Naruko

12 Capítulo XII


Quase três horas da manhã, Naruto ronca e baba enquanto está abraçado no travesseiro e eu apenas o observo de tempos em tempos, alternando minha atenção para o movimento na rua, já que estou sentada no beiral da janela.

Konoha é particularmente monótona à noite, salvo raras exceções, como festas e festivais. No mais, é comum ver alguns bêbados se arrastando, ou casais procurando um beco escuro para fazer… Sabe-se lá o quê…

Desviei o olhar ao perceber alguma aproximação… Mas que porra??... Ah… Um falcão mensageiro? A essa hora? Estendi o braço, já que na janela ele não conseguiria pousar e logo que ele se acomodou, ignorei os cortes que ele me ocasionava, peguei a mensagem, e lá estava a caligrafia perfeita do Uchiha, o que já me deixou irritada. Ele é meu vizinho, por que não veio pessoalmente?

— Você realmente não se esqueceu de nada?

Encarei o papel por alguns momentos, tentando buscar na memória qualquer coisa que eu pudesse ter feito. Aparentemente, eu lembro de tudo que fiz ou disse quando estava bêbada, e isso não é necessariamente algo bom, pois preferia a amnésia. Decidi não responder a mensagem e mandei o falcão voltar, permitindo que meu braço se curasse dos cortes quase instantaneamente.

Me acomodei no batente da janela, suspirei e fechei os olhos, buscando recapitular todo o meu dia a fim de encontrar alguma brecha para o que caralhos o Uchiha estava me importunando desde hoje cedo, mas é difícil se concentrar com o irmão roncando ao seu lado.

Encarei o Naruto, irritada com o barulho, mas só de olhar pra ele, a raiva passava. Ele conseguia sorrir até enquanto dormia e, novamente, me fazia questionar como podemos ser gêmeos e não ter nada em comum além da aparência e de termos nascido… Juntos.

..

.

Ah…

Hoje é meu aniversário. Digo, ontem, mas tanto faz… O ponto é que eu consegui não perceber que ter um irmão gêmeo implica em compartilhar o mesmo aniversário, e não apenas a mesma raposa demônio selada na barriga. Sem ofensas, Kurama.

Levei a mão para o rosto, incrédula e um pouco irritada. Ele vai me chamar de burra pelo resto da minha vida… E ainda por cima, o Naruto também não percebeu! O que torna a burrice genética!

Saltei da janela para o chão, caminhando para o finado clã Uchiha. Poderia ir saltando pelos telhados para ir mais rápido? Poderia, mas é melhor ir caminhando porque assim tenho tempo de questionar minhas escolhas e talvez até me arrepender da decisão de ir até lá.

Poucos minutos e cheguei nas casas abandonadas que ficam ao redor da mansão Uchiha. Aproveitei o tempo livre para abstrair, entrar em algumas casas, ver se alguma ainda está em boas condições para morar.

Num geral, todas tinham desgastes do tempo e muita poeira, mas algumas possuíam algumas áreas quebradas, o que me deixa na dúvida se tinha a ver com o ataque da Akatsuki, ou se houve alguma luta entre Uchihas durante o massacre, o que causa certo desconforto, até mesmo para mim.

Ao entrar em mais algumas casas, finalmente cheguei em uma que comecei a me interessar. Não sei explicar se ela é melhor localizada, ou se foi apenas sorte, mas não haviam sinais de luta, a estrutura estava melhor conservada e era um pouco mais espaçosa do que as outras, o que me faz pensar que provavelmente pertenceu a alguém com mais dinheiro, então talvez os materiais da casa que sejam bons.

Andei com calma pelos corredores, olhando pelas janelas conforme passava… Se eu demolir umas 2 ou 3 casas consigo um bom jardim e uma ótima vista, então pode valer a pena.

Estagnei ao perceber alguém se aproximando rapidamente, mas nem me preocupei, pois só tem uma pessoa morando aqui e, em questão de segundos, lá estava o último Uchiha diante de mim.

— Sabe que isso é invasão de propriedade privada, não é? — Arqueei uma das sobrancelhas e sorri.

— Então, eu estive pensando… — Olhei ao redor mais uma vez antes de me voltar para ele. — Como você estava super preocupado em me revelar a real data do meu aniversário, deduzi que o motivo seria para me dar um presente.

— Você preferiu deduzir isso ao aceitar que foi burra?

— Enfim… — Apenas fingi que não o escutei e prossegui. — Eu escolhi essa casa aqui.

— Você quer… Uma casa? — Ele olhou ao redor por alguns segundos, numa expressão mista entre desaprovação e aborrecimento.

