O alívio que senti ao chegar quinta-feira na escola e quase não ouvir o nome Beauclerk ou a palavra “misterioso” foi imenso. Parece que, no final das contas, eu não fui o único a perceber o óbvio e ir buscar informações com a Lauren Kelly. E claro que eu também devia muito daquele meu alívio às férias; o número de colegas meus que estavam viajando para o litoral foi impressionante naquele verão… Vai entender, né?

De qualquer forma, aquela quinta-feira foi o melhor final de ano letivo que eu poderia ter tido. Quando se está no secundário, cada migalha de paz é valiosa, principalmente nas últimas semanas antes do verão, onde não há nem matérias novas, nem reclamações e nem grande emoções, somente a mais pura paz. E eu finalmente havia conseguido essa tão almejada paz. Já bastava para mim olhar constantemente para a casa dos Beauclerk; eu não precisava então lembrar deles na escola também.

Até o Willie estava mais agradável naquele dia, o que com certeza graças às férias, já que ele passou todo o dia reclamando do quão devagar o tempo passava. Harry, Josh e eu ríamos toda vez que ele abria a boca, e o próprio Willie ria também. Ah, o verão, o que ele não será capaz de fazer, não é…?

Milagres! Porque, provando que nada é perfeito, um único incidente após a penúltima aula foi o suficiente para acabar com tudo. Harry, Josh e eu estávamos indo para nossas salas, quando avistamos o Willie encostado na porta da sala de economia doméstica; ele não estava só, mas conversava com duas garotas… Tentei imediatamente voltar para trás, porém o babaca do Willie me viu e chamou.

— Vai assar uns biscoitos hoje, Willie? — zombei numa pouco sincera risadinha e me voltei as garotas. — Cynthia… Linda, como vão?

— Extremamente animadas! — gritou a Linda, com aquela vozinha irritante, agarrando o meu braço. — Estávamos conversando com o Willie sobre o acampamento Brookhill; você vai, não é, Gavin?

— Não seja como o Willie, que já nos dispensou. — Entre Linda e Cynthia, eu preferia a Cynthia; pena que ela era uma amiga boa demais. — Você vai precisar de companhia.

Companhia? Franzi o cenho e, numa risadinha, olhei confuso para o Willie. O que ele havia dito? Porque certamente o Willie havia dito algo para continuar por cima na situação. Ele deu os ombros, mas todos sabíamos que a palavra dele era questionável.

— Infelizmente, meninas, o acompanhamento não está nos meus planos de verão. — Linda ficou tão decepcionada que se afastou de mim. O olhar estava em Cynthia. — E por que eu ficaria sozinho…?

— Tenho certeza que vocês arranjarão alguém, meninas! — O Willie agarrou o meu ombro e apontou para trás das garotas. — Que tal eles?

Quando Linda e Cynthia se voltaram para trás, olhei perplexo para o Willie. Josh e Harry? Porém ele não deu tempo para eu descobrir a reação delas, pois me empurrou quase correndo pelo corredor. Quem nos visse naquele momento pensaria até que estávamos fugindo de Cynthia e Linda. Mas não era mesmo?

Só paramos, ou melhor, Willie parou, quando elas desapareceram do nosso campo de visão. Ele estava ofegante, até afrouxou a gravata, já naturalmente frouxa. Mas eu o encarava com o cenho franzido; sempre diziam que o meu olhar parecia um interrogatório.

— Acho que elas estão certas, sabia? — Os olhos do Willie arregalaram. — Se as coisas continuarem assim, vou acabar passando todo o verão no meu quarto, jogando aquele jogo novo… Sonic?

Vi alívio tomando de conta dele; era a confirmação que eu precisava. Fiquei encarando o Willie em total silêncio, parecia até que eu estava tentando explodir a cabeça dele somente com o poder da mente. Fracamente, se eu tivesse esse poder, teria sido mais útil ler a mente dela, não explodi-lá.

— Nem planejamos ainda o que faremos no verão, cara! — exclamei, já me cansando do silêncio. — Qual o problema?

Não era preciso ser um gênio para descobrir que havia algo de errado no Willie, pelo menos, no quesito férias de verão. O que passava na minha cabeça naquele momento era que talvez a mãe do Willie tivesse decidido enviá-lo para Saltford, a fim de passar alguns dias com os avós dele. Não teria me irritado… Eu já tinha perdido o meu melhor amigo, ora!

