Nas Areias de Shurima
2 Capítulo 2: Dois errantes e muita areia
—Nós não vamos descansar! – exclamou Miss Fortune, enquanto caminhava rumo a lugar nenhum
—Vamos sim! – insistia Twisted Fate, cujo feitio não agradava a dama dos mares.
—Não vamos!
—Vamos!
—Não vamos!
—Não vamos!
—Vam... Ah, cale a boca seu idiota! – esbravejou Miss Fortune. – Quanto mais cedo começarmos, mais cedo acabaremos!
—Mas já estamos na frente de um albergue. – disse o rapaz, apontando para a placa do estabelecimento à frente deles. – E, além disso, logo é noite, e não estou preparado para dormir no deserto. Dizem que é muito frio pela noite.
Contrariada, mas reconhecendo que ele tinha razão nessa parte, Miss Fortune concordou em passar aquela noite ali. Os dois entraram, e uma bela jovem os atendeu.
—Olá, como posso ajudá-los? – perguntou, com um sorriso no rosto.
—Dois quartos, por favor! – pediu Miss Fortune.
—Sinto muito, mas só há um quarto disponível.
—Vamos procurar outro lugar.
—Este é o único albergue da cidade. Há outros estabelecimentos, mas eu não os recomendaria: o preço é alto e o tratamento horrível.
—Quanto você tem aí? – perguntou Twisted Fate para Miss Fortune.
—Dez... – murmurou ela.
—Bem, eu tenho bastante, mas realmente não tô a fim de procurar outro lugar.
—Espero que tenha muito espaço no quarto. – murmurou a dama.
—Quarto número onze! – informou-lhes a recepcionista, entregando a chave a Twisted Fate.
—A propósito – disse ele para ela. – ela não é minha mulher. Então, estou solteiro!
Com uma piscadela, ele desapareceu pelas escadas, seguido por Miss Fortune.
—Você é louco se acha que vou dormir aqui com você! – exclamou Miss Fortune, quando entraram no quarto.
—Bom, tem bastante espaço. –Twisted Fate estava sentado numa cama de casal, que parecia ser o único lugar onde se dormir ali.
—Nem morta eu durmo na mesma cama que você, nem te conheço! – argumentou a dama, corada.
—Prazer, Twisted Fate, procurado em muitos lugares e por ainda mais pessoas. Tenho um sorriso encantador e muita sorte na vida. Gosto de qualquer tipo de jogo de azar, mas os meus favoritos são com as cartas. – disse o rapaz, num tom de desdém que irritou ainda mais a mulher.
—Vou dormir no chão, então! – respondeu ela.
—Não quero ninguém parando no meio do deserto porque não dormiu direito! – repreendeu-a o charlatão. – Quanto mais cedo terminarmos essa missão, mais cedo recebo minha recompensa e mais cedo você se livra de mim!
Miss Fortune deu um longo suspiro.
—Se você tentar alguma coisa, juro que atiro no seu buraco! E não estou falando do jogo de cartas! – respondeu, em tom ameaçador.
O dia amanheceu e, para a felicidade de Miss Fortune, nada havia acontecido durante a noite. Teve um sono tranquilo, e a cama era realmente muito agradável. Ela levantou-se da cama e notou que o companheiro de missão ainda dormia profundamente, e que estava todo enrolado nas cobertas. Ela não se lembrava de ter feito frio naquela noite, e então notou algo no chão, ao lado do rapaz. Corando de raiva e vergonha, a dama reconheceu as roupas dele.
—Seu pervertido! – berrou, acordando o homem no susto. – Idiota! Não tem vergonha não?!
—Não fiz nada, juro! – defendeu-se Twisted Fate, levando as mãos ao traseiro, completamente desperto. – Me enrolei completamente na coberta, viu?! Não tinha nem como tentar alguma coisa!
A dama havia sacado suas pistolas do cinturão e as apontavam para o errante pervertido.
—Juro que vou atirar em você! Se não for no seu traseiro, enfiarei uma bala em outro lugar onde o Sol não bate!
O homem pareceu realmente assustado. Levantou-se da cama de um salto para tentar se esconder, derrubando a coberta. Os olhos da mulher perpassaram todo o físico de Twisted Fate, e ela corou de uma forma que o rapaz não achou que fosse possível corar. E então, parecendo acordar de um transe, ela deu-lhe as costas.
—Vista-se, idiota! – gritou.
—Você gostou do que viu – comentou o outro, vestindo-se. – Não adianta mentir.
—Você deve ser muito besta mesmo! – exclamou ela, irritada. – Vista-se logo! Não quero que isso dure mais que um dia, pois eu me suicidaria se passasse mais tempo do seu lado.
—Espero que eles sirvam café da manhã. – comentou Twisted Fate, agora já calçando os sapatos. Ele não dera a mínima para o que a mulher dissera.