— Esta casa. — Ele torceu o nariz, provavelmente incomodado com a sujeira, e apenas saiu da casa sem me responder, obrigando-me a segui-lo. — Sabe que, se não me responder, eu vou ficar mesmo assim, né?

— Por que você invadiu meu clã de madrugada para fazer pesquisa imobiliária?

— Ah, você me convidou para vir, e eu não tinha nada melhor para fazer, to querendo me mudar há um tempo, aí já liguei os pontos. — Ele parou sua caminhada apenas para se virar e me encarar por um tempo, consideravelmente, inadequado. Ainda mais com esse olhar repleto de indignação.

— Eu… Nem te convidei. — Cruzei os braços e arqueei uma das sobrancelhas.

— Você me mandou um falcão às 3h da manhã... Ou isso foi um convite, ou você foi inconveniente.

— Como se você fosse dormir essa noite. — Ele retomou sua caminhada, ficando de costas para mim. — Afinal, fez o favor de dormir no meu colo até tarde, nessa manhã… Me pergunto quem é o inconveniente dessa conversa. — Nunca fui tão insultada em toda minha vida.

— Como pode falar comigo dessa forma… No meu aniversário? — Ele não parou de andar, mas ouvi uma respiração mais pesada.

— Se não fosse por mim, você nem saberia qual o dia do seu aniversário. — Torci a boca com o comentário dele.

— Eu ia perceber sozinha em algum momento.

— Claro, claro… — Entramos na mansão Uchiha que ficava bem no centro do clã, e é nítida a diferença em comparação às outras casas. Esse lugar deve ter uns 20 quartos.

Segui ele pela entrada, logo passando pelo jardim de inverno no centro. Parei para olhar, mas esse lugar estava horrível. Árvores mortas, mato espalhado pra todo lado, nem sei se algum dia existiu um caminho de pedras, pois hoje não tem nada, além de um chão de terra bem duro.

Para minha surpresa, ao chegarmos na entrada principal, percebi que, por algum motivo, o Uchiha tem reformado algumas partes da mansão. É, oficialmente, a primeira vez que entro aqui, já que as vezes que eu invadi sem ele saber não contam, então preciso agir como se não conhecesse o lugar.

Entrei na mansão, mas não sem antes o Uchiha me atormentar para tirar os sapatos e pisar nesse chão frio.

— Quer que a visita simplesmente fique descalça na sua casa?? — Ele revirou os olhos e me jogou um surippa* — Ah…. Obrigada por fazer o mínimo! — Após o meu comentário, ele me lançou um olhar de desdém misto com raiva, no qual apenas respondi com um riso abafado.

— Lembre-se que você sequer foi convidada. — Antes mesmo dele terminar a frase, já comecei a andar pela casa, deixando ele resmungar o quanto quisesse.

— Claro, claro, vou fingir que um falcão de madrugada é só um bilhete e não um convite… — Parei de súbito e me virei para ele. — Mas farei isso só para não magoar os sentimentos do meu amigo, ok? Espero que se lembre do meu gesto bondoso de hoje. — Sorri para ele, e logo voltei a andar pela casa… Irritar o Uchiha seria considerado como hobby? Porque eu facilmente diria que sim.

Ele optou pelo silêncio, mas sei que na verdade a vontade dele é de sair no soco. Na verdade, ele anda muito mais tolerante e contido pós guerra, antes ele não tinha toda essa paciência… Era até o contrário na verdade, às vezes eu me sentia conhecendo uma pessoa completamente diferente, mas ainda era familiar.

— E que tal um tour me apresentando a casa? — Preciso saber o que você mudou, afinal. — O apartamento do Naruto é muito pequeno, então nem foi necessário, mas aqui é diferente.

— Nem pensar… — Grosso. — Vai que você decide morar aqui depois de ver? — Ele me lançou um sorriso provocativo, enquanto andava pela ampla sala, até se sentar diante do Chabudai**, onde havia um copo de chá, já frio.

— Eu acho que já tivemos o suficiente da experiência de morarmos sob o mesmo teto, não é? — Arqueei uma das sobrancelhas e caminhei até o Chabudai no centro da sala de tatami, acho que ele acreditou que eu me sentaria com ele, mas após ponderar por alguns momentos ignorei o dono da casa e comecei a caminhar tranquilamente, abrindo o shouji*** e seguindo em frente.

