Naruko
13 Capítulo XIII
Silêncio. Todos os três olhamos de Karin para o Uchiha algumas vezes enquanto a mensagem ainda era processada em nossa mente. Contudo, fixei meu olhar no Uchiha por alguns momentos, pois nunca o vi assim antes… Sei que a pele dele é bem clara, mas chega a estar pálido, parece até que a alma saiu corpo… Será que ele vai desmaiar?
Ficamos todos alguns minutos em silêncio e o que era compreensível devido ao choque, começou a ficar apenas desconfortável, pelo menos para mim. Sendo assim, acho que eu deveria dizer algo. Será que ela quer o bebê? Ou será que eu chamo ela pra tirar o bebê? Um chá de canela, ou um chá de bebê? Qual a resposta adequada?
Bem, indo pelo óbvio, o filho dela é um Uchiha, ela jamais tiraria uma criança dele.
— Parabéns! — Levantei, apoiando as mãos sobre a mesa e lancei um olhar pro Naruto, indicando que ele deveria dizer algo e, por ventura ele me entendeu, também se levantou e a cumprimentou, dando tempo de trocamos um olhar preocupado. — Vem cá, acho que é melhor deixarmos os dois conversarem a sós, né?
— É verdade. — Logo que ele concordou, caminhei até a Haruno e coloquei a mão no ombro dela, indicando que deveria me acompanhar e, para minha sorte, mesmo estando nitidamente abalada, ela entendeu a deixa e me permitiu conduzi-la até a saída.
Saímos os três,e fomos em direção à minha casa, que é o local mais próximo, permitindo assim que o casal resolvesse suas questões. Não acredito que a Karin não toma remédio, ou será que ela tomava e, por se tratar do Uchiha, ela engravidou de propósito?
Logo que entrei em casa, eu já fiquei irritada… Lembrei agora que eu não tenho comida aqui, porque já tem mais de uma semana que só como na casa daquele idiota. Na real, eu nem durmo aqui já faz uns três dias, então a casa tá ficando com pó… Fazer o que, né?
Olhei para trás aguardando meu irmão e a Haruno entrarem, mas eles apenas se sentaram na varanda, do lado de fora. Sorte a minha, não estou em condições de receber visitas mesmo, então saí novamente de casa para acompanhá-los.
— Como que o Sasuke-kun foi deixar isso acontecer? — A Haruno se pronunciou pela primeira vez desde a notícia, o que quase me assustou.
— Então… Acho que você não quer a resposta, né? — Eu sorri desconcertada, e ela me olhou tão… Desolada, que eu voltei a ficar em silêncio.
— Achei que ele era mais responsável. — Tá, agora eu preciso de uma pausa! Naruto, meu irmão, UZUMAKI NARUTO, falando sobre responsabilidade, e estando certo!! É um dia memorável. Queria poder jogar isso na cara do Uchiha, agora.
— Realmente, Sasuke-kun sempre foi muito sensato. — Eu acho que estamos pensando em pessoas diferentes, onde que a Haruno vê sensatez nas atitudes daquele cara? Eu entendo dizer que ele é metódico, disciplinado, e coisas assim, mas o retardado foi por vontade própria atrás do Orochimaru e não morreu por sorte, foi por vontade própria atrás do Hachibi, e não morreu por sorte, foi por vontade própria atrás dos cinco kages, e não morreu por sorte… Acho que, na real, essas situações que foram inflando o ego dele e o fazendo acreditar que a sorte dele nunca acabaria… Mas aparentemente acabou, né.
— Isso nem parece com ele. — Parece sim, Naruto. Impulsivo e insensato.
— É isso! — A Haruno se levantou. — Provavelmente não foi ele!! Não tem como ele ser o pai do filho da Karin, né? Ela só foi lá pedir ajuda a ele e entendemos mal.
Dava pra ver na cara dele que a pressão caiu quando ela falou, com certeza foi felicidade pelo amigo dele que engravidou a Karin, confia! Mordi o lábio segurando meus comentários ácidos, e a vontade de rir.
— Acho que devemos ir lá verificar. — É O QUE, NARUTO?
— Não! — Eu me pronunciei. — Como assim você quer ir lá entrar na conversa dos dois, assim?
— Quem falou sobre entrar na conversa deles? — A Haruno sorriu maldosa ao se pronunciar. — Nós vamos lá escutar sem eles saberem.
