31 DE DEZEMBRO DE 2006

– Matt? – Nora perguntou assustada assim que abriu a porta.


– Oi... – ele respondeu com um sussurro – Eu posso entrar?


Nora mordeu os lábios e olhou para trás, como se estivesse procurando por alguém que pudesse ajuda-la a descobrir o que fazer. Ela suspirou e voltou seus olhos para Matt, observando suas roupas brancas e como elas combinavam perfeitamente com a pele e os olhos claros. Ela não havia esquecido o último encontro dos dois; a marca roxa no braço, que havia permanecido até alguns dias atrás, havia feito questão de lembra-la todos os dias. Apesar de tudo, ela ainda se sentia segura perto dele. Era contraditório. Matt sempre foi e sempre seria o seu porto seguro. Ele havia errado, Nora sabia disso, mas ela também havia errado muito desde que colocara seus pés em Northamptonshire. E então, atendendo às súplicas de seu coração, ela deu passagem para que Matt pudesse entrar no apartamento.


Ele abaixou a cabeça enquanto passava por Nora e suspirou, sentindo o perfume adocicado dela. Sorriu ao vê-la fechar a porta e virar-se para ele, olhando em seus olhos. Procurou palavras que pudessem explicar o arrependimento que estava condenando ele desde a última vez que havia estado naquele apartamento, mas era como se nenhuma frase fosse suficiente para tirar a dor que havia em seu peito. Ele suspirou novamente, tentando quebrar o silêncio que havia se instalado entre os dois. Nora ainda o olhava atenta, como se esperasse as palavras que ele sempre dizia quando errava. Ele não disse nada. Estava confuso; não sabia se não achava palavras para descrever seu arrependimento ou se ele não estava arrependido o suficiente para pedir desculpas. Foi a vez dela suspirar e Matt abaixou os olhos; não queria ver novamente a decepção transbordar pelos olhos dela.


– Você está bem? – ela perguntou depois de um tempo.


– Estou. – ele respondeu baixo – E você?


– Estou. – ela respondeu sorrindo fraco.


– Onde vai passar o ano novo? – ele perguntou tentando puxar assunto.


– Acho que vou ficar por aqui... – ela deu de ombros – E você?


– Vai ter uma festa pequena na padaria... – ele começou – Não quer ir? Não precisa ir comigo, você pode ficar com a Lizzy, ou...


– Quero. – interrompeu.


– Ótimo. – ele respondeu aliviado.


– Agora? – ela perguntou percebendo o silêncio dele.


– É. – ele respondeu enquanto colocava as mãos no bolso da bermuda branca.


– Tudo bem. – ela sorriu animada – Vou me trocar, pode me esperar na sala.


Ele assentiu enquanto a observava correr até o corredor e entrar no quarto. Ela respirou fundo ao fechar a porta atrás de si e tentou retomar a consciência.


– Eu fico com a Lizzy, depois venho embora... – ela sussurrava enquanto tirava um vestido branco do armário – Eu não preciso ficar com ele. – ela tentou se convencer – Eu preciso ficar com ele. – deu-se por vencida.


Colocou o vestido, escovou os dentes e fez uma maquiagem rápida enquanto tentava não pensar nas consequências que aquela noite poderia trazer. Olhou-se no espelho pela última vez e andou até a sala, praguejando contra si mesma pela demora. Matt levantou do sofá e ela corou ao sentir os olhos verdes a analisarem. Ele sorriu.


– Está linda.


– Obrigada. – ela apertou as mãos de nervosismo.


– Vamos? – ele andou até a porta.


Ela assentiu e o acompanhou até a saída, trancando a porta do apartamento. Desceram até o térreo e ela sentiu o vento frio atingir seus braços, como sempre acontecia quando ela saia do prédio. Matt passou o braço por cima dos ombros dela, numa tentativa falha de aquecê-la. Ela sorriu em agradecimento e entrou no carro. As palavras passavam por sua mente, mas ela não tinha coragem de puxar assunto algum, o que fez o silêncio tomar o caminho até a padaria dele. Ela observou as luzes coloridas de Natal que ainda decoravam a entrada do lugar. Nora acordou de seus pensamentos quando Matt abriu a porta do passageiro para que ela pudesse descer. Entraram na padaria e logo passaram por um corredor que Nora não conhecia. Alguns quadros e fotografias decoravam as paredes e tornavam o lugar mais aconchegante do que um corredor normal. Chegaram ao pequeno jardim onde várias pessoas sorriam e conversavam animadas.


