Naraku Apaixonado?
21 Mudança
Capítulo 21
– Sinto cheiro de queimado — disse Inuyasha, voltando o rosto na direção de Kagome.
– É verdade, até eu estou sentindo.
Algumas passadas depois, os dois estavam pasmados diante de um amontoado de escombros, verdadeiras ruínas daquilo que deveria ser a casa de Yeda.
– Mas o que significa isso? — quis saber o meio-youkai.
– Só pode ser algum engano — disse a jovem, e abaixando-se tocou nos restos de uma boneca de louça.
A perplexidade diante do quadro, distraiu Inuyasha a ponto dele não perceber a aproximação de um grupo de pessoas. Assim, de repente, ele soltou um grito de dor quando uma pedra o atingiu na cabeça. No mesmo instante, Kagome levantou o rosto a ele.
– O que foi? — exclamou ela, acordando Kirara com isso.
O meio-youkai voltou-se para trás e a humana virou o pescoço na mesma direção. Então se depararam com vários homens e algumas mulheres. Eles munidos de ferramentas pontiagudas, pedaços de pau e pedras, e elas com olhares severos e faces agressivas.
Inuyasha tomou à frente de Kagome numa postura protetora, e a pequenina youkai, entre as vestes da humana, rosnou mostrando os caninos compridos.
– O que querem? — falou alto ele.
O homem mais à frente foi quem respondeu:
– Youkais não são bem vindos aqui!
Escorando-se ao braço do noivo, Kagome encarou os humanos, acuada e atônita com tamanha hostilidade.
– A mulher deve ser youkai também! — acusou um rapaz.
– Eu não sou youkai! — devolveu depressa ela. – E agora, Inuyasha?
Ele apertou a mão dela, antes de se dirigir ao grupo:
– O que fizeram com Yeda?!
– Demos um fim nela! E faremos o mesmo com vocês!
– Tsc... — praguejou Inuyasha. – Eu devia ter desconfiado quando não senti o youki dela.
– Eles a mataram? — desesperou-se Kagome.
– Claro que não, acha que...
A conversa dos dois foi cortada pelo avanço de um dos homens:
– Vamos despachar esses dois daqui em pedaços!
Reagindo, o meio-youkai agarrou a noiva pela cintura e deu um grande salto, ouvindo as vozes das mulheres incitando:
“Não deixem eles escapar!”
“Irão atrás de outros.”
Usando sua velocidade sobrehumana, carregando Kagome consigo, Inuyasha se distanciou rapidamente daquele local. Os humanos até tentaram seguí-los, mas, em pouco tempo, os perderam de vista.
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Na noite passada...
Yeda estava sentada no chão, recostada numa árvore. Kanna com a cabeça deitada em sua coxa, Naraku em pé a sua frente, e Kagura sentada mais adiante.
– Essa ideia não me agrada — anunciou o meio-youkai.
– Fomos insensatos, Naraku, precisa reconhecer — disse ela.
– Eu reconheço, mas nos fixarmos no vilarejo onde Inuyasha e seu irmão têm vivido não me parece a melhor solução também.
– Ao menos sabemos que aquelas pessoas convivem pacificamente com youkais... e sinceramente, Naraku, sinto falta de lá.
– Aí já é outra história... — suspirou fundo. – Eu não sei, não é tanto por mim, mas por eles mesmo. Não está pensando em morar junto com eles, está?
– Naquela casa não, mas nas redondezas não poderia ser?
– Não entendo porque ficamos divagando sobre isso enquanto aqueles vermes se apossam das nossas coisas — bronqueou Kagura.
Naraku e Yeda olharam na direção em que ela estava.
– Porque eram apenas coisas como você mesma disse, não faz sentido provocarmos mais aqueles humanos só por isso — falou a youkai lobo.
– Hunf... você faz pouco caso demais — devolveu Kagura. – Não havia uma agulha lá que fosse roubada. Tudo fruto de trabalho honesto, e agora somos obrigados a largar tudo porque não quer dar aqueles trastes o que eles merecem! — desatou indignada.
– O que eles merecem? — interveio Naraku.