Ouvi o Uchiha suspirar antes de se levantar e começar a andar atrás de mim sem dizer uma única palavra. Atravessei algumas salas de tatami como a que estávamos antes e percebi que se eu deixasse tudo aberto, elas se conectavam em uma única sala, passei por uma grande sala de jantar e ignorei todas as portas laterais ou escadas, vai que ele tá fazendo algo ilegal e eu viro cúmplice.

Apesar de ser uma casa tão grande, é estranho como é meio sufocante aqui dentro, lembra até as cavernas que morei com Orochimaru… Não sei se é por ser um lugar tão velho e acabado, se tem algum tipo de energia ruim pelas mortes que ocorreram aqui, se é por ser um lugar muito grande com poucas pessoas, ou se é apenas por estar de madrugada, com quase tudo apagado, por isso, por onde passava, fui deixando os shouji abertos e as luzes acesas.

— Nem as cavernas do Orochimaru embaixo da terra eram tão escuras assim… — Eu me virei para ele, agora andando de costas, e ele me respondeu apenas arqueando uma das sobrancelhas. — Tá. Depende do dia. — Parei ao perceber que havia chego na cozinha. Minhas opções agora eram entrar em portas suspeitas, voltar de onde vim ou sair da casa.

— Acabou o tour? — Olhei para ele apenas de canto, antes de analisar a cozinha com calma. O chão estava recém trocado, a geladeira era nova e os armários eram novos, mas o restante dos móveis ainda eram antigos, apesar da boa qualidade.

— Por que está arrumando essa casa?

— Porque é minha? — Antipático. — Você quer restaurar uma casa que nem é sua.

— Mas eu não tenho pra onde ir... O Terceiro Hokage deve ter gastado a herança do Quarto com cigarro, bebida e puta, porque Naruto nunca viu um centavo e eu menos... Mas você... Tem herança até pros seus netos gastarem e ao invés de construir uma casa nova, preferiu mexer nessa aqui... É nostalgia? — Ele me encarou por alguns momentos, parecia estar assimilando as palavras antes de responder.

— ... É minha obrigação como último membro do Clã Uchiha. — Revirei os olhos, torci a boca e caminhei até a geladeira, já abrindo-a. Se for pra aguentar outro discurso sobre os Uchiha, eu prefiro fazer isso comendo ou bebendo algo. — Você não sabe ter o mínimo de modos? — Antes mesmo de ver o que tinha na geladeira, eu apoiei um braço sobre a porta e o encarei, nitidamente irritada.

— Você... Falando sobre ter modos? VOCÊ? Sério? — Ele mordeu o lábio, sem ter qualquer argumento e eu voltei para a geladeira. Havia arroz, shoyu, tomates, vegetais e... Uma belíssima fatia de bolo? Olhei do bolo para ele algumas vezes, ele não se pronunciou. — Achei que você não comia doce.

— Não como. — Mas por que caralhos comprar bolo se não come e deixar guardado tão bonito assim?? Só se fosse... Aaahhhh.

— Eu disse que o falcão de madrugada era um convite. — Senti o rosto quente e fingi que ainda mexia na geladeira até que isso passasse. Mas logo peguei o bolo e coloquei na mesa.

— É sua palavra contra a minha. — Ele sorriu de canto, e estou ficando desconfortável com esse clima, tá me deixando sem graça, e eu devo estar vermelha de novo, e acho que até ele está ficando também.

— Você levou aquele papo de amigo bem a sério mesmo... — Sorri provocativa. — Ou é a influência de Konoha aflorando a sua gentileza?

— Você não pode apenas agradecer?? — Não pude deixar de rir do comentário dele, e assim me senti mais tranquila.

— E inflar o seu ego no meu aniversário?? — Me apoiei sobre a mesa e cruzei os braços. — Achei que fosse presente pra mim, não pra você. No seu aniversário eu te dou um agradecimento de presente.

— Eu devia ter comprado sake ao invés de bolo, que depois de alguns goles você já estaria me agradecendo. — Fechei o semblante e o encarei.

— Eu não me lembro de ter te agradecido por nada.

— E você lembra do quê? — Continuei de cara fechada, e senti o rosto esquentar.

— O que eu lembro não importa. — Ele sorriu de canto. — O que importa é que preciso de um talher pra comer meu bolo, não é?

— Ele caminhou até um dos armários, abriu e tirou uma pequena colher de lá, logo me entregando, sem dizer nada.

— … Obrigada… — Sorri ironicamente logo que peguei a colher, apenas para ver a expressão carrancuda dele.

Mas ignorando nossa discussão, provei um pedaço do bolo e no mesmo instante eu quis chorar de tão bom que é!! Logo peguei mais um pouco, e a vontade era não parar mais, mas saber que o Uchiha estava ali em pé me assistindo comer trouxe um desconforto tão grande que eu quase engasguei.

