de coisa acontecer com Steve. Não com o meu filho.
Sinto muito, Steve
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!2015, 26 de março, 45 anos
A tarde começa a se despedir então eu corro para dar por completo a minha lista de coisas a fazer neutralizado. Eu paro numa loja de flores e não sei muito bem qual escolher, então aponto para algumas flores rosas, uma senhora de óculos pega essas para mim e faz um pequeno buquê improvisado. Pago a ela com pressa e aperto o passo até Steve.
A última vez que estive aqui foi a quatro anos atrás, quando aquilo aconteceu. Embora eu tenha um grave problema de memória que me impeça de guardar certos trechos do acontecimento, eu lembro exatamente como foi minha última visita a esse lugar. É sombrio demais, escuro demais e o pior de tudo, silencioso demais. Eu me abaixo na frente de um mármore com a seguinte frase:
STEVE ROSEBURN, 1994-2011
— Sempre senti calafrios em cemitérios. — Digo, abrindo a mochila e tirando o pote de biscoitos de lá. — Mas eu não sinto mais nada agora, então...
Encaro o túmulo do meu único filho e fico surpreso quando aquela voz começa a gritar dentro de mim.
Me tire daqui, por favor. Eu não quero ver isso.
— Fiz biscoitos do amor. – Coloco o pote de biscoitos na frente do seu túmulo, no lado de umas flores velhas que alguém deve ter colocado ali. — Estão queimados, espero que não se importe. Eu sei que você sempre gostou de comer os que Beth fazia — Coloco as flores em cima do pote. — Não sei qual é o nome dela, mas é rosa. Você gostava de rosa, não gostava?
Por favor Damien, vamos sair daqui.
— Eu fiquei sem minhas pílulas neutralizadoras por um tempo e... Acabei fazendo uma lista de coisas para fazer quando neutralizado. — A frase está começando a perder o sentido para mim — Eu não estou com ela aqui agora, mas na sua última linha, escrevi que eu deveria te dizer que eu sinto muito. Bem, eu sei que você está morto e que você não pode me ouvir agora. Muito menos poderá comer os biscoitos ou apreciar as flores. Mas eu prometi a mim mesmo que iria fazer isso, sentindo ou não. Então aqui estou eu.
Para com isso Damien, tá doendo muito...
— Sinto muito, Steve.
Levanto e vou embora do cemitério, deixando o pote de biscoitos queimados e as flores para trás. Essa voz dentro de mim parou de gritar e me sinto grato por isso. No caminho de casa, compro uma garrafa d’água num mercadinho de esquina para tomar meus neutralizadores e matar a sede. Quando retomo meu caminho e estou chegando perto de casa, meu telefone começa a tocar. É Tomás.
— Oi.
— Oi Damie, tudo bem?
— Sim. Como estão as coisas? — Pergunto.
— Mais calmas, vamos assim dizer, foi mal por aquilo... — Diz Tomás.
— Não se preocupe.
— Ei, você esqueceu sua lista aqui em casa.
— Tudo bem, já terminei ela.
— E como foram as coisas com Steve?
— Eu disse a ele que sentia muito e também o expliquei sobre a lista.
— Mas ficou tudo bem entre vocês? Aliás, quem é esse cara, Damie?
— É meu filho. — Procuro as chaves de casa no bolso — Não acho que tenha como as coisas entre nós dois se resolverem. Ele morreu faz quatro anos.
Abro o portão de casa e sigo até o elevador com a ligação muda no meu ouvido.
— Tomás?
Eu quero ser grande como uma árvore! Quero ter mil metros de altura!
2001, 24 de dezembro, 31 anos
— Obrigado vovô! — Steve corre eufórico e abraça Dimitri.
— Tudo bem, tudo bem. — É engraçado ver meu pai perdendo a compostura.
Dimitri deixou essa enorme bicicleta vermelha em baixo da árvore na frente de casa como presente de natal para Steve. Estamos na fazenda de novo, como nos velhos tempos. Elisabeth disse que seria um natal mais nostálgico se nos reuníssemos na casa de papai novamente.
— Vamos lá. — Joseph corre junto com Steve até a bicicleta vermelha e a exploram nos mínimos detalhes.
— Estou com frio, vou entrar. – Digo para Dimitri enquanto me abraço numa tentativa de ficar aquecido e entro em casa.
Vou até a cozinha e encontro uma paisagem nada agradável.
— Damien! — Elisabeth recua dos beijos de Fernando totalmente embaraçada. Fernando sorri para mim, tendo a mínima decência de corar as maçãs do rosto.
— Não se preocupem comigo, só vim pegar uma cerveja. — Digo enquanto coloco um palmo diante dos olhos e tiro uma cerveja da geladeira. Sigo até a sala de estar e sento ao lado da lareira. Bebo um gole.
Fernando é um cara legal e simpático que aprecia uma boa conversa ao lado de algumas cervejas então nos encantou facilmente. Todos achamos que a decisão de noivado entre os dois havia sido precoce, mas Elisabeth não estava disposta a ser contrariada. Apesar de tudo, é claro que nenhum irmão gosta de ver um cara chupando a boca da sua própria irmã no balcão da cozinha.
— Arrumem um quarto! — Joseph sai da cozinha com uma cerveja na mão e diz — Dá para acreditar nisso?!
Ergo as sobrancelhas em resposta.
— Steve adorou a bicicleta. Já estava querendo sair por aí nela.
Encaro Joseph daquela maneira nossa que é quase uma telepatia.
— Calma. Eu disse pra ele que estava tarde pra isso. E além do mais, daqui a pouco temos a ceia.
— E o trabalho? — Pergunto, tirando o olhar vazio da fogueira por um momento e encontrando com os olhos de Joseph por trás dos seus óculos de grau.
— Está indo bem. Fui promovido de maneiras que nem imaginava serem possíveis. — Ele dá de ombros.
— Isso é bom, não é? — Bato gentilmente com a garrafa no seu ombro.
— Tanto faz, eu prefiro procurar sucesso em outras coisas.
— Não se culpe por isso. Mulheres são complicadas mesmo. — Eu rio e Joseph dá uma daquelas risadas que damos para não deixar ninguém sem graça com uma piada ruim.
Rindo ou não juntos, é bom estar com meu irmão novamente. Me lembra os velhos tempos. Eu também queria ficar mais perto de Elisabeth. Porém, agora ela precisa dar atenção ao seu noivo e tentar deixa-lo menos desconfortável na casa da noiva com três homens solteiros, dispostos a proteger a pequena princesa da família. Como se minha irmã precisasse disso.
— Merda! — Ouço o grito vindo da cozinha. Eu e Joseph vamos ver do que se trata, preocupados.
— O que houve? — Joseph pergunta ao meu lado, no portal da cozinha.
— O gás acabou. — Elisabeth pega o pano de prato e joga na bancada. — E o peru está cru.
— Eu vou pra cidade comprar outro, não demoro muito. — Digo e depois me volto para Joseph. — Me dá as chaves do seu carro.
— Porque eu deveria te dar as chaves do meu carro? — Joseph diz.
— Você vai dirigir até lá ou vai me dar as chaves do carro? — Pergunto em resposta, com a mão estendida.
Joseph pega as chaves do bolso e coloca na minha mão, dando um sorriso forçado. Agradeço-lhe com outro sorriso.
— Eu posso te ajudar, Damien. — Fernando diz, sempre prestativo.
Quando estamos saindo, Steve aparece e abraça minha cintura.
— Eu quero ir com você, pai.
— Tá beleza, mas vai ter que ficar no banco de trás porque o tio Fernando vai com a gente ok?
Steve acena em concordância e lidera o caminho até o carro de Joseph, todo saltitante e alegre com seu moletom listrado de verde e vermelho.
O tempo de viagem até a cidade pode ser duplicado quando se está tomado pelo silêncio. E quando se olha para o caminho perdido em completa escuridão, onde o farol do carro nos permite ver nada mais do que a estrada de barro e uma árvore aqui ou ali nos arredores que te lembram experiências traumatizantes com o próprio pai, o tempo pode ser triplicado.
Procuro um CD que eu mesmo deixei no porta luvas de Joseph há uns dias e pergunto a Fernando:
— Gosta de ABBA? — Não espero sua resposta e coloco a música para tocar. Eu não iria deixar de colocar o CD porque ele não gosta de ABBA. Só quis ser simpático.
O rádio está no último volume e dou um tremendo susto em nós três com a versão mais alta de dancing queen das nossas vidas. Abaixo o som rapidamente.
— Bem, esse rádio é potente.
— Coloca alto de novo pai! – Steve grita lá de trás.
— Não Steve, eu prezo pelos meus ouvidos.
— Abba é bom. — Fernando comenta, sorrindo para mim.
Eu sorrio de volta. Tendo a ter uma certa simpatia com aqueles que gostam da minha música.
— Ei Stevie. — Fernando se curva para o banco de trás. — Quantos anos você tem mesmo?
— Sete! — Steve diz.
— Tia Beth estava me mostrando umas fotos suas e caramba! Não pude nem te reconhecer!
— Papai diz que eu ainda vou crescer mais! — Diz Steve, confiante.
— Bem, tenho certeza disso. Quantos metros você quer ter?
— Eu quero ser grande como uma árvore! Quero ter mil metros de altura!
— Uau! Como você vai enxergar e falar com a gente desse jeito?
