Neighbors
9 Capítulo 8 - Say you won't let go
Notas iniciais
Oliver Queen
— Às vezes, eu só gostaria que você realmente pudesse voltar a me escutar. Ando tão perdido, minha pequena... Chega a ser engraçado a forma de como me lembro dos seus puxões de orelha quando me repreendia e, talvez, eu precise de um daqueles agora. — suspiro enquanto observo o corpo de Thea interligado a um misto de tubos que se conectam aos aparelhos. Sua face está plena como todas as vezes que venho aqui para conversarmos. Eu costumo sentar ao seu lado em nossa poltrona para contar sobre minha vida, e claro, relembrar os momentos em que passamos juntos. Não é algo da minha cabeça, mas parece que ela pode me ouvir, eu até poderia vê-la sorrindo para mim quando a conto uma das minhas peripécias. Mas agora seria um daqueles momentos em que ela me dirigiria seu dedo indicador imponente e com a voz rude diria “Oliver Queen, você irá até a garota de quem quebrou o coração e tentará colá-lo de qualquer forma. É uma ordem, mocinho.”, no final ainda me daria tapas atrás da orelha como uma boa irmã mais nova. — Está ardendo. Sou capaz de sentir a impressão da mão de Felicity pregada na minha face direita, ela não poupou força. — reviro meus olhos ao me lembrar da forma com que fui recebido logo após falar uma das piores frases da minha vida. É claro que Felicity não entenderia os meus motivos, na verdade, ninguém entenderia. Mas precisava me responder daquela forma? É, precisava. Afinal de contas, agi como um perfeito cafajeste. — Mas o que eu poderia fazer? Me render a ela e acabar colocando você em risco? Erick Dallas me impôs ordens que infelizmente sou obrigado a seguir... Pelo menos até que eu consiga deixar você protegida. — minhas mãos estão apoiadas com cuidado sobre a de Thea, tão macia e quente, como uma menina que dorme profundamente. Eu a aperto, aproximando nossos rostos para que eu possa sentir sua respiração suave bater contra minha face, e não conseguindo me conter, uma lágrima escorre pelos olhos. — Me desculpa! Me desculpa se eu deixar que algo aconteça a você. De novo. Mas Felicity também precisa de mim. Mais do que nunca. — agora estou patético, as lágrimas só escorrem e o gosto salgado se mescla a minha saliva. — Eu prometo a você que vou lutar por nós, eu farei de tudo para que nada aconteça. Você confia em mim?
A porta à frente se abre e a enfermeira me faz um sinal positivo.
Foi rápido.
Eu respiro fundo limpando as lágrimas que passearam pelo meu rosto e finalizo minha conversa com Thea com um duradouro beijo sobre a testa como fazia antes de colocá-la para dormir. Em seguida, nutro ar nos meus pulmões e me dirijo para fora do quarto em direção a pequena recepção particular, encontrando de costas dois senhores um pouco angustiados.
— Obrigado por virem tão rápido. — tento esboçar um sorriso, mas falho miseravelmente. Minha mãe, Moira, começa com suas perguntas ansiosas.
— O que aconteceu a sua irmã? Ficamos assustados com a mensagem de urgência! — ela não esconde a preocupação. Na verdade, sempre foi assim, eu e Thea não podíamos apenas ralar os joelhos que para ela se tornava a Terceira Guerra Mundial. Era engraçado.
— Querida, tenha calma. — meu pai como sempre amistoso, ele massageia os ombros de minha mãe na tentativa de acalmá-la.
— Vocês poderiam me acompanhar? — ao assentirem, os levo até uma pequena sala de visitantes onde nos sentamos. Estou entrando em um estado de nervos, porque geralmente não costumo expor o que está acontecendo comigo. Mas agora é diferente, meu coração está sucumbindo dentro próprio peito, não consigo administrar a situação na qual me meti. De um lado eu tenho Thea indefesa numa cama em coma, e por outro lado, tenho a minha vizinha de mãos fortes. Odeio ter que confessar que estou completamente rendido. Porque eu a tive completamente, ela se entregou a mim como se fosse a sua primeira vez. Entregou nas minhas mãos sua intimidade, o seu carinho e principalmente, a sua confiança. E o que eu fiz? A joguei pela janela no momento em que me afastei, como um rato nojento. Eu a entendo, entendo todas as palavras rudes que me jogou e o tapa forte que me acertou. Ela se sentiu usada, e pior, eu também senti que tinha acabado de usá-la como um brinquedinho novo.
— Oliver, estou começando a ficar preocupado. — Robert fraqueja.
— Eu me apaixonei. — solto de uma vez só, como uma bomba.
E sou confortado por um estranho alívio.
— E o que sua irmã tem a ver com isso? — minha mãe pergunta confusa.
— Tudo, mamãe. — meus ombros caem em sinal de derrota. — O nome dela é Felicity Smoak, ex-futura esposa do prefeito de Nova Iorque. Se é que ainda posso me referir a ela assim...
— Ainda não estou conseguindo entender. — Moira insiste.
— O problema se chama Erick Dallas. — sou interrompido por meu pai.
— Deixe-me adivinhar... O noivo dessa menina? — ele pergunta.
— Exatamente. — bufo.
— Por que você sempre tem que nos envolver nos seus problemas? Bebidas, drogas e mulheres! Eu pensei que essa fase tinha sido esquecida no seu passado. Agora você está envolvido com uma mulher comprometida e de bônus ainda coloca Thea em risco? Novamente? — minha mãe se exalta, as veias finas sobem pelas têmporas e as palavras tão firmes me atingem. Todas as lembranças daquele fatídico dia voltam como se tivesse acontecido há poucas horas. O tom na sua voz é o mesmo, duro e marcante.
— Querida... — o meu pai sussurra.
— Eu descobri as sujeiras de Erick e quando disse que contaria tudo a Felicity, ele me raptou, me levou para um lugar escuro e me bateu. Eu não iria ceder, ele poderia continuar com a água fria e com os murros no estômago, mas eu não iria abrir mão de contar tudo a mulher por quem minhas pernas bambeiam. Até o momento em que ele tocou no nome de Thea. — minha cabeça involuntariamente se abaixa, porque estou envergonhado de ter que recorrer aos meus pais como uma criancinha que está sendo encurralada pelos garotos da terceira série. Mas eu não tenho escolha, não é fácil contar tudo a eles, precisar deles para que eu possa de alguma forma não ter que abrir mão de Felicity para salvar a minha pequena. Porque malditamente preciso das duas por perto mais do que preciso respirar.
— Ele encostou o dedo em você? Meu filho, isso é crime! — murmura meu pai, sua voz está em um misto de repulsa e ódio, enquanto que minha mãe me observa com seus olhos cheios de lágrimas que brigam para não escaparem dos olhos. É compaixão, estou sentindo depois de tanto tempo um pouco do amor que ela deixou de me mostrar.
— Erick disse que iria mandar desligarem os aparelhos de Thea caso eu falasse algo para Felicity. E, então, eu cedi. — dou de ombros.
— Meu bebê... — agora as lágrimas também estão nos olhos da minha mãe como um vírus que se replica. — Robert, esse homem poderia fazer tal atrocidade?
— Eu não deixarei! Amanhã estarei no gabinete desse homem para termos uma conversa. Ninguém toca o dedo nos meus filhos e sai por cima. — a voz do meu pai é entrecortada.
— Não! — o respondo de forma cortante. Deixar que meu pai vá atrás de Erick pode complicar as coisas para Felicity, eu poderia estar alucinando, mas me lembro com clareza de quando ele se referiu a ela como sua teste-de-ferro. Tudo me leva a pensar que ele tem um trunfo nas mãos e que a qualquer momento pode colocar Felicity em maus lençóis.
— Como não? — meu pai pergunta confuso.
— Isso colocaria Felicity em risco, eu não posso permitir.
— E como fica sua irmã nessa história? Ela está em uma cama de hospital desprotegida! Não posso permitir que corra riscos por sua causa novamente! — meu peito volta a apertar com as imposições de minha mãe. Me dói ter que concordar com ela mais uma vez, porque se tudo isso está acontecendo é porque decidi me permitir gostar de alguém de verdade. Mas o que posso fazer se eu não tenho a opção de impedir meu coração de se comportar como uma bomba prestes a explodir quando me aproximo de Felicity? Eu não sou um robô que possui um botão de liga e desliga. Não escolhi me apaixonar, muito menos por alguém tão insuportável quanto a minha vizinha. Alguém que ao mesmo tempo em que penso em colar a boca com uma fita crepe para não ouvir as implicâncias, também desejo beijá-la até os meus últimos dias.