— Aqui. — Eu levantei e caminhei até ele, já pegando um pedaço do bolo com a colher e estendendo na direção dele. — Bolo de aniversário não se pode comer sozinho. — A primeira reação dele foi se assustar e pude perceber seu rosto ficando vermelho, o que me deu vontade de rir, mas segurei. — Sei que não gosta de doce, mas só um pedaço não vai te fazer mal.

A contragosto, ele comeu o pedaço que dei a ele e, dessa forma, já me senti bem o suficiente para me sentar sobre a mesa e terminar de comer.

— E agora? — Terminei de comer e voltei a olhar para o Uchiha. — Você quer ir dormir? Já não dormiu ontem, nem sei porque está acordado agora. — Ele hesitou antes de responder.

— … Estou sem sono. — Arqueei uma das sobrancelhas. Eu sei que é mentira. Ele sabe que eu sei que é mentira… Mas na nossa relação, não há espaço para esse tipo de questionamento. Ele fala o que quiser falar, quando quiser falar, então, já que ele foi legal comigo, serei legal com ele também

— Quer treinar um pouco, então? — Sorri com a expressão dele, parecia um misto de desconfiança e confusão. A coisa que o Uchiha mais gosta de fazer é treinar, e já me trouxe muitas dores de cabeça por isso durante o tempo morando com ele e o velho, mas num geral, não desgosto de treinar, até me ajuda a dormir. — Tá com medo de ser humilhado por que não tem mais braço? — Levantei e me aproximei dele, sorrindo provocativa. — Prometo que vou devagar com você.

Toda a dúvida do olhar dele sumiu naquele momento e eu me esforcei muito para segurar o riso. Mas funcionou. Saímos da casa, e fomos até um campo de treinamento próximo, onde treinamos até o início do dia, por volta das 07h.

Logo após o treino, eu me sentei na grama, encarando o lago que havia por lá. Minhas roupas tinham alguns rasgos superficiais e, enquanto ele tirava os trapos que restaram de sua camisa, eu recapitulava o treino com calma.

— Seu centro de equilíbrio está descompensado e sua velocidade de reação diminuiu um pouco... — Eu me levantei, caminhei até ele e peguei no que restou de seu braço, recebendo apenas um olhar desconfiado como resposta. — Como era de se esperar, seus reflexos agem como se o braço ainda estivesse aqui e você está com dificuldades para fazer alguns selos de mão. — Tirei as bandagens para analisar e havia um pouco de sangue por conta da intensidade do treino. — A Sakura é muito boa, tá quase completamente cicatrizado já... Mas como você não quis usar as células do Zetsu branco para um braço protético, vai ter que aprender a compensar.

Soltei o braço dele e tornei a me afastar, pensando nas possíveis soluções, e não pude evitar de me sentir um pouco nostálgica, relembrando nossos constantes treinos durante o primeiro ano, no qual mal nos falamos, e depois de como nossa afinidade foi, digamos que "melhorando", a partir do segundo ano... Claro que era uma afinidade baseada em brigas e provocações, mas eu até que gostava.

Parece que foi ontem que eu fugia das minhas vigílias de madrugada e me esgueirava para o quarto do Uchiha... Logo que me aproximava da cama, já ouvia a sua voz, com claros sinais de irritação.

— O que você quer? — Eu sorria, apesar dele não conseguir me ver com a iluminação tão fraca, e me sentava sobre o colchão, ao lado dele.

— É seu dia de sorte, eu vim te fazer homem hoje. — Apesar da pouca iluminação, eu via de relance os olhos dele ganhando aquele brilho avermelhado e precisava segurar o riso para não acordar ninguém. — Levanta, e me encontra lá fora, eu tive uma ideia para você conseguir utilizar melhor o jutsu que treinamos mais cedo... Traga chá.

Eu corria de volta para o meu posto, torcendo pro velho ou o Kabuto não terem me visto e aguardava o Uchiha sair para treinarmos até a manhã seguinte.

...

Despertei dos meus pensamentos, sorri e me virei para ele... Acho que estou muito nova para ficar nostálgica dessa forma.

— Enfim... Você pode usar um clone de auxílio, pode criar um braço novo com jutsus elementares, o que não deve ser problema agora com o rinnegan... Eu recomendaria o estilo terra para uma maior estabilidade, ou pode fazer o básico, treinar jutsus com apenas uma mão... E você pode começar o treino hoje, fazendo nosso café da manhã! — Ele arqueou uma das sobrancelhas e me ignorou!!! Desgraçado!! Apenas se virou e começou a caminhar.

