Naraku Apaixonado?
22 Casamento
Capítulo 22
Aninhada entre o braço e a curva do pescoço de Naraku, Yeda abriu os olhos quando sua audição aguçada captou alguns sons, não tão próximos, mas instigantes o bastante para fazê-la levantar. Por uns instantes, ela contemplou o sono tranquilo de seu amado, e após jogar um kimono por cima da veste de dormir, deixou o quarto.
Um tanto depois, entrava sorrateiramente num outro aposento, no qual achou Rin curvada ao chão, recolhendo uns pincéis caídos.
– Não creio que ainda esteja acordada — disse de súbito, mas bastante amena.
– Yeda? — exclamou assustada a humana. – ...é que eu...
Aproximando-se, a youkai a ajudou a organizar os materiais.
– Perdeu o sono?
– Na verdade, não dormi nada ainda.
Surpresa, Yeda a encarou com um meio sorriso.
– Imagino que esteja bem ansiosa... — e estendeu a mão a ela – mas, venha, precisa tentar dormir agora, senão estará com olheiras amanhã.
Ao contrário de Yeda e Kagome, Rin não tinha se habituado às camas ocidentais, por isso se deitava num futon. Carinhosamente, Yeda a colocou para dormir do mesmo modo que fazia quando ela era menor. Rin se contentou muito com o gesto, além disso, a mera presença da youkai a deixava reconfortada.
Depois de puxar a colcha quase a altura do pescoço da humana, a youkai deitou-se de lado no chão, bem próxima, apoiando-se no cotovelo.
– É tanta coisa boa acontecendo ao mesmo tempo, Yeda — comentou mais tranquila.
Com um olhar calmo, a youkai apenas fez um afago na franja dos cabelos dela.
– Você está tão bonita — elogiou Rin –, e agora parece adulta o tempo todo.
– Como assim? — perguntou com um leve riso.
– Ah, antes você tinha seus momentos de mulher adulta, mas logo vinha com brincadeiras e provocações... agora está mais séria.
– Entendi... Bem, acho que mudei um pouco sim, mas não faz nem um dia que voltei, daqui a pouco você descobre que umas coisas mudam, outras não.
A dissimulação no tom da youkai não passou despercebida por Rin.
– Óh, céus... eu conheço esse olhar, você não vai aprontar das suas na cerimônia, vai? O senhor Sesshoumaru ficará furioso com você!
Yeda riu com gosto e até um tanto alto.
– Bem que eu podia te deixar na dúvida, né? Mas vendo o quanto está nervosa, seria maldade minha... fique tranquila, vou me comportar.
Rin sorriu aliviada, e ficaram quietas um tempo.
– Como tem se virado por aqui? — perguntou Yeda. – Tem ajudado as meninas?
– Claro. Eu vou ao mercado, faço o arroz, cuido do pequeno Keiji pra Sango — contava animada. – E quando não estou ajudando com o serviço, desenho, leio, brinco.
– É... aquele metido do senhor Sesshoumaru — injetou sarcasmo ao dizer o nome – nem merece uma mulher tão boa assim.
Piscando desconcertada, a moça enrubesceu, mas logo acabou rindo. Sempre era pega desprevenida pela irreverência da youkai.
– Me desculpe por dizer, mas sinto sua falta, Yeda... Sinto falta de você vir me acordar de manhã, das nossas conversas, nossos passeios.
A youkai deixou um discreto riso escapar com as lembranças.
– Ora, mas estou bancando a criança falando desse jeito — repreendeu-se a humana.
– Não tem problema, você ainda parece uma criança pra mim, só um pouco mais crescidinha.
Rin enrubesceu novamente.
– E com você — disse disfarçando o acanhamento –, como tem sido? Aquele Naraku... é mesmo bondoso com você?
– É sim, muito mais do que pude imaginar. Ele... me completa, e eu o amo muito.
– Seu rosto muda quando fala dele.
Sem ter como negar, Yeda meneou a cabeça em assentimento.