Fernando deixa a pergunta borbulhar na cabeça de Steve e se endireita no banco do carona novamente.
— Você é bom com crianças. — Digo, apontando para Steve com o polegar.
— Eu tenho um sobrinho na idade dele. — Ele vira para Steve novamente e complementa — Claro, não tão grande quanto ele — Fernando volta-se para mim — Eu cuido dele de vez em quando. Acho divertido.
— Até na hora de trocar as fraudas? — Pergunto com um sorriso besta no rosto.
Chegamos na grande cidade e a sua iluminação noturna continua tão forte e brilhante quanto a mil anos atrás. Mais lembranças ruins me cercam numa emboscada articulosa, tento afastá-las da cabeça e caminho em direção ao posto de gasolina para saber onde diabos vou encontrar um botijão de gás.
— Bem, eu não me saio tão mal assim. — Fernando ri e me acompanha.
Steve dá as mãos a Fernando e eu sinto um pouco de ciúmes pela aproximação um tanto rápida dos dois. Quando chegamos ao posto, paro perto de um funcionário todo largado na sua cadeira com o queixo apoiado na mão direita. Ele é pálido e está encarando o vazio.
— Com licença. Você sabe me informar onde posso achar gás? — Me viro para Fernando e digo —Tome cuidado, quando for a sua vez com Elisabeth, ela vai deixar tudo pra você e ficar com a parte fofa. — Eu rio mas parece que a graça acaba ali. Com a feição de desconforto de Fernando, fico constrangido e imediatamente noto que falei algo de errado, sem mesmo ter a certeza do quê.
— Naquela esquina ali. — O rapaz aponta para a tal esquina sem nem mesmo desviar o olhar de seja lá o que ele está observando.
— Eu sou estéril. — Fernando tenta não dizê-lo em um tom sério para não me deixar mais sem graça ainda.
— Cara — Fico surpreso demais e penso no melhor a dizer — Que merda.
Não sei bem o que dizer nesse tipo de situação, obviamente. Agradeço ao rapaz inerte do posto e sigo até a esquina. Vejo de soslaio ele pegando alguns comprimidos e bebendo junto com uma garrafa de refrigerante.
— O que é estéril? — Steve pergunta de modo inocente enquanto saltita entre nós.
— Steve. — Digo em tom repreensivo mas Fernando toma a palavra.
— É quando o papai ou a mamãe não podem gerar filhos.
— Você não pode ter filhos? — Steve pergunta claramente comovido.
— Não.
Fernando lhe oferece um sorriso sem graça e dá de ombros mas é surpreendido quando Steve o abraça.
— Sinto muito, tio Fernando.
Meu cunhado me fita surpreso com os olhos arregalados.
Steve sempre foi uma criança que se importava muito com os outros e isso sempre me orgulhou bastante. Eu sorrio, feliz e satisfeito. Mas uma questão me vem à cabeça como um raio.
Elisabeth sabe disso?
Minha irmã caçula sempre se deu a nos alugar com brincadeiras de papai e mamãe. Joseph conseguia fugir de seus pedidos com mais destreza, mas eu sempre cedia. Passei tardes em volta de uma mesa com chá de mentira e filhotes de pelúcia que deveriam ser nossos filhos. O problema não para aí, nessa memória antiga de infância. Elisabeth ama crianças e não cansa de dizer para o mundo que o seu maior sonho é ser mãe. Sinto uma fisgada no meu peito e fico extremamente triste pela minha irmã.
Porque você se importa tanto comigo?
2015, 28 de março, 45 anos
— Tomás me disse.
Pela primeira vez estamos em lados diferentes da porta de entrada. Por algum motivo, Hannah veio me visitar no meu apartamento dessa vez. Não contava com sua presença às oito da noite nessa quarta-feira quente de verão.
— O que?
— O que aconteceu ao seu filho, Damien! O que mais poderia ser? — Hannah aumenta o tom de voz mas por algum motivo, não parece tão ácida quanto antes.
Depois que eu contei sobre o meu filho para Tomás, ele não soube muito o que dizer além do “isso é horrível, Damien”. Foi quando se deu por completa a nossa última conversa.
— Olha, Tomás não foi trabalhar desde segunda. Ele só fica em casa se afundando em depressão e isso não tá sendo nada bom pra ele. — Diz Hannah, mudando completamente de assunto. Não me importo.
— Às vezes ele só precisa de tempo.
— Eu sei do que meu melhor amigo precisa Damien, — Hannah cruza os braços e se encosta na parede — vai me ajudar ou não?
Eu simplesmente não entendo como posso ser tão facilmente manipulado então decido culpar as pílulas neutralizadoras por isso. Estou sentado no carona do carro de Hannah e ao que parece, estamos indo tirar Tomás de uma profunda depressão pós situação traumática. Não sei muito bem se é assim que as coisas funcionam e sei muito menos o que Hannah pretende fazer que necessita tanto da minha ajuda para isso. Não sei como eu poderia ajudar quando se trata do que as pessoas sentem ou deixam de sentir. No meu estado, sentimentos não são meu forte, vamos assim dizer.
Quando chegamos no prédio de Tomás (dois quarteirões do meu prédio), fico ao lado do interfone esperando que Hannah aperte o botão, mas ela tira um chaveiro prata do bolso da calça jeans e o abre. Mantenho a dúvida sobre Tomás saber ou não disso na minha cabeça e não faço perguntas, sigo Hannah até o apartamento de Tomás, no quinto andar.
— O que vamos fazer? — Pergunto a Hannah enquanto ela bate na porta de Tomás, mesmo tendo uma campainha no lado.
— Vamos dar um passeio. — Ela diz e a porta a nossa frente se abre.
— Ei Hannah. — Marcos parece surpreso, olha pra mim num relance e ignora minha presença. — Que surpresa.
— Apenas eu e Tomás temos as chaves do portão e do apartamento. — Hannah levanta o chaveiro e balança. — Eu bati na porta por educação. Vai que... Né.
— Ah sim. — Uma risada constrangedora — O Tomás tá dormindo agora. — Marcos mostra um olhar complacente
— Não tem problema.
Hannah entra no apartamento sem que Marcos saia da frente e acaba esbarrando no seu ombro, ele sai do caminho um pouco tarde demais e suspira, revirando os olhos. Sigo Hannah e logo na sala de estar encontramos Tomás deitado no sofá de bruços com uma das mãos encostando no tapete vermelho. Na mesa de centro há uma embalagem de pizza velha com um pedaço dentro. Acho que o cheiro de estragado vem dali.
— Deplorável! — Hannah berra enquanto atravessa pela sala pisando em embalagens vazias espalhadas pelo chão.
Ela abre as cortinas. Nenhuma luz do sol gratificante imunda o lugar e faz tudo parecer menos sufocante e sujo. A sala apenas fica ligeiramente amarela com a iluminação dos postes de luz da rua. Já é noite.
— O que? — Diz Tomás meio grogue de sono limpando a baba na bochecha que antes estava conectada com a poça no sofá.
— Marcos! — Hannah grita outra vez. Marcos se põe no meu lado com um olhar cansado e cruza os braços. — Se você passa tanto tempo aqui, porque não arruma isso?!
— Hannah... — Tomás se senta no sofá e levanta a mão na sua direção, meio desperto.
— Vamos sair Tomás, eu não aguento mais você desse jeito. — Ela diz.
Tomás se limita a murmurar algo e deitar no sofá de novo. Permaneço imóvel em um canto da sala de estar. Hannah vai até a cozinha como um furacão e volta com um copo d’água. E pela aparência embaçada do copo, ela parece estar realmente gelada.
— Hannah! — Marcos diz, indo na sua direção mas ele não chega a tempo. Tomás toma um banho de agua gelada.
— Sua maluca! — Tomás diz engasgando com a água e levantando do sofá, mais acordado do que nunca.
— Tá, agora que você acordou nós podemos conversar. — Hannah aponta para mim. — Lembra da conversa que tivemos sobre a lista de Damien?
— O que tem minha lista? — Pergunto, mas vejo que a conversa não chegou aqui ainda.
— Sim? — Tomás diz enquanto tira a camisa para secar o próprio rosto.
— Então, vamos resolver isso hoje. Junto com essa sua mania de querer ir cada vez mais fundo nessa porra de poço! — Hannah parece estar bem nervosa, acho que o estado largado de Tomás a enfureceu mais do que imaginei.
— O que tem minha lista? — Insisto.
— Dois coelhos numa cajadada só. — Marcos diz, com uma risada irônica.
Por um momento, penso que Hannah vai mandar Marcos para um lugar nada legal da maneira menos gentil de todas. Mas ela apenas diz:
— Sim, Marcos, dois coelhos numa cajadada só.
— Hannah, eu não estou preparado ainda. Me desculpe.
— Não Tomás, não desculpo. Se você não vai sair dessa por você, vai sair por mim. Agora você vai tomar um banho antes que eu te dê mais um. E com a água da geladeira!
Tomás a encara com suas grandes bolsas escuras em volta dos olhos por um tempo. Ele levanta e vai até o banheiro, consigo ver a satisfação disfarçada no rosto de Hannah. Ficamos nós três lá por um tempo, sem nenhum contato visual. Apenas afundando no mais incômodo silêncio.
— O que tem, a minha lista? — Digo, enfim.
— Porra! — Hannah estende os braços pra mim. Não acho que foi uma resposta plausível.