Reparei brevemente nos músculos de suas costas conforme se afastava, mas é melhor não pensar nessas coisas agora. Não com ele. Como se adivinhasse, ele estagnou e me olhou de canto.

— Vai ficar aí parada o dia todo? — Uchiha Sasuke. Sempre sutil, ambíguo e educado ao fazer convites. É o que escreverei na lápide dele.

Caminhei até estar ao lado dele e fomos para a casa do Naruto, pois eu precisava tomar um banho e decidi tentar chamar meu irmão para comer. O banho deu certo. Acordar o Naruto, nem tanto. Com isso, eu e o Uchiha fomos para a casa dele, onde ele preparou o café, eu fiquei com a louça, já que ele não consegue lavar só com um braço, e fui embora perto do horário do almoço.

Voltei até a casa do Naruto, e dessa vez, ele estava acordado, ou quase, ainda parecia sonolento e confuso, enquanto andava se arrastando pelo pequeno apartamento, apenas de cueca.

— Sabe que os vizinhos conseguem ver tudo, né? — Eu o encarava pela janela, e pude perceber o momento em que ele realmente despertou e ficou com vergonha.

— Eu estava me trocando, ttebayo! — Ele pegou uma calça e vestiu com pressa. Não é como se ele já não tivesse se trocado na minha frente algumas vezes, sem noção. Só está com vergonha porque o peguei de surpresa. — E aonde você estava?

— Fui lutar com o Sasuke. — Ele me encarou com uma seriedade atípica antes de perguntar.

— Você ganhou? — Eu sorri.

— Claro! — Rimos juntos e contei a ele sobre os detalhes do treino, ignorando as partes sobre meu aniversário.

Saímos do apartamento, buscando um lugar para almoçar e não muito tempo depois encontramos a Haruno e, após os cumprimentos e conversas desinteressantes, ela tocou no assunto que eu tentei ignorar.

— Conseguiram aproveitar seus aniversários ontem? — Fingi que não ouvi, e passei a admirar a paisagem de Konoha.

— Seus…? — Naruto a questionou, mas antes mesmo de concluir a frase, teve a súbita realização da verdade, exatamente como eu tive de madrugada. A burrice é genética mesmo, que ódio! — Nós somos gêmeos!! — Não diga. — Como eu não percebi que também era seu aniversário? — A Sakura nos olhou incrédula, mas o Naruto logo prosseguiu. — Naruko… Não disse nada, também não percebeu?

— Eu? Claro que eu sabia, mas eu não comemoro meu aniversário. — Nunca que eu vou admitir.

— Naruto como você pôde errar o aniversário da sua irmã gêmea?? — A Haruno parecia num misto de decepção e compreensão.

— Precisamos comemorar hoje!! — O Naruto segura a minha mão com uma animação típica, e tensiona me puxar para algum lugar, mas nem ele sabia para onde ir, então estagnou e se virou para mim, confuso. — Aonde você quer ir?

— Hm, eu não sei. — Nós dois nos encaramos.

— Tem algo que você queira fazer?? — Algo que eu queira fazer?? Acho que já fiz tudo que se faz em um aniversário, mas não sei muito bem… Então tenho que ver algo que eu queira… Acho que já sei!

— Então, tem uma coisa… Mas não é muito bem uma comemoração. — Sorri para ele. — Preciso de ajuda para reformar uma casa.

— Oi? Como assim? — Naruto parecia ainda mais confuso agora.

— Eu peguei uma casa pra mim lá no antigo bairro dos Uchiha. Elas são de graça, sabia?

— OI? COMO ASSIM?? — Dessa vez, a Haruno ficou confusa. — Sasuke-kun permitiu?

— É… Digamos que sim.

— Mas você não quer mais morar comigo? — Que carinha de dó, quase me faz voltar atrás. Quase.

— São só dois quarteirões de distância, ainda podemos nos ver todos os dias. — Sorri para ele, o que ajudou, mas não o animou muito.

A contragosto ele foi me ajudar, e a Haruno foi junto sem ter sido convidada, mas sendo justa, ela não ficou apenas em cima do Uchiha, e foi de grande ajuda!! Apenas quinze dias depois e já me mudei…

… Mais umas três semanas e já tinha certos hábitos estabelecidos.

— Ah nabo não, eu não gosto. — Reclamei com o Uchiha enquanto ele escolhia os vegetais na banca que íamos toda semana.

— Você literalmente comeu nabo ontem… E repetiu. — Puta merda.

