Naqueles Dias de 91.
2 Capítulo 01.
A vida é tão curiosa, não? As férias de verão de 1991 foram um marco na minha vida, um verdadeiro ponto de virada. Tanto que até hoje vejo os resultados daquele verão. Porém, apesar daquelas férias terem sido impressionantemente intensas, os eventos que desencadearam tudo foram, no mínimo, rotineiros. E, na verdade, tecnicamente, nem ocorreram durante as férias, mas sim nas vésperas.
Era uma tarde bem comum de segunda-feira; eu estava no meu quarto e sequer havia tirado o uniforme da escola. Eu estava descansando após um longo dia de estudos? Não, infelizmente, eu estava revisando alemão. As provas finais já haviam sido feitas há algum tempo, e, embora os boletins ainda não tivessem sido enviados, eu sabia que tinha sido um verdadeiro desastre, e, pior ainda, mamãe também sabia.
Claro que seriam o suficiente para eu passar de ano, mas não impune. Mamãe sempre foi muito rígida com relação às minhas notas, ela nunca aceitava nada além do bom. Mas eu era mediano, fazer o quê? Então, quando o meu professor de alemão, que, por acaso, era marido, da cunhada, da tia-avó, da melhor amiga da gerente da loja de cosméticos onde minha mãe trabalhava, comentou com ela o estado das minhas notas…
Pelo menos, serviria de alguma coisa nos GCSE's… Deus, ainda tremo quando lembro desses malditos testes. Um garoto de 15 anos não deveria ter tão cedo o peso do próprio destino nas costas. Quem ficou feliz, com certeza, foram os meus professores, principalmente aqueles que tremiam com a simples menção do nome Gavin Blandford.
De qualquer forma, porém, eu já havia até me acostumado com aquela odiável rotina, ou simplesmente, aprendido a suportá-la. Tanto que tudo parecia extremamente normal naquela tarde. Mamãe já havia chegado do trabalho, vovô devia estar preparando o chá e não havia nada fora do normal…
— Gavin, querido, o Willie está no telefone! — até que mamãe gritou do primeiro andar. O Willie? No telefone? — Ele diz que é urgente!
Eu franzi o cenho, mais confuso ainda. Willie e eu não éramos do tipo de amigos que se falavam no telefone, nem em situações urgentes. Então, logicamente, pensei que era algo muito urgente. A rainha mãe morreu? O IRA atacou a escola!? Ou foram as férias? Eles as cancelaram!? Lembro de atender o telefone na cozinha quase tremendo, apenas para o Willie…
— Quem são!? Como são!? Eles têm uma filha!? Ela é bonita!? — As palavras dele foram tão rápidas que quase perdi o juízo. Eles?
— Eles quem? Do que você está falando…?
— Cara, corre agora para a sua sala! — Olhei sem entender para mamãe, que deu os ombros. — Praticamente todo mundo já sabe, onde é que você estava!?
Parecia que eu estava perdendo a coisa mais emocionante do mundo. E, quando eu cheguei na sala, descobri o que era: tinha um caminhão de mudanças na casa da frente, estávamos prestes a ganhar novos vizinhos.
— Nunca imaginei que os Herbert venderiam tão rápido a antiga casa deles — falei, assim que peguei o telefone da sala. Imediatamente, porém, eu franzi o cenho. — Como assim “todo mundo” já sabe?
— Toda a galera está, tipo, olhando pelas janelas.
Quando o Willie falou isso, os meus olhos se abriram e, naquele instante, percebi que todos os meus vizinhos também espiavam a antiga casa dos Herbert. Da minha janela, eu conseguia até ver o Harry, um outro amigo meu, observando tudo do quarto por um binóculos, que, por sinal, me parecia familiar…
— Começa a falar, cara! Diz aí como eles são!
Eu gaguejei, acuado. Não havia muito o que falar; eu sequer estava vendo os novos vizinhos. Mas claro que a minha curiosidade também era enorme. Os Herbert não eram vizinhos ruins, na verdade, dificilmente dois idosos poderiam ser mais adoráveis, porém ainda eram dois idosos e qualquer adolescente ficaria ansioso com a perspectiva de novos vizinhos.
