Obrigado.

2015, 30 de março, 45 anos

A porta do banheiro se abre. Tomás olha para mim e depois para o espelho quebrado. Mantenho o contato visual com meus punhos ainda pingando aquele líquido vermelho e não leva muito tempo até Tomás murmurar algo, nervoso, e vir na minha direção. Ele pega minha mão direita e a coloca dentro da pia, abrindo a torneira e deixando a água fria passar por ela e descer vermelha pelo ralo. Após a lavar bem, Tomás envolve minha mão em papéis toalha com gentileza, como um pai ajuda seu filho a limpar o seu machucado. Ele chuta os cacos de vidro para baixo das pias e diz:

— Não diga a ninguém que você fez isso. — Ele se vira para ir embora, para de costas e complementa — E se quiser que acreditem e você, aja como um neutralizado.

Eu não tenho noção de que tipo de atitude tomar então fico parado ali, com os papéis manchados de vermelho no punho enquanto Tomás sai do banheiro, como se nada tivesse acontecido.

Eu nem cogito correr na praia, então jogo minha bolsa no lado do sofá, tiro os sapatos e vou direto para a cama, de roupa social e meias. Não há choro, apenas aquela sensação estranha de vazio. Passo com os dedos levemente sobre a fivela do meu sinto. Steve. Meu corpo todo dói quando seu nome chega a minha cabeça como uma bala. Respiro fundo e me concentro ao máximo para dormir antes de chorar, porque se eu começar a chorar agora, só vou parar quando anoitecer. E por algum milagre divino, eu caio no sono.

Parecem ter se passado dias, mas apenas duas horas depois, eu acordo com o barulho do interfone. Vou até a cozinha atender e digo, ainda meio grogue de sono:

— Sim?

— Sou eu, Hannah.

— Hannah, eu não estou muito bem.

— Eu não vou sair daqui, Damien, abra o portão.

É o que eu faço. Sei que Hannah está falando sério quando diz que não vai sair dali. Abro a porta e a espero sair do elevador. Ela vem com uma grande embalagem de pizza nas mãos e diz, sorrindo:

— Trouxe pizza!

— Fantástico. — Forço um sorriso. Hannah passa por mim e entra no meu apartamento.

— Bem, o senso de ironia você recuperou, não é mesmo? — Ela coloca a pizza na mesa e depois vai até a janela — Tá bem nublado lá fora.

— Não é a única coisa que recuperei, infelizmente. — Abro a embalagem da pizza e o cheiro de frango com catupiry embrulha meu estômago. Me pergunto se há cheiro de alguma comida que não me deixaria enjoado nesse exato momento.

Hannah abre a janela e um vento frio invade meu apartamento.

— Eu adoro esse tempo assim, sabe. Cinza. — Ela sorri, encostada com o ombro na janela enquanto olha para as nuvens, encantada. A última vez que vi esse olhar nela foi quando acendemos as luzes daquela construção abandonada.

Me aproximo de Hannah e paro ao seu lado. Encaro o céu escuro e sinto o vento frio mais de perto. Os pelos da minha nuca arrepiam com a sensação fresca.

— Eu tinha esquecido como isso era bom. — Digo.

— Pessoas que gostam de tempos nublados são as mais depressivas, na minha opinião. — Hannah diz e vai até a mesa pegar uma fatia de pizza.

Noto que estou sorrindo com os olhos fechados. Desfaço o sorriso rapidamente, receoso de que Hannah tenha o visto. De alguma maneira, me sinto envergonhado de sorrir. Como se eu não pudesse fazer isso depois de tudo o que passei. De tudo o que eu fiz.

— Não estou com muita fome. — Digo e sento no sofá, a observando.

— Se não comer essa pizza, se considere um cretino. — Hannah morde um pedaço e parece ter sido enviada ao paraíso. — Muito gostosa. — Diz, de boca cheia.

— Tomás já te disse o que aconteceu hoje?

Hannah senta na minha frente ainda mastigando. Quando ela finalmente engole, penso que vai começar a falar, mas em vez disso ela morde outro pedaço, pensa mais um pouco e finalmente diz:

— Damien, ele vai te perdoar, ok? Ele só precisa de tempo. E de qualquer maneira... — Hannah levanta e senta no meu lado me encarando bem de perto. Sou pego pelo desconforto diante da sua respiração tão perto da minha. — Ele não deveria ter dito aquelas coisas pra você. Foi cruel da parte dele.

— Acho que foi. — Digo, tocando nos cortes da minha mão direita.

— Como tá a mão?

— Vou ficar bem.

— Sempre fica. — Hannah sorri.

Acho conforto no seu sorriso. É como se eu fosse aquela criança de 15 anos procurando desesperadamente por um porto seguro novamente. Eu sinto confiança em Hannah.

— Eu não sei se vou conseguir. — Digo.

Hannah me encara por alguns instantes com um olhar estranho. Espero sentir pena naquele olhar, mas é algo diferente disso. É como se ela compreendesse pelo que eu estou passando.

— Ninguém sabe se você vai conseguir ou não Damien, além de você. Porque isso não depende de mais ninguém, sabe?

— É exatamente por isso que eu tenho tão poucas chances.

Hannah levanta e dá uma olhada na minha sala.

— Papel e lápis. — Ela diz sem olhar pra mim.

— Naquela gaveta. — Aponto para o armário no lado da TV.

Hannah pega o lápis e um caderno velho da gaveta. Volta e senta no meu lado novamente, com lápis em punho.

— Primeiro, as coisas que te fazem querer voltar a tomar pílulas neutralizadoras. — Ela diz, escrevendo no papel.

Me afundo mais no sofá e encaro o meu teto tentando reunir as informações.

— Sinto saudades de Steve.

— Saudades de Steve... — Hannah sussurra como um eco e anota.

— Culpa. Por ter sido um péssimo pai. — Hannah anota mais uma vez, eu continuo. — Raiva, por ter sido um monstro. — Penso um pouco e me corrijo. — Por ser um monstro.

— Porquê saudades?

Olho para Hannah abismado com a pergunta.

— Ora essa, porque eu o amava e ele era meu filho?

— Por que você foi um péssimo pai?

— Porque eu não aceitei meu filho e uma vez bati nele por cerca de 20 minutos com um cinto.

Espero aquele olhar de reprovação e nojo que Tomás me encheu hoje mais cedo, mas em vez disso, Hannah continua me encarando como se estivéssemos falando sobre algo fútil, como a qualidade da pizza.

— Bem, provavelmente você tem raiva de si mesmo pelas coisas que fez a Steve, correto?

— Correto, você é psicóloga?

— Coisas que te fazem querer sentir novamente. — Hannah vira a folha e volta a anotar, com descaso.

Suspiro e demoro um pouco a responder.

— Voltar a falar com Tomás. Não te decepcionar.

— Porque você se importa tanto com a gente Damien?

É a porra de uma boa pergunta.

— Eu não sei.

Hannah sorri novamente, ela parece estar se divertindo com a questão.

— Tem certeza?

— Talvez... Eu tenha me sentido bem quando estava com vocês dois. — Paro de falar e forço a memória daquela noite sob pisca-piscas. — Naquela vez que você me tirou as pílulas. Foi bom ouvir música também, era a banda que Steve mais gostava.

— É desse sorriso que eu gosto. — Hannah aponta para meu rosto e só agora percebo que estou sorrindo. Minhas bochechas coram instantaneamente. Hannah levanta e vai até o aparelho de som, aposentado há anos. — Então quer dizer que Steve também tinha um bom gosto musical?

— Acho que sim.

Hannah procura entre os CDS empoeirados por um tempo e tira de lá esse álbum dourado. Ela levanta para mim e sorri.

— Vamos dançar o pouco.

— Esse era meu, na verdade. — Aponto para o álbum do ABBA. — E eu não vou dançar Hannah.

Ela coloca o CD no aparelho de som e avança algumas faixas. Quando a música começa, Hannah dá início a algum tipo de dança perdida da cultura de alguma tribo histórica que deveria continuar perdida. Algo totalmente sem ritmo e quebrado, sem técnica alguma, apenas movimentos aleatórios. Mas quando olho para seu rosto, vejo que ela não está se importando com isso. Ela apenas mexe o corpo e isso a agrada. Ela começa a cantar e noto que suas habilidades de canto são tão avançadas quanto as de dança, mas ela continua não se importando. Me lembro dos dias improdutivos com Steve. De como isso costumava a ser divertido.

Hannah vem na minha direção e eu aceno negativamente com a cabeça. Ela segura meus braços e me obriga a levantar. Eu paro na sua frente enquanto ela dança com o mínimo de ritmo que possui.

— Você é uma péssima dançarina. — Digo alto o suficiente para ela me ouvir.

— Foda-se! — Hannah berra e logo depois continua na sua performance.

Eu rio e começo a balançar meu corpo com cautela. Hannah segura meu quadril e balança de um lado para o outro enquanto eu espero o refrão da música para poder entrar no coro.

You are the dancing queen, Young and sweet. Only seventeen.

Mesmo completamente fora de tom, cantamos juntos. Cantamos daquele jeito onde a música é tão alta e temos que gritar para podermos ouvir nossa própria voz. Eu danço com Hannah na sala de estar do meu apartamento. Enrolamos o tapete vermelho e o deixamos em baixo da mesa quando ele começa a nos atrapalhar com nossos passos de dança amadores. Eu giro, balanço, pulo e canto até começar a suar por mil cantos diferentes. E apesar disso, é divertido. É como se não houvesse mais nada além da minha porta, como se tudo que existisse fosse eu, Hannah e a música. Eu me sinto extremamente bem.

Olho para Hannah e ela está rindo. Eu rio junto, sem precisar de qualquer esforço. Apenas rio. Dou gargalhadas junto de Hannah. Aquela mecha do seu cabelo não está tão torta, aliás, ela parece mais arrumada do que nunca. Seu cabelo não está necessariamente arrumado, mas há algo nele que está.... Bonito. Há uma beleza em Hannah que eu nunca tinha notado antes.

A música acaba e eu a abraço. Ela me abraça de volta, receosa.

— O que tá acontecendo? — Ela pergunta.

— Obrigado.

— Não precisa me agradecer, idiota. — Hannah sai do abraço e segura meu rosto com suas duas minúsculas mãos. — Vem, tive uma ideia.

Hannah desliga o aparelho de som, pega mais um pedaço de pizza e coloca na boca indo em direção a porta.

— O que? — Digo e logo depois ouço aquele zunido que há quando estamos numa boate e vamos ao banheiro. O som do silêncio após muito barulho.

— Vem logo. — Hannah diz, ainda com o pedaço de pizza na boca.

Visto uma jaqueta, pego um pedaço de pizza e sigo Hannah.

O mundo é realmente injusto

2011, 1 de outubro, 41 anos

Deitado de bruços sobre a cama, Steve escreve no seu caderno com uma lapiseira azul.

— Ei! — Paro na porta do quarto de Steve, me inclinando para dentro. — Eu pedi pizza, tá afim de ouvir alguma música?

— Acho que não pai. — Steve passa a mão no pescoço, onde há poucos dias ainda havia um hematoma escuro — Estou com dor de cabeça.

— Ah, vamos lá. Eu to de folga, vamos fazer um dia improdutivo, que tal?

Steve encara o caderno claramente tenso e permanece em silêncio.

— Tudo bem. — Digo, frustrado. — Eu vou sair então. Deixei o dinheiro da pizza em cima da mesa, ok?

— Ok. — Steve me oferece um sorriso. O pior deles. Aquele forçado e sem propósito.

— Ok. — Repito em voz baixa e saio dali.

Vou até a sala, olho para a janela e penso algumas vezes antes de ir para a rua sob esse sol infernal. Após algumas reconsiderações, calço meus sapatos e saio de casa. Quando cumprimento o senhor Francisco (o porteiro de bigodes brancos) já saindo do meu prédio, sinto o calor me arrebatar. Começo a suar instantaneamente e me amaldiçoo por ter feito a decisão de sair de casa. Mas já é tarde demais e também faz um tempo que não a vejo. Pego um ônibus e depois da viagem de trinta minutos, chego na escola São Pedro, onde Elisabeth trabalha. É um grande conjunto de prédios pintados de azul e branco, as principais cores da escola. Vou até um prédio com um grande letreiro escrito:

ENSINO FUNDAMENTAL — SÃO PEDRO.

Os corredores me trazem antigas memórias porque parecem muito com o lugar em que eu e Joseph estudamos. Paredes ornamentadas com pequenos tijolos laranjas e um piso de alvenaria se fazem presentes ao longo dos corredores repletos de murais cheios de avisos e trabalhos que as crianças fazem. Não lembro em qual sala tem a turma de Elisabeth, então sou obrigado a checar no vidro de porta em porta, recebendo vários olhares confusos de professores estranhos. Quando encontro Elisabeth, a vejo agachada em um daqueles tapetes coloridos de borracha. Bato na porta algumas vezes e metade das crianças me encaram antes da minha irmã me ver. Quando ela finalmente nota minha presença, levanta e vai correndo até a porta, com seu vestido azul até a altura dos joelhos.

— Maninho! — Elisabeth me abraça. — Entra, estamos fazendo casas. — Hannah sorri, mas não parece muito feliz.

— Não quero fazer casas, obrigado.

— Você levou Joseph até o aeroporto? — Ela me ignora.

— Não, por que?

Elisabeth revira os olhos.

— O idiota foi embora de novo sem falar com a gente.

— Merda. — Digo e logo sou repreendido por um olhar nervoso de Elisabeth. Esqueço que estamos cercados por crianças de 5 anos de idade.

Eu também odeio o fato de Joseph fazer suas viagens sem avisar quando vai embora. Ele diz não gostar de despedidas, mas é o único dos três irmãos que não gosta. Isso sempre acaba com Elisabeth revoltada numa ligação para ele em algum lugar do mundo, custando uma fortuna a hora.

Sigo Elisabeth pela sala. Uma garotinha de cabelos ruivos e sardas no rosto me encara de cara feia, não entendo o porquê e apenas sorrio. Não sou muito bom com essas crianças.

— Esse é o Lucas. — Ela aponta para um menino cheio de mechas loiras, animado com sua massinha de modelar feita de uma cor só, provavelmente o resultado da mistura de todas as outras — Lucas, esse é o Damien, meu irmão.

— Oi Lucas. — Estendo a mão.

Lucas nos ignora e continua fazendo sua construção bizarra de massinha.

— Lucas? Diga oi ao tio Damien. — Elisabeth sorri outra vez, parece que ela vai explodir com tanta animação forçada.

— O que você tá fazendo aí? — Pergunto a ele, apontando para sua obra de arte.

Lucas olha para mim e ergue o pedaço de massa de modelar amarronzada.

— Um pênis!

— Lucas! — Elisabeth finalmente sai da sua postura de professora serelepe do jardim de infância. Eu rio. — Não se deve falar essas coisas, já falamos sobre isso!

Lucas se inclina para ela e diz:

— Pênis!

— Parece que vamos ter outro bilhete para papai e mamãe!

Elisabeth levanta e vai como um furacão até fora da sala. Eu a sigo, ainda rindo.

— Tá difícil? — Pergunto, debochado.

— Tá impossível Damien. — Já no corredor vazio da escola, Elisabeth se encosta na parede e desliza até sentar no chão. — Aquele garoto é um demônio revestido em corpo de criança.

— Talvez ele só goste de fazer pênis de massinha. — Digo, me sentando ao seu lado.

— Semana passada ele mandou a Júlia tomar no cu. Damien, eles têm 5 anos de idade, não podem mandar as pessoas tomarem no cu! — Ela olha para mim, abismada, faz uma pausa e continua. — E eu não aguento mais lidar com tantas crianças.... É difícil demais.

Elisabeth vai de revoltada à triste em questão de segundos. Eu prefiro mil vezes ver irmã caçula irritada a vê-la desse jeito.

— Beth.... Fernando ainda está fazendo os tratamentos, certo?

— Sim mas... Parece impossível. — Seus olhos estão brilhantes demais. — É como se fosse impossível. Quando eu chego aqui e vejo mil crianças diferentes correndo pra lá e pra cá, me pergunto porque é tão difícil eu ter uma delas. Só uma. Não é pedir muito, é Damien?

— Não, não é.

Envolvo Elisabeth com meu braço esquerdo e ela apoia a cabeça no meu peito, exausta.

— Há tantos pais horríveis por aí que não merecem... — Sinto como se ela estivesse falando sobre mim, mas ignoro a ideia. Steve nunca contaria o que aconteceu para ela. — Ter um filho é uma dádiva e eles a desperdiçam ensinando o que? Seus filhos a falarem merda o tempo todo e insultar os outros?

— O mundo é injusto, mana. — Digo.

— É muito injusto.

Eu queria poder consertar tudo. Dar a Fernando seja lá qual fosse o remédio milagroso para eles poderem ter um filho. A ideia de que Elisabeth sempre quis ter um filho e não pôde me abala sempre que eu penso no que eu fiz com Steve. Eu não mereço ter um filho mais do que Elisabeth merece. Mas ainda assim, eu tive um. E o tratei mal. E falei coisas ruins pra ele. E espanquei ele.

O mundo é realmente injusto.

Uma vontade absurda cresce em mim. Preciso pedir desculpas a Steve, eu não deveria ter feito aquilo, não era preciso. Me despeço de Elisabeth ás pressas e vou correndo até o ponto de ônibus. Pego um trânsito detestável e demoro uns 40 minutos para chegar em casa. Estou ansioso, estalando os dedos. Espero que Steve me perdoe. Espero que possamos ter mil outros dias improdutivos como aqueles de antigamente. Quero abraça-lo e dizer quanto o amo.