– E quanto as duas? Kanna me pareceu boazinha, mas a Kagura continua me dando calafrios.
– Kanna é muito gentil e tenho me afeiçoado bastante a ela. Já Kagura e eu, não começamos tão bem, mas ultimamente até que temos nos entendido... ela tem gênio forte.
– Eu sabia... me desculpe, Yeda, mas não tem como não notar a antipatia dela.
– Não precisa se desculpar por isso... mas eu te asseguro, Kagura é uma boa pessoa sim.
Com um semblante surpreso, a jovem assentiu.
– Agora chega disso, Rin. É muito tarde...
– Sim — disse obediente.
– Mais pra frente teremos tempo para que eu lhe conte todas as minhas histórias. Agora, durma. Amanhã será um dia maravilhoso — e depois de fazer um último afago nos cabelos dela, se levantou.
– Obrigada por esse momento, Yeda.
Olhando com ternura a jovem que então bocejava, a youkai suspirou levemente e logo se foi.
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Em plena madrugada, Sesshoumaru era outro que estava com dificuldade para dormir. Não restava pendência alguma quanto à cerimônia, ou qualquer ameaça, no entanto, uma certa ansiedade o impedia de cair no sono.
– Vou me casar com uma humana... — murmurou consigo. – Critiquei Inuyasha, e até amaldiçoei meu pai, e agora vou me casar com Rin — seus lábios se curvaram num leve riso diante da ironia.
Desde o momento em que se recolheu, não parou um instante de pensar em Rin e em tudo que vivera com ela e por ela. E era sua última oportunidade de refletir no assunto, já que, por anos, ele tão somente seguiu o impulso de protegê-la e sustentá-la, e sempre que se indagava sobre o porquê daquilo, desistia antes de alcançar a resposta. Agora podia admitir que sua motivação foi o amor e reconhecer que a amou desde o início.
As maiores aflições de sua vida, senão as únicas, foram os momentos em que a vida de Rin esteve ameaçada. Inclusive ficou muito abalado quando soube, recentemente, que Tenseiga só podia trazer alguém de volta da morte uma única vez. Achava que a espada fosse um trunfo que tivesse, mas não. Isso lhe foi esclarecido por sua mãe, quando esta o visitou, depois de receber a notícia do casamento. Ela não viria à cerimônia, mas deixou um presente a eles.
Tudo aquilo o levou a pensar na brevidade da vida de sua amada, se comparada com o tempo médio de vida dos youkais.
– ...mas isso não importa, não haverá outra pra mim depois de Rin.
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O dia amanheceu com sol. Inuyasha se espreguiçava, na varanda de sua ala da casa, andando rumo ao pátio, quando parou no lugar com o que avistou adiante.
Naraku caminhando em direção à ala central, de mãos dadas com Kanna. A albina, com seu rostinho de porcelana numa expressão tranquila, trazia consigo um embrulho. Ele percebeu uma notória fraternidade entre os dois e isso o deixou bastante surpreso.
Foi saudado por ambos com um educado \"Bom dia\", mas só devolveu em resposta um menear de cabeça, e logo os via adentrando a casa.
Uma vez sozinho, sentou-se, como de costume, à entrada de sua ala e ficou pensativo. Não conseguia se livrar da apreensão que a presença do velho inimigo lhe causava, sequer dormira direito à noite, e ficou tão metido nesses pensamentos que nem percebeu quando Naraku voltou para lá e se aproximou.
Fitou-o com desprazer e perguntou-lhe mal humorado:
– O que que é?
– Será que podemos conversar um pouco?
– Hunf... duvido que tenha algo de útil para me dizer, mas... vá lá.
– Imagino que o fato de eu estar aqui esteja incomodando você.
– Está mesmo.
– Se servir de alento, já tenho em vista um lugar para ficarmos.
– Pois é muito bom saber!
E cruzou os braços, calando-se.
– Eu... estou mudado, Inuyasha. O tempo ainda não o convenceu disso?
