Nas Sombras de um Hospício
12 Assinatura
Notas iniciais
Nas Sombras de um Hospício
Assinatura
Frio, extremamente gélido. Não mentiria se dissesse que via cubinhos de gelo escapar de sua garganta, sendo soprados pela pequena fumaça esbranquiçada, indicando o quanto a temperatura estava caída.
Estava naquele lugar de sempre, claro e escuro, ao mesmo tempo em que também era cheio e vazio. Mas, mais do que sempre, sentia-se extremamente fraco, adoentado, atordoado. Tinha a visão dupla consigo, porém forçava-se a tentar ver melhor. Observou tudo ao seu redor. Dessa vez, todas as velas estavam acesas, nenhuma apagada. As chamas permaneciam quietamente treinadas, imóveis, diferente de seus músculos que se mexiam tentando aquecer-se do frio, para não ser congelado e morrer ali.
Correu os olhos à porta totalmente aberta. Tentou levantar-se para fechar aquela porcaria, mas somente xingou mais por descobrir que mal conseguia sair da posição atual.
Estava tão fraco...!
Olhou dessa vez para cima, encontrando como daquela outra vez, o espelho quebrado. Seu reflexo estava pausado no momento em que fuzilava a porta. Franziu as sobrancelhas.
Ah, então é assim. Havia “morrido” como na última vez?
Havia parado seus pulmões e seu coração?
Droga...
Estaria preocupando Levi...?
Sentiu uma sensação estranha crescer sobre a barriga, indicando que ainda se sentia diferente quando se tratava daquele homem. Mas diferente das outras vezes, não sentiu seu coração bombear mais rápido, nem mesmo o ar faltar de seus pulmões, muito menos seu rosto esquentar.
Sabia que seria impossível já que era como se estivesse realmente morto.
Colocou a mão no peito constatando que seus batimentos cardíacos permaneciam pausados, assim como percebia que nem estava respirando e também que estava gelado, tanto que podia julgar que talvez estava do mesmo jeito que a temperatura em que o ambiente se encontrava.
Suspirou cansado, mirando o espelho ainda parado. Afinal, o que essa droga queria lhe mostrar?! Lembrou-se que, na vez anterior, momentos antes de acordar, o espelho voltou a refleti-lo como sempre.
Será... Que era por que havia se levantado...?
Tentou resgatar forças nas pernas, na parede e até mesmo no chão, mas nada. Estava fraco e isso era um fato. Então não era por ter conseguido levantar-se. O que deveria ser...?
Isso estava cansativo.
O que deveria fazer pra sair dali? Queria escapar, acalmar sua mente que estava tão abalada e... Conversar com seu psicólogo. Não de psicologia, mas...
Conversar. Somente... Conversar.
Queria sentir aqueles toques cálidos e serenos ou até mesmo estaria satisfeito só de ouvir sua voz confortante que tanto o aquecia. Lembrou-se do quanto aquele homem preocupou-se consigo.
Será que era apenas por causa do trabalho? Parecia tão real... Tão bom...
Lembrou-se do quanto foi bom ter recebido toda a atenção que Levi lhe deu assim que acordou. Foi tão bom...! Será que... Se acordasse... Receberia novamente toda aquela atenção...?
Foi quando se tocou na última vez em que esteve ali. Mais especificamente em algumas letras, que julgou serem siglas de três palavras:
“H.H.T.”
Foi só lembrar-se disso e...
E tudo, tudo em sua visão escureceu.
Bem lá no fundo surgiu uma pequena figura clara que se aproximou num vulto bem rápido. Assim que suas pupilas dilatadas focaram-se no objeto flutuante, descobriu ser uma carta. Mais especificamente nas cartas de seu pai que, no passado, chegou a derrubar.
O envelope fora aberto sem nenhuma ajuda explicita, mostrando-lhe novamente o conteúdo estranho que esta continha. Mais uma vez aquelas letras bagunçadas e não nítidas estroçaram seu raciocínio, fazendo-se perder por fragmentos desconexos de suas lembranças.
Em vista do que sempre viu seu pai sempre esteve estudando. Mal sabia o conteúdo daquela matéria que tinha absurdos números de livros que continham inúmeros números de páginas, chegou a ver alguns com mais de quatro dígitos! Mal poderia imaginar que havia um livro de um pouco mais que duas mil páginas! Alguém teria paciência de ler tudo aquilo?! Aliás, de escrever tudo aquilo?!
Seu Pai sempre foi incrível, nunca pôde negar.
Porém sempre foi um mistério. Um mistério que, não importasse o quanto amadurecesse, conseguisse entendimento, sabedoria, experiência, seja o que for, nunca, nunca conseguiria decifrar.
Aliás, sempre que pedia para o Pai comentar um pouco a respeito destes específicos livros gigantescos que tanto lia, era expulso do escritório que usava. Nunca poderia saber do que se tratava. Não podia insistir. Sabia muito bem que apanharia feio caso acontecesse.
Então ficava na curiosidade, que tanto o corroía.
Estreitou os olhos.
“H. H. T.”
Já tinha visto em algum lugar, e não era apenas naquela carta. Se pudesse... Ao menos...
Ver novamente aquela caixa...
Poof!
