Natural Born Killer
17 Sangue Em Suas Mãos
Notas iniciais
Enfim, espero que gostem do capítulo! E não esqueçam dos reviews, por favor :)
Segunda Parte: Jogos Macabros
07 DE SETEMBRO DE 2006
Ele olhou mais uma vez os corpos ensanguentados na sala e sorriu vitorioso. Observou orgulhoso a sua arte, como um pintor observa sua pintura. Observou os cortes feitos com cuidado e respirou fundo, sentindo o cheiro do sangue que começava a penetrar no local. Ele havia feito tudo certo. Certo demais. Havia escondido seu rastro e com ele, todas as provas. Aquilo iria entrar para a história. As pessoas iriam tremer ao ler a notícia nos jornais. Os pais iriam trancar seus filhos em casa e iriam inventar alguma desculpa para não irem trabalhar. O medo iria morar naquela cidade, iria entrar por cada porta sem que o morador soubesse. Iria estar nas ruas, nas lojas, nas praças. Era o começo de tudo. Era o começo da vingança que ele havia planejado a vida inteira. Era o começo da exposição de sua arte.
Limpou cuidadosamente a faca e a guardou na mochila junto com o pano, as cordas, a agulha grossa e a linha negra. Pendurou a mochila em um dos ombros e saiu da casa, fechando a porta atrás de si. Caminhou lentamente até a caminhonete velha e tirou as luvas com cuidado, as colocando também na mochila. Ligou a caminhonete e logo estava na estrada vazia. O sorriso ainda estava estampado no canto de seus lábios e seu olhar permanecia semicerrado. Sentiu uma leveza tomar seus músculos assim que se lembrou do prazer que sentiu ao ver o medo nos olhos deles. Ainda podia ouvir os gritos desesperados e o cheiro do sangue ainda estava impregnado em suas narinas. Guardou a mochila no fundo do armário e se jogou na cama gelada. Sentiu seu tórax pesar como se tivesse ficado sem descansar por um mês. A excitação e o nervosismo não dominavam mais seu corpo, mas ele ainda se sentia incrivelmente satisfeito. Às vezes seu coração o traía e ele sentia um leve arrependimento, mas logo sua mente se encarregava de fazê-lo lembrar de tudo. Ele era bom nisso; sabia esconder sentimentos, sabia controlar sua própria mente. Conseguia domar seus pensamentos e decidir exatamente o que iria sentir. Havia aprendido ainda pequeno, enquanto secava suas lágrimas. Ele havia sentido a dor, havia experimentado todo o sofrimento e havia se tornado forte; forte o suficiente para não se arrepender e não temer. Ele não tinha compaixão e muito menos dó. Ele chegou a ter um coração e mesmo assim todos haviam passado por cima dele. Aprendeu a não se importar mais.
Estava quase adormecendo quando sentiu seus músculos doerem e algo lhe dizer que uma forte dor de cabeça estava por vir. Bufou e levantou da cama, dando-se por vencido. Andou até o pequeno armário ao lado da geladeira e procurou um analgésico. Passou pela sala e parou para olhar a vista pela janela. A cidade iria acordar em poucas horas e todos esperariam por mais um dia normal em suas vidas rotineiras e inúteis. Haviam esquecido a arte de questionar. Estavam afundando no rio da escória. Perdeu-se o senso crítico, a perspectiva, a vontade própria. Era uma sociedade submissa e conformista. As pessoas se sentiam mais a vontade sendo vitimadas do que se erguendo sozinhas. Ele não queria fazer parte daquilo, não queria ser igual aos outros que aceitavam as condições e as ordens. Ele não queria ser manipulado e moldado para servir àqueles que achavam que tinham o poder. Para ele, não existia lei, não existia regra. Era um mundo sem dono onde cada um lutava por si. Sozinho.
Ligou a televisão. Perguntou-se quando veria sua arte ser anunciada ali. Sorriu, mas logo sua expressão ficou séria. As lembranças estavam voltando. As memórias estavam novamente ocupando todo o espaço que antes era ocupado pelo orgulho e pela satisfação. Ele ainda podia ouvir o riso dos outros, podia ver seus olhos cheios de maldade. Podia ouvir o nojo estampado na voz enquanto apontavam seus dedos para ele. Ele não podia parar; tinha que concluir seu plano para que pudesse dormir sem acordar assustado após um pesadelo. Levantou e seguiu até o telefone. Discou o número que já sabia de cór e ouviu pacientemente os toques.
– Alo? – a voz pareceu sonolenta.
– Eu... Matei. – ele falou com dificuldade.
– O que?
– Seis pessoas. Eu comecei.
– Você está louco! Não me ligue mais. – a voz respondeu rude.
– Espere... Eu preciso de você. – ele falou depois de um tempo.
– Precisa? Para sustentar seus vícios e aguentar os seus surtos? Não, obrigada.
– Eu...
– Se não se importa, eu preciso ir dormir.
– Eu me importo. – ele respondeu rapidamente.
Ouviu-se uma risada sarcástica do outro lado da linha.
– Adeus.
– Venha até mim. – ele ordenou.
– Você não manda em mim. – a pessoa respondeu rapidamente.
– Você sabe que poderá ser pior.
– Não tenho medo de você.
– Eu senti o cheiro do sangue e o vi molhando as minhas roupas. Eu ouvi todos os gritos e eu fui a causa deles. Acredite em mim, é melhor você ter medo. – ele falou sério.
– Você é louco, eu...
– Eu sei que você vai vir. – ele a interrompeu.
– Nem morta.
Ele sorriu. Podia sentir a adrenalina passar novamente por seu corpo.
– Sabe onde me encontrar.
Ele desligou o telefone e, ao mesmo tempo, sentiu suas forças irem embora. Viu-se no cômodo escuro e vazio. Mesmo julgando todas as pessoas, ele sabia que elas tinham uma coisa que ele não tinha: amor. Ele tentava convencer a si mesmo de que ele não precisava disso. Afinal, somos ensinados a amar nossos amigos e nossos inimigos, então, qual valor tem o amor? Isso era uma coisa que o irritava: a banalização de certos valores e sentimentos que não poderiam perder o sentido. O amor era tão falso e tão “pseudo” quanto os “te amo” que ele ouviu os casais sussurrarem enquanto ele passava pelo corredor da escola. Ele se sentia enojado de tantos sorrisos e tantas juras. Ele tentava todos os dias esquecer o fato de que estava sozinho, de que não poderia se apoiar em ninguém quando tudo desse errado. Ele não tinha nem ao menos para quem contar os detalhes de sua primeira obra de arte. Ele não tinha para quem demonstrar seu orgulho e sua satisfação. Era ele e o seu vazio. Era apenas ele e seu coração negro. Apenas ele.
Olhou para a janela e viu o sol nascendo. Sentiu a vida brotar em seu coração e fazê-lo lembrar de que estava vivo, apesar de tudo. Apesar de toda a dor, de todo o sofrimento e de todo o remorso, ele estava vivo. Estava ali. Ele conseguiu chegar onde queria, conseguiu fazer o que havia planejado. Balançou a cabeça. Não podia sentir pena de si mesmo. Não agora; precisava manter o controle para vestir novamente sua máscara e sair por aquela cidade. Precisava conquistar cada morador e ter acesso a cada casa. Precisava saber todos os segredos e estudar todas as rotinas. Ele tinha que ser forte, mas isso não era difícil para ele; havia sido forte durante toda a sua vida.
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