Enquanto abro a porta do nosso apartamento, percebo que há mais voltas na fechadura que eu deixei antes. Steve que normalmente faz isso ao trancar a porta depois de sair de casa.

— Steve?

Em resposta, nada mais e nada menos do que o perfeito silêncio. Vasculho os cômodos por ele e não encontro nada. Me sinto sozinho como no dia em que Elisabeth nasceu. Quando volto para a sala, vejo que já vão dar cinco horas da tarde. Vou até o suporte para chaveiros no lado da porta e vejo que há um faltando. As chaves de Steve para o cadeado da sua bicicleta vermelha. Ele provavelmente foi pedalar na praia. Me arrumo rapidamente com a minha roupa de corrida e vou até lá.

Pedir desculpas lá mesmo, quem sabe.

Eu disse FODA-SE

2015, 30 de março, 45 anos

— Acho que vai chover. Não trouxemos guarda-chuvas. — Digo, guardando as mãos nos bolsos da minha jaqueta.

— Você não disse que gostava desse tempo também? — Hannah pergunta, andando apressada na minha frente.

— Sim, mas não quero ficar ensopado.

As ruas estão cheias. Pessoas correm da tempestade que está por vir enquanto as nuvens ficam cada vez mais cinzas e escuras. Corremos na contra mão, em direção à chuva iminente.

— Vamos. — Diz Hannah se apressando mais ainda e me oferecendo um breve olhar.

— Espere! — Vou atrás dela — Para onde estamos indo? — Ao mesmo tempo que eu corro mais, Hannah é mil vezes mais ágil se esquivando das pessoas. Esbarro em alguém e ouço um xingamento perdido no meio da multidão.

— Não sei, cala a boca e me segue. — Hannah diz como aquilo fizesse todo o sentido.

Damien Roseburn, facilmente manipulado, com ou sem pílulas neutralizadoras.

Estamos correndo por um caminho que eu conheço bem, o mesmo das minhas caminhadas. Quando chegamos perto da praia começa a chuviscar, mas Hannah não diminui o passo. Me sinto envergonhado passando pelos banhistas saindo da praia enquanto corro com Hannah como se fossemos duas crianças, mas se eu parar agora, não sei bem se Hannah também pararia e mudaria de ideia quanto a velocidade que estamos indo.

Logo no início da praia, ela tira seus tênis e pula da calçada até o nível um pouco mais baixo da areia. Continuo na calçada, parado.

— Venha! — Hannah diz, andando de costas para o mar com seus tênis na ponta dos dedos.

Começa a chover mais forte. Tiro os sapatos e depois as meias. Levo-os comigo na mão direita e pulo cautelosamente até a areia úmida, enterrando meus dedos nela e sentindo certo prazer nisso. Hannah vai para mais perto da água e senta na areia. Só estamos nós dois na praia. A chuva aperta mais e eu só penso em como essa garota pode ser maluca.

— É perigoso, sabia? — Digo em pé no seu lado, com o som da minha voz sendo abafado pela chuva. — Vai cair uma tempestade dos infernos e estamos na porra de uma praia!

— Ah, relaxa.

Hannah segura minha mão e puxa para baixo, eu sento ao seu lado e sinto meu traseiro instantaneamente molhar na areia. Está chovendo muito agora. Logo depois das ondas agitadas se quebrando na areia, acima do horizonte, linhas de luz pintam o céu entre as nuvens negras. Ao meu lado, Hannah sorri, com a chuva tirando todo o volume do seu cabelo.

— Quer dar um mergulho? — Grito para poder ser ouvido em meio ao som das ondas e trovoadas.

— Não exagera. — Hannah grita e olha pra mim, rindo. — Acho que esse banho já basta, não? — Ela não percebe a ironia.

Hannah levanta e caminha para mais perto da água, penso que ela vai mergulhar, mas em vez disso, ela para e coloca a mão na cintura, olhando para o mar. A chuva deixou sua camisa vermelha quase transparente e sua calça jeans ensopada, mas como uma boa parte das coisas, ela parece não se importar. Não sei muito bem o que me leva a fazer isso já que como eu sempre digo, não sou um expert em emoções, mas parece uma boa ideia. Pego um punhado de areia molhada e arremesso na bunda de Hannah. Um barulho que se parece uma chicotada se sucede e ela vira, abismada.

— Porra! — Hannah tem sua boca bem aberta, parece que vão sair mil outros palavrões dali. Eu simplesmente acho a situação engraçada e começo a rir como um idiota. — Você tá rindo né seu babaca?

— Foi mal — Eu tento recuperar fôlego e parar de rir, mas não consigo. — Não era para ter sido tão forte.

Meu estômago começa a doer de tanto rir quando eu sinto algo batendo com força na minha testa. Primeiro, penso ter sido uma pedra, de tão denso e firme que era o material. Mas é só quando a areia quebra e se desfaz sobre meu nariz e boca que eu entendo a situação. Na minha frente, Hannah ri.

— Sua... — Eu digo, tirando a areia que caiu nos meus olhos e agradecendo àquela chuva pesada por ajudar a não deixar muitos grãos lá dentro.

— Você quem começou! — Hannah diz apontando pra mim, mas ela também está rindo.

Eu levanto e corro atrás dela, mas Hannah consegue arranjar uma velocidade que só os céus sabem de onde. Ainda acho graça de tudo aquilo, mesmo com o olho direito ardendo e minha testa ligeiramente arranhada pela velocidade que o bloco quase sólido de areia acertou meu rosto. Em meio a uma chuva absurdamente forte, eu continuo rindo e correndo atrás dela. Eu nunca imaginei que mesmo em tais circunstâncias, era possível me sentir bem.

Eu nunca pensei que era possível, em quaisquer circunstâncias, me sentir bem novamente.

A essa hora já corremos quase todo o percurso da praia, estamos rindo e ainda arremessando areia um no outro. Mesmo que eu tente não jogar com força, Hannah não parece poupar esforços para me machucar. De qualquer maneira, acabamos ficando cansados demais e não há energias disponíveis para fazer nada além de rir. A corrida acaba e eu empurro Hannah na areia. Ela cai de costas, puxando minha camisa ensopada e me levando junto. Estamos deitados lado a lado na praia enquanto a chuva está tão grossa e forte que parece cortar nossas peles e os sons de trovões ficam cada vez mais fortes e numerosos. Tento olhar para o céu e apreciar a vista, mas não há como deixar os olhos abertos e evitar os pingos de chuva dentro deles. Viro o rosto e enxergo Hannah de um jeito meio embaçado.

— Eu queria me sentir assim pra sempre. — Digo.

— Não é preciso muito esforço. — Hannah diz, tampando meu rosto com a palma da mão.

Eu tiro a mão dela do meu rosto e sorrio.

— Não é tão ruim sorrir não é? — Ela pergunta.

— Acho que não.

Ficamos ali nos olhando e sorrindo. Eu sorrio para Hannah até meus músculos do rosto começarem a doer. Mas meu sorriso cessa com um susto. O barulho de uma buzina.

— Calma, foi só um caminhão passando. — Hannah diz com uma pequena risada depois de notar minha feição aterrorizada.

Não foi simplesmente um susto, foi um transporte em milésimos de segundos para a pior situação da minha vida quatro anos atrás.

— Onde estamos? — Eu me sento rapidamente, olhando em volta. Há muita chuva e eu não consigo enxergar alguns metros a nossa volta.

— Eu não sei Damien, por que?

Me levanto aos tropeços e vou na direção da calçada, afundando meus pés na areia. Ainda seguro meus sapatos na mão esquerda firmemente. Estão encharcados agora. A árvore centenária vai se formando na minha frente lentamente enquanto me aproximo.

— Damien? — Hannah segura meu braço.

— Foi aqui. — Digo tirando o olhar da árvore e levando-o para a rua.

— O que foi aqui, Damien? Do que você tá falando?

Está chovendo muito e há uma névoa que torna tudo mais difícil e de ser visto. Mas ali, logo depois da árvore, naquela mesma subida dos meus sonhos, naquela mesma subida que eu sempre evito nas minhas caminhadas, vejo ele na sua bicicleta vermelha.

Saio em disparada na direção da bicicleta e corro tão rápido quanto posso.

— Damien! — Hannah me segura pelo braço mas eu consigo me soltar rapidamente, deixando-a sem ação.

Na minha cabeça, um nome ecoa.

Steve.

Eu corro até aquela mesma esquina fechada. Muita chuva. Muita névoa. Lá em baixo, as ondas ainda batem nas pedras. Tudo como em quatro anos atrás. Não há gaivotas no céu e nem pessoas correndo. Meus fones de ouvido não estão aqui. O sol não está se pondo. É incrível como mesmo apesar disso tudo, eu me sinto no mesmo lugar, naquela mesma vez, com aquele mesmo sentimento.

Eu viro a esquina. Não há caminhão algum e não há bicicleta alguma. Não há Steve ensanguentado no chão.

— Steve. — Eu irrompo em lágrimas quando me ajoelho no chão. Talvez no mesmo lugar que me ajoelhei quatro anos atrás.

— Damien, você tá no meio da rua, sai daí. — Hannah aparece atrás de mim e tenta me puxar pelos braços mas eu sou pesado demais pra ela.

— Ele morreu aqui Hannah. Steve morreu aqui. Na minha frente.

— Damien.... — Hannah me solta e anda até minha frente.

— Ele sempre vinha para a praia... Eu estava correndo e .... Um caminhão...

— Não precisa dizer mais nada. — Hannah me abraça. — Só vamos sair daqui, é perigoso.

Eu levanto tentando me recompor mas quando olho para as minhas mãos, vejo o mesmo sangue. É tudo tão real que minha cabeça parece prestes a explodir. Hannah me leva até a cerca de segurança. Eu encosto nela e olho para as ondas tão fortes batendo nas pedras que imagino se a água poderia subir até onde estamos agora.

— Eu não quero Hannah.

Olho para Hannah e ela me encara de volta. Agora sim eu vejo aquela mesma pena de sempre. A pena que estou acostumado a receber de todos mas não me importar. Quando se sente, costumamos a nos importar muito.

— Tá tudo bem em sentir, Damien. — Hannah segura minha mão. Há certo desespero em mim mesmo quando seu toque não produz o mesmo efeito tranquilizador que uma vez fizera.

— Não. Não tá tudo bem. Eu não quero sentir... isso. — Solto a mão de Hannah e me apoio na grade, olhando para o mar. Estou acima de tudo triste, mas há muita vergonha em continuar chorando na frente de Hannah.

— Não tem como escolhermos o que sentir Damien. — Ela diz, cruzando os braços. — Você não entende? Não tem como simplesmente ser feliz. Ficar triste faz parte.

— Mas é muito para eu suportar. Eu bati nele Hannah, eu espanquei meu filho com minhas próprias mãos. Ele morreu e eu não pude nem me desculpar. Eu não pude dizer adeus!

— Para de se menosprezar tanto Damien! — Hannah grita tão perto do meu rosto que eu me assusto. Ela abre as mãos dizendo — Você dirigiu a porra daquele caminhão?

Fico em silêncio. Hannah repete, dessa vez, mais alto. Ela parece que pode explodir a qualquer momento.

— Você dirigiu?!

— Não.

— Então não foi você quem matou seu filho!

— Ele foi embora Hannah. — Digo, com a voz incrivelmente beirando a serenidade. — Ele foi embora, como todo mundo sempre vai.

— Foda-se que todo mundo vai embora Damien!

Estou perplexo demais para dar qualquer tipo de resposta.

— O que você disse?

— Eu disse FODA-SE! — Hannah berra. — O mundo não gira em torno das pessoas que se foram Damien. O mundo gira em torno de você. E se você não pensa assim, pode voltar para as pílulas, é mais simples assim.

É como se não houvesse chão embaixo dos meus pés

2011, 2 de outubro, 41 anos

É como se a dor de ter perdido minha própria mãe fosse reduzida a nada ao lado disso.

— É o meu filho lá dentro. — Eu digo, com o olhar vazio para o caixão. — É o meu filho. — Uma risada brota de um lugar muito escuro dentro de mim e sai pelos meus lábios. As pessoas me olham com pena enquanto eu continuo dizendo e rindo com lágrimas nos olhos. — Meu filho!

— Damien... — Joseph me abraça. Sinto Elisabeth segurar gentilmente meu braço esquerdo.

Não há como mensurar a dor que sinto ao ver enterrarem meu filho à sete palmos do chão. É simplesmente difícil demais de aceitar ou até mesmo de acreditar. É praticamente impossível.

— Vocês têm certeza? Vocês têm certeza que ele morreu? — Eu pergunto.

— Damien — Elisabeth diz. Na sua voz, uma exaustão devida a quantidade de vezes que eu já perguntei isso desde que fecharam aquele caixão com meu pequeno Steve dentro. — Ele morreu.

É como se não houvesse chão em baixo dos meus pés. A dor no meu coração é tão literal que eu sinto uma mão entrando no meu corpo e apertando-o. Dói muito. Eu só consigo imaginar como seu corpo está lá. Sozinho, largado aos vermes. A ideia do corpo do meu próprio filho apodrecido em baixo da terra vem em lances na minha cabeça, junto com a sua imagem sorridente e serelepe quando criança, vivo e saudável.

Continuo chorando. Choro, talvez, numa tentativa desesperada de esvaziar meu coração de tudo o que sinto. Eu choro e não há em mim uma única esperança viva de que eu vá me recuperar disso tudo. Aqui dentro, apenas uma certeza de que eu nunca vou sair dessa. Uma certeza de que não importa quanto tempo passe, essa dor sempre será a mesma. Sempre será grande, imensurável e terrivelmente triste. Eu nunca mais irei sorrir novamente.

— Monstro! Você é um monstro! — A cerca de dois metros de mim, ela grita e aponta, em prantos. — Um monstro!

— Aquela não é a... — Diz Elisabeth.

Joseph completa sua sentença:

— Bruna.

— Bruna eu... — Digo, em meio aos soluços. Sei que algo nojento está escorrendo do meu nariz enquanto eu falo. — Eu sinto muito.

Bruna está com seus cabelos escuros e desarrumados ao vento. Ela chora desesperadamente assim como eu e isso me preenche com empatia. Uma empatia que seria muito melhor recepcionada se ela não estivesse me chamando de monstro no meio de todos no enterro do meu filho.

— Você bateu no seu próprio filho por ele ser gay! — Ela grita mais perto.

Todos olham para Bruna, assustados. Ouço meu pai dizer, há alguns metros dali.

— O que?! – Ele parece tenso, mas me pergunto se foi pelo fato de eu bater no meu próprio filho ou pelo fato dele ser gay.

— Damien? — Elisabeth diz, ainda segurando no meu braço. Ela compartilha do mesmo olhar cético de Joseph. — Isso é verdade?

— É. — Eu continuo rindo daquela maneira bizarra — Eu realmente sou um monstro.

Joseph vai até Bruna e a segura gentilmente, levando-a para longe. Agradeço a Deus por ela ir com ele de bom grado. Enquanto isso, Elisabeth me guia para longe dali, em silêncio absoluto.

Então nós exploramos

2015, 30 de março, 45 anos

Voltamos para meu apartamento em silêncio e a passos lentos. Ainda estamos ensopados pela chuva, mas dessa vez, escolhemos andar debaixo das marquises. Ao parar na frente do meu prédio, me surpreendo por Hannah continuar ao meu lado, mas não a expulso ou algo do tipo. Pelo contrário, há algo em mim que precisa dela. Não sei o que é ou o porquê disso, mas é assim que as coisas são e eu não posso mudar nada. Então se Hannah quer subir até meu apartamento, que suba.

— É melhor tirar os sapatos. — Digo ao abrir a porta da minha casa.

Hannah tira seus tênis sem ao menos se abaixar, apenas com os pés. A ausência dos calçados não ajuda muito o meu apartamento. Nossas roupas cheias d’água e areia vão deixando seus rastros pela sala. Tiro minha jaqueta indo até meu quarto e digo:

— Vou te arranjar uma toalha.

Quando volto do quarto com uma toalha branca dobrada nas mãos, Hannah ainda está parada no meio da minha sala, pingando, abraçada ao próprio corpo com os olhos baixos. Eu me aproximo dela e paro na sua frente, estendendo a toalha.

— Me desculpa. — Diz Hannah.

— Você falou a coisa certa. — Digo e ambos somos surpreendidos por isso. — Obrigado.

Seus olhos sobem até a altura dos meus e já deve ser a milésima vez que temos esse mesmo contato visual, mas com certeza ele não fica mais fraco por conta disso.

— Eu não gosto disso. De precisar de você. — Diz Hannah. — Nós não devemos precisar uns dos outros.

— Por que não?

— Por que é assim que acabamos com um frasco de neutralizadores dentro de nossos bolsos.

Eu passei a minha vida toda contando com os outros para ser feliz. E numa boa parte do tempo, até que isso deu certo. Olho para Hannah e me pergunto se a sua filosofia de vida vale a pena. Tudo o que ela me disse hoje, sobre ser auto suficiente e não precisar dos outros. Nem ela mesma consegue cumprir o que fala. Essa talvez não seja uma maneira tão inteligente de pensar.

— Mas se você não contar com os outros, como vai ser feliz?

— Damien. — Hannah olha nos meus olhos e eu a sinto cutucando minha alma com isso. — Você não é a prova viva de que apostar a felicidade nos outros é a pior maneira de ser feliz? Quando eles vão embora, sua felicidade vai junto.

Seguro nos seus braços e me aproximo num abraço gentil e metódico. Hannah continha envolvendo os braços no próprio corpo, mas ela não mostra resistência, em vez disso, apoia a cabeça no meu peito.

— Você pode apostar sua felicidade em mim quando quiser. — Digo.