E como seu pedido, um estrondo ecoou pelo quarto e, assim que olhou ao seu lado direito, viu aquela caixa de antes. Ficou incrédulo. Era só desejar e pronto?! Era só isso que deveria fazer?!
Sendo assim...
“Hm... Levi...?”
Em uma esperança falsa, olhou a todos os lados em procura daqueles cabelos da cor ônix. Tudo bem que via uma cor parecia em todo lugar, mas nada realmente brilhoso assim como aqueles fios lisos e sedosos que tinha. Suspirou fundo. Levi é de mais para ganhar-se assim, sem mais nem menos.
Sentiu as bochechas rosarem. Nem ao menos pedir para sair dali...! Pediu exatamente para ver o psicólogo! Estava perdendo seu raciocínio lógico, o qual sempre se orgulhou! E, percebendo tal coisa, conseguiu levar a mão um pouco trêmula até a bochecha, batendo nesta. Olhou novamente a caixa ao seu lado. Enfim, é melhor descobrir alguma coisa antes que realmente congele ali.
Com dificuldade de movimentar-se, guiou ambas as mãos gélidas à caixa que parecia ter uma textura áspera e quente. Enquanto travava uma minibatalha para abrir a caixa muito bem fechada, checou o reflexo no espelho que ainda estava pausado. Rolou os olhos de volta ao conteúdo que reencontrou ali dentro e pôs a mão para vasculhar e pegar uma carta aleatoriamente.
Assim que abriu a carta escolhida aleatoriamente, reencontrou aquela letra incrivelmente ilegível. Mas reconhecendo palavras ou outras, julgou não estar em alemão, e sim, em italiano. Uma nova coisa que reparou desta vez foi o nome estranho do destinatário. Não conhecia o tal italiano, mesmo o Pai tendo vários amigos de Itália. Continuou a passar os olhos sobre o conteúdo desconhecido da carta e, quando chegou ao que deveria ser a assinatura de referência de seu Pai, encontrou aquelas já famosas siglas.
Franziu o cenho ao lembrar-se melhor da antiga carta a qual já tinha visto. A sigla também se encontrava no mesmo lugar. Isso quer dizer que...
Sentiu seu corpo esquentar-se de repente tendo os movimentos de volta, até mais rápidos que antes, por causa do quanto estava fervente. Enquanto abria outra carta que já tinha em mãos, lançou os orbes uma nova vez ao espelho, vendo seu reflexo de antes ainda pausado, porém, em meio ao vapor, assim como estava agora. Seus olhos estavam dourados, assim como estavam no escritório de Levi, quando olhou seu reflexo antes de encontrar a figura do Pai. Tendo a atenção voltada à carta, descobriu que esta estava no idioma em espanhol, e as mesmas siglas como a assinatura do Pai. Franziu o cenho, agarrando a outra.
E todas em que chegou a checar estavam de diversos idiomas, as quais, algumas, nem teria reconhecido e também com o mesmo tipo de assinatura. Lembrou-se das mesmas siglas no pescoço de Reiner, lembrando-se também como o loiro havia conseguido. Aquelas mãos de temperatura gélida que me guiavam para espanca-lo...
“H.H.T.”
Era um codinome do seu Pai?
Nesse caso... O que significaria?
Suspirou pesado vendo que seria difícil descobrir o que seria. Mas um barulho estranhamente leve se fez presente ao canto da sala. Rapidamente olhou naquela direção, sentindo sua pele arder a ponto de uma queimadura. Parecia estar... Escamando.
Era seu Pai.
Grisha o olhava em pé, com as mãos em um casaco negro, assim como sua roupa. Seus cabelos permaneciam intocados, mesmo tendo o vento a ir e vir dentro do cômodo. Tinha um olhar sério em sua direção como se fosse uma espécie de navalha de tão forte e cortante. Tinha um sorriso curto, porém sarcástico. Retirou por um momento as mãos do bolso, levando estas aos óculos de lentes grossas, retirando-as do seu rosto e em fim limpando cuidadosamente em um pano branco, com aquelas siglas.
Foi então que sua voz se fez presente:
“Apesar de tudo, Eren... Você acredita na morte?”
•●๋°●•
Senti novamente meu corpo me responder adequadamente, lento, mas respondia. Com cada movimento, conseguia sentir os ligeiros choques percorrendo sobre mim, sendo um pouco incomodo. Peguei um impulso para um suspiro e, assim que o soltei, senti meu peito arder ao mesmo tempo ouvi a porta do quarto fechar-se. Abri os olhos descobrindo o quarto não tão claro, mas que ainda fazia com que a claridade machucasse meus olhos. Assim que me acostumei com a visão, encontrei Hanji olhando-me curiosa, anotando alguma coisa em um caderno, sentada ao lado da cama, em uma cadeira.
– Eren? Consegue me ouvir? – indagou aproximando-se de mim, passando a mão enfrente aos meus olhos.
– Hanji... – chamei-a em uma voz rouca, já que minha garganta queimava. Como ainda não parava de mover a mão em minha frente, comecei a segui-la pelos olhos. Deduzi que poderia ter falado algo enquanto dormia, ou, até mesmo, ter permanecido de olhos abertos.
– Então acordou mesmo? – indagou curiosa escrevendo algo no caderno. – Vou fazer algumas perguntinhas, Eren, tudo bem pra você? – perguntou gentil, mas apenas dei de ombros. – O que está sentindo neste momento?
