Acabei passando praticamente o resto do meu dia em casa. Realmente, não foi nenhum pouco bom lembrar do Willie, e também do Josh e do Harry, na verdade; só acabou por escancarar o sentimento de solidão que eu estava sentindo, o que serviu apenas para aumentar a minha irritação.

Mas eu não tinha outros amigos além do Willie, Josh e Harry? Tinha sim, e muitos. Mas sejamos sinceros, que adolescente prefere o grupinho alternativo ao seu grupinho natural? É sinal de desespero; e eu também não queria correr o risco de ficar conhecido como o “Gavin falso” que só vai atrás dos outros amigos quando os “principais” o rejeitam. Então optei por ficar em casa.

Sem contar que eu ainda estava muito curioso com o Mitchell… Lembro de sorrir levemente toda vez que pensava no nome dele. Incrivelmente, nunca sequer passou pela minha cabeça a possibilidade do Mitchell… bem, ser o Mitchell; sempre foi ou o “garoto Beauclerk” ou o “garoto misterioso”, nada além disso. E o fato de eu ter essa nova informação só acabou por incitar mais ainda a minha curiosidade.

— O que há de tão interessante nessa janela, garoto? — E eu não era nada discreto na minha curiosidade. O vovô colocou o chá na mesa de centro e franziu o cenho. — Espero que não esteja aprontando algo, porque se estiver…

Foi mais um aviso do que uma ameaça. Mas, de qualquer forma, ignorei o vovô e voltei ao meu livro, que eu também constantemente ignorava em detrimento da janela. Não que Casei-me com um Morto fosse ruim, mas entre ler as lamúrias, que não são poucas, da falsa Sra. Patrice Hazzard, e esperar pelo Mitchell, eu preferia o Mitchell.

Mas o vovô não deixava de estar correto, quando sentei em frente a janela a rua estava deserta, afinal foi logo após o almoço, mas agora já passava das 16h e ela estava cheia de crianças correndo e brincando. Eu esperava ver o Mitchell também, mas fiquei somente na expectativa.

Por volta das 16h30, eu havia desistido do Irish e olhava apenas para a casa dos Beauclerk. Infelizmente, por causa disso, eu vi o exato momento que a mamãe chegou em casa. Fiz uma careta horrível ao ver o Metro vermelho dela. Na verdade, o simples barulho do motor daquele carro era o suficiente para me fazer sentir um frio na barriga.

— Desculpem pelo atraso, hoje a loja estava uma verdadeira confusão! — Entrando na sala, mamãe foi logo sentando e se servindo com chá. — Entraram uns adolescentes baderneiros que começaram a pegar todas as amostras grátis e…

Acho que ela percebeu anormalidade daquela parte, porque imediatamente se calou. Eu sabia que ela estava olhando para mim; dava para ver pelo reflexo da janela.

— Qual o problema? — Olhei para a mamãe e dei os ombros. Não havia problema algum.

— Esse garoto vai aprontar alguma, Katherine, aviso logo. — Eu franzi o cenho para o vovô, numa mistura de irritação e ofensa. — Conheço esse olhar inquietante; Owen tinha o mesmo quando puxou a mitra do bispo de Bristol na frente…

— Só você ainda lembra disso, Jasper.

Naturalmente, o vovô começou a resmungar; acho que ele nunca perdoou o papai pela Páscoa de 1955, mesmo que o papai só tivesse cinco anos. A mamãe, de qualquer forma, simplesmente negou numa risadinha e voltou-se a mim.

— Por que você não vai brincar lá fora, coelhinho?

— Não sou mais criança, mãe! — exclamei, corando fortemente.

Não sei o que era pior: o coelhinho ou brincar. Mas, novamente, a mamãe simplesmente riu. Deve ser algum tipo de acordo materno envergonhar propositalmente os filhos. Fiquei mais vermelho ainda, tanto que virei novamente para a janela. Poderia ter acabado aí, mas não acabou…

— Será que vai ser preciso eu mandar você ir se divertir, Gavin? — Havia uma leve impaciência no tom dela, mesmo que ainda calmo. Eu parecia tão entediado assim? — Quem sabe o garoto da frente não esteja lá também?

