Nation: A garota da capa vermelha

36 Jacob - O retorno a Quilay


A nave cortava os céus em silêncio, deslizando sobre as nuvens enquanto deixávamos Hummam para trás. Eu estava sentado na poltrona central da cabine, mas minha mente não estava ali. Tudo que eu conseguia pensar era em Renesmee.

O gosto do último beijo ainda estava nos meus lábios. O perfume dela, a delicadeza de sua pele, o jeito que me olhou antes de sussurrar um adeus sem palavras.... Aquele olhar me perseguiu por todo o voo. O imprinting havia me mudado — e a ela também. Nunca imaginei que uma noite fosse capaz de quebrar tantas barreiras.

Mas agora, ao retornar a Quilay, o peso da responsabilidade caía novamente sobre meus ombros como uma capa invisível. A cidade precisava de mim.

Ao meu lado, minha mãe, Sarah — a Rainha Consorte — observava o céu com a tranquilidade de quem carrega a sabedoria de muitos anos. Mesmo após a cerimônia, ela fez questão de permanecer ao meu lado, e agora voltava comigo e com Bella para casa.

Bella estava do outro lado da cabine, quieta. Os olhos fitos na imensidão do céu, mas sua expressão dizia que a mente dela estava a quilômetros dali. Talvez com Renesmee. Talvez com algo que ainda não me contou.

— Está preocupada com ela? — Perguntei a Bella.

Ela levou alguns segundos para responder.

— Um pouco. Mas fico mais tranquila sabendo que Seth está por perto…

Sarah olhou para Bella e sorriu, aquele sorriso sereno e firme que sempre me acalmava quando criança.

— Aqui você estará segura, Bella. Renesmee também. Eu mesma cuidarei para que nada falte a ela quando chegar.

Bella desviou o olhar por um instante, mas sorriu em agradecimento. Sarah, como sempre, foi além.

— E, sim, eu sei da verdade — disse suavemente, encarando Bella com ternura. — Não se preocupe. Em nossa família, não há espaço para mentiras. Só para lealdade.

Bella arregalou levemente os olhos.

— Então... a senhora sabe?

— Sei. — Sarah assentiu, olhando para o horizonte pela janela. — E vou te dizer algo que talvez ainda tenha medo de ouvir: as leis não deveriam decidir se uma mulher deve ou não gerar herdeiros. Essa escolha é sagrada. Pertence somente a ela.

Bella abaixou o olhar, emocionada. Seu rosto estava sereno, mas eu a conhecia bem o suficiente para perceber: havia algo mais. Um segredo guardado com tanto zelo que nem mesmo Renesmee deveria saber ainda. Havia um traço de medo nos olhos dela. Ou seria culpa?

Inclinei o corpo para frente, analisando-a com mais atenção.

— Bella? — Chamei com calma. — Há algo que você não está me contando?

Ela hesitou, depois apenas balançou a cabeça.

— Não agora, Jake. É só... preocupação.

Eu não insisti. Bella sempre soube o que fazia, mesmo quando tudo parecia desmoronar. Ela era mais forte do que deixava transparecer. E agora, ao lado de minha mãe, estava protegida.

Quando sobrevoamos os campos de proteção de Quilay, o coração apertou. As barreiras energéticas reconheceram nossa nave, e a cidade se abriu sob nós como um segredo revelado.

Quilay… lar.

As torres de tecnologia reluziam como espelhos, captando a energia do céu. As ruas suspensas estavam cheias de vida, com veículos silenciosos e painéis flutuando com mensagens e atualizações do reino. As árvores digitais cresciam em harmonia com a vegetação real. Um equilíbrio raro. Uma utopia protegida.

Mas mesmo dentro desse paraíso oculto, havia ameaças. E parte de mim se arrepiava ao pensar na aproximação de Renesmee. Em quatro dias, ela estaria aqui. E com ela… traria mais do que sua presença. Trazia esperança. Mas também riscos.

Olhei para Bella uma última vez antes do pouso. E para minha mãe, que me encarava com a mesma confiança que sempre demonstrou.

— Estamos de volta — murmurei, mais para mim mesmo.

E ainda assim, sentia que algo muito maior estava só começando.