— Eles querem te ajudar a fazer o último item da lista, Damien. — Marcos diz ao meu lado. Seu tom de ironia me incomoda um pouco. Me pergunto o quanto falaram da minha lista, visto que até Marcos já sabe dela.
— Não, obrigado. — Digo.
— Damien, — Hannah diz, esfregando a mão na testa. — Era uma lista que você fez fora do efeito de pílulas de coisas para fazer dentro do efeito de pílulas. É normal você não querer agora, mas você não tinha prometido a si mesmo?
— É diferente.
— Isso é ridículo! — diz Marcos ao meu lado. — Tomás foi espancado na minha frente e você vem aqui pedir ajuda para cuidar da porra de um neutralizado?
— Ei. — Tomás sai do quarto vestindo apenas uma calça jeans. O cheiro de desodorante que substituiu o cheiro estragado me diz que a culpa não era da pizza. — Não fale assim, Marcos.
— Sério? Você tá no lado deles agora?
— Não tem lados disso, seu idiota. — Diz Hannah.
— Você não pode sair por aí ofendendo meus amigos, Marcos.
Meus amigos.
— Beleza. — Marcos vai até o quarto e some por uns momentos. Tomás e Hannah permanecem impassíveis na minha frente. — Depois que você reorganizar suas prioridades, nós conversamos.
Marcos coloca uma mochila enorme nas costas e vai embora, batendo a porta atrás de si.
— Merda! — Tomás grita e soca a parede.
— Tomás... — Hannah levanta e vai na sua direção. — Desculpa, eu... Não foi minha intenção fazer vocês brigarem.
— Não foi sua culpa, relaxa. Vou vestir uma camisa. Vamos terminar sua lista Damie. — Tomás diz voltando para o quarto.
— Eu não quero terminar a lista.
E como de costume, eles me ignoram.
Penso duas vezes antes de perguntar para onde estamos indo, não quero ser ignorado de novo. Meu silêncio transborda para os bancos da frente, onde Hannah dirige pacificamente e Tomás tenta tirar um cochilo. Faz tempo que eu não tomo minha dosagem e então pego a pequena cápsula com meus comprimidos e tiro dois. Levo a boca mas não a tempo de conseguir engolir. Hannah bate na minha mão antes e as pílulas voam pela janela.
— O que foi isso? — Pergunto.
— Me deixe ver uma coisa. — Ela tira os olhos da pista com muita casualidade pra alguém que está dirigindo. Hannah pega a cápsula de comprimidos da minha mão e guarda no seu bolso.
— Eu preciso deles, Hannah. Me devolve por favor. — Peço sem o mínimo tom de súplicas.
— Desculpa Damien, não posso.
Tenho preguiça de insistir.
Eu só quero ver se você tiver outra daquelas crises.
Ignoro a voz dentro da minha cabeça. Não quero pensar no que aconteceu aquele dia.
A viagem dura cerca de 30 minutos, não lembro como chegamos aqui, mas sei que estamos num ponto muito alto da cidade. Mais necessariamente, um morro.
— Faz tempo que não visitamos esse lugar. — Tomás sorri por baixo de seu rosto pálido e cansado.
Saímos do carro e eu sigo os dois até uma construção abandonada. É como uma enorme mansão inacabada, uma caixa cinza com buracos que deveriam ser janelas e portas, tudo abandonado e largado. Há uma cerca com um buraco perto do chão. É a única coisa que protege a construção. Imagino que não tenha ninguém se importando com ela há anos.
— Você primeiro. — Tomás fala acenando para Hannah — Esse lugar ainda me mata de medo.
Hannah ri e se abaixa para passar pelo buraco. Sua destreza é surpreendente. Tomás vai logo em seguida.
— Como eu deveria fazer isso? — Pergunto, sozinho no lado de fora da cerca.
— Se abaixa e vem. – Tomas diz, do outro lado.
Faço como ele diz, mas não é tão fácil assim. Acabo ficando preso no meio da cerca, me sujando todo de lama.
— Ai meu Deus, sua camisa prendeu na grade. — Diz Hannah, apontando pra minha camisa rasgada e rindo.
— Nossa Hannah, ajuda ele. — Tomás também ri, mas não faz nada.
Eu fico parado, meio agachado ‘dentro’ da cerca com a mão na lama para me equilibrar até que eles decidem parar de rir e me ajudar. Há um buraco na minha camisa agora, mas pelo menos estou liberto daquela cerca. Tomás abre a mochila e tira uma lanterna lá de dentro.
— Temos que vir equipados sempre. — Diz e sorri para mim.
Seguimos Tomás até uma caixa de interruptores. Ouço alguns estalos e vamos da escuridão à luz. Tomás e Hannah examinam o ambiente como se cumprimentassem um antigo amigo, maravilhados.
— Eu senti tanta saudade daqui. — Diz Hannah.
Não sei bem onde estamos, mas é um cômodo enorme. A iluminação vem das paredes: Pequenas lâmpadas coloridas que usamos no natal (ou usávamos, no meu caso). Elas estão por todo o lado e tudo está piscando, menos o teto, que é alto demais e não captura a luz daqui.
— É lindo, não é? – Hannah olha pra mim com aquele mesmo sorriso. É um sorriso muito forte, na minha opinião. Quase não vejo sorrirem assim por aí.
— Sim. — Digo.
— Vamos lá. — Tomás diz, tirando duas caixas de som da mochila do tamanho de um punho.
Enquanto ele arruma uma tomada para ligar o pequeno rádio e suas caixas de som, vou até uma parede que não está tão cheia de pisca-pisca. Há desenhos em grafite por todo o lado, mas no meio, um em especial chama minha atenção. É um enorme coração vermelho com a seguinte frase dentro.
HANNAH+TOMÁS.
— O que é isso? — Aponto para a parede.
— Há! — Hannah se aproxima com pequenos saltos. — Foi da vez que nos casamos.
— Mas sem sexo. — Tomás complementa — Eca.
Eles riem e eu dou uma pequena risada.
Pílulas! Pílulas!
— Você riu? — Hannah Aponta pra mim.
— Não.
— Tá na hora. — Tomás diz, sentado na frente do rádio.
Sigo Hannah e sentamos nós três juntos em volta do pequeno rádio.
— Cambriana ou The Vaccines? – Tomás pergunta.
— Cambriana. — Diz Hannah.
— The Vaccines. – Digo.
Por que diabos você se importa, Damien?
Hannah me olha de um jeito estranho e Tomás diz:
— The Vaccines então.
Ele pega um CD escrito “What did you expect from The Vaccines” e coloca no rádio. Passa as faixas e deixa tocar quando chega na nº3.
O álbum que Steve sempre ouvia. Isso não vai dar certo, Damien. Tome as pílulas, rápido!
A voz dentro de mim grita mas tento ao máximo afastá-la da minha cabeça.
— Vamos brincar de “o dia”. — Diz Hannah tirando os sapatos e se ajeitando no chão o sujo.
— O que? — Tomás pergunta do outro lado, abraçado com seus joelhos.
— O dia. Eu começo. O dia em que eu mais fiquei bêbada na minha vida foi quando eu tinha 17 anos. Acho que quase vomitei meus órgãos.
Ficamos em silêncio, sem saber o que fazer até Hannah dizer, impaciente:
— Vai, vai, sentido horário. — Ela diz e dá umas batidinhas no joelho de Tomás.
— Ah! Sim, ok. Mas o que eu falo?
— O dia em que você ficou mais bêbado.
— Entendi! Tá, o dia em que eu fiquei mas bêbado foi quando eu tinha 14, eu vomitei na menina que eu estava ficando. O seu vestido ficou todo amarelo e cheio de restos de comida.
— Meu deus! — Hannah diz — Não sabia que você era tão gay a esse ponto!
Eles riem e eu quase o faço, de novo. É bom estar com eles. Me sinto bem aqui.
Se sente bem aqui, Damien?
— Cala a boca! — Diz Tomás — Eu só fui beijar meninos quando tinha 17.
— Sua vez, Damien. — Hannah encosta com a mão no meu braço.
— 16, eu e meu irmão mais velho pegamos o uísque do nosso pai. Quando ele descobriu, nos encheu de porrada. — Digo, achando um pouco de graça da lembrança.
— Agora, Tomás. Faça o dia.
A música muda, eu lembro das letras e sinto falta dos dias em que eu ouvia música com Steve.
As pílulas! Não deixe aquilo acontecer de novo, Damien!
— Beleza. — Tomás diz, faz uma pausa e complementa. — O dia em que eu mais fui feliz na minha vida foi quando eu saí do armário pra minha mãe e ela me abraçou dizendo que me amava.
— Damien. — Hannah chama minha atenção.
— O dia mais feliz da minha vida foi quando Steve nasceu. — Digo isso meio inerte, mas algo quente contorce dentro de mim quando penso no rosto de Steve, pequeno e delicado naquele berçário azul claro.
Noto Hannah e Tomás trocando olhares discretos.
— O dia mais feliz da minha vida. — Diz Hannah. — Foi quando eu e me irmão saímos de casa.
O olhar que Tomás oferece a Hannah, repleto de empatia, me diz que ele sabe muito mais do assunto. Me sinto um tanto excluído mas ao mesmo tempo, bem vindo, quando eles falam aquelas coisas que são inéditas para mim.
Dessa vez, estou atento a brincadeira.