— Merda! Eu sei que estou colocando Thea em risco mais uma vez. Não preciso que vocês cuspam isso na minha cara como se eu fosse um acéfalo. — o sangue sobe pelas minhas veias e decido explodir. Agora já estou de pé, e por alguns segundos, chego a assustá-los. — Preciso da ajuda de vocês para protegerem Thea, mas quanto a Erick, isso é um problema meu. Terminantemente meu. Não preciso que vocês confrontem esse crápula como se eu fosse um garotinho indefeso! Eu vou descobrir onde é o tendão de Aquiles de Erick, e quando eu descobrir, vou cortá-lo com minhas próprias mãos. E a queda dele vai ser de tão alto que Nova Iorque sofrerá por um tremor nunca antes visto.
— Oliver... — Moira murmura.
— No que podemos ajudar? — meu pai é tão direto que me choca. Eu não esperava que fosse concordar tão facilmente.
— Preciso de dois homens de tamanha confiança para ficarem na porta do quarto de Thea durante vinte e quatro horas. Não permitindo que ninguém que não seja nós entre ou saia de lá, que os enfermeiros sejam identificados e que nada de suspeito aconteça sob os meus olhos quando eu não estiver por perto.
Moira assente assustada.
— E quanto a Erick? — meu pai volta a perguntar.
— Ele é meu. — rosno.
— Oliver, meu filho, esse homem me parece perigoso... Afinal, ele te raptou!
— Tudo o que eu preciso é que Thea esteja bem, para que eu possa pensar em uma forma de tirar Felicity das mãos desse homem!
— Ainda hoje dois homens de total confiança estarão cuidando de Thea. — ele suspira à medida que aperta meus ombros.
— Você a ama? — Moira me pergunta baixinho.
— Talvez.
— Talvez? — ela torna a perguntar.
— Sim... — meus olhos caem sobre os da minha mãe, suas íris em um azul tão profundo me dizem o quanto ainda permanecem distantes. — Estou aprendendo a administrar tudo o que estou sentindo.
— Oliver? — Robert me chama. — Acabe com ele.
— Farei isso.
— Preciso ver Thea. — murmura minha mãe.
Meu pai concorda com ela enquanto acaricia suas mãos. — Se cuide meu garoto.
— Tudo bem. — sorrio de soslaio ao meu pai que sai pela porta antes que minha mãe. Agora ficamos a sós, por breves segundos que se tornam longos e tortuosos. — Sinto sua falta...
— Eu também, mas ainda não digeri tudo. — ela suspira. — Você promete que vai se cuidar?
— Prometo.
~~~
Erick Dallas
Estou temeroso.
Os meus planos andam superficiais demais, tudo parece estar perdendo as forças aos poucos, e eu não esperava ter que lidar com isso tão cedo. Felicity anda se rebelando, sinto que algo nela mudou, não é mais aquela garota que abaixava a cabeça para minhas ordens e caprichos. Talvez ter ordenado Helena que a despedisse tenha sido um erro, Felicity tem alma de proletariado, esse mero emprego de uma simples fotógrafa significava bastante. Despedi-la pode ter dado a ela uma força que no momento não é o que nós precisávamos, se eu buscava tê-la abalada nos meus braços após Helena puxar o seu tapete, agora sofro com as consequências reversas. Felicity ficou mais forte e destemida com toda essa história, sua voz, ações e o próprio olhar mudaram.
Se eu quiser continuar a tendo como um dos meus fantoches, preciso reverter o jogo e fazer com que esse casamento aconteça o mais rápido possível.
Meus pensamentos são desviados com o barulho da secretária eletrônica avisando que Helena Bertinelli está na linha, meus olhos reviram e sou almejado pela sensação de que vou perder preciosos minutos da minha vida por conta dessa ligação.
— O que eu disse a você sobre me ligar durante o expediente? — minha voz é rígida.
— Você não voltou a me procurar desde ontem, eu precisava saber o que aconteceu!
— Do que está falando?
— Está brincando comigo? Me refiro a Oliver e de que como fomos flagrados. Isso é pouco para você? — ela pergunta irritada, sua voz é tão gritante que afasto o telefone do ouvido para não ter meu tímpano sendo estourado.
— Ah, está se referindo ao leve mal entendido de ontem? — gargalho.
— Erick Dallas, você está brincando com fogo.
— Eu nunca me queimo, querida.
— Você tem noção do quanto estamos ferrados?
— Você anda frequentando as aulas de Pilates? Precisa relaxar um pouco Senhorita Bertinelli. — minha ironia é tamanha que eu poderia sentir a fumaça das ventas de Helena bater contra meu rosto.
— Eu não vou repetir a minha pergunta e você sabe quando não estou para brincadeiras. — ela é firme.
— O rapaz não abrirá a boca, eu dei um jeito nele. Digamos que eu tenho todas as cartas do jogo, e não, eu não tenho medo de usá-las. — eu rio divertidamente. Não sei explicar, mas é engraçado como isso infla o meu ego. Tenho Felicity como uma marionete, em poucos dias a sua assinatura recebendo meu sobrenome abrirá ainda mais as portas para mim. Helena Bertinelli é uma cadela insaciável, poucos dólares já cala sua boca e Oliver que pensei ser um problema, não passa de um fracassado acusado de homicídio culposo pelo acidente da sua irmãzinha. Por mais que eu tenha meus pés atrás sobre algumas das minhas atitudes, ainda tenho todos na palma da minha mão, porque a vida é como um jogo de Poker, enquanto se tem fichas, as apostas são altas.
E todas vencerei.
Todas.
— E quais seriam essas cartas? — ela pergunta curiosa.
— Um bom jogador não revela os seus naipes.
— Nem a sua parceira?
— Principalmente.
— Erick, não podemos vacilar! Não agora. — sua voz fraqueja. — Podemos nos encontrar hoje à noite?
— Não. Hoje à noite levarei Felicity para jantar, preciso trazê-la para mais perto.
— Leve a sem sal para jantar e venha dormir comigo! — ela bufa.
— Hoje não é a sua vez Helena, procure algo para fazer. Pinte as unhas dos pés, que seja! — antes que a cadela possa latir do outro lado da linha, finalizo a ligação. E meus pulmões soltam o ar somente uma vez. Estou livre, não há melhor sensação.
Três toques são dados à porta.
— Senhor Dallas? — a voz conhecida é da senhorita Parker, a loira burra que cuida da minha recepção. A contratei para ser minha secretária por um único motivo, seus seios apertados contra o decote são cordeais, os dois lindos melões sorriem para mim todas as manhãs, não há melhor forma de ser recebido em um dia de trabalho que será longo. Eu já passeei por ali, as curvas são firmes e ela grita como uma leoa, eu gosto disso, variar o cardápio. Helena não pode imaginar que durmo com minha secretária alguns dias da semana, ela acha que é a primeira amante, isso é tão patético.
— Senhorita Parker.
— Um homem deseja falar com o senhor.
— Ele tem hora marcada?
A voz altiva nos interrompe e um corpo tão largo quanto de um armário passa sobre ela sem cordialidade. É um homem negro dentro de um terno totalmente escuro, se estivesse com óculos também escuros e uma espingarda nos braços eu o confundiria com um dos Homens de preto. Eu faço um sinal positivo para Parker que assente nos deixando a sós. Eu tampouco conheço esse homem, mas pela imponência parece que não precisa seguir as regras de marcar uma horinha com O todo Poderoso.
— Erick Dallas, prazer em conhecê-lo. — o negro de grande porte estende sua mão em cumprimento. — John Diggle.
— John Diggle? — aperto sua mão e sou recebido por um aperto forte. Meus dedos não precisavam disso, muito menos a pele macia da minha mão. — Eu deveria conhecê-lo?
— Não se preocupe, eu sou novo por aqui. — ele sorri colocando sua pasta em couro sobre minha mesa. Ele meneia a cabeça e tira um envelope pardo de dentro dela, passando-o para mim. Um frio estranho corre pela minha espinha ao tocar no envelope, eu não estava esperando por nenhuma visita, todos os homens que mantenho meus negócios por de baixo do pano não costumam me procurar no meu gabinete. Nossos encontros são descontraídos em um bar qualquer da cidade para que ninguém possa desconfiar, e a presença desse homem que mal conheço não parece ser algo natural.
— O que tem nesse envelope? — pergunto desconfiado.
— É um termo que me dá acesso aos documentos referentes à economia de Nova Iorque, ele foi cedido pelo Tribunal de Justiça. — apenas os lábios de John se mexem, a face se mantém dura e os olhos pesados sobre mim como alguém que estuda cada partícula minha.
