Nas Areias de Shurima

1 Capítulo 1: Recordações


Notas iniciais


Shurima é um grande império, como todos em Runeterra bem sabem. Entretanto, naquela manhã, algo parecia diferente. Azir havia se levantado no mesmo horário de sempre, mas não encontrara Sivir em lugar algum. Na verdade, ele não encontrara ninguém.
—Sivir?! Nasus?! — chamou por aqueles por quem tinha maior afeto, mas nenhuma resposta foi ouvida.
Continuou caminhando por sua cidade, o Sol era bastante agradável àquele horário do dia. Mas foi passando por uma feira ao ar livre que ouviu um choro. Parecia um choro cheio de mágoas, como o de uma criança orfã. E aquele choro lhe remeteu a uma lembrança que ele mal sabia que tinha.
"Azir estava no palácio de Shurima, bastante diferente de sua moradia. Estava praticamente todo em ruínas. Contudo, ele não estava surpreso, apenas encontrava-se sentado a uma mesa, comendo algo que lhe dava uma sensação de nostalgia. Foi quando deu-se conta de que seus pés não tocavam o chão, sentado ali na cadeira. Aquela com certeza não era sua estatura e, além disso, sentiu que não usava mais as peças pesadas de sua armadura dourada. Ele reconheceu-se como uma criança.
—Quero minha mãe! — exclamou, com voz chorosa. Ele não pensara em dizer aquilo, apenas disse.
—Azir, já falamos sobre isso! — repreendeu-o uma voz às suas costas. A voz não era menos chorosa que a do pequeno Azir.
Ele virou-se para encarar seu dono e deu-se com uma pessoa de baixa estatura também, porém um pouco maior que ele. Para sua surpresa, era outra cirança, vestida em roupas de faraó, acompanhada de perto por duas figuras um tanto grandes. Com uma ponta de felicidade, Azir reconheceu Renekton e Nasus, que pareciam mais bem afeiçoados do que ele se lembrava. Tentou perguntar o que estava havendo, mas quando abriu a boca, sua fala de nada tinha à ver com seu pensamento.
—Mas eu sinto tanta falta dela... E do papai! — e então, começou a chorar sem nem saber direito o por quê.
A criança vestida de faraó juntou-se a ele e o abraçou. Quando deram-se conta, as duas crianças choravam juntas, expondo suas mágoas a todo o mundo.
—Meu senhor — chamou Renekton. Azir estava pronto para responder-lhe, quando percebeu que não era a ele que seu mais fiel súdito se referia. — sentimos muito pela sua perda, mas o senhor precisa dizer alguma coisa ao seu povo; já tem três dias.
O companheiro de Azir desvencilhou-se do abraço, e engoliu o choro. Respirando fundo, ele encarou o pequeno imperador e disse:
—Ele tem razão Azir, devo assumir meu posto. E você também, afinal, é o príncipe. — disse o pequeno.
"Essa voz..." pensou Azir "Conheço essa voz!" Mas ele não precisou se esforçar para revelar que descobrira quem era o menino.
—Amumu, meu irmão, vá e dê esperanças ao seu povo! Assumirei meu posto de príncipe e, juntos, faremos Shurima se reerguer!"
Tudo pareceu dissolver-se após sua fala, e Azir encontrava-se novamente no palácio de Shurima. Porém, o palácio encontrava-se novamente envolto em todo o seu esplendôr, da forma como era habituada ao imperador. Ele estava em sua cama, e percebera que tudo não passara de um sonho bobo. Um sonho bobo que parecia muito realista, tanto que tomou seus pensamentos por todo o restante da manhã.
Já era hora do almoço, e Azir resolvera contar a Sivir o sonho que tanto inquietava sua mente.
—Vocês podem nos dar licença? — pediu aos guardas. — Vocês podem ir até a fronteira ver se Renekton precisa de ajuda.
Hesitantes, os guardas deixaram seu imperador a sós com Sivir. Aquele não era um pedido habitual, e um deles, com sua mentalidade bastante fértil, imaginou que seu senhor pretendia conversar a respeito da sucessão ao trono. Contudo, ninguém ficou nos arredores para descobrir o que realmente seria.
—Sivir, minha querida, eu gostaria de copartilhar-lhe o sonho que me despertara esta manhã.
A princesa nada disse, apenas deu sinal para que ele prosseguisse.
—Não sei se foi um sonho ou uma lembrança, pois, como sabe, não possuo recordações de minha infância. — Azir fez uma pausa em seu discurso, medindo suas palavras com cautela. — Entretanto, hoje me vi num tempo bastante antigo. Shurima parecia recém-saída de uma guerra. Eu era príncipe, e tinha um irmão mais velho. — Ao notar a expressão de surpresa da mulher, sentiu-se acuado em prosseguir, temendo que tudo pudesse parecer muito insano.
—Continue, meu senhor! — pediu Sivir, mostrando-se interessada.
Tão logo ela pediu que continuasse, Azir resolveu contar sem rodeios.
—Eu ainda era uma criança, e chorava sentindo a falta de minha mãe e de meu pai. Subitamente, outra criança surgiu às minhas costas. Virei-me para ver quem era, e eu não o reconheci de primeira. Contudo, enquanto ele me consolava e compartilhava de meu sofrimento, eu sabia que aquela criança era meu irmão mais velho. Pode parecer tudo muito fantástico, mas aquela criança era Amumu, e usava vestes de faraó. Ele acabava de assumir seu posto como sucessor de meu pai. — ele fez uma pausa em sua história. — O que acha disso tudo, Sivir?
—Não acho que deva levar a sério, provavelmente foi apenas um sonho. — ponderou a princesa. — Acho que deveria ocupar sua mente com outras coisas.
—Tem razão! — exclamou, num tom um tanto alto, numa tentativa de se auto-convencer de que ela tinha realmente razão.
Contudo, ao longo do dia, quanto mais pensava, mais sentia que não era apenas um sonho. Foi quando, ao crepúsculo, pediu que Renekton conversasse seriamente com ele. Pedindo nova privacidade aos seus guardas, um deles estava quase certo de que algo estava errado. Mas o que mais o preocupava era o pensamento paranóico de que seu senhor estaria prestes a morrer, pois que outra explicação teriam aquelas conversas particulares com dois de seus principais súditos mais íntimos?!
—Renekton, amanhã pela manhã quero que procure por Amumu. Diga que é assunto de urgência e de interesse tanto dele quanto meu. — pediu o imperador, preciso.
Aquele era realmente um pedido demasiado fora do comum. Porém, sem questionar, um de seus principais imediatos acatou a sua ordem.

