Narcisos

13 Cabelos cor de rosa


A conversa que tive com mamãe ecoou em minha mente durante toda a noite. Eu deveria me mexer, tentar fazer coisas novas, mas não extrapolar tanto já que os meus passos precisavam ser cautelosos, afinal eu estava onde não deveria, ou pelo menos era assim que eu interpretava. Eu já sabia até por onde deveria começar: pela escola, precisava ajudar Lisa a se enxergar melhor e ver que poderia ter algo melhor do que o Enzo, o até então namorado dela. A garota precisava de alguém a sua altura ou pelo menos se sentir suficiente sozinha. Após isso, eu iria observar melhor o relacionamento que eu tinha com Hugo, o menino que largou nossa amizade na minha pior fase.

Já era segunda-feira pela manhã quando Thomas trouxe o meu café na casinha. Ele ficou lá enquanto eu desci e interagi com mamãe. Me arrumei para ir à escola e quando estava prestes a sair, mamãe, que assistia no sofá da sala enquanto tomava uma xícara de café, chamou minha atenção.

— Sim? — Eu segurava a maçaneta da porta enquanto esperava mamãe falar. Estava com os cabelos penteados para o lado e com a farda azul da escola, tentando vestir a melhor máscara de ingênuo que eu podia conseguir.

— Sei lá, fico olhando para você e vejo algo estranho, sinto algo estranho, mas não consigo mesmo saber o que é e nem desenvolver qualquer ideia.

— É... Talvez eu só esteja crescendo — falei exibindo um sorriso amarelo.

— É, é, pode ir! — balançou a mão vazia para mim, fazendo sinal para eu ir embora logo, expressando incertezas em seu rosto.

Eu estava tranquilo porque sabia que jamais passaria pela cabeça de Sofia a menor possibilidade de eu ser um viajante do tempo. Agora só torcia para Thomas não sair da casinha até eu voltar.

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Em 2020 passei pelo portal em uma segunda-feira. Ao chegar na mesma data em 2019, era um sábado. Passou-se o domingo e era segunda novamente, dia 11 de novembro. Ou seja, eu estava há apenas um dia longe da escola e pareceu uma eternidade, tanto que foi estranho olhar para ela novamente.

Tinha ido a pé, mas consegui chegar no horário certo.

Por mim passavam rostos conhecidos, alguns falavam comigo e acenavam. Eu os respondia, claro, e eram poucos os alunos que mudaram de aparência de modo notável de um ano para o outro. Era fácil reconhecer todo mundo. Após uns dois minutos de procura, achei quem queria. Me aproximei e levantei a mão acenando suavemente para a garota de cabelos cor de rosa. Por um momento esqueci que ela não estava com o vermelho e que esse só viria no ano seguinte. Ao seu lado o namorado, Enzo. Eu já não via a hora de acabar com esse relacionamento. Diabólico, eu sei, mas era por uma boa causa.

Fui ao até então casal. Estavam sentados sobre um assento de concreto em um canto do pátio. Enzo olhava o celular enquanto Lisa estava com seu braço abraçando a cintura dele. Ela sorriu ao me ver.

— É muita felicidade para um início de semana — comentei. Enzo olhou para mim e não conseguiu esconder a insatisfação. Ele não gostava de ver a namorada de conversa com outros garotos. Logo voltou a pôr a cara no celular.

— E que culpa tenho eu de você ser o amargo do grupinho? — ela brincou. Brincou...

— O cabelo rosa cai muito bem em você. Se um dia pensar em mudar para o vermelho, exclui a ideia, porque ficará ótimo, mas não tão bom quanto esse, vai por mim!

— Pode até ser, mas agora que você falou, vou pintar de vermelho para ver se realmente fica ruim. O que acha, amorzinho?

— Hum? — Enzo saiu do seu mundinho digital por mais um instante. — Não é nada importante, então tanto faz. Não sou cabeleireiro para entender de peruca.

