● ๋° Flor de Ósíria °๋●

– Espere um pouco. – o homem pediu assim que subimos ao telhado, me pousando ao seu lado. Retirou o blazer preto pondo-o pendurado sobre o braço, deixando à mostra sua camisa de tecido fino da cor de Estações das Chuvas. Desabotoou os botões da manga e dobrou-a, desabotoando também o colarinho, deixando-o reto. Essa imagem formal até cai bem a ele... O blazer que até antes estava em seu braço, foi posto em sua cintura, amarrado. – Pronto. – anunciou. Senti seu braço canhoto envolver meu tronco mais uma vez e seu destro as minhas coxas, assim me levantando sem nenhum problema aparente.

– T-tem certeza sobre isso...? – perguntei meio incerto tendo o braço passado automaticamente por trás de seu pescoço.

– Não se preocupe. – sua voz saiu confortável o suficiente para eu não insistir. Pôs-se a andar olhando a diante com atenção, deixando com que eu consiga sentir seus passos bem escolhidos, bem dados e bem delicados, com certa segurança. Ele não parecia ter problema algum em andar sobre o telhado. Senti uma sombra sobre nós e ao olhar para cima me deparei com uma grande árvore. – Vou soltar suas costas, me segure bem. – pediu e como resposta, acenei positivamente apertando mais os braços em torno de seu pescoço. Observei seu cuidado em escolher e apoiar-se sobre alguns galhos grossos da árvore. E, sem mais delongas, desceu sem grande esforço dela, parando vez ou outra num bom apoio para me avisar para segurá-lo melhor. E por fim... – Sou tão divino assim?

– O quê? – arqueei as sobrancelhas.

– Chegamos ao chão e você nem percebeu.

– Hun?! – olhei ao chão para confirmar, me assustando por ser a verdade. Ouvi um som de riso vindo dele mesmo que sua expressão não indique o mesmo.

– Ficou me olhando igual a um bobo. – ironizou.

– N-não diga besteiras!! – meu som saiu mais alto que previa.

– E novamente... Corou.

– Para! – tapei meu rosto com minhas mãos.

Entre os dedos o vi desviar o olhar para outro lado enquanto descia-me com cuidado ao chão. Ao ter meus pés entregues à grama rasa, percebi que o homem tem uma altura até mais baixa do que pensei, o topo de sua cabeça era ao rumo de meu queixo. Quantos anos ele tem...? Soltei seu pescoço de uma forma lenta por estar prestando atenção em si, mas logo movi o olhar para outro ponto qualquer.

– Obrigado... – sussurrei.

Percebi que o psicólogo começou a andar e me pus a segui-lo sem deixar de perceber algumas características sobre ele a quais eu ainda não havia notado, como... Suas costas esguias e eretas que pareciam ter músculos aparentes, mesmo estando vestido com uma camisa. Seus ombros eram largos, o quadril estreito e mesmo sendo um homem, a cintura era fina... Até mesmo sua nuca era bela.

– Espero que não se canse, é um pouco longe. – comentou, retirando-me uma expressão de surpresa.

Engoli seco devido tal informação. E como algo psicológico, já senti uma pontada forte o suficiente em meu joelho para começar a me preocupar. Por eu não ter feito nenhuma atividade física por muito tempo é bem provável que ele comece a dar choques por estar desacostumado...

– O que foi? – indagou atraindo minha atenção. – De repente ficou tenso.

– O quê...? N-não, não estou! – tentei ser inutilmente convincente. Joelho desgraçado, mal andamos e já começou a doer. Respirei fundo tentando tirar minha tensão. Tenho que me acalmar... Antes que eu realmente seja um estorvo... Uma nova vez.

– Ei, garoto. – fui chamado pelo homem que parecia ter sua devida atenção sobre mim.

– H-hun? – balbuciei ingenuamente.

– O que há? – parecia me olhar de soslaio.

– Nada! – fechei os olhos em pressão. Já começava a senti-lo sair do lugar, como se deslizasse do lado para o outro, sem firmamento. Suspirei e parei por um momento levando o pé esquerdo até minha mão, por trás, e alongando-o. Pelo menos assim ele voltava ao lugar antes de deslocar.