— Não há exceções, Damien.

Sinto uma área do meu peito esquentar com sua respiração. Eu encosto o queixo na cabeça de Hannah e quando começo a falar, minha cabeça se move em vez do meu maxilar.

— E se isso for verdade. Se nós não pudermos depositar a responsabilidade de ser feliz nos ombros de mais ninguém, além de nós mesmos. Porque todo mundo sempre está à procura de alguém? Sempre a procura de uma outra metade?

— Porque as pessoas são carentes e sempre estão procurando errado? — O quente úmido de quando ela fala é agradável — Procuram desesperadamente por uma coisa que não se deve procurar. Uma coisa que só se acha quando se menos espera.

Novamente, não sei muito bem o que me leva a ter essas atitudes. Porém, como uma pessoa que deixou de sentir por tanto tempo, acho que tenho um ver mais nítido e claro de como as emoções agem, ao contrário de todo mundo que nasceu e passou toda a sua vida sentindo. Sei disso porque todos vivem dizendo “a raiva me fez isso” ou “aquela paixão fez aquilo, não estava pensando na hora” quando na verdade, não é bem assim. Eu sinto algo quente e formidável agora, uma coisa que sinto quase sempre quando estou na companhia de Hannah. Mas o que estou prestes a fazer não é nada além de uma simples decisão minha. Algo que eu farei simplesmente por querer. E eu quero muito fazer isso.

Me afasto de Hannah e novamente estabelecemos aquele mesmo contato visual clichê pelo qual falo tanto. Há silêncio no meu apartamento e nem mesmo o barulho da chuva batendo na minha janela está ao nosso alcance agora. Eu seguro seus ombros, eles são magros e frágeis. Levo minhas mãos até as suas, passando antes por todo o comprimento dos seus braços. Ainda estamos molhados o suficiente para o nosso toque ser úmido e ainda assim, quente. Me inclino para baixo, dessa vez encarando a sua boca meio aberta. Por um momento, quando encosto em seus lábios, temo que Hannah vá recuar e me deixar ali, embaraçado e constrangido. Mas ao invés disso, ela pressiona seus contra os meus. Entre nossas bocas há uma dança harmoniosa, agitada e suave. Há tanto prazer nesse beijo que eu me sinto ligeiramente assustado, me perguntando se isso seria tão bom simplesmente porque passei quatro anos da minha vida sem ter nenhum tipo de relacionamento com alguém. Mas lembro bem dos meus outros beijos, daqueles que foram parte da minha vida feita de sentimentos. E se me recordo bem, não há, entre essas memórias distantes, nenhum beijo como esse.

Demoramos a nos soltar dali, como se estivéssemos grudados por uma alta descarga elétrica que colasse nossos corpos um ao outro, mas quando eu saio de seus lábios, segurando seu rosto com ambas as mãos, não demora muito até voltarmos a dança. Cada vez mais forte, cada vez mais selvagem. Algo que estava suave, começa a ficar rude. Meu nariz ainda dói daquela vez em que foi quebrado, mas não ligo. Em meio aos beijos, seguro Hannah com força. Começamos a bater nas coisas do meu apartamento sem soltarmos um do outro. É como se quiséssemos achar um bom lugar para dançar sem ao menos cogitar a hipótese de liberar o outro de seus lábios nem que seja por um milésimo de segundo. Então esbarramos nas paredes, na mesa, no armário da sala e por último, esbarramos na porta do meu quarto, onde a maçaneta me atinge com fervor o meio das minhas costelas.

— Ai! — Grito.

Hannah ri. Respiramos por dois segundos e retornamos o contato, voltamos a dançar com o corpo. Eu saio de seus lábios novamente, dessa vez por livre e espontânea vontade, e digo, ofegante:

— Por uma noite, vamos contar um com o outro. — Eu a beijo mais uma vez e continuo — Por uma noite.

— Por uma noite, Damien Roseburn. — Hannah responde.

Caímos na cama e nos tornamos exploradores numa caverna brilhante, nova e cheia de tesouros. Nossas roupas vão embora como pedras que se colocam entre nós e o ouro. Usamos nossas habilidades de exploração o máximo que podemos, cada um com suas técnicas e suas preferências. Uma viagem prazerosa e compartilhada em busca de um tesouro valioso. Então nós exploramos.

Exploramos, exploramos e exploramos.

Você fez o certo, filho

2011, 5 de outubro, 41 anos

Todos os dias desde que Steve morreu não passam de uma mancha escura na minha memória, fatos corriqueiros enevoados por uma grande massa negra de tristeza e exaustão tão viva que parecem ser minha única companhia. De vez em quando Joseph me liga, perguntando como estou. Digo o de sempre.

— Muito mal.

Mas ele não pode fazer nada além de me dar condolências por telefone já que seu trabalho no outro lado do planeta o requisitou com urgência máxima. Sim, Joseph viajou mais uma vez. Foi embora de novo. A última vez que falei com Dimitri, meu pai, foi no enterro de Steve. Ele deu um tapinha nas minhas costas e fez uma feição daquelas que se sucedem de um “sinto muito”. Mas com ele, nem uma palavra. Elisabeth foi a que mais me surpreendeu com sua ausência. Eu nunca iria imaginar que minha irmã mais nova fosse a que menos se importaria comigo numa situação dessas. Mas lá no fundo eu sei o motivo disso. Eu sei que ela tem razão para agir desse jeito. E eu não posso culpa-la porque afinal de contas, o único culpado sou eu.

Tenho ido trabalhar mas esses têm sido os dias mais improdutivos em toda a minha vida profissional. Não corro mais e no intervalo entre as jornadas infelizes de trabalho, eu apenas fico em casa, encarando pontos vazios do meu apartamento. Sendo consumido ferozmente pela culpa e pelo luto que hoje, parecem ser meus únicos amigos. Os únicos que ficaram.

E então, nesse dia cinza e sem vida assim como todos os outros, um som se alastra pelo meu apartamento. O som do meu interfone. Estou deitado no sofá de bruços, meus olhos estão ardendo um pouco de tanto que chorei mais cedo e ainda estou com a mesma roupa do trabalho. É preciso ouvir o barulho mais três vezes antes de eu finalmente levantar e ir até a cozinha atender o interfone.

— Oi, sou eu. Elisabeth.

Não digo nada, abro o portão e pelo som, ouço-a entrar no prédio. Volto para o sofá, esperando Elisabeth subir os andares. Não posso negar que estou triste com minha irmã, mesmo que ela tenha seus motivos, mesmo que eu esteja passando por tanta coisa que não sobre muito tempo para ficar triste com as pessoas.

Quando a porta se abre, espero ver Elisabeth passar por ela. Mas ao invés disso, vejo Dimitri entrar no meu apartamento com aquela mesma carranca de sempre. Fico surpreso, mas não me movo um milímetro, continuo parado no sofá numa posição meio bizarra. Minha irmã entra logo depois. Eles param perto da porta e me observam, como se meu apartamento fosse um zoológico e as crianças olhassem, curiosas, um urso doente em seu habitat.

— Em que posso ajuda-los? — Pergunto friamente.

— Você poderia parar de ser um fracassado, pra início de conversa. — Meu pai diz.

— Pai! — Elisabeth o repreende. Faz uma pausa, respira fundo e continua. — Damien... — Espero que palavras como “como você está se sentindo?” ou “isso deve ser realmente ruim, estaremos aqui por você” saiam de sua boca. Mas ao invés disso, uma pergunta — O que aconteceu entre você e Steve? O que Bruna falou era verdade?

Eu não imaginava que mesmo em meio a tanta tristeza, eu era capaz de produzir mais coisas, como uma absurda quantia de raiva.

— Você veio aqui pra falar isso? — Eu pergunto, atônito.

— Me desculpa Damien. — Elisabeth desvia o seu olhar e encara os próprios pés, levantando as mãos. — Eu só quero ter certeza de que você não poderia ter feito uma coisa dessas ao seu próprio filho. Com o meu sobrinho.

Dimitri caminha até o canto da sala e senta na minha pequena mesa de jantar. Tira um cigarro do bolso da camisa e começa a fumar. Seu bigode grisalho está ficando amarelo agora, deveria imaginar que era por causa desse seu novo hábito. Ele dá uma tragada no cigarro, sopra a fumaça, criando uma nuvem cinza a sua volta e diz:

— Steve era viado mesmo?

— Não fale assim do meu filho! — Eu levanto usando forças que nunca imaginei estarem guardadas em mim.

— É verdade, Damien? — Elisabeth pergunta mais uma vez, sua voz falha.

— Sim. — Digo, levando as mãos até a cabeça e voltando a sentar no sofá. Eu quero chorar, mas não posso. Não aqui. Não na frente deles.

Por baixo do bigode grisalho meio amarelo de Dimitri, um sorriso se faz presente enquanto ele morde o cigarro. Ao lado dele, Elisabeth diz, com os olhos molhados até demais:

— Então é isso? — Elisabeth gagueja enquanto seu lábio inferior começa a tremer involuntariamente. — Você descobre que ele era gay e bate nele? É esse o tipo de tratamento que você dava a Steve?

Sou preenchido pela vergonha de uma maneira furtiva e fatal. Não importa para onde eu olhe, o olhar julgador de Elisabeth está presente em todos os cantos. Não tenho para onde fugir.

— Você fez certo, filho. — Dimitri diz, derrubando a cinza do cigarro em cima da minha mesa de jantar.

Me viro para Elisabeth e digo.

— Eu me arrependo, Beth. Eu me arrependo muito. — Eu digo enquanto luto para que não caia toda essa água que quer cair dos meus olhos. — Você não sabe o quanto eu estou mal por isso tudo. Eu não pude dizer que eu sentia muito, sabe? Eu não pude.

— Você não vai começar a chorar, vai? — Dimitri pergunta, olhando para mim com a boca escancarada.

Eu olho para o meu próprio pai e depois para minha irmã. Por que eles estão sendo tão cruéis comigo? Não deveriam ser meu porto seguro? Aqueles em que eu devesse me encostar quando grandes momentos ruins chegassem? Eu queria que Joseph estivesse aqui agora para tocar no meu ombro e dizer que estava tudo bem. Mas ele foi embora, e agora, eu só quero ficar sozinho.

— Vão embora. — Digo, apontando para a porta.

Depois de um silêncio mútuo, Dimitri é o primeiro a sair, acenando negativamente com a cabeça ao passar pela porta. Elisabeth ergue o rosto e olha pra mim, com lágrimas escorrendo sobre suas bochechas. Ela morde o lábio inferior e sai logo depois. Eles deixam a porta aberta, eu levanto do sofá correndo e a bato com toda força, fazendo um barulho que com certeza meus vizinhos dariam notícia. Quando a porta está fechada a chave e estou sozinho novamente, me entrego ao choro. Daquele tipo mais desesperado e aflito de todos. Vou até meu quarto e me jogo na cama, chorando até dormir.

E somos todos devedores.

2015, 31 de março, 45 anos

Ao meu lado, Hannah dorme com a boca escancarada. Eu a observo, torcendo para que ela não acorde simplesmente pelo prazer de vê-la dormir. Não entendo muito bem, mas é bom. Essa vida de não neutralizado é cheia de surpresas estranhas, devo dizer. Quando Hannah faz um barulho estranho com a boca (prefiro não trata-lo como ronco para não perder o encanto do momento) e vira de lado, posso enxergar suas costas nuas a luz do dia. Há uma tatuagem enorme de uma árvore seca. Passo os dedos do seu galho mais alto, que está na sua nuca, até as suas raízes, um pouco antes do cóccix.

— Isso faz cosquinha. — Hannah diz, sonolenta.

Recuo a mão rapidamente e fico um tanto constrangido. Hannah se vira e fica com o rosto perto do meu, ela levanta o edredom até a altura dos seus seios e sorri para mim. Eu sorrio de volta e digo:

— Tem algum significado? A árvore.

— Não. — Ela boceja e a sua mecha escura cai um pouco para o lado. — É só uma árvore.

— É muito bonita.

— Obrigado.

Encaro seus lábios e penso em ceder novamente ao seu encanto. Mas eu lembro do que dissemos na noite passada.

Por uma noite, vamos contar um com o outro.

Por uma noite. Será que eu sou o único que não quer que tudo o que aconteceu nessa última noite seja resumido a isso? Será que Hannah também quer repetir a dose, mesmo que isso signifique contar comigo por mais de uma noite? Eu sinto como se pudesse contar com Hannah para sempre. Imagino o sermão que ela me daria caso eu falasse isso. Então escolho agir com cautela.

— Hoje é terça? — Hannah pergunta, com o olhar a espera urgente de uma resposta.

— Sim, por que?

Hannah fecha os olhos com força e logo depois encara o teto, suspirando.

— Hoje é dia de visita.

— É por isso que seu calendário tem todas as terças-feiras pintadas de cinza? — Lembro subitamente dos quadrados pintados no papel pendurado na parede do seu apartamento.

Ela olha para mim um tanto surpresa, mas ainda desanimada.

— Sim. Eu visito meu irmão todas as terças.

— Posso ir com você?

— Tem certeza? Não quero te fazer passar por desconfortos desnecessários.

— Não tem problema. — Eu sorrio, mas dessa vez Hannah não sorri de volta.

Tomo um banho e visto minhas calças jeans com uma camisa preta sem estampa. Combinamos de passar na casa de Hannah antes para ela poder se arrumar, já que sua roupa ainda estava úmida e repleta de areia. Depois de chegarmos na sua casa, ela toma banho e se arruma enquanto espero na sua sala. Antes de sair, ela para em frente ao seu calendário, pega um giz preto, pinta o dia 31 de março de 2015, depois faz o mesmo com o giz branco, deixando a terça feira com uma cor mais próxima do cinza quanto possível. Ela reflete um pouco em frente ao calendário, pega um giz azul e pinta a segunda feira, o dia em que nos encharcamos de chuva na praia. No seu rosto, uma máscara que não lembro de ter a visto usar antes. Uma Hannah tão cinza e triste quanto suas terças feiras no calendário.

— Vamos, podemos ir a pé. — Ela diz sem se virar pra mim. Levanto do sofá e a sigo.

Nos céus, nuvens não estão mais tão escuras quanto ontem, mas ainda estão lá. Agradeço por isso já que Hannah não parece estar no clima para levar outro banho daqueles. Ela anda como um neutralizado, encurvada e perdida olhando para cantos vazios.

— Qual é o nome dele? — Pergunto, caminhando ao seu lado.

— Mitchel.

— É um nome bonito. Ele é seu único irmão?

— Sim.

Diante das respostas tão repletas de conteúdo, desisto das tentativas de diálogo. Vamos até o hospital numa caminhada tortuosa e silenciosa. Quando chegamos, Hannah fala com a enfermeira do balcão com casualidade como se a conhecesse há anos. A vejo apontar para mim com o polegar e logo depois receber um aceno afetuoso da enfermeira. Quando Hannah sinaliza para eu me aproximar, eu a sigo pelos corredores do hospital. Pergunto bem baixinho ao seu ouvido:

— O que você disse a ela?

— Que você é meu pastor. — Hannah diz, sem tirar os olhos do fundo do corredor. — E que vai orar pelo meu querido irmão.

Corredores de hospital sempre me deixam desconfortável, ainda mais sem o efeito das pílulas neutralizadoras. Quando finalmente chegamos no quarto do irmão de Hannah, ela para e respira fundo uma quantidade considerável de vezes. Não digo nada, de alguma forma eu sei que isso é tudo parte de um ritual, como um calendário de terças feiras cinzas.

— Ok. Vamos. — Ela diz e então abre a porta.

Eu entro logo depois dela. Enquanto fecho a porta com gentileza, ouço um barulho terrível de ferro arrastando no chão, como quando passamos as unhas no quadro negro. É apenas Hannah puxando dois bancos e os deixando no lado da cama onde Mitchel descansa no mais profundo coma. Ela senta em um dos bancos e dá leves tapinhas no outro, olhando para mim. Vou até o leito e sento no lado de Hannah.

Mitchel tem traços muito parecidos com os da irmã. Não consigo me impedir de ver Hannah nos cabelos escuros que ele tem, aparentemente cortados por um enfermeiro apenas para não ficarem grandes demais. Provavelmente ele já está aqui há muito tempo. Seu corpo está tão magro que eu me sinto um tanto angustiado. Ele estaria sendo mal alimentado ou seria tudo parte da doença? Aliás, eu não sei por que ele está aqui, em coma. Porém, não me vejo numa boa hora para perguntar isso a Hannah.

— Mitch. Esse é o Damien. — Ela gesticula com as mãos para mim, olhando para o irmão como se estivesse numa conversa e seus olhos estivessem abertos. — Nós transamos.

Eu olho assustado para Hannah e depois verifico se estamos realmente sozinhos.

— Hannah... Ele pode nos ouvir.

— Sim, pessoas em coma podem nos ouvir de vez em quando. E daí? — Ela dá de ombros. —Mitch e eu conversamos sobre tudo.

Hannah segura na mão do irmão. Ela é grande e magra, quase que sem vida sendo apertada pela pequena mão de Hannah. Eu me ajeito na cadeira e digo:

— Prazer Mitchel.

— Tomás está se recuperando ainda daquela merda toda que aconteceu. — Hannah leva a mão desanimada do irmão até o próprio colo. — Mas ele vai sair dessa. Todos nós saímos, certo? — Ela olha pra mim e me oferece um sorriso inocente.

Ao lado do irmão, vejo uma Hannah tão desarmada quanto um civil perdido em plena guerra. Posso ver claramente o amor que ela sente pelo irmão indo totalmente contra à sua filosofia de vida repleta de auto suficiência e tudo mais. O seu irmão é claramente o seu ponto fraco. Apoio o queixo na mão direita e me ajeito, prestando atenção no monólogo disfarçado de conversa de Hannah.