– Sinto, mas não — foi sincero, contudo, ao ouvir-se, achou-se demasiadamente severo também.
– De todo modo, não era bem sobre isso que eu queria falar... Há muito de que me arrependo, Inuyasha, e a morte de Kikyou está inclusa nisso.
O meio-youkai não conseguiria descrever o que sentiu ao ouvi-lo proferir o nome de Kikyou. Cerrando um dos punhos, encarou Naraku com nítida agressividade.
– Pra quê falar disso agora? — retrucou exaltado.
– Porque seu destino esteve entremeado ao meu, não só pelas perversidades que lhe causei, mas, principalmente, por causa de Kikyou e de tudo que meu lado humano nutria por ela.
Transbordando revolta, inspirou fundo, buscando deter o ímpeto de avançar contra o outro, que, apesar de sua inquietação, continuou:
– Onigumo era movido por pura obsessão. Ele não discernia nada, só pensava em satisfazer seu desejo de ter Kikyou, a qualquer custo. Imagino que se lembre daquela minha cria, Musou? Ele foi uma boa prova disso.
– Aonde quer chegar afinal? — indagou impaciente e nervoso.
– Só quero que saiba que sou eu, o youkai Naraku, quem lamenta pela morte de Kikyou.
Seu sangue ferveu ao ouvir aquilo, e deu vazão a fúria que o rondava.
– Besteira! — vociferou. – A primeira coisa que fez quando se livrou daquele seu lado humano não foi justamente matá-la? E agora vem dizer isso!
Naraku não lhe respondeu de imediato.
– Entendo que não haja nada que eu possa fazer para anular a dor que a perda lhe causou, mas, saiba, enquanto eu viver, o peso dessa culpa me atormentará.
– E é o que você merece!
– Exato. Todos colhemos o que plantamos. Venho aqui implorar um perdão inconquistável porque essa humilhação é melhor que o martelar de minha consciência.
– Ao menos sabe que nunca irei te perdoar — disse baixo e com um olhar incisivo. – ...por Yeda, até tolero sua presença aqui por enquanto, mas preferiria que estivesse bem longe!
– Já disse que logo partiremos. Por fim, só me deixe esclarecer que meu lado humano não compreendia o valor de uma vida, e que meu lado youkai só veio a entender isso há pouco tempo, graças a Yeda. Desde que ela entrou em minha vida, nada foi como antes.
A declaração o fez dar um leve sobressalto. Ponderou um tempo, antes de voltar a falar.
– Raios... Olha, eu até reconheço que Yeda aparente estar feliz, mas mesmo assim... não consigo confiar em você, Naraku — já não havia tanta fúria em sua voz, mas amistosidade ainda era algo distante.
– Bem, eu não esperava realmente isso de você. Mas pode ter certeza de uma coisa: meu amor por Yeda é verdadeiro, e não tenho intenção alguma de ameaçar qualquer pessoa que seja importante a ela.
Observou que ele falava com muita calma e segurança, como quem soubesse exatamente onde pisa. E ainda que parte de si tenha deduzido que tudo aquilo não passasse de fingimento e encenação, pela primeira vez, cogitou se Naraku não poderia estar realmente sendo sincero.
– Só posso torcer para que não esteja mentindo — disse depois de um tempo, e então não falou mais nada.
Antes de se retirar, Naraku fez-lhe uma meia reverência.
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Jamais se sentira tão nervosa em toda sua vida. As amigas queridas gastaram a manhã inteira tentando fazer com que ficasse calma, mas todas as recomendações fugiram de sua mente assim que se aproximou dele para adentrarem o salão. E quando ele a olhou, respirar tornou-se custoso e as vestes pareceram muito apertadas. Felizmente, seus pés, nada esquecidos de seu papel, a conduziram adiante.
Estudara todas as etapas do cerimonial até à exaustão, por isso estava convicta de que não cometeria nenhum erro. Caminhou ao lado de seu noivo, num passo constante e firme, cruzando sorrisos e olhares impressionados.
