Nation: A garota da capa vermelha
38 Jacob- Sinal de alerta
A sala do trono estava silenciosa, iluminada pelos tons frios das janelas de vidro inteligente que se ajustavam à luz do dia. Minutos depois, as portas se abriram, revelando o grupo de cientistas da Colmeia Central de Pesquisa. Todos vestiam trajes com os símbolos de Quilay bordados em fios de prata — orgulhosos, sérios, e sempre pontuais.
— Vossa Majestade — disse o cientista-chefe, um homem baixo de cabelos prateados chamado Elian —, viemos lhe trazer o relatório atualizado sobre as reservas de Itryo.
Assenti, fazendo um gesto para que prosseguissem.
— As estimativas mais pessimistas foram superadas — continuou Elian, enquanto um holograma tomava forma entre nós. — A nova câmara de extração da Zona Três revelou um veio profundo, ainda inexplorado. Nossas reservas cresceram 27% neste ciclo.
Um alívio silencioso me percorreu. O Itryo era a força vital de Quilay — combustível, energia, e tecnologia, tudo dependia dele.
— Boas notícias — respondi. — Quero que separem uma carga extra para Hummam. Discreta. Ainda não oficialmente registrada.
Os cientistas se entreolharam, mas Elian apenas assentiu com um aceno respeitoso.
— Será feito, Vossa Majestade.
— Obrigado. Podem se retirar.
Eles se curvaram brevemente antes de deixar a sala do trono. O som das portas se fechando atrás deles parecia mais pesado do que o normal.
Fiquei ali por um momento, imóvel.
Mas então, sem conseguir mais conter o incômodo dentro do meu peito, caminhei até o jardim real.
As árvores nativas de Quilay, com folhas luminosas em tons de azul e lilás, balançavam suavemente com a brisa artificial que mantinha o clima equilibrado. Um pequeno lago espelhava o céu simulado — limpo, calmo.
Mas dentro de mim?
Caos.
O lobo estava inquieto.
Ele queria a nossa rainha.
Minha respiração se acelerava em ondas lentas.
Cada passo que dava pelo jardim fazia meu corpo inteiro vibrar com a ausência dela.
O vínculo, mesmo antes de ser completamente revelado, me chamava. Doía.
Apenas mais um dia.
Apenas mais uma noite.
Amanhã, ela estaria aqui.
E nada mais no mundo importaria.
A não ser ela.
A noite começou a se estender sobre Quilay como um manto de silêncio e sombras suaves. O céu artificial acima do jardim ajustava seus tons conforme o ciclo programado — um azul escuro profundo, pontilhado de estrelas cintilantes, cada uma brilhando como se tivesse um nome, uma história.
Não sei quanto tempo fiquei ali.
Horas talvez.
Ou apenas minutos, distorcidos pela ausência dela.
Me sentei à beira do lago, o reflexo das constelações dançando sobre a água imóvel. E foi então que ouvi passos leves, quase inaudíveis, interrompendo a quietude da noite.
— Você ainda vem aqui — disse uma voz suave, familiar.
Me virei devagar, já sabendo de quem se tratava.
— Bree — murmurei.
Ela se aproximou com a graça tranquila de quem conhece bem aquele espaço. Usava um vestido branco simples, os cabelos presos em uma trança solta. Seus olhos procuraram o céu.
— Lembra daquela estrela? — ela apontou para uma no canto esquerdo da abóbada celeste.
— Thalaryn. — disse, sorrindo com certa melancolia. — Você a batizou assim... Disse que ela era nossa.
Meu peito apertou com a lembrança.
Eu me lembrava.
Muito bem, até demais.
— Bree... não faça isso — pedi, baixo, quase um sussurro.
— Eu pertenço à Renesmee agora.
Ela continuou olhando para cima, sem me encarar.
— Eu sei. E também sei que fui escolhida como substituta da Rainha, caso algo aconteça com ela. O Conselho decidiu. As leis...
— Eu conheço as leis — interrompi, com firmeza. — E entendo a função que te deram. Mas não será necessário. Renesmee está bem. Ela vai chegar amanhã. Ela é minha escolhida. E... — minha voz vacilou por um segundo — a única estrela que importa agora... é ela.
Por fim, Bree me olhou.
Havia compreensão em seu rosto, mas também mágoa contida.
Ela assentiu, em silêncio.
— Boa noite, Bree.
Virei as costas antes que qualquer outro silêncio se tornasse confissão.
Caminhei de volta ao castelo, sentindo o peso de cada passo, mas também a certeza dentro do meu peito.
Renesmee era o presente, o agora.
E amanhã...
Ela seria, finalmente, minha rainha.
O castelo estava iluminado com uma luz dourada suave, refletindo nas paredes de pedra viva como se Quilay soubesse que algo grandioso estava para acontecer. Ao adentrar o grande salão, fui recebido pelo perfume das lumínias escarlates, recém-colhidas, espalhadas em arranjos por todo o ambiente.
