Neighbors

7 Capítulo 6 - Take me down like I'm a domino


Notas iniciais
Como o prometido, o sexto capítulo. E para que vocês não fiquem com água na boca, se vocês quiserem a continuidade da história, o SÉTIMO CAPÍTULO PROMETE. Espero que fiquemos juntos. — Para quem gosta, o capítulo foi inspirado em uma música - Domino - Jesse J, então para quem quiser escutar... Seria legal em uma determinada parte do capítulo. Boa leitura, meus amores. ♥

Oliver Queen

Eu estava disposto a fazê-la tirar a maldição que jogou sobre mim, coloca-la contra a parede e a impedir de fugir mais uma vez. Não iria esperar se quer mais um segundo para que as palavras que eu gostaria de ouvir saíssem de sua boca, ignorando as regras que eu mesmo criei. Simplesmente iria passar por cima de tudo, iria ter Felicity nos meus braços de imediato, assim que a porta abrisse em minha direção. Porque se eu não estou funcionando a culpa é somente dela, não por suas palavras arremessadas ao vento de propósito, mas sim por não sair da minha cabeça, por martelar meus pensamentos a todo o instante.

Não ter funcionado pode não ser um dos maiores problemas, no entanto, pensar só nela, querer só ela, isso sim é um problema.

Um grande problema.

Mas então Felicity abre a porta em um rompante, seus olhos estão em um vívido avermelhado, as pálpebras inchadas como de quem chorou por um longo tempo. Os ombros caídos cansados e a resistência que sempre demonstra a me ver não existe, a faísca que mantém nossa implicância acesa está apagada. Ela está expondo sua vulnerabilidade pela primeira vez, é a primeira vez que a vejo deixar as lágrimas escorrerem pelas peras coradas de suas bochechas. E, novamente, estou estático, o que eu iria dizer, o que eu iria fazer, nada disso consegue me impulsionar. Na verdade, eu gostaria de abraça-la assim como fiz de baixo daquela água fria que caia sobre nossos corpos quentes na última vez que nos tocamos em baixo do chuveiro. Não me importa o que a levou estar chorando, apenas estou com raiva, porque me acostumei com as sardinhas do seu rosto sorrindo para mim à medida que as covinhas nas laterais de suas bochechas se movimentavam quando deixava escapar alguma de suas piadinhas sarcásticas.

Vê-la assim me parte o coração, me faz lembrar de que tenho um dentro do meu peito mesmo que a todo custo eu tente esquecê-lo.

— O que você quer, Queen? — sua voz sai arrastada seguida de um pigarreio para limpar a garganta. Mas ela não liga, parece tão cansada a ponto de sua armadura irredutível estar erguendo uma bandeira branca pedindo paz. Porque ela não quer brincar, não há espaço para um episódio de Tom e Jerry como todas as noites, Felicity parecer querer descansar.

— Por que está chorando?

Merda.

Eu quero cessar suas lágrimas.

Que maldito sentimento é esse?

— Não quero falar sobre isso... Será que poderíamos deixar as implicâncias de lado pelo menos essa noite?

Baby... — antes que minha mão consiga encostar seu rosto para que meu polegar limpe a lágrima tímida estagnada na superfície macia de sua bochecha, Felicity empurra a porta antes que eu a alcance. Mas consigo impedi-la colocando meu pé na borda que nos separa, e então, volto a empurrá-la em um movimento contrário para que possamos continuar no mesmo campo de visão. E para minha surpresa, não há mais resistência, Felicity suspira longamente deixando a porta aberta enquanto volta para seu sofá, eu apenas a fecho e a sigo dando-me conta de potes de sorvete vazios sobre a mesa de centro ao mesmo tempo em que assiste um filme digno de sites que enumera boas histórias para se assistir quando está no fundo do poço.

— Eu não vou entrar no seu joguinho hoje. — ela busca outro pote de sorvete, desta vez, repleto.

— Você quer entrar em um coma hiperglicêmico? — pergunto perplexo.

— Realmente vai querer dá palpites até na minha saúde? — Felicity enfia uma colher cheia de sorvete em sua boca, deixando um bigodinho se formar sobre seus lábios. E não vou mentir, isso me deixou sedento em lambê-la.

— Parece que o sabor creme é o seu preferido. — roubo o pote da sua mão juntamente com a colher, passando a comê-lo. Inibo a vontade de gargalhar ao perceber a ruga entre as sobrancelhas se formar e fumacinhas começarem a querer sair pelos seus ouvidos.

— Me devolve isso imediatamente! — ela cruza os braços e permanece com seu olhar fulminante.