— O dia mais triste da minha vida foi quando Steve morreu. — Eu digo, sem mais delongas. Não tiro o olhar das minhas mãos que, cada vez mais, imploram para terem seus dedos estalados. E nem olho para ver a reação de nenhum deles, mas o silêncio não dura muito.
— O dia mais triste da minha vida — Diz Hannah. — foi quando meu irmão entrou em coma.
Olho para Hannah enquanto ela morde a parte interna da boca, aquela sua mecha de cabelo não parece estar tão desarrumada quanto antes. De certo ângulo, parece até cair bem no seu rosto. Uma mistura organizada, selvagem e bonita de Hannah.
— O dia mais triste da minha vida foi quando eu fui espancado por dois homens nojentos que diziam estar me ensinando a parar de ser uma bicha.
Acabamos de criar um mantra da tristeza a nossa volta. Todos estão com os olhares vacilantes e indecisos. Me sinto pesado como uma rocha.
Estalo um dos dedos e Hannah me olha como uma águia que acha sua presa, parecendo entender toda a situação, vendo meu estalar de dedos como uma faísca pronta para me incendiar das maneiras mais estranhas possíveis. Não acho que ela tenha me visto muitas vezes estalando dedos por nervosismo, mas pelo menos ela notou que é algo que eu não faço NUNCA quando neutralizado.
— O dia que eu mais me arrependi de algo foi quando eu vi que não tinha dito “eu te amo” vezes o suficiente para meu irmão. — Diz Hannah.
— Quando eu tentei ser quem eu não era. — Tomás diz logo em seguida, sem pensar muito no assunto.
— Quando eu... — Paro de falar.
Não tenho coragem de dizer do que eu mais me arrependo. A bem da verdade, eu não sei do que eu mais me arrependo, há simplesmente coisas demais disputando pelo topo dessa lista.
— Damien, você pode falar com a gente. — Diz Hannah.
No rádio, a música continua tocando.
We all go over at breakneck speed, slow it down, go easy on me. Go easy on me
— Eu não posso. — Digo e quando vou estalar os dedos de novo, Hannah segura minha mão esquerda e a afasta da outra. Cogito falar do dia que eu mais me arrependo, mas são dois dias diferentes.
Put a wetsuit on, c’mon, c’mon, grow your hair outlong. C’mon, c’mon.
— Damie. — Tomás apoia a mão no meu ombro e por um momento, vejo os óculos de grau por cima dos seus olhos. Me sinto seguro aqui, com eles. Assim como eu me sentia com Joseph e Elisabeth.
Put a T-shirt on, do me wrong, do me wrong, do me wrong.
— Quando eu espanquei pessoas inocentes. — Digo, subitamente tomado pela vergonha e a culpa.
Does holly water makes you pure?
— O que?! — Tomás diz, tirando a mão do meu ombro. E então é como se meu peso fosse o de mil toneladas novamente. — Damien, quem você espancou? — Ele parece não acreditar em mim e eu não o culpo por isso.
Submerged your vision it’s just obscure.
— Damien? — Hannah deixa o meu nome pairar no ar enquanto solta da minha mão esquerda.
Meu corpo fica mais pesado ainda.
You’re a lot like me, in up to our knees, in over your chest it’s just to deep.
— Eu... — Cogito falar sobre os rapazes atrás daquela antiga fábrica. Também penso em falar sobre Steve. Mas eu não tenho coragem.
Eu sou um covarde, assim como Hannah disse.
Vejo Hannah tirar a minha cápsula de neutralizadores do bolso da sua calça Jeans mas Tomás bate na sua mão e os comprimidos voam pelo chão empoeirado.
Me sinto envergonhado, culpado e triste (em suma, porque há mil outras coisas acontecendo que eu não sei explicar). Tudo de novo.
— Dois rapazes. Meu pai me pediu ajuda para ensiná-los a serem homens de verdade. — Eu falo rápido porque não faço a mínima ideia de quantas palavras ainda tenho antes de desatar em lágrimas. — Eu bati em um deles com uma barra de ferro tão forte que eu não se ele sobreviveu. — Hannah e Tomás olham para mim horrorizados. Continuo — Quando eu descobri que Steve era gay e bati nele até que ele implorasse pra eu parar.
— Você não tá falando sério. — Tomás levanta. Ele parece transbordar de ódio — Você não fez isso Damien. Não pode ter feito.
Ser chamado de Damien por Tomás é mais árduo do que eu imaginava.
— Damien, isso é verdade? — Hannah diz. Nos seus olhos, uma súplica que só pede uma coisa: Que isso seja mentira, apenas um delírio da minha parte.
Minha válvula de escape vai pro espaço. Aceno positivamente com a cabeça, as lágrimas inundando meu rosto.
— Você é um monstro, assim como eles. — Tomás também chora, mas suas lágrimas são de raiva. Ele se inclina para mim e olha diretamente nos meus olhos. — Eu te odeio, assim como odeio eles.
Nunca pensei que essas palavras voltariam a surtir algum efeito em mim. Me sinto mal, muito mal. O rádio começa a tocar uma faixa animada do álbum do The Vaccines mas Tomás o chuta, fazendo a música parar com um barulho estranho. Hannah continua sentada no meu lado, olhando para o vazio enquanto Tomás pega o rádio e as caixas de som e guarda tudo na sua mochila. Eu não consigo chorar mais e é como se não houvesse porquê desperdiçar lágrimas quando tudo o que se sente é uma grande massa de nada. Simplesmente o vazio.
Tomás vai embora dizendo:
— Eu vou a pé.
Fico esperando Hannah se opor e dizer como ele está maluco de fazer todo esse percurso sozinho, mas ela continua quieta.
Então Tomás vai embora, me odiando.
— Eu pensei que as pílulas me protegiam dos sentimentos. — Digo, olhando para minhas próprias mãos — Mas elas me protegem das pessoas. Elas sempre estão indo embora. Sempre.
Hannah ergue seu olhar para mim e o mantém por um tempo longo até demais.
— Você se arrepende?
Eu demoro a responder, não por cogitar mentir ou algo do tipo. Simplesmente por estar cansado demais.
— Sim.
— Já é um bom começo, não acha? — Hannah faz o que eu menos esperava. Ela sorri.
É um sorriso meio torto e fechado. Mas é um sorriso. E esse simples gesto me aquece como uma lareira em plena tempestade de inverno.
— Acho que sim.
Hannah se levanta e dá leves tapinhas na calça jeans para tirar o excesso de poeira.
— Morremos pelos outros e vivemos pelos outros. Parece ser algum tipo de equilíbrio bizarro do universo. É como se alguma coisa nos impedisse de sermos felizes o tempo todo sabe? — Hannah caminha até a grande parede em que ela e Tomás fizeram a promessa de casamento. Ela toca a tinta gentilmente, como se ainda estivesse fresca. — As pessoas vão embora sim, Damien. Mas você só pode deixar elas irem quando puder dizer a si mesmo que já lutou o suficiente por elas.
Hannah olha para mim com aquela sua mexa de cabelo que costumava a ser torta e desarrumada pendendo sobre a testa. Ela não está tão ruim assim. Poderia até dizer que está bonita desse jeito.
— Posso te pedir uma coisa, Damien? — Hannah, diz sem tirar a mão da parede. – Eu não pude ajudar Tomás hoje. Aliás, acho que fiz totalmente o contrário. — Ela faz uma pausa, fecha os olhos com força e eu penso que ela vai chorar também. Mas ela continua, com a voz firme — Me deixe te ajudar.
Encaro Hannah nos olhos para tentar receber o máximo de sinceridade possível através da seguinte pergunta:
— Por que você se importa tanto comigo?
Hannah parece pensar um pouco, mas não vacila seu olhar, e isso me faz dar total crédito a seja lá o que ela vá dizer.
— Porque eu ainda não lutei o suficiente por você. Não quero que vá embora.
Coisas produtivas estão proibidas, lembra?
2011, 8 de abril, 40 anos
— What did you expect from post-break-up sex!? — Eu e Steve cantamos juntos enquanto simulamos microfones com os controles remotos.
O aparelho de som está no último volume e pulamos de sofá em sofá como macacos pulam de galho em galho. Minha sala de estar, uma zona. Mas é uma zona que me agrada, já que é provocada por eu e Steve (e ele sempre me ajuda a arrumar tudo no final das contas). Então podemos cantar e bagunçar a vontade.
— Oh when you love somebody but you find someone. Oh-oh-oh.
Sempre fui adepto a uma boa música, mas essa banda que Steve me apresentou há alguns meses é simplesmente sensacional. Não me lembro bem o nome, mas é algo com the no início. Assim como todas as outras milhões de bandas que ele conhece.
— A pizza! — Steve joga seu microfone (vulgo controle remoto) em mim sem se preocupar com os reflexos de um homem de 40 anos. Deixo-o cair no chão.
Ele atende o interfone e segundos depois, um homem aparece na nossa porta vestindo uma jaqueta vermelha de material sintético. Ele ergue a pizza portuguesa tamanho gigante e Steve o paga com o dinheiro que eu havia separado em cima da mesa.
— Valeu! — Ele diz, o entregador acena com a cabeça enquanto conta o dinheiro e vai embora.
Meu único filho, Steve, cresceu consideravelmente nos últimos anos. Aos 17, ele tem a minha altura e mesmo que seja muito magro, ele pode fingir uns 20 anos com tranquilidade. Desligamos o som e abrimos a Coca-Cola para fazer companhia a nossa pizza.