Kagura corou as faces e silenciou.
– Responda, por favor — insistiu ele –, não irei repreendê-la. Quero realmente saber o que pensa, pois me parece haver divergência nisso entre eu e Yeda. Concordo com você que não devíamos deixar tudo para eles assim.
A Mestra dos Ventos envergou uma sobrancelha, surpresa, enquanto Yeda não esboçou qualquer reação.
– Podem ficar com a casa, mas temos o direito de levar as coisas — falou Kagura.
– E onde vamos guardar aquele monte de tralha? — retrucou Yeda, fazendo Naraku a encarar com certo espanto. – Além do que, há essa hora, tudo quanto tinha de valor lá já deve ter sido saqueado. Mesmo assim, se querem tentar recuperar alguma coisa, vão. Eu os espero aqui.
Diante do despojamento dela, Naraku se sentiu meio embaraçado. Ponderou um pouco e então lembrou que Yeda vivia errante antes de conhecer os irmãos youkais. Viver sob um teto, rodeada de luxos, não era algo tão primordial a ela, como parecia ser para sua cria mais jovem.
– Voltemos ao assunto do nosso destino então... — ele caiu em si.
– Como assim? Não vamos lá, Naraku?
– Não, Kagura. É perda de tempo.
Inconformada, a jovem bufou e cruzou os braços.
– Nosso destino? — falou Yeda, encarando-o. – O vilarejo da velha Kaede.
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Um raio de sol a fez levar uma mão aos olhos, no momento em que a assistente da costureira abriu as cortinas. Acostumando-se a claridade, olhou com desejo para o pátio. Mas não podia sair, precisava fazer as provas dos kimonos, mesmo sendo a décima vez naquele dia.
– Jovem Rin, assim é impraticável! Por favor, endireite a postura.
– Sim, senhorita Mariko.
Corou. Não conseguia deixar de sentir enfado, mas, ao mesmo tempo, se repreendia por isso. Estava há dias de realizar seu maior sonho e sabia que toda aquela preparação era necessária. Inspirando fundo, fechou os olhos uns instantes, então a imagem de Sesshoumaru surgiu em sua mente. Como gostaria de poder estar junto dele. Mas o youkai branco não estava na mansão; por muitos dias vinha correndo atrás dos preparativos do casamento.
– Óh, está muito bem! — ela ouviu a voz de Jaken. – Você será a noiva mais linda desse mundo, estou certo disso.
Ela sorriu meiga, buscando não se mover para não ser repreendida novamente pela mulher.
– O senhor Sesshoumaru acaba de chegar e ele... — dizia o youkai sapo, mas foi interrompido pela moça.
– O senhor Sesshoumaru? — sobressaltou-se – Onde ele está? Quero vê-lo! — e sem se importar com mais nada, deixou o salão, apressada.
Sorridente e eufórica, ela corria pelo corredor quando trombou com alguém. Perdendo o equilíbrio, achou que fosse cair, mas aquela pessoa impediu isso segurando seu pulso. Quando ergueu o rosto, seus olhos se encontraram.
– Senhor Sesshoumaru! — exclamou contentíssima.
Ele lhe sorriu discretamente e depois perguntou num tom ameno:
– Aonde ia com tanta pressa?
– A vosso encontro. Queria muito vê-lo! — foi totalmente sincera.
Ele tentou manter o semblante impassível, mas foi difícil, pois o mesmo desejo o trouxera ali.
– Jovem Rin! — bradou furiosa a costureira, mas levou à mão os lábios ante a presença do youkai branco. – Óh! Senhor Sesshoumaru! Perdoe-me, não o vi chegando.
– Eu que peço desculpas por atrapalhar seu trabalho, senhorita Mariko, mas levarei Rin comigo agora, para que ela me prepare um chá. Dentro em pouco a trarei de volta.
– Sim senhor!
Seguiram lado a lado, mas a jovem adoraria poder agarrar-se ao braço de seu amado.
Um pouco depois, num outro salão, enquanto servia, com destreza, o chá, Rin gesticulava e falava contente, inteirando Sesshoumaru das novas. Cada um dos trejeitos dela era minuciosamente captado pelo youkai, e quando ela se acalmou um pouco, ele pousou a mão sobre a dela.
