Neighbors
8 Capítulo 7 - You're my flashlight
Notas iniciais
Felicity Smoak
As pérolas seguem uma trilha perfeita por cada extensão do tecido extremamente bordado. Elas têm a cor champanhe assim como todos os outros detalhes do vestido, digno de uma princesa que espera ansiosa pelo Final Feliz. E no espelho a frente consigo ver o meu reflexo, mas não me enxergar, os olhos que antes eram tão conhecidos refletem uma pessoa que não me representa, eu apenas não consigo aceitar que nesse mesmo espelho, a pessoa em um vestido de noiva dos sonhos, seja eu.
Eu deveria estar sorrindo, aproveitando ao lado das minhas amigas um momento importante, o fechamento de um ciclo para o início de uma nova trajetória. Mas simplesmente não consigo me reconhecer, porque a angustia que floresceu no meu peito à medida que coloquei esse vestido me fez encarar a realidade de frente, como uma bofetada forte que a vida dá. Por muito tempo empurrei com a barriga uma ideia que me fiz comprar, idealizei algo como uma criança que almeja uma casinha de bonecas para brincar. Montei um futuro ao lado de um homem que pensei amar, quando eu mesma não me amava.
Olhar para esse reflexo, me faz encarar os olhos de uma garota que se perdeu no meio de um caminho torto que é a vida e suas escolhas. Uma menina que decidiu se esconder atrás das sombras do primeiro homem que a acolheu, fechando os olhos para seguir uma vida de mentiras. Acreditando que viver para uma pessoa é o bastante, esquecendo que sua essência é o que motiva seguir em frente de cabeça erguida como se o futuro só dependesse das suas próprias atitudes. Eu não amo Erick, eu amo a ideia de ter alguém que acredite em mim ao meu lado, de que me forneça uma muleta para me apoiar. Mas esse reflexo no espelho mostra que eu não preciso de quem acredite em mim, porque se eu acreditar já é o bastante.
— Você está radiante! — grita Caitlin enquanto dá pulinhos ao meu redor.
— Estou aqui só pelo champanhe, mas tenho que concordar que você está mais sexy. Será que podemos pular para a parte da lingerie? — Nyssa dá de ombros.
Comprimo meus olhos.
Estou me sentindo sufocada com toda essa renda no pescoço, enforcando-me como um carrasco da Idade Média.
— Eu não posso fazer isso... — murmuro baixinho.
— Você disse algo, Lis? — Iris pergunta ao se aproximar.
— Não vou mais fazer isso! — de imediato minhas mãos começam a descer as mangas do mais fino e macio tecido cravejado por pérolas. Antes que alguma das meninas me encham de perguntas, desço do pequeno degrau que estava, correndo em direção a um dos provadores individuais. Ele é escuro, mas consigo notar a trava com facilidade, impedindo que qualquer pessoa invada o pequeno espaço.
— Felicity? — pergunta Caitlin assustada.
— Cait, eu resolvo isso, tudo bem? Pegue Nyssa que já está em um relacionamento sério com o champanhe e a leve para meu loft. Está tudo sobre controle. — a voz de Iris é abafada de onde estou. Após alguns minutos, volto a ouvi-la, desta vez, de mais perto como se ela estivesse atrás da porta do provador. — Está acontecendo?
— Iris, eu preciso ficar sozinha! — grito de dentro do provador.
— Eu sabia que isso iria acontecer.
Do que Iris está se referindo?
Da merda que estou me sentindo? Porque se for, ela está certa.
Já estou sentada no canto da cabine com apenas as minhas peças intimas enquanto abraço minhas pernas contra meu peito, o vestido de noiva estava chegando a me dar alergia, porque indiretamente ele é a prova de que estou fazendo uma grande besteira e que essa besteira está prestes a acontecer, a dias de acontecer, e eu vou enlouquecer. Porque dentro desse misto de acontecimentos, do pesar que é fazer algo que intimamente eu nunca quis, as lembranças da última noite não saem da minha cabeça. Gostaria de ignorar isso, de me convencer de que não passei a noite inteira pensando em como nunca senti um terço do que provei assim que uma força súbita me impulsionou para os braços de Oliver, como um imã. A mesma força que tive que criar para nos repelir, para empurrá-lo do meu corpo que respondeu atordoado.
Eu queria ficar ali, dentro do abraço de Oliver, porque instintivamente eu encontrei o meu lugar. Como uma lâmpada que acende quando somos pegos por uma grande ideia.
Ao encostar nossos lábios de forma tão sincera eu abri minhas asas que antes pareciam trancafiadas, me permiti aceitar que poderia ser a responsável pela direção da minha vida. Lembro-me muito bem de quando ouvi da sua boca em um lugar escuro e um tom duro em sua voz que dizia que a minha vida seria um mar de mentiras. Nesse momento ele não se referia somente a Erick, mas sim as minhas escolhas, porque a partir do momento em que eu desse o primeiro passo diante o precipício estaria sendo a âncora da minha própria vida, por conta das minhas próprias escolhas.
— Não vou conseguir fazer isso Iris. Esse não é o meu Final Feliz! — sussurro.
— Lis, você precisa ter total certeza do que está fazendo.
— Isso não é certo comigo, não é certo com Erick e muito menos com Oliver. — deixo escapar o nome do traste.
— Pera aí... Esse nome não me é estranho. Posso estar ficando louca, mas você acabou de citar o nome do seu vizinho gostosão nessa conversa!
Pronto.
A merda está no ventilador.
Indo para todos os lados.
Abro a porta da cabine rapidamente, eu poderia apostar como devo estar no fundo do poço. Cabelos rebeldes e rímel borrado de quem chorou baixinho enquanto aproveitada a escuridão da cabine, resumindo, estou praticamente A órfã.
— Eu o beijei! — deixo meus ombros caírem em sinal de frustração.
— E foi bom? — Iris pergunta em um surpreendente ânimo. Seus olhos estão arregalados e esperam ansiosamente por qualquer resposta.
— Isso não vem ao caso, Iris. — murmuro.
— É claro que vem ao caso! Aposto que o vizinho bonitão tem grande parcela nessa sua decisão.
— A minha decisão não é sobre Oliver, é sobre mim. — não contenho o revirar dos meus olhos. Por mais que meus neurônios não parem de mandar sinapses eloquentes para as lembranças dos últimos acontecimentos, estou sendo sincera quando digo que estou tomando essa decisão por mim. Posso estar rodeada de milhares de pensamentos confusos, sobretudo por Oliver, mas essa escolha de deixar Erick Dallas em poucos dias do nosso casamento é sobre dar chance de me conhecer mais, e isso acaba resvalando em Oliver, porque confesso que com ele sou quem eu realmente desejo ser, apenas livre como os pássaros que cantam na minha janela em um dia ensolarado de Nova Iorque.
— Então devo ignorar o fraquejar na sua voz quando tocou no nome dele? — Iris aperta seu olhar na minha direção. Ela está fadada a retirar da minha boca o que tanto quer ouvir.
— O que você quer ouvir? Que gosto dele? — pergunto exausta.
— Esse é o ponto que eu queria chegar. — ela suspira. Iris cautelosamente segura em minhas mãos gélidas pelo ar frio que escapa dos filtros do ar condicionado, massageando-as. Eu tento fugir dos seus olhos espertos como de uma águia, mas é sempre uma tentativa falha, pois conheço Iris há anos e dentre as outras meninas ela é a mais próxima, foi com ela que desabafei sobre os períodos mais difíceis da minha vida, ela quem me ajudou a superá-los, então posso confirmar com convicção que ela me conhece de trás para frente, não tem como mentir ou omitir algo. — Estamos grandinhas demais para esconder de nós mesmas um sentimento tão sincero que é gostar de alguém... Então, antes de mentir para mim saiba que vai estar mentindo para si mesma.
Agora sou eu quem suspira. — Eu gosto dele.
— De verdade?
— Infelizmente. — deixo fluir um sorrisinho de canto.
Odeio ter que admitir que gosto do traste.
É algo que não consigo mensurar.
Apenas existe.
— Já contou a ele? — Iris torna a perguntar.
— Óbvio que não. — rio ironicamente. Dizer a Oliver que gosto dele seria no mínimo o oitavo pecado capital. — Ele não é o meu número, Iris.
— Quer um conselho? — a pergunta de Iris é tão cortante quanto uma lâmina de bisturi. Espremo meus olhos dando como resposta um pequeno balançar positivo com a cabeça, deixando-a continuar. — Você tem uma visão conturbada sobre o seu vizinho gostosão... Mas é inevitável perceber o quanto os seus olhos brilham quando atingem os dele. Como as peras da sua bochecha coram quando ele diz algo que só vocês entendem, além das implicâncias que os tornam únicos. Oliver Queen é o seu número, ele se encaixa em você de uma maneira torta, é diferente, mas quem disse que o diferente não pode ser o normal? Livre-se dos seus preconceitos, sobre a ideia de construir um futuro irreal quando o seu homem está de baixo do seu nariz! Vá atrás dele Felicity, resolva-se, tire suas conclusões, mas faça isso agora! — as palavras de Iris são tão determinadas que fazem cada pelo do meu corpo se arrepiar.