Assim que voltei a olhar pra frente, deparei-me com Levi olhando-me curioso, até que tornou a perguntar:

– O que foi moleque? – julguei pelo seu tom um pingo de impaciência. – O que aconteceu com sua perna?

Porém apenas desviei o olhar tornando a andar, ainda recebendo sua atenção cautelosa e desconfiada. Somente respirei fundo tentando transmitir naturalidade.

Estou inseguro.

– Pirralho, se não me dizer o que foi eu vou enfiar a mão na sua cara. – ameaçou. E por um momento eu me perguntei se todos os psicólogos agiam assim.

– Não é nada! – respondi de um modo mais tenso, perdendo o equilíbrio da força a mais na perna direita para não forçar meu joelho ruim, acabando por tropicar em meu próprio pé. Ao tentar erguer o equilíbrio falho, acabei colocando força no que não devia, resultando no deslocamento do joelho esquerdo. Mas fui rápido o suficiente para conseguir protege-lo com ambas a as mãos. No encontrão com o chão já pude sentir a dor dilacerante sobre ele. Fechei os olhos com força para enganar a dor.

– Eren! – gritou-me assustado. Ouvi seus passos em minha direção, logo sua mão se encontrou com a minha, no meu joelho – Eren, o que houve?!

– Heh... – sorri de modo forçado, tentando mentir. – Não é nada...

Recuperei-o com o olhar, vendo sua expressão nada agradável, como se não acreditava na baboseira que falei. Suspirou e rodeou meu corpo com seus braços, não demorando a me reerguer, tendo-me em seu colo.

– Vou te levar à clínica. – ditou decidido já começando a dar meia volta.

– N-não! – elevei minha voz por um momento, fazendo-o parar. – Por favor, não... – olhou-me com um rosto pedindo por explicação. – Eu... Não quero que ninguém saiba. – desviei o olhar ao chão, meio decepcionado. Não queria que ficassem se preocupando ou importunando-me com isso. Não havia coisa mais desconfortável. – É difícil lidar com isso. – disse por fim tentando fazer com que ele entenda.

– Tudo bem. – suspirou mais uma vez, dando meia volta e continuando o caminho em que iríamos. – Mas ainda quero que me explique.

Acenei positivamente respirando fundo. Assim que senti meu joelho amenizar da dor, coloquei a mão sobre meu tórax tentando-me acalmar e engolir todo aquele ligeiro desconforto. Fechei os olhos começando a me relaxar com aquela sensação estranha de estar nos braços dele e, quando notei que o homem parou a pequena caminhada, notei que se sentou, acomodando-me entre suas pernas.

Mas o local não era longe...?

– Obrigado... – quando comecei a me levantar, sua mão me prendeu, me impedindo de fazer tal ação. – O que foi?

– Fica... – pediu fazendo uma voz bem rouca. – Logo vai esfriar...

Não demorou que eu sentisse meu rosto esquentar.

– O-ora! Pare de me abusar! Como poderia esfriar se agora são apenas umas... Quatro horas?!

– Ah... Me descobriu... Eu estava louco para explorar suas nádegas. – falou naquela voz morta, assim como sua expressão.

– Senhor Irônico, não? Acho que essa personalidade não dá muito bem em você! – ironizei levantando-me dali e me sentando ao seu lado, um tanto afastado.

– Tão longe por quê? Ficou com medo, hum? – não pude negar que essa feição ironizada de seu rosto caiu muito bem a si.

– Ah, cala a boca! – falei constrangido, me encolhendo.

Um som de riso escapou de seus lábios, porém, mais uma vez, não foi possível de visualizar um sorriso ali. Seu olhar caiu ao horizonte de uma forma tranquila dessa vez. Acabei por reparar que em momento algum ele teve sua postura relaxada. E ao pensar mais sobre isso senti certa pontada de preguiça e acabei por me deitar à grama, colocando os braços atrás da nuca.

– “Como posso confiar em você?!” – encenei e logo sua atenção voltou a mim, mesmo ele não tendo virado seu rosto em minha direção. – “Depois darei motivos.” – imitei sua voz e dei uma pausa, fechando os olhos. – E então, quais seriam os motivos? – abri novamente os olhos e dessa vez ele teve seu rosto virado em minha direção.

