
Demorou alguns segundos com todos em silêncio sem saber exatamente o que havia acontecido. Algo totalmente sinistro havia sugado uma parte de nossa plataforma e engolido a mãe e a filha de uma vez. A voz de Rey de repente ecoou com um "peguem os barcos" muito alto. Como se eu saísse de um transe, corri em direção aos nossos barcos e comecei a desamarra-los junto dos filhos de Rey, meu pai, e Kian. Os gritos de Rey dando ordens ecoava em todo lugar e o mar, que de repente ficou agitado, balançava toda a plataforma restante dificultando a liberação dos barcos.
—Korin, sobrevoe o local e traga informações. -Rey gritava enquanto corria.
Vi Korin alçar voo imediatamente e voltei meu foco ao primeiro barco que terminávamos de desamarrar. Quando Rey o viu desamarrado voltou a gritar.
—Barco 1, Zia Aleyna, Jody, Kena e Bex. vão.
Minha mãe junto com as outras correram em direção ao barco e já conhecendo a estratégia de fuga se posicionaram cada qual em seu lugar enquanto eu abria o portão traseiro que nunca era aberto. O destino todos já sabiam, sem nenhum adeus elas partiram enquanto eu voltava para ajudar na soltura do segundo barco. Eu me dei conta de que os barcos não eram suficientes para todos, alguns de nós precisaríamos nadar ou voar.
—Rey, está voltando! — Korin estava sobrevoando acima da plataforma e gritando. — É enorme, não temos tempo.
—Barco 2! — Ele gritava enquanto jogava toda a comida no segundo barco. Essa não era uma estratégia inteligente, se aquele barco se perdesse toda a comida ia junto. Ele estava agindo no desespero, sem pensar. — Stark, Vox, Kenan, Hoden e e Zoila. Rápido!
Os cinco entraram no barco, e antes de partirem meu pai me deu um aceno com a cabeça. Ele queria dizer que tudo ficaria bem, mas ele não sabia disso. Assim que voltei para desamarrar o terceiro barco, um impacto forte na plataforma me jogou longe. Minha cabeça bateu em alguma coisa e cai me sentindo tonta. Não conseguia entender se a plataforma estava balançando forte ou se era a minha cabeça. Minha visão ficou turva, como se tivesse uma película em meu olho embaçando o que eu via. Um barulho agudo apitava em meus ouvidos e eu tentava focar e distinguir imagens quando algo pesado caiu em cima de mim. Afastei o que quer que fosse aquilo e tentei focar meus olhos. Consegui ver Rey sacudindo sua esposa Aylin morta no chão enquanto Kian forçava-o a se levantar e correr.
—Tamryn, levanta. — Alguém colocou as mãos em baixo de meus braços e me forçou a levantar do chão. A voz parecia distante, mas ele estava bem ali me segurando. — Entre no barco!
—Não é o meu. — Eu falava baixo. Eu sabia que o meu barco era o quatro e aquele ainda era o três. -Temos que desamarra-lo.
Virei-me e vi que Harvery era quem me segurava. Junto dele estava o terráqueo com quem eu havia conversado antes.. Seus olhos estavam arregalados e lágrimas escorriam sem parar. Ou talvez fosse a agua do mar. Só então eu vi o que havia caído em cima de mim. Era o corpo do outro terráqueo.
— O barco três já está desamarrado! Entre logo! — Ele insistia.
—Não! O terráqueo precisa ir, quando chegarmos em terra firme ele precisa provar que nós estamos juntos nessa. — Sentindo-me ainda fraca eu me virei para onde a maioria estava. — Barco 3! — Minha voz não soava tão alta. — Kian, Callunm Ross, Nia e o terráqueo!
Vendo que eu não desistiria, Harvery começou a gritar os nomes pela plataforma, mas ninguém vinha. Ajudei o terráqueo a entrar e avisei aonde eles iriam. A plataforma balançava e já faltando boa parte dela. Os portões não existiam mais e provavelmente não tinha nenhuma casa de pé.
