Necrofilia II: A Ilha
1 Bem-Vindos à La Désirade
Notas iniciais
Bem-Vindos à La Désirade
Tinha sido um péssimo dia.
Acordei com o barulho infernal vindo da casa dos vizinhos. O garoto punk filho dos McSutter estava sozinho em casa naquele final de semana e aproveitou para destruir a vida de toda a vizinhança com aquele lixo que ele chamava de música.
Levantei-me da cama e fui até a janela, observando a rua irritada. Meu marido – Cayo Collins— limitou-se apenas a analisar as curvas do meu corpo negro e esbelto, dizendo qualquer coisa sobre eu ficar linda quando estava com raiva.
— Faça esse garoto parar! – eu pedi.
Cayo— um homem alto, de corpo quase atlético, barba e cabelos longos e de um olhar tranquilizante –, fora reclamar com o garoto. Não só ele como todo o quarteirão, mas o malandro sequer abriu a porta, então tivemos que chamar a polícia, mas era tarde demais.
Nossas vidas começaram antes do horário habitual. Levantei e fiz o café da manhã enquanto Cayo respondia as pilhas de mensagens de trabalho em seu e-mail. Quando as torradas ficaram prontas, eu desejei nunca tê-las feito. Em algum momento entre preparar um suco de laranja e virar os ovos com a espátula as torradas queimaram!
O mal humor em um sábado matinal não era comum, mas aquele fatídico dia estava prometendo ser horrível.
Depois do café, eu e meu marido fomos correr na avenida paralela à praia, observando a vida florescer entre as calçadas de Miami. Estava indo tudo bem, o dia estava agradável e o céu sem nuvens, as pessoas riam conversando umas com as outras e eu finalmente tinha conseguido esquecer os gritos horrorosos da “música” punk. Porém, como se algo estivesse conspirando contra mim, um carro invadiu a mão contrária em alta velocidade, vindo em nossa direção. Cayo me agarrou pela cintura e me puxou para o lado antes que o veículo matasse nós dois, no instante seguinte caímos em cima do cimento fresco, onde um homem fazia reparos na calçada.
Ficaríamos parecendo dois blocos de concreto na volta para casa, não fosse o fato de tomarmos um banho de mar, antes de retornarmos encharcados e quase mortos. Passei o resto do dia na cama. Que mal haveria de acontecer na cama?, pensei e logo tive a resposta. Na tentativa de tentar me animar, Cayo fez um pedido de comida chinesa, uma das coisas que eu particularmente adoro, mas tudo deu errado quando ele tropeçou no tapete derrubando a bandeja e melando todo forro de cama.
— Deus! Que dia difícil! – exclamei.
— Deve ser Carma.
Não acreditava que fosse.
— Sabe do que precisamos? – Cayo perguntou subitamente.
— De pés de coelhos e um crucifixo?
— Não – ele disse sorrindo – de uma viagem.
— Concordo.
— A energia aqui em Miami está um pouco carregada, precisamos nos desconectar.
Aquela era a parte hindu do meu marido falando, e confesso que as vezes eu ouvia seus concelhos. Dias depois – enquanto me olhava no espelho prestes a sair para o trabalho – Cayo chegou em casa com duas passagens de avião para um lugar no fim do mundo, me mandando fazer as malas.
— Vamos, vai ser legal!
— La Désirade? Onde fica isso?
— É uma ilha no Caribe. Saímos daqui de Miami para Porto Príncipe e de lá para Pointe-à-Pitre em Guadalupe, depois é só pegar um barco para La Désirade ou um pequeno avião. A ilha é pequena e poderemos ficar em paz para renovar nossas energias.
— Você só pode estar ficando maluco – eu disse meio rindo e meio nervosa.
— As passagens estão aqui – ele respondeu balançando os papéis.
Dois dias depois estávamos no aeroporto, de malas prontas e câmera na mão.
— Onde iremos ficar? – perguntei.
— Já disse. Numa casa ao leste da ilha, aquele homem de quem falei vai nos abrigar.
— Ah, sim. O couchsurfing! Confia nessa pessoa? Eu nunca fui com a cara desse tipo de hospedagem.
— Ele mora no Caribe! Eu confio em pessoas que moram tão bem.
Nós rimos e fomos para o portão de embarque. O voo foi agradável e depois de duas conexões, chegamos à La Désirade no meio da tarde, a bordo de um monomotor que achei sinceramente que fosse cair antes que pudéssemos aterrissar. Nos minutos que procederam a aterrissagem eu pude vislumbrar a paisagem magnífica que se desenrolava a minha frente. A ilha tinha uma forma alongada e crescia para muito além do nível do mar, formando escarpas nos dois lados mais extensos que elevavam-se para formar um platô, como se toda a ilha fosse um grande tabuleiro. Em um dos lados o mar batia com força nas pedras, já no outro via-se praias belíssimas e uma comunidade que se estendia de ponta a ponta, na margem de uma estrada. Por sorte nada de ruim aconteceu durante o pouso e chegamos sãos e salvos às Antilhas.
Ao desembarcarmos num pequeno campo de pouso, tomamos um carro que nos levou pela estrada paralela ao oceano em direção oeste, entrando em uma estrada de chão e seguindo para leste, num caminho que galgava o tabuleiro até o platô e continuava por boa parte da elevação.