— Esse é o seu terceiro pote de sorvete sabor creme, você está vestindo pijamas sem estampas e você ama estampas. Os sapatos são de lã estilo vovó e para completar, está assistindo Marley & eu. Eu não vou te devolver esse pote de sorvete enquanto você não me disser que merda aconteceu para chegar a esse estado crítico.

Ela bufa.

Desvia seus olhos dos meus.

É, parece que voltamos à estaca zero.

— Fui demitida e falei um monte de besteiras que não deveria a uma pessoa que, talvez, não merecesse ouvir.

— Não é o fim do mundo.

— Você não entende e ninguém parece se esforçar para entender! Eu sou uma excelente fotógrafa, quase todas as capas da Revista V foram feitas por mim. Era eu quem estava por trás de cada clique, mas no final quem assinava era Helena. Fácil, não é? Ter o seu trabalho camuflado por uma simples assinatura de uma mulher que não sabe fazer nada a não ser dar ordens. E você pode estar se perguntando o porquê de eu continuar investindo nisso, e eu te respondo, porque eu acredito no que eu faço! Porque tenho a necessidade de concluir o meu trabalho. Se eu vou me casar com o prefeito de Nova Iorque daqui a algumas semanas isso não enche os meus olhos, porque eu não preciso disso para me manter. Eu consigo sobreviver pelo meu esforço, ajudo a pouca família que tenho com meu próprio suor, sem depender de ninguém. — Felicity respira profundamente antes de continuar, sua voz é embargada e prende minha atenção. — Helena fechou uma oportunidade bem na minha cara e eu me vejo sem saber por onde seguir. E por favor, não seja mais um a me dizer para correr para de baixo das asas de Erick!

Engulo a seco.

Não sei o que dizer, mas surpreendentemente Felicity está com seus dois olhos abertos como uma coruja em expectativa para que eu diga algo. Eu poderia dizer milhões de coisas que não fariam nenhum sentido, tentar soltar uma piadinha irônica ou até mesmo tentar unir nossos lábios dando a ela o que ela realmente precisa, mas eu estaria estragando tudo. Como sempre. Então, tudo o que consigo fazer é comprimir meus olhos dando um longo e profundo suspiro, deixando meus pulmões expulsarem todo o ar de uma vez.

Baby, você não é uma mulher que precise correr para de baixo das asas de ninguém. Mesmo que essa pessoa seja o Papa!

— Ainda que fosse o Juízo Final.

Ela sorri.

— Eu entendo você. — em um movimento rápido, deixo apoiado o pote de sorvete sobre a mesa de centro, voltando a me ver mais próximo de Felicity. — Há um tempo, quando ainda morava em Starling City, eu errei muito. Meus pais são representantes de uma empresa na cidade, sempre me deram tudo o que eu queria, sempre escondiam a sujeira que me metia em noites de farra nos Glades, um bairro longe de onde eu morava. Eu fiz muitas besteiras! Mas eu fazia isso porque eu tinha com quem contar, afinal de contas os meus pais tinham dinheiro e iriam dar um jeito de limpar a minha barra. — arfo deixando com que meus olhos se percam e involuntariamente a ponta do meu dedo indicador toca o seu, mas Felicity não se move, não tenta qualquer tipo de afastamento. Ela está vidrada em cada palavra que sai da minha boca, me permitindo continuar. — Até eu cometer o maior dos erros, eu cheguei ao meu ápice! Foi assim que eu afastei todos de mim, e não vou mentir, eu sofri muito. Mas foi esse sofrimento, foi essa escolha não feita por mim que me fez crescer. — sorrio de soslaio ainda evitando qualquer troca de olhares. — Eu posso não ser quem as pessoas esperam que eu seja, no entanto eu sei quem eu sou. Então, baby... Mesmo que esse problema tenha a atingido, que tenha a machucado, use-o para crescer. Você não precisa correr para de baixo das asas de ninguém, apenas continue acreditando no que você sabe fazer de melhor.

— Eu nunca poderia imaginar que você tivesse esse tipo de problemas, parece que algo o machucou muito.

— Machuca todos os dias.

— Oliver, eu...

A interrompo, eu preciso impedir que esse assunto tome uma proporção muito maior do que eu consiga administrar. Eu não gosto de demonstrar minhas fraquezas, falar sobre o que aconteceu no meu passado não me deixa confortável, parece que o peso volta a sobrecarregar minhas costas, como se eu voltasse a enxergar o sangue escorrendo pelas minhas mãos. Felicity não precisa saber sobre isso, eu não quero que tenha medo de mim, que se afaste assim como todos que um dia estiveram do meu lado porque eu gosto de tê-la por perto, de dar a ela a parte que considero boa de mim. Sei que no fundo ela não me leva a sério, como nenhuma outra mulher, mas as nossas trocas de farpas do cotidiano, as piadinhas de duplo sentido soltas no ar, fazem-me lembrar de quem eu sou, de quem eu me tornei.