– Meu corpo pesa, está muito quente, minha garganta arde... E me sinto fraco. – respondi ainda rouco. Respondeu minhas palavras em um tom baixinho, anotando-as no pequeno caderno.
– Sente alguma tontura, peso no peito, alguma alucinação...? – continuou a interrogar.
– Não... – tornei a responder depois de aclarar um pouco a garganta.
– Ah, Eren, não faça isso...! – repreendeu-me calmamente. – Pode machucar sua garganta...
– Mas ela já está ruim... – justifiquei alcançando-a com a mão, fazendo uma leve massagem.
– Vou examiná-la. – foi até uma mesa e pegou um daqueles palitinhos de madeira que estava num pote. Assim que se aproximou novamente, ajudou-me a sentar e logo pediu para abrir a boca. Prensou minha língua com o palito e se pôs a observar. – Está um pouquinho inflamado... Mas nada de mais! Só tomar bastante líquido para se hidratar e alguns chás. Bebida quente de mel e limão é ótima também. – comentou assim que me deu permissão para fechar a boca. – E o meu concelho... Tem um clube de chás por aqui.
– Perto de um cabeleireiro, não é? – lembrei-me vagamente da entrada do local.
– Isso! Por que não chama Reiner, Armin e Jean para irem com você? Não tem noção do quanto ficaram preocupados! – comentou gentil, jogando o palito de antes fora.
– Mesmo? – indaguei curioso, me segurando para não aclarar a garganta novamente. – Por quanto tempo fiquei aqui?
– Um pouco mais de dois meses... – comentou com um sorriso preocupado. – Se possível, queria falar disso com você, queri... Eren!
– Tudo bem, Hanji. – sorri um pouquinho. – Pode me chamar como quiser.
– Mesmo...? – indagou não acreditando e, assim que se aproximou, agarrou-me pelo pescoço, dando-me um abraço bem apertado. – Obrigada, querido! Fico tão feliz!! – acabei por abraça-la também.
– Hanji... – chamei-a depois de não tanto tempo. – O Levi... Não veio? – perguntei separando de seu abraço. – Ele não se preocupou?
– O Levi? Não se preocupar?! Eren, ele quase deu uma convulsão! – respondeu uma face incrédula. – Okay, um pouco de exagero à minha parte, mesmo ele não estando tão bem de saúde... – suspirou e, antes de perguntar se ele estava bem ou o que ele tinha, continuou a falar: – Mas Levi quase se cagou de preocupação. Não literalmente falando. Mas ele só saía daqui quando teve que voltar ao trabalho ou pra tomar banho. Mas se bem que... Ainda é cedo pra tomar banho e... Ele não tem horário agora. – olhou de soslaio para a porta. – Por que então foi só você acordar pra ele sair...?
Silenciei-me para dar mais atenção aos meus pensamentos que vagueavam pela minha cabeça. Talvez ele não queira conversar comigo, ou está me evitando... Quem sabe ele se sentiu apenas responsável e, por perceber que acordei, sua consciência se livrou do peso...
– Ei, Eren. – chamou-me fazendo com que eu me assustasse. – Eu nunca havia visto algo assim. – franziu as sobrancelhas passando as mãos em minha face. – Alguém soltar uma espécie de vapor, curando-se espontaneamente...? Sem contar que seus olhos coloriram-se de dourado...
Engoli seco, me sentindo incomodado. Talvez Hanji me achasse estranho...
– Isso é bem estranho. – comentou confirmando minhas suspeitas. – Mas não deixa de ser muito legal! Eu vou poder te examinar, não é?
– Examinar...? – afastei-me um pouco de si, já que tinha o rosto quase colado ao meu. – Não vejo problema... Mas...
– Ótimo!!! – concluiu rapidamente. – Ai, Eren, vai ser tão legal!!
Foi quando me lembrei de uma cena parecida. Hanji falava bastante de capoeira e Levi me deu um aviso:
“Ela não te deixará em paz, tomará seu tempo conversando sobre isto. E mesmo se acabar tudo o que tiver para falar, ela repete do início ao fim. Incontáveis vezes. Você entende?!”
Tenho impressão que aconteceria algo assim, mas...
– Hanji, e-eu vou tomar um banho, okay? Depois vou lá encontrar com Reiner, Armin e Jean pra tomar o chá e... – segurei-me para não aclarar a garganta, descendo da cama. – E vamos para o clube de chás! Tchau!
Dito isso, deixei o quarto com Hanji me olhando aparentemente um pouco desanimada. Porém notei que havia voltado a escrever algumas coisas no pequeno caderno em mãos.
•●๋°●•
– O que exatamente você teve...? – indagou Reiner depois de ditar à garçonete todos os nossos pedidos. – Você sempre me pareceu tão saudável, mas quando você esteve de cama foi outra história! – realmente, assim como Hanji me falou, até mesmo Jean parecia preocupado, só que de sua maneira. Estavam evitando perguntas exatas, mas o loiro não aguentou.
– Eu não sei, na verdade. – cocei a nuca, envergonhado. – Mas obrigado por aparecerem lá... Me sinto contente. – dei um pequeno sorriso, fazendo com que ele também retornasse. Falava um pouco baixo para minha garganta não doer tanto.
