Eu sentia o cheiro do mar e logo depois de poucos minutos comecei a ouvir o som das ondas. Quando finalmente chegamos ao local, havia uma casinha dentro da água que foi para onde seguimos. Ela começava na areia, mas terminava dentro da água. Rudá me observava rindo quando abriu a porta do lugar e entrou.
—É uma casa de barco, nunca viu?
—Não. — Entrei observando o lugar. — O barco tem uma casa? — Estranhei.
Ele só riu e começou a desamarra-lo enquanto eu já entrava esperando o que viria. Rudá então abriu uma outra porta que dava para o oceano e então entrou no pequeno barco ligando um motor e seguindo nosso caminho.
A paisagem vista era maravilhosa. O sol estava terminando de se por e deixava o céu com lindos tons de vermelho, laranja e amarelo com o mar deixando tudo ainda mais lindo. Eu contemplava aquilo como fazia todos os dias desde pequena. Seria romântico se eu não estivesse com um terráqueo que quria me matar indo encontrar minha família para poder salvara minha vida e como recompensa salvar a ele que eu havia envenenado.
—Acha que chegamos em quanto tempo? — Perguntei.
—Para chegar em terra acho que umas 4 horas. Pelo mar é um atalho, vai ficar faltando só um dia para chegarmos, no caso vamos precisar encurtar esse dia para que eu não morra.
—Então apresse.
—Não tem como ir mais rápido. — Reclamou. -Pode ter certeza eu sou o que mais quero chegar até os seus amigos.
O barco acelerava sacudindo e espirrando água enquanto Rudá estava sentado perto do motor segurando uma espécie de manivela. Ele estava com a testa franzida concentrado no oceano.
—Você me mordeu, cara. Eu nunca fui mordido na vida. — Ele falou de repente de uma forma que me fez sentir que eu era um monstro, um animal e totalmente pirada.
—Eu nunca tinha mordido ninguém. Quer dizer, mordi quando era criança. Eu não sabia que era venenosa até então...Essa conversa é muito estranha.
—Você acha que vai dar tempo de me curar? Você estava falando sério sobre a cura não é?
—Era sério sim, mas...Nós realmente teremos que nos apressar. Porque realmente é umas 24h até você...sabe? Morrer.
Rudá ainda olhava para o horizonte pensativo e pela primeira vez eu tive a sensação de culpa batendo em minha porta. Logo em seguida me lembrei que ele quem me bateu, sequestrou e trancafiou, então a culpa era dele.
Eu já podia ver a mata se aproximando depois de alguns minutos e o sol já havia sumido do horizonte, dando lugar a luz apenas da lua que mal iluminava tudo ao redor. Senti um calafrio por não saber exatamente onde estava nem como deveria ser dentro da floresta sozinha à noite com um terráqueo. Fechei os olhos e concentrei para que minha visão noturna tomasse lugar da visão de águia já que eu não conseguia manter as duas ao mesmo tempo. Quando abri os olhos, Ruda estava me encarando.
—Ei! — Ele riu de repente. — Você enxerga no escuro!
—Como sabe?
—Porque eu estou vendo.
—Meus olhos mudam?
—Não, não é isso. Eu posso copiar habilidades.
—Como é que é?
—Não posso ter mordida venenosa por exemplo, porque vai muito além de uma habilidade, mas a sua visão noturna meu corpo já copiou porque eu estou vendo perfeitamente bem.
—Eu não to acreditando que você copiou a minha habilidade. — De certa forma em senti violada e também enciumada, aquela era a minha habilidade e de repente o cara que me sequestrou copia aquilo de mim.
—Relaxa, não é porque eu copiei que você vai deixar de ter. — Ele ri notando meu desconforto. — Já estamos chegando em terra firme.
A frase dele mal tinha terminado quando notei não muito longe a água se movimentando como ondas em nossa direção. Algo vinha em nossa direção rapidamente.
—Rudá! — Gritei, mas tarde demais.