— Já passou. — respiro fundo, mas noto no quebrar dos olhos de Felicity certa frustração. Ela queria mais sobre o que guardei por detrás das minhas palavras, mergulhar em uma história que talvez não a desse a escolha de voltar atrás. Em contrapartida, eu sinto a falta de me abrir com alguém sobre o que aconteceu, não um psicólogo ou um profissional qualquer, mas uma pessoa que pudesse me dar um ombro acolhedor e não palavras árduas acentuando o quanto sei que errei.

— Não passou... Mas espero que um dia passe! — ela sorri com a ponta dos seus lábios deixando com que eu perca o controle da minha atenção.

— Você toparia fazer algo em que soubesse que iria se arrepender profundamente? — pergunto curioso, e nesse exato momento, forma-se uma nova ruguinha entre suas sobrancelhas em simetria.

— Queen, você não pretende me colocar em alguma das suas furadas, pretende?

— Você teria alguma cartela de ovos sobrando na sua geladeira? — levanto de imediato me direcionando até a cozinha estilo americana de Felicity. Eu amo como os azulejos conversam com o tom do tapete aveludado no chão da sala, eu poderia me deitar e tirar uma bela soneca sobre ele.

— Você nunca vai perder esse hábito de andar no meu apartamento como se fosse o seu? — Felicity me ultrapassa como um foguete, parando em frente a sua geladeira antes que eu consiga abri-la. Ela coloca suas mãos na cintura fazendo uma feição de indignação digna de uma cena hilária de comédia.

— Às vezes me faço a mesma pergunta. — dou de ombros.

— Por que eu te daria uma cartela de ovos?

— Eu te perguntei se faria algo comigo em que soubesse que iria se arrepender... Se eu te contar antes de fazermos você terá que me matar!

Felicity permanece com uma feição de dúvida e sensualmente, mesmo sem perceber, repuxa seu lábio inferior com verdadeira lentidão. Nas minhas escolhas de melhores momentos, a forma com que seus dentes perfeitamente alinhados riscam a pele sensível dos seus lábios, esse com certeza consegue se tornar o melhor. Eu só gostaria de poder agarrá-la em meus braços tomando o seu pequeno corpo contra o meu para que finalmente nossas bocas conseguissem se encontrar, em um slow motion tão lascivo que provavelmente viveríamos apenas do oxigênio um do outro.

Merda, eu ainda molharei a minha calça.

— Não confio em você.

— O que você tem a perder?

Um silêncio surge, parece que os seus neurônios estão buscando alguma resposta que faça sentido, porém ela sabe que dessa vez está em desvantagem. A noite está sendo um grande amontoado de esterco, tudo o que ela tem são potes vazios de sabor creme sobre sua mesa de centro, além de sapatos de lã que não deveria se orgulhar de estar calçando. E na TV parece passar pela milionésima vez Marley & Eu que sempre nos faz lembrar o quanto nossa vida é medíocre no final. Logo, realmente, Felicity não tem nada a perder vindo comigo.

— Irá matar alguém?

— Não.

— Irá roubar um banco?

— Com ovos? — pergunto confuso.

— Minha integridade vai estar protegida?

Baby, eu cuidarei de você.

Felicity estreita os olhos em minha direção revirando-os logo em seguida.

— Não tenho nada a perder! — agora é ela quem dar de ombros, arrancando-me uma risada em comemoração.