Um clima estranho pairou no ar. Enzo sempre fazia comentários do tipo e isso já acontecia há semanas. Lisa já se mostrava cansada, pensava em terminar o namoro, mas a ideia de ter alguém ao lado era mais forte. Eu só precisava adiantar o momento do término, porque no fundo ambos eram semelhantes, ambos não possuíam mais o fogo do início do relacionamento. Ela não queria se sentir insuficiente e ele queria exibi-la a todos como um troféu, como uma certeza de ter conseguido alguém.

Decidi cortar o clima ao perguntar o óbvio à Lisa.

— Já começou a estudar para as provas de fim de ano? Se não, bem que a gente poderia se reunir para fazer isso.

— Eu topo, tenho tempo. Fora daqui sou desempregada mesmo.

— Vocês já se veem tanto aqui que não sei como ainda não enjoaram da cara um do outro — Enzo alfinetou. — Mas a gente pode se juntar sim.

— O convite não foi para você — falei, chocando os dois. Há um ano eu teria guardado muita coisa e já não estava mais disposto a isso. Não sei nem se tinha tempo. A minha teoria era de que ficaria um ano no passado, mas o tempo é traiçoeiro. — Não me leve a mal. Ou leve, se quiser, não importa. Muita coisa já não importa mais, mas as pessoas insistem em fingir que sim. É cansativo.

— Não estou entendendo nada — Lisa falou.

— Eu entendi que o seu amiguinho quer me excluir do grupo, Lisa.

— Como se você já tivesse feito parte dele, o que, mais uma vez, não importa, não para você. Lisa mesmo gostaria que fizesse mais questão dela ao invés de só fazer isso quando está com seus amigos.

Enzo se levantou para ficar a minha altura, guardando o celular no bolso.

— Não sei o que deu em você, Benson, mas me faz um favor não se intrometendo no meu relacionamento. Apenas eu e ela temos o direito de decidir o que é bom ou não para nós!

— Mas vocês não sabem. E Lisa — olhei para ela —, vou precisar conversar a sós contigo depois.

— Não vai não — e Enzo se exaltou ainda mais. A curta conversa evoluiu rapidamente para um conflito e eu ia percebendo aos poucos que a minha abordagem não foi exatamente adequada. — Depois desses seus papinhos acha que não sei que quer colocar ideias na cabeça dela quando tiverem sozinhos? Tá de olho nela por acaso?

— Gente, por favor! — Lisa se levantou demonstrando constrangimento e impaciência. — Vamos pra sala.

— Claro! — Enzo a olhou com um sorriso nervoso. — Me defender, defender nosso relacionamento, você não quer, agora fugir de sua obrigação de dar uma lição de moral nesse idiota é com você mesmo. Mas o que eu poderia esperar de diferente? Sempre que falo qualquer coisa dele você puxa minha orelha.

— Enzo, se acal...

— Quer saber? — Ele a interrompeu. — Fica aí de papinho com o seu amiguinho, já que essa sua mentalidade imatura e frouxa não te permite ficar do meu lado.

Enzo então saiu apressado de perto. Era sempre assim em qualquer discussão dos dois. Meu coração estava acelerado e minha mente criava aos poucos um sentimento de culpa, mas eu não podia recuar. Lisa não ficaria com alguém tão explosivo como ele e ela veria que só estavam juntos ainda por capricho dos dois.

— O que foi isso? — ela me questionou, visivelmente abalada.

— Por favor termina com ele!

— O quê? Tom, o que deu em você? Eu sei que Enzo é um cara difícil e eu sei que já me alertou sobre isso, mas...

— Você não o ama mais. Acorda pensando em qualquer coisa, menos nele em primeiro lugar. Ainda não fez isso, mas tem vontade de se abrir comigo e com o Hugo sobre o quanto se sente frustrada e que as vezes só quer chutar o saco dele. Você ainda não nos disse isso, mas nunca vê verdade no “eu te amo” dele. Lisa, se não está dando certo, se ele não se importa com o que você faz, se ele sente uma necessidade de te afastar das suas amizades, termina com ele logo antes que tudo piore.

Lisa me assistia sem reação. Seus olhos marejados entregavam o choque de me ouvir falar aquilo que estava preso em sua garganta. Foi então que joguei a última pá de terra.