Podia sentir a energia de youkai dele fluindo, e isso não a deixava se esquecer da natureza dele, tornando tudo ainda mais surreal. Mas não era um sonho, dentro em breve seriam marido e mulher.
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Achava que não pudesse mais se encantar com a beleza dela, mas estava enganado. Exuberante, ela se assemelhava a uma princesa imperial. Contudo, não foi o vistoso kimono ou os adornos que o deixaram enlevado, e sim que, mesmo na flor da mocidade, sua Rin ainda lhe parecesse uma menininha indefesa.
Como se alegrava com o fato de ela ter conservado a inocência e simplicidade que tanto o fascinavam, uma vez que a riqueza poderia tê-la transformado numa moça arrogante, mas, para sua satisfação, isso não ocorreu.
Podia ouvir as batidas aceleradas do coração humano dela, enquanto caminhava a seu lado. Estava feliz, um tanto ansioso pelo fim daquelas formalidades, mas verdadeiramente feliz com a perspectiva de poder chamá-la dentro em breve de sua esposa.
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Miroku usava um kimono à moda dos monges, na cor bege, e fechado por um manto roxo. Foi ele quem organizou o altar, sobre o qual achava-se, velas, incenso e uma cesta de flores. Mesmo tendo sido criado à luz dos preceitos budistas, ele não fez ressalvas em celebrar uma cerimônia segundo a tradição xintoísta, pois sob todos os aspectos aquela era uma celebração peculiar, já que iria unir um youkai e uma humana.
Olhando de trás do altar, pelo ponto de vista do monge, à direita estavam: Kaede, Inuyasha, Kagome, Sango, com seus três filhos a sua frente, e por fim, Kohaku; à esquerda estavam: Yeda, Naraku, Kanna e Kagura. Jaken ficou à frente de Kaede, Shippou à frente de Kagome, e Kirara, pequenina, no ombro de Kohaku.
O traje de Kaede era um kurotomesode, um kimono negro tradicionalmente usado pelas mães das noivas; havia nele uma estampa de flor dente-de-leão se desmanchando ao vento, na parte inferior. O cinto largo, o obi, era em brocado dourado. Os cabelos estavam presos como seu costume.
Inuyasha exibia um kuromontsuki, um kimono negro que tem desenhado o brasão da família, o kamon; seguido de um hakama - que é uma calça pregueada — cinza rajado. Seus cabelos estavam presos por uma fita baixa. O brasão familiar tinha sido escolhido há tempos e era de um quarto crescente de lua.
Mesmo não sendo ainda esposa de Inuyasha, Kagome vestia um kimono típico de mulheres casadas, o tomesode, num tom cor-de-laranja, com estampa de flores de ameixeira e um obi verde. Seus cabelos estavam presos no alto por um pequeno laço amarelo.
A cor do tomesode de Sango era verde folha, com motivo de flores de cerejeira, e seu obi era bege. Os cabelos estavam presos por uma fita, abaixo da metade do comprimento. Yumi, uma de suas gêmeas, usava um kimono azul claro e a outra, Saiyuki, usava um cor-de-rosa, ambos os kimonos com estampa de girassóis. O caçula, Keiji, usava kimono amarelo e um hakama na cor marrom.
Kohaku, Shippou e Jaken exibiam trajes semelhantes: hakama e kimonos de uma só cor. Kohaku vestia kimono amarelo ouro e hakama verde escuro. Shippou vestia hakama roxo e kimono azul celeste. E Jaken usava kimono lilás e hakama preto.
Yeda exibia um tomesode roxo quase negro, com o motivo de lírios e obi era cinza. Os cabelos estavam penteados para trás e presos por uma fita, abaixo da metade do longo comprimento.
Naraku vestia um hakama cinza pedra e um kimono do mesmo estilo daquele usado por Inuyasha, apenas diferindo na cor, o de Naraku era azul noite. O seu brasão era o de lua e estrela. Os cabelos longos tinham uma pequena porção presa.