— Lá vamos nós!

~~~

Estamos andando há alguns minutos em um silêncio que por incrível que pareça não é constrangedor, é como aquele silêncio entre amigos que se conhecem o bastante para não estranharem uma simples falta de assunto. Eu continuo com uma cartela repleta de ovos de baixo do braço, é engraçado como Felicity está tensa ao caminhar do meu lado. Parece que realmente estamos prestes a roubar o JP Morgan Chase, um dos bancos de investimentos mais renomados de Nova Iorque.

— Você está bem? — pergunto em um sussurro.

— Eu estava tranquila até você sussurrar. Por que está sussurrando? Estamos apenas nós dois nessa rua abandonada!

O seu tom de voz é de quem dá um piti, mas também dentro de um longo sussurro.

— Apenas estou tentando manter as coisas mais interessantes por aqui. — mantenho o sussurro.

— Ah é? Isso tudo está muito estranho! — ela para na minha frente voltando a cruzar seus braços de uma forma divertida. Seu rosto está iluminado pela claridade da lua que segue nossos passos, deixando os traços de Felicity ainda mais genuínos. Lá estão as suas sardinhas sorrindo como eu havia citado, elas são malditamente charmosas.

— Fique calminha aí, eu não vou sequestrar você. — continuo andando a deixando para trás propositalmente.

— Você deixou sua moto encostada atrás de um arbusto a metros de distância de onde estamos. Essa rua é mal iluminada e não passa uma alma viva por nós! Como quer que eu confie em você? Bem que minha mãe me alertou sobre dar trelas a estranhos. — ela continua tagarelando como uma matraca, acelerando os passos passando por mim com certa velocidade. Um barulho estranho surge a alguns centímetros a nossa frente, fazendo com que eu a segure pela cintura em questão de segundos, puxando seu corpo para trás de uma árvore à medida que tampo sua boca evitando que um grito assustado possa escapar.

— Quietinha... — o abdômen de Felicity está subindo e descendo de pressa, ela agarra meus braços fortemente acomodando sua estatura pequena em meu peito duro. Eu gostaria de aproveitar um pouco mais esse momento, mas seria muita maldade da minha parte, não é por meio de uma trapaça que quero sentir o seu corpo quente. Novamente o barulho de passos à frente quebra meus pensamentos pecaminosos deixando com que eu volte a sussurrar. — Fique calma e me siga!

Felicity me corresponde com um sinal positivo com a cabeça, sua feição assustada ainda está pregada no seu rosto. Eu poderia rir, mas estou focado demais em não destruir o meu plano perfeitamente desenhado, e então, passamos pelas costas de dois brutamontes engravatados que rondam o grande portão de grades, eles parecem Pitbull’s protegendo a mansão dos seus amados tutores.

— Pronto, estamos quase dentro.

Felicity paralisa ao observar o lugar com mais cautela. — Eu não acredito! O que estamos fazendo aqui? Esses são os fundos da mansão da...

— Sim. Da Bruaca. Ops, eu quis dizer Helena. — dou de ombros.

— A gente tem que dar o fora daqui agora! — Felicity inicia passos para trás, mas a seguro pelo antebraço impedindo que se afaste.

— Você não vai a lugar nenhum!

— Oliver, esse lugar é repleto de seguranças. Se eles nos pegarem iremos virar churrasquinho para pequineses. — ela sussurra de forma incrédula.

— Eu sei.

— Pera aí... — aqueles olhos espremidos voltam a se dirigir na minha direção, dessa vez, de uma forma tão assustadora quanto os dois brutamontes que cuidam do portão traseiro da mansão de Helena. — Como você soube chegar aqui? Nem eu reconheci esse lugar.

Merda.

Ela me pegou bem no pulo.

Meneio a cabeça rapidamente. — Podemos deixar essa conversa para outro momento?

— Não. Ah não! Você e Helena? — Felicity faz uma cara de nojo acompanhada de uma ânsia.

— Só para deixar bem claro por aqui, eu não me orgulho disso.

— Oliver Queen, acabo de constatar que você achou esse seu amiguinho aí embaixo dentro de uma caçamba de lixo. — ela volta revirar os olhos. — Eu vou embora!

— Não, você não vai. — volto a puxá-la.

— Qual foi o propósito de me trazer aqui?

— Lavar a alma. — olho para ambos os lados. Atrás de umas plantas trepadeiras há um pequeno portão. Ele é escondido e um pouco enferrujado, eu costumava passar por ele para me encontrar com Helena, novamente eu preciso repetir, não me orgulho de ter ido para cama com essa mulher. O portão nos dá acesso aos fundos da casa onde estão os carros importados da Bruaca, eles serão nossos alvos. — Vem comigo... — antes que Felicity negue meu pedido, entrelaço nossos dedos de uma forma íntima que me deixa um pouco incomodado a princípio, mas que ao perceber nenhuma reação acaba me trazendo certa paz.