Naruto sorriu, concordando com o plano da amiga e eu estou sem palavras. Então todo mundo é fofoqueiro em Konoha, mesmo… E aparentemente…
— Vocês são burros? — Os dois me olharam indignados, merda, pensei alto… Mas agora já foi. — É a conversa de uma ninja sensorial de alto nível e do único portador vivo do sharingan e rinnegan, e vocês acham que conseguem ouvir escondidos?
— Se conseguirmos suprimir o nosso chakra e nos escondermos bem, vai dar tudo certo. — Ela é completamente maluca.
. . .
Por que caralhos eu acabei vindo junto desses dois??
Essa é a ideia mais burra que eu já vi, pois estamos, literalmente, atrás da porra da parede da cozinha, e com certeza a Karin já nos notou antes mesmo de entrarmos no jardim, eu não deveria ter caído no papo dos dois, deveria estar agora na minha casa.
Tá que eu não tinha nada melhor pra fazer… E que eu to com fome… E que, talvez, eu esteja curiosa e que, principalmente, eu queria estar aqui para jogar na cara deles que eu avisei… MAS, ainda sim, eu não deveria estar aqui tão perto, era melhor ter esperado do lado de fora.
— Acho que precisamos organizar nosso casamento!! — Ouvi a voz da Karin e mordi o lábio, prendendo a respiração. Ela com certeza sabe que estamos aqui, ela só não se importa.
— Isso está fora de cogitação, Karin.... — Era possível ouvir os passos pesados dele pela cozinha. — Eu não vou me casar... Não com você.
— Você ouviu isso? — Naruto sussurrou e eu o cutuquei, para que ficasse em silêncio.
— Como não? Estou esperando seu filho!! — Era possível perceber a alteração na voz da Karin. Ela queria ficar irritada com ele, mas não era tão forte assim.
— É, então realmente o filho é dele, mas ele não vai casar, 'ttebayo. — Naruto sussurrava para Sakura, e eu me virei para ele, fuzilando-o com os olhos.
— Mas você ouviu ele falando que não vai se casar.... Com ela... Teve uma ênfase nessa parte, então ele quer se casar com alguém.... — Eu levava o indicador aos lábios, pedindo para se calarem, mas só de sentir um arrepio percorrendo a espinha eu percebi que era tarde.
Apenas um piscar de olhos e lá estava o Uchiha diante de nós três, sharingan ativo e uma expressão genuína de desprezo.
— Eu avisei a vocês, não foi? — Encarei meu irmão e a Sakura, porque não poderia morrer sem jogar na cara deles e então levantei, fingindo ter ainda algum pingo de dignidade depois de ter sido pega.
Encarei o Uchiha e a expressão dele não se alterou em momento algum, merda, ele tá realmente muito puto.
— Saiam. — A voz dele saiu um pouco rouca devido à irritação.... Infelizmente ele fica muito sexy quando está com raiva, mas eu não me envolvo com homem comprometido... Ou enroscado, sei lá.
Os outros dois se levantaram e essa foi a deixa que eu precisava para sair imediatamente do distrito Uchiha… Só pela expressão dele, eu sei que não estava para brincadeira… E não que eu tenha medo do Uchiha ou não dê conta dele em combate, mas ser pega espionando é algo meio… Humilhante. Não é o tipo de conversa que eu deveria estar escutando.
Sentamos no banco de uma praça próxima e enquanto eu tentava sair dessa pequena crise existencial, os outros dois pareciam criar teorias da conspiração e ficavam falando e falando, sem me dar espaço de pensar direito, e parecia que quanto mais eu me esforçava para ignorá-los, mais empenho eles tinham para atrair minha atenção, até que se sentaram ao meu lado. Um de cada lado, deixando-me no meio.
— Mas se ele não vai casar com ela, pra que ficar tendo relações? — Sakura me encarou quando fez a pergunta.
— Como você espera que eu saiba os motivos dele?
— Ah sei lá, vocês são bem próximos, ele não te conta nada?? — Por que caralhos eu ia ficar perguntando sobre uma vida sexual que não me envolve?
— … Não falamos sobre isso... — To ficando desconfortável com essa conversa.
— Mas o que você acha?? — Olhei para o Naruto, na esperança dele cortar o interrogatório da amiga dele, mas ele também parecia interessado.