– Quando parti você estava bastante abatida, agora parece mais disposta.
Ela enrubesceu e demorou uns instantes antes de responder:
– É que já tem alguns dias que Inuyasha e Kagome foram buscar a Yeda, então imagino que logo eles devem chegar.
– Então é por isso.
– Mas não só por isso... — falou num impulso, contudo, não ousou concluir dizendo que a chegada dele também a deixara feliz. Baixando o rosto, ficou quieta. Como a conhecia bem, ele deduziu o que ficou implícito.
– Vamos. Antes que escureça — chamou o youkai.
Rin se colocou em pé, obediente, e esperou que Sesshoumaru desse a volta na mesa para só então começar a andar, mas algumas passadas antes da porta, ele subitamente a puxou.
Surpresa, ela levantou o rosto, deparando-se com os olhos dourados apontados para os seus. Sentiu então um toque suave em seu rosto e piscou com essa carícia. O coração acelerou no peito, quando pôde captar, pela proximidade, o perfume que dele exalava.
Inerte em meio à paixão que o youkai lhe inspirava, ela sentiu, de repente, um leve aperto ao redor da cintura. Soube que havia algo diferente, mas demorou a descobrir o que. Olhava-o nos olhos, quando, parecendo ler sua mente, ele falou:
– Tenho dois braços de novo.
Vidrou os olhos, surpresa, mas antes que pudesse felicitá-lo, teve os lábios tomados num beijo. As pernas amoleceram, e ela achou que desmaiasse, mas buscou desfrutar ao máximo daquele momento.
Pouco tempo depois, Sesshoumaru afastou o rosto, lentamente, enlevado. Tanto que, por um instante, ansiou tomá-la nos braços e fazê-la sua mulher ali mesmo, mas foi só por um instante. Desvencilhando-se devagar, fez com que ela firmasse os pés no chão de madeira.
– Perdoe-me por não resistir aos seus encantos outra vez... — falou ele baixo. – Volte para junto da senhorita Mariko agora.
– ...sim senhor... — balbuciou e seguiu de lá, ao mesmo tempo em que ele voltou à mesa.
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Numa trilha de terra, inclinado rente ao chão, Inuyasha farejava um rastro.
– Já tem um bom tempo que eles passaram por aqui... talvez mais de um dia.
– Tem certeza que é a Yeda? — perguntou Kagome num tom cansado.
– Absoluta.
A tarde estava fresca e desde o almoço eles estavam andando.
– Estão seguindo rápido. Se eu estivesse sozinho, poderia alcançá-los.
– Então faça isso.
– Tá maluca? Acha que posso te deixar sozinha nesse lugar de gente intolerante?
– Ah, isso é verdade. Que coisa mais horrível aquilo naquele vilarejo...
– Nem me lembre. Vem, vamos seguir na mesma direção, com sorte Yeda perceberá meu youki.
– Certo.
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Naraku tinha uma expressão pensativa, quando Yeda se sentou a seu lado, comendo um naco de peixe. Achavam-se à beira de uma lagoa, numa região repleta de árvores e de densa vegetação.
– O que foi? — perguntou tranquila.
– Nada em especial...
– Está aborrecido — afirmou ela uns instantes depois.
– Naturalmente, há três dias tínhamos até rolos de Heike Monogatari e agora, nem onde reclinar a cabeça.
A youkai lançou um riso convidativo a ele.
– Você tem sim onde reclinar a cabeça — disse e o puxou para si, apoiando o rosto dele sobre seus seios.
Levemente surpreso, Naraku fechou os olhos, desfrutando do contato por alguns instantes, então, curvando os lábios num sorriso discreto, foi deslizando uma mão pela silhueta dela.
– Incrível como você não se deixa abalar por nada — murmurou ele.
– Por nada não, ao menos não por tão pouco.
– Acha que estou sendo exagerado?
– Está... não deve ter tanto apego às coisas assim.
– E por que não?