Com seus pensamentos ainda naquele sonho estranho, passou quase que a primeira metade do dia todo sem pensar em outra coisa. Foi quando Renekton finalmente retornou de sua missão.
—Vocês podem nos deixar a sós novamente? — pediu aos guardas.
No mesmo instante, ambos deixaram o ambiente e, do lado de fora do cômodo, trocaram olhares apreensivos.
—Eu acho que o Imperador está para morrer! — sussurrou o primeiro. — Acho que está preparando seus mais íntimos para a notícia de que Sivir preciará assumir seu posto.
—É realmente bastante preocupante que ele tenha resolvido conversar a sós com Renekton e Sivir. — concordou o segundo.
—Eu tenho medo dela... Será que será uma boa Imperatriz? — questionou o primeiro.
—Espero que sim! Não posso ser mandado embora, pois tenho dois filhos para cuidar!
Enquanto seus guardas imaginavam de tudo quanto ao que acontecia, Azir ouvia a verdade a respeito da busca de Renekton.
—Meu senhor, paralizei um grupo de cinco pessoas para buscar por toda a Shurima por Amumu. Sinto muito, mas não encontramos nada de relevante. As pessoas escondiam risos quando questionadas sobre seu paradeiro. Muitos acreditam não passar de uma lenda.
O Imperador não havia pensado nesta possibilidade, afinal, sempre acreditara fielmente na existência da pequena múmia.
—Você acredita em mim, não é Renekton? — perguntou, por fim.
—Sua crença é a minha crença, senhor! — respondeu prontamente o guarda, em alto e bom som.
—Por favor, continue procurando! Eu sei que ele é real!