— E vai estar tudo bem. Você não precisa de um namorado para se sentir querida. Tem eu, que te amo, e você que pode se sentir suficiente sem precisar de alguém, acredite em mim. Pode parecer um ideal clichê distante agora, mas é a verdade que no fundo você sempre quis acreditar, meu bem. Conte com o tempo para te ajudar também, porque é isso que ele faz as vezes.

— O que realmente deu em você? — Ela então se virou e foi na direção do Enzo.

Quem agora estava em choque era eu.

Acontece que não pensei que isso aconteceria, mas por ir rápido demais, por querer adiantar a fita, eu a assustei. Eu a vi vulnerável. Eu falhei na minha primeira tentativa.

Em uma rápida tomada de decisão, resolvi segui-la à distância. Ela ia apressada por entre os alunos que estavam espalhados pelo pátio, muito bem distribuídos, então não era difícil acompanhar seus passos. Não a chamei e estava torcendo para ela não me ver porque eu já sabia que ela iria até o Enzo e estava rezando para poder ser em um lugar favorável para que eu pudesse escutá-los.

Senti uma mão segurar a minha com força, me impedindo de concretizar o meu plano de perseguição. Olhei para trás e fiquei petrificado ao fitar novamente aqueles olhos verdes que me observava após tanto tempo.

— O que está acontecendo? — ele perguntou, bastante curioso.

— Hugo?

— É né, infelizmente não é a gostosa do terceiro ano te dando bola. E o que está acontecendo? — Largou minha mão. — Quando eu estava chegando perto de vocês vi Enzo indo embora com cara de cu, depois Lisa quase chorando e você aí correndo atrás dela. Eles brigaram de novo?

— Pra variar... — Ele era lindo. Nossos momentos juntos passaram como um filme diante dos meus olhos. Dividimos tantas histórias... Houve um momento que realmente acreditava que o levaria para a vida.

— Então deixa eles pra lá, ué.

— É que meio que foi minha culpa dessa vez. Preciso saber onde vai dar.

— Ah não, Tom! — Hugo cruzou os braços. — Eu já te falei pra ficar longe de qualquer coisa que esquente a tua cabeça, não foi?

— Sim, mas...

— Mas eles que se resolvam. Você sabe como Enzo é e ainda fica de conversinha com ele. Se afasta dele e terá menos dor de cabeça.

Minha visão hipnotizada se desfez em um piscar de olhos após a fala de Hugo. Mais uma vez momentos passaram pela minha cabeça, agora pouco tempo após a morte de mamãe. Ele já tinha mesmo me dado esse conselho, mas na época não imaginava que o meu “amigo” o seguiria tão bem.

— É tão fácil assim se afastar das pessoas? — perguntei.

— A questão não é ser fácil ou não, a questão é que vocês não se gostam, e fora que é sempre melhor ficar longe de quem te cansa, te faz mal, entende? Nossa, parecendo o meu pai agora. Anda, vamo ao banheiro que eu quero ver se o vento não bagunçou meu cabelo no caminho pra cá. O que foi? — questionou ao me ver o olhando seriamente. Era muito fácil ter outra perspectiva sobre as pessoas a sua volta e era ainda mais revoltante notar que as atitudes estavam escranchadas bem na minha cara.

Eu me senti tão estúpido.

— Não, vou fazer o que tenho que fazer. — Saí de perto e comecei a procurar Lisa que estava fora do meu campo de visão. Não vi a expressão de Hugo, mas provavelmente a minha cena não significou nada para ele. O cabelo era mais importante.

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Eu não sabia o que havia acontecido com o casal. Encontrei Enzo sozinho na biblioteca com uma expressão de dor, e só vi Lisa quando entrou na sala de aula após o sinal tocar. A professora alta e ruiva, com várias sardas pelo rosto e óculos de grau, ensinava biologia. O assunto eu não me recordo. Eu deveria anotar tudo para passar a Thomas depois, mas os pensamentos estavam a mil na minha cabeça.