— Estamos trabalhando nessa nova peça, vai ser algo bem triste, mas também feliz. Então vamos agradar quase todo mundo.

— Que peça? — Pergunto.

— Você não sabe onde eu trabalho, não é?

Aceno negativamente com a cabeça, Hannah me explica.

— Eu dirijo uma oficina de teatro comunitária. Eu sou meio que... Uma professora.

— Legal.

— É, bem legal. — Hannah volta sua atenção para Mitchel e continua falando — O Damien também está passando por uns mal bocados. Ele perdeu uma pessoa que amava muito e agora tá lutando para superar isso, não é Damien?

— Sim.

— Então é isso... — Hannah decreta o silêncio e enquanto ela para de falar, toda a sua felicidade e casualidade como se a conversa com o irmão fosse realmente um diálogo vai se esvaindo. No silêncio, ela parece se lembrar de como as coisas realmente estão com o irmão dela. Hannah sai do seu olhar vazio e metódico rapidamente, levantando a cabeça e o dedo indicador da mão direita. — Ah! Outra coisa! Já me inscrevi no vestibular novamente. Ainda estou estudando, não se preocupe. Daqui a alguns meses eu vou fazer a prova. Espero que você já tenha acordado, e aí poderemos comemorar!

— Onde você quer entrar? — Pergunto.

— Você não conhece, é uma faculdade de teatro no outro lado do país. É meu sonho entrar lá.

Hannah fala com aquele brilho nos olhos de sempre, como se parecesse uma criança.

Alguns minutos se passam e quando o assunto acaba, Hannah parece voltar àquela postura triste e pesada.

— Eu preciso trabalhar. — Digo, levantando lentamente da cadeira.

— Sim, sim, vamos embora. — Hannah parece ter acordado de um transe.

Ela levanta junto comigo e guarda a mão do irmão junto de seu corpo inanimado. Hannah se aproxima do seu rosto e beija sua testa com ternura. Ela mantém os lábios na testa do irmão por alguns segundos, como uma mãe beija seu filho antes de dormir. Por pouco eu não a ouço quando ela sussurra:

— Você vai sair dessa, ok?

É incrível como recuperar a total habilidade de sentir coisas faz com que eu sinta até mesmo o que não me pertence. Uma compaixão como se eu fosse vulnerável a qualquer tipo de situação ou emoções que nem mesmo estão acontecendo comigo. Um aperto se faz presente dentro de mim quando eu vejo aquela cena. Sem motivo algum, me imagino estando no lado de um leito de hospital com Joseph ou Elisabeth em coma, tendo que segurar suas mãos quase mortas apenas para sentir seu toque. Afasto o pensamento terrível da minha cabeça e sigo Hannah até o lado de fora do hospital. Fazemos uma caminhada até o ponto de ônibus mais próximo e não é dita uma única palavra, até Hannah entrar numa banca de jornal e pedir um maço de cigarros. Não tinha a visto fumar nenhuma vez até hoje. Ela pega um cigarro e põe na boca, sinalizando para o homem da banca acendê-lo. Ele acende um isqueiro na ponta do cigarro de Hannah e ela acena para ele, agradecendo. Hannah tira o cigarro da boca e sopra a fumaça para o lado enquanto eu permaneço encarando ela.

— As vezes é difícil demais, isso me ajuda.

— Até você tem seus vícios. — Dou uma pequena risada e caminho até os bancos do ponto de ônibus para me proteger do sol que está emergindo das nuvens.

— Não posso argumentar. — Hannah faz uma pausa, senta no meu lado e dá outra tragada. – Nossos pais eram malditos drogados. — Eu olho para ela, mas Hannah continua olhando para os carros passarem, impassível. — Meu pai batia na minha mãe o tempo todo, mas embora fosse a coisa mais normal do mundo para a gente, era algo difícil demais de se ver, sabe? Na primeira vez que Mitchel tentou proteger mamãe, ele acabou com o braço cortado por uma faca. Papai sempre estava bêbado e dessa vez pouco se lixou de ter cortado o próprio filho. Depois disso, nós paramos de tentar nos intrometer e mamãe começou a tomar pílulas neutralizadoras. — Hannah solta fumaça pelos lábios e olha pra mim.

“Ela nunca nem sequer cogitou levar o papai até a polícia. ‘Nós estamos bem’, ela dizia. Mas então, com as pílulas, ela parou de chorar após os espancamentos. E parou de nos amar. E maravilhosamente, morávamos numa casa sem nem um único vestígio de amor, a não ser por aquele entre os dois irmãos, assustados demais para tomar qualquer atitude. Quando ficamos ‘grandes’, nós saímos de casa na primeira oportunidade decente de emprego da cidade. Alugamos um apartamento, aquele mesmo em que estou agora. Foi a melhor época da minha vida. Mitchel me indicou para um amigo que trabalhava no governo para conseguir cuidar dessa oficina pública de teatro, e com todos os cursinhos e estudos que eu tive, consegui o emprego. Toda noite quando chegávamos em casa, cansados da nossa jornada, Mitchel me dizia como tinha sido o seu dia na usina e eu dizia como tinha sido meu dia com as crianças do teatro. Éramos como marido e mulher, mas sem toda a parte chata de romance. Éramos melhores amigos, sempre juntos. Eu podia dizer que Mitchel era aquela pessoa que nunca iria embora. Aquela pessoa que estaria comigo para sempre.”

Depois da sua pausa longa demais, pergunto:

— E o que aconteceu?

Meu ônibus passa na nossa frente nesse exato momento, mas o ignoro.

— Fomos visitar mamãe. E consequentemente, papai. Isso foi na metade de 2012. Foi a segunda vez que Mitchel se intrometeu na briga deles. Nosso pai estava mais fraco, obviamente. Mas dessa vez, ele tinha a porra de uma garrafa de cerveja na mão.

— Que cretino.

— E eu vi tudo. Da hora em que meu próprio irmão ficou desacordado por causa de uma garrafa no meio da testa até a hora em que meu pai fugiu de casa pulando a poça de sangue que se formou em volta dele. Nosso querido pai está sumido, nossa querida mãe está lá, na casa dela.

— Isso deve ter sido horrível. — Digo e me amaldiçoo por não saber exatamente nada de produtivo para falar.

— Você lembra das vezes que eu fui uma vaca com você? — Hannah pergunta. Ela pega o cigarro da boca e joga na calçada. Pisando nele até apaga-lo.

— Bem, você não foi uma vaca.

— Me desculpa por isso. — Ela me corta. — Enquanto meu irmão sangrava no chão, minha mãe simplesmente olhava para ele. Eu comecei a ter uma crise de choro e correr para ligar para a ambulância, mas ela simplesmente ficou parada. Ela não fez nada, não sentiu nada. O seu filho estava na frente dela, prestes a morrer, e ela não fez nada.

Não evito pensar novamente em me colocar no lugar de Hannah. Ou pior, no lugar da mãe dela, cuja neutralização para fugir do sofrimento desse mundo aconteceu com seus filhos ainda vivos. Imagino como teria sido encontrar meu filho depois daquele acidente sob o efeito de pílulas neutralizadoras. Meu lado lógico diz que teria sido utópico não sentir uma única gota de toda essa maré de dor que senti, mas há esse meu lado que grita cada vez mais me chamando de monstro por simplesmente cogitar uma coisa dessas.

— Não importa se a pessoa que você ama está com a cabeça estourada na sua frente ou se ela está a sete palmos do chão, Damien. — Hannah parece mudar de ideia e procura outro cigarro. — Você deve sentir por ela. É como uma dívida, e somos todos devedores.

Abro o caderno e começo a ler.

2011, 10 de outubro, 41 anos

Pensei que a cada vez que olhasse suas fotos espalhadas pela casa, iria sofrer mais e consequentemente, aprender mais a lidar com tudo isso. Mas é como se cada dia fosse tão difícil como o anterior, mas com uma simples taxa maior de aceitação, e nem sempre quando aceitamos as coisas, tornamos elas mais toleráveis. Na volta do trabalho, parei nessa farmácia perto de casa e pedi “um desses remédios que acabam com a depressão”.

“Neutralizadores?”, o rapaz magricela de óculos perguntou, com toda a casualidade do mundo. Eu concordei e comprei uma cartela dessas pílulas, que não são tão caras, afinal de contas. Sempre que vejo neutralizados andando pelas ruas, imagino-os como pessoas que desistiram da vida e pensam que não sentem mais. Não acredito no efeito dessas pílulas, sinceramente, acho um tanto efeito placebo. Então guardo as no bolso e me preparo para fazer um teste.

Assim que abro a porta do meu apartamento, meu peso parece dobrar. Jogo a bolsa no lado do sofá e sigo até meu quarto. A cama está desarrumada e eu não ligo, tenho coisas mais importantes pelo qual me preocupar. Depois de tantos dias reduzidos ao choro desesperado e a dor inconsolável, não tenho a mínima vontade de incitar outra crise daquelas, mas minha curiosidade grita pelo teste das pílulas. Então vou no pior lugar do mundo. No pesadelo da minha depressão. O quarto de Steve.

Suas cortinas listradas de verde e branco permanecem intactas, do jeito que ele deixou quando eu saí para visitar Elisabeth na escola e o deixei aqui escrevendo no seu caderno preto. Um cheiro de perfume toma conta do quarto, aquele que ele usava bastante. Há roupa suja no chão e seu notebook está fechado, em cima da mesa. Está tudo normal, se não pela falta de Steve. Eu deito na sua cama, em cima de lençóis e edredons bagunçados. Respiro fundo e sinto seu perfume mais uma vez, quando solto o ar, ele passa pelo nó que começa a se concretizar na minha garganta. Meus olhos ficam mais úmidos. Estou preparado para sofrer, preparado para chorar e me acabar em lágrimas, assim como nos outros dias. E então sinto algo pontudo nas minhas costas.

Me endireito na cama e procuro sobre os lençóis o que há de tão duro em baixo de mim. Quando encosto no caderno, sinto um arrepio percorrer minha espinha. Sento na cama, abro-o e folheio rapidamente. Anotações, datas e pequenos textos. Tudo com a sua letra. Fecho o caderno com força. Por algum motivo, sei que há muito aqui que Steve nunca gostaria que eu soubesse.

Também vejo nesse caderno preto uma fonte imensurável de dor e memórias. Um jeito de sofrer. E eu preciso sofrer até poder me esvaziar de toda a dor que sinto, e assim passar por isso. Será que eu vou conseguir passar por isso?

A despeito de toda a minha sensatez, abro o caderno e começo a ler.

Do diário de Steve, 2011, 8 de abril, 16 anos

Hoje foi um dia improdutivo de coisas improdutivas com meu pai. São sempre os melhores dias da semana. Mas hoje, em especial, foi um dos melhores dias da minha vida. Eu conheci uma pessoa, ela se chama Miguel. Ele é da minha turma e nós fomos nos conhecer de verdade só agora, por intermédio da Bruna, minha melhor amiga. Antes de ficarmos nós 3 sozinhos num canto, Miguel era do tipo extremamente tímido, mas quando fomos nos conhecendo ele foi se soltando e eu vi que ele é uma pessoa super super super super legal.

Estou preocupado, eu sempre senti coisas quando se trata de meninos, mas eu nunca senti algo tão intenso como o que eu senti pelo Miguel. Há algo em seus cabelos escuros e bagunçados que me encanta, como se eles se enchessem de simetria e perfeição. Sua barba está começando a crescer e ele parece que está ficando cada vez mais bonito com ela. Bruna continua dizendo que ele deve deixar de aparar a barba, e eu, me reduzindo ao meu silêncio de quase desconhecido, apenas torço para que ele realmente o deixe de fazer. Imagino como ele deve ficar bonito. Mas de qualquer maneira, ele já me encanta. O motivo da minha preocupação é que isso não é normal. Eu não posso gostar de homens. Eu nasci homem e devo gostar de mulheres. Isso me entristece, e muito. Eu não queria necessariamente ter nascido mulher, gosto de ser quem eu sou, gosto de ter um pênis. Mas eu me atraio pelo sexo errado. Meu pai e meu avô sempre me encorajaram a procurar garotas. Talvez eu consiga um dia me casar com uma linda mulher. Talvez ela seja tão linda que me desperte desejo e aí possamos ter vários filhos. E então meu pai ficaria orgulhoso. Eu quero muito deixar meu pai orgulhoso.

Mas eu ainda tenho apenas 16 anos, acho que posso me arriscar um pouco em Miguel. Entretanto, não acho que conseguiria me afastar dele, a vontade de conhece-lo só vai crescendo em mim cada vez mais e eu acho que ele também quer me conhecer. Estou muito animado com o rumo que isso está tomando, nunca conheci alguém que tivesse tanto interesse por mim. E isso é maravilhoso.

Enquanto eu estava assistindo um filme com meu pai hoje, Miguel não parava de me mandar mensagens. Eu amo assistir filmes com meu pai, mas mais uma vez: Isso é diferente. Miguel disse que, assim como eu, gostava de ir na praia e insistiu para que eu fosse junto com ele. Ele também tem uma bicicleta, então poderíamos pedalar juntos. Não poderia perder essa chance, assim que o filme acabou, disse ao meu pai que encontraria com uma garota (o que me deixou realmente mal) e fui ao encontro de Miguel.

Na praia, pedalamos por toda a sua orla e não fizemos questão de ir rápido demais. Às vezes, Miguel sorria para mim. Eu sorria de volta, provavelmente com a cara vermelha feito um tomate. Todas as vezes que recebi seu sorriso, me perguntava como alguém pode parecer tão bonito quando sorri. É simplesmente um absurdo.

Paramos em baixo daquela grande árvore no fim da praia para descansarmos. Já eram umas 19:00 horas e a praia era iluminada apenas pelos postes de luz amarelos. Em baixo da árvore, era quase um breu. Quando eu sentei numa enorme raiz muito usada de banco pelos banhistas em baixo daquela árvore antiga, Miguel veio logo depois e sentou bem perto de mim. Seu braço tocou no meu e eu logo tive arrepios. Conversamos um pouco enquanto ondas se quebravam logo ali, na praia. A água do mar azul e brilhante no horizonte e as estrelas acendendo no céu. Tudo estava perfeito, eu nunca me senti tão bem simplesmente por conversar com alguém. Conversar sobre coisas úteis, coisas inúteis e coisas que não se encaixam em nenhuma categoria. Usava suas piadas como desculpa para encostar no seu braço por mais tempo e as vezes nossas mãos se esbarravam num toque desajeitado. Em uma dessas piadas, nossas mãos se juntaram pra valer, ele segurou meus dedos e eu não fiz questão de tirar a mão dali. Seguramos as mãos e logo depois, Steve se inclinou na minha direção, com o sorriso estampado do seu rosto devido a última piada (não lembro qual foi porque estava mais ocupado prestando atenção em outras coisas) se esvaindo enquanto sua boca fechava para encaixar com a minha. Eu recuei lentamente, morrendo de medo de estarmos sendo vistos. Mas eu não pude resistir, aquilo era perfeito demais para eu desperdiçar. Desperdiçar isso seria como um pecado, e hoje eu definitivamente não queria pecar.

Mas pequei. Beijei Miguel e logo após o êxtase e a sensação de extremo prazer e satisfação que me inundaram, quando nossas bocas se separaram, fui surpreso pela culpa. Muita culpa.

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Eu pequei. Eu fiz errado. Eu não posso fazer isso.

Mas por que diabos algo que é tão inocente e bom pode ser tão errado, sujo e desvirtuado?

Eu e Miguel ficamos nos olhando por um bom tempo, onde a iluminação da lua era mais forte do que a dos postes de luz ao longe. Seus olhos brilhavam e eu acredito que poderia ver seu brilho pelo resto da minha vida.

As pessoas vivem mudando quando não querem. Imagina quando querem.

2015, 3 de abril, 45 anos

Não fui trabalhar hoje. Algumas vezes, penso que estou melhorando e consequentemente, me livrando de todo esse fardo — que de vez em quando tomo como temporário sobre mim — e puft! Volto à estaca zero. Todo aquele drama triste e escuro de volta.

Eu e Hannah transamos e essa foi uma das melhores experiências da minha vida, logo após isso, fui visitar seu irmão junto com ela e como o de costume, ela me deixou com suas frases filosóficas que por algum motivo, fazem todo o sentido pra mim.

Somos todos devedores.

Quanto mais desculpas eu busco para poder voltar a tomar as pílulas e acabar de vez — novamente — com todo esse sofrimento, mais desculpas eu acho para continuar desse jeito, sentindo e sofrendo. Há algum sentido nisso? Não, mas fique perto de Hannah por alguns minutos e tente não ouvir uma frase digna de pensadores da época de Platão. Merda. Por sua culpa, estou simplesmente escolhendo sofrer como se realmente houvesse uma dívida entre mim e Steve.

A questão é que eu sempre tive essa sensação. Não necessariamente como uma dívida, mas como algo que eu nunca conseguiria reparar. Algo que não tem como pagar. Mas se eu devo sentir por Steve, talvez seja isso que vá me fazer melhorar. Se bem que há tantas coisas que poderiam me fazer melhorar mas que não fazem...