— O iluminado? — Pergunto, levantando o DVD.
— Pode ser. — Diz Steve, levando a garrafa de refrigerante e dois copos para a sala.
As vezes nós temos esses dias que dedicamos veemente a não fazer exatamente nada. Coisas produtivas estão proibidas! Então comemos muita besteira, assistimos filmes o dia inteiro e claro, cantamos muito.
Porém, hoje aconteceu algo estranho enquanto assistíamos o iluminado (um dos preferidos dele ). Steve não tirou os olhos do seu celular. Ele parece estar trocando mensagens com alguém e isso me irrita porque parte dos dias improdutivos é feita de fazer comentários improdutivos sobre os filmes improdutivos.
— Quem é? — Pergunto.
— Ah, ninguém. — Steve diz guarda o celular no bolso.
Quando acabamos de ver o filme, olho para o lado e percebo que Steve está novamente com o celular nas mãos teclando vorazmente. Sinto vontade de pegar o aparelho e tacar pela janela. Mas em vez disso, digo:
— Acabou.
— O que?
— O filme.
— Ah, desculpa pai. – Steve olha para mim e percebe minha clara irritação.
— Tanto faz.
— Olha — Ele se levanta e leva os copos e pratos sujos até a cozinha — Eu preciso sair agora, vou dar uma pedalada na praia, tudo bem?
— Mas — Começo a dizer, frustrado. — Hoje não é o dia de coisas improdutivas?
— Olha — Steve realmente parece um tanto chateado. — Você não correu hoje, poderia ir agora. — Ele diz e me oferece um sorriso de consolação.
— Coisas produtivas estão proibidas, lembra?
— Ah, foi mal, velho. — Steve vem da cozinha e me abraça.
Ele sempre me quebra nesse abraço.
— Vai lá. — Digo, emburrado.
— Mais tarde fazemos mais coisas improdutivas, ok?
— Só me diz uma coisa antes.
— Sim? — Steve para perto da porta e olha para trás.
— Qual é o nome dela?
É óbvio que ele vai se encontrar com alguém cujo tempo foi totalmente dedicado enquanto ‘assistíamos’ o filme. Steve parece envergonhado, mas pensa um pouco e diz:
— Angélica.
— Bonito nome. — Sorrio.
Steve pega as chaves para o cadeado da sua bicicleta vermelha e vai embora.
Sou livre para chorar o quanto quiser
2015, 29 de março, 45 anos
Aquela buzina mais uma vez. Estou de novo correndo com minhas roupas de cooper ao pôr do sol nessa praia que conheço bem. Sei o que esse barulho significa e também sei o que me aguarda quando eu virar a esquina. Mas não importa quantas vezes eu tenha esse sonho maldito, eu sempre corro, eu sempre persigo a bicicleta vermelha.
Passo pela multidão em profundo desespero enquanto grito com a esperança de abrirem o caminho:
— Eu o conheço! Eu o conheço!
Quando finalmente chego perto do seu corpo quase sem vida, pulo sobre a bicicleta estraçalhada e paro ao seu lado. Aqueles seus dois dentes de coelho estão sujos de sangue, o mesmo que escorre por sua barba feita e para no seu pescoço.
— Tomás, me desculpe. — Digo em meio ao choro. Mesmo sabendo que é só um sonho, eu choro.
— Damie... — Ele estende a mão para tocar a minha. Quando seguro sua mão, trêmula e fraca, acordo.
Estou no meu apartamento de novo, envolto de lençóis molhados pelo suor, apertando o vazio com a mão direita. Minha garganta está seca e ardendo, como se eu tivesse berrado a noite toda, e talvez eu tenha. Passo um tempo inerte, longe de tudo o que acontece além dos limites da minha cama desarrumada nessa manhã de domingo. Mas é um momento muito curto de paz, talvez três ou quatro segundos. Após isso, as informações vão me atingindo uma a uma.
Tomás me odeia.
Hannah gosta de mim e quer me ajudar.
Meus irmãos vão fazer um jantar e meu pai estará nele.
Meu filho está morto.
Eu estou sentindo agora.
É a primeira vez que acordo pronto e engatilhado como uma metralhadora de emoções em quatro anos. Sento na cama e esfrego o rosto com as mãos. Meu objetivo é dar a menor quantidade de disparos possíveis, mas é como se o dedo no gatilho tivesse vida própria e estivesse desesperado para apertá-lo.
— Primeiro, você tem que dar o espaço que ele precisa. — Disse Hannah, enquanto me dava a carona ontem. — Parar de tomar essas pílulas vai te dar pontos. Tomás verá uma hora ou outra o quanto você está se esforçando.
Vou ser sincero quando digo que pontos com Tomás não são as únicas coisa que eu poderia ganhar com isso tudo. Não disse nada a Hannah, mas o jogo dela meio que deu certo. Enquanto eu fui gradualmente voltando a ter meus sentimentos, melhor eu ia me sentindo.
É bom estar com eles. E eu quero que seja bom estar com Tomás de novo. Há uma necessidade absurda gritando dentro de mim pelo perdão dele e eu não sei muito bem o porquê. Eu só não quero me machucar de novo. Não quero perder mais ninguém, já perdi pessoas o suficiente.
Vou até o banheiro, tomo um longo banho quente, visto uma cueca samba-canção e sento no sofá da sala. Levo meu corpo até o lado do sofá e me contorço para pegar a bolsa. Tiro a carteira lá de dentro e vasculho pela foto de Steve.
O mais irônico disso tudo é a dor, tão real que não parece nem de longe que já se passaram quatro longos anos. Algumas pessoas dizem que o tempo cura a dor e o luto, e isso também fortalece a hipótese que me vem à cabeça de vez em quando de que os neutralizadores me congelaram durante esses anos. Como um daqueles mamutes congelados de história em quadrinhos que voltam a vida depois que o calor derrete seu gelo, perdido e sozinho.
O problema é que eu me sinto tão vazio e ao mesmo tempo, tão triste que não há como acreditar que o tempo irá cuidar disso. Eu juro que tento, mas não consigo. Pego a foto de Steve e guardo no fundo da gaveta da minha escrivaninha do quarto. Passo pela casa recolhendo os porta retratos da nossa família em que Steve estava, dando um último adeus a cada um deles. Guardo todos em um saco e o coloco no fundo da mesma gaveta. Sinto vontade de chorar, e já é normal pra mim. Choro sem medo e vergonha, quando a única alma habitante nesse apartamento solitário sou eu. Sou livre para chorar o quanto quiser.
São onze horas da manhã e estou deitado no sofá com a beirada dos olhos em chamas mas ao mesmo tempo, molhados com aquelas lágrimas salgadas. Percebo que eu não sinto saudades apenas dos falecidos. E é só quando você ama muito alguém que está morto que acaba notando como é bom sentir saudades de alguém que está vivo. Porque de alguma maneira, você sabe que ela está bem e... Como posso dizer, viva.
— Elisabeth?
— Ei, oi Damien! — diz Fernando, o esposo da minha irmã mais nova ao telefone — Sua irmã foi para o trabalho e esqueceu o celular em casa. Como vai?
Me sinto frustrado por não conseguir falar com minha irmã e a vontade de ter contato com ela cresce ainda mais. Entretanto, percebo que tinha esquecido como eu gostava de Fernando.
— Vou bem, Fernando. E você?
— Vou bem, vou bem.
Fernando é um cara legal. Mas é só isso, então não temos muito assunto.
— Não estou numa boa hora. — Digo. — Pode pedir para Elisabeth me ligar?
— Claro! Aviso sim.
— Obrigado, até.
— Até mais Damien.
Encerro a chamada, procuro por Joseph na lista de contatos e ligo para o seu número. Dou a volta no meu apartamento inteiro quatro vezes antes dele atender o telefone.
— Damien! — Joseph grita.
— Joseph. — Eu digo o seu nome e um nó se forma na minha garganta. Por que diabos eu estou chorando por tudo?!
— E os biscoitos?
— Biscoitos? — Lembro da nossa última ligação e digo. — Ah sim. Queimaram.
— Que Elisabeth não fique sabendo disso. — Joseph ri e percebo que sinto falta até da sua risada. — Aliás, ela te disse que eu estou a caminho?
— Disse que você estava planejando uma viagem de volta e que tinha uma surpresa.
— Sim! Surpresa um, eu vou pegar um avião agora. Então não conte a Elisabeth. Quero aparecer aí de surpresa. — Não entendo porque ele acabou de estragar a surpresa pra mim. — Surpresa dois, essa eu te conto junto com ela, ok?
— Ok.
— Maninho, tenho que desligar agora, te visitarei assim que puder.
— Eu senti sua falta.
Certas coisas ditas para certas pessoas fazem você querer chorar mesmo depois de ter quase secado após uma manhã inteira em prantos.
— O que? — Pergunta Joseph, provavelmente tomando noção de que eu, incrivelmente, não estou sob o efeito de pílulas neutralizadoras.
— Nos falamos depois, adeus. — Desligo o telefone antes que eu chore mais uma vez. Mesmo sendo Joseph, a pessoa cujo ombro me serviu de lenços em todas as minhas choradeiras de infância, eu me sinto envergonhado demais para chorar na sua presença, mesmo que seja por telefone.