— Só vejo o caminhão de mudanças e um Saab 900. — Era tão brilhantemente preto e elegante, parecia até coisa de rico. Semicerrei os olhos na direção do carro. — Acho que tem duas pessoas dentro.
— Será que são duas frutinhas? — zombou o Willie, chorando imediatamente depois: — Queira Deus que não, por favor! Já bastam as daqui!
O Willie estava sempre reclamando das festas que os vizinhos da casa ao lado faziam. Ele afirmava que os dois eram um casal homossexual, mas isso nunca foi provado. De qualquer forma, eu revirei os olhos e então sorri.
— Alguém está saindo! É um homem; parece alto, loiro, usa bigode. E, no outro lado… Outro homem? — Ouvi o Willie arfar no outro lado do telefone. — Não, eu me enganei, é só uma mulher de cabelo curto mesmo.
Não me aguentei mais e comecei a rir, principalmente quando o Willie começou uma chuva de xingamentos contra a minha pessoa. Mas a irritação dele não durou muito e logo o Willie estava novamente me questionando sobre os novos vizinhos.
— É na frente da minha casa, não no lado! — retruquei, após ele reclamar da minha “fofoca”. — Devem ter algum dinheiro.
— Você vê algum sinal de filhos? — Novamente, eu gaguejei. O Willie estava certo, eu não sabia fofocar, até hoje não sei. — Espero que tenha a nossa idade, cara… Espero que seja garota!
O Willie estava naquela idade onde tudo se resumia a pouquíssimas coisas, sendo garotas a principal delas. Talvez fosse porque eu ainda tivesse chegado nessa fase, mas era irritante ouvi-lo falar sobre cada garota com quem cruzávamos na rua ou nos corredores da escola. Não que eu fosse inocente, claro, eu também tinha minha paixonites, mas… O Willie exagerava.
Quanto aos novos vizinhos, eu semicerrei os olhos atrás de algum sinal de filhos, mas… nada. Quando o caminhão de mudanças foi embora, sobrou apenas o carro, e nele só parecia haver caixas.
— Não sei, cara, além de alguns instrumentos, não vejo… — Praticamente provando que eu estava errado, a porta do carro foi então aberta e alguém saiu. — Vejo sim, é loiro, parece pequeno e…
A minha voz morreu no instante seguinte quando a pessoa olhou para trás, olhou na minha direção… Fiquei totalmente sem reação naquele momento. Vergonha? Com certeza, eu fui pego bisbilhotando os novos vizinhos, justamente, pelo novo vizinho. Mas também havia uma certa curiosidade. Era um garoto que me encarava, o cabelo parecia um pouco grande demais, porém era inegavelmente um garoto.
Mas, mesmo sendo um garoto, ele parecia tão… diferente. Lembro de inclinar a cabeça e franzir o cenho, me perguntando como alguém poderia ter uma aparência tão delicada. A pele dele parecia tão pálida e a forma como ele me encarava de volta… Foi então que eu realmente percebi que estava bisbilhotando e fui verdadeiramente tomado pela vergonha.
Eu travei, só consegui pensar em fechar as cortinas, sequer percebendo que eram brancas. Fiquei em silêncio, preso no meu próprio constrangimento e sentindo uma imensa queimação das bochechas. Só que o Willie ainda estava no telefone.
— Gavin? Gavin, você ainda está aí? — Fisicamente, sim, mas mentalmente talvez eu estivesse no fundo do Canal de Bristol. E o meu silêncio, naturalmente, irritou o Willie. — É garoto ou garota, Gavin!? Gavin!?
— D-desculpa, eu… — gaguejei, abrindo novamente parte da cortina. — Parecia um garoto, mas… Não vejo ninguém.
Confuso, o Willie começou a fazer perguntas. Mas como eu poderia responder, tão perplexo quanto? O carro ainda estava lá, e logo também vi o homem, ele foi pegar uma caixa, mas o garoto… nada… Eu havia imaginado? Lembro de começar a pensar que tudo não havia passado de uma ilusão, algo falso. Mas pareceu também tão real!
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