Estou fodido.
Não estava contando com uma visita tão inusitada e pelo que parece isso não é nada novo, conseguir um alvará do Tribunal da Justiça para ter acesso a todos os documentos da prefeitura não é trivial. Alguém está na minha cola, mas tão camuflado que eu não pude sentir sua sombra me perseguindo, o que me mostra que deixei algo fora do lugar perceptível que agora está me custando a liberação de todos os documentos que possuo sobre a cidade, todos os números, toda a renda que é dividida para os órgãos públicos e todo o dinheiro que de forma capciosa é desviado para uma conta particular nas Ilhas Maldivas. E aí é que mora o perigo, sou um economista de inteligência, eu soube esconder muito bem as minhas retiradas, todo o meu patrimônio não está no meu nome, eu não tenho nenhuma ligação com os desvios ilícitos, porque tenho uma testa-de-ferro perfeita. No entanto, tudo está acontecendo rápido demais, a presença de um promotor me farejando não era previsto e agora terei que me virar para que esse homem desista de colocar as mãos em documentos tão preciosos.
— E por que os documentos deveriam ser liberados para você? — minha voz não é mais receptiva. Meus músculos estão tensionados e os neurônios se batem entre si procurando uma forma de dar a volta por cima sem que pareça no mínimo desconfiável.
— Há rumores de que a prefeitura não está repassando verbas para alguns trabalhos sociais. — os olhos de um cão de guarda continuam me vigiando, cada minucioso movimento.
— Está insinuando algo, Senhor Diggle? — minhas mãos se apoiam sobre a mesa, meu corpo arqueia, e agora, nós estamos mais perto. A respiração é pesada.
— Eu deveria?
— Não, você não deveria. — dou a volta pela mesa, dobrando minha camisa social nos antebraços, estudando as palavras que serão ditas. Elas precisam ser certas e no momento ideal ou estarei assinando meu atestado de culpa. — Senhor Diggle, eu fui eleito pelo povo, sou querido, as pessoas apertam minha mão na rua. As senhoras rezam por mim nos domingos de missa e me dão terços abençoados. Acha mesmo que eu seria capaz de desviar dinheiro de causas sociais? Sou o prefeito de Nova Iorque que mais participa de eventos beneficentes, aliás, conheci minha futura esposa em um desses. Ela é humilde assim como a essência do povo que me elegeu. Não acha que se eu tivesse problemas com minha índole eu seria tão querido?
John Diggle sorri de soslaio. — Não estou aqui para julgar o quanto as pessoas te admiram, senhor prefeito. Eu sou responsável por checar a burocracia, se os números não chegam a mim eu devo ir atrás deles!
— Parece que há um grande erro por aqui... Homens da minha confiança enviam os papéis com todos os gastos da cidade semanalmente. — eu poderia estar mentindo, mas não estou. Toda semana, como um mantra, envio pastas organizadas com todos os gastos, referentes a tudo. Mas parece que esses papéis não estão convincentes, os números não são tão realistas assim, mas quem se importa? Pequenas quantias são desviadas, eu preciso manter a boca de algumas pessoas fechadas e isso não é barato. Para que eu possa fazer uma omelete alguns ovos devem ser quebrados, mas até então nunca alguém tinha desconfiado, não até agora.
— Estão maquiados. — ele cruza os braços, arqueando uma das sobrancelhas.
— Está me chamando de corrupto, senhor Diggle?
— Prefeito Dallas, não coloque palavras na minha boca. — ele volta a menear a cabeça, e estou miseravelmente falhando.
Abro o envelope pardo, observando que o termo de liberação não está assinado. É a minha chance de ganhar pelo menos alguns dias ao meu favor. É claro que com isso fará de mim um possível suspeito, mas se John Diggle colocar as mãos nos documentos reais que estão guardados a sete chaves em um lugar que só eu tenho acesso, isso não seria bom. Por mais que todos eles estejam assinados por Felicity, seria fácil perceber que ela é apenas uma laranja. Eu preciso que ela compre alguns imóveis, seja sócia de algum empreendimento para que soe mais real, mas não conseguiria fazer isso agora, antes de nos casarmos. Porque ela se tornando definitivamente a primeira dama teria que cumprir com certas burocracias e conseguir a sua assinatura não seria difícil.
Mas antes disso esses documentos não podem cair em mãos erradas ou eu estaria muito fodido. Chegariam com facilidade em mim e conhecendo a ingenuidade de Felicity, o tribunal não a compraria como a responsável pelos desvios, isso colocaria minha reputação em cheque e no dia seguinte eu estaria sendo acusado de corrupção, a população nova iorquina não perdoaria.
— O termo não está assinado, não tem validade. — dou de ombros.
— Pensei que não fosse necessário tanta diplomacia. — John espreme o olhar em minha direção.
— Volte com ele assinado pela juíza do Tribunal de Justiça e terá acesso ao que precisar.
Xeque-mate.
É a hora dos cavalos de John Diggle recuarem.
O envelope pardo é puxado com verdadeira força das minhas mãos e o seu trincar dos dentes é visível, eu gostaria de gargalhar, mas tenho que manter a minha postura e aceitar com meu peito aberto os xingamentos que a consciência de Diggle profere. Mas eu não venci a batalha, e não estou se quer perto de que isso aconteça, porém os dias que preciso vão ser cruciais para repor certa quantia no lugar certo, e Felicity, indiretamente, me ajudará nessa missão. Eu preciso apenas que ela assine mais alguns papéis e a desculpa perfeita será o nosso mágico casamento que se aproxima.
— Deveria aceitar isso como um atestado de culpa, senhor prefeito?
— Aceite o que quiser, meu amigo.
— Não me chame de amigo. — ele rosna.
— Cuide do seu trabalho e deixe que do meu cuido eu. — sorrio.
— Isso não ficará assim. — o homem com a cara fechada sai pela porta como um foguete, levantando poeira e acaba esbarrando em Felicity que se assusta momentaneamente.
— Parece que o assunto por aqui não era dos melhores! — ela se aproxima após encostar a porta. Sua voz é baixa, os olhos estão profundos e poderia enxergar algumas olheiras nascendo nos sulcos da pálpebra.
— Ser prefeito de uma cidade inteira não é uma tarefa fácil. — aproximo-me do seu corpo, entrelaçando meus braços a sua cintura à medida que encosto meu corpo na beira da mesa central, apoiando-me. De início ela aceita minha aproximação, mas no segundo momento em que tento tocar nossos lábios, ela desvia o rosto com certa rapidez abaixando a cabeça logo em seguida, o que me causa estranheza. — Ainda está chateada comigo pelo o que eu a disse?
— Não é isso.
— Eu sei qual é o problema.
— Sabe?
Ela pergunta assustada.
~~~
Felicity Smoak
Minha mão ainda está ardendo.
Não preguei os olhos se quer um minuto durante toda a noite, eu fiquei revirando de um lado para o outro na cama. Me virava para o lado direito, mas me sentia incomodada, o mesmo acontecia com o lado esquerdo, a inquietude não parava por ai. Cobria meus pés, mas isso me deixava angustiada e o mesmo acontecia quando decidia cobrir minha cabeça por inteiro. Não havia posição certa, simplesmente porque o problema não era minha cama quente ou o lençol macio que estava tão acostumada. O problema estava dentro de mim, dentro da minha cabeça, dos meus pensamentos.
Eu não conseguia desfazer as lembranças das palavras que ouvi de Oliver.
Quem ele pensa que é?
Eu me entreguei a ele.
Disse que largaria tudo para viver as nossas consequências juntos. Estava disposta a abraçar o mundo com ele, seja qual fosse o resultado disso tudo, porque eu estava apostando muito alto, dando um passo muito grande deixando de lado uma história com alguém que pensei amar, que iria me casar em poucos dias. Me entreguei, me expus, dei minha cara à tapa a toa. Para no final, com a cara mais deslavada de todas, me dizer com todas as palavras que não poderíamos continuar. Era somente sexo? Algo carnal? Eu não consigo entender, porque eu não senti que era somente desejo, era muito mais do que isso. E, então, a minha mão encontrou seu rosto com toda a força que nutri, uma força que juntava um misto de sensações e palavras que eu gostaria de dizer a ele, de gritar contra suas ações, mas que não conseguiram ser ditas pela minha boca. Agora me encontro sozinha, porque por mais que eu não queira mais ver Oliver pintado de ouro na minha frente ou respirar o mesmo ar que ele, eu também não consigo permanecer com Erick.