— Eu não estou acreditando...

— Está vendo aqueles carros? Você vai acertar esses ovos neles.

Felicity dá um passo para trás. — Por que eu faria isso?

— Porque é relaxante! Esses carros importados devem ser mais importantes para Helena do que os próprios pais. — não contenho uma risada. — Aposto que ela não gostaria do cheiro dos ovos nas suas belezinhas... — arqueio a sobrancelha como um garoto prestes a fazer uma das suas artes.

— Você é louco.

Baby, vai ser divertido. — abro a cartela colocando um ovo em sua mão trêmula. — Às vezes, precisamos fazer mais e pensar menos nas consequências!

Felicity respira fundo com seus olhos camuflados pelas nuvens escuras que encobrem a luz da lua que antes deixava seu olhar sobre o meu em um vívido azul. Ela reúne a atitude em seus ombros os erguendo, a mão segura o ovo com propriedade, há um tórrido silêncio ao nosso redor, apenas nós dois com uma cartela cheia de ovos que serão quebrados em um ótimo propósito. Sendo assim, Felicity pega um impulso arremessando o ovo certeiramente na traseira da Mercedes Benz prateada.

— Uau. — é o único som que escapa dos lábios de Felicity.

— Essa é a minha garota!

— Preciso de mais.

As mãos de Felicity avançam sobre os ovos de forma afobada.

O segundo acerta em cheio o farol.

O terceiro o para-choque.

E o quarto pega tanta velocidade que ao acertar uma das janelas aciona o alarme do carro, que começa a apitar de forma histérica. Logo o barulho dos latidos de cães nos deixa alerta, Felicity está com adrenalina nos olhos e à medida que o som se torna ainda mais audível, ela decide se permitir.

— Aparece sua cretina! — sua voz sai tão altiva que sobressai ao alarme do carro.

— É disso que eu estava falando, baby. — rio da sua coragem.

— Aposto que está se escondendo de baixo das barras dos seus pobres empregados! Ou eu deveria me referir a eles como ESCRAVOS?

Felicity arremessa mais um dos ovos, e para nossa surpresa, ele atinge exatamente Helena ao surgir pela porta trajando um roupão rosado em veludo. O seu corpo magro dá um passo para trás com o impacto, e nós também reagimos dando passos para trás pela jogada certeira.

— Strike! — levanto as mãos para acertar as de Felicity que permanece estática com o feito.

— Oh meu Deus, o que está acontecendo aqui? — Helena grita a metros de distancia. É hilário como a gema do ovo escorrega pelos seus cabelos presos em bobes. Se estivéssemos um pouco mais perto daria para sentir o calor que sai das suas ventas. Ela espreme os olhos parecendo nos reconhecer. — Eu não estou acreditando nisso!

— Acho que vai ter que deixar o seu cabelo de molho por algumas horinhas, chefinha! — o humor sarcástico de Felicity é primoroso.

— Eu vou chamar os seguranças! — a voz raivosa de Helena nos acerta como balas de um revolver.

— Faça o que quiser, mas nunca mais... — automaticamente minha mão volta a encontrar a de Felicity. Nossos dedos voltam a se entrelaçar em um molde impecável. A sensação de encontra-la me faz encher o peito de ar, dando-me repente para continuar. — Volte a mexer com a minha... Amiga. — desvio minha atenção para Felicity que ao escutar as últimas palavras saírem da minha boca prende o olhar na mesma direção que o meu. Consigo observar o meu reflexo no fundo de suas íris em um profundo escuro, até que o barulho de latidos fortes nos interrompe. Latidos que não parecem virem de dois cãezinhos pequineses.

— Merda. — Felicity xinga após voltar de nosso transe.

— Eu vou contar até três... No três você vai correr como nunca correu antes na sua vida! — atropelo as palavras de forma acelerada e antes de iniciar a contagem grito em amplo e bom som. — TRÊS!

"Agite meu mundo até o sol brilhar
Faça desse sonho o melhor que eu já tive
Danças sensuais sob o luar
Me derrube como um dominó

Cada segundo merece destaque
Quando nos tocarmos, não me solte nunca
Danças sensuais sob o luar
Me derrube como um dominó"

— Domino — Jesse J.

Ainda de mãos dadas á Felicity, iniciamos em sincronia passos rápidos passando pelo pequeno portão que nos deu acesso aos fundos da casa de Helena. Os brutamontes que cuidavam dos fundos da mansão estão atrás de nós com dois cachorros tão grandes quanto eles guiados por uma corrente. Mas estamos pouco nos importando, porque à medida que corremos atropelando nossas próprias pernas, trocamos risadas sinceras. Os fundos da mansão de Helena agora está cada vez mais distante, não há mais sinal dos dois homens que nos seguia, mas permanecemos correndo pelas ruas mal iluminadas, com nossos dedos suados entrelaçados um no outro. A sensação de nos termos unidos de uma forma intensa e ao mesmo tempo simples é estranha. Felicity e eu vamos diminuindo os passos assim que nos aproximamos do arbusto onde escondi minha moto, parando um de frente ao outro.

