● ๋° Peso na Consciência °๋●



Abri meus olhos lentamente, deixando o conforto de minhas pálpebras de lado e me pondo a observar a bela paisagem em mostra a mim. Era claro, mas não ofuscante. Era confortante, como algo bastante agradável de observar. Um pôr do sol calmo e quente, com inúmeras nuvens que foram coloridas por sua vibrante e quente cor.

Respirei fundo, lembrando-me de qual situação a qual eu me encontrava. Estava deitado relaxadamente e jogado pela grama, sentindo um leve peso sobreposto em meu ombro canhoto. Olhei nesta direção e sorri ao ver o rosto lindo e encantador de Levi em uma expressão suave que me fez voltar ao início: às nuvens. Foi só forçar a visão e o encarar mais um pouco para perceber uma pequena expressão com um leve curvar de lábios, e somando isso com suas sobrancelhas levemente arqueadas e seus olhos confortavelmente fechados, eu poderia dizer que o psicólogo estaria em um profundo sonho tranquilo, escorado em mim.

Dei um curto sorriso e encaminhei minha mão até a sua que permanecia agarrando minha blusa. Estava, como sempre, fria, mas não gelada. Sorri um pouco mais enquanto massageava de leve seus delicados dedos finos.

Imagino que... Se nós andássemos de mãos dadas alguma vez, nossas mãos suariam. Bom... Eu sei que não andaríamos de mãos dadas tão cedo, mas não custa nada imaginar.

Circulei melhor o seu corpo com o braço em que estava apoiado e subi minha mão livre até seu rosto de temperatura morna, retirando alguns fios de cabelo que caíram sobre sua face pálida e macia, jogando-os para trás e aproveitando meu toque para distribuir um leve carinho em seus cabelos.

Perdi o indício do tempo ao observá-lo. Porém, um vestígio de uma lembrança distante navegou ao meu cérebro, percorrendo as imagens diante os meus olhos.

●๋°●•

Era um dos raros dias em que, para o garoto, o dia estava em cor. Vinte e cinco de Dezembro; O dono dos turquesas brilhantes e reluzentes estava contente pelo dia. Não por ser Natal, mas era um dos poucos dias que para si, era significativo. Estivera na rua com sua mãe e irmã desde o início da manhã, ambas estavam em compras consigo e não desgrudava as mãos nas delas. Como sempre, ira passear ao meio das duas. Era fundamental comprar os presentes no mesmo dia, já que sempre deixavam pra última hora.

Eren estivera contente, muito contente. Adorava sair de casa, ainda mais em companhia de sua mãe e de sua irmã; Gostava de comprar os presentes para os necessitados, pra mamãe, irmãzinha e até mesmo pro Pai. Adorava também comprar as comidas e ajudar a mamãe e a irmãzinha a cozinhar.

E assim que já tinham comprado o necessário, deixaram os presentes às associações e voltaram para casa arrumar tudo, desde cozinhar até a decoração. E quando tudo estivera pronto, o Pai chegou com alguns outros convidados e começaram a festejar. Eren achou legal a ideia de sua mãe descontrair daquele inferno que era seu cotidiano, mas, mesmo com seus cinco anos, atentou-se a ideia de seu Pai ingerir bebida alcoólica.

Adorava ver sua irmãzinha brincar no piano enquanto lançava mais um de seus pequenos sorrisos a si. Ajudava-a acertar alguns acordes, mas preferia vê-la descontrair a exigir-se a acertar tudo. Sorriu a ela enquanto arrumava seus cabelos escuros que insistiam a cair à sua face, já que eram tão lisos e escorregadios. Gostava do cabelo da irmã, era bonito.

Quando apontou o relógio a exata meia-noite, Eren e sua irmãzinha correram até a imensa árvore de Natal da sala e esperaram sua mamãe e seu Pai chegarem para que indicassem quais eram os presentes e de quem.