– Comecemos então. – o mesmo respondeu mesmo não sendo... Uma resposta digna. – Sei seu nome. – falou um pouco baixo. – Meu nome é Levi, – disso eu se- — “Rivaille” seria meu sobrenome.

– Seria...?

– Na verdade, eu não tenho um sobrenome. – explicou.

– Hm? Não tem? – me sentei lentamente, curioso.

– “Rivaille” seria uma pronuncia para “Levi”. Simplesmente não sei meu sobrenome e também não tenho interesse em saber. – completou antes de me dar alguma chance para perguntar, dando de ombros. – Até porque, na opinião do meu pai, isso é considerado um tabu.

– Ah...

– Em relação à idade... Tenho trinta e quatro.

– Trinta e quatro?! – não contive uma reação de surpresa.

– Por que a surpresa?! – perguntou irritado. – Pense bem antes de responder! – o mesmo mostra seu punho destro fechado a mim.

– Uh... – senti gotículas de suor escorrer pelo rosto. – É-é que você... Parece muito mais novo.

– Por quê...? – seu tom fez de continuação, como se eu fosse obrigado a responder.

– Sua aparência é muito bem cuidada! – exclamei bem alto, surpreendendo a mim mesmo.

– Eu sei, sou um Deus. – ele disse com a expressão de sempre, deitando-se à grama lentamente.

Escroto. Pensei, fazendo uma expressão tediosa, deitando-me lentamente também. Visualizei sua face virando em minha direção.

– Deite-se aqui mais perto, Eren. – pediu.

Rolei meus orbes em outra direção.

– Pra quê?

– Quero ter você por perto.

– Ah, que romântico! – exclamei sarcástico, mesmo que eu tenha me levantado, lentamente, com extremo cuidado com meu joelho, o obedecendo, deitando-me ao seu lado.

Voltei meu olhar ao seu, encontrando aquelas orbes tão belas e pequenas.

– Seus olhos são muito bonitos. – comentou de repente quebrando o silêncio antes que surgisse.

– O-o... – desviei o olhar, me sentindo meio sem graça. – Obrigado...

Senti o mesmo ainda me olhar e desviei a direção de meu rosto, mas fui surpreendido ao sentir seu toque em minha bochecha contrária, retornando meu rosto para si. – Você sabe o nome da cor?

– T-Turquesa. – desviei novamente o olhar. Isso era constrangedor.

– Ah, sim... Olhe pra mim mais um pouco. – com o mandato o olhei, percebendo um mínimo curvar de lábios que poderia até ser chamado de sorriso, em sua face. Senti o meu rosto arder. – Sim... São realmente lindos.

Abri a boca para dizer algo, mas não tive nada em mente. E antes do silêncio tornar-se incomodo, ele passou seu braço sobre meu pescoço, como se estivesse me abraçando. – Se importa se eu permanecer assim?

– U-uh!! – balbuciei alto, estranhamente nervoso. – N-não, não me importo!!

– Okay. – seu tom soou divertido e logo sua testa foi de encontro ao meu ombro. – Não precisa ficar tão nervoso, não vou te morder.

– N-não estou nervoso...!

– Eu sou o Batman. – sua voz animada veio dessa vez sussurrada, num tom rouco.

– Você é um idiota! – desviei o olhar.

– É, talvez eu seja.

Permanecemos em silêncio durante algum tempo, eu tentando respirar fundo para voltar à normalidade. Quando desci meu olhar sobre ele, reparei que este olhava para baixo.

– O que foi? – perguntei meio curioso.

– Pode me dizer o que houve com seu joelho? – seu olhar voltou ao meu.

– Ah... – acabei por hesitar.

– Se não quiser falar, eu entenderei, mas acredito que seja melhor eu saber.

– N-não, não tem problema, não pra você... – sinto meu rosto arder levemente e respirei fundo, tendo um olhar surpreso. Me sentei acompanhado dele.

– Fico contente. – sua voz saiu serena, fazendo com que um arrepio percorresse à minha espinha.

