O motivo da primeira grande discussão que tive com o Kirk acabou soterrado pelas areias do tempo, embora muito certamente tenha sido por algo tolo. Mas lembro perfeitamente de chegar em casa furioso, gritando o quão idiota o Kirk era e que nunca mais queria vê-lo novamente. Acho que tínhamos mais ou menos seis anos, talvez sete. Mas o fato é que mamãe ficou tão preocupada e confusa que ligou para a mãe do Kirk.

Ela nunca confessou, claro, e até hoje, quando pergunto sobre o assunto, ela nega. Mas tenho total certeza que mamãe falou com a mãe do Kirk. Por quê? Porque o Kirk apareceu no meu quarto naquela tarde…

— Você não respondeu às minhas batidas. — Eu estava deitado na cama e, quando o vi, virei as costas para ele. — Posso ao menos entrar?

Eu não disse que sim, mas também não disse que não; fiquei simplesmente calado. Sinceramente, não sei o que se passava pela minha cabeça naquela hora, só que o simples fato de eu não começar a gritar já foi algo bom. De qualquer forma, lembro de sentir o Kirk se deitando ao meu lado na cama. Eram outros tempos; um outro momento da história e de nossas vidas… Ainda havia espaço para a sensibilidade.

— É verdade que você não deseja mais ser meu amigo, Gavin? — Finalmente, o Kirk quebrou o silêncio; ele estava tão hesitante. — Desculpa! O que aconteceu…

Novamente, não faço mais a mínima ideia do que causou tudo aquilo. Porém as palavras do Kirk… Ah, mas é impossível para mim esquecê-las. Eu senti o medo que ele sentiu; eu senti a dor dele! Tanto que não aguentei mais e…

— A culpa foi minha, Kirk. — Virei na direção dele e veemente neguei. — Eu que deveria pedir desculpas; você que não deveria mais desejar ser meu amigo. O único errado aqui sou eu!

— Realmente, você foi mesmo um babaca. — Franzi o cenho para o Kirk, que sorriu levemente… e ficou sério. — Mas eu também fui babaca, e primeiro… Eu acho.

Muito certamente ambos havíamos sido, e muito certamente eu fui mais. O Kirk era simplesmente bom demais para ninharias infantis; ele era o amigo maduro, não eu. Mas, claro, ele foi obrigado a amadurecer mais cedo que uma criança normal.

Ficamos brevemente em silêncio, encarando um ao outro. O Kirk sorria para mim, pronto para esquecer tudo aquilo; eu também queria esquecer, e eu iria. Porém não sem antes fechar os olhos e me desculpar:

— Não quero perder a sua amizade, Kirk. — O sorriso dele cresceu. — Não quero nunca mais brigar com você.

— É normal irmãos brigarem, Gavin, e nós somos irmãos, não somos? — Não tive outra opção senão sorrir e assentir. O Kirk estendeu uma mão. — Pacificados?

Peguei a mão dele num aperto e o puxei para um abraço. Como eu disse, eram tempos de sensibilidade. O Kirk começou a rir e bagunçar o meu cabelo. Não lembro ao certo o que fiz, imagino que também tenha brincado. Mas sei que hoje recordo daqueles dias com um aperto no coração, mas também um confortável calor.

— Nós sempre seremos amigos, Kirk… Eternamente.

— É uma promessa, irmão.



*****


Se existe algo que todo campista sabe fazer bem é algazarra. Lembro que começava no salão paroquial, onde os ônibus pegavam os campistas, e só acabava realmente no mesmo salão paroquial, só que agora no retorno. O reitor nunca gostou desse caos todo, mas ele também nunca tentou mudar o ponto de encontro.

A questão, de qualquer forma, é que a entrada do salão estava cheia de crianças correndo, mães chorando e adolescentes despreocupados levando suas bagagens para os ônibus. E eu era um desses adolescentes, só que não com uma mala minha e também nenhum pouco despreocupado. Verdade seja dita, eu ainda estava irritado com o Josh e o Harry, mas éramos amigos e não seria nada amigo da minha parte deixá-los ir sem me despedir.