— Irão acampar? – perguntou o senhor que dirigiu o automóvel. Ele era negro e tinha sempre um sorriso estampado no rosto, seu nome era Pierre. Cayo estava ao lado dele, no banco do passageiro.
— Não, vamos ficar na casa do senhor Conrad.
— Ele vive isolado aqui na parte alta, vocês deveriam ficar na cidade.
— Precisamos de um lugar de descanso, sem barulhos urbanos. Só a natureza e nós.
— Ah, entendo. Vocês fumam maconha!
— Não, não! – eu disse. – Não é isso.
— Sei – ele disse num tom de ironia.
Dez minutos depois chegamos à uma casa na beira da estrada, próxima à encosta da escarpa, de onde se podia ver as praias e a cidade margeando a estrada. Pierre tirou nossas malas do carro, nós pagamos e ele foi embora enquanto carregávamos as coisas para a porta da casa.
A residência do senhor Jason Conrad era grande, tinha além do piso térreo o primeiro andar e um sótão, a estrutura era toda feita em madeira e pintada de branco. O contorno das vidraças tinham um tom vermelho intenso, bastante bonito e do outro lado do vidro as cortinas brancas impediam a visão do interior dos cômodos. Batemos na porta várias vezes até que alguém nos atendesse.
— Cayo e Eva Collins? – o homem perguntou depois de abrir a porta.
Eu fiquei surpresa no primeiro momento. Estava esperando um coroa de cinquenta e poucos anos, nos recebendo acompanhado de sua mulher e filhos, mas nada disso aconteceu. O que estava na minha frente era de tirar o fôlego e mesmo uma mulher casada como eu saberia reconhecer isso. Jason era um rapaz de mais ou menos vinte e oito anos, cabelos ruivos bem cortados, repartidos para o lado, olhos castanhos e corpo atlético. Estava vestido apenas numa calça, sem camisas e fumava um cigarro, que apesar de ser uma coisa da qual não gosto, me pareceu deixá-lo mais atraente.
— Isso mesmo – ouvi Cayo responder enquanto me perdia analisando o rapaz.
— Sejam bem-vindos à La Désirade! Entrem, vou levar-lhes até o quarto, fica no primeiro andar.
Ele nos ajudou a levar as malas para cima e nos instalou, depois nos informou sobre alguns horários (como o café e coisas de cunho turístico), regras da casa, e disse estar à disposição caso precisássemos. Por último ele deu a penosa notícia de que não havia internet naquela parte da ilha, ou seja, estávamos literalmente ilhados e se quiséssemos acessar a rede teríamos que ir até a cidade.
O pôr-do-sol já havia passado quando descemos para jantar. Jason tinha preparado espaguete ao molho de camarão, suco de morangos silvestres colhidos no quintal e reservado um bom vinho. O mais impressionante que aquilo tudo era de graça. Que belo anfitrião, pensei, em todos os sentidos.
— Então vocês moram em Miami, não é mesmo? – Jason perguntou entre uma garfada e outra.
— Sim – respondi.
— Eu morei lá por um tempo.
— É americano? – Cayo quis saber.
— Nasci na Holanda, mas fui morar nos Estados Unidos quando criança.
— Há quanto tempo mora aqui? – eu perguntei.
— Dois anos. Eu vivo aqui e ali, não gosto de ficar parado, entendem?
— Nossa cara! Como que você trabalha?
Cayo às vezes podia ser bem invasivo, mais do que eu considerava saudável.
— Herdei o dinheiro dos meus pais – ele notou nossa expressão condolente – faz muito tempo, não liguem para isso.
Quando terminamos me ofereci para lavar os pratos, como forma de agradecimento pela hospitalidade. Depois ele nos levou para o lado de fora da casa e ficamos jogando conversa fora à beira da fogueira, com o precipício bem ali, a poucos metros da gente. Algumas doses de vinho mais tarde, Jason e meu marido revezaram um violão, enquanto eu cantava alegremente algumas das músicas que me fazia lembrar o Caribe.
Quando me deitei naquela noite senti o corpo mais leve e peguei no sono mais rápido do que acontecia na vida estressante em Miami, onde por vezes tinha insônia.
Um som estranho me fez despertar no meio da noite. A casa estava escura e Cayo dormia profundamente. O barulho não era nada comparado com o som de música punk, se restringia apenas a um som abafado e ritmado, vindo do andar de cima – o sótão. Deixei o quarto com passos silenciosos e caminhei até a escada, subindo os degraus devagar, um após o outro. A porta de acesso ao sótão estava entreaberta, então espiei pela estreita abertura, mas não conseguia ver nada além do brilho fraco de uma lâmpada. Enfiei os dedos na fresta e empurrei a porta com cuidado, todavia não evitei que ela ecoasse seu gemido estridente. Passei lentamente pela abertura e caminhei na direção que vinha o som, com passos curtos, cautelosos e carregados de tensão.
Subitamente a luz ficou trêmula, falhou por um ou dois segundos e ressurgiu, só depois notei de onde vinha o barulho. A pequena janela redonda do sótão estava aberta e o vento que soprava forte e veloz fazia a janela bater incessantemente. Outra lufada de ar entrou pela abertura e a luz tremeu mais uma vez, apagando novamente. No instante seguinte alguém tocou meu braço e eu gritei apavorada, de repente a luz acendeu e dei de cara com os olhos castanhos de Jason em cima dos meus.
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