Kanna usava um kimono amarelo, com motivo de ondas, e seu obi eralilás. Num dos lados da cabeça, uma mecha do cabelo estava presa por um kanzashi, que é um tipo de presilha.
A veste de Kagura era um furisode, um kimono típico de moças solteiras, de mangas bem alongadas, sua cor era azul e com o motivo de redemoinhos de vento. O obi era cinza bem claro. Os cabelos curtos achavam-se em seu penteado costumeiro.
O chinelo de dedo, o zori, acompanhado das meias brancas, as tabi, era comum a todos, assim como a gola branca do kimono interno, o nagajuban.
Sesshoumaru exibia o traje cerimonial completo: um kimono negro e por cima deste o kuromontsuki haori — um tipo de casaco, da mesma cor — seguidos de um hakama cinza. No casaco, na altura do peitoral e nas duas bandas, estava gravado o kamon, e este mesmo brasão vinha também na parte de trás, um pouco abaixo do pescoço; esse casaco exibia ainda um cordão, o haorihimo, que o mantinha na abertura ideal, e cujas pontas eram desfiadas e presas juntas em um nó, sua cor era branca. O longo cabelo estava preso, bem alto, por uma faixa estreita.
Rin exibia um magnífico kimono cerimonial branco, o shiromuku, de seda pura, e por cima deste vinha o iro uchikake, um tipo de sobretudo. O obi era em brocado prateado, e o cordão que o enfeitava, o obijime, também entrelaçado com fios de prata. Usava um meio-capuz, o tsuno kakushi, cujo significado simbólico é o da obediência da mulher ao futuro marido. Os lábios levavam uma pintura vermelha. Seus cabelos foram arrumados num penteado chamado shimada mage, no qual o comprimento do cabelo é dobrado e preso no alto da cabeça por um kanzashi largo, e este mesmo, prende também a franja, penteada para trás.
Yeda encarava os dois, admirada. Há tantos anos ansiava pelo dia em que os veria juntos, e agora que estava para presenciar a concretização disso, achava-se muito comovida, mas sua contemplação atenta foi interrompida quando Miroku tomou a palavra:
– Com os noivos aqui presentes, daremos então início à cerimônia.
Todos os olhares se voltaram ao monge.
– Hoje, nossas famílias irão testemunhar a união de Sesshoumaru e Rin. Após anos de companheirismo e cumplicidade, eles, que enfrentaram inúmeras adversidades desde que se conheceram, querem se tornar um casal agora.
A entonação precisa e branda dele impressionara a todos.
– O que dizer deles dois? Bem, por eu ter acompanhado de perto seu convívio, desde que Rin era uma garotinha, posso afirmar com toda certeza que é o amor que os une — fez uma breve pausa. – Sesshoumaru, Rin, sendo que seus entes queridos estão de acordo com sua união, peço que vocês confirmem seu desejo fazendo um ao outro uma promessa de fidelidade — e olhando para o youkai branco, passou a palavra.
– Amada Rin — Sesshoumaru começou de pronto, num tom límpido –, és a mulher que escolhi para seres minha esposa. Pela minha honra e pelo meu sangue, juro protegê-la e amá-la, enquanto eu viver.
O nervosismo não permitiu que a jovem respondesse com a mesma prontidão.
– Amado Sesshoumaru — o tom foi mais baixo do que ela pretendeu –, aceito seu... amor e sua proteção... pela minha... vida e pelo meu sangue, juro ser-te leal e amá-lo, enquanto eu viver.
Assim que Rin silenciou, Kagome apertou a mão de Inuyasha, emocionada.
Fechando os olhos e deixando a mão esquerda próxima ao centro de seu rosto, Miroku então proferiu uma benção:
– Se é assim, que Kami-sama os abençoe e os torne felizes e prósperos.
Um silêncio solene se seguiu.
– Vocês trouxeram algum símbolo para selar sua promessa?
– Sim — responderam ao mesmo tempo.