– Porque vamos passar por muitas mudanças ao longo dos anos. Os humanos vivem pouco, mas transformam o mundo com suas vidas, e é nesse mundo que nós youkais vivemos.
Ele refletiu um tempo, tanto naquele raciocínio, quanto na simplicidade com que ela vinha lidando com a situação.
– Nunca pensei nas coisas dessa forma — respondeu então.
Cessaram a conversa e ficaram se encarando, até que se abraçaram, e permaneceram assim algum tempo, reconfortados pela presença um do outro, então uniram os lábios num beijo caloroso. Depois disso, Yeda fez Naraku deitar no chão terroso, inclinando-se por cima dele e abrindo passagem por entre as vestes com beijinhos e carícias.
Meio admirado com a iniciativa dela, Naraku relaxou mais o corpo contra o chão. As vãs preocupações quase o fizeram se esquecer de que a tinha ali a seu lado, e estarem juntos era tudo que realmente lhe importava. Detendo aqueles afagos, trocou de posição com a amada. Por alguns instantes, apenas contemplou o bonito rosto dela, enquanto recobrava o fôlego, alterado pelo respirar entrecortado.
Estavam tão próximos que Yeda aproveitou para selar os lábios dele, que com um sorriso ladino, tratou logo de iniciar o ato amoroso. Num ritmo ondulante e entrosado, os dois se amaram por horas, recebendo o cair da noite com gemidos de prazer, até atingirem o clímax de um gozo recíproco e arrebatador.
Antes de se render à exaustão, Yeda pensou sentir um youki conhecido, mas sem energia para mais nada caiu no sono, abraçada à Naraku.
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O dia seguinte amanheceu frio e nublado. Yeda estava recostada à árvore sob a qual ela e o companheiro fizeram amor naquela noite, e sorria sozinha de satisfação. Vestia apenas um daqueles kimonos do dia do festival, displicentemente ajeitado no corpo e caído pelos ombros, deixando descoberta parte do busto.
Ela podia ouvir Kanna e Kagura conversando ali perto, e a sua frente, Naraku banhava-se na água gélida da lagoa, muito quieto, metido nos próprios pensamentos. E foi justamente quando ele saiu de seu campo de visão, submergindo na água, que ela ergueu o corpo ao farejar um cheiro inconfundível.
– Inuyasha? — falou descrente, e pôs-se em pé, aguçando mais os sentidos.
Naraku veio até a borda da lagoa, encarando atentamente a amada. Abandonou a água então e se aproximou. Sem dizer nada, levantou o queixo dela, para que o fitasse nos olhos, mas logo notou que sua atenção não estava nele. Já ia cobrar uma explicação quando enfim se acercou do que ela estava a captar.
– É Inuyasha? — perguntou ele.
– Com certeza. Mas o que ele estará fazendo por essas bandas?
– Realmente... Teria vindo a nossa procura?
– Só pode ser.
Uma certa preocupação anuviou momentaneamente o rosto de Naraku. Claro, ainda existia uma forte rixa entre ele e Inuyasha em particular. Por certo, ele devia ainda odiá-lo por ter destruído o receptáculo que abrigava o espírito de Kikyou.
– Bem, eu vou ao encontro dele — decidiu-se Yeda.
Vendo-a virar-se, Naraku teve ímpetos de segurá-la, mas não o fez. Então buscou suas vestes e arrumou-se vagarosamente, sem pretensão de acompanhá-la, rogando que as complicações não começassem tão cedo.
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Virando o rosto à janela, Sesshoumaru reparou na roseira que pendia para dentro do cômodo em que estava; a primavera estava em seu auge. Deixando os papéis que o entretinham de lado, ele se aproximou da janela.
Já fazia vários dias que seu irmão tinha partido, e sendo que sabia o quanto a presença de Yeda deixaria Rin contente, começou a cogitar se não deveria ele mesmo resolver a questão.
– Bom dia — saudou Miroku, adentrando o recinto.
– O que se passa? — indagou voltando o rosto na direção do monge.
– Vim avisar que o sake para cerimônia já foi entregue.
– Então não falta mais nada.
– Nada além dos convidados de honra.