Com essas novas metas sadomasoquistas em mente, resolvi recolocar todos os quadros da nossa família pela casa. Inclusive a foto de Steve, que voltou para a minha carteira onde sempre habitou durante todos esses quatro anos. Eu coloquei todos os quadros feliz. Eu estava sorrindo, pensando em Hannah, nos meus irmãos e em Steve... Até mesmo imaginando como seria bom se Tomás voltasse a falar comigo — ainda mais pelo jeito suspeito que ele agiu quando eu quebrei o espelho do nosso trabalho . Eu estava bem, alguns dias tinham se passado e eu nem mesmo havia chorado. Já estava arrumado para o trabalho quando coloquei os punhos fechados sobre minha cintura e estufei o peito, admirando os quadros da minha família. Desde aquele onde estou eu, Joseph, Dimitri e Maria (uma foto preto e branco bem antiga e surrada num porta-retratos de vidro) até os mais ‘recentes’, como aquele cuja foto tiramos no aniversário de Steve em 2011, com todos olhando alegres e sorridentes para a câmera.

Seu último aniversário.

Essa simples ideia, sempre verdadeira na minha cabeça mas as vezes facilmente esquecida, foi o que me atingiu no peito. Eu era como um lustre iluminado e brilhante que foi jogado ao chão e que em questão de segundos, virou algo sem vida e sem forma. Apagado e quebrado.

Primeiro, uma risada. Aquela mesma risada do enterro de Steve. Logo depois dos risos ilógicos e bizarramente estranhos, o mesmo nó na garganta, aquele que já parece ser meu amigo de anos. E então, lágrimas, lágrimas e mais lágrimas. Foi assim que um dia inteiro se esvaiu entre meus dedos enquanto eu deitava na cama e chorava. Não me importei com o que meu chefe iria dizer, simplesmente faltei o trabalho para chorar em casa, na privacidade do meu apartamento. Chorar minhas perdas, sofrer pelo meu filho e sofrer pelos meus erros. Sofrer por ter feito tanto sofrimento. Eu gostaria de poder voltar no tempo e corrigir tudo, mas as vezes tudo o que temos é a ideia. A ideia de que poderíamos corrigir. Seria muito mais fácil se simplesmente pensássemos duas vezes antes de fazer as coisas, mas as vezes somos tão estúpidos que não importa se pensarmos duas vezes ou duas mil vezes. Sempre faremos merda.

Estou aqui, de bruços, deitado na minha cama que por um hábito não praticado a muito, está desarrumada. Um líquido estranho já escorreu e secou logo abaixo do meu nariz e da minha boca. As beiradas dos meus olhos ainda ardem e na minha boca, o gosto salgado de lágrimas predomina. Até agora, devo ter dado uns 3 cochilos, quando na verdade, eu queria dormir e nunca mais acordar.

— Deve ser bem difícil, não é?

Eu levo um susto, sento na cama rapidamente passando a mão no rosto, tirando aquela gosma que escorreu pelo nariz e esfregando no lençol. Esfrego os olhos para poder enxergar melhor e ter certeza de que ele está ali novamente. Dessa vez, fora de qualquer aprisionamento que espelhos possam lhe proporcionar, ele está em pé, na porta do meu quarto.

— O que você quer? — Pergunto da maneira mais seca e fria que eu posso, esperando que ele saiba logo que não é bem vindo aqui.

Ele na verdade sou eu. Mas ao mesmo tempo, não é. Na minha mão direita, ainda sinto a ardência da vez que tive que quebrar o espelho com toda a minha raiva para poder dispersa-lo (não é também, como se eu tivesse feito simplesmente por isso). Mas o que eu poderia fazer agora? Bater nele? Num fantasma que é a exata réplica de mim mesmo? Provavelmente é só uma visão. O que me impressiona é o fato de ser a visão mais real que já vi em toda a minha vida.

— Eu quero que você entenda. — O meu outro eu se aproxima lentamente da cama e senta na beirada, me olhando dentro dos olhos. — Quero que você entenda que é um monstro. E que não há sofrimento que pague as dívidas do que você fez.

— Que seja, sou um monstro então.

— Não. — Ele ri. Uma risada irônica e convencida. — Você não entende. Eu estou aqui porque você realmente pensa que tem chances, pensa que pode de alguma maneira... Se redimir.

— Eu não penso que tenho chances de me redimir.

— Pensa! — Ele aponta o dedo para mim com aquele sorriso repleto de veneno estampado na cara. — Você pensa que pode de alguma forma, pagar pelo que fez. Você pensa que ainda pode ser feliz Damien.

— Eu não penso que ainda posso ser feliz. — Digo, insatisfeito com o gosto que ele tem na boca ao falar essas coisas.

— Pois bem. — Ele levanta, recuando o seu dedo acusador pelo qual estou tão familiarizado durante esses dias e vai em direção à minha cômoda. — Se você realmente entende as coisas como são — Ele abre a terceira gaveta de cima para baixo e enfia a mão entre as roupas, vasculhando até retornar com um pequeno pote cheio de neutralizadores. — e sabe que não há como ser feliz, por que continuar?

O sombrio Damien Roseburn estende as pílulas até a altura dos meus olhos, em pé na minha frente. Ele sorri, mas dessa vez, com um olhar repleto de ternura e compaixão, como se seu objetivo fosse apenas a minha recuperação. Ele talvez queira o melhor pra mim. Talvez ele realmente saiba que não há saída e o melhor a se fazer é abandonar tudo novamente.

— Lembra como é bom não sentir nada? Não se preocupar com nada... Quando não se ama, não se sofre, querido Damien.

Eu estendo minha mão até as pílulas, mas antes mesmo de tocá-las, alguém bate à porta. Num piscar de olhos, estou em pé, em frente à minha cama, com um pote de pílulas neutralizadoras a mão, apenas eu e mais ninguém no meu quarto. Olho os comprimidos por um tempo me perguntando seriamente se eu deveria tomar pelo menos uns 3 daqueles, todos de uma vez. Talvez o efeito chegasse mais rápido. Mas aí seja lá quem for que está no meu corredor, bate na porta de novo. Vou impaciente até a sala e espio pelo olho mágico.

Diante da minha surpresa, corro com os comprimidos em mãos e os escondo em baixo da almofada do sofá. Abro a porta e Tomás entra no meu apartamento antes mesmo de trocarmos uma única palavra.

Eu o encaro, estupefato, ainda segurando a porta aberta.

— Tomás?

Ele se vira e quando prende os olhos em mim, escancara a boca, dizendo:

— Você não vai trabalhar mas fica com a roupa do trabalho em casa?

— É mais complicado que isso. Como você subiu?

— Peguei carona com uma senhora que estava abrindo o portão, enfim — Tomás começa a fazer alongamentos no tapete da minha sala de estar. Primeiro, ele começa a tocar os pés com as pernas totalmente esticadas, um pé de cada vez. — Vamos, troque de roupa.

Tomás está vestindo um casaco por cima de uma camisa e uma bermuda com tênis brancos. Continuo o olhando um tanto confuso.

— O que?

— Vai, coloca uma roupa decente, vamos correr.

— Eu não quero correr.

— Foda-se. Vamos correr. — Tomás estica os braços o mais alto que pode e logo após isso, ele vai até o sofá. Corro antes dele e sento logo onde as pílulas estão desleixadamente escondidas. Ele me olha de uma maneira estranha e volta a se alongar, em pé.

Eu tento não manter contato visual com Tomás. Ainda tenho medo de que ele me olhe daquele jeito de novo. E eu gosto dele o suficiente para que isso seja quase que como uma morte para mim.

— Olha, — Tomás vira de costas e continua se esticando — eu sei que você se arrepende. Isso não quer dizer que tá tudo bem. Eu ainda estou bem puto, então acho melhor você fazer o que eu mandar. Agora vai mudar de roupas porque nós vamos correr.

Naquela faísca de esperança que me fará voltar a ter a amizade de Tomás, eu me levanto e vou me trocar para correr junto com ele. Depois de vestir minhas bermudas, uma camisa sem manga e meus tênis, ele me olha de cima abaixo avaliando meu estado e acena positivamente com a cabeça.

— Você tem fones de ouvido, certo? — Tomás pergunta.

Faço que ‘sim’ com a cabeça e procuro os fones na gaveta do armário da sala. Quando acho, os entrego para ele e recebo outro pedido.

— Seu celular. — Ele diz sem nem mesmo olhar para mim enquanto desenrola os fones de ouvido.

Eu lhe entrego meu celular, ele conecta os fones nele, faz algumas coisas no aparelho e me entrega.

— Toma, ouve isso. — Ele diz e sai do meu apartamento. Eu o sigo, colocando os fones nos ouvidos e lendo o nome da banda que ele acabou de colocar para tocar. Spector.

— Nunca ouvi falar. — Digo ao entrarmos no elevador.

— Poucos ouviram. — Tomás diz sem nem mesmo manter contato visual comigo.

Eu entendo que ele deve realmente estar muito puto. Não só entendo como já me sinto agradecido por ele estar fazendo isso por mim. Por nós, na verdade. Estou feliz em saber que ainda há esperança em Tomás. Eu não quero perde-lo. Não assim, repleto de sentimentos e constantemente chorando pelos cantos. Eu preciso dele.

Preciso? Como Hannah pode falar que eu deveria fazer com que o mundo gire em volta de mim quando na verdade eu realmente sinto a necessidade deles a minha volta. Tento me imaginar sem Hannah, Tomás e até mesmo sem Joseph e Elisabeth passando por tudo isso. Não há como! A única maneira seria fugir desesperadamente para as pílulas. Não vejo em mim capacidade para suportar essa dor sozinho.

Sinto pena dos solitários que viveram na época anterior às pílulas neutralizadoras.

Corro com Tomás pelas ruas da cidade até chegarmos na famosa praia. A música que tocou nesse percurso é animada e de certa maneira, boa. Então resolvo coloca-la para tocar mais uma vez. Sinto que vou gostar dessa música (se chama dont make me try). No início da praia, Tomás para e apoia as mãos no quadril, admirando a vista.

— Eu sempre gostei dessa praia. — Ele sorri, olhando para as ondas se quebrando na areia.

Quando Tomás olha para mim, ele percebe meu nervosismo aparente enquanto eu começo a sigilosamente estalar meus dedos. Tiro meus fones de ouvido para ouvi-lo melhor, já que ele acabou de tirar os dele.

— Hannah me falou da merda que aconteceu aqui esses dias. Vamos mudar de percurso. — Tomás começa a simular uma corrida parada ao meu lado e depois de alguns segundos, ele se vira e vai pra direita, o lado o posto da grande árvore e a grande subida que se sucede.

Eu o sigo, um tanto incerto sobre o caminho que estamos tomando. Quando simplesmente voltamos a correr, eu mantenho a velocidade tão constante quanto a sua para ficarmos lado a lado. Tomás não liga para mim e simplesmente corre olhando para a frente, uma vez ou outra cantando. Resolvo colocar os fones de ouvido novamente e voltar a ouvir esse tal de Spector. Dessa vez eu deixo o álbum fluir para acabar ouvindo as outras músicas ao tempo que anoto o nome daquela outra mentalmente para ouvir mais vezes mais tarde.

Correr junto de uma trilha sonora boa e animadora é mil vezes melhor do que correr no silêncio de uma neutralização chata e inerte. Ao meu lado, Tomás parece aproveitar a corrida entre as músicas tão bem quanto eu. Estamos acompanhados mas ao mesmo tempo perdidos na nossa isolação com a própria música. Me pergunto o que ele está ouvindo.

— Aqui. — Tomás me chama, apontando para entrarmos numa ruazinha cuja simplicidade nunca tinha me chamado atenção antes.

É um lugar pacato e calmo, novo aos meus olhos. Pequenos comércios tomam conta da pequena rua e a cada quarteirão que passamos, menos pessoas se fazem presentes. Em questão de minutos, estamos longe de toda a agitação e população da cidade. No desfecho da pequena rua, uma ponte — em um estado quase deplorável, cheio de pedaços de madeira podres esperando por um passo em falso — que dá caminho até uma outra rua. Esta, porém, é apenas uma faixa de bairro constante, repleta de árvores. Do lado de lá, é tudo verde e brilhante. Fico maravilhado mas não me dou o luxo de parar para avaliar tudo isso, Tomás continua correndo e atravessa a ponte sem mais delongas, como se já estivesse habituado com o lugar. E provavelmente está.

Eu o sigo sem declarar oposições e aprecio a vista enquanto corremos por essa longa ruazinha de barro, dando conta de cada árvore que tentava ao máximo, mas ainda assim com fracasso, nos ofuscar a luz do sol, que nos alcançava em pequenos feixes. No caminho, além da vegetação para mim, inédita, pássaros dos tipos que eu nunca havia visto antes na minha vida passavam sobre nós, com seus cantos e seus assobios. Quando Tomás finalmente para de correr, noto, perplexo, que acabamos de chegar num lago. A água é cristalina e eu nunca imaginava que haveria um lugar como esse na cidade em que eu vivo. Ou provavelmente, nos limites dessa cidade.

Na parte onde água e terra se encerram, há uma árvore solitária, mas ainda assim, enorme e repleta de folhas, fornecendo uma sombra magnífica. Nela, um galho rebelde se inclina mais que os outros e fica a uma distância de dois metros da água. Agarrado nele, uma corda vai até um pneu, fazendo um balanço sob a água.

— É lindo. — É tudo o que consigo dizer.

— Não é mesmo? — Tomás sorri.

Seu sorriso logo se desfaz quando seu olhar encontra meu rosto. E é com toda sinceridade que posso afirmar que eu não entendo o porquê do seu espanto até descontrair os músculos do meu rosto, que já estavam começando a se cansar do sorriso que me estivera estampado por tanto tempo.

— O que? — Pergunto, já sabendo a resposta.

— Você sorriu. — Esse simples fato faz o sorriso de Tomás voltar e aumentar de uma maneira que eu não achava possível.

Por algum motivo, ver Tomás sorrir também me faz bem, mas sinto vergonha de sorrir. Eu poderia sorrir? Depois de tudo o que fiz, ainda tenho esse privilégio?

Tomás para de me olhar como se tivesse vendo um pássaro raro pousando na sua frente por um momento e tira seu casaco. Logo depois, tira sua camisa e seus tênis.

— O que você tá fazendo? — Pergunto, tirando os fones e enrolando o fio na mão.

— O que você acha? — Tomás abaixa sua bermuda e me deparo com uma cueca boxer branca. — Vem.

— Não, obrigado.

— Damie... — Me chamar daquele jeito pode até, de certa maneira, tocar no meu ponto fraco, mas me mantenho impassível.

— Tomás... Eu não vim com roupa de banho.

— Sério? — Ele olha para mim com um olhar debochado enquanto pousa as mãos sobre seus quadris, com suas partes íntimas tampadas apenas pela cueca.

Aquela água realmente parece refrescante. Nadar com Tomás parece realmente ser divertido. Porque negar tanto as coisas quando as vezes, a palavra mais libertadora pode se resumir a um simples sim?

Tiro minha camisa, minha bermuda e meus tênis. Guardo o celular junto dos fones de ouvido enrolados organizadamente em cima dos meus tênis. Tomás se posiciona ao meu lado como um maratonista, me encarando, desafiante, com o corpo meio inclinado para frente. Eu faço o mesmo e Tomás diz:

— Três.... Dois.... Um!

Saímos em disparada. Dois homens não vestindo nada mais do que cuecas correndo até um lago no meio do nada. Enquanto corro, sinto meus dedos do pé afundarem na terra meio úmida, o que é absurdamente gratificante. Quando chegamos nos limites do solo, pulamos. Mergulho na água e subitamente sou tomado por um frio absurdo! Permaneço em baixo por alguns segundos e quando volto para cima, respiro fundo. Procuro Tomás em todos os lados e fico preocupado, sem saber o porquê da sua demora em baixo d’água.

É quando ouço uma risada, logo na minha direita. Tomás está sentado no pneu feito de balaço pendurado naquele enorme galho. Olho para ele, incrédulo. Isso parece apenas o fazer se divertir mais. Eu nado agilmente até ele e estico o braço até suas pernas. Puxo-o com toda a minha força, fazendo seu riso ser afogado. Tomás me empurra e eu empurro ele numa briga passiva. Brincamos como crianças naquele lago durante muito tempo e terminamos exaustos. Acabamos nos apoiando numa raiz daquela mesma árvore que se alastra para a água, firme e forte e numa altura razoável. Lado a lado, ficamos apoiados lá, em silêncio. Tomás encosta a cabeça no meu ombro e eu me assusto um pouco com o gesto. Mas não me importo.

— Mas se importava, não?

A pior versão — talvez única — de mim mesmo já inventada ataca novamente. O vejo no reflexo da água, com os lábios em ação enquanto os meus permanecem fechados e lacrados. Embora a sua imagem seja turva e instável (pelo menos dessa vez) a sua voz é muito real. Como se ele estivesse comigo, nesse exato momento, assim como esteve mais cedo no meu quarto. Olho para o lado, esperando alguma reação de Tomás. Mas nada, ele continua com a cabeça encostada no meu ombro sem se mover um milímetro.

Está tudo dentro da minha cabeça. A questão é que eu sempre pude ouvir sua voz quando neutralizado, mas não passava disso. Agora ele parece estar mais forte do que nunca. Seu poder sobre mim parece absurdamente real e eu tenho medo do que isso possa acarretar. Como está tudo na minha cabeça, respondo em pensamento.

— O que você está fazendo aqui? Vá embora.

— Bem que eu queria me desprender de um ser terrível como você, querido Damie.

A maneira pela qual ele ironiza o apelido que Tomás me deu consegue me enfurecer sempre.

— Vá embora!

— Não, eu prefiro ficar aqui, é fresco. De qualquer maneira, você não respondeu minha pergunta.

— Eu mudei. Eu não me importo com o toque de Tomás mais do que me importo com o toque de Hannah.

— Mas ele não é.... Como você costumava dizer? Ah, esqueci. Você não conseguia nem sequer falar a palavra, não é mesmo?

­— Ele é gay e estou perfeitamente bem com isso.