A noite foi perturbadora e quando me dei por perceber o sol já estava nascendo pela minha janela, dando-me bom dia. Eu apenas tomei um banho frio para me lembrar do que eu estava indo fazer, resgatando minhas forças para dar um desfecho no que eu julgava uma auto enganação. Eu iria terminar com Erick não porque tinha me encontrado em Oliver, mas também pelo meu direito a liberdade. Pelo respeito que tinha ao meu corpo e a minha autoestima. Iria acabar ali, naquela manhã e não passaria nem mais um só segundo, e nutrindo ar em meus pulmões ao entrar na sala de Erick sem precisar ser anunciada fui pega desprevenida por um esbarrão de um homem desconhecido, ele me parecia um pouco desconfortável. Pobre homem, mal sabia ele que o que estava por vir seria tão desagradável quanto o que tinha acontecido a ele antes que eu chegasse. Minha vida seria decidida e o meu futuro a partir dali só dependeria das minhas próprias ações.
— Parece que o assunto por aqui não era dos melhores. — me aproximo após encostar a porta.
— Ser prefeito de uma cidade inteira não é uma tarefa fácil. — os braços de Erick me envolvem, levando-me para perto. O seu cheiro forte embriaga um pouco meu estômago e a sensação de ter seus lábios se aproximando dos meus me lembra de imediato a maciez das almofadas que são os lábios de Oliver, e então, decido me afastar. — Ainda está chateada comigo pelo o que eu a disse?
— Não é isso.
— Eu sei qual é o problema.
— Sabe? — pergunto assustada.
— Isso se chama saudade. Ando muito distante de você depois dos últimos acontecimentos, sua vida está de cabeça para baixo e eu fui desleixado. — suas mãos voltam a envolver minha cintura e, desta vez, sou rodada tão rapidamente que mal percebo quando sou apoiada sobre a beira da mesa inclinando meu corpo. Seus lábios escorregam pela minha nuca me trazendo arrepios gélidos e quando seu sussurro rouco corre pelo pé do meu ouvido, fico estática. — Me deixe recompensá-la...
— Não Erick... — tento com meus pulsos afastar seu quadril que pressiona minha bunda com certa força, mas falho totalmente. Impulsiono meu tronco para trás tentando empurrá-lo, mas novamente não consigo distanciar o corpo pesado sobre o meu.
— Fique quietinha querida, eu vou te ensinar algumas coisas de gente grande! — a sensação de inquietude volta a me perturbar, mas ela aumenta quando a ponta molhada da língua de Erick risca a borda do meu pescoço à medida que suas mãos ásperas buscam as mordas da minha calça jeans. Eu pressiono meus olhos tentando ignorar a vontade de chorar que surge do início da minha garganta me fazendo lembrar de que isso não é a primeira vez, nem a segunda e a terceira. A diferença é que agora olhando com sensatez consigo perceber o quanto esse ato é abusivo e monstruoso, porque eu não quero, e qualquer ser humano decente perceberia isso ao ouvir o tom de medo na minha voz.
— Pare, por favor.
— Você vai gostar, futura Senhora Dallas. — ao escutar o barulho da fivela do seu cinto se abrindo prego minhas duas mãos na beirada da mesa que estou sendo encurralada e com certa força a empurro pegando impulso para trás, e nesse momento, consigo nos afastar.
— Eu não quero! — meu grito é tão audível que sinto o ar sair pela minha boca e nariz de uma vez só. Agora tenho Erick parado estaticamente com suas mãos levantadas para cima, os olhos arregalados guiados nos meus e a respiração tão acelerada e superficial quanto a minha.
— Meu Deus, no que eu estava pensando? Me desculpe, meu amor. — ele abaixa a cabeça e rapidamente trata de arrumar suas calças que já se abriam. É notável o nervosismo que brotou em sua voz depois da minha histérica reação. Estou assustada e ao mesmo tempo orgulhosa, porque eu consegui não aceitar esse “carinho” de Erick como algo saudável ou uma migalha qualquer. Não há empatia no seu toque, cuidado e muito menos amor. Por muito tempo aceitei isso de graça como uma criança que se conforma com um saco de doces dos seus pais no final da noite em troca da falta de atenção. Isso não é sobre sexo e sim sobre todas as vezes que me sentia invadida e interpretava esse ato como normal. Mas já chega, eu preciso que essa relação termine, preciso que no máximo que exista entre nós seja uma amizade, mesmo que essa decisão esteja sendo tomada poucos dias do nosso casamento.
— Acabou. — a palavra flutua nos meus lábios até ser jorrada para forma e imediatamente meu peito infla com o alívio. Algumas lágrimas também surgem para lubrificar os meus olhos que ardem um pouco.
— O que disse? — ele pergunta confuso.
— Não podemos levar tudo isso a diante. — fungo tentando impedir que eu chore igual a uma menininha.
— Felicity, seja mais clara. — sua voz é mais rude agora ao mesmo em tempo que seus passos largos se aproximam crescendo sobre mim.
— O casamento, a vida juntos, acabou! — lá se vão às lágrimas, que lixo. Não é um choro de tristeza, mas também não é sobre felicidade. Fiquei ao lado de Erick por muito tempo, lembro-me perfeitamente quando tudo isso começou em um palco de um casamento desconhecido. Desconhecido para mim. Quando fui encurralada por um pedido de casamento que não esperava, mas que de alguma forma eu aceitei. A vida ao seu lado me proporcionava uma segurança da qual eu precisava, ele era íntegro e minha mãe mesmo de longe o apoiava, apoiava a sua história triste de ter perdido seus pais tão novo, assim como eu que tive meu pai se perdendo quando ainda era uma garota. Fazia sentido termos nos encontrado, possivelmente fosse o destino nos juntando. E agora me vejo arremessando tudo para o alto poucos dias de subir no altar, em um casamento que estava sendo programado nos mínimos detalhes há tanto tempo. Essas lágrimas é sobre o que acabou, é sobre o que tenho pela frente. Sozinha.
— Se é sobre o seu emprego, eu posso fazer com que Helena o devolva. E sei que me excedi agora, fui rude e te assustei, mas isso não acontecerá mais meu amor. — Erick toca meu rosto limpando as lágrimas que caem com os polegares até que sinto a pressão dos seus lábios pesar sobre os meus. — Você tudo para mim, Felicity.
— Eu não consigo mais.
— E quanto a tudo o que construímos? Temos uma cerimônia há poucos dias!
— Me desculpe... — afasto seu peito, fugindo para perto da porta. — A partir de agora eu preciso me dar uma chance.
— E quanto a mim? As pessoas que estão esperando por esse casamento? A minha cidade?
— Desde quando isso se tratou da sua cidade? — pergunto intrigada. Novamente não há nenhum sentimento de perda na voz de Erick, só o que vejo é o seu ego sendo desmontado. Ele só se preocupa com a nossa imagem em frente a grande Nova Iorque, como sempre. Mas não desta vez, eu não vou me submeter a um casamento dos sonhos superficial. Não há amor entre nós dois, porque em todo esse tempo apenas me enganei, tentei me convencer de que era amor para não sucumbir dentro da minha insegurança. De agora em diante eu viverei a vida conforme as minhas vontades não seguirei ordens de assessores e não irei a eventos beneficentes somente para criar uma imagem positiva enquanto me aproveito de pobres crianças ou idosos.
— Não foi isso que quis dizer, eu apenas... — Erick gagueja.
— Tudo sempre foi sobre essa merda de cidade. — bufo encostando a mão na maçaneta. Preciso sair daqui, buscar um pouco de ar em outro lugar.
— Oliver. — a voz de Erick me impede de seguir. — É por causa dele?
— Claro que não, não temos absolutamente nada! — agora é a minha vez de gaguejar, me sinto um pouco desonesta escondendo o que aconteceu entre eu e Oliver, mas isso não é um assunto que eu deveria contar agora. Erick tem seus momentos de violência, eu não sei do que seria capaz se recebesse tanta informação em um único dia. Não vamos nos casar mais e além de todo esse arsenal, conta-lo que Oliver tem parte nessa decisão seria dá-lo ainda mais poder de fogo.
— Então por que essa decisão tão tardia? — sua mão envolve meu pulso voltando a me trazer para perto, mas estou decidida a não recuar. Meus pés se firmam no chão impedindo que eu possa me aproximar.
