Notas iniciais
Boa tarde, anjinhos!

Vi meus pais na sala quando entrei em casa, parei na porta, suspirei e entrei, tomando o pouco de coragem que eu tinha.

– Madre, padre... eu preciso conversar com vocês.

– Claro, hija. – meu pai disse, desligando a televisão. – Sobre o que?

Me sentei na mesinha de centro, para ficar de frente para eles, comecei a brincar com meus dedos, olhei para o chão e respirei fundo.

– Eu estou apaixonada...

– Isso é bom, hija. – minha mãe disse, com um lindo sorriso.

– Quem é o rapaz? – meu pai perguntou.

– Não... – respirei fundo, fechei meus olhos e abaixei minha cabeça. – Não é um garoto...

Eles ficaram em silêncio, eu sabia que eles se entreolhavam sem entender.

– Explique isso direito, Santana. – meu pai disse.

– E-eu... e-eu gosto de garotas.

Novamente veio o silêncio, evitei levantar minha cabeça para não ver os olhares que eu mais evitava. Meu pai se levantou, passou por mim e foi até a cozinha, minha mãe continuou olhando para mim, como se quisesse acreditar no que ela acabara de ouvir.

– Mi hija, creó de alguna manera, se convirtió en un completo desconocido! – meu pai gritou da cozinha.

– Hija… de dónde sacaste eso?

– Ainda não terminei...

Meu pai voltou, parou atrás de mim e ficou me encarando.

– Você tem uma namorada? – minha mãe perguntou.

– N-não exatamente... eu... eu amo três mulheres...

– Qué? – meu pai gritou.

– Santana Lopez, desde cuando és una prostituta? – minha mãe perguntou.

– Eu não sou uma prostituta! – gritei. – Nem ao menos fizemos sexo!

– Santana! – meu pai gritou.

As lágrimas começaram a se formarem em meus olhos, olhei para minhas pernas, fechei meus olhos e ouvi meu pai se sentar no sofá.

– Quem são essas três? – minha mãe perguntou com a voz calma.

– E-eu não posso dizer...

– Responda sua mãe!

– Não! Eu não quero deixar de vê-las!

– Respuesta! – meu pai gritou.

– Britt, Quinn e Rachel! – gritei de volta, não contendo minha raiva.

Minha mãe se levantou e subiu para o quarto, provavelmente já estava chorando, meu pai me deu um forte tapa no rosto, se levantou e subiu as escada atrás da minha mãe. Eu não sabia o que devia fazer naquele momento. A dor em meu rosto não doía tanto quanto a dor que eu sentia em meu coração. Por que era tão difícil admitir à mim mesma e à outras pessoas quem eu era? Me levantei, sentindo um pouco de tontura, por conta do forte tapa que levei, subi as escadas lentamente e entrei em meu quarto, olhei pela janela e comecei a chorar, sabendo que ninguém me viria.

***

Acordei com a cabeça latejando, por conta do choro da noite anterior, olhei pela janela, a luz do sol bateu em meu rosto e eu fechei meus olhos, pois eles começaram a arder. Me levantei lentamente, entrei no banheiro e lavei meu rosto, prendi meus cabelos em um coque desajeitado e desci para a cozinha. Vi minha mala ainda pronta na porta, olhei para os meus pais que estavam tomando café à mesa, me aproximei da cafeteira e peguei uma xícara, colocando café nela em seguida.

– Por que minha mala está na porta? – perguntei, com a voz rouca e bem falha.

– Você não vive mais nessa casa. – meu pai respondeu.

– Padre...

– Não me chame de padre. À partir de agora eu não sou nada seu.

– Mas...

– Pegue sua mala e saia dessa casa.

As lágrimas voltaram para os meus olhos, coloquei a xícara em cima da mesa, me aproximei do telefone, mas fui parada por minha mãe.

– Não adianta ligar para sua abuela. Eu disse à ela para não lhe acolher lá.

– Minha abuela me aceita.

– Mas você não irá para lá.

– E para onde eu vou?

– Pensaria nisso antes de se tornar uma...

– Um unicórnio. – completei.

– Como?

– Nada.

Peguei minha mala, olhei para meu pai e suspirei.

– E o resto das minhas roupas?

– Eu as jogo na grama depois. – ele respondeu.

Abaixei minha cabeça, as lágrimas começaram a sair silenciosamente, caminhei até a porta e suspirei. Meus pais, que até o dia anterior, me amavam, agora eram completos estranhos. Vi o carro da Quinn sair da garagem, meu pai fez questão de bater a porta assim que eu saí, arrastei minha mala até a calçada e Quinn parou o carro em minha frente.

– Entre. – a ouvi dizer.