— Meu homem? — gaguejo.
— É bebê, seu homem. — Iris arqueia a sobrancelha esquerda à medida que passa a ponta da língua no seu lábio inferior.
— Você tem razão, eu vou fazer isso agora! — encaminho-me em direção à porta quando sou impedida.
— Felicity!
— Diga?
— Antes você precisa colocar um pouco mais de roupa... Ou será precisa por atentado ao pudor. — Iris não contém uma gargalhada divertida.
Rapidamente lembro de que estou vestindo apenas as minhas peças íntimas e assustada o escondo com meus braços.
— É... Você tem razão, eu posso fazer isso!
~~~
Oliver Queen
Os raios solares que escapam da janela incomodam meus olhos que insistem continuarem fechados. Eu comprimo as pálpebras evitando abri-las para não entrarem em colapso assim que encontrarem a claridade do sol. Ao mesmo tempo em que sinto lambidas molhadas na minha bochecha, o cheiro de queijo conhecido de Buddy não me engana, o safadinho acabou de quebrar uma das nossas regras sobre subir na cama.
— Buddy, agora não! — meneio a cabeça para ambos os lados tentando fugir do focinho gelado, mas ele continua insistindo. Ao vencer pela força a bola de pelos, massageio meus olhos os preparando para receber “Bom dia” do dia radiante que parece fazer lá fora. Abrindo-os, choco-me com os raios solares me lembrando da dor de cabeça insana que está me atacando. Massageio a têmpora instantaneamente, voltando a comprimir minhas pálpebras. — Merda!
Ainda estou avulso sobre o que está acontecendo comigo, em uma tentativa falha de me levantar rapidamente tropeço em meus sapatos jogados pelo chão, fazendo-me segurar no criado mudo para tentar me manter em pé, inutilmente, uma vez que sou pego por uma labirintite tremenda que me leva ao chão. Murmuro um xingamento pela minha imbecilidade, mas ao me preparar para uma nova tentativa de me levantar, ouço uma música animada vindo em direção dos cômodos da frente. Isso me deixa alerta em rápidos segundos novamente, dirigindo minha atenção para Buddy que continua sentado sobre a cama me olhando intrigado. Logo, um barulho estridente vindo da cozinha me faz correr para o armário.
Que Diabo está acontecendo aqui?
Invadiram a minha casa!
Será que fui raptado? Estão me mantendo em cárcere privado!
— Buddy! Amigão! — sussurro baixinho para Buddy que não mexe se quer uma orelha ao meu comando, o que me faz revirar os olhos. Por cargas d’água eu resolvi adotar um cão que não me obedece? Se arrependimento matasse, talvez eu estivesse morto agora. No entanto, não posso perder a pouca atenção que consegui com um saco de pulgas, o que me remete ao taco de basebol escondido atrás do armário, eu não costumo usá-lo, mas como não tenho porte de armas e nem mesmo um chinelo nas mãos, possivelmente esse será o meu único meio de defesa.
Eu o seguro firmemente, voltando a dar passos singelos seguindo a música que continua animadamente vindo da cozinha. À medida que me aproximo, o cheiro de ovos mexidos embriaga minhas narinas, trazendo-me náuseas no estômago. Antes que eu faça uma ânsia, meus olhos encontram um corpo dançante mexendo na frigideira onde se tem panquecas. As íris em um verde tão claro quanto o mar se arregalam a me ver, a moça levanta as mãos em sinal de rendição, e malditamente, ela é linda. Os cabelos lisos em um ruivo aberto, as sardinhas também alaranjadas e o corpo tão magro como de uma modelo Victoria Secret.
— Eu não fiz nada! — a moça responde assustada.
— Quem é você? — continuo em posição de defesa com meu taco de beisebol.
— Suzana! Meu nome é Suzana.
Suzana?
O que uma mulher chamada Suzana faz no meu apartamento preparando ovos mexidos com panquecas? Se isso for um sequestro, eu deveria pensar duas vezes antes de ligar para a polícia, afinal de contas, essa refeição logo pela manhã não seria nada mal e não estou me referindo à droga dos ovos mexidos.
— Você me sequestrou?
Minha voz ainda é enrolada.
A visão pouco turva.
Malditos hormônios de luta e fuga.
— Oliver... Você precisa abaixar esse taco de beisebol e tomar um pouco de água! Parece que exagerou no álcool. — a ruiva em movimentos cautelosos desliga o gás do fogão e com passos lentos se aproxima de onde estou, abaixando o taco sem tirar os olhos dos meus sequer um segundo.
Eu comprimo os olhos ao me deparar com algumas garrafas de cerveja e vodka espalhadas pelo balcão da pequena sala de estar ao lado da cozinha. Como um perdedor solto o taco de beisebol que faz um barulho alto ao cair no chão de porcelana me lembrando da pior dor de cabeça que já senti em toda a minha vida. Não é possível que eu não consiga me lembrar de nada do que aconteceu na noite passada, exceto aquele beijo de Felicity. Talvez, eu tenha bebido para esquecê-lo, mas foi um total fiasco porque tudo o que consigo lembrar foi a terrível sensação de perda que me atingiu em cheio assim que ela se afastou. Ainda assim, eu não consigo explicar o que uma linda ruiva está fazendo no meu apartamento vestindo uma das minhas camisas da Nirvana e preparando ovos mexidos.
Puta merda.
Nós não...
— Nós transamos? — a pergunta me deixa estranhamente assustado.
— Você não se lembra? — Suzana ri divertidamente roubando uma lambida demorada nos meus lábios que continuam sem reação. Nada parece responder a presença da linda mulher provocante.
Droga, eu odeio ter que admitir, mas eu não me lembro de nada.
Absolutamente nada.
— Eu não iria aborda-la com um taco de beisebol se me lembrasse do que aconteceu!
— Oliver, você me ligou.
— Por que eu te ligaria? — eu deveria me sentir humilhado. Na verdade, estou me sentindo um grande lixo humano.
— Não faço ideia, eu apenas estava sem nada para fazer e achei que te encontrar pudesse ser um pouco melhor do que a merda que se encaminhava a minha noite. — ela revira seus olhos à medida que volta para trás da bancada provando dos seus ovos mexidos.
— Nós transamos?
— Por que isso é tão importante para você?
— Por que sim.
Por que sim, Oliver? Você já foi melhor, meu caro.
— Quando cheguei você estava um pouco bêbado, foi divertido nas primeiras horas até que... — Suzana contém uma risada.
— Espera aí... Eu não gosto de risadinhas contidas!
— Oliver, não transamos. Você não conseguiu, mas eu entendo que isso seja um problema para alguns homens.
Mais uma vez eu sendo tragicamente um inútil.
Mais uma vez arremessando pela janela uma reputação que demorei tanto tempo para construir.
— Isso não é problema, certo? Aconteceu só duas vezes e não vai acontecer mais!
— Não precise se esconder atrás da sua virilidade, disfunção erétil tem tratamento.
DISFUNÇÃO ERÉTIL?
Eu não tenho essa merda de problema com ereção.
Ou tenho?
— Você está me deixando confuso!
Fracassadamente me sento sobre o sofá cobrindo meu rosto de qualquer contato com o mundo exterior, vulgo Suzana. Primeiro com Mackenna, uma negra insaciável que sempre dei conta, e agora com Suzana, eu mal me lembro de onde nos conhecemos e de como ela veio parar no meu apartamento. Ela está vestindo minhas roupas, mexendo nas minhas panelas e dizendo que tenho problemas de ereção. Basicamente esse está sendo um ótimo início de manhã, e eu nem acrescentei a terrível dor de cabeça que está me matando.
— Felicity! — ela deixa escapar.
— Como? — me recomponho rapidamente sobre o sofá.
— Você me chamou de Felicity a noite toda. — ela dá de ombros.
— Cristo... — volto a massagear as têmporas. O que há de errado comigo? Eu não costumo me embriagar por causa de uma mulher, chegar a esse ponto é no mínimo crítico.
— E chorou também. — ela acrescenta.
— O que? — pergunto incrédulo.
— Sabe aquilo que escorre pelos olhos? Lágrimas? — ironiza.
Uma sensação esquisita surge na boca do meu estômago, o que me faz correr rapidamente para uma das janelas. Eu coloco minha cabeça para fora e deixo com que parte do álcool seja arremessado, e minha cabeça parece querer explodir quando a ponho para baixo. Eu deveria me jogar dessa janela, estrebuchar lá em baixo como um pombo que é atropelado. Primeiro eu chego ao ponto de chamar por ela e segundo, eu choro por ela, isso é o ápice da humilhação.
— É pior do que eu imaginava... — sussurro voltando para meu sofá aconchegante.
— Quer um conselho? — Suzana se senta ao meu lado me oferecendo uma compressa quente para colocar na cabeça.
— Não! — respondo mal-humorado.