— Nem tudo na vida é tão exato quanto os números da sua planilha Erick. Os dias nascem diferentes um dos outros, não é uma equação matemática do Excel. Eu não vou conseguir explicar agora a você o que me fez de fato tomar essa decisão, minha vida anda um caos, estou desempregada, desisti de um casamento há poucos dias, e preciso apenas de um descanso, administrar tudo o que está acontecendo, e então, poderei ser mais honesta com você. — meus pés deixam o chão por rápidos segundos, deixando que meus lábios toquem o rosto de Erick com um beijo de despedida. Eu respiro fundo ao voltar a me afastar até a maçaneta, e antes que eu a gire e saia, esboço um sorriso triste de soslaio. — Desculpa por não conseguir.
— Felicity! — a voz de Erick volta a me impedir de sair.
— Sim.
— Eu posso ir a sua casa essa noite para conversamos melhor?
— Não estarei em casa, Erick. — suspiro. — Apenas não me procure.
— Eu não vou desistir de você.
E antes que eu seja novamente impedida de sair.
Eu saio.
Decidida de que fiz o melhor que podia.
~~~
Oliver Queen
— Buuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuddy!
Acabo de sair do banho com a minha fiel e escudeira toalha macia de algodão ao redor da cintura. Eu estava uma pilha de nervos depois de ter tido uma conversa difícil com meus pais, tudo o que eu precisava era chegar em casa e depois de um banho quente deitar no meu sofá para relaxar um pouco. Mas a vida não dá colher de chá se quer por algumas horas, porque ao passar pela cozinha procurando pelo meu aconchegante sofá sou abordado por plumas por todo o chão. É claro que minha bola de pêlos que cheira a queijo tem envolvimento nessa tragédia. Caramba, não poderia ser o tapete de “Boas-vindas” da porta ou da cozinha? Não. Tinha que ser justamente a almofada que tiro as melhores cochiladas e que apoio os meus pés na mesa de centro quando quero assistir o jogo dos Yankees. E agora o pestinha deve estar se escondendo de baixo da cama, mas não vou deixar isso barato... Eu vou pegar esse saco de pulgas e fazer dele uma nova almofada ou eu não me chamo Oliver Jonas Queen.
A caçada começa, o pestinha sente o cheiro da morte de longe e rapidamente trata de escapar de debaixo da cama para um pequeno espaço atrás do closet. Minha cabeça começa a montar diversas estratégias para colocar minhas mãos em Buddy, mas o pulguento é salvo pelo Gongo quando sou interrompido pelo barulho da campainha. Ao me arrastar como um perdedor até a porta e abri-la tenho a confirmação de que a vida realmente não dá nenhuma colher de chá, em momento algum, não há é essa possibilidade.
— Pobre homem de Deus... O que é isso na sua cara? — Tommy pergunta assustado. Ele deve estar se referindo ao creme de abacate caseiro que fiz. O ser humano não tem salvação e isso é culpa do Google. Eu pesquisei formas de se relaxar na internet e o santo Google me deu a opção de fazer uma máscara natural com abacate e colocar rodelas de pepino nos olhos. Foi exatamente o que fiz só que quando me preparava para colocar as rodelas de pepino me dei conta de que minha casa estava rodeada por plumas.
— Dizem que é bom para abrir os poros. — Sara dá de ombros.
— O que vocês estão fazendo aqui? — bufo.
— Você está parecendo a minha avó... Só faltam os bobes na cabeça. — o idiota entra pela porta indo em direção à geladeira. É sempre assim.
— Você sumiu! Decidimos procurar saber se estava tudo bem... Mas pelo que vejo por aqui, nada faz muito sentido. — Sara dá tapinhas no meu ombro.
— Eu quero ficar sozinho! — bato a porta e caminho até a cozinha me dando conta de que Tommy come o meu pepino e abre uma das minhas cervejas.
— Cara, o que está acontecendo? Ficamos preocupados com o seu sumiço. — o idiota murmura.
— Alguém pode fazer ele parar de comer os meus pepinos?
— Tommy, pare de comer a droga desses pepinos! — Sara exclama dando um peteleco na orelha de Tommy que reclama.
— É sério, eu preciso ficar sozinho.
— Somos um time, irmão. Faz dois dias que você não toca os pés na clínica e não atende as nossas ligações... Algo está muito errado. — Tommy dá de ombros.
— Desculpa, eu deveria ter ligado para cancelar as consultas... Mas eu não tive cabeça.
— Existem três coisas nessa vida que você não abre mão. A Thea em primeiro lugar sempre, o seu trabalho, e claro, as mulheres. Você anda faltando na clínica, essa casa cheira a queijo ao invés de um perfume delicado das mulheres, o que me leva a pensar em alguma coisa bem grave. — o sabichão Tommy continua tomando a minha cerveja gelada enquanto se joga no meu sofá. — E para completar, parece que um tornado passou por aqui.
— Isso é culpa do Buddy. — sento ao seu lado no sofá cheio de plumas.
— Você não vai contar o que está acontecendo? — Sara senta na mesinha de centro, seu olhar é de alguém que não vai descansar enquanto eu não cuspir toda a verdade.
— Será que é tão difícil entender que eu não quero envolver mais ninguém nesse assunto?
— Que assunto? — Tommy pergunta escabreado.
— Eu sabia que tinha caroço nesse angu. — Sara se gaba.
— É sério pessoal, eu estou bem. Só preciso de uma única noite de sono para colocar a minha cabeça no lugar. — suspiro.
— Se estar bem significa colocar creme de abacate no rosto com rodelas de pepino, estamos perdidos! E que cheiro forte é esse? — Sara volta a perguntar com cara de nojo. O cheiro forte ao qual se refere é de um chá de ervas que também encontrei na internet. Eu não sou muito chegado a tomar remédios para dormir, então procurei por um método mais... Natural.
— Isso é maconha? — Tommy pergunta.
— Claro que não! É um chá de ervas. — respondo incrédulo.
— É maconha. — o idiota volta a dar de ombros me irritando.
— Conte o que está acontecendo agora! — Sara impõe.
— Minha vizinha não me deixa dormir. — respondo superficialmente. Eu já envolvi pessoas demais nessa história, se não bastava Thea, meus pais e Felicity, contar o que realmente está acontecendo para Sara e Tommy estaria os transformando em alvos de Erick, tudo o que eu não desejo agora.
— Cara você está comendo a sua vizinha? Àquela loira? — Tommy me dá tapas no ombro e festeja como quem acerta uma cesta de três pontos.
— Depois você não sabe o porquê de pegar menos mulheres do que eu! — Sara ironiza à medida que cala a boca de Tommy com uma bofetada, arrancando-me uma gargalhada.
— Sara realmente anda pegando mais mulheres que você. — agora sou eu quem dá tapinhas no ombro de Tommy.
— Agora que ela está comprometida e você está enrolado com a vizinha, o papai aqui será o Rei das mulheres.
— Eu não estou de rolo nenhum com a minha vizinha!
— Não estou comprometida.
— E eu sou o Batman. — Tommy volta a dar de ombros.
— Você pode ir direto ao assunto? — Sara torna a voltar no assunto, fazendo-me revirar os olhos.
— Chega! — levanto do sofá tomando a cerveja das mãos de Tommy e o enxotando com as mãos para fora do meu sofá enquanto também puxo Sara, os encaminhando até a porta. — Eu preciso descansar e amanhã pela tarde tudo voltará ao normal. Estou dando a minha palavra.
Merda.
Isso é uma mentira.
E nem tempo de cruzar os meus dedos deu.
— Desde quando um Queen precisa descansar? Hoje a namoradinha da Sara está fazendo aniversário e ela não curte muito a companhia masculina... Então você precisa me ajudar! — Tommy sussurra no meu ouvido, mas é irrelevante, porque facilmente Sara escuta.
— Nyssa ainda não é minha namorada. — Sara revira os olhos.
— Ainda? — pergunto.
— Vai se catar. — Sara responde me dando um soquinho no peito.
— Qual é irmão... Me ajuda nessa! As amiguinhas de Nyssa vão estar lá. Se lembra delas? Daquela noite no The Irish Pub. — os olhos de Tommy brilham.
— Não, Tommy. — empurro os dois para fora. — Dê os parabéns para sua namoradinha. — ironizo.
— É assim que você trata os seus melhores amigos? — Sara pergunta inconformada.
— Cara a Output fica a poucas quadras daqui... Aposto que uma boa cerveja conseguirá ser melhor do que um creme de abacate e um chá de ervas! — Tommy insiste.
— Boa noite Tommy!
Encosto a porta, mas antes que eu consiga suspirar, o celular sobre a bancada começar a vibrar freneticamente.
— Meu Deus, o que eu preciso fazer para ter poucos minutos de paz?