– Não foi nada que me resultasse raiva sobre outra pessoa... Foi apenas um incidente e inteiramente como eu sendo o culpado. – minhas palavras saíram de forma cuspida, como se eu não quisesse aceitar tudo aquilo. E na verdade, eu realmente não queria. – Sempre fui um garoto esforçado e extremamente esportivo ou... Pelo menos era. – apertei minhas mãos, meio enraivado ao ter que falar tudo que eu lembro sempre.

– Era...? – sua voz veio sussurrada, bem tranquila. Sua mão foi de encontro a minha, soltando o meu aperto e logo a segurando, evolvendo seus dedos aos meus. Foi um toque simples, mas o suficiente para me trazer serenidade à mente, como um conforto dizendo que estaria todo a ouvidos. Respirei fundo.

– Aos meus... Onze anos, se não me engano, minha equipe de Handebol foi convidada para um amistoso e se nós ganhássemos, poderíamos participar de um torneio. O treinador aceitou, então no jogo amistoso, como sempre, depositaram sua esperança em mim, como goleador de força. No jogo eu estava de Meia Direita. O meu forte no arremesso é ficar por trás, receber a bola e pular sobre a barreira. – pausei, desviando os olhos pro outro lado. – Como eu percebi que o goleiro era bom no reflexo, eu apelei pra força. Pulei, com a perna destra pra ter mais equilíbrio ao ar e mais acesso à força e... Ao voltar ao chão, meu pé canhoto escorregou, assim virei o joelho e o desloquei, recebendo a batida do chão. – Articulei meu braço para explicá-lo melhor. Ele me pareceu atento, ainda olhando pra mim, em silêncio, para que eu continuasse:

– Me levantaram depois de perceber que eu não conseguia fazer sozinho e me levaram até a arquibancada. Como eu estava com uma legue negra, e não o uniforme oficial, não foi possível ver o resultado da queda, então só passaram um spray anti-inflamatório e voltei ao jogo, após forçar-me estar bem e levar mais um tombo ao levantar. Consegui enganar o treinador, entrei no jogo e lá cai mais duas vezes.

– Você é idiota? – seu tom foi seco, como se não acreditasse no que havia dito.

– S-sou...! – minha voz veio trêmula e senti que ele hesitou. – Graças a minha idiotice, o médico me passou informações erradas, tomei os remédios que precisava, coloquei gelo, fiquei duas semanas de repouso como ele me informou, voltei a jogar e machuquei novamente! – minha voz veio por irritada, mas na verdade eu estava frustrado, com raiva de minha própria idiotice, como diz ele.

– Deixe-me adivinhar. Você continuou a forçar e caindo.

– Sim... E resultou em precisar de cirurgia.

– E você fez...?

Abri minha boca pra responder, mas fui interrompido por minhas lágrimas.

– Eren? – sua voz pareceu-me preocupada, senti seu toque ao meu ombro. Encolhi-me, abraçando meus joelhos e pus minha cabeça entre eles.

•●๋°●•

Um rapaz dos cabelos marrons do comprimento de um tanto ao rumo do ombro permanecia-se sentado ao meio do nada. Um nada tão branco, tão sem vida, que parecia tão desesperante, de certa forma um lugar morto, ou até mesmo, mortífero. O Jovem se encontra sentado, com as pernas abraçadas, e a cabeça entre as mesmas. Em torno do mesmo havia algumas velas acesas que tinham o fogo balançado, mas não importa o quanto, elas não se apagavam. O silêncio daquele local era absoluto, e se fosse algo para produzir algum efeito sonoro, seriam apenas os dentes daquele moreno que não paravam de tremer, talvez por causa da porta aberta que deixava aquele vento gélido adentrar como se fosse seu trabalho.

Em relação às velas... Uma havia se apagado.

Mas que estranho... O vento adentrava de forma forte o suficiente para levar aquelas velas pra longe. Todavia, nem mesmo o fogo se apagava.

Alguma resposta referente a isso...?

•●๋°●•

Meu quarto. Ou pelo menos, do momento. Ele parecia ser tão pequeno comparado ao meu antigo... Tão claro quanto o meu outro e tão solitário quanto parece ou até mais. No cômodo havia uma cama de casal com colchas negras centralizada, um criado mudo ao seu lado com um abajur e um guarda-roupa. Sem nenhuma decoração. As cores dos móveis são uma madeira escura meio avermelhada, Mogno, se não me engano? Não sei, mas também não quero saber!

