Não sei ao certo por quanto tempo ficamos em silêncio, apenas nos encarando, mas posso afirmar com quase toda a certeza que nenhum de nós dois queria se afastar; ambos estávamos curiosos demais para isso. E posso afirmar, agora com toda a certeza, que minhas bochechas estavam tão vermelhas quanto as rosas do vovô. Eu havia sido pego na minha curiosidade, e, pior ainda, o garoto Beauclerk lembrava… Ele lembrava de mim! Fiquei tão animado que meu sorriso se estendeu de bochecha a bochecha.

Porém, aparentemente, não muito confortável, o garoto Beauclerk abraçou a revista que segurava, desviou o olhar e começou a recuar…

— Qual o seu nome? — perguntei rapidamente, fazendo-o parar. — Você já sabe o meu, não sabe? Agora é a sua vez.

Avancei lentamente para a calçada, sorrindo com toda a animação que eu sentia naquele momento. Mas o garoto Beauclerk ficou em silêncio, olhando simplesmente para baixo; ele parecia até estar tentando não olhar para mim. Só que ele estava alguns degraus acima, então bastou eu abaixar um pouco a cabeça para encontrar os olhos dele.

— Mitchell… Sou Mitchell Beauclerk.

Meu sorriso cresceu mais ainda, se é que isso é possível. Agora ele tinha um nome, um verdadeiro nome. Não era mais “garoto misterioso” ou “garoto Beauclerk”, mas Mitchell. Porém, novamente, ele estava com tanto medo que começou a literalmente amassar a revista em quadrinhos. Eu o deixei incomodado? Não era meu objetivo!

— E o que você está lendo, Mitchell? — Mesmo hesitante, ele se desvencilhou da revista e me entregou. — Não! É uma Star Wars annual de 78! Onde você conseguiu!? Aqui estão sempre esgotadas!

Ou então eram caras demais. Olhei para o Mitchell com os olhos brilhando; ele tinha nas mãos um verdadeiro tesouro geek. Mas, acima de tudo, o que me deixou realmente feliz foi que ele levantou a cabeça. O Mitchell finalmente olhou para mim; nos olhos dele havia uma mistura de surpresa e receio.

— Na verdade, acho que tenho todas as edições da Marvel UK. — Meu olhos arregalaram, o que foi o suficiente para fazê-lo esboçar um sorrisinho, mesmo que mínimo. — Não é difícil encontrá-las em Londres.

— Vocês vieram de Londres!? — As bochechas do Mitchell ficaram tão vermelhas que ele abaixou novamente a cabeça. Eu ri, perplexo. — E o Harry criando teorias sobre vocês e o Stonehenge.

Então não, o “garoto misterioso” não era nenhum pouco misterioso ou sobrenatural, embora extremamente fascinante. Porque… O Mitchell veio de Londres! Londres! Claro que Bristol era, e ainda é, uma das maiores cidades da Inglaterra, mas não dá para competir com Londres. Para um garoto como eu, o Mitchell, sendo londrino, era automaticamente a visão de um adolescente cosmopolita, apesar que tímido.

E falando nele, o Mitchell franziu o cenho quando mencionei o Harry e o Stonehenge. Ele ficou confuso, não entendendo o motivo da minha diversão, o que, pensando bem, era melhor que entender. Mas em dado momento, não lembro exatamente quando, o Mitchell também começou a sorrir, mais visivelmente, no caso. Corando, ele sorria para mim e depois olhava para baixo; sorria e olhava para baixo; sorria…

Ficamos nessa espécie de brincadeira por um longo momento, até que percebi que ainda segurava a revista do Mitchell. Quando entreguei, inocentemente perguntei:

— Posso ficar com você? Prometo que não passo germes. — O Mitchell riu… E subitamente desviou o olhar, mordendo os lábios. Lembro de pensar que havia sido por conta da minha vacilada. — Ah, e desculpe pelo… Você sabe…

— Me bisbilhotar? — Não havia malícia alguma na voz dele. Eu assenti e o Mitchell deu os ombros. — É natural para mim estar em constante observação.

Melancólico, o comentário dele foi melancólico, quase triste… Naturalmente, eu franzi o cenho, desejando saber mais. Porém o Mitchell sentou novamente na calçada e eu fiz o mesmo; sentei ao lado dele; estávamos tão próximos que nossos braços quase se encostavam. Por que desse detalhe? Bem, o Mitchell ficou visivelmente surpreso; eu percebi que ele não somente corou, mas também tremeu.

— Você realmente gosta de Star Wars? — Ele não olhava para mim, mas encarava fixamente a revista. — É porque… bem… Todos dizem que é…

— Infantil demais? — Hesitantemente, o Mitchell assentiu. Eu já tinha ouvido tantas vezes o Willie e o Josh falarem isso. — Mas eu não me importo. Vejo Star Wars como um es-ca-pis-mo.

— Um sonho de liberdade — sussurrou o Mitchell, sorrindo timidamente para mim.

Todo garoto comum sonha em ser um Luke Skywalker e viver as mais diversas aventuras; ser um herói. Mas, francamente, confesso que sempre fui atraído pelas aventuras do Han Solo ou de algum caçador de recompensas. Só que, nesse momento, quando o Mitchell falou, percebi um brilho no olhar dele que ainda não tinha visto em nossos mais ou menos 10 minutos de amizade. E, por falar nisso, já éramos amigos, não éramos?

— Sabe, eu estava indo assistir Uma Nova Esperança. — O Mitchell franziu o cenho para mim. Eu hesitei um momento, apertei minha mão e sorri. — Quer ir junto comigo?

Talvez tenha sido rápido demais, um pouco precoce, não sei… Não, na verdade, hoje sei exatamente o que foi. Mas o convite, ao invés de alegrá-lo, como imaginei, só deixou o Mitchell ansioso.

— E-eu… Eu acho que, infelizmente…

— Gavin! — Ambos olhamos na direção da minha casa, e imediatamente levantei; era o vovô, parado no jardim. — Gavin, venha já aqui! O micro-ondas não está funcionando!

— Bem, acho que você não irá mais.

Olhei para o vovô, que gesticulava freneticamente para mim, depois para o Mitchell e então comecei a rir. Bem, pelos menos, eu não havia levado um fora. E o Mitchell pensou o mesmo, porque também começou a rir. Me despedi do Mitchell, dizendo que nos veríamos depois, e corri na direção da minha casa… Até que parei e olhei para trás; ele tinha um olhar curioso.

— Foi bom conhecer você, Mitchell!

— F-foi… bom conhecer você… Gavin.

A brisa deve ter trabalhado bastante para que chegasse até mim, porque ele falou tão baixo que pareceu até um sussurro. Mas confesso que senti meu coração esquentar quando ouvi meu nome saindo dos lábios dele. Nós seríamos bons amigos.

— Que doença aquele seu amigo tem? Parece até que acabou de sair do hospital. — Franzi o cenho para o vovô, realmente incomodado com o comentário dele. — Não me olhe assim, garoto! Eu sei do que estou falando.

Felizmente, ou infelizmente, dependendo da situação, o vovô não era nem surdo, nem cego e nem senil. E, querendo ou não, ele estava certo, tudo no Mitchell parecia frágil e fraco, começando na pele. Mas ainda assim eu fiquei irritado; reconfigurei o micro-ondas com uma carranca no rosto. No final, mesmo não desejando, acabei lembrando do Willie, o que não ajudou em nada.