— É mesmo, é? — Ele me ignorou e comprou o nabo, então eu fingi que esse diálogo nunca aconteceu e fui olhar a lista de compras enquanto caminhávamos. — Ainda falta frango e mochi.

— Eu não lembro de ter colocado mochi na lista.

— Mas é justamente por você não lembrar, que estou aqui te lembrando. — Ele me olhou de canto por apenas um momento e fomos comprar mochi.

Logo que chegamos na barraquinha, fiz o pedido e o atendente saiu, gritando.

— PREPARA CINCO DE MORANGO E CINCO DE MATCHÁ PARA O CASAL! — Ah não.

— Ér… Nós não somos um… — Ele saiu andando e me ignorou. — Ah, que se foda.

Essa questão de “casal” aparecia com mais frequência a cada dia, e eu sempre ficava desconfortável, enquanto o Uchiha… Bem, é difícil deixá-lo abalado… Mas a questão é que isso se espalhava como se fosse realmente algo tangível e no fim eu levava broncas da Karin, a Haruno me olhava torto, e de quebra preciso justificar minha vida umas dez vezes por dia, e explicar ao Naruto que é mentira toda vez.

Não vou dizer que não entendo o motivo de acharem isso… Eu e o Uchiha estamos acostumados a conviver um com o outro, e não vemos motivos para quebrar essa familiaridade… Mas não dá para acharem isso em silêncio? Como pode ter tanta gente fofoqueira habitando um mesmo local?

Terminamos as compras e o Uchiha estava encarregado das sacolas enquanto eu comia meu mochi

— Ainda são 08h, acho que o Naruto deve aparecer por cerca das 10h, não é? — Umas três vezes por semana tomávamos café da manhã juntos e, por vezes, até a Haruno aparecia. Claro que eu e o Uchiha tomamos café às 06h e depois esperamos o princeso acordar para tomar outro café com ele.

— Hm. — Um homem de poucas palavras, realmente. E é por isso que eu inicio brigas, ele só se comunica quando discute ou quando quer se mostrar melhor que alguém.

Caminhamos até o distrito Uchiha sem pressa. Desde o fim da guerra os dias se tornaram mais longos e um pouco tediosos, especialmente para mim que, tecnicamente, não sou uma kunoichi de Konoha, então não posso assumir missões… E ainda não sei se estou a fim de jurar fidelidade a outro país depois de tudo que passei… E ainda não sei se o Uchiha possui planos, então, por hora, apenas seguimos o fluxo, mas mantendo os treinamentos. É tipo férias.

— Acho que dá tempo de um treininho mais tranquilo até o Naruto chegar.

— O que você chama de "tranquilo"?

— Huummm... Sem jutsus com potencial de destruição amplo?... Focado em ataques de curta distância e acaba quando um de nós for imobilizado. — Ele ponderou por alguns momentos, antes de me responder.

— Pode dar certo.

Chegamos ao distrito Uchiha, guardamos as compras e resolvemos treinar por ali mesmo, caso o Naruto chegue. Mas ainda distante o suficiente pra não causar dano na mansão principal, ou na minha casa. Pouco tempo depois do início do treinamento e eu percebi o quanto é difícil lembrar dos jutsus necessários quando se tem alguma limitação envolvida, e agora estou com uma considerável desvantagem.

— Suiton: Ryūsuiben (Estilo Água: Chicote do Fluxo de Água) — Moldei o chakra em minha boca, colocando-o sobre minha mão com a natureza água, e o comprimindo, para tomar a forma de um chicote e atacá-lo, percebendo que ele atacaria com a Kusanagi no estilo raio, liberei a natureza relâmpago sobre a água para anular a possibilidade de tomar um choque.

Trocamos alguns golpes, até que ele conseguiu desfazer meu jutsu e diminuir a distância entre nós e segurar meus braços com força, desfazendo meu Mizu Bunshin no Jutsu (Técnica do Clone de água). Quando ele me percebeu às suas costas, eu já estava na metade dos selos de mão para a criação do jutsu, e percebendo qual justsu seria, ele conseguiu reagir rapidamente, lançando ao mesmo tempo que eu:

— Suiton: Suiryuudan no Jutsu (Estilo Água: Técnica da Bomba do Dragão de Água)

— Katon: Goukakyuu no Jutsu (Estilo Fogo: Técnica da Grande Bola de Fogo)

Expeli chakra com a natureza de água da boca, formando um dragão, enquanto o Uchiha fez o mesmo, mas com a natureza de fogo, semelhante a um cometa. O choque dos nossos golpes nos arremessou para trás, e ainda criou uma névoa devido ao vapor, deixando o Uchiha com uma vantagem descomunal, já que ele possui o auxílio do Sharingan e a capacidade de ocultar perfeitamente o seu chakra.