— Você sabe muito bem onde está o erro, só não quer de fato enxergar. Nos conhecemos em um bar em Los Angeles, nos divertimos bastante e foi por isso que aceitei nos encontrarmos ontem à noite. Mas você queria substituir alguém, e se continuar insistindo nisso, nunca vai funcionar e não estou me referindo ao seu amiguinho aí entre as pernas.
— Tem razão, eu não vou funcionar enquanto Felicity não retirar a praga que me jogou. — meneio a cabeça.
— Você é burro ou o que? — ela pergunta me dando uma bela bofetada na orelha.
— Isso doeu! — respondo à bofetada.
— Vai tomar um banho, cure esse álcool da sua fuça e vá atrás dessa mulher ou a sua vida vai continuar um cocô. — Suzana me empurra para fora do sofá.
Estou ficando enfurecido.
Minha cabeça está doendo, eu só gostaria de ficar no meu sofá em posição fetal refletindo sobre o caos que está rondando a minha vida. Eu deveria estar altivo na minha clínica depois de uma boa noite de sono acompanhado ou não, cumprindo o meu dever de cidadão americano. E não ouvindo conselhos de uma mulher que alega que broxei e que me dá tapas na orelha como minha mãe fazia quando eu era um adolescente. Que seja, eu só gostaria de ficar sozinho ouvindo Because you loved me da Céline Dion, por que não é assim que pessoas normais curtem uma bad? Ficar relembrando a forma como respondi ao toque de Felicity, uma sensação que não sentia há tempos. Eu queria mais, prendê-la como uma propriedade, não a deixando que fosse a lugar algum, porque ela simplesmente ultrapassou uma barreira sem volta que foi entrar na minha vida e revirá-la de cabeça para baixo.
— Eu só quero paz! — bufo.
— Isso é medo.
— O que você quer que eu faça? Felicity vai se casar nos próximos dias com um otário. Ela quer um futuro, uma vida de gente grande que eu não posso oferecer! Eu mal sei limpar minha bunda sozinho, imagina levar alguém a um altar e fazer juras de amor?
Suzana me dá leves tapas em um dos meus ombros.
— Tudo bem, você venceu. É um fracassado!
— Não me chame de fracassado.
— E não é? Fracassados desistem, eles não pensam em fazer nada para mudar o rumo dos problemas. — ela se levanta indo em direção ao quarto, e sua atitude altiva extremamente irritante me faz segui-la.
— Agora você decidiu ser a minha psicóloga? Eu nem a conheço! — pergunto ironicamente.
— Vá para o inferno, Oliver. — ela está vestindo as calças jeans ignorando minha presença dura em frente à porta.
— Grande argumento, doutora. — dou de ombros.
— Enquanto você permanecer inconsequente se escondendo atrás de garrafas de cerveja e vodka, vai continuar agindo feito um babaca chamando por uma mulher e chorando por ela. Insistindo no seu mundinho egoísta que não a ama! — sua última palavra me pega desprevenido. Eu entendi direito ou ela se referiu ao amor? Esse sentimento não existe, ele apenas é usado pelas pessoas com o único intuito de ilusão. Eu poderia usá-lo para levar metade de Nova Iorque para a cama, incluindo Felicity, mas eu prefiro não ser um covarde de merda. Eu não amo essa garota pequena de corpo robusto, na verdade, eu só estou cego por uma avalanche de sentimentos que me atropelaram na noite passada. É só isso.
— O que você entende sobre o amor? — volto a rir cruzando firmemente meus braços.
— Eu vou te fazer a mesma pergunta, sabichão. O que você entende sobre o amor? — ela cruza os braços me remendando.
— O amor não existe! — afirmo com afinco.
— Não existe? — agora é ela quem ri sarcasticamente. — Posso te fazer algumas outras perguntas?
— Vá em frente.
Eu não tenho nada a perder.
Essa ruivinha vai aprender direitinho a realidade da vida.
Não existe castelo encantado e muito menos um príncipe encima de um cavalo branco, no máximo, uns caras hipócritas querendo usar esse tal de sentimento chamado amor para comer as bundinhas iludidas.
— A boca do seu estômago parece apertar somente ao sentir a presença dela?
— Sim.
— As pernas bambeiam?
— Sim.
— O coração bate tão rapidamente como se quisesse sair pela boca?
— Sim.
A cada resposta sim, meu corpo vai deslizando pela parede até tocar o chão duro e frio assim como minhas perspectivas. Suzana está me deixando ainda mais confuso, eu deveria mentir a cada pergunta feita, enrola-la, mas as respostas saem da minha boca com demasiada facilidade. Nem mesmo eu consigo impedi-las, porque intimamente tudo o que ela está perguntando aconteceu comigo, na noite passada me senti um adolescente que esperava ansiosamente por um beijo da sua garota em uma quermesse. É um embaraçoso sentimento que não consigo associar ao amor, porque até então sempre foi irreal e distante. Felicity desabrochou essa vontade de querê-la desde que nos conhecemos no dia desastroso que foi aquele casamento, não por Mackenna quase arrancar minha vida com uma barra de ferro, mas sim porque no momento em que Felicity aceitou ao pedido de casamento do almofadinha antes mesmo de nos conhecermos, ela estava se fechando para o mundo ao seu redor, se afastando de mim.
— Oliver, isso é amor. — Suzana suspira longamente.
É desastroso.
Mas aquela sensação de chorar está voltando.
— Não pode ser amor! — respondo assustado.
— E por que não?
— Porque ela malditamente vai se casar em poucos dias! Você acha que eu posso invadir o escritório do grandioso prefeito Erick Dallas e dizer tranquilamente que amo sua futura esposa e que não a deixarei se casar? — pergunto sem expectativas.
— Pode!
— Por que eu te daria ouvidos?
— Porque, talvez, eu seja a personificação do anjinho que fica no seu ombro tentando fazer com que você siga a porcaria do caminho certo! — ela esbraveja.
— Me odeio por estar te dando ouvidos! — vou em direção aos meus sapatos espalhados pelo chão. Eu deveria permanecer com a minha ideia absoluta sobre o amor, mas mesmo que eu não saiba exatamente o que essa palavra signifique, não posso deixar passar a gama de sentimentos que me atropelou ontem à noite. A verdade é que eu quero provar mais de Felicity, quero-a em minha cama coberta pelos meus lençóis macios, com seus cabelos dourados selvagens sobre o meu travesseiro e o seu cheiro único emanando por cada cômodo do meu apartamento. Eu quero rir das nossas intrigas pelos corredores, tomar o seu café sem açúcar pela manhã como faço todos os dias. Preciso dos seus lábios nos meus sem me preocupar com as consequências.
Eu a quero.
Agora.
— O que você vai fazer? — Suzana pergunta curiosa.
— Dizer ao babaca do Erick que ela não o ama! — impressionamente sorrio.
— Posso comer os ovos e as panquecas?
— Apenas tranque a porta quando sair.
— Você não vai me agradecer? — ela pergunta me segurando pelo antebraço antes que eu possa me dirigir à porta.
— Suzana, obrigado.
Ela sorri em resposta.
Fazer algo pelo que você vá se arrepender pelo resto da vida?
É, estou indo fazer uma dessas coisas.
~~~
Esse lugar é o próprio caos, há pessoas correndo de um lado para o outro esbarrando umas nas outras, parece como aqueles lugares onde se vendem ou compram ações na bolsa de valores. Não foi difícil entrar aqui, confesso que fiquei um pouco perdido com tantos botões em um único elevador, mas imagino que o grandioso prefeito Erick Dallas deve se encontrar no último andar desse prédio, exatamente onde estou. E com todo esse alvoroço também não vai ser difícil encontrar o sujeito.
À frente consigo enxergar uma mulher distinta metralhando seus dedos sobre o pobre teclado, ela tem os cabelos presos em um coque impecável e o corpo é magérrimo. A única pessoa que me daria ouvidos, e talvez, mais algumas outras coisas que no momento não vem ao caso. E agora ela é a minha presa, é claro, no melhor dos sentidos.
— Olá! — digo altivamente à moça, mas nada acontece. Quando digo nada, é porque realmente nada acontece. Os seus olhos cerrados permanecem centrados à tela do pequeno computador, o que me faz ficar um pouco irritado. Mas eu decido respirar fundo, preciso economizar minha paz de espírito para as cenas do próximo capítulo, então, respirando fundo seguido de um pigarreio volto a chamar a atenção da “Louca dos teclados”. — Olá!
— É o entregador de pizzas? — ela mal me dirige o olhar.
— Não... — murmuro.
— Então não é importante. — ela responde com desdém, continuando a teclar.
Com quem essa “Maníaca dos teclados” pensa que está falando?
— Garanto que seja importante! — fecho a tela do pequeno computador na sua cara.
