Narcisos

12 Só há um de você


Não demoramos muito no abismo após o experimento. Minha cabeça deveria estar mais calma após receber prováveis respostas sobre as consequências da minha acidental viagem no tempo, mas meus pensamentos estavam embaralhados. Eu estava possivelmente preso no passado e tinha acabado de me beijar.

Foi bom.

Thomas e eu andávamos pelas calçadas sorrateiramente, com medo de qualquer desconfiança alheia. Nós não tínhamos ao menos um boné para tentar esconder nossos rostos iguais, foi então que tivemos uma ideia na metade do trajeto: simplesmente irmos para casa separadamente, por caminhos diferentes.

Logo cheguei e dei à volta na casa, indo diretamente à casinha da árvore. Mamãe deveria estar dormindo e eu planejava fazer o mesmo após estar a mais de vinte e quatro horas acordado.

Thomas chegou minutos depois me dizendo que foi tudo bem no trajeto de volta, que chegou a ver os agentes o olhando para ele por um momento, mas que aparentemente não lhe deram importância.

A casa da árvore estava ajeitada com lençóis e travesseiros. Quem estivesse lá embaixo não conseguiria ver como estava em cima, então eu estaria seguro, sabia que mamãe não entraria ao acordar.

— Espero que consiga dormir logo — disse Thomas. — É domingo, aproveite. Eu vou lá pra dentro dormir também. Se eu dormir aqui em cima com você talvez mamãe me procure e acabe subindo.

— Não pensei nessa possibilidade.

— Cuidado, está bem? — Thomas pôs a mão em meu rosto. — A gente se vê já já. E gostei de você ter ficado... Mesmo que por obrigação.

— Eu sei! — Acabei sorrindo.

— Tudo vai ficar bem, eu prometo. Você vai ficar bem.

Thomas tirou a mão de mim e saiu da casinha.

Eu me deitei apoiando a cabeça sobre o travesseiro, martelando cada momento desde o grande ocorrido. O sono caiu pesado após poucos minutos, mas antes de fechar os olhos ainda não tinha certeza se conseguiria dormir. Não sabia ao certo como seria minha vida por um ano inteiro longe de casa ao mesmo tempo que me esconderia nela.

“Apenas durma, idiota! Seja capaz de algo.”

Seria uma longa manhã em claro...

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Eu dormi.

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Quando acordei estava quase anoitecendo. Dei um enorme bocejo silencioso quando sentei no centro da casinha. Fazia frio, ventava demais, mas eu sabia que não podia sair, mesmo com uma enorme vontade de ir ao banheiro, porque mamãe já deveria estar acordada. Eu queria vê-la de novo, mas teria que esperar.

Meus olhos ardiam por causa do sono e da brisa os tocando, eu abraçava o meu próprio corpo em busca de calor, mesmo sabendo que não seria tão útil.

Uma mão tocou o chão da porta e levei um susto. Logo vi a cabeça de Thomas. Ele pôs um prato com cachorro quente no chão. Eu puxei a porcelana para perto.

— A gente vai jantar isso hoje, legal né? — me informou.

Ele desceu e subiu novamente, agora com um copo de refrigerante, sentando em minha frente.

— Mamãe foi visitar tia Rosa. Deve chegar daqui a uma hora mais ou menos. Conseguiu dormir?

— Consegui. Achei que não ia, mas meu corpo estava pedindo isso. Me sinto cansado ainda. E preciso ir ao banheiro.

Me levantei e saí, atravessando o quintal, entrando na cozinha e indo em direção ao sanitário. Não demorei e logo voltei a casinha, devorando os cachorros-quentes rapidamente. Quanto mais eu comia, mais minha barriga pedia mais e mais.

— Eu trouxe pra nós dois.

— O quê? — Me assustei, ainda com um pedaço de salsicha na boca, pensando ter o deixado com quase nada. — Então porque não disse? Ou começou a comer também?

— Eu só queria ver até onde você aguenta.

Engoli a salsicha seco.

— É... Bem... Bom... Tava bom, obrigado...