A coisa bateu com força no pequeno barquinho virando-o completamente e nos jogando com força na água. Eu era um ser marinho então não tinha problemas com água, o problema mesmo era o que estava dentro dela. Inicialmente não enxerguei nada devido as bolhas e ao barco me empurrando para baixo. Tentei ficar longe do móvel e senti algo passar pelas minhas pernas me empurrando mais para longe e só então vi Rudá. Uma espécie de polvo que provavelmente era maior do que uma baleia estava tentando leva-lo para o fundo do mar enquanto ele se debatia tentando subir até a superfície.
Nadei veemente em direção à eles. O polvo estranho tinha boca e dentes como os de uma piranha, eu nunca havia visto algo como aquilo em toda a minha vida e nem sequer ouvido falar que tal coisa pudesse existir. Eu não tinha muita opção, não sabia o que exatamente deveria fazer para salvar o rapaz que me levaria de volta para casa. Tudo o que pude pensar foi em morder aquela coisa. E foi exatamente o que fiz. Eu me aproximei por trás e mordi o que poderia ser o pescoço, se aquele polvo tivesse um pescoço. Um grito agudo ecoou em baixo d'água e eu tampei meus ouvidos incomodada. Só então reparei que Rudá não estava mais se movendo, e quando o polvo o soltou, ele afundou como pedra.
O polvo era lento, era a desvantagem dele, principalmente contra mim. Nadei veemente para baixo em busca do corpo de Rudá e agarrei seu braço puxando-o desajeitadamente para cima em direção à terra. O polvo estava me seguindo, mas se para a minha sorte ele não saísse da água,estaríamos à salvo em breve. Foi exatamente o que aconteceu. Ele estava bem longe de me alcançar quando eu consegui alcançar terra. Arrastei o corpo pesado de Rudá com muita dificuldade. Sair da água e arrastar um corpo até longe dela era algo extremamente difícil, acabei por usar minhas asas para conseguir mais força e deixar-nos longe de perigo. De longe eu pude ver o polvo emergindo sua cabeça marrom e nojenta e me observando com enormes olhos assustadores que eu nunca havia visto em toda a minha vida.
Respirei fundo antes e começar os procedimento de primeiros socorros que eu tanto já havia usado em casa. Rudá não reagia e eu comecei a entrar em desespero. Compressões torácicas mais respirações boca a boca e nada de ele se mover, até que finalmente ele tossiu água tantas vezes que achei que colocaria as tripas para fora. Cai deitada sem forças mais de sequer mover um músculo.
—Merda. — Ele falou rouco. — Achei que absorveria seus poderes de baixo d'água.
—Talvez seja uma das coisas que você não pode copiar. — Falei ofegante.
-Não achei que você iria me salvar. — Ele caiu deitado novamente do meu lado depois de tossir mais um pouco.
—Não tem como eu encontrar a minha família se você morrer.
—Certo...
—Temos que ir, perdemos longos minutos aqui.
—Está escuro, deveríamos acampar.
—Está maluco? Aida está muito bom de andarmos, deveríamos parar lá pela meia noite apenas.
—Montar um acampamento demanda tempo.
—Acampamento? Basta dormirmos em qualquer lugar.
—A floresta é perigosa.
—E se dormirmos em árvores?
—Não da para dormir em uma árvore não somos macacos.
—Claro que dá. — Bufei. — Já li sobre isso.
—Se dormirmos, podemos cair.
—É só encontrar uma árvore que de para ficar posicionado de forma que não caíamos.
—Você é muito teimosa.
Ficamos em silêncio ainda recuperando o fôlego quando Rudá começou as e levantar arrumando o cabelo molhado e cheio de areia.
—Certo, nós perdemos todo o nosso suprimento e agora precisamos chegar mais rápido ainda. Se corrermos, em umas 4 horas podemos chegar à um ponto que tem comida, agua e vestimentas que não estejam tão danificadas. Só que realmente temos que correr sem parar e não temos água para beber até lá.
—Vamos. — Levantei determinada. — Eu preciso chegar em casa logo.
Ele acenou com a cabeça e começou a se alongar, coisa que eu só havia visto em livros então repeti os movimentos dele e então começamos a correr pela floresta.
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