Nation: A garota da capa vermelha

37 Jacob- O conselho de Quilay



A sala do Conselho era circular, feita de pedra negra e adornada com painéis de luz azulada que pulsavam suavemente nas paredes — como se respirassem junto conosco. No centro, a mesa ancestral de Quilay, esculpida com os nomes de todos os reis e líderes que vieram antes de mim. E hoje, mais uma vez, eu me sentava ali — diante daqueles que carregavam o peso da sabedoria e do passado.

Os Anciãos.

Harry Clearwater estava à esquerda, os cabelos brancos presos atrás da cabeça, olhos que pareciam atravessar gerações com apenas um olhar. Ao lado dele, o espírito firme de meu bisavô, Ephraim Black, se projetava em forma holográfica — um dos poucos cujos registros mentais foram preservados por completo. Os outros quatro membros do Conselho completavam o círculo, todos com vestes cerimoniais e o ar pesado da responsabilidade.

Hakan foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Aguardaremos a chegada da escolhida do lobo para a bênção oficial — disse Hakan, o mais velho dos anciãos. — Nenhuma rainha pode tocar o trono sem antes receber a luz da lua sobre a fronte.

Assenti com um leve movimento de cabeça. — Renesmee estará aqui em quatro dias. Honrará as tradições humanas antes de assumir seu lugar ao meu lado.

Harry Clearwater inclinou-se para frente, os olhos marcados pela sabedoria e preocupação. — Meu rei, precisamos que governe com firmeza. Os tempos estão mudando... os Lunarks crescem em número. E agora mais do que nunca, nosso povo precisa de liderança.

Meu maxilar se contraiu. Lunarks. Um nome que ainda me queimava o peito.

— Ainda temos o tratado... — comecei, mas fui interrompido.

— O tratado foi respeitado pelas gerações passadas — disse Ephraim, meu bisavô, sua voz rouca mas firme. — Mas os jovens não querem mais seguir os passos antigos. Seu irmão, Jacob...

Meu coração apertou. — Alexandre...

— ...ele lidera os Lunarks. — completou Ephraim. — Um lobo marcado pela sombra, banido por traição, agora seguido por outros que se recusam a aceitar a ordem que construímos.

Eu me recostei na cadeira, sentindo o peso da responsabilidade sobre os ombros.

— A união com a humanoide não foi em vão — continuou o velho ancião. — O lobo a escolheu. O imprinting é a resposta do espírito para manter o equilíbrio. Ela é a chave.

— Eu sei — murmurei, lembrando do rosto de Renesmee. Da noite anterior. Da força escondida em seus olhos. — Mas até que ela esteja aqui... o reino depende de mim.

Os anciãos assentiram. A sala voltou ao silêncio.

Sabíamos que os Lunarks, selvagens, impulsivos, sedentos por liberdade e sangue, não esperariam a bênção de uma lua cheia para atacar. E o pior...eles buscam conhecer nossos caminhos...

E Alexandre… meu sangue. Meu irmão.

O tempo da paz estava se esgotando.


As portas do Salão do Conselho se fecharam atrás de mim com um leve sussurro mecânico. O corredor escuro se estendia à minha frente, e à medida que eu caminhava, as luzes iam se apagando uma a uma atrás de mim. Era como se o próprio palácio estivesse reconhecendo minha presença e me conduzindo ao próximo passo.

— Comunicação com Hummam restabelecida, senhor — disse Embry, surgindo ao meu lado com a postura atenta de sempre. — Sala de enlace está pronta.

— Obrigado, Embry. — O alívio tomou conta de mim ao ouvir aquelas palavras.

Apressei os passos até a ala leste. A porta da sala se abriu assim que cheguei, e logo a um holograma acendeu em um brilho azulado.

A imagem foi surgindo aos poucos até que lá estava ela.

Renesmee.

Usava um vestido rosa claro que realçava a delicadeza da sua pele e a suavidade do seu olhar. A tiara repousava com leveza sobre seus cabelos, dando-lhe uma aura que só poderia ser descrita como real. Sentada no jardim da casa de Charlie, ela sorriu ao me ver — e foi como sentir o sol pela primeira vez após um longo inverno.

— Jacob… — sua voz saiu suave, quase como um suspiro. Meus ombros relaxaram.

— Minha rainha — respondi com um sorriso inevitável. — Está linda. Ainda mais do que no dia em que nos casamos. E olha que isso parecia impossível.

Ela riu, meio tímida. — Faz somente um dia.

— Um dia longe de você é como um ano longe da luz — falei, com honestidade.

Ela sorriu, mas havia algo pensativo em seus olhos.

Como estão as coisas aí? E Bella?— perguntou, a voz carregando um certo cuidado.

— Estáveis. Sam retomou as patrulhas nas fronteiras e Serh tem me deixado bem informado sobre seus horários e segurança. E Bella, posso dizer que ela e Sarah viraram grandes amigas— Pausei por um momento, então ergui o pulso. — Preciso que você olhe para seu bracelete real, Nessie.