— Seu filho de uma... — a loira franze as sobrancelhas dirigindo o olhar na minha direção pela primeira vez. Mas antes que ela termine com sua frase ligeiramente mal educada, ela trava sua língua de imediato. Seguidamente, os olhos castanhos como o mel descem descaradamente pelo meu corpo, não vou mentir, me sinto assediado nos primeiros segundos, mas nada que incomode tanto ao me fazer perceber que isso pode ser positivo ao meu favor. A moça rapidamente se recompõe aprumando o corpo sobre a poltrona, ela ajeita o decote digno de uma secretária pornô e com a sua melhor voz sensual encontra delicadeza ao se reportar a mim. — Posso ajudá-lo?
Rio maliciosamente.
— Eu gostaria de falar com Erick Dallas.
— Você tem hora marcada?
— Puxa vida... Somos amigos de longa data, pensei que não precisaríamos de uma cordialidade dessas. — digo a primeira coisa que vem a minha mente. E só de pensar em ter um otário feito o almofadinha como um dos meus amigos chega a me dar certo asco.
— Entendo... — ela murmura. É claro que sacou que sou uma grande fraude, aposto que ainda não chamou os seguranças por causa de uma das minhas melhores qualidades. Isso mesmo, estou me referindo ao meu galante charme. — Que pena! O Sr. Dallas está em uma pequena reunião e não há chances de interrompê-lo. Porém, se você me disser o seu nome e número de contato posso dizer a ele que o procurou.
É a hora de apelar.
Não é jogar sujo, digamos que funciona como uma estrada bifurcada. Somente estou optando percorrer o outro caminho.
O caminho da sedução.
Avisto sobre o busto da loira um pequeno crachá, nele está escrito o seu nome e sobrenome. Uma mulher se sente valorizada quando chamada pelo segundo nome é como fazê-las se sentir importante.
— Senhorita Parker... — minha mão direita descansa singelamente na sua apoiada sobre a mesa. Ela não se assusta, os olhos em mel estão presos nos meus com precisão, e eu não contenho o escapar de um leve sorriso que é correspondido no mesmo instante. O primeiro ponto está batido, ela demonstrou minimamente uma ponta de interesse, os próximos passos serão tão fáceis como acertar uma cesta de três pontos no basquete. — Não será preciso, voltarei o mais rápido que eu puder.
Agora eu preciso valorizar o meu passe. Primeiro eu demonstrei interesse, agora só preciso manter a minha postura e dar meia volta em direção à saída, como um cara que é tão difícil como uma nota de um dólar no mercado.
Um.
Dois.
Três.
— Ei, você! — ela me chama. Não contenho uma risada rápida.
Cheque mate!
— Senhorita? — Ela levanta da sua poltrona, mas não dá se quer um passo. Está esperando pela minha volta, e eu decido acatá-la.
— Seria muito triste vir até aqui e perder a viagem... — Parker sussurra à medida que alcança a gola da minha camisa por de baixo da jaqueta de couro.
— Malditamente triste... — minha voz soa sensualmente tão perto dos lábios ousados da senhorita Parker que eu poderia acreditar no circo que estou montando para conseguir entrar no escritório de Dallas de tão real que está sendo a minha atuação.
— Me dê o seu número! — ela é direta.
— O que você quiser. — olho para baixo e há apenas o pequeno computador fechado. Então sorrio rapidamente ao voltar a abordá-la. — Só preciso de papel e caneta.
— Ah não...
— Não se preocupe, eu espero até que consiga o papel e a caneta... Sei que não vou me arrepender!
Pronto, a loira está na palma da minha mão.
Ela engole a seco minhas últimas palavras e em passos largos se afasta indo atrás do papel e caneta. Agora me restam poucos segundos até que ela volte, eu preciso ser rápido e certeiro, meus olhos correm para ambos os lados de forma com que eu perceba que a porta central está livre de qualquer pessoa que possa me impedir de abri-la. Os meus passos são pesados na direção da maçaneta da porta, e mais uma vez, checo minhas laterais certificando que estou sozinho. A senhorita Parker me alertou que Erick Dallas está em uma reunião, mas isso é uma balela, ele deve estar de pernas para o ar pensando em qual vai ser o cardápio do almoço.
Espero que tenha uma indigestão.
Minha mão desliza pela maçaneta, e então, ao abri-la me deparo com uma cena tão dramática quanto a da novela das nove. Erick Dallas está com sua bunda branca para fora enquanto faz movimentos rápidos entre as pernas de uma mulher que de imediato não reconheço, seu rosto está escondido no ombro do otário. Minha ficha cai tão ligeiramente que meus dentes cerram uns nos outros ao me lembrar de Felicity, e a ânsia de um vômito corre pelas minhas entranhas tão fortemente que a musculatura do meu abdômen contrai.
— Cretino... — murmuro.
Minha voz baixa chama a atenção de Erick que em movimentos rápidos se afasta do corpo da mulher, subindo suas calças. Seria engraçado se não fosse tão asqueroso, a sua feição assustada ao me reconhecer faz com que a face derreta, e para completar o circo de horrores, minha atenção se volta a mulher que grita histericamente. Ela nada mais é que Helena Bertinelli, e tudo faz tanto sentido que vejo meus pensamentos sendo atropelado por uma grande onda de horror. Felicity estava sendo enganada por todo esse tempo, sendo feita de idiota pelo seu próprio noivo. Erick Dallas é uma farsa e esconde um grande caminhão de lixo atrás da pessoa correta que finge ser.
É decadente.
— Como você conseguiu entrar aqui? — pergunta Erick ainda anestesiado.
— Sua secretária mencionou que estava em uma pequena reunião... Eu apenas quis participar! — respondo sarcasticamente. O sangue está estourando pelas minhas veias, não consigo ter nenhuma outra pessoa no meu campo de visão a não ser o inescrupuloso Dallas, como um touro feroz que espera avidamente por um embate.
— Chame os seguranças, Erick! — rosna Helena.
— Oliver Jonas Queen, não é esse o seu nome? — o almofadinha passa por mim, fechando a porta atrás de nós.
— Você é um babaca! — seguro-o pelo braço impedindo que dê qualquer outro passo. Arremesso seu corpo sobre o pequeno sofá do escritório, Erick gargalha maleficamente ao cair, ele não parece nem um pouco preocupado com a minha descoberta.
— Helena. Saia. — ele ordena à vadia que está parada como uma estátua.
— Mas Erick... — Helena bate o pé sob a ordem, mas o olhar espreito de Erick a faz desistir de toda a resistência. Ainda completamente desalinhada e amarrotada a morena de olhos azuis marcantes sai por uma porta secreta nos fundos do escritório, criando um caminho de chamas por onde passa. Conheci Helena Bertinelli no McGee’s, um pub tranquilo da cidade, ela estava encantadora conversando com algumas amigas, pode parecer impressionante, mas a megera tem amigas ou as paga muito bem para ser ouvida. Eu estava exausto de um dia turbulento na clínica, só gastaria de colocar toda a frustração para fora através de um maravilhoso orgasmo. Mas foi aí que o meu dedo podre entrou em ação, ele não brincou em serviço e escolheu a única pessoa que o meu querido pau não podia pensar em entrar. Por incrível que pareça a noite foi agradável, eu consegui o que queria e dei a Helena o que ela almejava. Dizem que errar é humano e que a burrice é persistir no erro, então segui persistindo pela segunda noite, pela terceira noite e assim em diante. E só pude perceber o péssimo ser humano que estava convivendo, porque eu via como tratava seus empregados, inclusive Felicity e foi somente assim que decidi dar um fim no que estava criando com Helena. Um monstro.
— Por que está rindo? — pergunto tentando controlar minha fúria pelo apertar dos meus punhos.
— Porque é simples. — Erick Dallas ainda tranquilo se levanta, ele arruma sua gravata e coloca sua camisa social por de baixo da calça grafite. Meneia a cabeça de forma com que eu escute o estalar do pescoço, eu involuntariamente o sigo até a mesa central onde ele abre uma das gavetas sacando um talão de cheque. — Quanto você quer para ficar com a boca fechada?
A gota d’água transborda o copo.
Puxo o colarinho da camisa social de Erick o trazendo para cima da mesa central, ele inclina o corpo e seus olhos prontamente se arregalam encima dos meus que riscam fúria. Eu o balanço para frente e para atrás de forma com que sua face fique tão vermelha quanto um pimentão, as veias estão saltadas e ao contrário do que eu via antes, uma risada sarcástica, agora enxergo certo pavor.
— Você pensa que todos são como suas putas? — sussurro.
— Está escolhendo o pior dos caminhos. — ele rosna.
— Há quanto tempo está fazendo isso com ela?
— Há tanto tempo que não sou capaz de me lembrar... — um gosto amargo surge na minha boca, é algo tão horrível que me faz querer voltar a vomitar. Agora estou mais cego, eu puxo o corpo de Erick por cima da mesa arrastando tudo o que está sobre ela que cai ao chão fazendo certo estrondo, mas pouco me importo. Ainda segurando-o com uma das mãos o colarinho, acerto em cheio meu outro punho na sua boca que logo incha. Meus pulmões ampliam me preparando para uma série de golpes e da minha boca não sai uma única palavra, porque pensar no antro de maldade que Felicity está submetida a viver com esse homem, me traz ódio. E não é um ódio por estar completamente amarrado a ela, mas sim uma raiva cega por um ser humano tão incrível estar sendo enganado da pior forma possível, por uma pessoa que se diz amar.