Nosso olhar continua fixo, a respiração afobada de quem parece ter corrido uma maratona. Mas o sorriso largo permanece preso nos lábios de Felicity, conseguindo com que eu sorria na mesma proporção, deixando com que minha cabeça incline para o lado direito, estou como um filhote de Labrador com a língua para fora aproveitando cada momento que esse sorriso energético de Felicity me proporciona. Nós estamos praticamente colados, posso sentir a ponta dos seus tênis tocarem os meus, mas continuamos parados partilhando de lufadas profundas, o seu cheiro conhecido embriagando minhas narinas. Os dedos suados de Felicity deslizam dos meus os soltando, ela pigarreia quebrando nosso silêncio. De uma forma a disfarçar o clima que se formava, abaixa seu corpo o apoiando sobre os joelhos. Sua respiração continua célere, porém permanecemos sem trocar se que um olhar novamente, eu apenas deixo com que meu peso se apoie no calcanhar.

— Isso foi uma loucura! — ela diz em um misto de eletricidade e exaustão.

— Eu disse que assim que aceitasse vir comigo faria algo de que se arrependeria profundamente.

Ela volta a erguer seu corpo, massageando sua cintura. Desta vez é a sua cabeça quem pende para um lado, parecendo procurar por certas palavras. — Obrigada. — Felicity revira os olhos ao dizer a palavrinha mágica.

— O que você acabou de dizer? — faço-me de desentendido.

Eu adoro a forma com que mantém sua resistência.

Felicity está apertando seus lábios um no outro evitando uma risada.

— Eu não vou repetir, não há essa possibilidade. — ela empurra meu peitoral com seu punho. — Agora nos tire daqui!

Deus.

Como eu preciso dessa mulher.

Imediatamente.

Hum. — faço um semblante curioso. — Você já pilotou uma moto alguma vez?

Não estou ficando louco, não ainda. Minha Harley Davidson é durona, ela já escapou de várias ciladas em que a coloquei, incluindo os golpes marcantes de uma barra de ferro por Mackenna. Nenhuma outra mão tocou nesses guidões a não ser as minhas, eu conheço o barulho dessa belezinha como um pai que admira o som do choro do filho, na verdade, ela é importante para mim com a mesma relevância. Perguntar a Felicity se ela alguma vez já esteve no comando de uma dessas máquinas é um passo longo. Pode não parecer, pode ser algo pequeno sob outros olhos.

Mas sob os meus, significa. Significa muito.

Felicity se surpreende com a minha pergunta. — Meu pai, Noah Kuttler, era dono de uma oficina. Ele costumava consertar umas motocicletas parecidas com a sua.

— Era? — pergunto ao sentir um pesar na voz de Felicity ao se referir a seu pai. Nunca havíamos conversado sobre isso.

— Sim... Ele faleceu quando eu era mais nova.

— Eu sinto muito.

— Não sinta, ele está sempre comigo. — seu sorriso é tão genuíno. Merda, estou me saindo um medíocre.

— Então... — meneio a cabeça em uma tentativa de mudar o rumo trágico que está ficando essa conversa. — Andar de moto é como andar de bicicleta. — afasto os arbustos por cima da Harley, colocando-a erguida.

— A gente nunca esquece. — Felicity ergue uma de suas sobrancelhas.

— Exatamente. — aproximo-me com um capacete nas mãos. De início ela se assusta um pouco com meus movimentos, mas logo relaxa ao perceber que estou apenas colocando o capacete. Á medida que encaixo o mesmo e prendo o fecho de baixo do seu queixo desenhado, voltamos a nos encontrar, a sua boca chega até mesmo entreabrir, e então, um novo pigarreio volta a quebrar a tensão. — Vou te dar uma chance de me matar.

Ela ri.

Eu apenas coloco o capacete.

— Não está falando sério. — zomba.

Baby... Hoje é o seu dia de sorte. — subo na moto e ela imediatamente sente o peso do meu corpo a abaixando um pouco. Estendo minha mão para que Felicity possa subir a minha frente. — Dizem que mulheres no guidão são um perigo constate.

O comentário machista e irônico a incomoda, dando-me uma cotovelada abaixo das minhas costelas ao subir, sentando-se na minha frente.

— Eu não brincaria com isso. — agora é ela quem ironiza.

Droga! Seu corpo quente ainda rico em eletricidade está roçando no meu com deliberada vontade, não por malícia, o banco acolchoado de couro é estreito e nos força a estarmos praticamente colados um no outro. E sua bunda, o que é a sua bunda empinada? Estou rezando para todos os santos deixarem meu pau bem quieto nesse exato momento, eu não gostaria de ferrar com tudo logo agora.

Possivelmente eu venha a ferrar com tudo.

Malditamente com tudo.