Joguei-me à cama, olhando pra janela aberta feita com a mesma madeira, sendo possível observar o céu escuro ali fora. Já era noite e ao conferir o maldito relógio barulhento sobre o criado-mudo, conferi ser onze da noite. Suspiro. E como sempre, o sono não vem.

Já havia explorado o quarto, não encontrei nada de interessante que não seja meu, muito menos algo afiado. Suspirei novamente e senti mais uma vez meu joelho passar por uma corrente elétrica de dor. Gemi baixinho e logo fui assustado com batidas na porta.

– Quem é? – perguntei alto o suficiente para ser ouvido.

– Levi. – Doutor Levi...? O que ele faz aqui...?

– Pode entrar. – respondi fechando meus olhos. Ouvi a maçaneta girar.

– Está trancado, pirralho! – revirei os olhos.

– Espere. – levantei-me lentamente e, ao por meu pé esquerdo no chão, senti dor, resultando em andar mancando. Ao me aproximar da porta, a destranquei, abrindo-a. Me assustei ao ver uma flor diferente em suas mãos, uma que eu nunca havia visto. Era um tipo de rosa com algumas pétalas prateadas dando um contraste belo com o vermelho sangue das outras. – Uma rosa?

– Sim, “Ósíria”. –me respondeu, aproximando a flor mais perto de mim.

– O que pretende com isso? – indaguei.

– Hm... Enfiar no seu ânus se você não pegá-la rápido. – estremeci levemente com a ameaça, mas logo ri. Imaginei ser uma piada. E assim que ele adentrou o quarto e voltou a me indicar a flor, levei a mão até sua frente e dou um novo sorriso.

– Não... Não precisa, obrigado.

– Acha que eu estou brincando? – sua voz soou medonha.

– S-sim...? – perguntei meio incerto, sendo surpreendido ao ter-me ao seu colo e jogado na cama, de modo que não doesse meu joelho. Suas mãos vieram de encontro ao meu quadril, virando-me e posicionando meu traseiro arrebitado. – O-o quê está fazendo?! – gritei assustado.

– Shhh... – seu rosto de aproximou do meu com a rosa em sua boca. – Não estou brincando. – sua voz estava meio abafada por conta da flor.

– O-o quê?! – minhas mãos foram presas pela sua e sinto a outra em minhas costas, escorregando lentamente até meu bumbum. – M-me solte!! – novamente gritei, desesperando-me, tentando me debater, sendo que parte... Ah, droga.

– Pegue a flor então. – insistiu.

– E-então solte minhas mãos! – tentei soltá-las novamente, mas ele só aperta mais.

– Você tem sua boca. – sussurrou.

– O-o quê?!

– Vamos. –se aproximou um pouco mais.

– I-isso é vergonhoso!! – senti seus dedos rodearem o contorno de minhas redondas e mordo meu lábio evitando suspirar. – T-tu... Tudo bem!! – gritei, fechando os olhos e agarrando a colcha negra.

Senti sua respiração quente se misturando com a minha, que se encontrava alterada. Ao perceber que seus olhos permanecem olhando a mim, fechei os meus por conta da vergonha. Abri minha boca para receber a planta e senti levemente o roçar de seus lábios contra o canto dos meus, que sente o toque de sua bochecha quente. Ao receber a rosa, lentamente nos afastamos.

– E então, doeu? – Ele perguntou com o tom divertido, ainda sobre mim.

– E-eu agradeceria se você... Saísse de cima de mim... – acabei por ignorá-lo, envergonhado. Tendo meu olhar desviado do dele. Minha voz sai meio abafada pela rosa.

– Ah, desculpe. – o psicólogo se afastou, sentando-se à beira da cama.

– Você é gordo... – comentei, virando-me de costas para baixo.

– Você quem é um magrela. – sem mudança no seu tom de voz.

Assim que retirei a flor de minha boca, volto a observá-la, girando-a devagar. O contraste tão único propõe certa delicadeza à rosa e a cor ensanguentada parece dá-la brilho.

