É impossível esquecer a primeira ruptura da vida… Lembro como se fosse hoje daquela tarde de verão; era agosto de 86 e estávamos brincando no jardim da minha casa. Eu e o meu melhor amigo, Kirk, éramos piratas lutando com nossas muitíssimo perigosas espadas de madeira pelo grande tesouro perdido de Owain Glyndŵr: a torta que minha mãe havia deixado pela manhã para lancharmos.

Éramos tão jovens, só tínhamos 10 anos e as únicas coisas que nos preocupavam eram as notas da escola e o que faríamos no dia seguinte; com quais brincadeiras iríamos nos divertir… Pelo menos, era assim para mim…

Kirk e eu praticamente crescemos juntos; morávamos em duas casas geminadas e, desde que me lembro, sempre compartilhamos a mesma parede. Às vezes, até mesmo conversávamos de nossos próprios quartos, e, quando o pai do Kirk começou a reclamar do barulho, aprendemos a nos comunicar com batidas. Não lembro ao certo quando nos tornamos amigos, tínhamos pouco mais de um ano na foto mais antiga que tenho com ele, mas sei que nossa amizade era anterior a isso.

Fazíamos tudo juntos, absolutamente tudo; estudávamos na mesma sala, brincávamos no mesmo parque, íamos para o mesmo acampamento de verão e dormíamos sempre na casa um do outro. Não recordo de ficarmos irritados um com o outro mais que algumas horas; sempre concordávamos sobre tudo, tínhamos até os mesmos gostos.

Alguns diziam até que, se eu não fosse ruivo e Kirk moreno, poderíamos ser irmãos. E, francamente, eu considerava mesmo o Kirk um verdadeiro irmão… Eu só não sabia que, após os 10, tudo começaria a mudar, inclusive nós…

— Sim! O grande tesouro de Glyndŵr será meu! — Numa alta risada, o Kirk me desarmou e encurralou com sua espada. — Renda-se, capitão Blandford!

— Nunca, seu bucaneiro das Terras Altas!

Pulei então no Kirk, derrubando-o, e começamos uma luta tão real quanto nossas espadas. Claro que houve um ou outro puxão de cabelo, bem como uns chutes e arranhões, mas ríamos como se não houvesse dor, e, de fato, não havia dor alguma. Nós rolamos por todo o gramado do nenhum pouco grande jardim, até que nos soltamos aos risos.

— Não valeu! — Ofegante, e se engasgando com a própria risada, Kirk sentou na grama e acusou: — Cadê a sua honra, Gavin?

— Honra? Não existe honra na guerra! — Ou, pelo menos, era isso que o vovô dizia. Logo, porém, num suspiro, eu parei de rir e levantei. — Vamos dividir o “tesouro”? Aviso logo que não aceito nada menos que isso.

Sequer esperando uma resposta, eu corri para a mesa do jardim e comecei a desembrulhar a torta. Quase todos os dias, minha mãe preparava algo para comermos durante o chá. Nem sempre era uma torta, claro, e, às vezes, nem mesmo era algo de fato sólido, talvez um refresco ou uma limonada. Mas mamãe constantemente nos fazia esse agrado, era quase como um ritual.

Naquele dia, em específico, mamãe havia deixado nosso sabor favorito de torta: cereja. Até hoje, quando sinto o aroma das tortas de cereja que minha mãe ainda faz, ou provo do seu levemente ácido sabor, sou transportado para esses dias felizes da infância, sem grandes preocupações, tristeza e decepções… Porém, logo em percebi que o Kirk não estava comigo, mas que continuava sentado na grama, me encarando com seu sorrisinho gordo.

— Acho que já vou para casa. — Eu franzi o cenho e me aproximei novamente. Ele não parecia preocupado. — Mamãe disse para eu chegar mais cedo hoje; ela falou algo sobre arrumar minhas roupas.

— Um castigo? — A resposta dele foi simplesmente dar os ombros. — Bem, viajar vocês não vão, disso tenho certeza.

— Porque o verão já está acabando?

— Porque eu não fui avisado. — E nossas famílias compartilhavam tudo. Além de que, embora eu não entendesse na época, os Bothwell eram do tipo de família que falavam sobre tudo o que acontecia com eles. — Quer levar uma fatia da torta?

O Kirk olhou na direção da torta, depois olhou para mim e, após pensar brevemente, negou. Eu estranhei, normalmente o Kirk não recusava comida. Mas a torta estava praticamente intacta, então ele deve ter pensado que ainda haveria no dia seguinte… Não é?

Ambos os jardins eram conectados por um pequeno portão no muro de pedras, feito quando tínhamos mais ou menos cinco anos. Lembro que esse portão nunca estava fechado; duvido até que tivesse chave ou cadeado. Quando, porém, o Kirk estava prestes a atravessá-lo, eu arregalei os olhos e, sorrindo, corri atrás dele.

— Minha mãe concordou, Kirk! — Ele franziu o cenho, confuso. Foi a primeira vez, tenho certeza, que fiquei hesitante. — Ainda está de pé, não está, nós irmos amanhã de bicicleta até Clifton Dawn?

— Surpreendente! — O Kirk afinou então a voz e começou a puxar minha bochecha. — O que você disse para sua mãe deixar o coelhinho dela sair de casa sozinho?

Eu odiava esse apelido, e, felizmente ou não, Kirk era a única pessoa além dos meus pais que sabia disso. Fiz uma careta e dei um soquinho no braço dele. O Kirk riu e atravessou o portão, mesmo que parando, em seguida.

— Eu não perderia por nada no mundo o nosso passeio. — Ele sorriu e acenou. — A gente se vê amanhã, Gavin!

Lembro de acenar de volta e vê-lo correr para casa. Tudo parecia tão normal até então. Mamãe chegou às 16h00, papai às 17h e jantamos todos juntos. Porém, naquela noite, quando eu bati na parede desejando boa noite ao Kirk, não recebi resposta alguma…

No final, ele não cumpriu a promessa que fez; não fomos para Clifton Dawn no dia seguinte, e nem nos vimos também. Na verdade, nunca mais Kirk e eu nos vimos. Ele foi embora… O Kirk abandonou a nossa amizade…