—Tamryn! — Korin pousou ao meu lado chorando. — Estão quase todos mortos. Nia, Aylin, Kian, Ross... O que faremos?
Fiquei paralisada. Kian era como um segundo pai para mim. Meus olhos ardiam e de repente pareci muito motivada.
—Entre no barco, agora!
—Eu preciso vigiar.
—Entre no barco, Korin! — Gritei.
Vi Harvery voltando com Kenneth nos braços. Ele colocou-o dentro do barco e voltou a sumir no meio da bagunça. Kallun apareceu ajudando Rey a chegar ao barco e então pararam de frente para mim.
—Tamryn, se eu morrer, você assume o controle
—O que? Rey, você não vai morrer. E eu não tenho a menor condição de assumir...
—Eu confio em você.
Ele falou já indo em direção ao barco e os cinco partiram em questão de segundos. A plataforma estava começando a ficar calma apesar de estar afundada de um lado e pegando fogo do outro. Não haviam mais vozes gritando por socorro e aparentemente o monstro que havia surgido já havia ido embora. Eu esperava que ele não tivesse ido atrás dos barcos. Só então notei que a família de Leny não estava ali. Eles eram uma família de cinco, e eu não havia visto nenhum deles nem nos barcos, nem mortos, nem correndo...
—Não há mais ninguém. — Harvey apareceu novamente e desta vez vinha com Adelina e Starla, filhas de Zoila e Kian.
—Papai se foi! — Adelina me abraçou forte enquanto Starla passava séria para dentro do barco. Ajudei Adelina a entrar no barco e entreguei para ela um cobertor que estava lá dentro meio seco e meio molhado.
—Estão faltando cinco pessoas, e não os vi. Nem vivos nem mortos.
—Quem?
—Leny, o esposo e os três filhos.
—Krent é filho deles, não é? — Ele perguntou enquanto me ajudava a desamarrar o quarto e último barco.
—Sim. Você o viu?
—Sim, está morto. Eu vi a coisa sugando ele pra dentro da água.
—Mais o que diabos é aquele bicho?
—Eu não faço ideia, ele veio atacando todas as plataformas.
—Vou ver se encontro os outros.
Gritei pela plataforma por alguns minutos tentando achar os quatro restantes, mas não obtive respostas em nenhum momento. Me dirigi novamente ao barco onde agora Harvery estava dentro apenas me esperando para partirmos.
—Não os achei. — Eu estava chorando. — Harvery e se eles estiverem vivos presos em algum lugar? Não podemos abandona-los.
—Tamryn, não podemos ficar aqui. Por favor, vamos embora.
Suspirei olhando em volta, ainda chorando e ainda com esperanças. Ouvi um rangido alto e a plataforma começou a se desmanchar por completo. Várias partes dela já estavam flutuando para longe da gente, aquela última parte estava se desfazendo também. Entrei no barco e dei a partida.
—Era nosso lar. Meu lar. O que farei agora?
—Existem outros lugares, vamos dar um jeito.
—Você está acostumado à ficar e lugar em lugar, Harvery, mas eu não. Nenhum de nós aqui estamos.
O barco estava começando a acelerar quando ouvi alguma voz feminina chamar o meu nome. Uma, duas, três vezes.
—Harvery, está ouvindo alguém ou é impressão minha? — Perguntei confusa.
Parei o barco a cerca de 50 metros do que restpara da plataforma e eu e Harvery ficamos atentos. Finalmente nós dois ouvimos novamente o meu nome ser chamado da plataforma.
—É a Lana! Vamos voltar.
Assim que me aproximei da plataforma Lana pulou para dentro do barco. Ela chorava desesperadoramente como uma criança, apesar de ser ma mulher de trinta anos. Só então notei a mão direita dela. Ou pelo menos o que restara dela. Eram apenas ossos e carne pendurada. Pelo que eu via, algo havia esmagado-a.
Dei a partida e seguimos para o local de encontro.
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