Olhando para Jaken e para Kanna, Miroku fez sinal para que cumprissem sua incumbência. Respeitosamente, os dois vieram até a extremidade oposta do salão, à esquerda, onde havia uma cesta forrada com rendas, e dentro da qual estavam duas trouxinhas próprias para embrulhar presentes, as hikidemono; uma de cor vermelha e outra num tom verde escuro. A verde continha o presente de Sesshoumaru, e foi levada por Jaken, enquanto a que guardava o presente de Rin, foi levada por Kanna. A princípio fora acertado que quem levaria o presente de Rin seria Shippou, mas ele próprio sugeriu que Kanna o fizesse.
Andando lado a lado, os pequeninos youkais caminharam na direção dos noivos, então pararam diante deles e desataram as trouxinhas para que cada qual pegasse seu item. Logo após isso, Kanna e Jaken voltaram a seus lugares, levando com eles as hikidemono.
– Mostrem cada qual seu presente — disse o monge.
Atendendo, o youkai exibiu um kanzashi de madeira lacada e com flores desenhadas em alto relevo. Em seguida Rin exibiu o dela, um colar de contas, com um medalhão de prata e uma pedra azul engastada no centro deste.
– Podem entregá-los.
Sorrindo um ao outro, os dois trocaram os presentes.
– Agora, para que o casamento seja confirmado, iremos fazer o ritual do sake — e olhando na direção em que Kohaku estava, ele chamou: – Kirara?
A felina youkai cresceu de tamanho e rumou até a extremidade direita do salão, onde fechou a boca na alça de uma outra cesta; dentro desta havia três taças. Aproximando-se num pomposo caminhar, Kirara trouxe a cesta ao monge.
Agradecendo com um menear de cabeça, Miroku pousou a cesta sobre o altar e, em seguida, dispôs os cálices ali, eles tinham cada qual um tamanho. Virando-se, alcançou o recipiente onde a bebida estava, deixando-o também sobre o altar. Não se tratava de um sake qualquer, mas de um especialmente preparado para uma cerimônia de casamento.
– A primeira taça expressa gratidão à Kami-sama, a segunda é em honra aos pais dos noivos e a terceira é em ação de graça pelas pessoas com as quais o casal irá conviver — explicava enquanto as enchia – No nosso caso, poderíamos juntar a segunda com a terceira — disse bem humorado –, mas sigamos o costume do modo como sempre tem sido feito.
O monge fez uma pequena pausa.
– Rin — retomou ele –, você irá tomar primeiro, depois Sesshoumaru, isso para a primeira taça. Para a segunda, beberá primeiro você, Sesshoumaru, e depois ela. Na última, Rin é quem começa de novo.
O casal seguiu precisamente a orientação, e quando o youkai branco pousou a última taça no altar, Miroku anunciou:
– A partir deste momento, vocês estão casados.
Satisfação e contentamento ficaram estampados no semblante do casal e de todos ali, mas a palavra ainda era do monge.
– Senhora Kaede, por favor, abane este galho da árvore sagrada sobre as cabeças dos dois para que eles possam em seguida fazer suas preces.
Assentindo com uma expressão plácida, a anciã veio até o altar, alcançou o galho, que estava numa bandeja e então se aproximou do casal.
– Que a vida dos dois — dizia enquanto agitava o galho – seja plena de alegrias, que ajudem um ao outro, e que se amem muito.
Com exceção da anciã, os demais nunca tinham participado de uma cerimônia tão tradicional, o que explicava suas expressões maravilhadas.
– Muito obrigado, senhora Kaede. Agora, ajoelhem-se e façam suas preces. Peço também a todos que mentalizem coisas boas para os dois enquanto eles rezam.
Um tanto depois, Yeda enxugou uma lágrima furtiva, enquanto Naraku e suas crias permaneceram como estátuas; Kaede apertou as costas; Kagome sorriu para Inuyasha; Jaken assou o nariz num lenço; Shippou só pensava nos doces; Sango ficou atenta à suas crianças, que começaram a se inquietar; e Kohaku, simplesmente sorriu.