O meu queixo passeia pela nuca de Felicity e instintivamente ela se arrepia ao sentir minha barba rala por fazer, em uma tentativa falha guia seu corpo para frente para fugir. Minha respiração é quente e passeia pelos fios dourados que cercam sua orelha, e novamente, há um cruel arrepio. Ligo a chave na ignição deixando o moto em ponto morto, aciono a embreagem completamente. Engatando a primeira marcha a deixo no ponto. — Agora é só acelerar... E, por favor, não pilote como uma mulherzinha!

Não sou um completo machista babaca, mas sei o quanto Felicity odeia esses comentários. Apenas quero tirá-la um pouquinho do sério, frisando que por mais que ela esteja com as mãos no guidão da minha moto, sou eu quem ainda dita as regras. Sou eu quem está no controle. No entanto, ao ouvir minhas últimas palavras somente o que ouço é a batida que a viseira faz contra o capacete ao ser fechado. O ronco da moto é alto ao mesmo tempo em que o pneu risca o chão em um drift perfeito, eu tento não me desequilibrar em um susto agarrando a cintura de Felicity. Ela dá a volta alinhadamente, e em questão de poucos segundos, acelera com intensidade guiando a moto para frente. A quilometragem está subindo mais rápido do que eu imaginava, e eu gostaria de enfiar minha cabeça na bunda por ter caído na mentira de Felicity, é claro que ela sabe pilotar uma moto e faz isso muito bem.

À medida que passamos das ruas mais vazias no condomínio de luxo em que estávamos, começamos a nos deparar com a movimentação das estradas de Nova Iorque. Há carros e transportes públicos onde nos aproximamos, mas Felicity não está ligando para a velocidade, ela dribla os carros a nossa frente com habilidade, deixando-me apertá-la pela cintura ainda mais forte, como um menininho assustado.

— Não me aperte como uma menininha, Queen! — ela grita tentando sobressair ao som rústico que a moto faz.

Eu não a respondo, simples e puramente porque não tenho o que dizer. E, então, me deparo com uma via dupla separada por um semáforo. As ruas mais badaladas de Nova Iorque durante a noite costumam ser rígidas quanto a sinalização, uma via mantém carros parados enquanto a outra está ainda aberta, porém Felicity não diminui o pé no acelerador, pelo contrário, ela os afunda até o máximo deixando com que minha atenção seja guiada até o semáfora da via que estamos, ele está se fechando, a velocidade deveria ser reduzida de imediato.

— Reduza! Felicity, reduza a velocidade agora! — grito.

— Você não sabe brincar! — ela responde em animação. A adrenalina a faz continuar na mesma velocidade me contrariando. O sinal troca sua cor de verde para vermelho, mas ignorando a sinalização o ultrapassamos tão rápido que tudo ao redor é deixado sob a poeira. Eu comprimo os olhos quando me deparo com uma carreta em movimento na nossa direção, ela vem em uma velocidade amena, mas estamos quase colidindo. Nunca pensei que fosse me sentir assim, mas o ritmo das batidas do meu coração estão tão céleres, que no momento em que inicio o sentimento de arrependimento de ter zombado de Felicity escondendo meu rosto nos seus cabelos esvoaçantes sobre os ombros, um drift ainda maior é dado, nos tirando de segundos de uma colisão, ganhando uma grande buzinada da carreta que aumenta meu impacto. Ela não cede à velocidade, dirigindo a moto no caminho de nosso prédio, desviando das pessoas à medida que, finalmente, reduz a velocidade ao se aproximar da entrada do prédio.

— Isso foi uma loucura! — salto da moto antes que ela pare por completo.

Felicity salta em seguida, arrancando o capacete. — Eu tinha razão... É como andar de bicicleta.

— Nós poderíamos ter morrido, Felicity!

— Você tem que ver o quanto seus lábios estão pálidos. — ela inicia uma risada descontrolável.

— Não tem graça, você mentiu para mim. — cruzo os meus braços. O que ela estava pensando quando colocou nossas vidas em risco? Eu estava brincando quando a provoquei, ela não poderia ter levado a sério a ponto de foder com a nossa vida. Foder com a minha moto. Isso não é cômico, não é nem um pouco aceitável.

Sim, eu estou puto.

— Não menti, meu pai tinha uma oficina... Eu só omiti alguns detalhes! — ela ergue seus braços em sinal de rendição.

— Que se fodam os detalhes, não faça mais isso! — dou passos fortes até Felicity, agarrando seu pulso com propriedade, instantaneamente seu olhar é guiado até o meu em um profundo azul escuro que se encontra encoberto pelo céu nebuloso. Nossas respirações se chocam de modo que eu possa senti-las contra meus lábios, o espaço que nos separa se tornou centímetros, estou a pouca distância do seu queixo erguido. O nariz está empinado como de quem não se arrepende do que fez, como alguém que não está com medo da proximidade que estamos. A adrenalina ainda percorre nossas veias, ela está por todo o lugar, correndo nossas células que compõem cada partícula dos nossos corpos.