O transporte oficial pousou suavemente no centro da fortaleza principal, onde o brasão da Casa Black cintilava sob o céu metálico de Quilay. A plataforma se abriu, e o vento fresco da capital me envolveu como um lembrete do lar. Ainda antes que meus pés tocassem o chão, vi as figuras familiares que me aguardavam em formação.

A guarda real estava perfilada, liderada por Sam — meu comandante de confiança. Ao lado dele, Quil, sempre sério, e Claire — sua companheira, a guardiã que tantos respeitavam. Eles haviam retornado de Hummam dois dias antes para preparar o território. Atrás deles, Embry e Paul mantinham a posição com expressões firmes. E à frente de todos, com o manto oficial dos nobres de Quilay e os cabelos presos de forma impecável, estava minha irmã: Leah, a princesa.

Ela me olhou com o típico ar de desafio que sempre guardava para mim, mas havia algo mais — orgulho. Ela sabia o peso que eu carregava. E ainda assim, nunca deixava de me lembrar quem éramos: irmãos, sangue de realeza, herdeiros de uma linhagem poderosa.


— Majestade — disse Leah, com um sorriso discreto nos lábios. — A guarda real o recebe de volta a Quilay.

— É bom estar em casa — respondi, cruzando o olhar com todos eles antes de caminhar até o grupo.

Sam se adiantou com um leve aceno de cabeça.

— E a Rainha? — Perguntou.

— Renesmee permanecerá em Hummam pelos próximos quatro dias — respondi, olhando para o palácio à frente. — Seguindo as tradições humanas: a princesa recém-casada deve passar esse período com os pais antes de seguir para viver com o marido.

— Humano demais pro meu gosto — resmungou Paul, arrancando um olhar reprovador de Leah.

— Respeito é tradição, mesmo quando não é a nossa — disse ela, direta como sempre.

— Falando nisso — continuei voltando meu olhar para minha irmã — Leah, preciso que acomode Isabella Swan. Ela ficará conosco no palácio, por ordem da Rainha.

Leah arqueou uma sobrancelha, surpresa.

— A humana?

— A mãe da Rainha — corrigi, com firmeza. — E uma mulher sob proteção direta da nossa família. Não quero que nada falte a ela.

Leah assentiu com leveza e, com um gesto gentil, virou-se para Bella, que vinha logo atrás de minha mãe.

— Seja bem-vinda à Casa Real, Isabella. Eu mesma lhe mostrarei seus aposentos.

Bella sorriu de leve e fez uma reverência educada, seguindo Leah e minha mãe, Sarah, pelo corredor lateral do palácio. Minha mãe me lançou um último olhar sereno, como quem dizia "vá cuidar do que precisa".

Quando todos se dispersaram, Sam permaneceu ao meu lado, como sempre.

— Relatórios? — Perguntei, já sabendo a resposta.

Ele me entregou um painel de vidro com projeções suspensas. Meu olhar escaneava as informações enquanto caminhávamos pelo corredor interno em direção ao salão de comando.

— Alguma movimentação em nossas fronteiras?

— Houve tentativas de rastreio por parte de exploradores, mas nenhuma ameaça direta. Reforçamos os protocolos de invisibilidade no setor leste e desativamos dois drones de reconhecimento não identificados.

— Humanos?

— Parece que sim. Tecnologia obsoleta. Mas alguém anda curioso.

Suspirei, fechando o painel.

— E o povo?

— Muitos aguardam a chegada da nova Rainha. Comentários positivos, mas também... expectativas.

— Como sempre — murmurei. — Mantenha tudo sob controle. Não quero nenhuma brecha. A presença dela aqui mudará tudo, e preciso que este reino esteja preparado para isso.

Sam assentiu.

Ao adentrar o coração da Casa Real, o ar de responsabilidade voltou a pesar. Mas agora, havia algo mais comigo. A lembrança do toque de Renesmee, o som da sua risada, o jeito que mordeu o lábio quando me chamou de "meu marido".


E, mesmo diante de toda essa tensão política, militar e diplomática… pela primeira vez em muito tempo, eu sorri.

— Em quatro dias… — murmurei para mim mesmo. — Ela estará aqui.

E quando estivesse… nada mais seria como antes.