— Vou acabar com você, Erick. — antes que eu consiga finalizar mais um golpe, ouço a porta se abrir atrás de mim e braços robustos me arrancam de cima do almofadinha que novamente volta a sorrir maleficamente. Ele se levanta do chão onde estava e cospe o sangue que escorre da lateral dos lábios.
— Leve-o! — ele ordena aos brutamontes.
— Eu vou contar a ela. Tudo. Felicity vai dar um belo chute nessa sua bunda branca! — tento reagir à força constante que os homens vestidos de preto colocam sobre o meu corpo, mas antes que possamos sair pela mesma porta camuflada pela qual Helena saiu, sou pego desprevenido por uma força no meu rosto tão agressiva que no mesmo instante me vejo perdido em uma imensa escuridão.
~~~
Sou acordado pela água fria que bate fortemente contra minha face, eu me assusto e tento impulsionar o corpo para trás quando percebo que estou de joelhos com as mãos amarradas atrás das minhas costas. Engasgo pela quantidade de água que aspirei à medida que sofri com o impacto da água gelada.
— A bela adormecida resolveu acordar... — Erick se aproxima com um cassetete de polícia em uma das mãos, ele se diverte com o objeto até tocá-lo no meu queixo e erguê-lo.
— Que lugar é esse?
— Não importa o lugar que estamos... Eu só vou perguntar mais uma vez, considere-se no seu dia de sorte. — ele sorri plenamente. É a primeira vez que o vejo na versão que mais se aproxima de quem realmente é, inescrupuloso e maldoso. — Quanto você quer para ficar com boca fechada?
— Felicity! Eu a quero e não vai ser você que conseguirá me calar! — tento me levantar para atacar novamente Erick, mas sou impedido pelo par de algemas que também se encontram prendendo minhas pernas, e logo, recebo outra risada divertida de Erick que balança a cabeça negativamente.
— Eu acho que posso te ajudar a mudar de ideia... — ele bate com o cassetete na palma de uma das mãos dobrando os joelhos na minha frente. Mesmo com a falta de claridade consigo fitar o fundo dos seus olhos, eles são profundos e parece não terem fim assim como um buraco negro que suga tudo ao redor. Não há sentimentos, tampouco humanidade.
— Fazer isso seria burrice da sua parte, eu fui visto pela última vez entrando no seu gabinete, as pessoas ligariam os pontos.
— Não seja ingênuo, sei fazer isso sem deixar marcas.
Erick Dallas sussurra ao pé do meu ouvido com sua voz extremamente calculista ao mesmo tempo em que faz sinal para um dos capangas a sua esquerda que assente trazendo mais um balde repleto de água fria, eu comprimo os olhos esperando pelo novo impacto que, desta vez, está com pequenos pedaços de gelo. O meu corpo estremece ao senti-la por cada extensão, a esse ponto meus dentes já se batem entre si. Logo, outro capanga surge pela esquerda com um livro grosso entre os braços e o mesmo é colocado na altura do meu abdômen estrategicamente, e sem nenhuma espera, Erick espanca o livro com toda a força com o cassetete e a colisão contra meu corpo me faz gemer. Após a primeira porrada um novo balde com a água é arremessado sobre mim sem pena o que me faz afogar instantaneamente.
Eu rio em resposta.
Estou rindo histericamente.
De dor.
De nervoso.
— Covarde...
— Vamos lá Oliver, brinque comigo!
A segunda pancada tem menos força, elas estão sendo intercaladas com baldes de água fria. Mas logo vem a terceira, e então minha cabeça pende para baixo exausta pelo frio e pelas colisões dolorosas, estou respirando com certa dificuldade e no momento em que vou receber a quarta pancada a voz trêmula de um dos seguranças o impede.
— Chefe isso quebrará as costelas dele, temos que parar!
— Cale a boca Max! — Erick acerta a quarta pancada no meu abdômen me deixando sentir um gosto salgado na boca o que faz parecer ser sangue. Ele pega pelos meus cabelos curtos levantando minha cabeça, minha visão agora é turva, mas devido à proximidade consigo enxerga-lo, ele está com o próprio inferno nos olhos e sua voz é rasgada. — Quanto você quer?
— Você vai ter que me matar...
— Foda-se! — ele grita ferozmente arremessando o cassetete para longe. Anda de um lado para o outro incomodado. — Você acha que vai conseguir destruir todos os meus planos? Felicity é importante para os meus negócios... Ela é a testa-de-ferro.
— O que? — pergunto arrastado, mas sou ignorado.
— É... Você não vai desistir, não é? — Erick busca na parte interna do seu paletó um envelope camurça dobrado. Ele puxa um pequeno banco de madeira se sentando a minha frente e eu permaneço com minha cabeça pendida, estou atordoado e com medo de que a dor forte do meu abdômen me faça alucinar, tudo o que não poderia acontecer agora, justamente agora. Então ele começa a ler pausadamente uma lista de coisas que fiz no passado, parece uma ficha policial. É a merda de uma ficha policial com todos os delitos que cometi durante minha adolescência. No entanto, o crápula decide ir mais longe, ele atinge o meu ponto mais fraco, o que me traz mais dor do que todas essas pancadas que recebi. — Thea Dearden Queen.
O simples tocar no nome de minha irmã me faz nutrir forças para me levantar, mas o chute de um dos brutamontes nas minhas canelas me faz voltar a ficar de joelhos.
— Não ouse...
— Então esse é o seu ponto fraco? — ele ri perniciosamente. — Homicídio culposo... Interessante.
— Se você encostar um dedo nela eu vou...
— Max! — o capanga assente a ordem e arremessa um novo balde repleto de água fria. O frio associado à dor me faz alucinar, trazendo lembranças de um passado atormentador.
Flashback
— Ollie, eu não sou mais uma garotinha... Não precise me colocar na cama e contar histórias para dormir. — cobri Thea com o cobertor até a altura do seu busto finalizando com um demorado encostar dos lábios na sua testa. Eu sempre fazia isso, todas as noites, mesmo que não passasse a noite na Mansão Queen esperava a hora de dormir para coloca-la na cama. The estava coberta de razão, ela tinha dezessete anos e não era mais a minha garotinha, mas eu sentia a necessidade de tê-la sobre minhas asas. Afinal de contas, as irmãs caçulas sempre serão as irmãs caçulas.
— Está certa, mas nunca vou me acostumar com essas novidades! — sorri timidamente me regozijando da imagem perfeita da minha pequena.
— Quando me deixará ir com você a uma dessas festas da fraternidade? — ela perguntou animada, visivelmente percebeu o quanto eu estava arrumado e exalando o perfume que me deu para momentos como importantes. Além de ser sexta-feira, eu costumava sair todos os dias da semana, mas as sextas-feiras tinham um lugar especial, era a noite de ensinar aos novatos como encher a cara do mais puro álcool e enlouquecer com a melhor erva.
Não é a primeira vez que Thea me faz um pedido desses, na verdade, eu já perdi as contas. Mas não há possibilidades de deixa-la me acompanhar a lugar desses, minha garotinha não tem idade e muito menos estômago para conviver com um bando de malucos aloprados pelo álcool.
— Nunca! — me levantei da cama dando um último toque na camisa xadrez e rapidamente observei um filhote de leoa levantando da cama para me atacar. No início conti uma risada, mas não consegui segurá-la por muito tempo. — Não iremos começar de novo com essa discussão, ok? O papai e a mamãe concordam comigo, isso não é lugar para você.
— Odeio quando você se comporta feito um machista! — ela cuspiu as palavras com ranço e cruzou seus delicados braços sobre o peito.
— Volte para sua cama mocinha e tenha bons sonhos. — ignorando o bater dos pés da pequena me virei em direção à porta tocando à maçaneta.
— Eu te odeio! — Thea ladrou como um cão que não morde.
— E eu te amo mais do que a minha própria vida, maninha. — dei de ombros sem esperar por qualquer resposta e saí pela porta indo em direção à saída da Mansão Queen, encontrando Tommy debruçado sobre minha caminhonete a minha espera.
***
O lugar era sujo como a casa de um adolescente que foi “esquecido” pelos pais, as repúblicas costumavam ser assim. Já fazia um bom tempo que estava lá acompanhado de Tommy que bebia como um gambá desesperado, e claro, eu estava percorrendo pelo mesmo caminho sem volta. De um lado havia casais se pegando sem o menor pudor pelas paredes, do outro lado havia novatos tendo suas cabeças raspadas pelos mais antigos da fraternidade, funcionava como um rito de passagem.
— Homem, isso aqui está o céu! — Tommy engoliu sua vodka russa pura de uma só vez. Eu apenas ri o acompanhando na mesma dose e comprimindo meus olhos à medida que o álcool descia pela minha garganta.