O atendo.
— Felicity?
— Sim, acertou! Você deveria receber um prêmio! — ironiza. No fundo sou capaz de ouvir uma música alta e algumas pessoas falando. — Eu fui uma idiota... Não, essa você não vai adivinhar... Eu sou uma idiota, isso não é legal?
— Você bebeu?
— Sim, bebi, Sr. Queen. Acertou na moça... Quer dizer, acertou na mosca. — ela ri.
— Me escuta, quero que volte para casa!
Por que estou reagindo assim?
Felicity não é a minha propriedade.
Eu não deveria me importar com o quanto está bêbada, afinal de contas, ela deve estar me odiando.
— Você é tão mandão. Eu não vou para casa agora, sabe por quê? Porque eu sou livre! — um silêncio surge por alguns segundos. — A noite está tão linda... Tudo está... Está rodando.
— Já chega. Onde você está?
— Estou bem longe de você. Bem longe... — ela volta a gargalhar antes de terminar a frase. — Bem longe de você!
— Qual o bar? Qual o nome do bar? — uma leve ponta de irritação começa a me incomodar. Eu nunca vi Felicity agir de tal forma, na última vez em que nos vimos no The Irish Pub ela chegou a mencionar que apenas algumas rodadas já a deixava bêbada. Eu não sei com quem está, onde está, isso me deixa verdadeiramente puto.
Muito puto.
— Não sei... Estou com algumas amigas... — ela volta a rir divertidamente.
— Qual a merda do bar, Felicity? — rosno.
— Vou desligar.
— Felicity!
A ligação é finalizada.
Jesus Cristo.
Mas que merda.
~~~
— Vamos para casa!
Seguro no antebraço de Felicity a trazendo para perto enquanto somos engolidos pela multidão. O lugar está mal iluminado, algumas luzes coloridas passam sobre nós, e assim, consigo enxergar os olhos de Felicity que se arregalam ao me reconhecerem. Ficamos nos olhando por alguns segundos até que sinto punhos me empurrando para longe, mas eu permaneço como uma rocha a protegendo das pessoas que pulam ao redor.
— Como me encontrou aqui? — sua voz é alta para superar o som alto da música. Mas os punhos não param enquanto não a solto. As bofetadas parecem que ficaram mais pesadas do que o normal. Será que isso é o poder do álcool?
— Não importa! Eu vou te levar para casa agora!
— Você está destruindo a minha noite! — Felicity grita.
— Então por que você me ligou?
— Porque... — ela parece um pouco pensativa. — Porque eu precisava te dizer o quanto eu fui idiota acreditando em você.
Felicity ao ganhar espaço entre as pessoas consegue se livrar dos meus braços, passando para fora da pista de dança. Eu a sigo tentando contê-la, mas falho. Agora estamos em um lugar onde a luz é melhor. Meu coração está um pouco elétrico assim como todas as vezes que chego perto de Felicity, sou capaz de ouvir o cronômetro de uma bomba que está prestes a explodir. Alguns fios de cabelos dourados estão molhados pelo suor e sua boca é ainda mais avermelhada, e por que ela insiste em morder o lábio inferior dessa forma? Eles parecem ainda mais apetitosos. Eu quero voltar a abraça-la e dizer que estou com ela, que nada me fará desistir de viver as consequências que escolhemos ao decidirmos ficar juntos. Mas me parece tarde demais, porque eu enxergo no fundo dos seus olhos o tamanho do rombo que deixei ao dizê-la que não poderíamos continuar. Ela está quebrada e se sentindo como um brinquedo que foi usado sem piedade.
Resumindo.
Sou um lixo.
— Você não é uma idiota. — grito, fazendo-a recuar.
— Foi bom para você?
— Do que está falando?
— Sexo. Era só isso?
Meu coração aperta e aquela vontade terrível de chorar nasce da boca do meu estômago.
— Claro que não.
— Então por que me disse aquilo? Por que me deixou ir? — sua voz falha.
— Eu precisei fazer aquilo, mas agora... — tento me aproximar novamente, mas Felicity dá um passo para trás.
— Agora? — ela ri sarcasticamente. — Sempre foi tudo assim? No seu tempo?
— Eu quero você...
Antes que eu perceba, não há mais distância entre nossos corpos, as pontas dos meus pés encostam nos de Felicity que, desta vez, não tenta se afastar novamente. O seu corpo está quente e um pouco úmido, o cheiro que exala do pescoço é o mesmo de sempre e minhas narinas agradecem por estarem voltando a senti-lo. As mãos delicadas se acomodam no meu peito e lá estão seus lábios que entreabrem perfeitamente, mas as suas pupilas dilatadas me impressionam. Elas estão escuras e tão brilhantes que eu poderia enxergar o meu reflexo nelas, me perdendo por breves segundos.
— É uma pena, mas não posso dizer o mesmo! — ela engole a seco.
— Está mentindo.
— Não estou não!
— Você vibra quando sente o meu toque... — encosto a ponta do dedo indicador no seu braço e recebo em troca o arrepiar de cada partícula. De início dou apenas um passo longo para não assustá-la e aos poucos a distância entre nós vai diminuindo até que eu consigo encostar nossas testas, e por incrível que pareça, minhas mãos estão um pouco trêmulas. É incrível como tento me enganar ao negar o que sinto por Felicity, não há como ignorar todas essas sensações, é algo que extrapola todos os meus argumentos, todas as minhas armas se voltam para mim e eu passo a ser a minha própria vítima. — Você me quer.
— Eu já disse que não quero...
Sabe as estrelas?
Elas parecem tão próximas.
Porque Felicity chuta com o bico do pé a minha canela fazendo com que eu a solte de imediato.
Mulheres, por que tão insensíveis?
— Que inferno, Felicity!
— E não me siga!
Ela grita enquanto passa pelas pessoas a frente e mesmo mancando sigo na sua direção, não é a primeira vez que Felicity me acerta em cheio, mas pelo menos não foi entre as minhas pernas. Porque se isso acontecesse seria o golpe de misericórdia, um fim da linhagem Queen para toda a eternidade. Isso mesmo, eu me tornaria estéril.
Essa mulher tem uma força que precisa ser estudada.
— Eu vou te levar para casa. — paramos em frente a uma mesa redonda, há balões coloridos e um bolo confeitado.
— Ah não, esse cara de novo? — uma voz me chama atenção e lá está a moça que não gosta da companhia masculina. Nyssa seria o seu nome? Faz sentido, porque Sara está bem ao lado dela. Eu deveria me perguntar de novo o que eu deveria fazer para ter apenas um momento de paz? Não, acho que seria pedir demais.
— Oliver? — Sara pergunta.
— Eu. — levanto minhas mãos em sinal de rendição.
— Sim. Ele. — Felicity bufa.
— O que você está fazendo aqui? — Sara volta a perguntar.
— Vou levar Felicity para casa, só isso. — paro em frente a loira que cruza os braços. Eu deveria suspirar e dois coraçõezinhos surgiriam nos meus olhos, porque a ruguinha que se forma entre as suas sobrancelhas enquanto cruza os braços como uma criança pirracenta é a coisa mais fofa que irei ver na minha noite. Claro, eu não vou ser idiota de deixar um sorriso bobo escapar dos meus lábios, porque isso seria a minha derrocada.
— Você quer mais um chute? — Felicity arma sua perna novamente.
Mais um chute?
Não estou no octógono, vai com calma mocinha.
— Baby, não me faça ter que agir pela força. — deixo meus ombros caírem em cansaço.
— Você não vai tocar o dedo nela! — Nyssa rosna.
Eu deveria rir dessa situação, mas a morena acabaria coma minha raça.
— Quer saber? Acho que sei o que você merece... — Felicity desfaz os braços cruzados, e agora, esbanja um sorriso angelical na boca de traços perfeitos. Os passos são calmos alcançando os meus, uma das mãos voltam a passear pelo meu peitoral enquanto que a outra em um movimento rápido acerta com força o bolo no meu rosto. E de imediato a sensação de querer explodir me sobe pelas veias, mas o chantili é tão doce que ameniza um pouco os meus nervos. À medida que me afasto um pouco para tirar o excesso da massa macia dos meus olhos ouço a gargalhada divertida de Felicity.
— Uou! — exclama Sara.
— Meu bolo! — Nyssa bate os pés.
— É... — podendo enxergar melhor após tirar o chantili dos meus olhos busco por Nyssa no meu campo de visão? — O recheio é de doce de leite?
— Acho que o chantili combina com a cor dos seus olhos. — ironiza Felicity.