Volto para a cama e deito lá, exausto. Um tipo emocional de exaustão que eu não experimento há anos. Choro até cair no sono. Parece que este vai ser um daqueles dias de coisas improdutivas, mas sem filmes, comida, música e Steve.
Você é como o vovô, não é?
2011, 12 de julho, 40 anos
Steve fez questão de passar seu aniversário de 17 anos nesse restaurante chamado “O boi do mar”. Não é um nome que me atraiu muito, mas ele me garantiu que a comida era boa e havia uma mesa (a que por sorte, conseguimos reservar) no lado de uma grande janela para o mar. Acontece que com o preço do rodízio de carne daqui, TODAS as mesas deveriam ser ao lado de janelas com vista para o mar. Um absurdo.
O aniversariante também decretou que os convidados se limitariam a sua família e seus melhores amigos, Miguel e Bruna. Desde que esses dois começaram a passar metade da semana na minha casa, consegui, a medida do possível, ser o pailegaldoamigo deles. O Miguel é aquele adolescente tímido que murmura pelos cantos de braços cruzados. Normalmente ele tem vergonha de transitar sozinho pelo apartamento quando estou por perto.
— Diga ao Miguel para buscar ele mesmo. A casa é de vocês dois também, já tá na hora de parar com essas frescuras. — Disse a Bruna uma vez quando ela saiu da cozinha com dois copos d’água.
Bruna. Ela é particularmente minha preferida. É uma garota grande e com cabelos escuros e compridos. Anda por aí fazendo piada de tudo e eu sempre acabo rindo. Até mesmo das piadas de humor negro, não posso ser chato e reprimir ninguém por isso, afinal, eu quero ser o pailegaldoamigo deles. Perguntei a Steve por onde andava aquela tal de “Angélica”, mas ele disse que essa já era passado. Fiquei triste por ele, mas disse que as coisas são assim mesmo.
— Isso é nojento! — Elisabeth leva as mãos a boca com um gesto de repulsa, mas ela ri.
— Queria ter um estômago assim. — Diz Joseph.
Em um lado da mesa, os espectadores fervorosos torcem. Elisabeth e Joseph. Do outro lado, Miguel, Steve e Bruna competem para saber quem consegue comer mais. Há trinta minutos atrás, eles começaram a pedir sempre as mesmas coisas dos garçons que passavam (enquanto recebiam olhares reprovadores por pedirem tanta comida sem estarem comendo nada). Os três pratos estavam muito cheios quando a competição começou.
— Eu acho que vou vomitar. — Diz Steve, seu prato ainda tem dois pedaços de lasanha bolonhesa e uma fatia de pizza de frango com catupiry.
— Ela é um monstro. — Miguel passa a mão na barriga e parece que sua vontade de vomitar não é muito diferente da de Steve.
— Desculpem garotas, eu ganhei. — Diz Bruna, com o prato completamente vazio.
— Vencedora e perdedores declarados, não quero ver nenhuma comida sobrando no prato, entendido? — Digo, apontando o garfo para os três.
Steve e Miguel acenam com a cabeça, infelizes.
— Vou no banheiro, talvez consiga liberar espaço. — Steve diz e se levanta.
— Eu te acompanho. — Miguel segue Steve até o banheiro enquanto Bruna dá um sorriso debochado de orelha a orelha.
— Ei Bruna. — Dimitri a chama do outro lado da mesa, alguns minutos depois dos meninos saírem.
— Sim? — Bruna responde, simpática.
— Aquele Miguel, ele é meio.... — Dimitri estende a mão e a deixa envergada para baixo. — bicha, não é?
— Pai! — Eu digo, abismado.
— Ignore ele, Bruna. – Diz Elisabeth.
Joseph encara o prato, impassível.
— É só uma curiosidade, não sejam tão chatos. — Diz Dimitri, por baixo do grande bigode que hoje se pinta nos mais claros tons de cinza.
— Eu não sei, senhor Roseburn. — Bruna parece estar no limite do constrangimento.
— Miguel gosta de meninas. — Eu digo com o intuito de fazer meu pai calar a boca. — Pare de falar asneiras.
Dimitri me encara mal humorado e corta um pedaço de pizza do seu prato. Às vezes eu também suspeito de Miguel, ele tende a ser um tanto.... afeminado de vez em quando, mas afasto o pensamento da cabeça. Não gostaria que Steve tivesse esse tipo de influência.
Não houveram mais comentários vindo do grande bigode real, agradeci a Deus por isso. Steve e Miguel terminaram tudo o que tinha em seus pratos em meio a um sofrimento notável, mas pelo menos não houve desperdício (talvez algumas horas mais tarde, quando Steve passou um bom tempo agachado em frente ao vazo sanitário dando adeus a alguns pedaços de pizza não tão agradáveis). Dei carona para Bruna e para Miguel após nos despedirmos de Joseph, Elisabeth e Dimitri no restaurante. Steve pareceu muito feliz na nossa viagem de volta e eu me senti bem por isso. A bem da verdade, fico mais satisfeito com a felicidade do meu filho do que a minha própria. Não sei bem como essas cosias funcionam, mas não parecem ter muita lógica.
— Foi divertido, não? — Digo, sem tirar o olhar da estrada.
No caminho de volta para casa, tudo começa a ficar muito escuro. Me inclino um pouco para poder olhar para cima. Grandes nuvens negras emboscam o resto de azul que ainda há no céu. Parece que vai chover.
— Sim. Muito. — Steve sorri para mim.
— Stevie, me diz uma coisa?
— Claro.
— O Miguel. — De soslaio, vejo Steve batendo com os dedos no porta luvas. — Ele namora?
— Não. — Steve faz uma pausa. — Por que?
— Eu não sei... Seu avô trouxe o assunto hoje enquanto vocês foram no banheiro. — Começo a ficar desconfortável. — Ele disse que Miguel tinha um jeito... afeminado.
— O que? — Steve parece tão irritado quanto surpreso.
— Eu sei né! Também não acho que o Miguel seja... Você sabe... — A palavra trava na minha língua.
— Gay? — Steve a diz como se fosse a palavra mais normal do mundo.
— É, isso.
— Diga a palavra pai. — Diz Steve.
— Hã?
— Diga.
— Steve? — Pergunto, abismado.
— E se o Miguel for gay, qual é o problema?
Talvez eu tenha acabado de bater o recorde do carro estacionado mais rapidamente na calçada de uma rua movimentada de uma sexta à noite.
— Tudo. — Digo apontando para o rosto de Steve.
Depois de um susto, ele se endireita no banco e diz:
— E se eu fosse gay?
— Você não é gay.
— E se eu fosse?
— Steve, cala a boca. — Digo, olhando para a chuva que começou a cair no para brisa.
— Você é como o vovô, não é? — Steve me encara com uma feição repleta de nojo.
Eu não respondo e não é necessário porque nós dois sabemos a resposta. Eu sou exatamente como meu pai.
Eu só posso estar ficando maluco.
2015, 30 de março, 45 anos
Eu não aguento mais. Embora a minha cabeça ainda esteja quase explodindo, eu continuo imaginando como seria maravilhoso se essa fosse a única dor pela qual eu tivesse que me preocupar. Acordo às 8 horas da manhã, o mesmo horário de sempre. O problema é que eu consegui pegar no sono mesmo quando eram quase seis. Vou tomar banho e paro na frente do espelho por um tempo. Olho no reflexo dos meus próprios olhos por tanto tempo que por um momento, consigo aceitar a ideia de que há duas pessoas nesse banheiro. Bolsas escuras pendem dos meus olhos e meu rosto está ligeiramente inchado, provavelmente pelo tempo que desperdicei chorando nas últimas horas.
Uma vez li no jornal das notícias de domingo que neutralizados andam por aí meio encurvados, com os olhos semicerrados e ombros curvados, exatamente como zumbis de revistas em quadrinhos. Porém, posso dizer sem sombra de dúvida que em quatro anos de neutralização, hoje é o dia em que eu mais pareço com um zumbi. Tomo um banho quente tão relaxante que eu me sinto preso nele, saio de lá vinte minutos depois. Me arrumo com a mesma roupa social de sempre e passo direto pela cozinha. Mesmo que minha fome grite por comida, meu apetite é zero. É estranho, mas sinto que se eu comesse algo agora, jogaria tudo pra fora em instantes.
Essa chuva pesada e constante elimina qualquer hipótese de caminhada até o trabalho, então pego um ônibus. Não há um estudante que passe por mim nessa manhã cinzenta que não me lembre Steve. Há sempre alguém com um cabelo parecido com o seu, um uniforme parecido com o seu ou até mesmo a voz parecida com a sua. Há Steve em quase TUDO a minha volta. Fecho a jaqueta e me dou um abraço auto solidário com o olhar fixo nos próprios pés. Fico assim até chegar no ponto final, onde desço e faço uma caminhada de cinco minutos até meu trabalho. Fico um tanto aliviado, talvez aqui eu não me sinta tão mal, afinal de contas, é um lugar lotado de neutralizados. Espero que eles me influenciem ao máximo com suas faltas de emoções, não quero ter outro colapso. Não na frente de tanta gente. Vou até minha mesa numa oração silenciosa:
Não venha trabalhar hoje. Não venha trabalhar hoje. Não venha trabalhar hoje.