— Impressão minha ou está ficando cada vez mais cheio? — as festas de início de período sempre eram cheias, mas não como dessa vez. Há pessoas de todos os tipos aqui dentro, algumas eu conheço e outras nunca vi na minha vida. É o que costuma acontecer quando já está se formando e deixando seu lugar para ser ocupado por outro membro da fraternidade. Um tão foda quando você tenha sido.
— Dylan disse que a catraca lá embaixo está liberada, parceiro! Ou seja, hoje eu tirarei a virgindade das meninas em troca de um álcool do bom!
— Deixe de ser um completo otário, isso é crime! — dei com o cotovelo no seu abdômen com certa força o que fez grunhir. Eu podia ser tachado como bêbado, maconheiro e irresponsável, no entanto, sexo com menores de idade sempre me pareceu nojento, ainda mais quando relacionado à troca por bebidas e drogas. Nunca me pareceu certo esse tipo de acordo, mas era isso que costumava a acontecer nesses lugares, aqui não existiam leis.
— Eu sei Ollie, eu só estava... Brincando! — Tommy alisou seu abdômen.
— Você é um babaca! — dei um trago profundo no quinto cigarro de maconha da noite. Era difícil eu me sentir louco, então eu não me importava de extrapolar, minha noite só estava começando. — Preciso mijar.
— Sinta-se a vontade, alteza. — disse Tommy ironicamente.
Alcancei uma garrafa de cerveja das mãos de um dos novatos à medida que tragava o meu cigarro indo em direção ao banheiro masculino. Mas fui surpreendido pela colisão com um corpo feminino conhecido, ele era magérrimo e sua bunda era maravilhosamente alinhada a ele, com toda a certeza eu reconheceria esse par de lapas até mesmo de olhos fechados. Laurel sorriu ao destilar seu olhar perturbador, é claro como as águas cristalinas que seu esbarrão foi proposital. Ela de forma direta me empurrou contra a parede ao lado do banheiro e iniciou lentas esfregadas com seus seios contra meu peito. Eu apenas ri voltando a tragar meu cigarro, e antes que eu pudesse expelir a fumaça, Laurel me cobriu com os lábios sugando toda a fumaça para si.
— Espero que esteja sem calcinha. — sussurrei ao pé do seu ouvido. Laurel estava vestindo uma mini-saia colada nas suas curvas, o misto de álcool e droga estava me deixando com tesão. Eu conhecia Laurel da minha infância, nós transamos pela primeira vez e tínhamos intimidade o bastante para não precisar dos mesmos papos chatos sobre “conquista”. Eu sempre a queria e ela estava sempre disposta, qual era o problema de unir o útil ao agradável?
— Você vai precisar conferir... — sua mão agarrou minha camisa pelos botões, puxando-me na direção de um dos vários quartos da república. Daríamos sorte se o que entrássemos estivesse vazio, e caso não estivesse, teríamos que dividi-lo e isso me parecia uma boa ideia.
— Espere... Eu preciso tirar a água do joelho! — travei minhas pernas em frente ao quarto. Estava realmente apertado, a cerveja tem um efeito diurético sinistro.
— Nunca ouviu dizer que gozar com vontade de fazer xixi é muito mais interessante? — Laurel voltou a sussurrar, ela arrancou a cerveja da minha mão e a tomou totalmente em apenas um gole. O líquido chegou a escapar pelos seus lábios escorrendo pelo queixo, o que me deixou ainda mais duro.
— Eu não sabia que estava com tanta sede... — mordi meu lábio inferior e logo dei o último trago no meu cigarro, jogando a guimba para o lado. Que se foda a urina, eu preciso dar umas belas estocadas nessa mulher.
Sem mais esperas grudamos nossos conhecidos lábios, o beijo não havia calma era rápido como um foguete. Eu só queria aliviar a tensão que estava dentro das minhas calças e Laurel queria o mesmo, ela sempre queria. Nossos passos nos fizeram caminhar até a porta do quarto que para nosso alívio se encontrava encostada. Eu a empurrei com um dos meus braços e finalmente adentrei, estava ocupado demais para fechá-la, mas grunhi ao ter que interromper o beijo para trancá-la. E ao me afastar da insaciável loira a minha frente me deparei com um casal se pegando freneticamente de baixo da penumbra do quarto.
— Companheiro, será que poderíamos dividir o quarto? — perguntei animado, minha visão um pouco turva.
— Só se a cama for nossa. — o rapaz estava sem sua camisa e puxou a menina pelos braços para perto da cama, um lugar mais iluminado. E o meu choque foi tão certeiro quanto à bala de um revólver, a menina que parecia embriagada, coberta apenas por suas roupas íntimas era Thea Queen, minhas irmã. A minha garotinha que tanto guardei de baixo das minhas asas estava se agarrando com um estranho em um quarto sujo de república.
— Que merda é essa? — comprimi meus olhos buscando por uma melhor visibilidade. Thea me encarou por certos segundos até gargalhar cobrindo sua boca como uma criança que acaba de ter sua arte descoberta.
— Ops! — ela soltou.
— Não estou acreditando... Não posso acreditar! Você largue ela e vá embora, antes que eu quebre a sua cara. — voei como um leão agarrando o fino braço de Thea que tentou me empurrar, enquanto o rapaz assustado corria para fora. Ela não estava tão bêbada como parecia, porque ela começou a bater os pés sobre o chão novamente como uma menina mimada.
— Me solte, Ollie. Me solte agora! — suas mãos riscavam o meu peito. Céus, eu estava tão bêbado que mais um pouco seria vencido pela força de Thea.
— Não irei soltá-la. Como conseguiu entrar? — perguntei transtornado, embalando seu pequeno corpo com a minha camisa xadrez.
— Se esqueceu que carteiras de identidade podem ser falsificadas, maninho? — sua pergunta irônica me deixou ainda mais puto.
— Oliver, você precisa se controlar! — Laurel gritou de longe.
— Não se meta Laurel! — a respondi.
— Então é assim que as coisas funcionam? Você, o macho-alfa, pode fazer o que quer da vida enquanto eu, a menininha intocável, fica presa no “Castelo dos Queen’s”? Eu cansei, Ollie. Cansei de todo esse cuidado, eu quero estar com você, viver da mesma forma que você... — Thea se defendeu.
— E você acha que viver é sinônimo de estar aqui bebendo e transando com qualquer um? — sacudi seu corpo descontroladamente, assustando-a.
— E isso não é viver? — ela perguntou transtornada.
— Não. — murmurei envergonhado.
— “Faça o que eu diga, mas não faça o que eu faço.”? Funciona assim? — Thea suspirou frustrada. — Você não é um exemplo...
Se eu não estivesse tão preso ao álcool rebateria as palavras de Thea, mas ela tem razão. Sempre fui um cara irresponsável e não escondia meus erros de ninguém, eu não me preocupava com eles. No entanto, a todo o momento eu queria mostrar a minha pequena que aquele era um caminho sem volta, um caminho obscuro que eu tinha mergulhado profundamente. E que se fosse necessário iria até o fim do mundo para impedi-la de seguir os mesmos passos que eu, porque ela era o meu anjo e eu a protegeria.
Até os meus últimos dias.
— Chega, eu vou tira-la daqui! — puxei seu corpo coberto pela minha camisa, mas Thea apresentou resistência.
— Eu não vou, o álcool ainda não acabou!
— Você é menor de idade, Thea!
— E quando você se importou com as leis? — ela ironizou mais uma vez.
— Se eu a deixasse aqui... Amanhã quando o porre tivesse passado, você sentiria o quanto é pesado o sentimento de arrependimento. — meneei a cabeça à medida que e a coloquei ainda sob resistência encima dos meus ombros. Thea começou a gritar por “Socorro”, mas de nada adiantou, a música alta afobava os gritos. E atrás de mim Laurel tentava me conter, ela parecia um cachorrinho puxando pela barra da minha calça. Até que alcancei minha caminhonete, expulsei algumas pessoas que bebiam suas cervejas escorados sobre a traseira.
— Você não pode dirigir assim, Ollie! — Laurel se enfiou na frente.
— Eu não erro o caminho de casa. — empurrei o corpo de Laurel para o lado e finalmente arremessei Thea para dentro a trancando. Em seguida, entrei na caminhonete procurando pelo encaixe das chaves.
— Eu quero distância de você! — gritou Thea.
— Pequena, por favor, deixe-me cuidar de você! — minha voz soou como um pedido cansado.
— Isso é ridículo. — ela tentou abrir as portas em uma tentativa falha.
— Não estou fazendo isso só por você... — ligo a caminhonete, acelerando em direção à estrada. Thea cruza os braços e os seus lábios formam o bico conhecido de quando eu me negava de leva-la ao parque nos finais de semana. A fraternidade não ficava tão longe da Mansão Queen, estava com meu corpo bem próximo do volante, espremendo meus olhos em direção à pista um pouco apagada.
— Pare o carro, eu quero ligar para a mamãe. — ela voltou a fazer suas pirraças de uma típica pré-adolescente.