— ...Eu acho que... Era... Treino... — Conforme eu ia falando, meu tom de voz ia baixando e eu sentia minhas bochechas esquentarem! Merda!! Odeio tocar nesse tipo de assunto com o Naruto por perto. Os dois me olhavam com expressões de dúvida, aguardando eu continuar. — Eu não tenho como ter certeza de nada, claro, mas se a teoria de vocês estiver correta e ele quiser realmente se casar com outra pessoa, provavelmente ele está usando a Karin para adquirir uma certa experiência sexual... — Da mesma forma que ia me usar hoje.
— Não seria mais fácil ele tentar ficar direto com a pessoa que ele gosta? — Naruto estava tão corado quanto eu com esse assunto.
— Isso depende... Pelo que eu percebo, ele é muito movido por seu ego, então vocês acham que ele correria o risco de ir sem qualquer experiência, podendo.... — Broxar, ter ejaculação precoce, socar fofo, gemer fino. — Érrr..... Podendo passar por alguma situação desagradável?
— Então... — A Haruno corou e desviou o olhar antes de prosseguir. — … Quer dizer que ele quer garantir que a primeira vez da futura esposa dele seja boa? — Ela já está assumindo que a futura esposa é ela? Mesmo ele tendo engravidado outra?
Às vezes eu queria ver apenas por 10 minutos como a Haruno enxerga o Uchiha para tentar entender a linha de raciocínio dela. Como pode ela ser um prodígio na medicina e um pedaço de merda com relacionamento?? Ela não ouviu quando eu falei que ele é movido por seu próprio ego?? Será que eu deixo claro que no fim, ele só não quer perder a fama de gênio, prodígio e talentoso, que é tudo pela sua própria reputação?? Naaaah, eu não vou me dar ao trabalho…
— Claro, claro, deve ser isso aí mesmo... — Eu tenho três regras: 1. Eu não discuto com doido. 2. Eu não discuto com quem ouve apenas o que quer. 3 Eu não discuto com quem é cego de amor. A Haruno consegue ser os três.
Saí do meio dos dois, permitindo-os conversarem sem mim, pois já percebi que a essa altura do campeonato o melhor é ignorá-los. Logo menos esse assunto deixa de ser novidade e nem eles, nem ninguém vão me aborrecer. Com isso, dei uma desculpa esfarrapada sobre estar cansada, e fui até o apartamento do Naruto, deixando-os a sós, enquanto eu curtia alguns momentos de silêncio e tranquilidade, sem me preocupar com a parte caótica da situação, já que não fui eu quem saí fazendo filho.
Comprei um obentô qualquer e passei a tarde com um livro e algumas xícaras de chá. Naruto chegou apenas após o anoitecer e, após jantarmos (lamen), ele adormeceu e eu fiquei no beiral da janela como fazia antes de me mudar, observando a monotonia de Konoha acompanhada da melodia dos roncos de meu irmão. Acho que eu não senti tanta falta dessa última parte.
Quase meia-noite e avistei alguém sozinho caminhando, vindo da direção do Distrito Uchiha. Torci a boca logo que reconheci a silhueta da Karin... Isso são horas??
Levantei e saltei pela janela, querendo apenas voltar pra minha casa. Agora com a gestação dela, não acho que seja correto eu ficar invadindo a casa do Uchiha toda hora. Parei em um telhado alto no distrito Uchiha, dei uma boa olhada ao redor e suspirei.
Mais ao sul tem uma região bem destruída pelos nossos treinos frequentes, que agora não serão mais tão frequentes assim... Acho que serei bastante afetada também, logo agora que eu estava começando a gostar do rumo que minha vida estava tomando.
Será que ela fez de propósito??
Balancei a cabeça e retomei o caminho pra minha casa. Isso NÃO é problema meu. Parei no meu telhado e desci para o chão, mas antes de entrar, hesitei. Olhei para a mansão Uchiha, e por conta do breu da noite, era possível ver uma luz fraca vindo da mansão principal... Será que ele tá bem?? Não Naruko... Isso não é problema seu!!
Respirei fundo e passei uma das mãos pelo cabelo... Eu não deveria me preocupar com ele, afinal, ele é o maior errado nessa história toda... Desgraçado, boçal, insensato... Como pôde ser tão inconsequente?? Maldito egocêntrico do caralho.
Desde a primeira vez que o vi sabia que me daria dor de cabeça conviver com esse ser insociável.
Consigo recordar claramente desse dia e dos eventos que se sucederam para que eu o conhecesse. Lembro de chegar às pressas no esconderijo do velho, corpo encharcado de suor, dores musculares por ter usado todas as minhas forças para chegar mais rápido, respiração tão pesada que a barriga chegava a doer, tanto esforço e ainda sim... Insuficiente. Kimimaro havia partido e, com certeza, não retornaria.