– Parece que você gostou. – meu olhar se atraiu a ele, percebendo assim que o mesmo ainda me observava.

– Ela é muito bonita... – deixei que um sorriso saísse de meus lábios.

Ele permaneceu em silêncio e eu retribuo ao mesmo, escutando o “Tic-Tac” idiota do relógio.

– Que relógio irritante. – suas mãos vão até suas têmporas as massageando.

– Muito! – concordei.

– Odeio ir ao quarto dos outros por causa desses irritantes relógios!

– O seu não tem?

– Tinha, mas ele fez uma “viagem” pela janela. – acabei por rir ao vê-lo imitar a trajetória do relógio com a mão, imitando o barulho ao encontrar o chão, bem em frente ao Erwin. – Erwin ficou tão irritado que descontou meu salário! Maldito!

– Caramba, bem que podia ter acertado! – comentei, em meio ao riso.

– É, não seria mal. – concordou num tom divertido.

– Espero que não estejam falando sobre mim! – do corredor escutamos Erwin gritar.

Assisti Levi dar um sorriso travesso e passar a mão sobre a franja, jogando-a para trás e logo ela voltou.

– O diabo sempre escuta quando falamos dele, não?

– Parece que sim! – me diverti ao ver aquele sorriso belo em sua face que infelizmente não demorou a se reduzir a um curvar de lábios.

– Ah, sim. Referente à flor... Talvez eu possa lhe mostrar algumas bonitas assim.

– Sério? – indaguei esperançoso.

– Sim, parece que você se interessa em natureza, não é?

– É... – sorri abobado, olhando pro nada, mas logo lancei o meu olhar à ele, aumentando um pouco o sorriso. – Eu gosto de pintar. – acabei por receber sua atenção levemente assustada, e percebo que evita olhar-me. – Mas então... O que veio fazer aqui?

– Nossa, estou te atrapalhando tanto assim? – sua voz veio de deboche, fingida a triste.

– N-não! É-é que foi... Repentino...

Ele me olhou uma nova vez, e se sentou de forma mais confortante.

– Estava preocupado. – respondeu sereno. Senti minhas bochechas esquentarem. – Já que tinha adormecido... Eu lhe trouxe até aqui, mas não pude saber se estava melhor.

– V-você é tão preocupado assim com seus pacientes? – desviei meu olhar, brincando de rodar o caule da flor.

– Talvez eu seja. – comentou rápido. Ouvi um suspiro. – Mas estranhamente me sinto mais preocupado com você, fazendo brincadeirinhas mais íntimas sendo que mal nos conhecemos, ou sendo debochado quando eu deveria passar uma impressão melhor – sua voz, dessa vez, vem ainda mais serena e calma. Presenciei um palpitar mais rápido do meu coração. E minhas bochechas, dessa vez, se queimaram.

– P-por quê? – resolvi perguntar. Mesmo ele se mostrando tão debochado, irônico ou seja lá o que for, eu fui com inesperadamente muito com a cara dele.

– Não sei. – suspirou. Acabei por respirar fundo.

Permanecemos silenciados. E de repente, me senti ainda mais incômodo ao lembrar-me do toque de seus lábios ao canto dos meus e me sinto curioso a respeito disso.

– Doutor Levi... – resolvi chamá-lo.

– Levi. – corrigiu-me.

– L-Levi.

– Sim, Eren? – interrogou.

– N-não... – respirei fundo, mordendo o lábio. – Deixa quieto...

– Pode dizer. – insistiu.

– M-mas... – olhei pra ele rapidamente – É apressado e estranho de minha parte...

– Diga.

– P-posso... Tocar em seus lábios...? – perguntei baixinho.

– O quê?

– T-Tocar seus lábios... – falei um pouco mais alto, me encolhendo no meu canto. – E-eu posso?

Vejo-o hesitar:

– Pra quê?

– N-nada! – tornei minha postura rígida. – S-só esqueça!!

– Você é estranho. – sua voz veio acompanhada de um som de riso.

– D-desculpe. – desviei o olhar.