Eu não sei ainda o quão intenso é meu sentimento por Tomás ou Hannah. Quando se tem um filho morto e há uma luta para superar isso, não é normal focarmos nosso tempo em outras relações. Mas não importa o quanto eu sinta por Tomás, eu simplesmente não quero que ele me olhe daquele jeito de novo. A negação e o nojo dele por mim é como uma faca que pode me empalar sem dó, nem piedade. Mesmo que um dos principais motivos para a abdicação das pílulas seja ter o perdão de Tomás, eu quero me manter longe de tudo que possa me quebrar em pedacinhos, porque mesmo já estando em cacos, eu sei que ainda há como me machucar mais. Sempre há.
— Bom dia, flor do dia. — Jorge vem na minha direção enquanto tento olhar para a mesa de Tomás.
— Bom dia, Jorge. — Digo, impaciente. Não consigo enxergar com ele na minha frente.
— Você está... Diferente hoje. — Meu chefe diz num tom de deboche. Ele parece estar se divertindo com minha destruição aparente.
— Imagina, estou ótimo. — Sorrio para ele. Um sorriso repleto de ácido e ironia.
Quando o sorriso de Jorge se desfaz, ele olha pra mim por alguns instantes e depois volta a sorrir.
— Mãe de Deus, você...
— Tão neutralizado como uma porta. Obrigado por se importar chefe. — Dou outro sorriso e saio do seu caminho.
Parece que neutralizadores são uma fonte subestimada de paciência. Jorge deveria agradecer a essas pílulas porque se eu sentisse o que senti agora, enquanto conversava com ele, todos os outros dias que trabalhei aqui, acho que ele já estaria morto.
Suspiro de alívio ao encontrar a mesa de Tomás vazia. Estendo minha jaqueta na cadeira e arrumo meu escritório para o trabalho. Tanta coisa aconteceu nesse fim de semana que parecem ter se passado anos desde que eu venho para cá. Não leva muito tempo até uma pilha de envelopes cair como uma pedra em cima da minha mesa.
— Especial de segunda, grande Damien! – Jorge diz e caminha até a mesa de Tomás. – Parece que seu amigo não trabalha mais para mim, não é?
— Como assim?
— Eu não sei, ele não aparece mais. Deve ter morrido. — Jorge passa o dedo na mesa de Tomás como se procurasse por poeira.
— Eu não estou morto. — Tomás tira a bolsa e a joga no lado da sua cadeira a um metro e meio de mim.
— Falando do diabo... — Jorge diz. Ele e Tomás se encaram por um tempo longo demais e depois voltam a fazer suas coisas. Jorge vai para a sua toca e Tomás senta na cadeira, arrumando alguns papéis de cima da mesa. Ele não se vira para mim nem por um momento. Sua frieza me corrói por dentro. Faz tempo que eu não sou um expert em sentimentos, mas acho que isso mostra que eu realmente gosto dele. Se eu não gostasse de ninguém, não ia me preocupar em como estão me tratando. Mas agora eu gosto das pessoas. Eu odeio gostar das pessoas.
Passam-se duas horas e ainda estamos sentados, as vezes com trabalho a fazer e as vezes apenas perdendo tempo no celular. Sem uma única palavra dita. Toda vez que eu olho para Tomás descaradamente a procura de um olhar em resposta, ele desvia o rosto propositalmente.
— To-tomás. — Gaguejo e me amaldiçoo por isso. Estalo dois dedos da mão direita (Se estalar todos de uma vez, não sobrarão mais dedos. Quanto menos dedos para estalar, mais chances de ter outra crise). Não sei se Tomás não me ouviu ou simplesmente me ignorou e insisto — Tomás.
Diante da falta de resposta, encosto no seu braço esquerdo. Ele parece congelar por um momento, então joga as folhas em cima da mesa e olha para mim, furioso.
— O que foi?
Fico com a boca escancarada olhando para Tomás. Seu rosto ficou vermelho como uma cereja em questão de segundos. Eu não sei o que dizer. O chamei, mas não sei o que dizer. Tomás, na sua mais pura impaciência, volta ao trabalho e diz:
— Idiota.
— Me desculpa. — Cuspo as palavras sem pensar direito. Não sei porque dizer uma coisa dessas após ser chamado de idiota. Mas eu simplesmente digo.
— Pelo quê Damien? — Tomás me lança uma resposta pronta enquanto que seu ‘Damien’ parece arrancar um pedaço de mim. — Você não me fez nada. — Ele dá de ombros e continua virando folhas e folhas como se estivesse as examinando.
— Por... — Eu travo. Estalo os três últimos dedos da mão direita e digo — ter dito aquelas coisas.
— Você não entende. — Tomás encara os papéis com raiva, como se meu rosto estivesse impresso neles. — Você é um monstro, sabe?
Ele tem razão. E quando olho para o meu passado, não há como negar isso.
— Eu sei que sou. – Mais três dedos. – Mas eu mudei. Depois que aquilo aconteceu... Eu mudei. Eu não...
— Então me diga, Damien. — Tomás finalmente olha para mim. Acabo tomando conta de que eu não queria ser alvo desses olhos julgadores. Me sinto pequeno e nu diante deles. — Me diga como foi, detalhadamente.
— Não vou fazer isso.
— Quer me provar que está arrependido ou não?
Eu não disse que estava arrependido. Hannah falou com ele. Estalo os últimos dedos da mão esquerda.
— Porque eu preciso detalhar uma das piores coisas que aconteceram comigo para dizer que eu me arrependo? — Eu sussurro numa tentativa de não aumentar o tom de voz, me inclinando na sua direção.
— Porque eu quero entender Damien. — Seu olhar vacila diante do meu e eu consigo ver, lá no fundo, aquele Tomás que me chamava de Damie e dizia que queria ser meu amigo. — Eu quero entender por que uma pessoa pode agir assim. Eu quero entender como você pôde agir assim.
Continuo olhando para Tomás enquanto ele retoma seu trabalho e continua a virar os papéis. Posso claramente ver que ele o faz sem o mínimo de concentração. Só está mantendo suas mãos ocupadas virando os papéis. Virando, virando e virando.
— Eu tinha quinze anos. Estava no carro com meu pai quando ele estacionou atrás de dois homens pelados que estavam desesperadamente vestindo suas roupas. — Começo a dizer, olhando para o chão. De soslaio, vejo Tomás ainda com o olhar fixo nos papéis. — Ele disse que deveríamos ensiná-los a serem homens. Primeiro ele socou um deles e o outro fugiu. — Vejo Tomás amassar uma folha na hora de virá-la. — Depois ele disse pra eu bater no que estava deitado no chão. Deixar ele orgulhoso. Eu não queria fazer isso. Eu não queria. Mas eu não queria ficar sozinho, eu não queria desapontar meu pai. Eu queria deixa-lo orgulhoso.
Tomás finalmente volta a olhar para mim. Desvio dos seus olhos para não encontrar o mesmo nojo que me mata por dentro e continuo a falar:
— Eu peguei uma barra de ferro e bati nele. Não sei como ele ficou porque fechei os olhos e saí dali. Meu irmão apareceu e me abraçou e enquanto eu chorava, meu pai dizia que se eu não parasse, eu teria que bater no homem até ele parar de respirar.
— Deixar seu pai orgulhoso?
— Eu me arrependo disso. Eu tinha quinze! — Tento me justificar mesmo sabendo que não há como.
— E a segunda vez, você disse que foram duas vezes. — Tomás pergunta, sem dó.
— Tomás, eu... Eu posso te explicar essa vez depois? — Digo enquanto procuro outros dedos para estalar. Consigo um deles, mas o resto ainda está em processo.
— Quem tinha sido mesmo? — Pergunta Tomás. — Seu próprio filho, se me lembro bem. Estou correto?
— Tomás... — Eu paro de falar quando aquele nó se forma na minha garganta. O bom filho a casa torna.
— Me diga Damien, quanto ódio você conseguiu guardar aí dentro que te fez espancar seu próprio filho?
— Eu tinha pensamentos diferentes... — Meus olhos ficam molhados demais, minha voz fica trêmula. — Eu era diferente.
—Talvez seja. Mas sabe isso aqui Damien? — Tomás levanta a camisa e hematomas desenham suas costelas. — Isso é o que seu ódio fez. Àquele garoto que você espancou quando tinha quinze. Ao seu próprio filho.
Me levanto e viro as costas para Tomás. Não aguento mais ouvir aquelas coisas. É cruel. Muito cruel. Meus olhos parecem prestes a transbordar, mas eu não me permito chorar. Vou a passos robóticos e pesados até o banheiro da empresa e quando chego lá, me sinto aliviado por estar vazio. Paro na frente do espelho e me encaro novamente.
— Eu te odeio. — Não tenho muita certeza se é algo que eu falo ao reflexo ou o contrário. — Você é um monstro e o mínimo que pode fazer é se recompor e não derramar uma gota de lágrima.
Molho o rosto com água gelada e quando volto a me encara no espelho, o reflexo ri. Fico confuso e levanto a mão direita lentamente esperando que ele faça o mesmo, mas o meu próprio reflexo fica parado. Eu só posso estar ficando maluco. Volto a jogar mais água no meu rosto e esfrega-lo com força fazendo o meu nariz doer absurdamente.
— Eu disse pra você tomar as pílulas, Damie. — Meu reflexo fala com um sorriso debochado estampado no rosto, logo abaixo de suas olheiras. Reconheço a sua voz. Uma voz muito parecida com a minha, mas repleta de ironia e acidez. A mesma voz que sempre me perturba nos meus momentos de neutralização. — Eu disse que seria uma má ideia.