— Você acha mesmo que conseguiu mudar, pequeno Damien?

Eu bato na água e sua imagem se esvai em pequenas ondas ritmadas na minha frente. Tomás levanta a cabeça rapidamente, me encarando.

— Acho que vi um peixe. — Digo.

— Pois deveria ter o deixado passar em paz, coitado. — Diz Tomás, de modo sonolento. Talvez estivesse quase caindo no sono.

— Tomás. — Deixo o seu nome flutuar entre nós dois enquanto eu encaro meu reflexo na água, atento a qualquer atitude anormal dele.

— Sim?

— Você acha que as pessoas podem mudar?

Tomás solta a raiz e nada um pouco de costas. Eu mantenho um braço apoiado nela e me viro para olhá-lo. Enquanto o sol começa a bater no seu rosto a medida que sai da sombra, ele diz:

— As pessoas vivem mudando mesmo quando não querem. Imagina quando querem.

Ele diz aquilo e sorri para mim, como se entendesse perfeitamente a origem e o motivo da minha pergunta.

— Porque vocês parecem sempre ter resposta para tudo?

— Eu e Hannah?

Aceno positivamente com a cabeça.

— Não sei, as vezes somos Deuses e você não sabe. Estamos aqui para te salvar! —Tomás nada até bem perto de mim e seu rosto fica extremamente próximo do meu. — Não desobedeça os Deuses. Eles podem ficar bem chateados.

Tomás sorri e eu sorrio em resposta. Está cada vez mais fácil sorrir agora. Ele se afasta e nada até os limites do lago. Sai da água pingando se envolvendo num abraço auto solidário.

— Que frio da porra! — Ele diz.

Eu saio da água e quando o vento bate na minha pele molhada pela água gelada, sinto a mesma aflição. Vestimos nossas roupas rapidamente e voltamos a correr, com a esperança de que a corrida nos aqueça, o que dá meio certo, ignorando o fato de estarmos com cuecas molhadas por baixo da roupa, o que é muito incômodo.

Paramos na frente do meu prédio e enquanto busco as chaves para abrir meu portão, Tomás continua na minha frente dando pequenos pulos parado. Provavelmente ainda querendo se aquecer.

— Gostou da banda?

— Sim! Foi bem divertido... Ouvir música.

Tomás ri.

— Com certeza, ouvir música é legal mesmo. Eu vou embora, fica bem. — Tomás acena e começa a correr

— Tomás. — Eu o chamo assim que ele vira as costas. Ele para mas continua dando pequenos pulos enquanto se vira novamente para mim. — Obrigado.

É como um dejavu. Primeiro Hannah e agora Tomás. Ambos fazendo com que tudo o que eu esteja passando pareça menos difícil. Não é como um atalho para acabar com todo esse sofrimento, mas como maneiras de deixar tudo isso mais... sustentável. Se eles estão me fazendo tão bem, porque eu deveria contar comigo mesmo e ninguém mais? O que Hannah me disse sobre essa tal de auto suficiência vai perdendo cada vez mais sentido.

— Não há de que Damie. — Ele se aproxima de mim novamente, com um sorriso complacente.

Eu o abraço, assim como abracei Hannah. E ele se surpreende assim como ela se surpreendeu. Depois do susto, Tomás envolve seus braços no meu corpo e o toque é aconchegante. Uma vontade arrebatadora de abraçar meus irmãos toma conta de mim. Sinto saudades de Elisabeth e Joseph. Tudo o que quero agora é tê-los por perto e abraça-los várias vezes.

— Bem, isso é novidade. — Tomás diz e com o queixo ainda no meu ombro.

Quando saio do abraço, dou um beijo na sua bochecha e entro no meu prédio, o deixando ali meio perdido. Uso o elevador e quando chego no meu corredor, vejo que estou dando pequenos saltos, como aquelas personagens serelepes dos filmes da Disney. O que está acontecendo comigo?

Na frente da minha porta, em cima do tapete, uma correspondência e um bilhete logo em cima. Agacho e pego os dois na mão. Abro a porta de casa e entro, lendo primeiro o bilhete.

SENHOR ROSEBURN, QUEM ESCREVE É O OMAR, SEU VIZINHO. DEIXARAM ESSA CORRESPONDÊNCIA POR ENGANO NO MEU ESCANINHO. TENHA UM BOM DIA.

O senhor Omar é um idoso que mora no apartamento ao lado do meu, de qualquer maneira, planejo mentalmente uma visita para agradecê-lo. A carta não é uma daquelas com remetente, destinatário e etc. Parece que alguém simplesmente apareceu no meu prédio e a deixou com o porteiro, que por sua vez, colocou no escaninho do senhor Omar por engano. Dentro da carta branca, uma folha dobrada e uma foto. Na folha, um pequeno parágrafo com a caligrafia do meu irmão que me lembro bem:

Damien, estive no seu prédio e você tinha saído, uma pena. Queria ter te visto hoje, estou morto de saudades. Irei visitar Beth hoje e amanhã, o pai. Provavelmente Elisabeth irá te ligar para marcar o jantar em breve, já que estou na cidade agora. E estou acompanhado, mas essa é parte da surpresa do jantar. Espero muito te ver em breve! Com amor, Joseph.

Não impeço meus olhos de brilharem um pouco mais enquanto fico ligeiramente emocionado com uma simples carta do meu irmão mais velho. Tiro a foto de dentro do envelope e me atrevo a deixar uma lágrima cair sob minha bochecha direita. A primeira lágrima que não partiu de nenhuma crise de dor, luto ou tristeza. Uma lágrima de alegria.

Na foto, eu e Joseph seguramos Elisabeth, cada um por uma mão. Todos os três irmãos sorridentes e felizes. Elisabeth, entre nós dois, está toda suja de lama, dos seus pequenos pés até seu pescoço. Aquele pequeno vestido florido tinha se resumido a uma imensidão marrom de lama. Eu sorrio com a memória. Foi um dia em que nosso pai nos levou até um campo de um amigo fazendeiro da família que era cheio de vacas por todos os lados. Ele deixou nós 3 ordenharmos as vacas. Ou melhor, aprender a ordenhar as vacas. Elisabeth, a mais nova dos irmãos, foi a mais desafortunada, que enquanto apertava as tetas daquela vaca enorme e cheia de manchas pretas — que lembro bem até hoje — caiu de cara na lama após perder o equilíbrio.

Eu virei a foto e no verso, mais algo escrito de Joseph.

Estamos juntos, mesmo distantes. Não importa se alguém estiver na lama, estamos juntos.

O que sinto é nostálgico e bom. Talvez o que eu esteja sentindo agora, misturado a saudade, seja o amor. E o que seria a saudade sem o amor? Olho para minha almofada do sofá da sala mal colocada e é como se eu de repente fosse dotado de uma visão raio x que me permitisse ver as pílulas por trás dela.

Pego o pote de neutralizadores e vou até meu banheiro. Despejo os comprimidos dentro do vaso sanitário com um daqueles sorrisos que aprendi a dar novamente estampado no rosto. Dou a descarga, jogo o pote vazio na lixeira e torço para que ele não apareça de novo.

E eu farei de tudo para conseguir mudar.

2011, 10 de outubro, 41 anos

Do diário de Steve,

2011, 12 de julho, 17 anos

Até meu pai falar aquelas coisas para mim, este poderia ter sido o melhor aniversário da minha vida. Em algumas escapadas sutis, eu e Miguel pudemos ficar juntos e a sós. Sempre com ajuda de Bruna, é claro, o que fez meu aniversário ser único e inesquecível. Eu estou perdidamente apaixonado e a cada dia me pergunto com mais frequência se eu poderia parar de sentir isso por ele. Acabo sempre chegando à conclusão de que é algo muito forte para parar de existir por mera vontade própria. Deveria haver algo muito crítico a ponto de interromper o que eu sinto por Miguel de alguma forma.

E talvez haja. Este algo se chama Damien Roseburn, meu tão amado e ainda assim, ignorante pai. Depois da sua atitude completamente intolerante que se sucedeu a sua pergunta sobre a sexualidade de Miguel, eu fiquei bastante decepcionado. Não imaginava que meu pai havia puxado tanto o meu avô, que por si só é uma grande massa de ignorância e preconceito. Depois da nossa breve discussão no carro, não falei mais uma única palavra, assim como meu pai. Cheguei em casa e corri para o meu quarto, fechando a porta com força e me jogando na cama, profundamente irritado. Em partes, tive medo de meu pai suspeitar de que algo possa acontecer entre eu e Miguel, mas estou tão chateado que não me importo com as consequências.

2011, 20 de julho, 17 anos

Quando Miguel perguntou se poderíamos namorar, não soube o que dizer. Travei, de súbito. Lembro de ter balbuciado coisas como:

— Eu não posso... Eu quero, mas...

O olhar que mesclava vergonha, tristeza e decepção que vinha diretamente de Miguel me atingiu como uma bomba. Eu não queria fazer aquilo com ele. Eu gosto muito de Miguel e eu o namoraria sem problemas. Mas já o expliquei mil vezes que eu não posso. Se meu pai algum dia descobrisse, ele seria bem capaz de nos matar. Papai pode ser dócil e divertido quase sempre, mas eu sei quais são seus pensamentos sobre... gays. Eu não quero que ele saiba, pelo meu bem e pelo bem de Miguel. Assumir um relacionamento desses apenas tornaria o que nós temos duas vezes mais propício a sair debaixo dos panos.

Isso tudo veio com essa estranha necessidade de Miguel de se mostrar para tudo e para todos. Ele saiu do armário faz dois dias e agora começou a contar para nossos amigos de classe. Alguns aceitaram bem e outros nem tanto, mas a questão é que agora ele parece outra pessoa. Está desbravando um mundo novo e perigoso. E implora para que eu o acompanhe nessa.

Vou ser sincero, tenho vergonha, tenho medo e também tenho inveja. Inveja de como pessoas como Miguel possam se descobrir e se mostrar para todos, sem vergonha ou medo. Apenas ser quem eles são. Sempre que me imagino nessa jornada utópica, lembro de meu pai e meu avô. Eles nunca me aceitariam. Estou perdido e sei que uma hora ou outra, Miguel vai se cansar dessas minhas correntes. Correntes que ele faz questão de dizer que foram feitas e soldadas no chão por mim mesmo.

— Você pode ser livre e isso só depende de você. — Ele sempre diz.

Mas não depende. Eu dependo do meu pai, não simplesmente emocionalmente, mas de todas as outras maneiras possíveis. Tenho 17 anos, porra! Não posso sair de casa, não posso fazer nada! Nem o ensino médio terminei. Se Miguel teve a sorte de pais que o aceitam sendo quem ele é e ainda assim continuam o bancando e colocando arroz e feijão no seu prato, ele é sortudo, e apenas isso!

Estou muito nervoso agora. É melhor parar de escrever.

2011, 23 de julho, 17 anos

Algumas vezes, querido caderno preto (desculpa, mas não vou nunca te chamar de diário), ficamos muito tristes com certas decisões, mas ainda assim, temos que fazê-las. Esse foi talvez, o pior dia da minha vida. E nunca decidi algo que embora fosse tão lógico e racional, me machucasse tanto quanto o que decidi hoje.

— Temos que terminar.

A frase por si só já era equivocada, visto que nunca chegamos a ter um relacionamento sério mesmo que eu categorize veemente o que tivemos como o melhor relacionamento da minha curta vida de 17 primaveras. Estou triste demais para escrever, mas preciso contar isso no papel. Quando escrevo, sinto que minhas palavras racionalizam meus problemas da maneira mais eficaz possível, me permitindo posteriormente ver tudo com mais clareza e assim, achar soluções mais viáveis.

Então começo logo dizendo que não há soluções viáveis. Não importa quantas dezenas de frases eu escreva, não há solução viável. A solução, quebrada e dolorosa, foi terminar com Miguel. Eu ainda o amo e ainda o quero por perto. Mas eu não quero sofrer mais. E é esse egoísmo disfarçado que me fez tomar essa decisão, simplesmente para que meu pai não descobrisse.

— Isso tudo por ele? Por causa do seu pai? — Miguel perguntava, incrédulo.

Tentei explicar da maneira menos dolorosa possível. Mas falar o que eu penso de maneiras indolores é praticamente impossível. Não só meu pai como todo o resto do planeta vai me olhar diferente. A maioria esmagadora vai me olhar diferente. Todos vão apontar para mim e me chamar de aberração.

— Eu não consigo ser como você. — Eu dizia sempre, querendo me justificar.

Mas como eu poderia me justificar apontando um erro que é só meu? Como podemos usar nós mesmos como desculpa? É impossível, já que se o erro reside em mim, eu posso evoluir de alguma maneira para consertá-lo. Então me imagino treinando minhas habilidades para viver num mundo preconceituoso e ignorante. Mas não consigo. É difícil demais. E o que Miguel disse por fim, me deixou pensativo e mais culpado do que nunca.

— Não é seu pai, seu avô ou a sociedade que te amedronta. É você mesmo. Você ainda não se aceitou.

Minha primeira reação foi esboçar uma feição surpresa e com a boca escancarada, dizer que aquilo era um absurdo! Imagine só, eu, tremendamente apaixonado por um outro homem, ainda não me aceitei. Isso está errado, é óbvio que eu me aceitei. Eu simplesmente... Não acho que isso seja certo e que as pessoas não sejam obrigadas a...

Malditas palavras escritas! Sempre esclarecendo tudo a um nível extraordinário. Escrevendo esse último parágrafo pude perceber: Eu realmente não me aceito. É tudo um medo que parte de mim. Eu quero muito voltar com Miguel, mas é tarde demais. Eu fiz minha escolha e mesmo que eu também seja parte dos ignorantes à quem tanto menosprezo, devo executá-la com maestria. Devo fazer o que é melhor para uma vida serena e sem complicações. Uma vida sem olhares julgadores, sem comentários e sem perigo iminente. Uma vida onde todos sejam felizes e não me culpem por nada. Uma vida em que eu orgulhe minha família com uma linda esposa e filhos. Está na hora de trabalhar nela, está na hora de mudar.

E eu farei de tudo para conseguir mudar.

‘Eu conheci outra pessoa’

2015, 4 de abril, 45 anos

— Eu gostei muito do presente, de verdade. Uma pena eu estar correndo na hora que você veio aqui. — Digo, ao telefone.

— Eu sabia que você iria gostar. — Diz Joseph, do outro lado da linha. — Posso passar aí hoje?

Me pergunto como Joseph esperaria que eu gostasse de algum presente seu, visto que toda a minha família ainda não foi atualizada que já não sou mais um neutralizado.

— Claro! Mas agora estou indo para o trabalho, você pode vir mais tarde.

Joseph concorda, nos despedimos e desligo a chamada. Preparado para sair de casa, arrumo mais uma vez a foto que Joseph me deu num porta-retratos em cima da minha estante e vou embora. O dia está estranho devido ao seu clima de rotina. Acordar, se arrumar, ir ao trabalho e correr na praia. Acordei com aqueles breves segundos onde vivo num mundo normal, com uma vida ordinária, sem sofrimentos e sem grandes problemas. Os segundos se passam e vem tudo à tona, pesando como um grande martelo na minha cabeça.

Me arrumei para o trabalho, coloquei a foto que ganhei ontem num porta-retratos vazio que achei numa gaveta da cabeceira do meu quarto e tive uma manhã normal, sem complicações. Sem choro. Sem desespero.

Chegando no trabalho, cumprimento Tomás, que maravilhosamente não parece mais estar tão chateado comigo. E mesmo que as vezes ele aja como se lembrasse de tudo o que eu fiz no passado e ficasse estranho por alguns instantes, ainda sei que estou em uma situação privilegiada ao pelo menos receber essa pequena taxa de perdão. Então nós conversamos, trabalhamos e ouvimos música. Ele dividiu seu fone comigo e me fez prometer que eu levaria os meus no dia seguinte, para ser tão produtivo quanto ele, seja fazendo trabalhos ou ignorando nosso chefe.

Nosso querido chefe parece ter notado faz alguns dias a minha falta de neutralização. Isso só tem tornado tudo mais difícil e chato de se lidar na empresa. As piadinhas sobre pílulas parecem ter aumentado consideravelmente na última semana e eu sou um alvo fácil, mas não tão vulnerável. Com a ajuda de Tomás, consegui alguns truques para passar pelos desaforos com mais louvor. Mas as vezes é praticamente impossível não dar um suspiro notável aqui ou xingá-lo discretamente ali.

Ao fim da jornada de trabalho, um prazer pouco comum, já que na minha época neutralizada trabalhar ou não trabalhar eram coisas bem parecidas. Não havia vontade de sair e a satisfação de um dia bem feito de trabalho era praticamente nula.

Saio lado a lado de Tomás da empresa quando ouço alguém chamar meu nome. Olho em volta, tenso e com medo dele ter voltado, mas Tomás encosta no meu braço, olhando para um homem vindo na nossa direção, a minha direita. Eu estreito meus olhos para tentar reconhece-lo e quando finalmente o faço, estendo os braços para receber seu abraço. Joseph está com roupas sociais, assim como eu, mesmo que seu emprego seja há milhares de quilômetros daqui, talvez ele tenha apenas criado o habito de se vestir assim. Seu cabelo esconde vários fios brancos, muito mais do que os meus. Os olhos por baixo dos óculos continuam os mesmos gentis e amáveis de sempre. Nos abraçamos enquanto Tomás fica ligeiramente desconfortável ao meu lado.

— Eu pensei que você iria para meu apartamento. — Digo, surpreso.

— Eu perguntei a Elisabeth onde você trabalhava e preferi fazer uma surpresa. — Ele faz uma pausa e complementa. — Como eu senti sua falta! — Joseph sai do abraço, exasperado, ainda me segurando firmemente pela nuca. Como se tivesse medo de que eu fugisse ou algo do tipo.