– Ei, Eren! – chamou-me Armin. – Teve uma hora em que fui te visitar e você parecia ter alguns pesadelos... Ficou murmurando “pai” em um tom cansado e doloroso... – deu uma pequena pausa, continuando com a voz bem baixinha, como se demonstrasse sua própria delicadeza em tocar ao assunto: – Era uma lembrança...?
– O que o Armin quer perguntar, Eren, é se você e seu pai tiveram uma boa relação. – Jean explicou-me melhor tentando parecer alheio ao assunto, mas conseguia ver alguma preocupação bem estampada em sua testa.
– Sim, Armin... Era uma lembrança. E... Nunca tive uma boa relação com meu Pai. – desviei o olhar, sentindo-me incomodado por tal assunto.
– Por quê? O que acontecia entre vocês? – Reiner foi quem perguntou dessa vez.
Desliguei-me por um momento do que acontecia em minha volta, lembrando-me de meu Pai.
Grisha sempre foi tão distante e cansado... Era dono do seu mundinho, onde só ele existia, como se fosse o Deus. Era deprimente conviver com alguém assim, onde só convive com os outros para fazer algo que não seja bom em vista de todos. O mais comum era me espancar, mostrando-se superior a mim. Mostrando-se o divino.
Alcancei-o com os olhos. Estava me sentindo cada vez mais desanimado.
– Meu Pai se via como o ser mais importante existente. – lancei os olhos à paisagem lá fora. Algumas folhas eram levadas pelo vento em um ritmo calmo. – Talvez ele me visse como um saco de pancadas que era usado para se acalmar. – continuei fixo às folhas que rolavam pelo chão ao ser levadas, querendo fingir não perceber os olhares assustados dos três. – Não tinha nem motivo justificado e eu já estava em suas mãos, ensanguentado. Ver aquele sorriso sobrecarregado de sarcasmo depois... Era horrível...
Abaixei ligeiramente o olhar apertando com minha mão, o nada. Queria que a mão de Levi estivesse ali, correspondendo o aperto da minha. Suspirei. Estava começando a doer...
– Onde está seu pai agora? – perguntou Reiner depois de alguns segundos. Notava um tom doloroso em sua parte.
– Morto. – sorri forçado desviando novamente o olhar enquanto bagunçava meus cabelos.
Permaneceram intrigados e em silêncio, um clima pesado, mas minha curiosidade atiçou pelo olhar de Jean que direcionava lá fora. Segui os orbes à imagem, descobrindo o diretor Erwin correndo. Parecia que estava por perto.
– Aqui então, garotos. – uma loira baixinha retirou-me de minha observação, pousando delicadamente as xícaras sobre nossa mesa. – Desculpem pela demora. Vocês desejam mais alguma coisa?
– Não, é só. – respondeu Jean num sorriso, não evitando uma piscadela. – Obrigado, Christa.
– Por nada. – e depois de um sorriso gentil, voltou à cozinha.
– Que estranho. – iniciou Jean enquanto acrescentava açúcar ao seu chá, misturando-o. – Há pouco tempo atrás Erwin deu um passo pra dentro deste clube e não demorou a sair correndo.
– Mesmo? – Armin indagou bebericando seu chá. – Talvez tenha se lembrado de algo.
– Mas ele entrou justamente na hora em que Reiner perguntou... – Jean desviou olhar depois de encontrar-me. Parecia um pouco sem graça. – E foi só Eren responder que uma expressão de susto criou em sua face, logo se pondo a correr...
Ficamos em silêncio por algum curto período de tempo, mas foi o suficiente para ficar mais curioso ainda. Por que Erwin teria essa reação?
– Aliás, Eren... – iniciou Armin. – Se me permite perguntar... Como seu pai faleceu...?
Permaneci silenciado, semicerrando os olhos. É... Não estava só começando... Já estava doendo... Suspirei.
– Eu... Sou obrigado a responder...? – e novamente aquele sentimento espalhou-se pelo meu peito, como se o absorvesse, como se o queimasse de pouco em pouco. Como se... Droga... O sentimento de culpa...!
Assim que Armin abriu a boca, ouvi desta vez a porta se abrindo e não demorou com que uma mão tocasse meu ombro. Era um tato conhecido...
– Eren. – a voz conhecida fez com que eu me arrepiasse. – Posso falar com você?
Virei lentamente meu rosto em direção ao dono daquela voz, querendo encontrar aquela pele tão branca como papel. Reencontrei-o de tanto tempo... Depois de ter desejado tanto. Seus cabelos estavam desalinhados, o que não era comum. Sua face mais pálida que o normal estava marcada por dois borrões escuros, sendo suas marcadas olheiras. Seus lábios estavam secos, e seu físico um pouco mais magro que o normal. Levantei repentinamente da cadeira, observando mais assustado enquanto sua mão escorregou de meu ombro. Estava tão pálido e magro que parecia exausto, cansado... Anêmico...
– Levi...? – minha voz falou e não resisti em aclarar a garganta, sendo seguido por si, fazendo o mesmo.
– Fique um pouco com seus amigos, eu... Só vim te chamar. Apareça no meu dormitório depois... – assim que se virou de costas, agarrei seu pulso.
– Ah, – agi sem pensar. – E-eu vou com você! – minhas palavras fizeram-no virar de vagar o rosto em minha direção. Além de tudo aquilo... Seus olhos também estavam avermelhados.