– Sabia que não devia ter deixado Inuyasha... — dizia, mas silenciou ao farejar cheiros novos. – Já não era sem tempo — murmurou.
– O que?
Rumando à saída da sala, respondeu de costas ao monge:
– Eles chegaram. Todos eles.
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Shippo brincava pelo pátio, perseguindo as bolinhas de sabão que fazia. Rin, ali próxima, estava sentada num dos degraus da ala central, mirando o nada. E Kohaku, em pé ao lado dela, achava-se recostado no beiral de madeira.
– É amanhã — disse o moço à amiga, referindo-se ao casamento.
– Não fique me lembrando, Kohaku. Já estou nervosa o bastante.
– Será que a senhora Yeda virá mesmo?
– Claro! O maninho Inuyasha me garantiu.
– Seria bom então se chegassem hoje.
A moça ia responder, mas se levantou ao perceber o raposinha correndo ao portão.
– Shippo? — chamou ela.
– É a Yeda! — respondeu ele, correndo mais rápido.
Kohaku se sobressaltou de surpresa, e Rin, com um sorriso enorme nos lábios, seguiu Shippo bem depressa. Juntos, os dois abriram o pesado portão, um pouco antes de Inuyasha tocar o sino.
– Yeda! — gritou Rin a plenos pulmões assim que a viu.
Shippo, mais ligeiro que ela, pulou nos braços da youkai lobo, mas ainda era tão pequeno que seu corpinho não foi empecilho para que Rin também se abraçasse a youkai.
– Meus amores... — disse Yeda, comovida com a recepção.
Derramando uma cascata de lágrimas e apertando a youkai entre os braços, a humana falou:
– Que saudade, Yeda!
– Também senti saudade, querida — disse branda, correspondendo ao abraço, e Naraku notou bem o tanto que a voz dela ficou enroscada.
Afastando Rin um pouco, Yeda a olhou da cabeça aos pés. Nem um ano havia se passado, mas ela parecia tão mais adulta.
– Você está linda! — exclamou orgulhosa, fazendo a jovem corar fortemente.
– Kagome! Inuyasha! — gritou Shippo, pulando do colo de Yeda.
– Tudo bem, pirralho? — provocou o youkai cachorro.
– Eu não sou pirralho... — esbravejava, mas ao se deparar com o semblante inexpressivo de Kanna, se retraiu e quando ergueu o rosto e avistou a cara amarrada de Kagura, ficou todo espichado.
Assim, um forte tremor já o dominava no instante em que se voltou lentamente para trás, sabendo que quem estava ali era ninguém menos que Naraku. Levantando o rosto, ousou encará-lo, mas grande foi sua surpresa ao encontrar nele uma expressão serena e um sorriso amigável, ao invés do esperado semblante macabro.
– Pessoal, vamos entrar... — chamou Kagome.
– É, deixa as saudações pra depois, Rin — reclamou Inuyasha. – Estamos morrendo de fome!
– Pois então eu irei preparar um almoço delicioso! — rebateu ela, e puxando Yeda pelo braço, adentrou o portão, entusiasmada demais para se atentar aos youkais companheiros dela.
Dentro da propriedade, o irmão de Sango veio de encontro ao grupo.
– Kohaku? — disse Kagura. – Puxa, você cresceu bastante — comentou encarando-o.
O humano ficou tão desconcertado que até demorou a responder.
– Ah, obrigado... e seja bem vinda, Kagura — disse coçando a cabeça, então baixou a vista à outra youkai. – Seja bem vinda você também, Kanna.
Levantando os olhos escuros, a pequena respondeu comedida:
– Agradeço pelas bondosas palavras.
Antes que Kohaku pudesse cumprimentar o casal, percebeu que todos os olhares se voltaram numa só direção, quando, como um rei, Sesshoumaru chegou ao pátio.
– Inuyasha! Antes tarde do que nunca — não pôde evitar a provocação.
– Eu sabia que diria algo assim.
Quando ficaram cara a cara, Yeda e Sesshoumaru trocaram um longo e penetrante olhar.
– Fico feliz em vê-la — falou ele, gentilmente, com um belo sorriso nos lábios.