Eu sorrio em resposta, inconscientemente. Quando Joseph vê que estou sorrindo, o seu próprio sorriso se desfaz. Sua surpresa é completamente aparente. Enquanto eu e Tomás o encaramos com aquela cara estupefata, eu me aproximo de Tomás e digo:

— Esse é o Tomás, meu amigo do trabalho.

— Oi Tomás. — Joseph sai do seu transe e aperta a mão de Tomas num gesto amistoso.

Quando o telefone de Tomás começa a tocar, Joseph encosta a mão nas minhas costas e me leva para um pouco longe dali.

— Desde quando? — Joseph pergunta.

— O que?

— Desde quando você não toma mais as pílulas?

— Alguns dias...

— Mas... — Joseph não tira o olhar do meu, procurando algum erro. Ele procura o que há de errado. E eu tento transparecer tudo diante de um único olhar, mas é obviamente impossível. — Como você tá?

— Eu não sei. É complicado.

Joseph coloca a mão no meu ombro e aperta, como nos velhos tempos.

— Me desculpa, Damien.

— Não tem pelo que se desculpar.

Por alguns instantes, quando uma nuvem some de vista, o sol ilumina aquela rua e é impossível ver os olhos de Joseph através das lentes, com o reflexo estampado nelas. Ele continua com a mão no meu ombro, mais alto que eu, a minha frente. Quando outra nuvem paira acima de nós reestabelecendo a sombra, os olhos de Joseph são alcançáveis novamente. Ele se sente culpado. Principalmente por ter ido embora quando eu mais precisava dele. Eu amo meu irmão e nunca irei martiriza-lo, mas essa é a verdade. Seguro na mão de Joseph e a tiro do meu ombro gentilmente, dizendo:

— Eu só queria que você tocasse no meu ombro mais vezes. — Eu sorrio novamente para ele, mas dessa vez, um sorriso baleado. — Talvez não tivesse sido tão difícil naquela época.

— Eu sei. Eu sei. — Diz Joseph. — Mas eu voltei irmão. Eu voltei e dessa vez não vou mais embora.

— O que? — Pergunto, surpreso.

— Ei Damie, tenho um recado pra você. — Diz Tomás aparecendo com o celular em mãos. Eu e Joseph o encaramos, sem transparecer a chateação de termos sido interrompidos por ele. — Hannah tá fazendo uns ensaios da próxima peça e está implorando pra irmos lá assistir. É à 20 minutos de ônibus, mas eu já expliquei a ela que você está com o seu irmão e...

— Eu vou. — Faço uma pausa, olho para Joseph e continuo. — Você pode ir?

— Eu sempre gostei de teatro. — Joseph sorri.

Fazemos a viagem toda sem tocar no assunto da possível volta permanente de Joseph, que até agora não entendi muito bem. Mas prefiro guardar o tema para mais tarde, quando estivermos a sós. Então até chegarmos ao teatro, Tomás e eu conversamos sobre música, uma hora ou outra perguntando se Joseph conhece tal banda ou não. Por um momento fico um tanto desconcertado de estar levando Joseph para um programa dos meus “amigos”, já que meu irmão acabou de chegar na cidade e esse é um tempo que deveríamos estar dedicando a nós dois como família. Mas faço de tudo para incluí-lo na conversa e aumentar o assunto entre nós dois.

O teatro é absurdamente grande e velho. Seus cuidados parecem ser limitados a Hannah e seus alunos, já que algumas partes do teto estão com buracos e metade dos bancos parecem sujos e desgastados. Tento não tossir com a poeira do lugar e somos guiados por Tomás até o palco, onde Hannah está conversando com alguns rapazes.

— Bruno! Sorria mais, pelo amor de Deus! Você não é o neutralizado, lembra?!

Um rapaz de pele escura e alto assente com a cabeça energicamente. Ele parece ter na faixa dos 19 anos. Ao seu lado, um rapaz mais velho, provavelmente na casa dos 30, usa um terno velho. É a quem Hannah dirige o próximo sermão

— Diogo, neutralizados sentem menos que isso. Diminua essas expressões. Olha, estou sinceramente pensando em trocar a porra do papel de vocês!

Tomás dá uma leve pigarreada na nossa frente e Hannah se vira, assustada.

— Estamos aqui. — Tomás diz.

— Vocês chegaram rápido. — Hannah dá um pequeno pulo do palco e vai abraçar Tomás. Depois, ela para na frente de Joseph e diz — Você deve ser o irmão do Damien, certo?

— Sim. — Joseph lhe oferece um sorriso galanteador e oferece a mão aberta. Hannah pousa sua pequena mão sobre a dele. — Eu sou o Joseph.

Joseph beija a mão de Hannah e ela acha a situação um tanto divertida. Ela olha para mim e diz:

— Você deveria ser mais como seu irmão, Damien.

Sinto como se vários panos úmidos e quentes estivessem cobrindo meu rosto agora. Hannah ri e diz, agora para Joseph.

— Sou Hannah.

Joseph sorri em resposta e Hannah vem ao meu encontro. Ela me abraça e eu respondo seu abraço com um aperto desajeitado. É bom sentir seu corpo novamente. Quando sinto seu perfume e fecho os olhos, posso lembrar quase que perfeitamente daquela noite. Depois do abraço, Hannah volta para o palco e começa novamente a conversar com os atores e atrizes, que se mantém espalhados pelo lugar. Há crianças, adolescentes e até mesmo idosos. Me pergunto se todos eles iriam atuar.

Eu, Joseph e Tomás vamos nos sentar num desses bancos perto do palco enquanto vemos Hannah repetir as cenas com os dois rapazes várias vezes. Quando começo a finalmente me envolver com o ensaio, lembro daquela questão crucial de mais cedo. Como pude esquecer?

— Como assim você voltou? — Sussurro bem perto do ouvido de Joseph.

No meu lado esquerdo, o celular de Tomás começa a tocar. Ele atende, desesperado para fazer o aparelho parar de tocar. Os atores e Hannah o oferecem um olhar reprovador mas logo continuam na peça.

— Eu me demiti. — Joseph diz, também em sussurros.

— O que?! — Eu falo um pouco alto demais. Mais olhares reprovadores.

— Eu me demiti Damien. — Joseph ainda sussurra, agora ele começa a sorrir. — Já tenho um emprego quase certo na cidade. Vou voltar a morar aqui. Perto de você e Elisabeth. Vamos estar próximos novamente. Assim como antigamente!

Ignoro a absurda sorte que meu irmão tem quanto a sua vida financeira e também ignoro o fato de que ele só foi ter uma iniciativa dessa agora, conosco na casa dos 40 e aperto sua mão, sorrindo em resposta. Estou muito feliz que meu irmão voltou e não quero dizer mais nada. O abraço novamente, ainda sentados, o que faz nosso abraço ser totalmente bizarro e torto.

— SEU FUDIDO! — Ouço Tomás gritar ao meu lado e levo um susto. Todos no palco param e olham atônitos para nó três, enquanto Tomás levanta e sai a passos largos pelo teatro até chegar nas portas ao fundo.

Hannah olha pra mim intrigada e eu respondocom o mesmo olhar, logo levantamos e vamos na direção de Tomás.

— Fique aqui. — Digo para Joseph e vou para o corredor, onde Hannah me acompanha logo depois de ter parado com o ensaio da peça sem mais nem menos.

— O que aconteceu? — Hannah me pergunta.

— Não faço a mínima ideia. Ele recebeu um telefonema, nem sei de quem foi.

Corremos até a rua, quando as portas se abrem e a claridade invade meus olhos, preciso estreitá-los para enxergar Tomás. Ele está andando em círculos, aflito, dizendo:

— Filho da puta. Filho da puta. Filho da puta. Filho da puta.

— Tomás o que aconteceu? — Hannah segura seus ombros com as duas mãos para fazê-lo parar de girar.

Quando Tomás se aquieta (a medida do possível), posso ver que ele está chorando. Ele não consegue olhar nem para Hannah e nem para mim. Eu me aproximo e ouço Tomás dizer, com linhas brilhantes nas suas bochechas.

— Ele terminou comigo. — Tomás olha nos meus olhos com aquela feição penosa e derrotada.

— Porque ele fez isso? — Pergunta Hannah.

— “Eu conheci outra pessoa.” Ele disse.

— Você tá brincando. — Digo, me aproximando.

Ao ver Tomás daquela maneira, uma súbita raiva toma conta de mim e me dá vontade de socar Marcos com todas as minhas forças.

— Que cretino! — Diz Hannah.

Passamos alguns segundos em silêncio. Pouso minha mão no braço de Tomás enquanto Hannah ainda segura seus ombros. Não sei o que dizer, mas ver Tomás naquele estado é simplesmente terrível demais. É bizarro como as vezes, acabamos sentindo mais pelos outros do que por nós mesmos.

— Você quer saber? — Diz Tomás, passando as costas das mãos nos olhos para secar as lágrimas. — Eu preciso falar com ele.

Tomás se solta dos nossos toques e vira de costas.

— Não, não precisa. — Hannah tenta segurá-lo pelo pulso mas Tomás se solta rapidamente, começando a caminhar. Eu e Hannah o seguimos, Hannah continua dizendo. — Tomás, você tá com a cabeça quente, para de ser idiota.

— Eu preciso saber quem é. — Ele diz, olhando para nós dois de relance.

Não é como se eu apoiasse explosões de raiva ou algo do tipo. Tais coisas podem acarretar péssimas consequências. Mas aquele olhar raivoso de Tomás me tranquiliza. Prefiro o ver furioso do que entristecido. Embora ele possa estar triste e furioso. É confuso. Ao meu lado, Hannah usa o telefone para ligar para alguém da peça, dizendo que estão liberados.

— Damien! — Joseph grita, correndo na nossa direção.

Eu já tinha esquecido meu irmão novamente.

— Jo, precisamos resolver umas coisas.

— O que houve? — Ele pergunta, tentando manter nosso ritmo numa perseguição passiva a Tomás.

— Coração partido, raiva, não sei direito. — Digo.

— Você acha melhor eu ir embora? — Pergunta Joseph.

— Não, acho que vamos precisar de ajuda. —Diz Hannah.

Diante disso Tomás dá uma risada irônica. Andamos quatro quarteirões dizendo palavras confortantes e perguntando se aquilo realmente valeria a pena, mas Tomás se mostrou impassível nos seus passos largos e pesados à nossa frente. Joseph andava atrás de nós, se limitando a esperar alguma coisa útil para fazer. Quando atravessamos a última rua, Hannah se aproxima rapidamente de mim e sussurra:

— Merda, estamos indo para o trabalho de Marcos.

Olho para Hannah, preocupado.

Entramos num prédio de 20 andares, pintado de azul devido aos seus inúmeros espelhos que refletem o céu limpo daquela tarde. No Hall, chamamos um pouco de atenção quando Tomás entra furioso seguido por outras 3 pessoas, aparentemente aflitas com a situação.

— Oi Betty, como está? — Tomás libera um sorriso forçado para a recepcionista.

— Estou bem, Tom! E você? — Betty, uma moça de cabelos curtos e escuros com um sorriso encantador estende a mão simpaticamente para Tomás.

— Maravilhosamente bem! — Tomás segura sua mão com ambas as mãos e aperta carinhosamente. — Viu meu irmão por aí?

— Marcos saiu agora, há pouquíssimo tempo. — Ela retrata sua decepção na voz e no seu olhar. — Foi almoçar.

Fico surpreso ao saber que a recepcionista — e provavelmente, todo o seu trabalho — acha que Marcos é, na verdade, irmão de Tomás. Eu conheço Tomás bem o suficiente para saber que ele é completamente aberto em relação a sua sexualidade. Se ele fingiu ser irmão do próprio namorado, tenho certeza de que essa decisão partiu de Marcos. No meu lado, Hannah não mostra surpresa, ela obviamente sabia desse esquema.

Tomás agradece à Betty do mesmo modo simpático — e forçado — que a cumprimentou antes. Vira de costas e passa por nós, ainda como um furacão, até a saída do prédio.

— Casa do Rengar. — Tomás diz, parado na frente do prédio com as mãos no quadril.

— O que? — Digo.

— É o lugar onde ele almoça. — Tomás diz e sorri para nós três. Um sorriso diabólico.

Andamos por menos de 5 minutos até chegar num restaurante de esquina com uma grande placa escrito:

CASA DO RENGAR.

Tomás entra na nossa frente, ignorando a moça que entrega as comandas. Ela nos olha, confusa. Eu balanço a mão na sua frente negando com um sorriso fajuto. Joseph e Hannah fazem o mesmo. O restaurante é no mínimo, granfino. Há janelas grandes que iluminam todo o ambiente e ao fundo, tem um bar com um grande espelho horizontal. Do espelho, vejo o rosto de Tomás pegando fogo, indo em direção a uma das mesas ao lado da janela. Chegando perto, reconheço Marcos conversando e rindo com outros três caras, todos bem vestidos e fazendo jus ao restaurante caro em que estamos.

Marcos não nota nossa presença, Tomás inclina-se ao seu lado, apoiando as mãos na mesa e pergunta:

— Quem?

Marcos percebe sua presença logo depois dos seus amigos. Ele olha para Tomás, confuso.

— O que?

— Quem é, Marcos? — Tomás pergunta mais uma vez, próximo ao rosto de Marcos.

— Tom... — Hannah se aproxima segurando seu braço mas ele se solta rapidamente, sem tirar os olhos de Marcos.

— Eu.. Eu não te conheço cara... — Diz Marcos, aparentemente confuso.

Marcos consegue me surpreender mais que Betty, a recepcionista. Em todo esse tempo em que eles estiveram juntos, quantos sabiam que eles eram casal? Quantos pensavam que eles eram irmãos ou simplesmente nem sabiam da relação entre os dois? Um embrulho no meu estômago se faz presente enquanto começo a estalar meus dedos, me aproximando. Joseph se aproxima junto comigo da mesa.

— O que você disse? — Pergunta Tomás.

Os outros três rapazes estão estupefatos e sem palavras, segurando seus talheres sem nem mesmo tirar comida alguma do prato. Marcos olha de relance para seus amigos e depois diz, gaguejando.

— Eu nem te conheço, o que você quer comigo?

— Seu filho da puta! — Tomás grita e avança no pescoço de Marcos. A cadeira, Marcos e Tomás vão ao chão fazendo um estardalhaço só. Onde havia apenas o som de talheres ativos e conversações distantes, agora apenas o silêncio se estabelece. Os três homens levantam para separar os dois, eu e Joseph fazemos o mesmo enquanto Hannah grita:

— Tomás!

Enquanto Tomás se mantém em cima de Marcos socando seu rosto, eu o seguro pelas costas e tento puxá-lo, mas um dos amigos de Marcos me empurra ferozmente. Quando caio de lado no chão, meio desnorteado, vejo Joseph dando um gancho no meu agressor.

Depois disso, uma briga generalizada. Marcos, seus três amigos, Tomás, Joseph, eu e até mesmo Hannah numa troca desordenada de empurrões, socos e pontapés. Mas isso não dura um minuto até seguranças aparecerem e nos tirar a força dali. Visto que ninguém conseguiu de fato tirar Tomás de cima de Marcos, os seguranças se preocuparam de tirar Tomás de cima dele, praticamente o arrastando. Enquanto Marcos sentava-se no chão do restaurante, com a mão tocando levemente o nariz — que sangrava abundantemente — Tomás gritou na sua direção, e provavelmente o restaurante todo ouviu.

— QUANDO VOCÊ ME CHUPOU ONTEM, ME CONHECIA, NÃO É MESMO?

Simplesmente nadando contra a correnteza

2011, 10 de outubro, 41 anos

Do diário de Steve,

2011, 10 de agosto, 17 anos

Pornografia heterossexual ou lésbica. Se eu estivesse mesmo disposto a mudar, esses seriam meus pequenos exercícios cotidianos. E eu estou disposto. Na internet, pornografia é o que não falta, então eu passo cerca de meia hora até achar um vídeo pornô com alguma mulher que me interesse. Quando o vídeo começa, já estou preparado com mãos à obra. Hoje, por exemplo, achei um vídeo interessante cujo nome era blonde chick get fucked on the beach.

A moça, de cabelos loiros e compridos tinha peitos avantajados e um grande traseiro. No canto inferior direito do vídeo, uma taxa gigantesca de visualizações e uma média de nota de 4,5 estrelas. Com esses números, o vídeo deve ser realmente bom. Então começo a me masturbar vendo a mulher loira se satisfazer na areia. Embora eu esteja preparado e armado com o dedo no gatilho, minha arma parece não querer... disparar. Me perco em pensamentos como Como essa areia toda não está incomodando ela? ou Porque ela geme tanto? e acabo não fazendo o trabalho que deveria saber. Depois de muito tempo tentando ter um orgasmo, a moça loira do vídeo recebe uma companhia. Um homem alto de olhos castanhos. Eles começam a fazer o que estão sendo pagos para fazer. Começo a ficar mais estimulado, evitando o fato de que isso seria devido ao homem que acabara de aparecer. Quando estou quase chegando lá percebo que estou olhando a parte errada do vídeo. Então continuo tentando me corrigir.

Peitos. Vagina. Mulher.

Continuo me regrando.

Rosto com maquiagem. Bunda da mulher. Peitos. Vagina. Mulher.

E então, depois de 10 minutos de concentração, eu desisto. Porque é tão difícil ter um orgasmo pensando numa mulher? Todos os homens fazem isso, imagino eu. Eles fazem parecer tão fácil...

