Naqueles Dias de 91.
6 Capítulo 05.
O tanto que pedalei naquele dia ao voltar para casa é impossível de descrever. Bastou o sinal bater para eu correr da sala, montar na minha bicicleta e sair para casa. Não poderia haver atrasos ou perda de tempo; eu precisava conversar urgentemente com a mamãe. Claro que eu ainda estava furioso, porém o medo da solidão era muito maior que a fúria.
Quando finalmente cheguei em casa, simplesmente joguei a bicicleta num canto e corri para a porta.
— Já pensou em morar no Canadá, garoto? — Eu mal percebi o vovô cuidando das roseiras. Confuso, franzi o cenho. — Ou talvez na Nova Zelândia ou Austrália; são lugares bons para se viver. No seu lugar, eu cogitaria a migração.
Continuei confuso. A verdade, porém, é que eu estava tão focado na minha própria situação lastimável que sequer lembrei do que receberíamos naquele dia. Então simplesmente ignorei o vovô e entrei na casa. A mamãe estava na cozinha, porém, novamente, eu sequer percebi os inúmeros documentos a rodeando na mesa.
— Mãe! Sei que está um pouco em cima da hora, e peço desculpas por isso, mas posso ir para o acampamento Brookhill!? — Minha palavras saíram emboladas e eu estava ofegante. — Eu disse antes que não queria, mas Josh e Harry vão, e o Willie vai passar o verão em…
— Sabe o que é isto, Gavin? — Minha respiração definitivamente parou quando mamãe levantou com toda a plenitude o meu boletim. — Você imagina a surpresa que eu tive ao pegá-lo mais cedo e analisar as suas notas?
— E-eu fui muito ruim?
— Não o mesmo desastre da primavera, graças a Deus. — Plena demais; suspeitamente calma, e se há algo que mamãe nunca foi em casa é calma. — Gavin, como você acha que será alguém na vida com notas assim!? Quer acabar como o seu tio Charlie!?
Oh, o tio Charlie, a grande dor de cabeça da família de mamãe. Inconsequente, petulante e um eterno adolescente, só que com quatro filhos, e talvez um quinto, em Jersey. Mamãe sempre o usava como o pior exemplo do que uma pessoa poderia se tornar. Não preciso nem dizer que, quando ela o mencionou naquela hora, neguei com horror.
— Mas você viu que melhorei em matemática e alemão, não viu? — apontei, pegando o boletim. — E continuo bom em história, educação física e artes…
— Quem é ruim nessas matérias, Gavin? — Lembro até hoje de literalmente tremer com a frieza das palavras dela. — Não estou negando o seu esforço, na verdade, o parabenizo, mas não está sendo o suficiente para justificar as suas regalias.
Olhei novamente para as notas; não havia nada muito abaixo de satisfatório, somente matemática, mas levando em consideração que no último eu havia sido um verdadeiro desastre…
— Lembra do que você prometeu ano passado, antes de irmos para a Disney? — Novamente, ela estava calma demais; eu odiava quando a mamãe estava calma em momentos assim. — E em abril, quando o seu pai te deu aquele videogame?
Mas eu fiquei em silêncio; incapaz de responder. Quase tivemos que adiar nossa viagem para Orlando por causa das minhas notas. Ah, e se eu soubesse que o meu Sega Mega Drive custaria tão caro… Naturalmente, mamãe não gostou do silêncio.
— Responda a minha pergunta, Gavin!
— Prometi que melhoraria! — exclamei, fechando fortemente os olhos. — Desculpe, mamãe.
Esperei uma reclamação pelo meu tom, ou então algo envolvendo o meu pedido de desculpas, porém a única resposta que recebi foi o silêncio. E durou tanto que me obriguei a abrir os olhos, somente para encontrar a mamãe novamente focada nos documentos.
— Mostre seu arrependimento nos deixando orgulhosos.
Ou seja, eu não sofreria nenhuma das consequências habituais pelas minhas notas. Nada de castigo… Pelo menos, era o que eu esperava que significasse. Mas a questão principal, para mim, no caso, continuava em aberto. O Willie ainda iria para Weymouth, e o Josh e o Harry ainda iriam acampar. Mas e quanto a mim!?
— Quer dizer então que eu não vou para Brookhill?
— Mesmo se as notas tivessem sido excelentes, você ainda não iria. — Mamãe sequer olhou para mim; eram contas. — Vamos ter que cortar alguns gastos.
Não lembro de ficar muito preocupado com esses cortes, na verdade, não lembro de ficar nenhum pouco preocupado com a recessão pós-Margaret Thatcher… Não naquele momento. Minha cabeça estava somente nas primeiras palavras que ela havia dito. Eu sabia que havíamos pagado caro pelo meu Sega Mega Drive, e mais caro ainda pela Disney. Mas eu só conseguia pensar que…
— Vou passar o meu verão sozinho!? — Meu tom deve ter sido tão desesperado que mamãe voltou-se a mim.
— Se quiser, podemos enviá-lo para a fazenda do tio Lars. — Os meus olhos arregalaram. Ela sorriu, desdenhosa. — Foi o que pensei.
Depois disso, ela me expulsou da cozinha. A última coisa que lembro daquela conversa é de vê-la colocando algumas contas numa pasta; o papai as analisaria quando chegasse.
Então era isso… Enquanto meus amigos viajavam, eu permaneceria em Bristol, sozinho… Porque Yorkshire, a fazenda do tio Lars, não era uma opção, e eu não tinha outros amigos tão próximos assim… Só me restou aceitar. Mas eu não queria aceitar, não poderia! Ao mesmo tempo, porém, que outra opção havia?
Passei o resto daquela tarde no meu quarto, jogando na cama e virado na direção da parede. Lembro de desejar tanto que o Kirk estivesse comigo; ele saberia o que fazer. Eu odiava tanto lembrar dele, mas como não lembrar quando todos os meus amigos pareciam tão superficiais comparados a ele? Em um momento, momento muito breve, me peguei batendo na parede, exatamente como fazíamos…
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