Mikasa ganhou os sete livros que havia pedido e Eren o violino e as aulas que sua mãe o pediu, com todo o carinho, para iniciar a tocar. Ambos ficaram muito felizes, abraçaram a mãe e a irmãzinha abraçou o Pai. Na hora de Eren, Grisha apenas o parou no meio do caminho negando o abraço, mas permitiu-se bagunçar aqueles cabelos macios e rebeldes.

Assim que todos se afastaram, deixaram Eren ao cômodo sozinho, que sentia os olhos marejarem. Levou ambas as mãos à cabeça, sentindo-se feliz, mais do que imaginara estar, afinal, Grisha o tinha tratado com carinho. Isso... Isso era o avanço do século!! Um sorriso imenso invadiu a face do garoto que saiu correndo escada à cima, comemorando sua própria vitória, porém acabou por entrar ao quarto da mamãe e do Pai e bater a cabeça no armário, fazendo este se abrir e derrubar alguns papéis escritos que pareciam cartas.

Desesperou-se por perceber que eram as escritas do Pai, bagunçada e rabiscada, e desesperou-se. Oh, não! Se o Pai descobrir, não será mais o avanço do século! Tratou de recolher as cartas rapidamente, porém, para sua infelicidade, os passos foram guiados até o quarto, deixando Grisha a vista.

“Você vê, Eren?” um sorriso sarcástico fora visível aos seus lábios. “É só agir com carinho e você me apronta isso. Você não merece, Eren, só faz porcaria!”

A expressão feliz dos arregalados olhos do menino foram desfeitos ao ouvir aquelas palavras maldosas a si e fora substituída por desespero ao ver o Pai fechar a porta atrás de si e desatar a cinta de sua calça.

E no final, o Natal seria como todos os outros: Eren apanharia.

●๋°●•

Senti meus olhos marejarem ao lembrar-me daquele fragmento de lembrança enquanto meu peito foi envolvido por um aperto inexplicável, um aperto que pra mim já era comum. Não por recordar-me do quanto àquela surra tinha doído, mas sim porque hoje em dia, ao olhar em minha volta, não poderia encontrar nenhum deles. Nem Carla, nem Mikasa e nem mesmo Grisha. Sendo assim, as cenas felizes só continuarão em minhas memórias. Quem poderia imaginar que, mesmo depois de quatro anos, a dor da perda continuaria aqui, ao meu lado?

As lembranças daquele incidente me invadem a consciência e fico sem rumo...

Mais do que sempre estive.

Levei minha mão livre, que até então permanecia acariciando a face do homem ao lado, até minha testa e joguei minha franja pra trás. Suspirei. Chega de ficar pensando nisso. Não é como se fosse resolver ou aliviar alguma coisa. Se fosse antigamente, eu, com certeza, entraria em um náufrago perigoso, naquela depressão acolhedora e tentaria novamente o ato que me trouxe até aqui. Respirei fundo. Mas não. Não será assim de agora em diante. Eu serei forte e... Sairei daqui...

– Eren? – a voz sussurrada do psicólogo ao meu lado se fez presente, fazendo leves cócegas em meu pescoço. – O que houve...?

– Nada, Levi. – sorri em sua direção e logo mordi a língua, fazendo com que meus olhos parassem de marejar.

– É sério, Eren. – insistiu ainda num tom baixinho, levantando e movendo-se até que ficasse acima de mim, distribuindo peso em seus joelhos e seus antebraços, de forma que seu rosto ficasse frente a frente ao meu. – Em que pensou para estar assim?

Como resposta, eu apenas abri um sorriso e levei ambas as minhas mãos até sua face, fazendo uma leve carícia com meu polegar em suas maçãs do rosto. Apesar de sua feição estar séria e inexpressiva, seus olhos transmitiam, a meu ver, uma preocupação por mim. Eu... Não quero depender de alguém. Não quero me dar por vencido e necessitar de um psicólogo. Quero dar um jeito nisso sozinho, por mais que demore, ou até mesmo, doa.

Mas... Enquanto isso... Eu quero estar perto de Levi.