Ficava relembrando minhas dúvidas desde que chegara ao passado e ainda mais sobre o que ocorreu há poucos minutos. Falei para Lisa não pintar o cabelo de vermelho e ela se mostrou interessada em saber como ficaria. Comecei a imaginar e temer a possibilidade do futuro não poder ser alterado. “Meus Deus, que não seja tudo em vão!”

Pensava que Lisa talvez merecesse saber que vim de outra época, afinal sempre esteve comigo, principalmente nos meus momentos ruins, mas temia ainda mais que alguém de fora descobrisse tudo e sobrasse para ela também. Eu jamais me perdoaria.

Lisa estava ao meu lado. Pensei que ao chegar na sala sentaria em uma cadeira distante, mas não foi o que aconteceu. Ela parecia centrada na aula e não olhava para mim. Mesmo com a visão na professa, a ouvi dizer baixinho:

— Eu terminei com ele.

Olhei para ela imediatamente, surpreso apesar de tudo.

— Sério?

— Explico tudo no caminho de casa. Obrigada, Tom... — Foi quando ela finalmente retribuiu o olhar, me lançando um sorriso que deixaria o dia de qualquer pessoa melhor.

Após isso a aula demorou demais a passar. Eu precisava saber sobre a conversa dos dois e sentia necessidade de deixar Thomas atualizado quando eu chegasse em casa. Olhava para o relógio na parede sobre o quadro branco e os minutos se transformaram em uma eternidade.

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Eu e Lisa nos despedimos de Hugo que antes insistiu para tirar uma foto conosco para o seu Instagram, claro. Definitivamente ele era muito centrado em manter seu rosto em destaque nas redes sociais.

Ao sairmos do prédio Lisa finalmente me contou. Ela demonstrava tranquilidade, parecia até que não havia acontecido nada.

— Eu pensei em tudo o que você me falou hoje cedo e estava certo. Por favor não dê uma de Hugo e não fique se gabando.

— Fica tranquila.

— Então, já não havia uma verdadeira conexão entre mim e o Enzo. Estávamos tão distantes e... E não sei. Não era mais a mesma coisa e eu realmente sinto que não o amo mais. Talvez essa seja a única certeza que eu tenho agora.

A rua estava quieta. Íamos sobre as calçadas sombreadas por árvores velhas que existiam antes mesmo do meu nascimento. Isso ajudava a conversa a fluir melhor. Depois da discussão acalorada mais cedo, era necessário que Lisa ficasse longe de estresses.

— E qual foi a reação dele?

— Me chamou de vadia. Foi o momento que eu tive a certeza que ele não é o cara pra mim. E não pense que estou feliz por reconhecer que nada estava dando certo, porque foi o fim de um relacionamento de meses, Tom, e sinto como se eu voltasse para a estaca zero. Me sinto incompleta. Acho que é isso.

— Não deveria. Não precisa de ninguém para se sentir completa. Pode seguir tranquilamente a sua vida sozinha. Comece a se amar um pouco mais. — Senti um pequeno desespero interno. Não acreditei que dei esse conselho a alguém. — Meu Deus...

— Só ele mesmo para me ajudar.

— Ou você mesma... Estou brincando comigo?

— Hem?

— Nada, nada. Enfim, acho que entendeu o que eu quero dizer.

— Entendi, amor, mas não é fácil. Lidar com os sentimentos não é fácil.

— A vida não é. — Dei de ombros. — Mas eu quero você olhando para ela e dizendo “sabe a minha vida? A que ainda tenho chance de viver? Eu vou tentar!”

— Calma, não pretendo desistir dela.

— Menos mal.

Ficamos em silêncio, caminhando de volta para casa até que chegamos na dela primeiro. Não era por esse caminho que eu fazia o meu trajeto diário, mas a gente queria conversar. Antes de me despedir, uma dúvida brotou em mim.

— Lisa, disse que Enzo te chamou da vadia e sei que apesar de ter ficado nervosa hoje, a senhorita é boa de briga. Você não fez nada depois?

— Viu ele pelo colégio depois que eu cheguei na sala?

— Não, por quê?

— Estava na enfermaria. Boatos que ele machucou as bolas quando tentou deslizar pelo corrimão da escadaria...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.