Mas não houve nada… O Willie ficou calado e simplesmente esperou até o sinal tocar, quando fomos obrigados a tomar direções opostas. O estrago, de qualquer forma, já estava feito.

Eu não disse que toda a minha paz escolar naquele dia foi destruída? Bem, por causa do Willie, eu mal me concentrei na aula de alemão. Normalmente, eu já nem me concentrava muito; só fazia aquela aula por insistência da minha mãe, que, apesar das objeções do vovô, sempre reclamando que não passou 6 anos lutando numa guerra apenas para ver o neto falando alemão, acreditava profundamente que o alemão me traria cultura.

Mas trouxe foi dor de cabeça naquela tarde, bem como censuras do Sr. Becker. Impressionante, não, como o mundo às vezes engana você, simplesmente para derrubar em seguida. Mais impressionante ainda, ou talvez não, tenha sido o fato de que a minha paz acabou naquele momento, e só iria piorar.


*****


O ano de 1991 foi particularmente marcante para a Era Contemporânea. Em questão de meses, até semanas, a Guerra do Golfo começou e chegou ao fim, a União Soviética foi dissolvida, a Iugoslávia deixou de existir e o Apartheid foi abolido na África do Sul. Pode-se facilmente afirmar que foi um dos anos mais importantes do século XX. Porém na minha escola não se falava em outra coisa que não fosse o “garoto Beauclerk”.

O Pacto de Varsóvia foi abolido? Legal. O IRA poderia atacar a qualquer momento? Eles não ousariam numa escola. A recessão poderia virar uma crise? Quando o Reino Unido não estava em crise? Os Trabalhistas poderiam retomar a liderança? Bem, talvez eles resolvessem a recessão… O fato é que o Beauclerk se tornou novamente o assunto mais falado naquela escola.

Lembro de sentir uma imensa vontade de surtar ao chegar lá na sexta-feira e encontrar todos falando do meu vizinho. Não havia dado nem tempo para aproveitar. Fiquei tão confuso com tudo. Mas… Por quê!?

— Sabe o Walter Collins, o principal assecla do capitão do time de rugby da escola? — Assenti para o Harry; os dois tinham rochas no lugar de músculos… e também dos cérebros. — Parece que o irmãozinho dele, o Timmy Collins, que, aparentemente, estava doente ontem, viu o Beauclerk sentado na calçada.

— Eram 10h da manhã — acrescentou o Willie, sorrindo arrogante. — Qual a desculpa agora, Gavin?

Só consegui ficar em silêncio, perplexo demais para responder. Alguém viu o garoto Beauclerk? Tão cedo assim!? Aquilo não fazia sentido na minha cabeça; as peças simplesmente não se encaixavam. Tanto que quase não troquei palavras com os meus amigos naquela manhã. Até o verão acabou esquecido no caos que estava a minha cabeça. Como eu poderia entender o Beauclerk?

— Talvez as férias dele já tenham começado, ou então ele está doente, como o Timmy Collins. — Havia tanta coisa passando pela minha cabeça que eu mal prestava atenção no almoço. — Nós sequer sabemos de onde os Beauclerk vieram!

— Amesbury, tenho certeza; talvez Salisbury. — Próximo ao Stonehenge? Franzi o cenho para Harry, que explicou: — Não vê um certo padrão? Ninguém sabe nada deles, assim como ninguém sabe ao certo como os monólitos…

— O que o Gavin disse é bastante lógico. — O Josh enfatizou bastante o lógico. — Meu primo Jake disse que em Bath eles já começaram as férias.

Mesmo sem muito ânimo, assenti para o Josh; querendo ou não, ele era o único que me dava algum apoio. O Harry estava sempre no mundo da lua, enquanto o Willie… Ele sorria como se tivesse prazer no meu engano e na possibilidade do garoto Beauclerk ser um anormal.

Da nossa mesa no refeitório, conseguíamos escutar todas as teorias sobre o Beauclerk. Não gosto nem de lembrar daquele horror, ainda sinto o mesmo enjoo que senti quando me torturo a lembrar. Mas isso tinha que acabar. Tanto para o bem da sociedade, quando para o meu próprio.