— Que inferno, Thea! — freiei a caminhonete com certa força, fazendo com que nossos corpos permanecessem ainda em movimento. Eu soquei o volante despejando toda a minha fúria guardada, e somente assim, consegui silêncio.
— Você nunca agiu assim comigo... — senti na sua voz um medo desconhecido.
Os ombros de Thea caíram, sua feição amedrontada apertou meu coração dentro do meu peito. Eu queria abraça-la, eu só precisava tê-la em meus braços para me acalmar. A minha pequena estava atordoada com um amontoado de sentimentos que não estava acostumada a lidar, ela não queria ser uma adolescente inconsequente, ela só precisava de atenção. Da minha atenção, mostrar-me que eu tinha que ficar mais vezes em casa, que sentia a necessidade de partilhar o meu tempo com a sua presença, porque era importante para ela. E como um cego nunca consegui enxergar até agora, até ela se submeter a minha vida para me ter por perto.
— Desculpa, minha garotinha... — sussurro ao tocá-la no queixo.
— Ollie, eu...
Suas palavras foram cortas por um clarão que nos atingiu em cheio ao mesmo tempo em que eu gritei pelo seu nome. Mas minha voz não conseguiu ultrapassar o barulho do impacto que nos lançou para longe.
Várias vezes.
Os estilhaços de vidro foram jorrados sobre nós enquanto nossos corpos batiam contra todas as extensões da lataria pela falta do cinto de seguranças. Não totalmente fora de mim, tentei segurar as mãos de Thea que desmaiou no momento em que algo nos atingiu com força, porém as mesmas mãos que a pegou nos braços nos seus primeiros dias de vida, e que agora, tentavam socorrê-la perderam as forças. Porque um breu tão escuro também me levou.
***
O sacolejo grosseiro dos seguranças de Erick consegue me fazer voltar, literalmente voltar. Meus olhos se abrem e não consigo conter uma respiração profunda seguidas de uma tosse cansada.
— Pensei que havíamos o perdido. — Erick desdenha.
— Thea! — sussurro.
— Bingo, chegamos à parte mais importante. — ele volta a se sentar, levantando meu rosto cansado. — Eu tenho as minhas mãos o laudo que permite o desligamento dos aparelhos que fornecem vida a sua irmãzinha...
— Você não pode, por favor... — as lágrimas agora escapam pelos meus olhos. É inevitável.
— Sim... Eu posso. — Erick dá de ombros. — Como prefeito tenho acesso a esse tipo de documentos, posso muito bem alegar que Thea está em coma há muito tempo e que a nossa grandiosa Nova Iorque está passando por momentos difíceis de racionamento. Seria fácil demais Oliver.
— Isso é doentio! — grito com o restante de forças que me restaram.
— Você já a matou, eu só faria o favor de deixa-la descansar!
— Ela vai acordar, eu sei que vai.
— Só vai depender da sua escolha.
— Eu não contarei a Felicity! Não contarei... — minha voz sai dentre um misto de choro e exaustão, eu choro como um fracassado. Minhas lágrimas escorrem até os meus lábios, as gotas são quentes e salgadas.
— Ótima escolha. — Erick volta a guardar o envelope dentro do paletó com um intragável sorriso nos lábios. — Max, dê um jeito no galã.
Mais uma vez sou surpreendido pela escuridão.
~~~
Felicity Smoak
Nunca estive tão convicta sobre uma decisão.
Estou desempregada?
E agora a poucos passos de jogar para o alto um casamento dos sonhos?
Com Erick Dallas?
Prefeito de Nova Iorque?
Sim, sim, sim, sim e sim.
Mas eu busco o ar com dificuldade após subir lances de escadas até o andar do aparamento de Oliver. Apoio minhas mãos sobre os joelhos na tentativa de acalmar um pouco meus nervos que estão pulando feito pipoca. Não deveria ser tão difícil assim tomar decisões, mas como eu disse estou a poucos passos de jogar para o alto um casamento dos sonhos, é uma decisão tão certa quanto uma equação matemática. Agora eu só preciso tomar coragem para dar o próximo passo e isso inclui diretamente a pessoa mais insuportável que conheço, o meu vizinho infernal.
Ao caminhar pelo corredor sou abordada por Buggy que pula no meu corpo de forma estranha, ele não está fazendo a festa que costuma fazer. Pelo contrário, ele está latindo descontroladamente me fazendo acompanha-lo, de início estranho o seu alvoroço, mas o sigo até me aproximar à porta de Oliver que está escancarada me deixando um pouco desconfiada. Meus passos diminuem a velocidade na tentativa de não fazer nenhum barulho suspeito além das latidas de Buggy que adentra o apartamento sem cautela alguma. Encostando sobre a parede, decido colocar meu rosto na fresta da porta e enxergo de longe o corpo de Oliver largado sobre o chão. Meu peito se aperta e minhas pernas involuntariamente o alcançam sem se importarem com um possível perigo.
— Oliver! — seguro sua cabeça apoiando-a nas minhas pernas. Ele está molhado e tem resquício de sangue na ponta dos lábios. Eu volto a balança-lo com cuidado até que seus olhos arregalam, engasgando-se com a própria saliva.
— Estou alucinando? — sua voz é entrecortada.
— Sou eu, Felicity!
— Não, você não pode...
Com certa dificuldade ele se levanta mantendo distância, as mãos estão pregadas no abdômen como alguém que sente dor. Oliver meneia a cabeça comprimindo os olhos, estou começando a ficar desesperada, e novamente, minhas pernas são guiadas para perto, eu preciso tocá-lo mais uma vez.
— O que fizeram com você?
Um silêncio atormentador surge.
Oliver abaixa a cabeça fugindo de qualquer troca de olhares.
Estamos tão próximos.
— Eu fui assaltado...
Não preciso de um distintivo preso à cintura para perceber como Oliver está mentindo descaradamente. No seu pulso direito ainda está o seu relógio, se realmente tivesse acontecido um assalto esse objeto certamente não estaria mais ali. Tem mais uma coisa muito estranha acontecendo, os seus olhos azuis estão apagados e em momento algum se dirigiram aos meus, estão fugindo, mantendo-se distante. Eu gostaria de não me importar, mas não consigo mais fazer isso, simplesmente porque mergulhei de cabeça tão profundamente que a frieza de Oliver me desajusta, me sufoca tanto quanto aquele vestido de noiva que mesmo sendo o meu número não coube em mim, não foi feito para mim.
— Por que está mentindo? — minha pergunta direta o repele.
— Droga Felicity! Você não poderia estar aqui... — sua voz mais grave o faz tossir descontroladamente, suas mãos correm para a altura do abdômen o apertando. Agora eu vejo dor nos seus olhos que não conseguem se esconder. Automaticamente minhas mãos correm sobre as suas, e então, nosso campo de visão se torna único permitindo com que eu observe suas íris azuis avermelhadas com mais clareza. A ideia de imaginar que lágrimas percorreram por elas apertam a boca do meu estômago de uma forma desconhecida.
— Eu vou leva-lo ao hospital, você precisa de ajuda. — tenho suas mãos arrancando as minhas.
— O que pensa que está fazendo? Ontem à noite me pediu para beijá-la, foi incrível, seus lábios... Nunca conheci outros tão macios. Eu queria mais, prendê-la nos meus braços, mas você foi embora. Chega de joguinhos, acabaram as implicâncias, eu quero você longe daqui, longe de tudo! — essas palavras poderiam me trazer dor se fossem ditas com verdade, porém não há clareza nelas. Parece que Oliver está cuspindo elas ao vento para me manter longe, mas não está funcionando porque minhas pernas não se movem. Então seu corpo pesado me empurra, os passos lentos e cambaleantes vão em direção ao quarto, até que a pouca força o faz perder o controle, a queda é evitada pelos seus braços que se agarram a coluna de madeira da porta.
— Se quiser que eu vá embora terá que ser muito mais convincente. — seguro-o pelos braços apoiando seu corpo pesado sobre o meu, Oliver desta vez, apenas me responde com o pequeno balançar positivo com a cabeça. Nos arrastando com dificuldade passamos pelo quarto até o banheiro, eu o sento sobre a privada e instintivamente Oliver tira sua jaqueta encharcada e em seguida vai desfazendo a camisa de botões. — O que pensa que está fazendo?
— Ainda não conheço nenhum método de se tomar banho com roupas. — ele responde mal-humorado entre algumas tossidas.
Pronto.
Felicity Smoak seja bem-vinda novamente ao seu vizinho detestável.
— Como ainda consegue se manter tão insuportável? — reviro os olhos.
— É simples, ainda não estou morto. — à medida que o tecido úmido da camisa passa pelos seus braços tensionados consigo enxergar os hematomas por toda extensão. Eles são escuros e inchados, e subitamente me sobe um sentimento de angústia forte que faz um misto de lágrimas nascerem das pontas dos meus olhos. Eu as seguro para que não escapem pelas maçãs do meu rosto.