— Eu não ligo para o que você diz, nunca liguei. — Digo num tom relativamente baixo, não quero que ninguém entre no banheiro e se depare com um maluco conversando com o próprio reflexo.
— Uma pena, porque se ligasse, não estaria nessa situação de merda. Se preocupando com pessoas de merda.
— Não fale assim deles.
— É o que são, Damien Roseburn. — O reflexo dá de ombros e sorri. — Pessoas de merda. Não importa o quanto você esteja arrependido, eles vão te ver como um monstro. Porque é isso que você é. Um monstro.
Soco o espelho sem pensar muito nas consequências. Os pedaços de vidro caem no chão enquanto meu recuo meu punho pingando sangue. Olho para o que restou do espelho e uma forma minha deformada se faz presente. Mas é apenas um reflexo. Ele foi embora, por hora. Levanto o punho para analisar o estrago e me pergunto, receoso, se espelhos deverão ser quebrados sempre que aquele cara aparecer na minha frente.
Ele precisava disso.
2011, 3 de Setembro, 40 anos
A campainha toca e eu não faço a mínima ideia de quem possa ser, não costumamos a receber muitas visitas. Depois de espiar no olho mágico, abro a porta, surpreso.
— Miguel! — Digo, sorrindo. — Que surpresa, você nunca mais apareceu por aqui.
— Senhor Roseburn. — Miguel não tira as mãos dos bolsos mas olha diretamente nos meus olhos. Há algo de estranho nele.
— Entre, Steve já deve estar voltando, você pode esperar, não?
— Claro. — Ele me oferece um sorriso baleado e entra na sala.
— Fique à vontade, Miguel, a casa ainda é sua. Steve foi pedalar um pouco na praia, mas já volta!
Miguel senta no sofá e abraça a sua mochila sobre o colo com um olhar vazio. Miguel realmente não aparece aqui tem meses. Steve não tem comentado sobre o assunto, mas eu tenho certeza que tem alguma coisa relacionada a discussão que tivemos no carro no seu aniversário. Talvez Steve realmente tenha notado que Miguel era uma má influência. Talvez Miguel realmente seja.... Enfim, tenho um mal pressentimento quanto a isso. Me ocupo com assuntos na cozinha enquanto Steve não chega, pego 4 laranjas e faço um suco.
— Suco? — Pergunto.
— Não, senhor Roseburn, obrigado.
Ignoro sua resposta e encho dois copos. Levo um até ele.
— Eu disse que não queria.
— Beba. — Sorrio para Miguel. — Faz bem.
Ele pega o copo da minha mão e eu sento no sofá da frente, esperando a chegada de Steve, também com um copo de suco em mãos. Eu preciso fazer o meu cooper, mas não posso sair de casa e deixar Miguel aqui sozinho. Ficamos esperando cerca de 10 minutos até a porta se abrir e um barulho de chaves quebrar o silêncio.
— Steve. — Digo, colocando o copo vazio em cima da mesa. – Você tem visita.
Steve arregala os olhos pra mim.
— Miguel. — Steve pronuncia seu nome lentamente, como se cada letra guardasse uma bomba prestes a explodir.
— Oi Steve. — De Miguel, aquela confiança de que não estou acostumado. Há alguma coisa de errada aqui, tenho certeza disso.
— Bem, preciso ir. Ainda não corri hoje. Até mais, filho. — Beijo a testa de Steve. — Talvez ainda nos vejamos mais tarde Miguel. — Aceno para Miguel e vou embora, deixando um Steve estupefato atrás de mim.
Eu paro na frente do nosso prédio. Não consigo ir para a praia, não consigo sair dali. Há uma coisa dentro de mim gritando para voltar lá. Há algo em mim dizendo que isso tá errado. Pensamentos que eu não quero confiar rebatem na minha cabeça como aquelas bolinhas numa espiral de bingo. São coisas que eu não quero acreditar, mas que no momento parecem mais reais do que deveriam. Eu preciso saber que meus intuitos estão enganados. Preciso.
Abro o portão do meu prédio e espero o elevador chegar ao primeiro andar. No meio tempo, procuro alguma desculpa plausível que me faria voltar para casa. Penso em falar sobre tênis errados, mas não me importo muito com desculpas, estou nervoso demais para pensar nisso. Depois de sair do elevador, que pareceu fazer de uma viagem de 7 andares uma eternidade, vou o quão furtivo consigo ser até a porta do nosso apartamento, segurando o molho de chaves para que elas não se choquem umas com as outras e façam o menor barulho possível.
Abro a porta e os vejo no sofá da sala.
— Steve. — É a única coisa que consigo dizer.
Steve e Miguel estão se beijando. Uma cena que me faria vomitar. Mas há algo que me faz sentir muito mais do que nojo. Me faz sentir ódio. Esse algo é o meu filho. O meu próprio filho beijando outro homem. Isso não está certo. Não é assim que as coisas são. O meu filho não pode ser um deles.
— Pai! — Steve tira Miguel de cima dele e levanta aos tropeços. Pelo silêncio que brota na sala do meu apartamento enquanto Steve e eu nos olhamos, vejo que essa é a única coisa que ele também tem a dizer.
— Senhor Roseburn, não é o que você tá pensando. — Miguel diz.
— SAIA DA MINHA CASA! — Eu grito tão alto que minha garganta arde, aponto para Miguel e continuo berrando — SEU VIADO DE MERDA, SAIA DA MINHA CASA!
Miguel olha para mim e depois para Steve, receoso.
— Vai, Miguel. — Steve pede, encarando os próprios pés.
— Eu te ligo. — Miguel diz pegando a mochila e indo para a porta de entrada.
— Se você aparecer na minha frente de novo, eu te mato, Miguel. Eu te mato. — Não olho para ele porque vejo que sou capaz de mata-lo agora mesmo. Espero até que Miguel vá embora e feche a porta atrás de mim. Eu e Steve permanecemos parados, a meio metro um do outro. Vejo lágrimas caírem do seu rosto.
Não quero que meu filho chore. Não quero que ele se sinta mal. Mas eu também não quero que ele seja isso. A cena dele com Miguel volta a minha cabeça em flashes que me dão náuseas. Há muito ódio em mim agora, sinto que eu poderia explodir.
— Pai. Me desculpe eu... — Steve tenta continuar mas acaba desatando em lágrimas.
— Há quanto tempo? — Cerro meu punho até minhas unhas machucarem a palma da minha mão.
— Foi a primeira vez...
— HÁ QUANTO TEMPO?! — Berro mais uma vez, minha garganta volta a arder mas eu não me importo.
— Abril.
— Não, um instante. — Ergo a mão, não acredito no que estou ouvindo. — E Angélica?
— Ela...
— Preste bem atenção no que você vai falar agora, não minta para mim.
— Ela não existe.
Steve tem medo de olhar para mim e por isso mantém seu olhar vacilante enquanto abraça o próprio corpo. Eu sinto nojo do meu próprio filho e fico extremamente mal por isso. Fico triste, mas há muito mais ódio do que tristeza. E esse ódio me mostra claramente o que devo fazer. Eu devo ensinar a Steve uma lição.
— Primeiro, isso não vai se repetir, ok? — Digo, forçando ao máximo uma voz serena, mas ainda assim irregular.
— Me desculpa pai. Eu não vou fazer isso de novo. — Steve diz em meio ao choro.
— Abril, certo? — Vou até meu quarto. Estou fervendo tanto com a raiva que procuro o melhor cinto pela fivela mais chamativa e brilhante.
— Sim. — Steve soluça.
Volto para a sala e dobro o cinto no meio. Não faço com que ele estale, não quero que isso alerte Steve, que está de costas para mim agora. Miguel e Steve de lábios grudados voltam para a minha cabeça e eu cerro os dentes. Por que logo o meu filho, Deus?
O cinto faz um estalo quando bate na parte de trás do braço de Steve. Ele leva um susto e cai no chão de joelhos, gritando de dor.
— Pai?!
— Você vai mudar, não vai? — Pergunto. Meu rosto queima. Levanto o cinto e bato novamente, agora na mão que Steve levantou para se proteger.
— Sim, pai, por favor, para com isso!
— Você vai mudar, e vai deixar o pai orgulhoso.
O cinto bate na sua pele e um estalo se faz dali. Imagino que quanto mais estalos, mais a lição será aprendida. Eu estou injuriado, triste e enfurecido. Me sinto traído pelo próprio filho. Me sinto enojado.
Continuo estalando o cinto no seu corpo até que ele começa a sujar de sangue. Enquanto vejo as marcas nele, começo a ficar arrependido. Então eu continuo repetindo a mim mesmo como uma tentativa de não me sentir tão mal.
Ele precisa disso.
Steve tenta segurar o cinto e eu bato na sua mão com força.
Ele precisa disso.
Fazem vinte minutos e os estalos continuam. Seus braços, suas pernas, suas costas. Tudo está machucado e vermelho.
Ele precisa disso.
Eu paro por um momento e me limito a olhá-lo no chão, ainda em prantos.
— Me desculpa pai. — Sua voz está quase inaudível sendo abafada pelo tapete.
Um nó se forma na minha garganta, viro as costas e vou até meu quarto, não posso chorar na frente dele. Não agora. Eu fecho os olhos e tudo o que consigo ver é o corpo do meu filho marcado pelas minhas próprias mãos.
Ele precisava disso?
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