A minha curiosidade gritava alto quanto aos estrangeiros que estavam pendurados em uma grade na minha frente. A noite eu enxergava as coisas em tons de verde. A minha visão noturna era muito útil em momentos como esse de ser vigia na madrugada. Eu estava sentada observando os dois estranhos dormirem. Foquei para que eu enxergasse a pele deles mais de perto e reparei que eles não tinham nenhum traço de mutação. Era como se fossem humanos do passado, humanos apenas bronzeados, com alguns machucados, braços e pernas torneadas e a pele arrepiava com o vento gelado que estava em alto mar. Olhei em volta, observei o mar, fiz a segurança como deveria e então depois de mais de uma hora pensando sobre isso, decidi me aproximar voando da grade e me equilibrei nela colocando os pés em alguns ferros e me segurando com as mãos em outras. A grade rangeu e um deles acordou.

Assustada eu soltei a grade e bati as asas parada no mesmo lugar ainda encarando-o. Era o rapaz mais novo, ele provavelmente tinha a minha idade e me olhava curiosamente. Minha testa franzida e a mão em minha arma na cintura demonstrava que ele não deveria tentar nada agressivo. O garoto ficou sentado desconfortavelmente tentando não se mover muito para que a grade não balançasse.

—Você é uma garota? — Ele perguntou com voz rouca.

—Está me insultando? É óbvio que sou uma garota. — Falei irritada.

—Não, me desculpe. É só que não estou enxergando bem, está escuro. Só vejo sua sombra.

Eu fiquei parada, voando no mesmo lugar por alguns segundos e nós dois ficamos em silêncio. Voltei devagar para o meu posto e ele me acompanhou com o olhar. Mantive-me em pé a cerca de três metros e distancia.

—Qual o seu nome? — Ele perguntou.

—Não te interessa.

—Você faz algo mais além de voar?

—Escuta aqui. — Falei ameaçadoramente. — Eu não vou ficar te passando informações. Quem são vocês? O que querem vindo da terra? Vocês são terrestres em alto mar, sem nenhuma aparente mutação, e isso é muito suspeito.

—Nenhuma... — Ele pareceu pensativo. — Espera, você acha que chegamos até aqui sem nenhuma mutação?

—Então vocês são mutantes? — Perguntei confusa.

—Eu nem sabia que existia gente que não era.

—Tem?

—Eu não sei ué, você quem está aí falando de pessoas sem mutações. — Ele pareceu perdido e começava a se irritar.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio antes que ele voltasse a falar.

—Nós tivemos que andar muito para chegar aqui. Você já foi em terra? É bem distante. Paramos em duas plataformas antes de encontrar vocês, mas só achamos corpos sem cabeças. A gente achava comida, nos alimentávamos e saíamos procurando alguém vivo. — Ele falava sem parar. — Eu achava que vocês eram imortais.

Eu permanecia em silencio, não sabia até que ponto era verdade e com certeza não julgaria suas histórias como verdade ou mentira naquele momento. Contudo, se eu perguntasse ele continuaria a me dar informações.

—O que houve em terra exatamente?

Ele suspirou e abaixou a cabeça enquanto tentava arranjar uma posição melhor. Eu quase começava a sentir pena dele, aquilo parecia estar doloroso.

—Pra começar, nós nunca vivemos totalmente em paz, lá em terra. Nós somos muitos, muitas espécies diferentes, crenças diferentes, tudo diverge. Nem todos são tolerantes com espécies diferentes. É uma bagunça total. — Até então nada me surpreendia. — Nosso grupo mora perto da praia e nós somos uns dos que fazem contato com os marinhos e celestes, além do mais, sempre cremos que vocês são seres superiores a nós. Outros grupos preferem caçar vocês. — Ele falou a última frase mais baixo. — Enfim, independente de como nós terrestres divergimos em muitas cosias, o que aconteceu foi algo que nos uniu a todos. Ou a maioria, não sei.

-Porque acham que somos superiores? Você chegou a dizer deuses.