— Saia daqui agora! — Nyssa esbraveja como um cão bravo.
— Nyssa, foi um prazer conhece-la outra vez. — coloco um pedaço do bolo que restou sobre a mesa. — Ótima escolha, os recheados de doce de leite são os melhores.
— Oliver, saia daqui agora, por favor. — Sara se contém para não rir.
Mas o que eu falei de errado?
Esse bolo está ótimo, de verdade.
— Desculpe pelo bolo. — sorrio de soslaio para Nyssa que parece espumar pela boca. — E você vem comigo, mocinha! — coloco Felicity nas costas como um homem das cavernas.
— Socorro! — ela grita.
— Abram espaço, abram espaço!
Digo para multidão enquanto carrego Felicity nos braços.
Isso soa tão primitivo.
Tão cômico.
~~~
Ela está dormindo como um anjo, a respiração é tão calma e os cabelos dourados estão selvagemente espalhados pelo travesseiro. Eu gostaria de ficar parado como estátua velando o seu sono, mas isso soaria um pouco de psicopatia da minha parte então decidi ver o que a geladeira de Felicity poderia me proporcionar, e como o esperado, somente potes de sorvete sabor creme.
E como aquele ditado popular diz: “É o que tem para hoje.”
— Largue o meu sorvete! — a voz sonolenta de Felicity me arranca um sorriso. Maldito sorriso.
— A bela adormecida acordou sem o beijo do príncipe encantado? Que merda! Eu estava esperando ansiosamente por esse momento. — dou de ombros enquanto volto a comer o sorvete. Ele está perfeito, mas meu cérebro está começando a ficar doce, muita glicose no meio da noite me deixa um pouco excitado. Quando decido comer doce durante a madrugada e estou sozinho, costumo pegar a vassoura para limpar a casa, isso diminui a minha excitação. Uma coisa que também funciona é passar pares de meia, porém isso me deixa um pouco estressado quando descubro que minhas meias nunca estão com os pares certos.
Felicity começa a passar a mão pelas curvas do seu corpo e a sua boca entreabre. Lá está a ruguinha se formando novamente entre as sobrancelhas, eu no mínimo já estou rindo da sua reação. Antes de chegarmos aqui foi tudo muito complicado, Felicity não queria subir na minha moto e não parava de reclamar um só segundo no meu ouvido falando coisas sem sentido. Mas a batalha começou quando eu quis enfiá-la de baixo do chuveiro com a água fria, ela me xingou bastante e disse até que ligaria para a polícia porque eu estava me aproveitando da situação, me senti um pouco ofendido, mas foi momentâneo.
— Você e eu... — seu dedo indicador está na minha direção, se fosse uma arma, certamente eu estaria morto agora. — Nós não...
— Relaxa eu não curto necrofilia, baby. — dou de ombros.
— Você me viu nua! — ela abraça seu corpo que está coberto apenas por uma camisa branca de mangas largas. É inexplicável como isso é sensual, os cabelos agora perfeitamente no lugar, as pernas torneadas de um corpo pequeno que se encaixa perfeitamente nos meus braços. O azul dos olhos está nublado pelo porre que tomou e as pálpebras inchadas de quem acordou há pouco tempo.
Ela está linda.
Ou eu quem estou pateticamente apaixonado?
— Nada novo sob o sol...
— Estou me sentindo invadida. — ela toma o pote de sorvete da minha mão dando uma bela colherada, e nesse momento, eu gostaria de ser essa colher.
Puta merda.
— Você deu um show quando chegamos aqui, com sorte consegui te dar um banho. Mas eu não toquei o dedo em você, não da forma ilícita que está pensando. Depois te coloquei para dormir... Você estava linda, parecia tão aliviada e calma, nada parecido como o furacão que me chutou a canela e acertou o bolo da aniversariante que abomina homens na minha cara. Eu gostaria de beijá-la na testa e aconchegar nossos corpos para dormimos assim como a última vez...
"Eu sabia que te amava
Mas você nunca soube
Porque eu finji estar tranquilo quando eu
Estava com medo de deixar pra lá
Eu sabia que eu precisava de você
Mas eu nunca mostrei
Mas eu quero ficar com você
Até ficarmos grisalhos e velhos
Apenas diga que você não vai embora
Apenas diga que você não vai embora."
— Say you won't let go — James Arthur
— Oliver...
Felicity me interrompe.
— Quando eu disse que não poderíamos continuar foi por medo.
Minhas mãos buscam o pote de sorvete o colocando sobre a bancada, mas Felicity não desvia o olhar dos meus, eles me engolem e absorvem cada palavra que sai da minha boca com precisão. Eu decido abraça-la, colar nossos corpos quentes e tenho unhas delicadas tocando meu abdômen nu à medida que o seu arfar bate na pele do meu rosto.
— Medo? — seu sussurro é quase inaudível.
Por que seus olhos insistem em ser tão cristalinos?
Eu nadaria neles.
Me afundaria neles.
— Medo de voltar a colocar pessoas em risco por minha causa... Sempre foi assim.
— O que está acontecendo, Oliver?
— Você está sentindo isso?
Elevo sua mão direita até o meu peito esquerdo que pulsa rapidamente, a mão de Felicity chega a vibrar ao tocar a minha pele. Sua boca volta a entreabrir com um suspiro tão intenso que me faz sorrir, eu quero guardar a imagem do seu rosto angelical dentro das minhas lembranças mais íntimas, porque quando eu voltar a sentir medo vou me lembrar dos motivos pelos quais estou lutando, e isso me dará a força que preciso para continuar.
— Uhum...
— Baby, eu nunca senti isso. É forte e parece que vai sair dos trilhos a qualquer momento!
— Você está com medo agora?
— O único medo que corre nas minhas entranhas é a possibilidade de não sentir mais o seu cheiro, o gosto dos seus lábios nos meus. — afasto alguns fios de cabelo os colocando atrás da sua orelha enquanto acaricio a pele macia da bochecha com os meus polegares. — Diga que você não desistiu de viver as consequências, que você ainda quer segurar em minhas mãos e se jogar em uma aventura. Apenas diga que quer vir comigo!
— Eu quero.
Sorrimos.
E permitimos tocar nossos lábios apenas para acaricia-los, lentamente nossas bocas se abrem em sintonia, iniciando um beijo único. Minhas mãos deslizam pela estrutura pequena do corpo de Felicity até encontrar as bordas da camisa branca de mangas, eu a passo pelas curvas até conseguir me livrar dela. Agora estamos rindo baixinho antes de voltarmos a nos beijar da forma mais íntima que existe, mas antes eu preciso vê-la.
O seu corpo é lindo.
É visível perceber o quanto está pronta para mim.
Os pêlos finos e curtos estão arrepiados assim como os seios com os mamilos rosados túrgidos, eu quero me alimentar deles, estou faminto. Então minhas mãos colam na sua cintura a erguendo para cima da bancada fria de inox e tenho um pequeno grunhido fugir pela garganta de Felicity por ter sua bunda nua encostando ao frio aço. Sua cabeça cai para trás assim que afundo meu rosto no acesso perfeito do pescoço, eu quero percorrer todo o caminho com a ponta da minha língua molhada, e quando mordo sua pele fina a puxando sem piedade para marca-la, ouço novamente um leve grunhido. A esse ponto estou tão duro quanto uma rocha, mas eu quero ir de vagar, tortura-la até que seu corpo crie força para gritar por mais atrito, mais fricção, que a sua boca clame para que eu a tome com todo o vigor.
Felicity esfrega as laterais das coxas firmes envolta do meu quadril o puxando como duas garras apressadas querendo sucumbir com o volume da minha ereção batendo contra a entrada molhada. Eu gostaria de desmontar ao senti-la receptiva, porque automaticamente isso me faz explodir dentro das calças. O lugar está quente, poderíamos colocar fogo na cozinha apenas pelo impacto dos nossos corpos se alimentando da eletricidade um do outro.
Eu a beijo.
Brinco com a pele tórrida das curvas da cintura até apertar meus dedos contra a bunda empinada. Deixo marcas das minhas digitais pelo local arrancando um gemido baixo de Felicity ao pé do meu ouvido, isso me deixa fora dos meus sentidos por duradouros segundos quando sou trazido de volta por uma mordida na pele tensionada do meu peito largo, a ardência é encoberta pela língua que passeia por ali e os beijos não cessam até sua cabeça decidir descer mais, escalando cada detalhe do meu abdômen, mas eu a impeço de continuar. Imediatamente minha mão busca o pote de sorvete de creme ao lado e uma risada divertida soa dos lábios de Felicity junto com os seus olhos que acompanham cada movimento que faço.