Yeda assentiu com a cabeça e depois fez uma meia reverência.
Estreitando os olhos nos vistosos trajes do youkai branco, Naraku se sentiu realmente péssimo em chegar ali tão maltrapilho. Mesmo tendo compreendido aquilo que Yeda dissera, uns dias atrás, sobre seu apego às coisas, não gostava de se sentir inferior. Mas em se tratando de Sesshoumaru, um youkai completo de fato, talvez não houvesse muito que fazer.
– Se eu tivesse sabido antes, teria vindo mais rápido — comentou Yeda.
– O importante é que está aqui agora — replicou compreensivo o youkai branco, fazendo Naraku estremecer de ciúme.
– É — confirmou alegremente Rin.
O modo como a humana agarrava-se ao braço de sua youkai também começava a aborrecer Naraku. Estava absorto com isso, quando Sesshoumaru voltou-se em sua direção.
– Seja bem vindo — anunciou austero.
Pego de surpresa com a saudação, Naraku permaneceu parado por alguns instantes, meio desconcertado, mas então demonstrou total respeito ao fazer, como Yeda, uma meia reverência.
– Somos imensamente gratos por nos receber em vossa casa — disse ele então. Maltrapilho ou não, o refinamento sempre seria um traço típico de sua personalidade.
Sesshoumaru assentiu e acrescentou:
– Rin e Sango irão arrumar acomodações para vocês.
Depois de muitos cumprimentos, abraços e conversas, Yeda e sua família estavam finalmente alojados, e pelo que restou daquela tarde, descansar foi tudo que fizeram.
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Reunidas ambas as famílias, no salão da casa central, estavam todos sendo inteirados sobre o cerimonial do casamento. Sentada à extremidade da mesa baixa, Kaede era quem tinha a palavra.
– A cerimônia acontecerá aqui mesmo e será Miroku quem irá realizá-la. Quanto aos trajes, é costume que as mulheres mais novas usem kimonos de cores vivas, como cor-de-laranja, azul, amarelo, enquanto as mais velhas devem usar kimonos escuros.
Olhando na direção da youkai lobo, ela falou:
– Yeda, sinta-se à vontade para se vestir da forma que quiser.
– Ah, sim... e bem, acho que irei usar algo de acordo com minha idade. Dessa forma posso acompanhá-la no tom, Kaede.
A ancião assentiu com um sorriso e prosseguiu:
– Durante a cerimônia, os noivos vão trocar um presente que será o símbolo de sua união.
– Que tipo de presente? — quis saber Kagome.
– Algo que possa ser usado no corpo, como por exemplo um colar. No caso das mulheres, é costume que este presente seja feito por elas mesmas. Rin levou alguns dias preparando o dela, não foi?
Corada, a jovem assentiu só com um gesto, levando alguns dos presentes a sorrirem diante de seu acanhamento. Sentia-se tão nervosa que seu corpo estava rijo, e ouvir os pormenores da cerimônia diante de todos, até a fez perder o apetite.
– Que lindo... — admirou-se Kagome. – Na minha era, os noivos trocam anéis de ouro chamados alianças.
– Anéis de ouro? — manifestou-se Sesshoumaru. – Por certo é um costume recente, pois pelo que li acerca das tradições humanas, não se usa jóias assim com os trajes cerimoniais.
– Ah, sim... esse costume veio do ocidente — explicou a moça.
Desviando os olhos dela, Inuyasha voltou-se a Kaede na espera de mais detalhes. E cabe ressaltar, que a atenção que ele mantinha na explanação era notória, pois pensava consigo se a cerimônia de casamento de seu pai também houvesse sido daquela forma.
Kaede continuou:
– Depois da entrega dos presentes, virá ao ritual do sake. Os dois irão partilhar a bebida, e no instante em que os copos vazios forem colocados sobre o altar, estarão casados.
Yeda e Rin, de frente uma para outra, trocaram um terno sorriso, enquanto Sango e Kagome comentaram qualquer coisa entre si. Os homens mantinham-se quietos e pouco depois a anciã voltou a falar.