Olhei imediatamente para a mamãe, tão surpreso e confuso que comecei a gaguejar, buscando oferecer alguma resposta. Mas, pela terceira vez, ela riu e, negando, pediu novamente para eu ir me divertir. Que outra opção eu tinha senão obedecer?


*****


Não que eu estivesse intrigado com a diversão ou a alegria, mas era risível o número de crianças brincando na rua naquela era pré-internet, e não simplesmente brincando, mas o fazendo em… Exatamente, grupinhos. Eu sabia o que encontraria naquela rua, ou melhor, o que não encontraria, e eu não queria de forma alguma me sentir mais sozinho ainda. Mas confesso também que havia em mim uma leve esperança de encontrar o Mitchell.

Esperança essa provou-se infundada após quase meia hora de infindáveis giros de bicicleta pela rua, onde eu continuava sozinho. Confesso que alguns garotos mais novos me chamaram para jogar futebol, e ainda outros, após quase me acertarem com a bola, perguntaram se eu não queria jogar cricket. Mas eu ainda esperava pelo Mitchell; vez ou outra eu até me pegava olhando na direção da casa dele, onde, por sinal, havia estacionado um carro que não era o Saab preto dos Beauclerk…

— Abandonado, Blandford? — Eu quase tremi ao escutar aquela voz… Keppel... — Ouvi dizer que você foi deixado na mão pelos seus lacaios, é verdade?

Se havia alguém naquela região de Horfield capaz de fazer até o pior trombadinhas tremer de medo, esse alguém era Lansdowne Keppel. Não me entenda mal, por favor, o Keppel não era envolvido com nada questionável ou ilícito, mas o pai dele era policial, daqueles que parecem um muro, por sinal, e estava em Deal quando o quartel dos Royal Marines foi atacado pelo IRA em 89; a comunidade o recebeu como um herói, tanto que o vovô passou meses convidando os Keppel para sentar conosco na igreja.

Não é nem difícil de acreditar, então, que o Keppel, porque ele odiava Lansdowne, era um verdadeiro convencido, cuja personalidade era terrível. O Willie vivia dizendo que andar com o Keppel era a garantia do sucesso, porque, não surpreendentemente, ele ainda era capitão do time de rugby da escola. Mas eu não gostava nenhum pouco dele e dos seus dois principais asseclas: o Walter Collins e o igualmente convencido Andy Hamilton; pareciam até dois cães atrás do dono.

— Tínhamos planos diferentes — respondi, dando os ombros. Porém o Keppel me olhou de cima para baixo e, trocando um olhar com os amigos, riu. — Você está um pouco longe da sua rua, não acha? Anda perdido?

— Só fazendo um reconhecimento do território. — Ele virou então a bicicleta e sinalizou com a cabeça para mim. — Você pode andar com a gente, Blandford.

Não foi um convite, mas uma ordem, e sem espaço algum para recusa. Então forcei um sorrisinho e me juntei ao Keppel. Eu não percebi de imediato, mas bastou isso para a diversão, que havia cessado após a chegada do Keppel, recomeçar. Confesso, porém, que a minha atenção estava inteiramente no Keppel, afinal, eu estava curioso.

— Há algo que você deseje de mim, Keppel?

— Eu? Não há nada que você possa me oferecer, Blandford. — Como se não bastasse sequer olhar para mim, o tom dele era condescente. — Sabia que sempre admirei você, Blandford? É verdade! Essa sua pena é louvável. Só alguém corajoso mesmo poderia chamar aqueles caras com quem você anda de amigos.

— Os meus amigos? — sussurrei, confuso.

— Sim, o Silly-Willy, o buldogue cabeça de vento e o mulatinho. — O meu estômago embrulhou com as palavras do Walter Collins; mas ele não havia acabado ainda: — Ah, e tinha também aquele lá com o nome de igreja… Qual era mesmo… Kurt? Kir…?

— Não gosto que zombem dos meus amigos! — Minha voz acabou ecoando por toda a rua. O medo que senti foi tamanho que quase me joguei no chão quando o Keppel arqueou uma sobrancelha. — T-todos nós respeitamos muito você, Keppel, nosso Grande Capitão!