Ela se arrepia à medida em que encosto a colher fria com um pouco do sorvete na sua clavícula, antes que ele possa derreter o limpo com a minha língua fazendo aumentar o atrito contra minha ereção, arrancando-me um arfar profundo, mas eu continuo com a tortura passeando com o líquido gelado e doce do sorvete com cautela sobre o rosado túrgido de um dos seios de Felicity que afana sua respiração quente entre meu pescoço. Eu os lambo com fome, deixando-os avermelhados e inchados a cada mordida, os gemidos se tornam música para os meus ouvidos, eu quero mais, quero-os só para mim. Dessa forma, continuo a sujando com o sorvete pelo abdômen até atingir o início de um caminho perigoso me guiando por apenas um filete de pêlos loiros finos que me leva até os pequenos lábios úmidos. Antes que eu possa saciar a minha fome, deixo um caminho do sorvete na parte interna da sua coxa, lambendo-o todo com verdadeira lentidão, e agora, volto com sede para o espaço entre suas pernas, o seu cheiro é incrível e o seu gosto me faz sentir como os meus pés estivessem tocando o macio das nuvens do paraíso.
As unhas de Felicity brincam com meus cabelos curtos bem cortados a cada investida que faço com a língua em seus lábios úmidos. Eu gostaria de estar assistindo o que estou a proporcionando, de avistar como sua cabeça está pendida para trás aproveitando cada movimento espástico da sua musculatura que responde à excitação. O quadril se mexe algumas vezes contra a minha boca quando atinjo o seu ponto inchado, sensível e trêmulo.
— Por favor, não pare...
O momento que estava esperando se aproxima, eu poderia continuar me alimentando do sabor singular de Felicity, mas eu preciso tortura-la mais um pouquinho, porque eu não aguento mais me manter longe, eu preciso sentir as paredes quentes de Felicity me apertarem, me acomodarem como um encaixe conhecido. Assim as minhas mãos atrapalhadas desfazem a fivela do cinto, e de novo, eu não preciso me livrar da pouca roupa que estou, o pequeno espaço que tenho já é o suficiente para voltar a tocar meus pés no céu. É tão molhado e quente na minha primeira investida que ficamos estáticos com as bocas abertas coladas uma na outra, trocando nossos hálitos em um hortelã ardente.
Gemo ao sentir as mãos de Felicity que não estão à toa, elas agarram o meu bíceps, arranham minhas costas tão profundamente que nutre forças para que eu aumente nosso ritmo. As mãos continuam a descer encontrando a minha bunda e uma reclamação soa da sua boca ainda colada na minha sente o tecido do jeans. Então, as mesmas mãos se infiltram por de baixo dos tecidos atingindo minha bunda. Primeiro ela toca de leve a apertando com malícia, e em seguida, a empurra contra si buscando estocadas mais profundas. Estou morrendo, queimando, estamos o próprio incêndio e a velocidade que adquiri no meu quadril me faz pensar que viraremos fumaça.
— Baby, você vai acabar comigo...
Sussurro em uma rouquidão exaurida.
Ela sorri deitando o corpo na bancada com seu abdômen inspirando e expirando de forma acelerada e superficial. Percebendo que estou quase me perdendo no dourado impecável da sua pele volto a me encontrar ao fitar os olhos azuis de um límpido cristalino que também sorriem para mim, e logo me vejo deitando meu corpo sobre o seu enquanto entrelaço os dedos das nossas mãos, eu quero voltar a beijá-la, dividir os últimos resquícios de oxigênio que nos restaram, nossos olhos estão comprimidos, regozijando da sensação de liberdade por nos termos dentro um do outro. As minhas forças vão embora quando me sinto molhado pelo líquido quente de Felicity acompanhado de um gemido forte, alto e áspero. É a minha vez de atingir o mais profundo ápice, me deixando vulnerável ao ponto de explodir com toda a força dentro das paredes úmidas que me abraçam, aceitando tudo que guardei para ela. Tudo que nunca consegui dar a nenhuma outra mulher com tanta sinceridade.
Continuamos sentindo êxtase.
Nos esfregando.
Nos sentindo.
— Isso foi... — sua voz é um sussurro estreito.
— Incrível?
Felicity sorri concordando.
— Venha, eu vou limpá-la. — a pego no colo sem nos distanciarmos se quer um centímetro.
— Depois podemos comer? Estou faminta!
— Um Big belly Burger duplo?
— Com bastante maionese temperada! — os seus olhos brilham.
— Merda... Por onde você esteve que eu não a encontrei antes?
Rimos de algumas besteiras que falamos enquanto passamos pelo quarto em busca do banheiro, os latidos de Polly quebram nosso silêncio e de imediato os olhos de Felicity arregalam me causando certa estranheza.
— Erick!
— O que? — a pergunto.
— É o único que tem as chaves do meu apartamento, ele está entrando! Você precisa se esconder!
Felicity escapa dos meus braços caçando alguma peça de roupa para cobrir o corpo, mas ainda estou tão em êxtase que não consigo pensar direito no que está acontecendo. Tudo o que faço é fechar o zíper da minha calça jeans um pouco inconformado.
— Eu não vou me esconder! — dou de ombros.
— Você está ficando louco? — ela volta a perguntar assustada.
— Então é você o motivo de tudo isso estar acontecendo? — a voz gélida nos aborda, eu poderia reconhecê-la a metros de distância.
Que comecem os jogos.
— Erick... Nós temos que conversar... — Felicity amarra o cabelo em coque e se prepara para se aproximar de Dallas, mas meus braços a impedem a puxando para trás. Não há chances de Felicity dever alguma explicação a esse crápula, eu não vou mais permitir que ela se aproxime desse cara, nem que eu tenha que segurá-la com todas as minhas forças para mantê-la longe.
— Você é uma vagabundinha. Está dando para esse cara desde quando? — o tom de voz de Erick não é alto, pelo contrário, ele é baixo e suave como se já previsse o que encontraria ao entrar pela porta da suíte de Felicity.
— Não tem o direito de falar assim com ela! — é tarde demais, se Erick Dallas consegue manter seu ar de psicopatia, eu não. Meus dentes estão riscando e minha mandíbula apertando, as minhas mãos se encontram com o colarinho de Dallas o empurrando para fora, ele volta a gargalhar enquanto atropela suas próprias pernas. A voz de Felicity para que eu o solte se torna baixa pela minha fúria de coloca-lo para fora, então, certamente, a ignoro com toda vontade.
— Perdeu a noção do perigo, rapaz? — Erick sussurra tentando me empurrar para longe.
— Eu não tenho mais medo de você. — rosno baixinho alcançando a porta.
— Oliver, solte-o agora!
Comprimo meus olhos novamente.
Ignorando Felicity.
— Sua irmãzinha vai sofrer as consequências... Eu vou adorar vê-la morrendo lentamente, sem ar nos pulmões. — ele volta a rir como uma hiena descontrolada.
— Tente a sorte! — o empurro para fora da porta.
— Felicity é minha. — Erick desamarrota o impecável terno.
— Você está enganado... Felicity não é de ninguém, ela é uma mulher livre e tem total poder sobre si mesma.
— É o que veremos.
O crápula volta a sussurrar com um sorriso maquiavélico nos lábios.
É atordoante.
Mas eu fecho a porta antes que eu quebre todos os dentes da sua boca e quando me viro sou recepcionado pela loira que está novamente com seus braços cruzados.
— Você não vai defender esse cara, vai? — bufo.
— Eu sei me virar, ok? Não preciso que ninguém haja como um brutamontes por mim! — agora além dos seus braços cruzados, sua perna está batendo no chão com inquietude.
Deus.
Isso é tão perfeito.
— Baby... Eu não fiz nada de tão errado assim, os dentes dele continuam perfeitamente alinhados, e não, essa não era a minha vontade.
— Nós precisamos conversar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Ele foi grosseiro com você.
— Erick deve estar confuso é cedo demais para encarar tanta informação.
— Não acredito que está defendendo esse cara. Ele não vale nada!
Era só o que me faltava, Felicity defendendo Erick.
Ótimo.
Tudo o que eu queria.
— Por que tanto ódio? — ela pergunta confusa.
— Porque... — engulo rapidamente tudo o que a fúria me pressiona para jogar ao vento, mas eu não posso fazer isso. Não agora. — Porque eu quero você.
— Eu estou aqui, não estou?
— Comigo?
— Sim.
Eu a abraço com firmeza, tirando seus pés do chão.
— Eu preciso te levar para conhecer uma pessoa.
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