MERDA! Preciso pensar rápido!

Conforme observei vultos ao meu redor, arremessei algumas kunais em sua direção e recuei alguns passos, mas todos eram miragens e, com essa distração o Uchiha foi capaz de usar um jutsu do estilo terra para criar uma parede atrás de mim, enquanto o mesmo saiu do chão e me pressionou contra a tal parede, me imobilizando com o próprio corpo enquanto segurava meus pulsos com sua mão. Em apenas um mês, ele já supriu todas as dificuldades que tinha pela falta do braço, e ainda está mais forte por causa do rinnegan, quase sempre tem uma técnica nova. Eu nem sabia que ele usava o estilo terra tão bem.

— E com apenas uma mão. — Ele sorriu vitorioso, e eu senti meu rosto queimar, não apenas de raiva, mas principalmente pela proximidade do rosto dele, e por sentir os músculos do corpo dele pressionando o meu... Eu poderia facilmente beijá-lo ago... Foco! Se eu fraquejar, eu perco! Então, apesar da vergonha, da raiva, e da possível excitação, eu sorri.

— Hiraishin no Jutsu (Técnica do Raijin Voador) — Teleportei para uma das kunais que havia jogado anteriormente e já estavam marcadas, a tempo de fazer os selos com a mão e contra-atacar antes do Uchiha conseguir reagir. — Suirou no Jutsu (Técnica da Prisão de água). — Rapidamente, formei um casulo de água, prendendo o Uchiha no mesmo.

Deixei-o preso apenas por tempo o suficiente para eu sentar no chão e levar uma das mãos ao peito, tentando regular a respiração... Só venci hoje por conta do elemento surpresa, já que ele não sabia que eu estava treinando o Hiraishin no Jutsu... Mas o que me incomoda são os pensamentos intrusivos no meio do treino... Meu corpo ainda segue arrepiado, enquanto queima de excitação... Desde quando beijar Uchiha Sasuke deixou de ser uma piada para virar um pensamento sério? Soltei-o da prisão de água, fingindo que estou me recuperando apenas do combate.

Logo que o libertei, ele se aproximou a passos rápidos e se agachou diante de mim, com uma expressão nítida de choque.

— Desde quando você sabe o Hiraishin? — Sorri provocativa.

— Ficou com inveja, é? — Ele não respondeu, mas voltou a fechar a cara. — Durante a Guerra, eu consegui um tempinho e pedi para o Quarto me explicar, também pedi ao Segundo algumas dicas, mas ele não falou muito... Aí ainda estou aperfeiçoando, é uma técnica meio chatinha de pegar as manhas... — Agora com a respiração regulada, levantei, sendo acompanhada pelo Uchiha, e me afastei um pouco dele, começando a caminhar de volta para a mansão principal do clã, preciso de mais um tempinho para afastar os pensamentos intrusivos. — Não conte ao Naruto. É surpresa.

— Me ensine. — Me virei para ele, andando de costas, e sorri maldosa.

— Me obrigue. — Ele sorriu, como se aceitasse o desafio, mas eu senti um arrepio percorrer meu corpo, e decidi me virar para frente, uma vez mais, evitando o contato visual, e tentando agir como de costume.

— Sabe que eu posso só copiar a técnica quando você usar de novo, não é?

— Primeiro: Qual seria a graça? Segundo: Quem disse que irei usar de novo?

— É simples: Você não conseguiria me vencer sem esse jutsu. — Arrombado, desgraçado, vou fazer ele comer grama pela raiz.

— Quer pagar pra ver? — Naquele momento, ele acompanhou meus passos e chegou ao meu lado, aquele sorriso cínico que me irrita desenhando os lábios já era uma resposta, como se fosse melhor do que eu. Como eu pude pensar em beijar essa desgraça de ser humano há menos de cinco minutos? É só ele abrir a boca que o interesse passa. — Tá certo, amanhã resolveremos isso.

— Hoje à noite.

— Se eu tiver a fim até lá, não vejo problema. — Chegamos na mansão e, ao ver o relógio: 9h27. Ótimo! Tempo suficiente para atormentar o Uchiha e tomar um banho.

Logo que entramos, fui direto na cozinha beber água direto da jarra que fica na geladeira, mesmo sabendo que o dono da casa fica irritado, e logo entreguei para ele beber também, ignorando seu olhar de julgamento.