– Fique com seus amigos, Eren. Eles se preocuparam com você. – sua voz falhou na última palavra, tendo que aclarar novamente a garganta.
– Doutor Levi! – a loira de antes chegou com uma xícara em mãos. – E-eu... Desculpe, mas... Toma, vai melhorar você! – disse estendendo a xícara para o psicólogo que olhou curioso à xícara.
– Obrigado, Christa. – levou a antiga mão que eu segurava até a cabeleira loira da garota, bagunçando de leve. Logo pegou a xícara, levando um pouco à boca, mais precisamente, despejando tudo sem cuidado algum.
– Doutor Levi! Vai queimar sua garganta! – repreendeu a loira que foi silenciada com outro afago sobre a cabeça.
– Estou com pressa, loira. Mas obrigado. E como estou no momento sem dinheiro, eu te pago depois. – após um aceno positivo e um sorriso da parte da loira, entregou a xícara de volta e aclarou a garganta uma nova vez. – Até mais. – despediu-se de nós, saindo às pressas do clube. De longe avistei Raoul espera-lo de baixo de uma árvore, acenando para mim de longe. Acenei de volta e continuei a observá-los mais especificamente o menor. Senti meu olhar distante assim que os perdi de vista, apenas observando os indícios de que estavam ali.
Suspirei pesado. Meu humor caiu de forma brusca de tanto que eu me sentia preocupado com o psicólogo que estava tão abatido, tão aparentemente maltratado... O que houve com ele...?
– Eren? – chamou-me Armin. – Está tão avoado! Não está me ouvindo?
– O quê? – perguntei tentando disfarçar que estava “navegando”.
– Seu chá esfriou. – avisou o loiro apontando para xícara.
– Ah, droga!
•●๋°●•
– Eren! – era a voz de Raoul, virei-me para si enquanto destrancava a porta do meu quarto.
– Raoul. – o chamei de volta, observando-o aproximar. – O que faz aqui? – perguntei.
– Queria falar com você. – deu um pequeno sorriso. – Como tive que voltar pra França, não pude te visitar mais que três vezes... Como você está?
– Bem. – eu acho... Assim que destranquei a porta, entrei deixando-a semiaberta. – Entra ai.
– Sicher. – “certo”. Entrou já se jogando em minha cama, mostrando-se exausto e à vontade. Tranquei a porta em seguida. – Ahh, que complicação!
– De quê? – interroguei curioso retirando os meus tênis e deixando-os debaixo da cama, colocando a meia na roupa suja.
– Meu pai. – suspirou exausto. – Ele arruma complicação desnecessária.
Nesse momento gelei.
Pai de Raoul? Quer dizer que, talvez, fosse o pai do Levi. Será que...
– Não sabia que Levi tinha pai. – sentei-me ao seu lado, observando seu sorriso de canto. Era muito bonito ver um sorriso em uma face pálida e tão parecida com a do psicólogo... – É de vocês dois mesmo? – semicerrei os olhos. – É assim que pergunta? – provoquei uma risada nasal de si.
– Seria algo como... “Pai de vocês dois?”. – riu mais uma vez. – Sim, somos de mesma mãe e mesmo pai. – mostrei-me intrigado.
– E como eles são? Devem ser monstruosos e de face idêntica... – comentei provocando outro ar descontraído do maior.
– Meus pais eram um tanto parecidos. Pele muito branca e cabelo muito escuro, assim como os olhos. Todos nós já fomos apelidados de “transparentes". – riu de leve. – Meu pai é bem alto, já minha mãe, era bem baixa. Isso explica o tamanho de Levi que puxou mais o jeito da face “congelada”.
– Espera... “Era”? – repeti suas palavras, ainda curioso.
– Morreu assassinada. – sorriu com um pouco de desgosto talvez por repetir tais palavras e escondeu o rosto entre os braços. – Eu tinha dez anos. Até hoje pra mim é um mistério quem a matou, mesmo eu sabendo que meu pai e Levi possam saber. Queria perguntar... Mas Levi sempre ficou tenso quando referimos a isso. A mamãe e ele eram bem próximos, dormiam sempre juntos quando ela tinha pesadelos.
Após ouvir tal relato que eu mal poderia ter pensado, acabei por me silenciar ouvindo o silêncio que se instalou ao local. Comecei a me sentir idiota, estúpido, na verdade. Como não pensei em nada relacionado a isso antes? De certa forma, agora que ouvi a verdade, esta parecia ser tão... Visível. Tão na cara.
– Sinto muito, Raoul. – disse por fim apoiando a mão sobre o ombro dele. Pressionei de pouco em pouco, buscando qualquer tipo de conforto a si. Afinal... Sei o quanto é ruim a sensação... De perder uma pessoa tão importante como uma mãe.
– Não se incomode com isso, Eren. – levantou-se da posição que estava sentando-se, por fim, sobre a cama, isso fez com que minha mão deslizasse sobre seu braço. Tinha um leve curvar tristonho em seus lábios. – Algo me diz... Que você entende bem o que eu passei. – desviei o olhar não gostando de tal assunto, recordando-me do dia em que aconteceu. – Acertei?