Às vezes, precisamos fazer mais e pensar menos nas consequências! Me beije, eu quero que você me beije agora.

Atônito com sua afirmação permito que minha mão solte o pulso de Felicity, minhas pernas agem por si só dando um passo para trás em distância. Não consigo explicar o porquê de me afastar, talvez, as palavras certeiras tenham me assustado ou a vontade tamanha de encontrar seus lábios me parecia longe demais para eu acreditar que as palavras que eu tanto queria escutar realmente tenham saído da sua boca. Mesmo com a pequena distância imposta por mim, nossos olhares acompanhados pela pouca luminosidade da lua estão fixados um no outro como se esse fosse o único caminho possível, como se estivessem interligados há muito tempo. Assim, as mãos delicadas de Felicity agarram o colarinho da camisa xadrez por de baixo da jaqueta que estou usando e com um pequeno esforço nos torna próximo novamente. Estou ainda sem reação, mas sinto os seus pés ficando apoiados nas pontas para conseguir alcançar a altura necessária para encontrar meus lábios. Tudo o que faço é fechar os meus olhos lentamente, desarmado com o roçar dos seus seios no meu peitoral largo em tensão, e assim, volto a deixar com que minha boca entreabra.

Baby... Não brinque comigo.

— Me beije. — ela sussurra novamente.

As muralhas estão indo ao chão.

Os obstáculos virando poeira.

As barreiras não existem mais.

Meus braços como garras entrelaçam a cintura de Felicity a grudando contra a minha, a sua temperatura é alta, estamos nos queimando. Roço a ponta de nossos narizes languidamente antes que nossos lábios se choquem, ouvindo um grunhido seguido de uma lufada profunda vindo da sua garganta. Eu poderia de forma afobada conseguir o que tanto estava esperando, mas preciso do cheiro de Felicity mais do que algo carnal, abraça-la até que toda extensão do seu corpo fique de baixo do meu, que o seu calor se misture ao meu intimamente.

Meus lábios escorregam pela superfície macia que é a sua bochecha esquerda, eu sinto o sorrir dos lábios dela riscarem minha maxila em resposta. Espero alguns segundos permitindo que meus olhos se abram, uma das minhas mãos correm pela pele de Felicity até encontra seu rosto, onde o seguro com cautela. Ela abre os olhos concordando com o que iremos fazer, dando-me a certeza que não estou cometendo um erro.

Sem mais esperas, meus lábios acertam os seus delicadamente, não há a fome que pensei que teria. Felicity toca suas mãos no meu peito que tenciona ao senti-la, ela me acaricia à medida que abre seus lábios permitindo que nossas línguas em um molde magnífico se encontrem, elas se movimentam com deliberada calma como se estivessem em uma dança, estamos em harmonia, eu posso ouvir o som de uma música imaginária nos cercando. E, o misto de emoções me acerta em cheiro, parece que no meu estômago há uma porção de borboletas tontas se chocando umas com as outras, o meu coração palpita no mesmo ritmo do de Felicity que, no momento, está praticamente sobre o meu. As minhas pernas são bambas, estou tendo que ter certa força de cintura para me manter sobre elas, e para completar o meu estado adolescente, a respiração pesada que trocamos durante o beijo faz com que um formigamento estranho percorra todo o meu corpo. No entanto, nossos lábios se separam, e eu brigo comigo mesmo por querer continuar com ela perto, mantendo-me com os braços a segurando como se fosse minha propriedade.

Felicity brinca com meus lábios antes de se afastar por completo, escorregando por mim até tocar os pés no chão.

Eu arfo com a distância, mas permanecemos com os olhos fechados.

— Eu preciso... — murmura.

— Não... — impeço que se afaste se quer um centímetro.

— Desculpa. — Felicity reúne forças para se afastar. — Mas eu não saberia lidar com as consequências!

Antes que eu diga algo, pense em palavras que possam fazer algum sentido ela se afasta. Deixando-me para trás sem nenhuma reação, permanecendo com as pernas ainda anestesiadas, os batimentos cardíacos arrítmicos e um frio na barriga que não lembro qual foi a última vez que senti.

Ela me da às costas.

Ao invés de me dar respostas.

Deixando-me com perguntas que nem mesmo eu vou conseguir responder.

Notas finais
Galerinhaaaaa, eu tentei fazer algo diferente nesse capítulo mas falhei com essa cidade! Sou uma tapada pra inserir gif's, então fiquem com a imagem da cena 5x20, o beijo foi inspirado nesse mesmo beijo. Até a próxima. ♥