Deixei Orochimaru com o Kabuto, fui para meu quarto aguardar novas ordens enquanto o velho agonizava na espera de realizar a troca de corpos e, apenas alguns minutos depois, eu descubro que o receptáculo não chegou a tempo e Orochimaru precisou realizar a troca de corpo antes. Meu humor ruim, piorou, pois todo o esforço empregado para a chegada do receptáculo, inclusive a morte do Kimimaro, foi em vão e conhecendo o velho, o tal receptáculo seria seu novo pet por dois anos enquanto eu precisaria ter contato direto com ele no meu dia-a-dia... Mal posso me conter de felicidade.
Logo que ele chegou parecia ter saído de um combate, então Orochimaru o deixou descansando e fui chamada para conhecê-lo apenas no dia seguinte, o que fiz, a contragosto. Avistei-o ao longe e só pude torcer a boca ao pensar que "era por esse molequinho que todo mundo foi mobilizado ontem?", e logo em seguida, na primeira vez em que nossos olhos se cruzaram, ele ficou nitidamente espantado, o que me deixou ofendida. Num geral, não foi uma boa primeira impressão.
— Naruto? — Ele deu um salto para trás enquanto seus olhos adquiriram um tom carmesim interessante e eu o acompanhei somente com o olhar sem sequer me mover. Apenas alguns segundos após ele me examinar dos pés à cabeça, pude perceber ele se acalmando aos poucos e só então se voltou para o velho.
— Que tipo de brincadeira sem graça é essa? — Ele apontou pra mim como se eu fosse uma aberração, filho da puta. Mal cheguei e já não tava gostando dessa conversa.
— Imaginei que seria bom você ter alguém da sua idade para fazer companhia. — Orochimaru sorria, parecendo entretido. — Esta é a 19066, espero que vocês se tornem amigos. — Vai sonhando!!!
— É uma ordem? — Eu me pronunciei, encerrando a conversinha dos dois, só que antes do velho responder o moleque se pronunciou.
— Eu não vim aqui para fazer amigos…
— Melhor assim, não quero um molequinho apegado vindo atrás de mim. — Ele torceu a boca, nitidamente irritado e quando ameaçou vir pra cima, o velho colocou a mão sobre o ombro dele, parando-o.
— Este é Uchiha Sasuke, um dos últimos remanescentes do famoso clã Uchiha. — Ahhh... Agora entendi, mais uma raridade para a coleção de aberrações. — Você irá treiná-lo. — QUE? Eu e o moleque encaramos o velho, incrédulos.
— O combinado era VOCÊ me treinar. — Ele deu um tapa na mão de Orochimaru, indicando para não tocá-lo e isso me deixou em alerta.
— Quando chegar ao nível dela, eu te treino pessoalmente. — Eu quis rir da situação pelo velho chamá-lo de fraco, mas a real é que não tem graça ter que me tornar professora, ainda mais de alguém que mais parece um animal arisco.
— Se o problema é esse, podemos resolver agora. — Eu sorri, desejando que ele me atacasse primeiro para eu poder revidar e colocá-lo em seu lugar.
— Eu não faria isso se fosse você, Sasuke-kun. — Orochimaru o advertiu. — Ela está muito acima do seu nível atual. — Isso só pareceu irritá-lo ainda mais, e eu nem precisei fazer nada.
— Não é como se eu já não tivesse feito isso antes. — Mas do que caralhos ele tá falando? Ou está me confundindo com alguém, ou é maluco... E eu tenho como regra pessoal não discutir com maluco, então encarei o velho, aguardando alguma ordem ou permissão para atacar. — Espero, pelo menos, que você seja um desafio maior do que ele... — Ele quem, porra? Se não vai falar algo que faça sentido, melhor ficar em silêncio, né?
Revirei os olhos ao imaginar o decorrer dos meus próximos anos e já que o velho não me advertiu ou impediu, como se aceitasse meu destino, decidi começar a discipliná-lo desde já.
— Uchiha, né? Quando Orochimaru-sama disser algo, é melhor você escutar.
— Não estou aqui para ser o cachorrinho dele, como você.
— Claro que não, você não é nem digno disso... — Olhei-o dos pés a cabeça antes de prosseguir. — Você está apto a ser, no máximo, alguma espécie de aberração ou, com sorte, um pet exótico para podermos exibir... Afinal, não tem muitos Uchihas por aí, não é?