Senti minha barriga embrulhar enquanto uma azia apoderava-se de mim. Sentia uma pressão forte subindo em minha garganta, mas era como se não fosse sair, como se estivesse ali, subindo e descendo, apenas para me irritar. Queria vomitar nem que fosse o ar e tirar aquela dor na barriga e, nesse caso, a extrema dor que parecia uma queimadura no peito. Apertei os punhos, mal sentindo que Raoul havia se aproximado ainda mais de mim, colocando seu braço entorno de meu pescoço.
Incomodo. Senti-me ainda mais incomodado.
E senti-me ainda mais quando pousou sua outra mão sobre minha perna, como se eu não quisesse ser tocado no momento. Por ninguém.
– Entendo que não queira conversar sobre isso. – comentou acariciando-me, como se estivesse me reconfortando. Mas não estava. – Então vamos mudar de assunto, Eren. – fez uma pequena pausa. – Mesmo não sendo um assunto bom, eu preciso confirmar... – cessou a carícia. – O que você é do meu irmão? – indagou.
Franzi o cenho ao mesmo tempo em que apertava ambas as mãos. Me sentia estressado pela meu mal estar repentino, não sei se conseguirei encobrir qualquer coisa.
– Relação entre paciente e médico. – respondi sério, provocando-o um arquear de uma das sobrancelhas.
– Mesmo? Levi está tão apegado em você, tão... Viciado. – falou em um tom de hipótese. – Eu nunca o vi assim, tão preocupado com alguém que não seja sua família. Me diga, Eren. Você não está tendo nada mesmo com ele? O jeito que vocês se olham me intriga.
– Eu o admiro, pensei que tinha alguma noção disso. – tentei tirá-lo do rumo de seus pensamentos.
– Só mesmo admiração, Eren? Não me engane, eu não atrapalharia algo que já estivesse começado. Pode até mesmo não me contar... – aproximou seu tronco do meu. – Mas Jaeger... – semicerrou os olhos. – Que tal a mim? Eu sou alto, não sou? Um parceiro maior traria sensação de segurança...
O quê?
– Levi sempre teve bom gosto. Como não se apegar em olhos tão lindos como seu? Essas cores tão... Exuberantes, tão vivas... Fazem-me esquecer de partes coloridas de escuro em meu passado. – deu uma pequena pausa, mas não o suficiente para deixar-me interromper tal papo. – Você acha meu irmão muito bonito, não é? – por tudo estar acontecendo rápido de mais e até mesmo incompreensível ao extremo, não dei por mim quando Raoul me deitou, agarrando meu rosto com sua mão. – Meu rosto e o dele são idênticos, o que muda é a intensidade azulada do olho dele. E a diferença mesmo é nossa altura desproporcional.
E como “passe de mágica”, os lugares em que me tocou passaram a formigar. Não um formigamento deleitoso, nem mesmo um que dê para aguentar. Era um formigamento de nojo. Eu não gostei da conversa desta vez. Era como se... Ele estivesse “traindo” o próprio irmão...!
– Não diga coisas tão irracionais, Raoul. – cortei-o antes mesmo de continuar com tal discurso. – O que vocês têm em comum seria apenas cabelo ônix e pele pálida, mesmo a dele sendo ainda mais clara que a sua. Levi, mesmo sendo o adulto mais baixo que já conheci, foi o único que pôde realmente trazer algo tão parecido quanto “segurança”. Ele cuidava de você quando crianças, ele não o transmitia tal sensação? Aliás, você nunca o tratou com respeito?! E se eu fosse realmente algo dele?! Você simplesmente atirar-se-ia para mim desmerecendo a pessoa que te protegeu?! Pelo que você já me contou, ele foi mais do que um irmão mais velho pra você e seus irmãos!!
– Então você admite estar com ele, Eren?! – perguntou em um tom ríspido, parecido com o qual Levi se dirigiu ao Erwin algum tempo atrás. – E posso saber o porquê estava se “atirando”, como você diz, pra cima do Reiner?!
– E por que raios eu faria isso?! – dei continuidade ao seu tom de voz. – Eu só vejo Levi para fazer tal ato, já tinha dito a ele!!
– Então me explique o porquê disso existir!! – mexeu em um movimento rápido e não demorou a uma foto fosse praticamente empurrada contra minha face. – Jaeger, te considero um camarada, mas nem pensar que eu vou aceitar você deixar o meu irmão triste!!
Observei a imagem e logo reconheci do que se trava. Foi no dia em que desmaiei no escritório de Levi. Estávamos eu e Reiner conversando e observando o pôr do sol, porém a imagem retratava na parte em que ele parecia querer me beijar. Logo me lembrei da câmera em que Raoul carregava e o comentário dele sobre modelos ou algo assim.
– De qualquer forma eu o afastaria!! Só não o afastei porque você apareceu antes!! – empurrei a foto pra ele, finalmente me levantando.
– Você poderia ter feito antes dele se aproximar mais!! Já pensou se...
– Chega, Raoul. – era a voz de Levi que chamou minha atenção rapidamente. Este já estava fechando a porta. Eu estava tão absorto na discussão com seu irmão que nem mesmo o ouvi entrando. Lançou rapidamente os olhos cortantes para mim, logo os lançando para o outro mais alto.
– Não posso deixar meu irmão ser desapontado por isso, Levi!! – explicou-se me fazendo rosnar. Cara insolente...!