— Não precisa agradecer, você faz parte daqui agora, e pensando em contar a mamãe hoje.

— Hoje não! Não estou preparado pra isso, não ainda. — Respirei fundo. Eu estava enfrentando muita novidade em minha mente, não precisava da confusão de mamãe sobre mim a essa altura. Eu precisava era de um descanso por enquanto.

— Ok... Vou levar o prato lá pra dentro. Pode descer se quiser, tomar um banho, comer algo mais, escovar os dentes ou qualquer coisa.

Apenas assenti e ele desceu. Permaneci na casinha por dois minutos, quase imóvel, mas decidi fazer logo o que Thomas recomendou. Mamãe poderia chegar a qualquer momento.

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Entrei no box transparente do banheiro imediatamente ligando o chuveiro. A água estava fria, felizmente, sempre preferi ela assim. Thomas estava do outro lado me vendo tomar banho através do vidro. Eu não me importava. Por algum motivo gostava de ser observado por ele a essa altura.

Quando virei o rosto o vi tirando a roupa. Essa era a primeira vez que o via pelado e foi a primeira vez que senti uma timidez real perto dele.

Thomas veio por trás, com o shampoo na mão, ficando sob o chuveiro. Ele pôs um pouco do produto em minha cabeça, massageando meu couro cabeludo. Eu não tinha a menor vontade de questionar sua ação, porque eu sabia que ele queria tomar banho comigo, então por quê não?

Thomas pegou em meus ombros e me virou com cuidado, agora me olhando nos olhos enquanto fazia espuma sobre mim. Me peguei olhando os seus lábios e tentei não fazer isso, mas algo pior aconteceu.

Eu era virgem, nunca senti um corpo nu e quente tão próximo ao meu. Um contato físico tão íntimo me deixou, mais uma vez, involuntariamente excitado. Foi confuso. Evitei olhar para baixo também com medo de que ele notasse, quando senti algo mais. Ele também estava e percebeu que notei.

— Normal, eu sou gostoso.

— E um tanto narcisista, pelo visto. — Aproveitei para continuar o diálogo iniciado por ele na esperança de me distrair e o meu “brinquedinho” se aquietar.

— Eu não interpreto assim de forma tão extrema, só gosto de mim e com isso você leva vantagem já que gosto de você. — Ele deu seu sorriso doce que caia muito bem em seu rosto molhado com os cabelos caídos sobre a testa. — Eu gosto tanto de você que quero te dar uma vida normal enquanto está aqui.

— Ah é?

— É. Te dou a chance de ir no meu lugar pra escola todos os dias. — Agora Thomas tirava os resquícios do shampoo de mim com a água que caía sobre nós.

— Imagino como deva estar chorando de dor por dentro por fazer tal sacrifício! Confesso que já pensei nisso e quero ir, mas não direto, uma vez ou outra. Você precisa estudar e eu não tenho paciência para te ensinar os assuntos todos os dias depois da escola.

— Eu sei, Tom. Tenho que estudar e tal... Legal... Me beija de novo!

— O quê? — Não pude deixar de levar mais um susto.

— Eu gostei. Fora que olha o nosso estado... emocional... Agora não preciso mais fazer tudo sozinho, tenho uma mão amiga... — Ele aproximou sua boca do meu ouvido e sussurrou em seguida um “e você também”.

Me arrepiei dos pés a cabeça me perguntando onde estava essa atitude toda quando precisei dela para tentar conquistar as meninas que eu gostava. Apesar que se eu chegasse com essa historinha de “mão amiga” provavelmente causaria um susto.

— É melhor pararmos por aqui. Mamãe pode chegar a qualquer momento. E você trate de se enxugar para não ficar resfriado depois que sair daqui.

— Claro, Tom. Porque o meu plano era mesmo sair molhado pela casa. Só relaxa, por favor! Não precisa ter medo de nada e nem pagar de responsável maduro.

— Uma coisa boa da minha depressão, ela me fez amadurecer.