Logo que ouviu minha resposta, os olhos dele adquiriram um tom avermelhado novamente, e ele começou a acumular chakra com a natureza relâmpago na mão esquerda, o que me levou a duas conclusões: 1. Ele é desaforado e adora provocar os outros, mas se o respondem ele perde o controle e sai atacando. 2. Ele é canhoto, assim como eu. Quando acumulou chakra o suficiente, era possível ouvir um som semelhante ao de pássaros ao passo que ele avançava em minha direção.
Liberei o chakra da Kyuubi, já formando um manto com três caudas, e fiz apenas um clone com esse mesmo chakra. O clone segurou no braço dele, impedindo que o golpe atingisse alguém, enquanto eu apenas me aproximei e o soquei no estômago, sem a necessidade de utilizar de qualquer jutsu para isso.
O impacto do meu golpe o arremessou para longe, e o próprio jutsu dele explodiu quando seu corpo bateu contra a parede, causando danos a ele mesmo. Caminhei tranquilamente, desfazendo duas das caudas do manto de chakra da Kyuubi, pois ficar nessa forma me causava dano e logo que me aproximei, fiquei um tanto impressionada por ele não ter perdido a consciência, mas era nítido que ele já estava fora de combate.
— Primeira lição, moleque... Aprenda a controlar suas emoções e nunca ataque indiscriminadamente. — Eu o deixei para trás e voltei ao meu quarto.
Mais tarde, levei bronca do Kabuto, pois quebrei alguns ossos do moleque e, mesmo com jutsus de cura, demorou uma semana para o treinamento dele se iniciar.
. . .
Relembrando como nos conhecemos, de fato não posso dizer que tivemos uma boa convivência no início. Segurei o riso por um momento pensando em quantas vezes eu espanquei aquele idiota e em como talvez eu precisasse fazer isso hoje… Não que apanhar traga algum juízo ou humildade para aquele filho da puta, mas me traz paz de espírito.
Mas mesmo reclamando, xingando e querendo matar aquele arrombado, cá estou na frente da casa dele, entrando pela porta da frente enquanto amaldiçoo todos os meus ancestrais por eu ser uma idiota que ficou mole com o tempo.
Não consigo discernir muito bem, mas acho que estou um pouco impaciente hoje…. Provavelmente é fome, mas para não descontar no Uchiha, mesmo ele merecendo, respirei fundo e entrei na cozinha, já dando de cara com o irresponsável sentado à mesa, tomando chá. Todos os itens do asagohan de hoje ainda estão lá, intocados e ele sequer me olhou.
— Você está deplorável. — Ele me encarou apenas de canto de olho, tinha uma expressão cansada e meio triste e, eu posso até ser considerada ruim, cruel, ou qualquer outro adjetivo do gênero, mas uma parte de mim gostou de vê-lo assim… Mas…. Ignorando esse lado mais egoísta, comecei a tirar os pratos da mesa, jogando a comida fora e colocando a louça na pia. — Achei que ser pai era seu próximo objetivo, não é? Aquela coisa de reconstruir o clã Uchiha…
— Não com a Karin. — Ele finalmente falou, e deu o mesmo duplo sentido dessa manhã. A ideia de que ele tem alguém com quem queira estar já... Não é da minha conta… Mas… Será que devo perguntar? Eu me sentei à mesa, próxima a ele, após tirar todos os pratos.
— E que diferença faz engravidar a Karin ou outra mulher? No fim das contas, qualquer uma daria o mesmo resultado… — Estou começando a ficar com dor de cabeça, e a demora dele para responder uma simples pergunta parece piorar o quadro.
— Você... — Ele hesitou antes de prosseguir. — Está irritada??
— ... Por que eu estaria? — Eu não deveria ter vindo aqui, quero ir embora.
— Se eu soubesse não teria te perguntado.- Grosso, ignorante.
— Não estou irritada e nem tenho nenhum motivo para isso. — Ele me encarou por alguns momentos em completo silêncio, até eu ficar desconfortável e desviar o olhar. — ... Só acho engraçado que, na hora de responder às minhas perguntas você tenta desconversar e inverter a situação.
— Eu estou interessado em outra mulher. Era essa a sua dúvida? — Merda, por que eu fiquei acanhada com essa resposta?? Ele anda bem mais direto do que eu estava adaptada.