— Isso é desumano... — meus dedos se permitem passear pelas pontas roxeadas do hematoma e correspondendo ao meu toque a pele de Oliver arrepia inteiramente. Sou traída por uma lágrima que escorre e instintivamente abaixo minha cabeça tentando escondê-la, mas falho miseravelmente quando sua mão delicada ergue meu queixo.
— Por que está chorando? — sussurra.
— Eu não sei... — os meus dedos continuam descendo pelas manchas até pararem no cós do seu cinto. Eu respiro fundo tentando evitar que mais lágrimas possam descer como cachoeira, minhas bochechas estão pegando fogo e meus sentidos um pouco confusos. — É como se eu pudesse sentir a sua dor.
— A dor dessas marcas não chega perto da dor que é ter que abrir mão de algo tão importante. — suas palavras são tão baixas que eu preciso aproximar mais nossos corpos para escutá-las. E agora estou sendo aquecida pelo calor que emana de cada partícula de Oliver, é o mesmo calor que senti na noite passada quando minhas entranhas gritaram antes que minha boca pedindo que ele me beijasse.
— Do que está falando? O que fizeram com você?
— Eu já disse tudo, foi um assalto...
— Está mentindo.
— Não me faça ter que te afastar de novo.
— E o que faço se a sua dor está se tornando minha também?
A claridade do banheiro é pouca, o fundo do apartamento é localizado em lugar oposto ao sol o que nos faz ter pouca visibilidade um do outro. Mesmo assim eu me afasto, os músculos de Oliver contraem assim que sentem a nossa distância, mas eu preciso ter uma visão de todas essas marcas tão agressivas. Elas parecem gritar algo que não consigo entender, minhas mãos voltam a percorrê-las com cuidado e sinto um olhar pesado as seguindo. De forma mecânica volto a me aproximar, desta vez, com minha boca tocando sua pele tão machucada.
— Baby...
— Eu vou cuidar de você.
Simultaneamente nossos olhos se fecham, os meus lábios seguem outro caminho até alcançarem os de Oliver. Ficamos parados por breves segundos, sentindo o cheiro um dor outro, a respiração pesada que corre das nossas narinas nos embriagando e quando nossos sentidos se tornam únicos eu permito que minha boca entreabra. As mãos firmes seguram minha pequena cintura inclinando nossos corpos que voltam a se mesclar dando início a um beijo terno, não há pressa, só precisamos sentir a mesma conexão que nos envolveu na noite do nosso primeiro beijo. A diferença é que agora eu não tenho medo das consequências, eu pouco me importo com elas.
Oliver dá passos para trás levando meu corpo junto ao seu, tropeçamos no degrau do pequeno Box que consegue nos arrancar uma risada entre o beijo. Logo sinto uma água quente bater contra nossos corpos, é incrível como nos conhecemos e ao mesmo tempo se torna engraçado, porque o pouco que conheço de Oliver nos restringia a apenas vizinhos que não se suportavam, mas não é só isso. O toque dos seus lábios tão doce nos meus é como se ele quem estivesse cuidando de mim, não é algo só carnal que sempre imaginei. Os braços firmes envolvem meu corpo com propriedade me embalando, me concedendo um lugar para que eu fique, eles me protegem da água quente que nos envolve e de vagar deixo com que o beijo se torne mais intenso. Minhas mãos percorrem delicadamente todo o peito largo de Oliver que geme nos afastando poucos centímetros para tomarmos um pouco de ar.
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— Não vai doer? — minhas mãos descansam sobre as marcas no seu peito.
— Eu tenho o remédio.
Os lábios carnudos de Oliver abocanham os meus sugando as gotas quentes da água que está sendo derramada sobre nós. Um calor se espalha por cada célula do meu corpo como uma corrente elétrica assim que sinto sua ereção se comprimir entre minha virilha, é algo que me arranca um demorado suspiro entre o intenso beijo.
A sensação de ser desejada é tão clara.
Como eu nunca havia me sentido.
Sorrateiramente minha camiseta vai sendo levantada e eu choramingo por ter que parar de beijá-lo para ter o tecido úmido passando por sobre minha cabeça. Oliver sorri divertidamente enquanto massageia nossos narizes molhados, arrancando-me também um sorriso altivo. Em movimentos rápidos ouço o clique do meu sutiã se abrindo e as alças do mesmo deslizam pelos meus braços, mas eu não desvio sequer um segundo os olhos dos de Oliver que parecem encantados, e ele não diz nada, apenas sou surpreendida pela sua boca que desliza sobre o meu mamilo túrgido. Ele dá toda a atenção que mereço, a esse ponto já estou tão molhada quanto uma lagoa.
Literalmente.
Ele levanta a cabeça. Suas pálpebras incrivelmente pesadas.
Nossos peitos estão levantando rapidamente pela respiração lascivamente pesada o que explica os vidros do pequeno Box estarem eroticamente embaçados. E de novo minha boca é impactada por um novo beijo que é diferente de todos os outros, esse está nos fazendo pegar fogo.
Movimentos rápidos nos deixam nus, nossas peles torridamente se tocando, esfregando-se, o membro duro de Oliver tocando minha coxa demonstrando o quanto me quer. E antes que eu consiga me mexer dentro dos seus braços fortes, sou deslocada para trás e ao trocar de posição sinto minhas costas se chocar com a parede fria atrás de mim que se contrasta com o calor dos nossos corpos. Me prendendo à parede sinto meus pés deixarem o chão e somente assim minhas pernas entrelaçam seu quadril acabando com todo o espaço entre nós, o que arranca um arfar profundo de Oliver entre o beijo. Minha entrada toca à cabeça de sua ereção que pulsa a me sentir e, agora, sou em que arfa. Continuamos nos acariciando e beijando como se fosse o último dia de nossas vidas, fazendo-me sucumbir com a pressão das nossas línguas quando se encontram.
Sua ereção árdua risca minha abertura verificando a umidade, garantindo que eu esteja pronta e a resposta vem quando desesperadamente assinto com a cabeça para que ele prossiga, e então, sinto cada centímetro do meu corpo derreter com a primeira estocada. Ele empurra lentamente, mas até o máximo.
E suspiro.
E grito.
Alto.
Sem pudor.
Todo meu relacionamento sexual com Erick envolvia timidez, chatice e uma indecisão que nos levava à rotina. E parávamos por aí. Somente agora, com Oliver, que estou vendo o quanto Erick e eu nos prendíamos. No sexo. Na vida.
A minha cabeça pendida para o lado dá acesso aos lábios quentes como o inferno que lambem a pele do meu pescoço. Os movimentos continuam tortuosamente lentos e profundos até o ritmo das batidas aumentar deixando com que seu abdômen bata contra o meu, e neste momento, o puro prazer nos faz se esquecer de qualquer dor.
— Estou chegando lá, baby... — sua voz proibida e safada me estimula.
— Isso é tudo o que consegue? — o meu riso é baixo, divertindo-o.
— O que mais você quer?
— Eu quero mais forte!
O quadril de Oliver responde à provocação aumentando as investidas sem pena. Eu gostaria de abrir a boca e implorar por mais. Mais fricção. Mais calor. Com sua testa no meu ombro e com sua rouquidão sensual, ele entoa:
— Jesus Cristo...
Agora tenho Oliver exposto.
Vulnerável.
Suas pernas bambeiam quando sinto uma explosão colidir com a minha umidade e eu estou caindo aos pedaços. Em êxtase. Os movimentos diminuem e se tornam irregulares, os meus pés voltam a tocar o chão enquanto minha boca é coberta por beijos cansados, estamos sorrindo de uma forma vergonhosa. É algo doce, gentil e adorável.
Com a ducha quente começamos a nos lavar e admirar cada curva de nossos corpos nus. Depois, Oliver nos enrola em toalhas grossas de algodão também aquecidas e caminhamos até a cama.
Nos cobrimos com o edredom.
Seus braços ao redor do meu pequeno corpo faz eu me sentir preciosa.
E, dentro do seu abraço, pego no mais profundo e cansado sono.
~~~
Ao tentar aconchegar meu corpo ao calor de Oliver, sinto sua ausência o que me faz acordar rapidamente. Parece ser tarde, mas não há nenhum relógio por perto para que eu comprove que horas são. Eu tateio minhas mãos pelo macio edredom, amarrando-o pelo corpo e lentamente me levanto procurando por Oliver à medida que passo pelos demais cômodos até encontra-lo pensativo apoiado na bancada da cozinha. Ele está simplesmente usando as peças que infelizmente sou obrigada a confessar que adoro, uma camisa de mangas branca e a famosa calça de moletom em um cinza claro, eu não sei se isso só acontece comigo, mas soa totalmente sexy.
Pigarreio.
— Está se sentindo melhor? — pergunto me aproximando, arrastando o edredom por onde passo.
— Sobre o que aconteceu... — Oliver meneia a cabeça e comprime os olhos.
— Shhhhh... — todo o dedo indicador na junção dos seus lábios o impedindo de continuar. — Eu não vou mais me casar com Erick!
— Como?
— Eu quero viver as consequências.
— Você não pode fazer isso... Não podemos continuar!
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