Dez minutos já haviam se passado e Rudá permanecia calado perdido em algum lugar dentro do cômodo. Eu estava longe da grade e fora do alcance de visão dele.

— Seu tempo acabou, o que vai ser?

Rudá não me respondeu e eu torci para que aquele lugar não tivesse outra saída e ele houvesse escapado. Me aproximei lentamente grade e observei o lugar já escuro.

—Onde você está sequestrador de meia tigela?

Respondendo a minha pergunta, do escuro surgiu o moço com uma besta nas mãos posicionada apontando para o meu rosto.

—O que está fazendo Rudá? — Perguntei tranquilamente.

—Abra o portão!

—Você não vai atirar em mim, Rudá. Nós dois sabemos disso. — Eu sorri.

—O que te faz ter tanta certeza disso?

—Porque se eu morrer, você sabe que vai morrer sem a cura.

—O governador saberá o que fazer?

—Ah, é mesmo? — Cruzei os meus braços. — Tenho certeza que ele é um grande conhecedor da minha rara espécie. — Sorri mostrando os dentes pontiagudos e senti ele tremer na base.

Rudá abaixou a besta e me encarou pensativo.

—Levará três dias até chegarmos lá.

— Levou três dias para eu chegar até aqui? — Falei surpresa. — Como uma pancada na minha cabeça me deixou desacordada por tanto tempo?

—Não foi a pancada. Te dei injeções à cada doze horas.

—Que injeções?

—Óbvio que não vou te contar. Agora vamos logo com isso. Quanto tempo tenho? Fale a verdade.

—Eu falei sério quando disse 24 horas. Não vai sobreviver por três dias então é melhor pensar em algo.

Ele pareceu desesperado quando começou a andar de um lado para o outro do cômodo. Parecia estar planejando algo então mantive a guarda alta.

—Tem uma opção, mas é perigosa. — Ele esperou resposta minha, mas me mantive calada aguardando. — Podemos ir pelo mar, diminui metade do tempo.

—Sim, é perigoso. Sei que não acreditou em mim, mas existe um ser desconhecido devorando tudo pela frente e ele estava no mar.

—Se você estiver falando a verdade, ele também esteve em terra. O perigo ao qual me refiro são todos os demônios como você.

—Bom, então você não deveria temer à eles já que vai estar comigo. — Sorriu ironicamente. — Agora me diga, você vai correr para aproveitar essas 23h30m que te restam e tentar fazer o caminho em menos de três dias ou vai ficar aí choramingando?

—Vamos! — Ele pegou a besta. — É para nos protegermos do resto das coisas por ai.

—Então me de uma arma também.

Rudá olhou em volta e me apontou a lança no chão.

—Tem um arco e flecha também, o que preferir.

—Prefiro a lança. Gosto de ataque cara a cara. — Olhei para ele seriamente e abri a grade entrando e indo atrás da lança disposta ao lado de uma mesa empoeirada.

Depois de quase meia hora com Rudá fuçando nas coisas do cômodo pegando comida, água e uns acessórios que nem sempre eu sabia o que era, ele finalmente disse que estava pronto para irmos. Ele me seguiu desconfiado até a porta e sempre na defensiva e enquanto isso eu apenas mantinha a calma sabendo que eu estava no controle da situação. A mordida havia sido a minha melhor ideia. Depois que abrimos a porta de ferro que dava ao deserto finalmente ele voltou a falar.

—Espere. — Puxou algo de uma caixa de ferro disposta ali perto e me jogou. um pano comprido que eu não vi utilidade até vê-lo pegando um igual. — Para proteger do sol. — Ele falou ao me ver olhando-o sem entender.

—Olha bem pra mim. — Eu me referia a minha pele totalmente bronzeada. — Acho que não vou precisar disso.

—Vai sim. Não é só o sol, a areia as vezes corta como se fosse vidro. — Ele pegou ais alguma coisa na caixa enquanto eu tentava amarrar aquilo de forma que eu pudesse continuar respirando, mas estava difícil conseguir. Ele não ficava seguro no rosto e me sufocava. — Tome, esses óculos são para proteger seus olhos. Assim nada vai te ferir. Ou matar, e aí eu tenho a esperança de continuar vivo. — Ele parou me encarando — O que diabos você está fazendo?

—Tentando amarrar essa porcaria inútil.

Ele colocou tudo que segurava no chão, inclusive os óculos ridículos e se aproximou lentamente parecendo receoso. Eu então entreguei o pano para ele ainda com a testa franzida e sentindo o meu orgulho ferido por não saber algo que parecia tão simples. Ele lentamente veio com a mão perto de meu rosto. Era óbvio que ele estava com medo que eu o mordesse ou atacasse de alguma outra forma. Com a experiência de quem fez aquilo a vida toda ele rapidamente deu voltas com o pano em minha cabeça e me deixou perfeitamente confortável com aquilo.

—Agora coloque o óculos.

—Ah não, isso vai me deixar parecendo uma mosca.

—Acredite em mim, você já é bem feia.

Encarei-o com raiva e percebi um sorriso escondido por trás do pano que cobria sua boca. Senti meu orgulho ferido, mas o engoli e sai pela porta de ferro. Ele pegou as coisas no chão e veio ao meu encontro. Me observou colocar o óculos e então voltou a falar.

—Pegue. — Desta vez me deu um bastão grosso de madeira. — Vamos usa-lo para nos apoiar. Haverá muita subida e muita areia. — Ele falou já sabendo que eu perguntaria. — Observando-o eu o imitei. Ele trancou a porta de entrada e começou a caminhar.

Nós começamos nossa jornada com uma corrida horrível na areia que alternava em fofa e dura. Caí cerca de dez vezes em meia hora e ele sempre parava para me esperar como se esperasse por uma criança que estava aprendendo a andar agora. aquilo me incomodava.

—Vamos caminhar agora, estamos chegando perto do mar. — Ele falou pela primeira vez depois de uma hora que havíamos saído do local em que eu havia acordado.

Ele tirou da mochila uma garrafa de ferro e bebeu. Me encarou e entregou a garrafa. Bebi sem hesitar, afinal se ele bebeu e não morreu, era improvável que eu morresse. Minha garganta estava seca e dolorida. Parecia que eu havia gritado por meia hora seguida e engolido terra a tarde toda. Aquela havia sido a água mais pura que eu havia bebido desde que nascera. Afastei a boca da garrafa com expressão surpresa.

—O que foi? — Ele estranhou.

—Eu nunca bebi uma água tão boa.

Rudá deu de ombros e nós continuamos à caminhar em direção ao mar.