— Ah... Veja pelo lado bom... Algumas mulheres não se importam de se envolver com um pai solteiro... — Continua falando, não deixa ele perceber que você está desconfortável. — ... A Sakura, por exemplo, pareceu não se importar.
— Não tenho interesse na Sakura.
— E assim... — Preferi ignorar a última frase dele e prosseguir com minha linha de raciocínio. — Se o seu objetivo é restaurar o clã, é mais fácil quando se tem mais de uma mulher.
— Se o seu objetivo era me consolar, você é péssima nisso. — Errado ele não está.
— É. Você tem razão... Eu deveria ter te chamado para beber, mas fiquei com receio da mãe do seu filho surtar. — Ele me olhou de canto, estava ficando irritado. — Pense pelo lado bom, você pode não gostar tanto da Karin, mas a genética Uchiha com a genética Uzumaki trará uma criança muito forte!
Ele me encarou e, por um momento, acreditei que me responderia, mas acho que ele desistiu e voltou a tomar seu chá. Eu aproveitei para me servir e tomamos chá em silêncio por alguns minutos.
“Se o seu objetivo era me consolar”, eu nunca cogitei vir consolá-lo e, para ser honesta, eu nem sei o que eu vim fazer aqui. Achei que estava vindo ver como ele estava e, em alguns momentos eu quis até espancá-lo, mas eu viria ver ele pra quê, afinal?
Ouvi uma risada muito familiar e suspirei, já fechando os olhos e reconhecendo o Kurama de imediato.
— Qual a graça?
— A graça é que um ano atrás você estava vivendo com aquela cobra e não se importava com nada, e agora está aqui com ciúmes do moleque Uchiha. — Ele riu novamente.
— Não seja ridículo… Não estou com ciúmes do Uchiha.
— Não mesmo. Você está morrendo de ciúmes, isso sim. — Ele sorria, provocativo
— Uhum… Do mesmo jeito que você ficou com ciúmes quando eu e o Naruto aprendemos Senjutsu, ou um ciúme diferente? — Ele fechou a cara e foi minha vez de sorrir.
— Eu não estava com ciúmes, só queria preservar meu espaço... — Ele se aproximou de mim, parecendo ameaçador, mas sei que é um tsundere*. — Ao contrário de você, que parece uma mocinha apaixonada.
— Por favor, né... Eu? Apaixonada? Já é improvável demais para se cogitar... E ainda mais pelo Uchiha?? Isso beira o insensato.
— Diz isso depois que quase tiveram relações essa manhã.
— Isso é irrelevante e não indica qualquer sentimento por ele... — Eu me aproximei o suficiente para escorar meu corpo junto a uma de suas patas, já me aconchegando em seus pêlos. — E eu hesitei bastante antes de aceitar a proposta.
— Mas aceitou… E eu achava que você tinha bom gosto. — Eu ri, parece que não sou eu quem estou com ciúmes.
— Eu também... Acho que venho decaindo... Talvez o jinchuuriki do Shukaku seja mais interessante. — Kurama virou seu rosto em minha direção, o olhar ameaçador e as presas evidentes.
— Você não se atreveria. — Sorri com a expressão irritada dele.
— É um kage, né...
— Eu me nego a conviver com aquele Tanuki.
— Por que não? Achei que fossem amigos. — Eu sei que eles se detestam.
— Se fizer isso, eu farei da sua vida um inferno.
Ele se irritou e me colocou pra fora do meu próprio subconsciente, onde eu e o Uchiha ainda tomávamos chá em silêncio e, dessa forma, logo finalizamos nossos copos e ficamos ali por mais alguns minutos.
— Acho que é melhor eu ir e deixá-lo organizar os pensamentos por hoje… — Levantei e caminhei até a direção da porta, mas parei antes de sair. — Caso queira extravasar, podemos manter nossa rotina de treinos pela manhã.
— Amanhã não posso. — Ele levou as mãos para o cabelo, irritado. — … Vou ter que passar o dia com a Karin.
Ah… Merda…
… Merda…
MERDA!!
Eu estou com ciúmes, mesmo! Raposa arrombada do caralho…
— Ah claro, eu devia ter pensado nisso… — Engoli toda minha raiva naquele momento, concordei e sorri. — … Tenha uma boa noite então… — Saí da casa só faltando prender a respiração pra não evidenciar o ódio que estou nesse momento.
*Tsundere é um termo japonês para uma personalidade que é inicialmente agressiva, que alterna com uma outra mais amável.
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