Uma semana havia se passado, e Renekton revelou a Azir a incerteza de seus súditos quanto a sua sanidade. Contudo, trazia boas novas.
—Meu senhor, encontrei duas pessoas que dizem ter visto a pequena múmia nos arredores de Shurima. — contou Renkton.
—Ótimo. — o tom de voz de Azir era de pleno alívio. — Traga-os a mim!

Cerca de três horas depois, o crocodilo retornava com duas pessoas. Um homem, usando chapeu de rodeio e um sobretudo negro. Ele parecia divertir-se com uma carta de baralho entre os dedos. A outra, era uma mulher, um tanto atraente. Possuía os cabelos longos e vermelhos, e tinha duas pistolas acopladas ao seu cinturão. Como nenhum dos dois ajoelhou-se perante sua presença, Azir logo percebeu tratarem-se de forasteiros.
—Como se chamam, e de onde vieram? — perguntou, num tom amistoso.
—Me chame de Twisted Fate. — disse o homem. — Estou apenas de passagem, caminhando por aí.
—Me chame de Miss Fortune. — apresentou-se a mulher, encarando o homem ao seu lado. Por algum motivo ela não foi com a cara dele. — Venho de Águas de Sentina.
Azir avaliou os dois de cima a baixo. Observando desde suas vestimentas até a expressão que mantinham em seus rostos.
—Então, a senhorita é Miss Fortune... Sua fama a precede. Soube que é caçadora de recompensas. — comentou o imperador, o que foi confirmado pela jovem com um suave aceno de cabeça. — E o senhor, não pense que passa despercebido por minhas terras. Soube que é procurado em muitos lugares. — A aparente calmaria do rapaz pareceu desaparecer num passe de mágica. — Mas não serei eu seu algoz.
—Por que manda nos chamar então, Imperador? — perguntou a dama, num tom suave.
—Bem, vocês são testemunhas oculares da lenda da pequena múmia, como bem fiquei sabendo. — observou Azir. — Parece que não há muitas pessoas que acreditem na existência de Amumu. Tendo em vista isso, tenho uma proposta para vocês.
Twisted Fate levantou a cabeça para olhar o homem, à procura de sinais de gozação. Miss Fortune, ao que parecia, buscava os mesmos sinais.
—Ofereço uma grande quantia em ouro aos dois, além de um reconhecimento dentre o meu povo. Quanto ao senhor, Sr. Fate, ofereço-lhe segurança em minhas terras e a promessa de que não será visto como bandido em Shurima enquanto eu for imperador.
A proposta era tentadora a ambos. Mas a mulher não pretendia juntar-se ao rapaz de aparência estranha numa missão.
—Ele vai ter de ir junto? – perguntou, demonstrando sua insatisfação.
—Creio que buscariam melhor se estivessem juntos. – ponderou Azir. – E a missão não levaria muito tempo para ser concluída. Quanto mais rápido o encontrarem, maior a quantia que receberão!
—Mas e se não encontrarmos? E se estivéssemos delirando quando vimos a múmia? – indagou Twisted Fate.
—Vocês irão encontrá-lo! Ele existe e vocês vão provar isso a todos em Shurima e em toda a Runeterra! – exclamou Azir, descontente com o comentário do bandido.
Nenhum dos dois disse mais nada, além do “Sim” ao aceitar a missão.
—Vamos começar imediatamente! – exclamou Miss Fortune.
—Não, vamos descansar um pouco! – contrariou-a Twisted Fate.
Os guardas acompanharam-nos discutindo até a saída do palácio.
—O senhor não acha um tanto exagerado pagar pessoas para encontrarem a múmia? – questionou Renekton, inseguro.
—Meu caro amigo, se você compartilha realmente de minha crença, sabe que eles não tardarão a encontrar Amumu. Eu sei que ele existe, posso sentir sua existência em algum lugar de Shurima!
Dizendo isso, a conversa acabava de encerrar-se. No mesmo instante, no meio do povo de Shurima, Twisted Fate e Miss Fortune rumavam ao começo de uma missão que parecia de desfecho incerto. Mas eles não tinham nada a perder com isso.