Dirigi meu tronco para cima, a fim de chegar meu rosto mais próximo ao seu e capturar seus lábios, não demorando a ser correspondido. Levi foi se abaixando, até minha cabeça encostar-se novamente à grama, logo fui prensado contra o chão. Entreabri meus lábios com a sutil esperança de ser adentrado por sua divina língua, porém o psicólogo apenas cortou o contato, afastando sua face lentamente da minha, ouvindo um estralo de língua vindo de mim em reprovação.

– O quê...? – olhava profundamente aos seus lábios rosadinhos em uma tentativa falha de tê-los para mim.

– Eren, você já jogou boliche? – perguntou-me subitamente, fazendo com que o olhasse curioso.

– Já ouvi falar, mas nunca joguei. Por quê?– minhas mãos alcançaram as suas próximas ao meu rosto, e me pus a acariciá-las de leve.

– Que tal irmos? Aproveitando que estou de férias não possíveis de negar, podemos ir. Não fará mal você faltar alguns dias de aula.

– Ótimo Levi!! – me antecipei feliz por ouvir a parte das aulas. Já tinham três dias que havia voltado. – Vamos sim!!

– Vou ignorar essa súbita mudança só por ouvir que poderá faltar. – rolou os olhos, saindo de cima de mim e levantando-se.

Ri de leve, acompanhando-o com os olhos. – Como falará com Erwin? – indaguei já que aquele cara era uma pedra no sapato.

– Não tem problema, Eren. Já saí varias vezes com pacientes, Erwin aprova uma boa descontração. – respondeu calmamente enquanto punha seus passos em rumo para voltar.

●๋°●•

Já de noite, Levi me avisou que poderíamos ir, me avisando também que deveria arrumar uma mala para ficarmos dois dias fora e que de manhã, passaria a meu quarto para sairmos. E assim que eu estava arrumando minha mala, conforme seu mandato, ouço batidas na minha porta anunciando a entrada. Abri esta e me deparei com Erwin.

– O que quer, Erwin? – indaguei o fitando de modo não tão convidativo.

– Conversar com você. Posso? – sorriu forçadamente, como no primeiro dia em que estive aqui, escondendo suas ires azuladas. Rolei os olhos, porém quando fui respondê-lo negativamente, me cortou: – É sério, Eren, preciso tratar de um assunto com você. – bufei. E de contra gosto, abri a força forçado e indiquei-lhe com o braço para entrar.

– Sem enrolação, comece logo. – sentei sobre minha cama com os braços cruzados depois que tranquei a porta novamente, observando-o sem interesse algum.

– É sobre Levi. – belisquei levemente meu braço de modo que não percebesse tal ato, assim como a sensação de vento no estômago que me deu. Não quero Erwin como xereta, devo me manter calmo, como se nada me interessasse. – Você... Por acaso tem algo com ele?

– E por que eu teria? – respondi sem agrado, utilizando uma pergunta. Adolescentes costumam a responder isso quando tem desinteresse, certo?

– Hm... – levou a mão ao queixo, parecendo pensativo. Sorriu de lado. – Talvez o jeito que ele te domesticou?

– Não entendi. – semicerrei os olhos fuzilando-o com estes.

– É só perceber quando anda consigo. Abana o “rabinho”, língua pra fora e se te pedir pra sentar, até late como agradecimento. – tirou sarro com um riso nasal.

– Não estou entendendo. – repeti ríspido, apertando meus punhos sobrepostos ao braço.

– Quero dizer, Eren, – sua voz veio mais rígida. – que neste suposto relacionamento com aquele homem, não te levará a nada.

– Relacionamento? Pensei que o normal entre um psicólogo e um paciente é serem amigos. Humpf, não que nós sejamos. – sugeri sarcástico, arqueando uma sobrancelha. Uma vontade súbita de suspirar me veio à garganta, mas a engoli. Senti um peso posto sobre meus ombros enquanto abaixei o olhar.

– Oh, sim. – sua voz pareceu vir de um sorriso. – Não são amigos. – confirmou consigo mesmo. – E por acaso, são mais que isso?