Claro que eu não conseguia sorrir, nem fingir animação e muito menos cinismo. Mas, pelo menos, havia a desculpa de que era cedo demais e, naturalmente, eu estava com sono… Só que não colou…

— Não estamos pedindo que você entenda, Gavin, apenas que aceite. — O Josh pegou a bolsa que eu carregava e colocou no bagageiro. — Harry e eu precisamos ganhar aquela caça ao tesouro.

— É uma questão de honra! — exclamou o Harry, inchando levemente as bochechas. — Nunca conseguimos chegar no final, enquanto você já venceu por seis anos consecutivos!

— Os últimos três com o Willie e os primeiros com aquele seu amigo… — O Harry imediatamente pisou no pé do Josh, que gemeu de dor e, com razão, começou a discutir com ele.

Não vou mentir, senti um calafrio na espinha quando o Josh quase mencionou o Kirk, mesmo sabendo que ele ainda não era meu amigo naquela época. Minha amizade com o Josh só começou após a partida do Kirk; os dois nunca foram amigos, e, pensando bem, acho que nunca haviam sequer trocado uma palavra. O Josh sabia que o Kirk havia sido meu melhor amigo, todos sabiam, mas para ele o Kirk sempre foi “aquele amigo do Gavin”, muito diferentemente do Harry e do Willie…

Mas eu não queria chorar ou ficar mais infeliz do que já estava, então simplesmente olhei para os dois brigando e comecei a rir. Naturalmente, talvez até surpreendidos, Harry e Josh olharam para mim e franziram o cenho. Acho que eles realmente cogitaram naquele momento a possibilidade de eu ser ou louco, ou então bipolar.

— É natural que amigos acabem se desentendendo às vezes. — O meu tom foi saudosista, como se eu estivesse até repetindo algo há muito dito… Neguei comigo mesmo. — Tudo estará melhor quando vocês dois retornarem como campeões.

Novamente, eu não os havia perdoado ainda, mas isso também não significava que tínhamos deixado de ser amigos. Além do mais, que benefício eu traria a mim mesmo sendo um babaca?

Harry e Josh sorriram amplamente, então eu fiz o mesmo, porque não havia como não sorrir, e os abracei. Eles não precisariam ficar preocupados, ainda seríamos amigos… Ainda somos amigos… Depois de abraçá-los, só pude compartilhar algumas dicas sobre a caça ao tesouro antes do horário de partida chegar e todos os campistas entrarem nos ônibus.

— Não façam nada que eu não faria! — exclamei, acenando para os dois, que tinham a cabeça para fora da janela. — E tragam uma pedra para mim, ou muito bonita, ou muito feia ou então…!

— Muito curiosa, nós já sabemos! — gritaram ambos em uníssono, antes do ônibus partir.

E eu fiquei para trás, simplesmente observando o ônibus amarelo de dois andares indo embora. Lembro que estava uma manhã particularmente ensolarada, não sei se foi por isso ou outra coisa, mas minha alegria praticamente evaporou. Eu sabia que ainda me restava uma última esperança, mas sabia também que ela não estava nas mãos de um R2-D2 ou de um Luke Skywalker, na verdade, era o contrário…


*****


Depois do que houve com o Kirk, nunca mais consegui realmente considerar alguém meu “melhor amigo”. Eu tinha medo do que poderia acontecer; tinha medo de acabar novamente decepcionado e sozinho… Eu temia ser traído. Claro que hoje entendo que as coisas não funcionam assim; parte do meu sofrimento foi autoimposto, não de causa externa, mas eu era tão imatura para perceber isso. Eu era somente uma criança, e que criança sabe agir com maturidade? Bem, o Kirk…

A questão, porém, é que eu não tinha um melhor amigo, eu tinha amigos, claro, e muitos, mas não um melhor. Minha amizade com o Josh não tinha carga emocional o suficiente para isso, não tínhamos um vínculo de irmandade. O Harry era exasperante, só isso, exasperante. E, quanto a Willie… apesar de todos os milhares de defeitos, ele era o que mais próximo chegava da qualidade de meu melhor amigo… Ou, pelo menos, era isso que eu imaginava…

— E o que você deseja que eu faça, Gavin? — Aparentemente, era platônico, ou quase nulo da parte do Willie. — Não vou desistir da minha viagem de jeito nenhum!

