Necrofilia II: A Ilha
2 Os Outros
Notas iniciais
Eu tentava respirar normalmente, mas ainda estava assustada e meu coração palpitava acelerado.
— Você me deu um grande susto! – eu disse.
— O que está fazendo aqui em cima? – ele perguntou desconfiado.
Expliquei sobre a janela, logo depois ele a fechou corretamente e deixamos o sótão. Ele parecia não ter gostado da minha perambulação pela casa, ainda mais no meio da madrugada.
— Desculpe, eu não deveria...
— Não foi nada. O barulho também estava me incomodando, agora pode voltar a dormir.
Ele me deixou na porta do meu quarto e começou a descer a escada em seguida.
— Não vai dormir? – perguntei.
— O sol nasce em uma hora, acho que irei surfar.
A imagem de Jason sem camisa em cima de uma prancha surgiu inconscientemente. Tentei expulsar aqueles pensamentos enquanto voltava para cama.
Cayo e eu levantamos por volta das oito horas e a mesa do café estava posta, cheia de frutas, biscoitos e outras comidas. Depois de comermos, Jason nos levou em seu carro – uma Land Rover Defender – até o outro lado da ilha, numa praia deserta e deslumbrante. Eu não quis entrar na água, fiquei apenas observando a paisagem e rindo da tentativa frustrada de Jason ao tentar ensinar Cayo à surfar.
Voltamos para a casa no platô pela tarde. Fiz um gostoso prato com mariscos locais e depois do almoço passamos a tarde meditando, ou basicamente reproduzindo tudo que a parte hindu do meu marido fazia.
Cayo estava deitado na cama ao meu lado. Nós nos olhávamos sorridentes, um com a mão por cima do outro. Nossas vidas em Miami sequer passava pelos nossos pensamentos.
— Jason parece ser um cara legal – Cayo confessou.
Eu apenas concordei com a cabeça.
— Está gostando de ficar aqui?
— Sim.
— É relaxante como eu havia falado!
— Como seu eu hindu tinha falado.
— Acho que já não existe outro além desse.
Ele se aproximou me beijando.
Fizemos sexo. Foi prazeroso, mais que da última vez, porém tinha algo de errado comigo. Enquanto transávamos eu não parava de pensar em Jason. Eu amava meu marido, mas mesmo assim não parava de pensar e isso foi me deixando desconfortável, felizmente Cayo chegou ao orgasmo antes que eu parasse a coisa toda.
Pouco tempo depois Jason bateu na porta. Levara biscoitos e leite, desejou boa noite e partiu. Nós dormimos logo depois da pequena refeição.
Quando abri os olhos pela manhã, Cayo não estava lá. Onde ele havia se metido? Vesti uma roupa e desci para a cozinha espaçosa onde fazíamos as refeições, encontrei Jason em pé encostado ao balcão, tomando uma xícara de café.
— Viu o meu marido?
— Ele saiu bem cedo, disse que ia caminhar.
Eu fiquei mais aliviada.
— Ele falou quando voltava?
— Só disse para não se preocupar – ele respondeu, apontando uma cadeira em seguida. – Venha comer!
Após o café subi para tomar um banho, pois estava fazendo muito calor. A água caia sobre minha pele, refrescando meu corpo por inteiro. Fechei os olhos e me perdi no som que a água fazia ao tocar o chão. Sem esperar senti o toque suave das mãos de Cayo nos meus seios, sua boca beijando meu pescoço, me fazendo arrepiar. Virei-me de frente, ainda com os olhos fechados e o abracei, beijando sua boca. Só então percebi que não era o meu marido.
Isso é loucura, esse é o Cayo e eu estou vendo coisas!, disse para mim mesma, mas não era ele. Jason estava pelado, acariciando o meu corpo e me beijando enquanto a água molhava nós dois. Seu membro viril entre as minhas pernas, fazendo-as tremer e perder as forças. Eu não tive reação. Fui tomada e deixei-me levar pela atração sexual e a sedução daquele homem ruivo, que afagava meus cabelos com vontade. O que eu estou fazendo?
— Nós não devemos – eu disse.
Jason me virou de costas para ele, contemplando toda minha submissão e fazendo-me apoiar na parede do banheiro. Em seguida desligou o chuveiro, beijou minhas costas e me penetrou de forma calma e carinhosa. Quando terminamos, me senti a pessoa mais horrível do mundo.
Fui para o quarto e me tranquei por horas, esperando que meu marido voltasse. Contaria tudo para ele, e não importava o que poderia acontecer. Preparei as melhores palavras e tentei me acostumar com a ideia de que estava tudo acabado. Eu sou um lixo de esposa.
A manhã tinha passado e a tarde estava quase chegando ao fim, mas Cayo não voltou para casa. Estava prestes a levantar e sair do quarto quando algo estranho aconteceu. A janela do quarto estava aberta e por todo tempo entrou apenas uma brisa frescas e leve, mas de repente parecia que o tempo tinha fechado. Uma chuva torrencial estava a caminho, carregando com ela ventos fortes, nada como os furacões da costa leste, mas forte o suficiente para derrubar algumas coisas dentro do quarto. Uma bola de basquete caiu de cima do guarda-roupas, fazendo muito barulho ao bater no chão. Levantei e fui até ela e a peguei para tentar colocá-la de volta no lugar, subi na cama, me apoiei no móvel de madeira e estiquei a mão para jogá-la em cima dele. Perdi o equilíbrio e na tentativa de evitar que caísse me agarrei ao guarda-roupas pela parte superior, acabando por arrastar uma caixa rasa.
Dei de costas com a cama e uma pilha de papéis antes contidos na caixa caiu sobre mim.
Fotos e passaportes!
Havia passaportes de homens e mulheres do mundo todo, bem ali em cima da cama, esparramados ao meu redor, ao lado de fotos bizarras e tenebrosas, e um conjunto de identidades falsas com o rosto de Jason. Em uma das imagens uma mulher estava deitada no piso do banheiro, sem a cabeça, ensanguentada, enquanto era penetrada por um homem. Em outras fotografias homens mortos eram violados. Todas as fotos eram diabólicas e sangrentas, exceto uma delas: a fotografia espontânea de uma linda e jovem mulher, nua e sorridente na beira de um lago. Atrás da imagem estava escrito o que talvez fosse o nome da garota, Brooke Desmont.
O que são todas essas imagens?
Eu estava com medo e acima de tudo preocupada. Onde Cayo estava?
Eu deveria ter saído para procurá-lo, mas ao invés disso eu o traí e agora as coisas começavam a ficar mais esquisitas. Como se não bastassem as fotografias e o sumiço do meu marido, algo subitamente pingou no meio da minha testa, escorrendo entre os meus olhos.
Sangue.
Olhei para o teto e a madeira estava empapada, como se tivesse uma possa no piso do sótão e foi logo depois disso que tive a ideia mais estúpida da minha vida – ir até lá.
Fale com o autor