Eles estavam sentados na cama, um de costas para o outro. Eles comiam mingau de aveia. O albergue realmente não dava café da manhã, mas a jovem recepcionista mostrou-se disposta a preparar algo para seu charmoso hóspede comer.
—Ei! – Twisted chamou a colega. – Me desculpe por aquilo.
Miss Fortune não falara com ele desde o vergonhoso ocorrido daquela manhã, e preferiu continuar assim.
—Não foi minha intenção derrubar a coberta, você sabe né?!
A mulher grunhiu como um animal ranzinza, mas não ousou dizer uma palavra.
O homem resolveu não seguir com seus pedidos de desculpas, e permaneceram em silêncio durante todo o trajeto até o deserto de Shurima.
—Que ótimo! – exclamou Twisted, irônico. – Há um deserto gigante e temos de encontrar uma coisa que talvez nem exista!
—Pare de chorar! – caçoou Miss Fortune. – Múmias devem viver em pirâmides. Nesse caso, procuramos por uma pirâmide.
Eles olharam em volta. A não ser a cidade que se acabava às suas costas, era possível ver apenas areia.
—Neste caso, vamos em frente! – exclamou o homem.
Três horas de caminhada e eles resolveram parar para descansar. Já estavam distantes da cidade e agora para qualquer lugar que olhassem, a única paisagem vista era areia.
—Estou morrendo... Continue sem mim! – pediu Twisted, em tom exageradamente dramático.
—Frouxo! – exclamou Miss Fortune. – Vamos continuar, estou me sentindo com sorte hoje.
—Eu também me sinto assim, mas nem dou mais bola, já é banal eu me sentir com sorte.
Seu comentário orgulhoso foi ignorado pela mulher, e eles seguiram viagem.
O Sol já estava se pondo, e os companheiros de missão puderam avistar o contorno de uma pirâmide no horizonte.
—Ele com certeza está lá! – exclamou Twisted, animado.
—Se ele existir. – corrigiu-o Miss Fortune.
—Então vamos logo tirar essa dúvida!
Miss Fortune esticou o braço, barrando a passagem do rapaz.
—O sol está se pondo, e aquela pirâmide ainda está longe. Me dói ter de dizer isso, mas acho que seremos obrigados a passar a noite aqui.
—Tá de brincadeira! – exclamou Twisted. – Não tem nem onde dormir!
—Você não tem onde dormir. – disse a mulher, tirando um cobertor de sua bolsa. – Eu durmo no chão, e não sentirei frio.
Ela deitou-se e cobriu-se com o cobertor. O homem apenas fez uma pequena montanha de areia e sentou-se nela. Ele apanhou alguns gravetos do interior do sobretudo e jogou-os no chão. Em seguida, apanhou uma carta de baralho e, ateando fogo a ela como mágica, atirou-a aos gravetos, que incendiaram-se.
-Como eu disse – murmurou ele. – A sorte sempre me sorri.
-Como fez isso? – perguntou Miss Fortune, curiosa. – Esse negócio com a carta?
-Magia. – respondeu Twisted, orgulhoso.
-Eu falo sério. – desacreditou ela. – Qual o truque?
-O truque é eu poder fazer magia.
Com este comentário nada convidativo a um bate-papo, ambos encerraram o assunto e permaneceram em absoluto silêncio até pegarem no sono.
O dia ainda não havia amanhecido, e Miss Fortune despertara de seu sono. Ela tremia de frio, embora tivesse um cobertor. Olhou para Twisted Fate e o viu encolhido ao lado dos gravetos chamuscados que antes eram uma bela fogueira.
-Não sei por que estou fazendo isso... – murmurou para si mesma, e engatinhou até ele. – Twisted! – Chamou, e o homem despertou imediatamente.
-O que foi?
-Achei que pudesse ficar doente, resolvi dividir o cobertor.
Twisted Fate sorriu maliciosamente, o que fez a mulher mudar de ideia imediatamente.
-Não, espera! – pediu ela, quando ela voltava para seu lugar. – Tudo bem, podemos um esquentar o outro. Sem sacanagem, juro!
Miss Fortune encarou-o. Embora não lhe agradasse a ideia de aninhar-se junto ao trapaceiro, ela não queria passar frio. Então retornou para ele. Os dois se ajeitaram juntos, ele a abraçava e ela os cobriu. Twisted queimou outra carta e lançou-a aos gravetos chamuscados, reacendendo-os.
-Opa, opa, opa! – exclamou ele, de repente.
Miss Fortune havia sacado sua pistola e a mantinha encostada em suas partes íntimas.
-É melhor que isso não esteja em pé quando eu levantar!
Engolindo em seco, o homem tentou ignorar, e manteve o pensamento bem longe daquele momento. Pensava para onde poderia ir depois dali. E ambos não tardaram a dormir.
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