É claro que meus planos de mudança não se resumiriam em pornografia com peitos de silicone. Fiz novas amizades, não tão divertidas quanto as minhas atuais (que resumiam-se a Bruna e Miguel). São meninos que jogam as mesmas coisas que eu jogo e por isso acabamos tendo assuntos em comum. Eu pratico minha heterossexualidade enquanto eles olham para as garotas bonitas e comentam sobre. Costumo a imitar seus olhares e ficar um tempo encarando o traseiro delas, assim como eles fazem.

Demonstro encanto, mesmo que rude, assim como eles fazem. Porém, entretanto, isso não tem a mínima graça. Eu tento achar tesão e vontade na bunda dessas meninas, mas simplesmente não acho. Chego à conclusão de que continuarei a olhar e tentar tirar o máximo do corpo feminino até que eu consiga, de fato, gostar dele. Não deve demorar muito com o ritmo que meus atuais colegas têm para comentar sobre tais coisas. Eles falam sempre de como os peitos da Juliana são exuberantes ou até mesmo de como dariam tudo por uma foda com a Marcela. Me mantenho sempre à espreita, preparado para concordar com algo veemente ou até mesmo inventar algum comentário sobre peitos ou bunda, normalmente parece entretê-los.

Falando em amigos e afins. Miguel não fala mais comigo desde o dia em que terminamos. Bruna ficou sabendo de tudo em dois tempos, pondo-se veemente em uma posição defensiva. Ela diz que não quer parar de falar com nenhum de nós dois, então se manteve imparcial. Mas com todos esses meus novos planos de mudanças, acabei me afastando dela também, acho que Bruna está realmente chateada comigo. Vou marcar algo para fazermos, resgatar laços desgastados. Tenho saudades de Bruna.

Ter saudades da minha melhor amiga pode ser doloroso. É difícil lidar com tudo isso sem o apoio dela, mas como eu sou o único que pensa que mudar é a melhor opção, entendo o fato de ela não saber como me ajudar (a não ser dizer que estou ficado louco com essas atitudes, o que não ajuda em nada). Mas nada se compara a saudade que eu tenho de Miguel. Eu digo a mim mesmo todos os dias que o que tivemos foi algo passageiro e que eu fiz a escolha certa, mas sempre há aquela parte de mim que diz “e se”, me quebrando em pedaços sempre.

E se eu não tivesse terminado com ele? Estaríamos juntos. Bruna ainda estaria perto de mim. Eu não iria ter saudades de nenhum deles porque eles estariam aqui, comigo.

Sempre que tais pensamentos me arrebatam, penso no meu pai e no meu avô. Homens cujo orgulho sempre contou muito para mim. Penso em como meu pai ficaria feliz e satisfeito acenando com a cabeça, me vendo casar numa grande igreja com uma linda mulher.

E se eu não conseguir ficar com uma mulher? Nunca?

Eu não sei. Para algumas hipóteses, permaneço em silêncio, angustiado e aflito. Não quero pensar como será minha vida se eu não conseguir mudar. Não quero pensar como seria se tudo fosse por água abaixo e eu perdurasse toda a minha vida infeliz e insatisfeito. Eu quero acreditar que vou conseguir mudar. Quero acreditar que isso tudo não passa de uma fase. Eu quero acreditar que estou fazendo o certo.

Mas é como se eu quisesse acreditar no meu poder para mudar um rio de sentido, simplesmente nadando contra a correnteza, quando a única coisa que vai acontecer é que eu vou acabar cansando e por fim, morrendo afogado.

Te invejo por isso.

2015, 6 de abril, 45 anos

O novo espelho do banheiro do meu trabalho está perfeitamente limpo e bem colocado. No reflexo, um Damien irrompendo em lágrimas. Não lembro muito bem como eu fui acabar tendo outra crise daquelas. Mas sei bem os motivos. Os mesmos de sempre. Em resumo, minha monstruosidade, falta de amor próprio e a grande saudade, culpa e — incrivelmente — amor que tenho pelo meu filho, morto há quatro anos. Assim que cheguei na empresa, passei direto pelo meu chefe e dei graças a Deus por Tomás ainda não ter chegado, não queria ninguém me seguindo no banheiro e me enchendo de consolações ordinárias. Primeiro porque embora meu chefe não fosse me ajudar em nada com consolações ou palavras reconfortantes, ele faria coisas piores. Não sei muito bem quais, mas seriam piores. Segundo porque mesmo que Tomás tenha me ajudado muito nesse período, assim como Hannah, eu não quero ninguém por perto. Quero chorar sozinho.

A questão é que eu pensei que estava melhorando. Uma lágrima ou outra caia enquanto eu tomava banho ou encarava o teto escuro do meu quarto antes de dormir. Mas eu realmente pensei que eu estaria progredindo. Mas quando cheguei no trabalho hoje e sem mais nem menos lembrei de Steve com seus mais perfeitos traços com tanto realismo quanto possível, eu comecei a chorar. Do nada. Então estou aqui há mais de vinte minutos, revezando entre chorar olhando o próprio reflexo, lavar o rosto e em alguma parte disso tudo, torcer para que ele não apareça de novo. E quando temo que o meu próprio clone do mal apareça, não é só pelo simples medo de ter que quebrar o espelho do meu trabalho mais uma vez, e sim, o medo de ouvir as coisas que ele tem a me dizer. Sempre tão verdadeiras e sempre tão perigosas. E eu não estou afim de ouvir tais verdades hoje.

Lavo o rosto mais vezes mas não há nada que tire a vermelhidão dos meus olhos, então desisto e saio do banheiro, simulando um ataque de renite alérgica. Uma moça conhecida — cujo o nome não lembro — passa e pergunta se estou bem. Aceno positivamente apontando para meu nariz.

— Só espirrando um pouco. — Digo.

Quando chego no meu escritório, vejo meu vizinho, Tomás, já acomodado à um tempo na sua mesa.

— O que houve? — Ele pergunta, olhando incrédulo para meu rosto.

— Renite alérgica. — Digo, dando um sorriso e apontando para o nariz.

— Damie. Você não me engana. — Ele toma impulso na sua mesa e vem deslizando na sua cadeira até meu lado. — Você estava chorando.

Me recosto na cadeira olhando para cima na esperança de que nenhuma outra lágrima escorra pelo meu rosto.

— Talvez. — Digo.

— Bem, sair de neutralizado à interprete de renites alérgicas não é uma coisa muito lógica, querido Damie. — Ele apoia seu queixo na mão e continua — Você não precisa se envergonhar de chorar. Muito menos comigo.

Olho para Tomás e forço um sorriso, acho que esse não foi muito bom. Não estou com vontade de sorrir agora. Deixar de ser um neutralizado não te obriga a exteriorizar todas as emoções que sentem. Todo mundo vive acobertando elas sempre, porque eu deveria fugir da regra?

— Como você está? — Pergunto tentando mudar o foco da conversa.

— Bem. — Tomás responde rapidamente.

— Eu pensei que você fosse adepto a transparências de emoções, Tomás. — Digo.

— Cara, eu realmente estou bem. — Diz Tomás.

— Você avançou no pescoço de Marcos. Anteontem.

— Eu sempre odiei o fato de nos escondermos em público. Sempre odiei o fato de nos escondermos dos seus melhores amigos. E acima de tudo, ontem em especial, odiei o fato de ele ter me trocado por outra pessoa. Mas não odiei o fato de terminarmos. Claro, é uma sensação horrível, mas posso viver com isso. — Diz Tomás, com um sorriso estampado no rosto. Ou ele finge ótimos sorrisos ou o que ele disse realmente é verdade.

Como algumas pessoas podem ser tão desapegadas assim? Pessoas como Tomás devem ser imunes às vontades irracionais de ceder às pílulas neutralizadoras ao tempo que suas perdas são vazias e facilmente superáveis.

— Te invejo por isso. — Digo com toda a sinceridade.

Tomás me encara, sabendo exatamente o que eu quero dizer com isso.

— Temos que trabalhar, Damie.

Colocamos nossos fones de ouvido e trabalhamos. Hoje eu escolho uma banda mais suave e depressiva. Não importa se eu preciso ouvir algo agitado para sair desse clima triste e opressivo. Quero ouvir algo lento, com uma letra melancólica e com significados marcantes. Músicas deveriam se adequar ao nosso estado de espírito, e não o contrário.

Não passa muito tempo até Jorge Mendez, nosso maravilhoso chefe, aparecer e derrubar duas pilhas de papéis nas nossas mesas, com um sorriso sagaz estampado na cara.

— Tudo bem, senhor Roseburn? — Ele pergunta.

Mesmo com a cara inchada do chororô de mais cedo e os olhos ainda um tanto vermelhos, digo, sorrindo:

— Perfeitamente bem.

Não consigo deixar de notar a irritação de Tomás diante das afrontas do nosso chefe, mas ele não dura muito na nossa frente. Me concede outro sorriso debochado e sai dali.

— Deveríamos colocar o dobro de laxantes e neutralizadores na próxima vez. — Tomás sussurra ao meu lado, dando uma risadinha.

— Quem sabe nós colocamos algo a mais. Não sei. — Dou de ombros. — Veneno, talvez.

Rimos um pouco daquilo mas o brilho de início nos olhos de Tomas me assustam um pouco. Mas ele entende que eu estava brincando e ri junto. Meu celular começa a tocar.

— Elisabeth. — Digo, meio bobo, olhando para o celular.

— Elisabeth? — Pergunta Tomás, se aproximando para ver a tela do aparelho.

— Minha irmã.

Levanto, tampando o autofalante do meu aparelho até ir para uma varanda do nosso andar. Aqui, onde vários funcionários se refugiam do nosso chefe e podem fumar alguns cigarros, é como eu atendo meus telefonemas.

— Oi mana. — Digo.

— Oi Damien! — Elisabeth diz eufórica. — Como você tá?

Com certeza Joseph já falou a ela sobre meu estado atual de não neutralização. Mas escolho não trazer isso à tona.

— Estou bem, Beth, e você?

— Ótima. Joseph veio me visitar e já temos data para o jantar ok? Dia 12, domingo que vem, tudo bem?

— Tudo ótimo, estarei aí.

­— Que bom. Mas olha, tem uma coisa.

— Sim?

— Combinamos de fazer o jantar lá no pai. Na fazenda. Então vamos ficar por lá pelo fim de semana.

De todos os lugares no mundo, fazer o jantar na casa do meu pai seria o pior deles. Sinto uma aflição imensurável ao ter que ver meu pai novamente cara a cara, mas apenas digo:

— Tudo bem então.

— Tenho que desligar agora, mano. Mas ainda precisamos conversar muito ok? Te amo muito, beijo!

— Beijo.

Desligo o telefone e decido começar desde agora a reunir forças para estar no mesmo cômodo que Dimitri Roseburn. O homem que me ensinou a ser o monstro que eu sou hoje. E por ele, guardo muitas coisas, mas que não tem nada a ver com agradecimentos.

Queimava como o inferno.

2011, 10 de outubro, 41 anos

Do diário de Steve,

2011, 3 de setembro, 17 anos

Demorei um bom tempo até conseguir começar a escrever isso. Embora minhas mãos ainda estejam bem o suficiente para segurar o caderno e a caneta, o resto do meu corpo dói. O resto de mim dói. Sou uma imensidão de pequenas feridas provocadas pelo cinto violento do meu pai. Sou um recipiente cheio de dor, emocional e física. E estou transbordando. Como já disse, escrever faz tudo parecer mais claro. Por isso tive medo de contar o que realmente houve aqui. Mas preciso por meus pensamentos em ordem. Preciso colocar isso no papel.

Um dia de perfeita rotina. Acordei cedo, me arrumei para a escola, peguei uma carona com meu pai e assisti as mesmas aulas chatas com os mesmos professores chatos de sempre. Após a escola, fui de bicicleta até a praia e pedalei com os fones de ouvido ouvindo The Vaccines, minha banda preferida. Por fim, voltei para casa e encontrei a visita mais inoportuna no lugar mais inoportuno de todos.

— Steve. — Meu pai me recebe. — Você tem visita.

No sofá, abraçado com a mochila, Miguel me encara.

— Miguel. — É a única coisa que consigo dizer.

— Oi Steve.

— Bem, preciso ir. Ainda não corri hoje. Até mais, filho. — Meu pai vem e beija minha testa. — Talvez ainda nos vejamos mais tarde. — Ele acena para Miguel e vai embora, me deixando ainda na porta de casa, estupefato.

— Já faz um bom tempo, não acha? — Miguel diz, abrindo um grande sorriso.

— O que você tá fazendo aqui? — Digo, tirando a mochila das coisas e jogando no sofá.

— Eu vim conversar com você, já que agora você não fala mais comigo e vive se esgueirando pelos corredores da escola apenas para fugir de mim.

— Eu tenho prioridades, Miguel. — Estou nervoso demais para parar quieto, então fico andando de um lado para o outro da sala.

— Prioridades... — Miguel dá uma risadinha irônica. — Me diga, você tá conseguindo, Steve? Você sabe... Mudar.

— É só uma fase. — Digo, não tão certo do que estou falando. — Vai passar. Se você tentar, vai conseguir também.

— Certo... — Miguel ri novamente, olhando para o lado. — Eu não quero tentar. Eu quero que você pare de tentar fazer o que você não consegue e volte a ser o Steve de antes. Eu quero ele de volta.

A ideia de que Miguel me quer de vota me deixa desarmado. Me sinto nu e vulnerável diante dele. Quero beijá-lo, abraça-lo e dizer que eu o amo, mas não posso. Não posso voltar atrás.

— Miguel.... Também é difícil para mim.

— Difícil? — Miguel levanta e aponta para mim, aumentando o tom de voz. — Eu me apaixonei por você. E você me largou por vergonha. Por medo!

Essa é a parte que eu explodo. Levanto numa tentativa só e fico parado a poucos centímetros do seu dedo acusador gritando:

— Você acha que todo mundo tem uma família que vai ser compreensiva e cabeça aberta como a sua? Porque não se coloca na porra do meu lugar e imagina como seria se meu pai soubesse!?

Miguel abaixa a mão e a mantém ao lado do seu corpo. De modo notavelmente mais calmo, ele diz:

— Eu te amo. — Sua voz treme enquanto ele fala — Não quero que você me abandone. Não quero que você deixe de ser quem você realmente é.

Ali, diante da pessoa que eu mais amei na minha vida, tudo parece começar a fazer sentido.

Não quero que você deixe de ser quem você realmente é.

Talvez eu realmente seja isso. Talvez eu seja um homem que gosta de homens. Talvez fosse por isso que eu não consegui mudar...

Dou dois passos à frente e abraço Miguel. Ele começa a chorar e eu digo.

— Eu queria ter o poder que você tem de ser você mesmo. Mas em vez disso, eu tenho medo. —Digo com a voz trêmula, notando aquele incômodo nó na garganta.

— Você não acha que valemos a pena? — Enquanto Miguel fala, sinto essa área do meu ombro ficar quente.

Na minha cabeça, quero dizer que sim, acho que valemos a pena. Mas se eu por algum motivo falar isso, sinto que se tornará real. Se eu tornar isso real, não terei mais forças para mudar. Falar é como escrever, torna tudo mais claro. Mas o toque... Ah, o toque. Ele vale mais do que tudo.

Miguel sai do meu abraço e então se inclina para frente, seu rosto indo de encontro ao meu.

Eu quero. Mas não posso.

Dou um passo para trás, mas continuo no mesmo lugar, hipnotizado por Miguel e sua aproximação momentânea.

Meu pai nunca me aceitaria. Meu avô nunca me aceitaria. Meus tios teriam vergonha de mim. Todos teriam vergonha de mim.

Eu sei que o poder de Miguel é tão forte sobre mim porque mesmo com todos esses pensamentos desastrosos na minha cabeça e toda essas suposições terríveis, eu acabo cedendo. A ideia de ficarmos juntos fica além disso tudo. Ele me beija e eu o beijo de volta. Seus lábios me levam para longe, um lugar onde tudo é perfeito. Um lugar onde podemos ficar juntos para sempre, independente do que os outros vejam ou do que pensem. Um lugar utópico. Quando nos soltamos daquele beijo, eu continuo olhando para seus lábios e digo:

— Eu acho.

— O que?

— Eu acho que valemos a pena.

Quando Miguel me beija novamente, ele o faz rápido e com força. Tropeço no tapete da sala e caio no sofá, Miguel se inclina e continuamos nos beijando. Eu só quero beijá-lo como se não houvesse mais nada além de nós dois.

Mas a porta se abre, antes mesmo de eu captar o som das chaves do meu pai ou dos seus passos no corredor. Damien Roseburn está na porta da sala, olhando incrédulo para nós dois.

Depois disso, não lembro muito bem como tudo aconteceu. Sei que Miguel foi embora. Sei que meu pai me olhou com nojo. Lembro também que quando ele me bateu com a fivela do cinto pela primeira vez, o cinto não fez barulho, e foi pelas costas. Fui atingido de surpresa no braço. Eu chorei o quanto pude, mas meu pai não teve dó de mim. Eu implorei para ele parar, mas ele continuava batendo. O uivo do cinto que prescindia o choque e a dor começou a se normalizar na minha cabeça. Eu fiquei em posição fetal no tapete da sala no fim daquilo tudo, de vez em quando eu me contraía ao ouvir um uivo imaginário do cinto. Haviam cortes no meu corpo e eu sentia arder em mil pontos diferentes. Queimava como o inferno.

E no fim, senti vergonha. Eu estava ali, no chão da sala, sangrando e chorando e era tudo culpa minha. Eu sou uma abominação, assim como todos dizem. Eu não vou conseguir mudar. E muito menos poderei amar alguém.

Tudo o que eu queria era não ter saído do útero da minha mãe.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.