— Vou tomar um banho antes do Naruto chegar. — Sorri maldosa e me aproximei dele. — Quer me acompanhar? — Ele... Sorriu??

— É. Por que não? — Ele me devolveu a jarra e começou a tirar a camisa.

...

...

...

Que?

...

...

...

Recuperei um pouco da postura depois do choque inicial, eu acho.... Essa é a primeira vez, em mais de dois anos conhecendo o Uchiha que ele responde uma piada de cunho sexual, sem ser com algum ataque ou ameaça.

Bebi o restante da água, fingindo uma naturalidade que não está aqui, enquanto ele tirou a camisa e a jogou no chão mesmo, o que é atípico para alguém tão metódico. Logo que me encarou, sorriu dissimulado. Eu devo estar com uma puta cara de idiota, que ódio!!

E agora?? Eu tiro a roupa pra não parecer covarde, ou dou risada e desconverso com alguma piada?? Será que ele tá me testando pra ver até onde eu vou e parar com essas piadas me deixando sem graça?? Ou será que, agora que perdeu a virgindade, ele vai ceder aos seus instintos??

Se eu for e ele estiver blefando, consigo irritá-lo, como pretendia. Se eu for e ele não estiver blefando, eu consigo... Olhei para o relógio... Uma rapidinha, provavelmente... E para quem não tem nada há um tempinho, valeria a pena, creio eu... Será que valeria mesmo?? Assim, o Uchiha é bem bonito, mas também é inexperiente.

E agora??

Ah, que se foda, acho que vale o teste.

— Sabe que eu demorei pra te levar a sério? Pensei que nunca fosse aceitar. — Sorri para ele e tirei a jaqueta e a joguei no chão, ficando apenas com a blusa de malha arrastão, enquanto caminhava para o banheiro, deixando-o para trás. — Conto com a sua ajuda para lavar minhas costas. — Quando fui tirar a blusa, percebi alguém se aproximando da casa e parei.

Olhei novamente no relógio: 09h35.

Mas que porra! Respirei fundo e dei meia volta, vendo que o Uchiha estava com uma expressão bem mais carrancuda que o habitual, e logo pudemos ver meu irmão e a Haruno pela janela. Sempre que ela vem junto, ele vem mais cedo.

Eu e o Uchiha trocamos um olhar, e dei uma risada antes de dar de ombros e voltar para a cozinha... Ele preferiu vestir a camisa novamente.

Abri a geladeira e comecei a pegar a comida que já estava pronta, colocando-a na mesa. Sorri logo que os dois entraram na casa, já o Uchiha sequer os cumprimentou.

— Tá mal humorado, Sasuke?? — Naruto ria e logo me ajudava com a comida.

— É que eu ganhei dele no treino de hoje. — Olhei para meu irmão e trocamos uma risada, cúmplices.

— Já estão treinando a essa hora?? — A Haruno se aproximou do fogão para esquentar o gohan e o missoshiru.

— E tem hora pra treinar? — Sentei à mesa e o Naruto sentou ao meu lado, enquanto aguardávamos ela esquentar a comida. — O Uchiha se encostou na bancada ao lado oposto de nós, e lá ficou.

— O descanso também é importante. — Dei uma olhada de canto pro Uchiha, mas ele parecia uma criança emburrada, então ignorei.

— Sim, dra. Me lembrarei disso.

Alguns minutos depois e o asagohan**** estava pronto. Com isso, estávamos todos sentados à mesa quando percebemos alguém se aproximando em alta velocidade.

Paramos e aguardamos. O Uchiha e o Naruto se levantaram, mas logo reconheceram Karin na porta. Esbaforida, descabelada, com a mão no peito tentando recuperar o fôlego enquanto nós quatro a olhávamos em silêncio.

— Eu... — Ela parava mais uma vez para tomar ar, e quando o Uchiha já estava ficando sem paciência e foi se pronunciar, ela soltou de uma vez. — Estou grávida!

*Surippa (do inglês "slipper") é um tipo de chinelo ou pantufa japonesa utilizada para andar nos ambientes interiores das residências.

**O Chabudai é aquela mesa de madeira com pernas curtas utilizada para as refeições nas casas dos japoneses.

***O Shouji é um painel ou porta de correr deslizante feito com um papel translúcido (washi) emoldurado em uma armação de madeira.

****Asagohan é o “café” da manhã japonês, mas é traduzido como “arroz da manhã”.

Notas finais
Oi oi, mais uma vez tentando voltar à ativa... Foram quase dois anos lutando contra uma anemia e só consegui sentir uma melhora a partir de agosto... Torçam pela minha saúde que assim eu posto mais. ♥