Abri a porta, coloquei a mala no banco de trás e me sentei ao seu lado. Ficamos em silêncio, parecia que não nos conhecíamos e sentíamos vergonha de dizer a primeira palavra. Quinn parou o carro em frente à lanchonete, olhou para mim e mordeu seu lábio inferior.

– Eles me odeiam... – sussurrei.

– Eles só não estão entendendo.

– Eles me odeiam!

– Sant...

– Eu fiz uma escolha, achei que seria o certo, mas agora eles me odeiam.

– Escuta. – eu a olhei, ela fechou os olhos e suspirou. – Eu não vou dizer que tudo vai ficar bem, porque pode não ficar. Pessoas te olharam diferente, você poderá ser chamada de coisas horríveis, poderão te bater ou fazer qualquer coisa física de ruim com você. Mas entenda uma coisa, nós NUNCA vamos te deixar sozinha, entendeu? Por mais que eu seja protetora demais, que Britt seja bastante infantil e que Rachel seja muito dramática, nós te amamos e não nos importamos com o que você é, e o que deixará de ser.

– Quinn... – choraminguei.

– Você é linda, inteligente, bem madura para a sua idade, me faz feliz, trouxe Beth para cá, me deu esse cordão que eu não tirei nem para dormir, fez Rachel e Britt se acertarem de um ódio que nunca existiu... Você é especial, Santana. Você nasceu para ajudar as pessoas, embora muita das vezes se afaste do resto do mundo.

Eu sorri, ela limpou minhas lágrimas, me deu um rápido selinho e sorriu.

– Obrigada, Q.

– Agora vamos entrar na lanchonete, você vai lavar esse rosto, vai pegar uma roupa limpa e se trocará, porque essa roupa não está apresentável. – eu ri e ela novamente sorriu. – Eu vou preparar umas panquecas para você, já que hoje eu fico na cozinha. Quando você se sentir bem, poderá ir para minha casa ficar com as meninas.

– Mas o que eu faço depois? Não tenho casa, minha abuela mora longe e, as aulas começarão amanhã.

– Você vai ficar conosco.

– Mas eu ainda tenho 17 anos e...

– Santana, não discuta comigo.

Ela saiu, eu fiz o mesmo, peguei um short rosa e uma regata branca, fui até o banheiro, lavei meu rosto e troquei de roupa, voltei até o carro para guardar a que eu usava antes, entrei novamente na lanchonete e me sentei em uma mesa afastada da entrada. Kimberly se aproximou e sentou de frente para mim.

– O que faz aqui em dia de domingo? – ela perguntou.

– Fugindo do mundo. – respondi, olhando para os meus dedos.

– Péssima escolha de lugar.

Eu sorri, olhei para ela e a vi sorrir.

– Kimberly, posso perguntar uma coisa?

– Sim.

– Como foi quando...

– Quando?

– Como foi quando você contou aos seus pais que era...

– Lésbica? – afirmei com a cabeça e ela sorriu. – Foi estranho, achei que eles me expulsariam de casa, sabe? Mas aconteceu tudo bem.

– E você ainda mora com eles?

– Não, mas por escolha minha.

– Mas você ainda tem 17 anos.

– Eu sei, mas isso não muda as coisas. Se você quer realmente sair de casa, não importa a idade que você tem.

Katie se aproximou, olhou para nós duas e suspirou.

– Kim, você devia estar trabalhando.

– Eu estou trabalhando.

– Não, está não. Está conversando com ela.

– Santana é uma cliente, ela me disse que quer milk shake de chocolate e torta de limão, eu já anotei o pedido e já estou indo entregar à Quinn.

– E por que ainda está sentada?

– Santana é cliente antiga, e ela gosta de conversar com as garçonetes.

Eu olhei para Katie e sorri, ela revirou os olhos e se afastou.

– Na verdade, eu quero panqueca, já que é Quinn que está na cozinha. – eu disse. – E eu não gosto de conversar com as garçonetes.

– Eu sei, apenas disse isso para calar a boca da Katie. Ela é tão insuportável...

– Pois é...

– Acredita que ela disse à Lucy que Sophia e eu estávamos nos agarrando na frente dos clientes? Nós apenas nos beijamos, e nem foi um beijo de verdade!

– Ela conversa muito com a Rachel. – murmurei.

– Sim, eu percebi isso. Rachel disse que tem namorada para um cliente, na frente de todos, mas fica de conversinha com essa daí.

Lucy se aproximou de nós duas e olhou para Kimberly.

– Kim, eu sei que Santana é legal, mas evite ficar conversando e comece a agir.

– Está bem.