Fechei os olhos quando ele bateu com o porta-malas e correu para dentro de casa, naturalmente, eu o segui. Por sorte, o Sr. e a Sra. Nugent estavam no segundo piso, ocupados demais arrumando as malas para nos escutar. Eu sabia que não tardaria muito para eles partirem, então fui direto ao ponto:

— Não sou tão egoísta assim para impedi-lo de viajar. — O Willie negou, sequer olhando para mim. — Mas está no meu direito exigir um mínimo de irmandade da sua parte!

— E o que você espera, Gavin!? Um convite para se juntar a nós? — exclamou ele com desdém, voltando-se a mim. Eu não neguei. — De jeito nenhum!

— Eu te levei para a Disney comigo, cara!

Poucas foram até então as vezes que eu soei tão ofendido, verdadeiramente ofendido, e, infelizmente, quase todas foram como o Willie. Ele franziu o cenho e virou novamente as costas para mim, acho que a consciência dele realmente pesou naquele momento. Não havia sido nada barato a viagem da minha família para a Disney e eu ainda fiz questão, não somente de levá-lo junto, mas também de negar qualquer pagamento. Claro que não foi com segundas intenções, mas, ainda assim!

Ficamos em silêncio, ou melhor, o Willie ficou em silêncio, porque eu só iria falar quando ele abrisse a boca. Porém ele me ignorou por um longo momento, até que virou-se novamente para mim, segurando dois óculos escuros.

— Qual você prefere: preto ou prateado? — Franzi o cenho com tamanho cinismo. O Willie deu os ombros e colocou o prateado. — Não acha que fico parecendo aquele ator lá…? O com o nome dos primeiros-ministros.

Não sei o que pensei na época, certamente que fiz cara de nojo, mas o Willie dificilmente poderia ser comparado a um Brad Pitt novinho, no máximo, era um Van Damme quarentão. Além do mais, o óculos prateado era totalmente ridículo, ainda não entendo como havia quem achasse legal.

Se o Willie, porém, achava que seria o suficiente para mudarmos de assunto, ou que eu iria aceitar a vontade dele, o desgraçado errou totalmente.

— Você me deve essa, Willie. — A única ação dele foi revirar os olhos, o que apenas aumentou minha irritação. — O único egoísta aqui está sendo você!

Eu praticamente cuspi meus sentimentos nele, o que, sinceramente, deixou o Willie furioso. Ele avançou na minha direção, pronto para discutir de verdade… Quando a mãe dele começou a descer a escadaria e ambos nos afastamos. Não sei como, porque tanto eu quanto ele estávamos visivelmente irritados, mas a Sra. Nugent…

— Tão quietinhos, o que andam aprontando, hein? — Talvez ela estivesse sem os óculos. Observamos em silêncio ela deixar uma mala nos pés da escadaria. — Willie, você já viu se está levando cuecas o suficiente?

— Já vou fazer isso. — E, antes mesmo que eu pudesse reagir, ele me empurrou na direção da saída. — Vejo você no final de agosto, Gavin!

Guardo até hoje a sensação de ter a porta fechada na minha cara. Eu fechei os olhos, apertei os punhos e grunhi, como o vovô dizia, tão furioso quanto um caça da Luftwaffe, o que nunca foi um elogio ou brincadeira.

— Nunca mais vou te convidar para nada, Willie, desgraçado!

Se ele escutou, eu nunca soube; se os pais dele ouviram, nunca falaram nada. Mas o que falariam? Felizmente para mim, mas dificilmente para a mãe do Willie, mamãe tinha uma posição de liderança no comitê delas na paróquia, claro que herdado da vovó Blandford, que herdou da tatara-tia-avó Lady Blandford, mas ainda uma posição superior.

Pedalei tão furioso para casa depois daquilo que só percebi que estava novamente na minha rua quando avistei o vovô cuidando das roseiras. Eu ainda resmungava comigo mesmo; e acho que amaldiçoei até os longínquos ancestrais do Willie listados no Debrett's.