Quando o casal demonstrou ter terminado as orações, Miroku voltou a falar:
– Com isso a cerimônia está encerrada. Sango querida, ajude-me a distribuir os copos, para que façamos então um brinde ao novo casal.
– Sim, querido — assentiu graciosamente.
A vasilha do sake passou de mão e mão, até que todos os adultos encheram seus copos. O clima solene foi trocado por um mais descontraído, e em meio aos vivas, os cumprimentos foram feitos. Depois, vieram os discursos; uns mais sóbrios, outros hilários, como o de Kagome que comentou sobre Rin já estar se casando mesmo sendo bem mais nova que ela, e aquilo deixou Inuyasha muito sem jeito.
– Amigos... — a voz de Kaede se sobressaiu – os convidados esperam o casal.
Notoriamente contentes, Sesshoumaru e Rin se encararam, por breves instantes, antes que ela saísse do salão para retirar o capuz e vestir um uchikake vermelho, por cima de seu kimono branco, na primeira das quatro trocas de vestes que faria.
Muitos foram convidados, humanos e youkais, e eles enchiam o pátio da mansão, ansiosos por verem o casal. Kouga, o youkai lobo, também marcou presença, e ao lado de Ayame, agora sua esposa, foi muito gentil em sua felicitação aos donos da festa.
Yeda não se cansava de reparar na troca de olhares dos recém casados, e Naraku permaneceu todo o tempo bem perto dela, pois se sentia extremamente deslocado, e o mesmo valia para Kagura. Kanna, por sua vez, se rendeu a euforia das crianças e aproveitou à valer a festa.
Tudo transcorreu realmente bem, a comida era farta e sobejava alegria, enfim um dia para ser lembrado com toda certeza.
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A noite caia agradável quando Yeda, sozinha, se assentou numa pedra, no jardim ao fundo da ala central. Introspectiva, ergueu os olhos ao céu.
As reviravoltas pelas quais passara, em menos de dez anos, foram as mais significativas de sua vida. E ao recordar daquela tarde, quando conversava com Toutousai sobre os irmãos Inuyasha e Sesshoumaru, pensou em si mesma como uma criança, e isso lhe trouxe de volta as palavras de Rin, na noite passada, sobre ela estar mais madura agora.
Em seus tempos de andanças, nunca imaginou que passaria de uma solitária errante à amiga, conselheira, esposa e quase uma mãe. Sentia-se imensamente agraciada com tudo que vivenciara até aquele momento.
– E daqui pra frente, o que será?
Ela mal tinha acabado de murmurar isso, quando sentiu os braços de Naraku se fecharem em seus ombros.
– Tudo bem? — perguntou ele, aspirando-lhe os cabelos.
– Claro que sim — e se recostando no corpo dele, fechou os olhos.
– Mas estou lhe achando um pouco pálida.
– Sempre observador...
– Coisas demais em apenas dois dias, não?
– Foi sim... mas tem um outro motivo também.
– E qual seria?
– Estou esperando um filho seu...
CONTINUA...
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NOTAS:
1) A mãe de Sesshoumaru: Ela aparece somente no mangá, no volume 47, capítulo 466, e Rumiko não nos revelou seu nome. É muito parecida fisicamente com o filho, e de fato, conta os segredos da Tenseiga a ele.
2) Xintoísmo: A religião nacional do Japão, anterior ao budismo; shinto.
3) Budismo: Sistema ético, religioso e filosófico fundado por Siddhartha Gautama, o Buda, que consiste no ensinamento de como, pela conquista do mais alto conhecimento, se escapa da roda dos nascimentos e se chega ao nirvana.
4) Kami-sama: Pode ser traduzido como Deus.
5) Os filhos de Miroku e Sango: Só aparecem mangá, no último capítulo, 558, e seus nomes também não são informados, por isso inventei estes. Se alguém souber, por favor, me avise.
Notas finais
Deixo um agradecimento especial para minha grande amiga Hinalle, que me ajudou muito com o capítulo.
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