Kimberly se levantou, as duas se afastaram, eu olhei pela janela e suspirei. Eu queria estar sozinha, ficar longe de todos, mas parecia que não era o que meu coração queria, ele pedia por companhia. Kimberly se aproximou com meu pedido, eu sorri para ela e comecei a comer.

***

Quinn sentou ao meu lado, eu a olhei, confusa e ela sorriu.

– Vamos?

Olhei pela janela e percebi que já era noite. Sorri para ela, entramos em seu carro e a ouvi cantarolar algo. Eu queria chorar, mas as lágrimas não vinham. Olhei para Quinn, que parecia prestar bastante atenção na estrada, sorri e fechei meus olhos.

– Quinn... – sussurrei.

– Hum?

– Obrigada.

– Pelo que?

Abri meus olhos, respirei fundo e sorri.

– Pelas palavras acolhedoras que você me disse hoje cedo.

– Não foi nada...

– Foi sim. Se não fosse por elas, eu estaria pirando nesse momento.

Rapidamente ela olhou para mim, sorriu e parou o carro.

– Como Rachel diz, sou protetora.

Nós saímos do carro, Quinn carregava minha mala, olhei para minha casa, ou antiga casa e vi minhas outras roupas na grama. As lágrimas vieram, sim elas vieram. Mordi meu lábio inferior e senti Quinn segurar minha mão, me puxando para dentro. Britt estava assistindo televisão com Beth, Rachel estava na cozinha, Quinn colocou minha mala no chão, virou de frente para mim e beijou minha testa.

– Eu não consigo, Quinn...

– Consegue sim. Você é forte. Vá tomar um longo banho, coloque um pijama e venha jantar conosco.

Eu afirmei com a cabeça, fui direto para o banheiro, fechei a porta e enchi a banheira. Tirei minhas roupas lentamente, como se meu corpo estivesse machucado e eu teria que tomar cuidado, entrei na banheira e soltei um pequeno gemido, ao sentir a água gelada em meu corpo. Eu chorei, o que mais queria era chorar e chorei. Eu não tinha mais meus pais, não tinha casa, não tinha amigos. Tinha apenas aquelas três lindas mulheres que eu mais amava.

– Sant, quer que eu pegue uma toalha para você? – ouvi Britt gritar.

Não consegui responder, o nó em minha garganta não deixou. Me afundei na água, abri meus olhos e vi a luz embaçada. Eu poderia me matar naquele momento, mas não faria isso. Tenho amor à vida e tinha quem e amasse. Senti alguém me puxar rapidamente, tossi um pouco e vi Britt me abraçar.

– B-Britt...

– Não faça isso, Sant...

– Mas eu...

– Por favor, não faça isso...

Eu a abracei, fechei meus olhos e voltei a chorar. Eu não sabia o porquê, mas Britt tinha o melhor abraço do mundo. Era acolhedor, passava segurança, e era exatamente aquele abraço que eu precisava naquele momento.

– Britt... – sussurrei. – Eu estou nua.

Ela se afastou rapidamente e fechou os olhos.

– Me desculpe, Sant. Eu... eu vou sair.

Britt se levantou e correu para fora do banheiro, eu sorri e me apoiei na banheira. Assim que entrei na sala de jantar, vi as quatro sentadas à mesa, todas olharam para mim e sorrira, o que me fez sorrir de volta. Me sentei ao lado da Rachel, Quinn me serviu e Britt se levantou, indo à cozinha e voltando com um copo cheio de suco para mim.

– Coma, porque você precisa. – Rachel disse.

Eu comi, estava com fome, não sabia disso, mas estava. Escovei meus dentes, e vi Britt me entregar um travesseiro.

– Use ele para dormir.

– Não precisa, Britt.

– Precisa sim. Ele ajuda à espantar os monstros durante a noite.

Peguei o travesseiro, sorri e entrei no quarto da Rachel, que já estava pronta para dormir.

– Você tem alguma preferência de lado? – ela perguntou.

– Não.

– Que bom, porque eu só durmo no lado direito.

Eu sorri, ela se deitou, eu fechei a porta, me deitei ao seu lado e Rachel apagou a luz do abajur.

– Rae.

– Hum?

– Eu te amo.

– Eu também te amo, Sant.

Me virei de frente para ela, acariciei seu rosto e sorri.

– Não importa o que aconteça a partir de agora, eu amo as três e não quero ficar longe de vocês, nem por um segundo.

– Eu também não.

Eu lhe dei um demorado selinho, ela fechou os olhos e suspirou.

– Boa noite, Rae.

– Boa noite, Sant.

Notas finais
Só vou postar esse por hoje, porque estou recebendo poucos comentários. u.u Beijos, gatinhas!