Levantei os olhos de volta a si, observando a face interessada do loiro em minha frente. Franzi o cenho por presenciar um arrepio de mau presságio. Algo cutucava e gritava ao ouvido que esse cara era esperto de mais; Que poderia mais enfrente presentear-me com algo ruim.

– O que diz com isso? – indaguei desconfiado.

– Fixantes, namorados, amantes... – começou a perambular em minha frente, andar do lado ao outro. Apenas o observava com os olhos enquanto me lembrava do que Hanji me disse no dia de minha briga.

– Eu não sei o que exatamente estas palavras significam, mas se for o que eu penso, não. Nós não somos. – disse firme, presenciando uma áurea superior vindo de mim. Semicerrei os olhos novamente enquanto um pesar alcançava a altura me meu torço. Doía, mas eu deveria continuar como se não sentisse nada.

Notei em seus lábios um sorriso diabólico crescer.

– Interessante. – comentou por fim, virando o rosto a meu rumo, desfazendo o sorriso e voltando ao seu “normal”. – Percebo que você não “vai com minha cara”, caro Eren, mas vou lhe dar um aviso pelo seu próprio bem.

E me atacou de novo. A sensação ruim percorreu minha espinha em singelos choques, dando o contorno exato de meu cérebro. O mau presságio atacou uma nova vez, fazendo os pelos de minha nuca se eriçarem completamente enquanto sentia meu corpo ficar quente e meus olhos doerem ao momento em que Erwin começou a levantar sua blusa em um tipo de câmera lenta.

Fiquei tão repreensivo que encolhi as pernas a ponto de abraçarem e, por fim, quando Erwin tirou sua camisa mostrando seu abdômen, senti certa estranheza, porém, quando se virou de costas a mim, o sentimento estranho escapou-se, dando lugar à repreensão.

Repreensão e medo.

Mordi o lábio e levantei-me da cama ao ver tamanha cicatriz que ia de seu ombro direito até o final de sua costa, quase às nádegas. Parecia um corte mediano e profundo que, ao fim das costas, viam-se novas linhas, novos cortes, para ser exato. Senti meu coração doer. Se fosse um pouco mais ao lado, se passasse ao meio... Erwin poderia ter morrido por acertar sua medula?

Um som de riso tranquilo veio do diretor.

– Está repreensivo, Eren. Consegui te domar com um ato que lhe deixou receoso? – riu uma nova vez. – Será que foi este o método que Levi usou com você? – ignorei todas as baboseiras que saíram de seus lábios, afinal, a cicatriz era tão aparentemente séria, que realmente me deixou receoso.

– E por que... Está me mostrando isso? – minha voz veio sussurrada, mergulhada ao receio.

Dessa vez, o loiro suspirou tristonho, voltando o rosto para frente, de modo que não pudesse ver sua expressão.

– E se eu te dissesse... Que foi Levi quem me presenteou isso? – senti o ar escapar de meus pulmões.

O quê...?

Levi...?

Engoli seco, permanecendo ao mesmo local imóvel, olhando a cicatriz de forma incrédula. Levi... Havia mesmo feito isso...? Ele machucaria alguém desta forma...?

Uma súbita lembrança percorreu à minha visão. A expressão anormal de Levi, algo sério, mas não especificamente isso. Um significado diferente perante seus olhos, e suas palavras:

– Não exatamente um “Condenado”. Mas não seria errado classificar assim.”.

Que geraram minha pergunta receosa:

“– Você fez algo para ser preso?”.

Que ganhou tal resposta:

– Fiz. Fiz várias coisas. Mesmo assim, Eren, não fui preso.”.

Arrepiei ligeiramente apertando os punhos. Levi... Machucou Erwin? Tudo bem que dá vontade de jogá-lo no meio de uma guerra mundial, mas... Provocar um ferimento você mesmo...? Cerrei os dedos, mal percebendo que o loiro já vestia a camisa novamente.