Mas eu já sabia que seria assim, não sabia? Eu sempre tive consciência de que a minha última esperança não estava nas mãos de um herói. Ir até o Willie foi um erro, mesmo que, olhando em retrospecto, não somente dele, mas também meu, afinal eu fui o tolo; eu estava errado, como sempre. E, na verdade, até nisso eu estava errado. Logo eu descobriria que a minha felicidade não estava nas mãos nem de um herói e nem de um vilão.

Eu disse que estava muito distraído, não disse? Acontece que eu estava tão distraído que só ao chegar em casa e descer da bicicleta que olhei para o lado e… Lembro exatamente de arregalar os olhos; no outro lado da rua, em pé… Estava o garoto Beauclerk! E ele olhava na minha direção!

Já devia ser por volta das 10h, o sol já estava mais forte e, consequentemente, o calor também; eu não tinha tomado um café da manhã decente, nem dormido bem, mas eu sabia que não era nenhuma ilusão. O garoto Beauclerk estava lá, na minha frente, só havia uma rua nos separando! O meu coração começou a bater loucamente. Não tinha como acreditar nisso. Não tinha como acreditar que ele também olhava para mim!

Ficamos um bom tempo nos encarando… Não, na verdade não deve ter passado de um minuto, embora tenha parecido mais para mim. Nenhum de nós deu o primeiro passo, e, francamente, eu nem esperava isso dele. Porém, quando eu estava para ir falar com o Beauclerk… Franzi o cenho. Será que não seria estranho? Será que eu não estava sendo muito estranho? Será que ele ainda lembrava daquele dia!? Será que eu…? Todas essas perguntas começaram a pipocar na minha cabeça, tanto que, covardemente, deixei a bicicleta e corri para dentro de casa.

O que, porém, eu fiz quando na segurança do lar? Corri para a janela da sala. Como já havia dito, estava quente, mas não o suficiente para delírios; eu estava suado, mas isso era outra coisa. E, na janela, ao ver o garoto Beauclerk entrando em casa, eu tive a minha confirmação: ele existia e não era nenhuma ilusão.

Fiquei feliz, claro, e muito exultante, quase comecei a dançar de alegria pela sala… Mas logo a verdade daquele momento me atingiu. Eu franzi o cenho e praticamente cai no sofá. O garoto Beauclerk existia, de fato, mas…

— Eu perdi a chance de falar com ele —sussurrei, olhando devastado na direção da casa dos Beauclerk.

Sim, eu o havia perdido! E só Deus sabe quando eu voltaria a vê-lo novamente! Afinal, qual era a possibilidade dele sair de casa novamente no dia seguinte?

Aparentemente, altíssima, porque eu o encontrei novamente… Meus planos originais para aquela manhã de terça-feira eram pegar minha bicicleta e pedalar até a minha loja favorita de quadrinhos, a Asteroid. Haveria uma “seção” de Star Wars; acho que assistiríamos a gravação em VHS da primeira metade de Uma Nova Esperança. Mas, veja bem, até hoje eu acho que seria isso, porque eu não fui.

Era por volta das 09h30 ou 09h40, quando saí de casa e, prestes a pegar minha bicicleta, vi o garoto Beauclerk sentado na calçada. Ele aparentemente lia uma revista em quadrinhos e parecia extremamente focado nela. Francamente, comecei a tremer de ansiedade, quase decidi seguir com os meus planos… Mas eu não fiz isso; eu atravessei a rua e fui até a casa dos Beauclerk.

— O-oi, eu sou o Gavin! — exclamei, com um largo, porém ansioso, sorriso, assim que cheguei perto o suficiente. — Qual o seu nome?

Quando o garoto levantou o olhar, eu literalmente travei. Lembro até hoje daqueles olhos cor de mel, ou talvez avelã, cheios de inocência, timidez e medo, principalmente medo. O garoto imediatamente levantou e recuou, nunca, porém, tirando os olhos de mim. Não sei se era por conta do sol, ou simplesmente da minha admiração, e sei que já falei disso antes, mas o garoto Beauclerk parecia totalmente encantador; ele era quase etéreo, angelical. Embora também… triste…

— Era você — ele sussurrou, quase inaudível. — Você que estava me espionando quando chegamos.