E assim, desatento, só percebi que ele havia se aproximado assim que senti uma sombra sobre meu rosto. Conferi pra ver o que seria e num rápido momento visualizei um pequeno curvar de lábios. E, num piscar de olhos, algo extremamente macio, úmido e quente tocou a minha boca. Um arrepio passou pelo meu corpo, uma sensação estranha... Gostosa e delicada, talvez? Meus olhos se fecharam e minhas mãos alcançam algo para segurar. Quando tive meus lábios soltos, senti uma respiração quente e doce que me fez suspirar e lamber inconscientemente meus lábios, tentando sentir mais daquele gostinho diferente e de certa forma estranha, porém gostoso. Abri lentamente os olhos e descobri aqueles olhos acinzentados apoderando-se de mim.

Não consegui dizer nada, somente ter a boca aberta vez ou outra tentando. Minha face ardeu bastante e... Mal sei o que aconteceu.

– Desculpe. – sua voz se fez presente.

– O-o q... Quê? – perguntei não entendendo nada, mas me dando conta de que ainda tinha minhas mãos sobre seus ombros.

– Te forcei? – perguntou sutil.

– N-não... – respondi acanhado, acenando negativamente.

Ele se aproximou outra vez, sentindo ainda mais forte sua respiração sobre a minha. Ao ter sua boca devidamente mais perto de mim, vi seus olhos se fecharem e, assim, fechei os meus também. Aquele toque de antes se fez presente, naquela mesma textura. Quente, macia, delicada, dessa vez mais úmida. Me fez arrepiar e apertar seus ombros.

De modo indescritível meus olhos marejaram inconscientemente. Acabei por me afastar vagarosamente do toque que soltou um leve estalo, abaixei a cabeça, apertando um pouquinho mais seus ombros. Sem aguentar, comecei a puxar ar de pouquinho em pouquinho, como se estivesse soluçando, tentando esconder dele. Bom... Talvez eu estivesse...

Sua mão veio sobre minha cabeça, acariciando seus cabelos.

– O que há...? – perguntou tranquilo.

– Isso... É estranho... – comentei sussurrando, acompanhando seu tom de voz.

– Estranho...? Por quê?

– N-não sei... – sua mão desceu até minha nuca, que foi puxada em sua direção, de forma que encostasse minha testa sobre seu torço, continuando as carícias.

– Você está gostando daqui Eren...? – desci minha mão de seus ombros até seus braços.

– Acho que é cedo... Pra saber.

– Entendo. – ele parou as carícias e se afastou um pouco. – Vou me retirar, amanhã você deve ter aula, não?

– Ah... Sim. Acho que sim. – soltei seus braços e levei minha mão até o meu.

– Boa noite então, Eren.

– Sim, boa noite, Levi...

– Desculpe o incomodo. – levantou-se devagar.

Sorri levemente em sua direção.

– Até mais, Levi.

– Até.

Assisti-o chegar até a porta e sair por ela. Levantei da cama e mancando, fui até a mesma e a tranquei, voltando à cama e a arrumando. Rapidamente me deitei sobre ela, descobrindo o conforto, porém, mais uma vez tive dificuldade em dormir.

Me peguei lembrando do passado. Daquela brusca queda, daquela dor insuportável, daqueles comentários duvidosos e inúteis. Um suspiro soluçado veio de escape ao fechar meus olhos, sentindo uma lágrima percorrer sobre minha face destra.

Talvez... Se eu tivesse desistido dos esportes... Eu poderia estar em casa, mesmo essa sendo tão...

Infernal.

Notas finais
Agradeço aos capítulos anteriores! Muito obrigado! Prévia do próximo capítulo: [...] – Saco? Apanhou duas vezes e já se cansou? – ri ironicamente. Dessa vez, Jean já estressado, pulou em cima de mim e pela pressão nos meus joelhos, acabei desequilibrando do galho, levando-o ao chão. O som foi claramente ouvido e um grito de surpresa de Armin escutado. Sentindo meus joelhos explodirem, apertei os olhos e mordi meu lábio, sentindo um soco em meu rosto. Abri os olhos e, quando o cavalo voltou outro soco, segurei sua mão, repetindo com a outra sua. Com um pouco de dificuldade, passei suas duas mãos para minha mão esquerda, deixando a minha direita livre para socá-lo. – Levi!! Erwin!! – Armin gritou ainda em cima da árvore.