Em um rápido movimento Levi retirou a foto das mãos do irmão, pondo-se a observar enquanto Raoul dava um sorriso em minha direção. Gelei na hora, lembrando-me do quanto o psicólogo conseguia ser possessivo. E se... E se ele entendesse errado?!
– Apesar dessa foto me dar nos nervos... – falou com a voz um pouco rouca. Reparando agora, ele continuava com a mesma impressão de hoje mais sedo... A diferença seria outra roupa e os cabelos arrumados. Deve ter tomado um banho antes de aparecer. – Eren não tinha a intensão de beijá-lo. – disse por fim, arrancando-me um ar surpreso, assim como de Raoul.
– Como pode ter certeza disso?! – perguntou o irmão indignado.
– Eren é uma bixa tímida. Se ele tivesse tal intensão, deveria já estar roxo e fechando os olhos de uma maneira brusca, diferente dessa foto em que esta com uma “interrogação à face”.
– Então é isso...? Estão em algum relacionamento...? – indagou Raoul mais calmo que antes, mas em vista, um pouco decepcionado.
– Pode chamar de rolo ou algo parecido. – comentou Levi desviando o olhar e me fazendo corar.
– Ah, tem razão... Eren é uma bixa tímida. – comentou dessa vez Raoul, olhando-me intrigado.
– Ah, calem a boca! – comentei indo ao banheiro e bagunçando os cabelos. Não fazia ideia do que faria ali, mas apenas fui para fugir.
– Poderia dar-me licença, Raoul? Hanji daqui a pouco virá, temos que conversar com ele.
– Sim... – não demorou a que a porta fosse fechada e eu ouvisse um barulho na cama, como se Levi tivesse se jogado sobre esta.
– Não tem problema Raoul saber sobre... Nós...? – indaguei ainda do banheiro, olhando-o de modo despistado. Parecia exausto sobre minha cama...
– Não tem problema... É bom que ele tira da cabeça em querer possuir você. – suspirou fechando os olhos. – Já disse que você é meu, um concorrente a menos é sempre bom.
Corei com tais palavras. Desviando o olhar ao espelho, encontrei-me ainda mais vermelho do que pensei que ficaria, mas despistei jogando uma água no rosto.
– Ah, a propósito... Hanji acabou por descobrir também. – suspirou outra vez, virando-se na cama. – Ela ficou feliz, queria que tivéssemos dito antes.
Sorri sozinho ao ouvir tal coisa. Havia me confundindo muito quando pensei que Hanji poderia ser falsa... Até mesmo ao pensar que Armin poderia ser irritante. Estava tirando conclusões muito precipitadas...
– Ei, Levi... – encostei à porta do banheiro, o fitando enquanto parecia em seus devaneios. – O que aconteceu com você nesse tempo em que estive “ausente”...? Você parece estar adoentado...
– Hanji suspeita de anemia. – fiz um som de repreensão enquanto sentou-se de vagar, passando a mão sobre o cabelo. – Eu poderia chamar apenas de estresse, mas eu realmente me sinto fraco.
– Por que não tem se alimentado bem? – indaguei aproximando-me dele.
– Nunca me alimentei bem, Eren. – coçou a testa, demonstrando estar incomodado. – Apenas que nesse tempo só vim me abastecendo de café ou outra coisa, raramente almoçando ou jantando.
– Mas por quê? Levi, isso pode...
– Eu sei que isso não faz bem, Eren. – cortou-me pela primeira vez em que já havia o encontrado. Levi sempre teve respeito quando alguém fala, esperando concluir, mas parece que quando se sente “encurralado”, interrompe. – Eu sei, mas... – pressionou a testa desta vez. – Não é como se eu conseguisse me alimentar com tanta preocupação.
– Preocupação? – sentei-me ao seu lado. – O seu pai...?
– Não só ele. – voltou a coçar, desta vez, a ponta do nariz. – Saber que esteve em coma por dois meses... Isso... Droga... – levantou-se rapidamente, dando uma pausa em pé, deixando seus pés bem fixos no chão. Isso se assemelha...
– Você ficou com a cabeça virada pra baixo, Levi, não levante de repente, isso dá tontura! – levantei-me segurando-o pelo ombro. Estava tão frágil como um boneco de porcelana...
– Eu sinto muito, Eren. – disse por fim, ainda com a mão sobre a testa. – Foi por minha culpa que você desmaiou... E se seu pai estivesse mesmo lá, ele teria nos visto...
– Ei, ei! – o cortei. – Não ouse pensar nisso! Não é sua culpa, não vejo motivos para que seja!! E aliás, foi só uma alucinação, afinal o meu Pai está...
– Com licença! – Hanji já tinha destrancado a porta e, quando atravessou esta, deu uma pequena pausa, olhando-nos com olhos bem afiados. – Nossa... Vocês são tão... Ah, céus. – encostou a porta lentamente. – Eu acho que gozei.
– Hanji! – Levi repreendeu-a, pondo a mão sobre meu peito, mas não me afastando de si.
– Você comeu algo nessas últimas duas horas? – indagou séria aproximando-se de nós. – Você tomou os remédios que te receitei hoje?
– Sim. – rolou os olhos e retirando a mão sobre meu peito. Não demorou a sentar-se em minha cama. – Prossiga e faça o que você veio fazer.