– Assim que Miroku anunciar a união, eu irei abanar um galho da árvore sagrada sobre as cabeças dos dois; aquela mesma que cresce sobre o poço que leva Kagome à outra era. Depois disso, eles farão suas preces por longevidade, bênçãos e posteridade.
Ela fez uma breve pausa.
– Então nós tomaremos parte no sake e brindaremos ao casal. É nessa hora que os cumprimentos e as homenagens serão feitas. Percebam que toda essa parte acontece apenas entre nós da família.
Todos assentiram.
– Então Rin mudará seus trajes e, em seguida, abriremos as portas do salão aos convidados, dando início à festa. Durante a festa, Rin trocará de vestes outras três vezes, pois essa é uma forma de exaltar a beleza das mulheres. E é isso — concluiu a anciã.
Alegria mesclada com ansiedade parecia permear todos os rostos. Sem sombra de dúvidas aquela seria uma ocasião memorável.
Enlevada, Yeda encarava a humana. Sentia-se muito feliz por fazer parte da história de vida dela. Naraku, por sua vez, não entendia muito bem tudo aquilo, nem via sentido na união de um youkai do porte de Sesshoumaru com uma humana, mas guardou isso para si.
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Um pouco mais tarde, Naraku saiu ao pátio e avistou Inuyasha sentado à entrada da ala da mansão que por certo devia pertencer a ele. Desde a viagem, vinha percebendo que ele o olhava com desconfiança, sempre alerta a suas palavras e gestos.
Dando alguns passos à frente, pensou que talvez aquela fosse uma boa oportunidade de terem uma conversa franca, apenas os dois. Porém, antes que chegasse a se dirigir a ele, o viu se levantando e, logo depois, adentrar a casa.
Suspirou. Definitivamente, provar que estava mudado e que era digno de confiança era algo estressante. Caminhava rumo ao portão, pensando em dar uma volta pela vizinhança, quando percebeu que Sesshoumaru vinha em sua direção.
– Gostaria de falar algo comigo? — perguntou polidamente assim que ele o alcançou.
– Ouvi alguém comentar que estão de mudança para essa região, é verdade?
– Ah, sim... essa é a vontade de Yeda.
– Então é uma boa notícia essa.
Naraku meneou a cabeça assentindo.
– É um alento ouvi-lo dizer isso, já que seu irmão não reagiu tão bem assim quando soube.
– Típico dele... reclama primeiro para refletir depois.
Silenciaram por um tempo.
– Com relação ao casamento — começou Naraku –, como tivemos alguns contratempos, peço vossa compreensão por minha família talvez não se mostrar tão apresentável quanto pede a ocasião.
Sesshoumaru envergou uma sobrancelha, ele até tinha reparado na falta de pertences deles, e no aspecto de desgaste de suas vestes, mas só estranhou isso porque a carta que receberam de Yeda falava de prosperidade. Contudo, a grande consideração que tinha pela youkai lobo jamais o faria se ater a algo tão banal.
– Estou certo que você notou o quanto Rin é apegada à Yeda. Por isso, ainda que ela viesse à cerimônia em sua forma de lobo, Rin não se importaria, e o mesmo vale pra mim, já que a presença daquela que a criou como uma filha, por oito anos, a deixará muito feliz.
Naraku vidrou os olhos ao ouvir aquilo.
– Entendo... — falou convicto, apesar do ligeiro inconformismo que o invadiu. A ideia de ter que dividir Yeda com aquelas pessoas ainda lhe era bem indigesta.
Pedindo licença, o youkai branco se retirou.
Depois de um profundo expirar, Naraku abaixou a cabeça, receoso acerca do futuro, mas logo acabou erguendo o rosto, se defrontando então com Yeda, no alto da pequena escada da ala principal. Estremeceu levemente com o impacto que só a presença dela lhe causava.
Ficou olhando-a, como se diante de uma musa, até que ela simplesmente lhe sorriu. Mas não se tratava de um sorriso qualquer, ele soube, porque através daquele gesto ela estava dizendo que o amava. E era só dessa certeza que ele precisava naquele momento.
CONTINUA...
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Espero que tenham gostado! A fic está chegando ao fim!
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