— Finalmente, alteza! — exclamou Leah, com um sorriso debochado enquanto ajeitava fitas prateadas nas colunas centrais do salão.
— Achei que tinha fugido da própria esposa — provocou.
— Engraçadinha — resmunguei, mas não consegui conter o sorriso. — Estou começando a me arrepender de ter te deixado encarregada da decoração.
— É bom mesmo não se arrepender — disse Claire, passando apressada com um tablet em mãos. — Ainda temos que revisar os protocolos de chegada, a formação da guarda cerimonial e o discurso de boas-vindas.
— Tudo está ficando lindo — comentou Bella, com uma doçura quase nostálgica nos olhos. — Ela vai se emocionar. Vai ver Quilay com os olhos certos, e perceber que agora esse também é o lar dela.
— Ela já é meu lar — murmurei, mais para mim do que para elas.
Sarah, sentada em uma das poltronas com um cálice de chá, observava tudo com serenidade. Seu olhar encontrou o meu e ela sorriu com carinho.
— Está nervoso, filho?
Assenti, respirando fundo.
— Faltam apenas algumas horas, mãe. Depois de todos esses dias, de tudo que pareceram meses… ela finalmente estará aqui. E eu… sinto como se fosse perder o controle a qualquer segundo.
Sarah se levantou, caminhou até mim e segurou minhas mãos com delicadeza.
—O amor tem esse efeito sobre nós. Mas lembre-se: a força do seu lobo não está na fúria… está na sua lealdade. Ela vai sentir isso quando olhar nos seus olhos.
Antes que eu pudesse responder, senti o pulso vibrar.
Meu corpo congelou.
O bracelete.
O símbolo real da união. O elo encantado entre mim e minha rainha.
Vibrou.
Meu coração deu um salto doloroso.
— Não… — murmurei, os olhos arregalando-se.
As mulheres perceberam na hora.
— Jacob? — Bella foi a primeira a perguntar, tensa.
— É o bracelete… — falei com a voz áspera, já me virando. — É o alerta.
Sarah se aproximou rapidamente.
— O sinal foi claro?
— Sim… algo aconteceu. Ela está em perigo. Renesmee está em perigo.
Leah já puxava o comunicador no pulso, tentando acessar a central de monitoramento. Claire correu até a interface mais próxima.
O salão, que antes era só cor, flor e expectativa…
Se encheu de tensão e urgência.
E no fundo do meu peito, o lobo rugia.
Queria correr, romper distâncias.
Porque minha rainha… precisava de mim.
***********************
A porta da taverna rangeu com o peso da minha entrada. O ambiente carregado de fumaça e álcool silenciou num segundo. Minhas botas pesadas ecoaram sobre o chão de madeira, e os olhares dos presentes foram atraídos pela figura encapuzada à frente — grande demais para ser ignorada, acompanhado por uma guarda que impunha respeito e medo.
Meus olhos cravaram no homem sentado à mesa mais ao fundo.
Seth.
Meu irmão.
Ele congelou ao me reconhecer. Não esperei que dissesse nada. Cruzei o salão num impulso e o agarrei pela gola antes que ele sequer se erguesse.
— Onde ela está?! — rosnei, cada palavra carregada de raiva.
Seth tentou falar, mas minha força o ergueu da cadeira.
— Jacob, espera! — ele arfou. — Foi uma armadilha!
Soltei-o com brutalidade. Ele caiu sentado no banco, tossindo.
— Armadilha? — repeti, o coração martelando no peito. — O que vocês foram fazer na Zona Vermelha, Seth?
Ele passou a mão no rosto, nervoso.
— Era… era uma última missão dos caçadores. Recebemos informações sobre um possível grupo de humanoides traficados para alimentarem os vampiros rebeldes. Ela quis ajudar. Disse que precisava garantir a segurança dos outros.
Meus punhos se fecharam. O lobo rugia dentro de mim.
— Ela não deveria ter ido! Você deveria ter impedido! — avancei um passo, mas Sam segurou meu braço.
— Jacob — sua voz era firme, mas baixa. — Agora precisamos ser estratégicos. Vamos montar um plano de invasão. Você sabe que a Zona Vermelha não perdoa impulsos.
Respirei fundo, tentando acalmar a fera. Foi então que senti uma presença próxima. Uma mulher se aproximava da mesa. Morena, olhos atentos. Armas presas na cintura. Um olhar que misturava medo e coragem.
— Jessica… — Seth tentou impedir. — Não se envolva nisso.
Mas ela ignorou o aviso e olhou diretamente para mim.
— Como o senhor tem tanta certeza de que a princesa ainda está viva?
Minhas pupilas se dilataram. Minha voz saiu baixa, carregada de verdade.
— Porque eu estou vivo.
O silêncio foi imediato. Jessica pareceu entender. Ela deu um passo atrás, respeitando a resposta que vinha do instinto mais primitivo e poderoso de todos.
Eu sentia.
Ela ainda estava viva.
E eu a traria de volta. Nem que queimasse o mundo inteiro pra isso.
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