— Não, ela te fez endurecer. — E saiu de perto deixando o shampoo no chão e passando a toalha de banho branca sobre o corpo. — Eu me conheço, me conheci ainda mais quando você chegou aqui ontem. O sorriso que vejo no reflexo do espelho quando me sinto bonito não é o mesmo que vi em você. Eu não quero chegar ao seu estado, não quero nunca sentir vontade de tirar minha própria vida, e vou garantir que esses pensamentos saiam da sua cabeça. Vou lutar por você e peço que me ajude, Tom.

Ele virou as costas e saiu do banheiro se enxugando. Não entendi se ele estava revoltado por eu não ter colaborado com a masturbação dele, se queria me dar lição de moral ou se queria me motivar. Eu estava achando impressionante o quão confuso me sentia por causa de um eu que conhecia.

Apenas desliguei o chuveiro, olhei em minha volta e respirei fundo gritando:

— Thomas, a toalha!

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Eu não percebia, mas aos poucos estava começando a ficar em paz. Era tudo muito novo, muito recente, mas a sensação de se estar se adaptando rápido demais me assustava na mesma velocidade em que me confortava.

“E se for perigoso me adaptar tão fácil?”

Thomas estava na casinha e eu? Ao lado da minha mãe no sofá da sala, encostadinho a ela enquanto assistíamos um filme triste onde o protagonista estava morrendo no final.

Mamãe, como sempre, cheirava bem e tinha o corpo quentinho. Eu me sentia protegido e acolhido; me sentia como se nunca tivesse a perdido. Já era noite, o que deixava o clima bem mais agradável. Ela estava triste pela morte do personagem e eu também, estávamos envolvidos com a história e claro que ver o protagonista morrer me deixou mais abalado do que a ela.

Estava tudo escuro e apenas a luz da televisão clareava a sala.

— Porcaria de filme! — reclamei. — Ele deveria ficar vivo, passou por tanta coisa, mãe.

— Baixa a bola, querido, a vida tem dessas. Injusto, mas é a realidade.

— Eu sei, mas deveria ter prazo certo para as pessoas morrerem, tipo, só morrer obrigatoriamente quando chegar a cem anos de idade.

— Então coitado daquele que for soterrado em uma catástrofe. Ficaria agonizando por debaixo da terra por décadas, Deus é mais! Se o momento de partir chegar então chegou e pronto, não tem o que fazer.

— Tentar sobreviver.

Mamãe se desgrudou de mim e me olhou perguntando se eu estava bem.

— Estou... É que morte é um assunto pesado para mim. Eu não me importo se eu morrer, mas me importo se for alguém que eu ame.

— Oh, meu bem, tire essas coisas da sua cabeça. Vai demorar muito para que alguém que você ame vá embora. Eu mesmo estou jovem e saudável, nem sei porquê sou solteira ainda.

— Porque ninguém é o suficiente pra senhora — eu disse e ela riu.

— Apenas viva sua vida da melhor forma que conseguir, tudo bem?! Porque como qualquer um sabe, ela não é eterna, felizmente. A imortalidade é uma maldição até pra quem a deseja. O bom da vida é que ela tem um limite e isso nos impulsiona a vivê-la em maior intensidade.

— Não é isso que vejo as pessoas fazendo.

— É porque a gente vive como se fôssemos eternos, então, infelizmente não nos ligamos que um dia tudo isso aqui acaba, Tom, que um dia um de nós estaremos assistindo o funeral do outro, nos lembrando do que fizemos e do que deixamos de fazer; que um dia seremos apenas lembranças e retratos e que até eles têm seu prazo de validade, porque assim como nossos nomes, nossa imagem será apreciada uma última vez, e ok. Entende? Até a morte tem sua beleza, porque significa que antes dela tivemos a oportunidade de termos uma vida.

Ver ela falando isso para mim estava me destruindo por dentro, mas eu precisava disfarçar.

— Não prejudicando ninguém, viva sua história do jeito que quiser, sozinho ou com quem quiser. Você, meu filho, tem apenas uma vida, então aproveite, se divirta, estude, trabalhe e se divirta de novo, mas com cuidado, porque nesse mundo só há um de você, e ninguém merece se desperdiçar.