Meu pai me chamou para uma reunião e eu segui ele para dentro da casa de Rey e Aylin. Além de nós quatro estavam também ali Kenan, Ross, Zoila e Kian. Todos estavam em pé pensativos e Rey estava sentado com as mãos na cabeça parecendo intrigado.

— Acham que foram nômades?

—Difícil dizer. — Ross estava andando de um lado para o outro.

—Claro que não. — Eu me pronunciei. — As cabeças foram arrancadas e não cortadas, não acredito que um híbrido de humano tenha sido capaz disso. Foi algo cruel, desumano.

—Alguns humanos não tem alma humana, se quer saber. — Meu pai falava. — Não acredite que humanos não sejam capazes disso Tamryn.

—Porque humanos perderiam tempo arrancando cabeças violentamente e sumindo com elas? Ross disse que não achou nada no mar, isso não faz sentido. Elas foram levadas.

—Alguma seita, pode ser? — Aylin se pronunciou. — Ou talvez estejam levando para os canibais na terra.

—Só a cabeça? Lucrariam muito mais com o corpo todo. — Eu tinha minhas dúvidas sobre aquilo ter sido algo humano. — Fora o fato que os tubarões sumiram.

—Acha que tem ligação? — Rey perguntou diretamente para mim.

Eu não me senti confortável quando percebi que eu sendo a mais nova de todos naquela sala estava me pronunciando com tanta agressividade e certeza do que falava, contudo resolvi prosseguir.

—Acredito que tenha sido algo pior do que nômades selvagens. Afinal, aonde foram parar Harvery, Alfie e os outros que deveriam estar aqui há mais de mês?

—Alguma coisa está acontecendo, isso é certo. — Kenan se dirigiu até a porta da casa. — E deveríamos redobrar a segurança.

Kenan saiu sem dizer mais nada e Rey parecia perdido pela primeira vez na vida. Ele sempre fora muito sensato e conseguia tomar as melhores decisões nos momentos difíceis, mas parecia cansado e confuso naquele momento. Vi meu pai se aproximar dele e cochichar algo em seu ouvido. Rey assentiu e Aylin que parecia ter ouvido assentiu também.

—Vamos preparar as armas. — Meu pai se dirigiu ao restante de nós e saiu sendo seguido por todos.

Procurei pela minha mãe na ala médica para avisa-la que eu já havia voltado e para ver como ela estava. Minha mãe ainda não havia sentido nenhuma contração e seguia firme e forte. Sentei com ela e contei em voz baixa tudo que havíamos visto na outra plataforma e sobre a reunião a pouco encerrada.

—Enquanto isso, aqui estava uma selvageria. — Ela riu. — Acho que as pessoas estão perdendo a cabeça.

Estávamos conversando sobre as brigas que tiveram só no tempo que fiquei fora quando ouvimos alguém gritar lá fora.

—VEM VINDO ALGUÉM. — Era a voz de Callun, um dos vigias. — DESCONHECIDOS À VISTA.

Corri o mais rápido que pude e voei até o meu lugar favorito avistando um pequeno veículo vindo em nossa direção rapidamente. Eles estavam com um pano branco sendo agitado pela pessoa que vinha atrás do piloto. Sinal de paz, mas quem iria confiar? Callun, eu, Zoila, Kian, meu pai, Rey e Aylin ficamos em posição com nossas lanças prontas para atacar.

—Parem! — Rey gritou quando se aproximaram demais do portão. — Quem são e o que querem?

—Viemos em paz pedir socorro e abrigo.

—Quem são e de onde vieram?

—Viemos da terra. — O que havia falado antes voltou a falar receoso. — Estamos fugindo de algo que matou todos em nosso lar. — Ele estava com os dois braços levantados mostrando estar desarmado e o de trás também, mas em uma das mãos o pano branco balançando com a ventania.

Rey parecia hesitante olhando de meu pai para eles. Meu pai acenou com a cabeça para ele e desceu até a parte da plataforma pedindo para Stark e Vox abrirem o portão. Enquanto isso vi Ross mergulhar provavelmente procurando por algo suspeito.

—Tamryn e Callun, fiquem em posição para atacar se algo sair do normal. Zoila e Kian, vigiem. — Rey desceu junto com Kenan para recebe os visitantes da terra que se aproximavam devagar do portão aberto.

Percebi que eu não era a única assustada, ansiosa e curiosa sobre os dois homens da terra que pareciam perfeitamente normais e não monstros como eu imaginava. Meu medo era eles serem os canibais que vieram comer nossas cabeças então fiquei o mais preparada possível para arrancar seus corações.

De onde estávamos podíamos ouvir claramente a conversa que começava por Rey.

—Desçam devagar e com as mãos para cima. — Rey apontava uma lança para um e Hoden apontava para o outro.