– Ah, por um momento eu me esqueci! – coçou a nuca, mostrando-se divertida. – Eren... Vou te fazer breves perguntas sobre o tempo em que esteve em coma, por favor, poderia me responder tudinho? – mesmo séria mostrava-se extrovertida.
– Tudo bem... – respirei fundo preparando-me mentalmente pro que teria a vir.
– Nesses dois meses inteiros você me pareceu estar sonhando. Com que, exatamente? – começou o interrogatório.
– Uma sala escura e clara, cheia e vazia. – desviei o olhar de si, gravando-o ao chão. Cruzei os braços e as pernas encostado à parede, buscando por tranquilidade para responder tudo. – Antes nela havia uma série de velas específicas, mas ultimamente é apenas um nada com uma porta desgraçada que deixa a friagem acabar comigo e um espelho pendurado no nada.
– Velas? – Hanji perguntou. – Por que velas?
– Eu não sei o exato porque, mas tenho uma noção do que elas retratam. – permaneceu silenciada esperando continuar com a ideia. – Desconfio que o fruto de minha regeneração está ligado às velas que contém um fogo forte, que mesmo sendo esfriadas por um vento extremamente persistente, não se apagam. A cada vez que me machuco e regenero, uma vela se apaga. – pausei apertando o punho. – Mas pelo que eu lembro isso apenas se iniciou quando eu me suicidei antes de parar aqui. Talvez porque eu havia realmente morrido...
– Morrido? Eren, mas como? Você é um zumbi, é isso?
– Não fale besteiras, quatro olhos, ninguém aqui está de palhaçada. – Levi rolou os olhos. Estava com os braços cruzados, sério, sem expressão. Mas conseguia distinguir sua aflição. – Eu presenciei um Eren morto quando o levei ao boliche. Pensei já ter te falado isso. – franziu suas sobrancelhas balançando o pé em um rito aflito.
– Mas isso é tão estranho... Não tem lógica!
– Não precisa ter lógica, cientista, simplesmente aconteceu. Durante aproximadamente dez minutos, presenciei-o sem respiração e com o coração parado. Não minta, – semicerrou os olhos. – você também presenciou isso nesses dias que ele estava em coma.
– Eu ainda não consigo acreditar...
– Do espelho eu não sabia. – comentou o psicólogo dando continuidade ao assunto de antes. – O que ele faz lá?
– Eu o uso para indicar se estou morto. E quando estou, o reflexo dele pausa.
– Fora isso... Você descobriu alguma coisa? – interrogou Hanji.
– “H.H.T” era a assinatura do meu pai. – disse mais sério, descobrindo uma tensão recém-criada na atmosfera dos dois. – Isso só confirma que foi ele quem me ajudou a bater no Reiner.
– Eren... Sobre seu pai...
– Ele sempre foi alguém na dele. “O soberano”, “o maior”. Sempre sozinho lendo, estudando... E no último sonho que tive, pude recorrer a uma caixa de cartas que havia derrubado na minha infância. Lá estavam centenas de cartas, diferentes línguas, algumas eu nem mesmo consegui distinguir. E se fosse algum idioma que conheço, a letra estava totalmente ilegível para decifrar.
– E não havia nenhuma palavra desconexa compreensível para saber do que se tratava?
– Havia sim, mas nada que desse alguma ideia do tema. – ouvi um suspiro vindo de Hanji enquanto o silêncio se impregnou ao local.
Desviei o olhar a Levi que parecia incomodado olhando-me atentamente ao meu pé. Mas assim que subiu seu olhar e encontrou-se com o meu, senti minhas orelhas corarem. Queria falar melhor com ele a respeito do que ele pensava em relação ao que aconteceu... Não queria que ele remoesse algo que não era sua culpa.
– Mais alguma coisa, Hanji? – indaguei com o propósito de finalizar por ali para continuar minha antiga conversa com Levi.
– Quando começamos com os experimentos?! – tornou-se repentinamente animada.
– Experimentos? – Levi franziu o cenho.
– Quero testar toda a capacidade regenerativa de Eren e, se possível, usar pro nosso bem! Imagina se eu consigo criar uma cura pra diabetes ou aids!! – fechou o punho com determinação. Hanji parecia muito determinada.
– Ei, garoto. Você topou isso? – arqueei uma sobrancelha, receoso. – Mesmo depois do aviso que te dei? Você não está levando isso a sério, não é?
– Não fale como se o mundo fosse acabar, Levi! São só alguns testes! – Hanji empurrou de modo amigável o psicólogo sem notar a força aplicada no corpo fraco ao seu lado.
– Hanji, o Levi...!
– Que tal agora, Eren? Você não tem nada o que fazer, não é? Vem!! – sem mais nem menos levantou às pressas da cama, agarrando minha mão e já me puxando em direção à porta.
– N-não, Hanji!!
– Hanji! – Levi chamou-a, mas esta não deu ouvidos, já me retirando do quarto juntamente a si. E, ao decorrer do corredor, permaneci sendo puxado e olhando a imagem de Levi distanciar-se. Permanecia estático à porta do meu quarto, olhando-me com certo pesar, um pequeno brilhinho em seus olhos. E em certo ponto, comparei-o como um gatinho tristonho.
Não queria vê-lo assim, mesmo sendo fofo...
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