Se há uma coisa que todo convencido gosta é de bajulação, e com o Keppel não era diferente. Minhas pernas literalmente fraquejaram quando ele sorriu e começou a rir com o Collins e o Hamilton; eu não levaria uma surra… Não naquele momento… Mas sabe aquele ditado? Uma hora você está no topo e na seguinte está no chão? Bem, quando menos esperávamos, o Keppel foi atingido em cheio por uma bola de cricket e derrubado da bicicleta.

Juro por Deus que todos na rua ficaram em silêncio; a tensão instaurou-se de uma forma tão profunda que até a temperatura pareceu diminuir. Lembro que por um momento parei de respirar. Quando o Keppel foi levantado pelo Collins, e com a expressão mais furiosa que já vi, todos na rua começaram a sussurrar a mesma coisa.

— Quem foi o espertinho!? — O Andy Hamilton ergueu a bola e apertou com tanta força que ela começou a amassar. — Aparece, seu covarde! Ou então… Ah, vai ser pior; muito pior!

Ninguém se entregou; quem seria tão louco para fazer tal coisa? Os sussurros aumentaram e, num piscar de olhos, o Keppel e seu bando estavam marchando na direção dos garotos do cricket. No caso, foi o piscar dos meus olhos, porque eu só conseguia assistir o desenrolar de tudo; eu queria agir, afinal, aquela era a minha rua, mas ao mesmo tempo também queria fugir dali. O senso de justiça me dizia para avançar, mas a razão me lembrava que o Keppel tinha músculos e eu não.

Fui acordado então dos meus pensamentos pelos gritos do pequeno Archie Robinson sendo violentamente erguido do chão pelo Keppel. O menino só tinha 12 anos!

— Achou que seria divertido zombar de mim? — O Archie se debatia, choramingava e negava, mas o Keppel parecia até aumentar o aperto. — Achou que fugiria sem sofrer as consequências do seu crime!?

— P-por favor, Keppel… F-foi um… acidente…

— Acidente será o que vou fazer com você! — Tamanha foi a ameaça que até eu senti um frio subir pela minha espinha. O Archie, naturalmente, começou a chorar, fazendo o Keppel levantar a mão. — Olha para mim, seu…!

— Deixa ele, Keppel! — Todos os olhares voltaram para mim; eu sentia as minhas pernas tremer, mas ainda respirei fundo e repeti: — O Archie já disse que não fez por querer!

Eu francamente achava que iria morrer naquele momento, senão isso, então parar no hospital. Porque ninguém, repito, ninguém, nunca havia desafiado Lansdowne Keppel e saído impune. E, na verdade, era exatamente o mesmo que todas as outras crianças e adolescentes que assistiam pensavam. Mas, como eu repetia para mim mesmo naquele momento, se fosse para morrer, que fosse como um herói.

— Você não está na sua rua; o seu poder não chega aqui.

Que fique registrada a minha incapaz de mover um dedo sequer. Minha última lembrança daquele lapso de heroísmo foi ver o Collins e o Hamilton vindo na minha direção, ambos furiosos. Então fechei os olhos e simplesmente esperei pela surra… que não chegou. Quando finalmente abri os olhos, o Keppel estava na minha frente.

— Mas não era disso que eu estava falando? Você tem coragem, Blandford! — Ele sorriu… e deu um soco no meu estômago. — Só não ouse mais usá-la contra mim.

Ele voltou para a sua bicicleta, sendo seguido pelo Collins e pelo Hamilton, que também deram socos no meu estômago.

— É uma pena que você gaste todo o seu potencial sendo filantropo. — Olhei para o Keppel, numa mistura de dor e confusão. — Se você quisesse, e se andasse com as pessoas certas, você poderia ser mais, Gavin, muito mais.

Eu já nem sabia mais do que esse cara estava falando; eu só conseguia encará-los, incapaz de responder. Minha vontade, porém, era reagir, mas, no caso, as ofensas e agressões deles todos. Porém, novamente, eu tinha senso de perigo, então simplesmente arqueei uma sobrancelha.