Vi Aylin, Adelina, Starla e Jodie do outro lado da plataforma em posições para atacar, em cima de três casas diferentes estavam com arcos e flechas Kena, Bex, Miran e Krent. Quanto ao restante provavelmente estavam estrategicamente posicionados.

—Senhor, nós não viemos causar nenhum dano. Viemos em busca de ajuda. — O moço que aparentava ter por volta de uns trinta anos falava calmamente.

—Explique.

—Nós moramos em terra firme e fomos atacados faz quase um mês, depois de perambularmos por lá, decidimos que viríamos procurar por vocês, marinhos e celestes, para nos ajudar. Vocês são a primeira plataforma viva que achamos.

—O que atacou vocês?

—Não sabemos, senhor. — Era sempre o mesmo homem que falava. O que estava com a bandeira branca parecia ter a minha idade e tinha uma expressão assustada olhando fixamente para Rey. — Algo surgiu de repente, não sabemos o que era aquilo nem de onde veio. Viemos até vocês por causa das lendas.

—Que lendas? — Rey pareceu confuso.

—A lenda sobre os marinhos e celestes serem deuses. — Ele falou como se fosse óbvio.

—Deuses?

—Achamos que pelos seus dons só vocês poderiam nos ajudar, mesmo sendo arriscado vir até aqui. Perdoe-me senhor. — O rapaz mais velho ajoelhou-se e o mais novo seguiu-o.

Todos nós nos entreolhamos sem entender bem o que estava acontecendo ali. Eles achavam que nós éramos deuses ou estavam nos distraindo para nos atacar?

—Levantem-se. — Rey parecia totalmente sem jeito. Apoiou sua lança no chão e esperou eles ficarem de pé novamente.

—Vocês terão que me explicar muito bem quem são e o que realmente querem aqui. Levem eles para a grade. — Ele dirigiu a ultima frase para Ross que havia saído da água e ficado agachado igual um sapo um pouco distante deles.

Eu voei até Rey e senti os olhos dos dois terra firmes em mim, eu não sabia dizer se era um olhar assustado ou algo além disso. Parei ao lado do chefe ficando de costa para os intrusos.

—Deuses? — Falei confusa. — Que tipo de histórias contam sobre a gente naquele lugar? E eles...São normais. Nem sequer vi traços de mutações neles.

—Tenha paciência, precisamos de tempo pra entender o que está acontecendo. Não tire conclusões precipitadas. — Rey era sempre cauteloso e eu sempre intuitiva. Eu não conseguia ver aqueles dois como possíveis ameaças, entretanto Rey sim.

Já estava escurecendo quando Rey decidiu como seria feita a troca de guarda aquela noite. Ele pediu para as crianças e as mulheres mais jovens de 20 anos ficarem em uma casa que era a mais distante da grade. A grade era uma espécie de jaula que ficava pendurada acima do mar do lado de fora da nossa plataforma. Os dois rapazes estavam sentados dentro dela desconfortavelmente com as pernas penduradas pelos vãos. Todas as vezes que começavam a cochichar em alguma língua, Kian que estava vigiando -os mostrava que também falávamos aquela língua.

Desde que o mundo ficou louco e todas as línguas se misturaram que todo mundo sabe no mínimo umas seis línguas diferentes. Aqui nós temos japonês, português (dois diferentes), inglês, francês, italiano, árabe, russo, espanhol e italiano. Se falarmos "Oi" em francês, por exemplo, e a outra pessoa não entender basta tentar uma outra língua. Dizem que existiam mais de seis mil línguas antigamente, não sabemos ao certo quantas restaram, mas já ouvi várias outras que não entendo quando fui na cidade dos corais. Esses dois que chegaram hoje falavam inglês que é praticamente a que todo mundo nasce falando então não tivemos problemas até agora.

Eu estava ansiosa para a minha hora de vigiar os terra firmes, mesmo sabendo que eu não deveria conversar com eles eu queria observa-los de perto. Entrei em minha casa depois da reunião e fui direto para o meu quarto, que se resumia a um colchão velho e objetos que eu colecionava da terra firme. Deitei de barriga para cima e esperei Kian vir me chamar para o meu horário de vigia.

Depois de virar de um lado para o outro impacientemente, finalmente ouvi baterem na porta. Corri até lá com minha faca na cintura e uma lança na mão.

—É a sua vez. — A esposa de Kian, Zoila, me avisou e foi para sua casa.

Voei depressa para a grade e cumprimentei Kian antes que ele saísse. Os terra firmes estavam dormindo de qualquer jeito na grade e eu planei em volta dela tentando enxergar algo, mas apenas a luz da pequena fogueira acesa não era suficiente naquela escuridão. Foquei minha visão norturna e pude perceber apenas dois homens jovens sem mutações aparentes que dormiam como se não dormissem há dias. Sentei onde antes Kian estava e observei em silêncio.