Hu. Sorri ironicamente. Mas e se Levi tiver razão? E se esse cuzão do Erwin tivesse feito algo que merecesse realmente isso? Aliás, quem garante que o diretor não esteja mentindo pra mim? Eu só deveria saber o porquê.

– Já acabou? – voltei a minha indiferença, engolindo todo aquele papo.

– Já. – respondeu rápido enquanto destrancava a porta e saia por esta, logo a fechando.

Respirei fundo sentindo as pernas bambas e joguei-me sobre a cama me sentindo pesado. Que conversa tosca. O cara só queria me passar medo, não é? Ter um “Serial Killer” ao lado. Humpf. Querer passar medo de morrer em alguém que já cometeu inúmeras tentativas de suicídios.

Coisas para tomar mais cuidado, uma providencia:

– Hanji; Parar de agir como um cachorro,

– Hanji; Cuzão do Erwin;

– Hanji; E Levi, o Serial Killer.

Droga.

Velho babaca.

●๋°●•

Uma mão segurou-me firme ao ombro e me balançou, trazendo-me uma sensação de desconforto ruim. Os chamados por meu nome tornaram-se constantes e assim que reconheci aquela voz, abri meus olhos, dando de cara com o psicólogo que me olhava sério e atento.

– Hmm... – levei minha mão ao olho, esfregando este para acordar-me por completo.

– Que sono pesado, Eren. – ele comentou. – Não sabia que falava dormindo também.

– Eh? – franzi o cenho sentando-me. – O que eu falei desta vez?

– “Hmm... Levi...! Ahn!!” – seu tom veio manhoso, imitando talvez o que eu tivesse falando. Foi... Até algo gostoso de ouvir. – Sonhos eróticos comigo, Jaeger? – sorriu de lado, aparentemente travesso. – Que surpresa.

– Sonho erótico? – indaguei preguiçoso. – O que é isso?

Levi apenas rolou os olhos e levantou de minha cama aparentemente decepcionado.

– Não tem graça implicar alguém tão inocente. – suspirou cruzando os braços. – Desgruda a bunda dai e vai tomar um banho, esta com uma cara de taxo dos infernos!

– Okay... – levantei da cama, peguei uma toalha e a roupa que ontem separei e rumei ao banheiro. Vestiria um moletom preto de capuz e uma calça jeans para fazer par com um coturno negro.

Comecei por me despir assim que adentrei o banheiro e fechar a porta. Apesar de eu ter navegado geral nos pensamentos enquanto me banhava, eu não demorei. Escovei os dentes e tratei de vestir minhas roupas assim que o acabei. E quando já me sentia melhor higienizado, pendurei minha toalha e voltei ao quarto, deparando-me com a cama já arrumada e Levi com um pente na mão, sentado na cama.

– Okay garotão, faça-nos o favor de sentar-se aqui, – apalpou a cama com a mão. – e deixe-me arrumar seu cabelo que está uma zona.

Arqueei uma sobrancelha. Espera ai, desde quando ele vem falando assim comigo, como se eu fosse realmente seu cachorro?! Franzi o cenho enraivado e sentei ao lado contrário que ele me tinha apontado para sentar. Não serei um cachorro, muito menos obediente!

Levi olhou pra mim com uma suposta interrogação na face, mas deu de ombros por ser devidamente algo estúpido, a seu ver, é claro. Levantou-se e caminhou até ficar de frente a mim, logo rumando o pente ao meu cabelo, penteando-o com cuidado. Não teve dificuldade alguma, meu cabelo nunca foi de se embaraçar muito. E assim que acabou, me encarou pacificamente, exalando um local relativamente seguro pelo o olhar.

Em minha opinião, esse específico psicólogo exala uma tranquilidade intensa ao olhar, isso é, quando não está enraivado. Porém acho que mesmo nervoso, não teria feito uma cicatriz como aquela. Levi não parece fazer algo tão ruim assim.

– O que foi? – pronunciou-se em um murmuro, com uma expressão bem relaxada. Ainda tinha sua atenção focada em mim.