Ela obedeceu, franzindo o cenho. — Aconteceu algo?

— Não exatamente. Mas esse bracelete foi criado para mais do que ser um símbolo. Se, em qualquer momento, você sentir que está em perigo… que há algo estranho, incômodo, mesmo que pequeno… quebre-o. Entendido?

Quebrar? Mas o que acontece se eu fizer isso?

— A segurança de Quilay será ativada. Você terá um canal direto com a guarda de elite. E eu… — fiz uma pausa, olhando para ela — eu estarei lá. Onde for, como for. Não importa o que esteja acontecendo.

Ela assentiu devagar, tocando o bracelete com carinho.

— Eu espero não precisar usar.

— Mas deixa menos louco por estar longe — completei.

Faltam três dias, Jacob… e eu já estou ansiosa — ela sorriu, mas dessa vez havia uma doçura quase nostálgica em sua expressão. — Nunca pensei que fosse dizer isso sobre retornar a um reino que ainda estou descobrindo.

— Quilay já é seu lar, Renesmee. E sempre será. Eu só… — hesitei — quero garantir que você chegue aqui com segurança. Só isso.

— Aconteceu alguma coisa? — ela insistiu, desconfiada.

Sorri suavemente. Ela ainda não sabia sobre Alexandre. E por enquanto, era melhor assim.

— Apenas precaução. Há muitos olhos observando a movimentação da Rainha do Lobo. O mundo tem fome de poder… e você é uma faísca em meio a um barril de pólvora. — Me aproximei da tela. — Mas nada vai te atingir enquanto eu estiver vivo.

Ela tocou os lábios e estendeu a mão para a tela.

Promete?

— Com minha vida.

Nos despedimos com um beijo doce, mesmo que virtual. Um gesto suave, mas carregado de promessas. A tela se apagou, e por um instante, a sala pareceu vazia demais.

Três dias.

Só mais três dias.

E então, Renesmee estaria comigo.

Comigo... e longe de tudo que se aproxima na escuridão.

Quer continuar com a chegada de Nessie, ou mostrar mais do que está acontecendo com Alexandre e os Lunarks sem que ela saiba?



A claridade suave do amanhecer atravessava as cortinas grossas do meu quarto quando a voz eletrônica ecoou pelo ambiente, sempre pontual e impessoal.

— Bom dia, Vossa Majestade. — era Kiwwi, meu assistente virtual. — Hoje é o 17º dia do ciclo lunar de primavera. Sua agenda inclui reunião com o Ministro de Defesa às dez, almoço com os representantes de comércio da Colônia de Varn, e revisão dos protocolos de segurança do perímetro Alfa ao final da tarde.

— Obrigado, Kiwwi — murmurei, passando as mãos pelo rosto. — Adicione uma videoconferência com o Conselho Científico para o início da noite. E lembre-me de verificar pessoalmente os preparativos para a chegada da rainha.

— Anotado, senhor. Preparando suas roupas.

O painel ao lado do quarto deslizou com um leve chiado, revelando as vestes reais do dia: uma túnica escura de tecido tecnológico adaptável à temperatura e um broche com o brasão de Quilay preso ao ombro. Me vesti em silêncio, os pensamentos já distantes.

Dois dias.

Só mais dois dias.

Desci pelos corredores dourados do Palácio Real. O som das botas contra o piso polido era a única companhia até alcançar o grande salão de refeições. A mesa já estava posta e, à cabeceira, estavam minha mãe Sarah e Isabella Swan — ou simplesmente Bella, agora hóspede em Quilay por desejo de Renesmee.

Sarah ergueu os olhos e sorriu com sua elegância natural. Bella, ao me ver, levantou ligeiramente o rosto e falou com um tom leve:

— Fiquei sabendo que viu Nessie ontem. Como ela está?

Sentei-me à mesa, deixando que os criados servissem chá quente e frutas.

— Ela está bem. Usava a tiara real, estava linda. E... perguntou por você — respondi, olhando para Bella com seriedade. — Quis saber se você estava segura. Eu disse que sim.

Um brilho de alívio percorreu os olhos dela, mesmo que ela tentasse esconder.

— Isso me conforta. Ela sempre se preocupa mais com os outros do que com ela mesma — disse Bella, mexendo o chá distraída.

Minha mãe olhou para nós com um sorriso sutil.

— Vocês são mãe e filha— comentou, com delicadeza. — Nessie é uma jovem forte. Ela será uma excelente rainha.

Assenti. Coloquei um pedaço de pão na boca, mas o sabor parecia distante. Meus pensamentos já estavam no futuro.

Dois dias.

Era isso que me restava antes que ela estivesse aqui, ao meu lado, no trono ao qual pertencia. Antes que eu pudesse protegê-la de tudo que ainda não sabia — de Alexandre, dos Lunarks, das ameaças veladas.

Apenas dois dias.

E mesmo assim, o tempo parecia se arrastar como um ciclo inteiro de inverno.