– Nora! – Lizzy sorriu enquanto dava passos largos na direção dela.


– Oi. – ela respondeu enquanto envolvia a loira em um abraço quente.


– Vem comer, daqui a pouco vamos soltar os fogos. – Lizzy falou enquanto puxava Nora pelo braço e a guiava até uma comprida mesa com comida.


Alguns doces europeus se misturavam com as comidas americanas e faziam Nora se sentir em casa. As bebidas coloridas eram convidativas e Nora foi obrigada a se esforçar para não encher um copo para si mesma.


– Que bom que você veio. – Lizzy falou enquanto mordia um cupcake.


Nora apenas sorriu enquanto tomava um gole do refrigerante.


– Como vocês estão? – Lizzy sussurrou.


– Vocês...? – Nora fez-se de desentendida.


– É. Você e o Matt. – Lizzy respondeu sorrindo enquanto olhava para Matt que conversava com um senhor.


– Estamos... – Nora pensou – Bem.


– Que bom. – Lizzy sorriu – Sabe, ele nunca se relacionou com alguém. Ele é muito problemático... – ela deu de ombros.


– Problemático? – Nora franziu o cenho.


– O Matt é muito ciumento, possessivo... Às vezes faz coisas sem pensar. – Lizzy respondeu sem dar atenção.


– Que tipo de coisas? – perguntou curiosa enquanto colocava o copo vazio em cima da mesa.


Lizzy torceu os lábios e voltou seus olhos para Matt.


– Ele... – a loira suspirou – Não é nada demais, Nora.


– Lizzy...


– Ei, vamos soltar os fogos! – Matt interrompeu enquanto sorria para as duas.


Lizzy sorriu e andou até uma pequena mesa onde havia várias caixas com fogos de artifício. Nora suspirou e passou seus olhos pelas pessoas que ainda conversavam animadas. Não havia nada de estranho; nada que pudesse despertar a desconfiança dela. Mas mesmo assim ela sabia que algo estava errado, algo dizia que Matt não estava sendo totalmente sincero com ela e isso fazia seu coração apertar em uma mistura de dor e medo. Relaxou sua mente e preocupou-se somente em aproveitar a noite que estava por vir. Um novo ano iria começar e trazia com ele as promessas de vida nova que Nora fazia todas as vezes. Olhou a aglomeração de pessoas ao redor da mesa com os fogos de artifício e olhou o relógio de pulso.


Um minuto.


O coração de Nora protestou de saudades de seu pai e ela sentiu os olhos marejarem. Era o primeiro Ano Novo longe de sua família e ela sentia-se deslocada e sozinha. E ela estava sozinha. Todos estavam com seus parentes e esposas e ela perguntou-se o que estaria fazendo ali. Observou Matt sorrindo enquanto ajudava a organizar rapidamente os fogos no gramado ainda molhado pela chuva fina que havia caído de tarde.


Quarenta segundos.


Observou Lizzy sorrir enquanto ajudava o irmão. Um cachorro grande e peludo passou correndo no meio dos fogos, desorganizando tudo o que havia sido arrumado. As pessoas riram, divertindo-se com todo o trabalho que teriam para arrumar tudo a tempo. Nada os entristeceria. Nada tiraria os sorrisos dos rostos. Eles estavam juntos, e Nora via através dos olhos deles que aquilo era o que realmente importava.


Vinte segundos.


Os fogos foram finalmente arrumados e Matt levantou, limpando a mão suja na bermuda branca. Ela riu do jeito desastrado dele e ele sorriu para si mesmo, achando graça das marcas de terra na bermuda. As pessoas se afastaram e abraçaram-se, prontas para admirarem juntas a queima de fogos que estava por vir. Ela abraçou os próprios braços e sorriu fraco.


Um segundo.


A queima de fogos tirou por alguns instantes a audição de Nora. Ela levantou os olhos, admirando a explosão de cores que iluminava o céu escuro. Algumas finas faíscas coloridas também podiam serem vistas não muito longe dali. O céu havia sido tomado por uma espécie de competição entre cores, formatos e barulhos ensurdecedores. As pessoas se abraçavam e algumas choravam emocionadas, mas Nora não estava observando; seus olhos estavam fixos nos raios brilhantes que ainda podiam ser vistos no céu. Sentiu uma mão quente encostar-se ao seu ombro nu e, antes de abaixar os olhos, lábios quentes e carnudos tocaram os seus.