—Bom, eu não sei. Acho que a necessidade de crer em algo superior mais o fato de vocês serem bem isolados e bem diferentes da gente, acabou gerando essas histórias que passaram de geração em geração. Pela reação de vocês, acho que não são exatamente isso.

Fiquei em silencio pensando sobre isso. Se eles haviam histórias erradas sobre a gente, era muito possível que a gente também tivesse acreditado nas histórias erradas.

Quando amanheceu, Rey apareceu acompanhado de meu pai para levar os dois terráqueos para um interrogatório. Foi servido água e comida para eles e então foram conduzidos para um interrogatório com todos os moradores. Uma das coisas que Rey mais prezava era a transparência, independente do assunto e se haveria um interrogatório, todos saberiam as perguntas feitas e as respostas dadas. Contudo, antes que Rey pudesse fazer qualquer pergunta, eu notei de longe que alguém se aproximava velozmente.

—Rey, comerciante! -Gritei reconhecendo Harvery. — É o Harvery.

Os portões foram abertos em segundos. Todos estavam por perto curiosos, inclusive os dois terráqueos sentados em dois tambores que serviam de cadeiras. Harvery saltou para a plataforma parecendo esbaforido, e eu voei até ele esperando explicações para o sumiço dele e dos outros.

—Você está bem? — Ele me abraçou. — Todos estão bem? — Olhou em volta.

—Harvery! — Rey se aproximou do nômade que já conhecia e o abraçou. — Onde você esteve, rapaz. Onde estão os outros?

—Mortos. Rey, tem algo errado,Terráqueos, marinhos e celestes, todos estão sendo mortos por criaturas desconhecidas. Alfie, Jey e Bethan estão mortos. — Seus olhos encheram de lágrimas ao falar dos amigos.

—Acalme-se Harvery! — Aylin acariciava o ombro do rapaz.

—Temos dois terráqueos aqui. — Falei interrompendo o silencio. — Você os conhece?

Apontei para os dois rapazes assustados que ainda estavam sentados na cadeira improvisada. Eles olhavam para Harvery conferindo descaradamente as guelras que ele tinha nas bochechas. Harvery os encarou espantado.

—Como chegaram aqui, e o que vieram fazer aqui?

—É justamente o que queremos descobrir, estávamos para começar um interrogatório.

—Não os conheço, mas tenho certeza que se tiveram a audácia de virem até aqui, é porque estão desesperados. — Ele se aproximou de mime falou baixo. — A maioria deles é bem medrosa.

Todos nós olhávamos os dois terráqueos como se eles fossem um pedaço de carne em exposição. Tenho certeza de que todos estavam divididos entre opiniões contra e a favor deles, mas ninguém ousou dizer um A até que Rey começasse então a reunião.

—Senhores e senhoras, — Rey finalmente se manifestou depois de longos minutos. — Estamos todos presentes para sabermos o que exatamente aconteceu em terra firme e sabermos como lidar com essa ameaça. Nós não estamos mais contra esses dois terráqueos, uma vez que Harvey nos confirmou que é verdadeira a afirmação de ataque que esses dois fizeram. Então agora essa reunião se trata de resolvermos esse mistério.

—Resolver esse mistério? — Leah falou abraçando a filha Rhiannon pelos ombros. — Nada nos atacou, e nós não temos nada a ver com o problema dos terráqueos, se nos envolvermos, morremos. — Leah deu as costas e começou a andar em direção a casa dela.

—Leah, sei que está preocupada, mas todos estamos. Acontece que este é um predador desconhecido, e por isso precisamos saber exatamente do que se trata para podermos lidar com...

—Não! Nem pensar, eu e minha filha não vamos nos envolver nisso. — Gritou sem se virar já estando quase do outro lado da plataforma.

A plataforma de repente tremeu. Todos gritamos em uníssono e ficamos novamente em silêncio sem saber exatamente o que havia sido aquilo. Rey fez sinal para que todos ficássemos quietos. Do outro lado Leah abraçava a filha falando algo com ela. Talvez nem todos tenham visto o que eu vi, mas como se um ímã gigante debaixo d'água aparecesse de repente, Leah e Rhiannon foram sugadas para o fundo do oceano junto com um pedaço da plataforma.