– Nada. – respondi sorrindo de leve a si, levando meus braços em torno de sua cintura e o trazendo para mais perto, encostando seu abdômen ao meu rosto. Outra coisa que Levi exalava também, além da tranquilidade, era o cheiro. Era um aroma fraco, sem algo específico: não era doce, nem amargo, nem mesmo enjoativo, muito pelo contrário, era viciante, e por ser tão leve e gostoso, me fazia querer grudar meu nariz a si, para senti-lo eternamente. – Levi... – o chamei sussurrado. – Você passa perfume...?

– Não, por quê? – fechei os olhos, firmando meus braços ao seu redor.

– Você tem um cheiro muito gostoso... – enchi meus pulmões com todo seu aroma que pude conseguir e, depois de alguns segundos, soltei-o para fora.

– Se chama: Boa esfregada com um sabonete. – ironizou fazendo-me rir de leve. – Cheiro gostoso é o seu, moleque. – seu braço se moveu e ouvi um leve barulho atrás de mim, provavelmente teria jogado seu pente sobre minha cama.

Afastei-me um pouco de si, cheirando minha mão e meu moletom, cheirando também meu cabelo.

– Não sinto o meu cheiro, só do sabonete de coco. – respondi voltando o olhar a si depois de arquear uma sobrancelha. Levi riu nasalmente.

– Eu também não sinto o meu. É que já nos acostumamos com nosso próprio cheiro. – respondeu calmamente. Impressão minha ou Levi estava mais acalmado hoje? Dei de ombros e apenas contornei sua cintura novamente com meus braços, afagando meu rosto sobre seu abdômen. Ri de leve ao perceber que, se fosse eu em pé e o psicólogo sentado, seu rosto iria ao rumo de minha virilha. Ou Levi era mesmo baixo, ou a cama era grande. Hm... Talvez ambos.

– Espero que esse riso não seja referente à minha altura. – comentou como se tivesse simplesmente lido minha mente. Levantei o olhar ao seu, assim como arqueou uma sobrancelha. – Acertei?

Sorri novamente e depositei um beijo sobre seus músculos cobertos, roçando meu nariz gentilmente após isso. – Você tem cócegas, Levi?

– Não. – respondeu com os olhos pregados em mim enquanto rodeou o meu pescoço com ambos os braços. – Você tem, Eren?

– Eu acho que não. – respondi sincero, levantando novamente meu olhar ao seu, tendo de encontro exato com seus belos ires acinzentados puxados ao azul. Quando meu olhar caiu aos seus lábios, lambi os meus e estiquei meu pescoço a si e assim que entendeu qual era meu desejo, fez o mesmo até aproximarmos o suficiente para pregar-nos apenas com um toque bem de levinho. Uma sensação apoderou-se de minhas costas, fazendo-me querer afastar, mesmo parte de mim querendo continuar. Não querendo demonstrar tal efeito, separei-nos devagar e beijei o canto de sua boca, depositando também a um de seus braços que abraçava meu pescoço.

Meu peito novamente doeu e encostei minha testa sobre seu abdômen, recebendo sua mão sobre meu cabelo.

– Quer dizer alguma coisa, Eren? – perguntou baixinho, fazendo-me arrepiar e ter calafrios. Esse cara lê mentes, só pode! Apesar de ter algo sim pra falar, acenei negativo com a cabeça por não saber quais palavras usar. Na verdade, o que mais me incomodava não era o motivo da cicatriz do diretor, era outra coisa, porém não sei o que é. – Tudo bem. – suspirou de leve. – Qualquer coisa, mudança de ideia, aumento na pressão que sente... Estou aqui a ouvidos, não como um psicólogo, mas sim como um amigo.

Amigo...

Levi me considera um amigo.

E meu peito doeu. Doeu muito. Senti meus olhos inundarem de lágrimas, mas apenas usei o método de morder a língua e respirei fundo, enquanto o apertava em um abraço.

Afinal, o que eu exatamente estava sentindo...?

Notas finais
Contentem-se com o futuro lemon que não será atacado nenhum dos cuzinhos desse casal FLEX.