— Já sei o que faremos neste verão, pessoal. — A atenção de Josh, Harry e Willie voltou-se a mim. — O “Caso Beauclerk” precisa ser o quanto antes desvendado, caso contrário, nenhum de nós terá sossego. Sugiro então que investiguemos. Podemos espioná-los pela janela do Harry, enquanto usamos a minha casa para vigiar a rotina…

— Tenho a leve sensação de que estaremos cometendo um crime! — apontou o Josh.

— Veja então como uma brincadeira inocente. — O Josh ficou perplexo. Eu, porém, sorri e dei os ombros. — Não sei vocês, mas eu serei o Bond, James Bond.

O único que mostrou alguma animação, muita animação, na verdade, foi o Harry, que até abriu a boca, acho que para falar do Sherlock Holmes… Porém o Willie logo tratou de calá-lo, direcionando a ele um censurador olhar. O Harry ficou tão desanimado; há tempos não o via tão triste. E aquilo me irritou, e irritou muito! Olhei para o Willie, exigindo um pedido de desculpas.

Mas o Willie não tinha intenção alguma de perder desculpas. Ele hesitou um momento, claro, mas quando falou..

— Vou passar minhas férias em Weymouth, Gavin. — Os meus olhos arregalaram. — Há meses penso em contar, mas só agora achei apropriado.

Apropriado? No último dia do ano letivo!? O desgosto que senti naquela hora… A vontade de pular na garganta do Willie e sufocá-lo até ver o rosto dele roxo…! Eu poderia ter feito ou dito tantas coisas naquele momento…

— Mas é o nosso último verão antes dos GCSE'S. — Porém, eu sabia que qualquer violência seria pior. — Tínhamos planejado até pegar umas turistas italianas no Balloon Fiesta!

— Fale por você, porque eu ainda vou pegar minhas italianas gostosas, só que em Weymouth! — O tom dele era irônico; havia tanto desdém. — Minha família planeja essa viagem há meses, Gavin; vamos ficar no Royal Hotel!

Só senti a minha raiva crescer. O Willie sabia muito bem, até demais, sobre os preparativos e a viagem em si que a minha família havia feito no ano anterior para a Disney. Mas eu mantive a minha calma e olhei para o Josh e o Harry atrás de algum apoio; eles soavam como dois porcos no espeto… Estava frio!

— Não me diga que vocês também…!

— Eles vão para Brookhill. — Fiquei boquiaberto, talvez até por isso o Willie tenha zombado: — Tão coisa de criancinha, não acha?

Eu achava tudo aquilo uma outra coisa, e não era de criancinha, mas algo que somente alguém além de criancice poderia fazer. Confesso, e o faço com toda a sinceridade, que meu mais profundo desejo era gritar, dizer para Deus o mundo o quão decepcionado eu estava com todos os três. Viajar? Isso era o mínimo! O problema estava no fato de que eles esconderam isso; me iludiram!

— Queríamos poupar os seus sentimentos, Gavin. — O olhar que direcionei ao Josh foi fulminante. — Só serão três semanas de acampamento.

— Três semanas onde eu estarei sozinho! — Cada sílaba estava cheia de veneno e ressentimento. — Este será o nosso último verão de verdade!

— E, justamente por isso não podemos perder o acampamento. — A voz do Harry era uma mistura de puro medo com súplica. — Depois será ridículo demais!

Tão ridículo quanto dois garotos de 15 anos correndo pela floresta atrás de um tesouro falso!? Eu não conseguia mais encará-los, nenhum dos três. Como eles puderam fazer isso comigo!? Hoje, eu entendo que era inevitável que algo assim ocorresse; entendo até que não era o fim do mundo. Mas, mesmo assim, tanto naqueles dias como eu hoje… O Kirk nunca teria feito algo assim. Éramos melhores amigos, irmãos.

Mas o Kirk, no final, foi embora… Eu me sentia fadado a esse destino horrível de perder meus amigos. Não sei quanto, mas deve ter ficado muito tempo em silêncio, cabisbaixo.

— Vai chorar, Gavin? — Tentei ignorar a ironia do Willie.

— Não estamos fazendo por mal. — Levantei a minha cabeça e encarei o Josh. Não? Ele deu os ombros, hesitante. — Talvez ainda dê tempo de você participar do acampamento.

Lembro somente de passar a minha bandeja para o Harry e levantar. Eu não queria mais passar sequer um minuto naquele refeitório… Naquela escola! Josh, Harry e Willie fizeram mais que trair a minha confiança, eles ressuscitaram o Kirk, e eu lutei muito para matá-lo!