— Nós vemos todo o seu esforço nos treinos de rugby. — Eu já disse que a condescendência do Keppel me irritava? — Alguém já disse que você daria um ótimo zagueiro?

— Mas essa não é a posição do Jim Churchill? — Nem me esforçava mais para sorrir ou parecer simpático.

— O Churchill é passado agora, Blandford. — Eu só descobriria mais tarde, mas o Jim Churchill tinha se mudado para Liverpool. — Queremos você como titular. Mas claro que, para isso, você precisará mudar os seus…

Estava muito claro o que viria depois disso, embora não estivesse nenhum pouco claro o motivo, porque, afinal de contas, eu nunca me vi como um sucesso do rugby. Porém aconteceu algo… curioso: a porta dos Beauclerk foi aberta e saiu alguém de casa.

Não era só toda a Princess Louise Secondary School que estava obcecada nos Beauclerk, e não era somente eu que estava curioso com o Mitchell, mas praticamente toda aquela região de Horfield. Então, quando vimos a Sra. Beauclerk sair, basicamente todos nós corremos para perto da casa, claro que não o suficiente para sermos percebidos.

Eu realmente esperava que o Mitchell a seguisse e também aparecesse. Porém, para a minha surpresa e ao mesmo tempo nem tento, ele não saiu da casa, mas sim um homem, que, assim como o carro na frente dos Beauclerk, eu nunca tinha visto. Ele carregava um jaleco e uma maleta de couro; não aparentava ter mais de 30 anos e parecia tão… natural.

— Quem será, hein? — sussurrei, quando o homem já estava no carro.

— Deve ser o médico da frutinha contaminada. — Franzi o cenho para o Hamilton. — O que foi, Blandford? Não gostou?

— O herói dos pobres e desafortunados vai defender as frutinhas também agora? — zombou o Collins, fazendo tanto o Hamilton quanto o Keppel rirem.

Devo dizer que naquela época não havia um limite claramente definido do certo ou errado na saúde alheia; e confesso que ainda hoje persiste a desinformação em certos assuntos. Mas, em 1991, já sabíamos que a AIDS e o HIV não afetam apenas os homossexuais e nem é contagiosa ao toque. Então o que esses garotos estavam falando era puramente por maldade. O preconceito era tabu, mas era exatamente isso.

— Por que vocês não caem fora daqui, seus estúpidos! — E isso me deixou realmente furioso. — Vocês não sabem de nada sobre o Mitchell, então calem a boca!

A Sra. Beauclerk já havia entrado; o tal homem já havia ido embora, não sobrava mais nem a fumaça do carro. Estávamos somente nós naquela rua, cujo silêncio que se instaurou foi profundamente frio. Poucas foram as vezes que senti tanta raiva quanto naquele momento. O Mitchell não merecia aquilo; eu não merecia aquilo. Mas, com todo o desdém, o Keppel e seu bando começaram a rir.

— Ah, então o nome da frutinha é Mitchell! — O Collins me empurrou para trás. — Como foi que você descobriu?

— Toma cuidado, Gavin, ou você vai acabar infectado — provocou o Hamilton, pegando ainda o Collins e o afastando de mim. — Nós não queremos frutinhas no nosso time…

— Já disse para calarem a boca! — A diversão deles morreu. Daquela vez, de fato, eu fui firme. — Se voltarem a ofender a mim ou ao Mitchell…

— Você vai fazer o quê, Blandford? — Me fazendo recuar, o Keppel se colocou na minha frente e cruzou os braços sobre o peito. — Vai nos infectar? Ou então passar a loucura das bichas? Porque é isso que aquela frutinha é: uma grande bicha louca!

A firme voz do Keppel ecoou por toda a rua. Eu poderia afirmar, mesmo sem certeza, naquele momento, que até o Mitchell escutou seja lá onde ele estivesse. Porém o efeito causado não foi me deixar com medo, mas sim furioso. Lembro de sentir minhas bochechas esquentando, apertar os meus punhos e… A última lembrança que tenho é de escutar o Keppel me provocando:

— Então, Gavin, você vai fazer o quê?

Eu dei um soco no queixo do Lansdowne Keppel… Depois disso, acabamos numa briga e todo o resto foram somente borrões…

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.